The Sun Is Going Down..
3 I remember you said.
Notas iniciais
Não... Eu não poderia suportar mais essa agonia! Eu teria que tomar uma atitude e correr para falar com meu anjo! Não posso mais esconder essa coleção de sentimentos que alimentei por ele nesses últimos tempos.
Gratidão, admiração, até inveja, do jeito que ele enfrenta a vida. A força que ele sempre tirara de dentro de si para lutar com todos os males que viessem tentar derrubá-lo. Eu nunca tivera essa insistência e persistência. Sempre fui perspicaz, mas nunca tanto quanto o Milo, de uma forma simples e graciosa, ele sempre tivera tudo que quisera. Um louco, inconseqüente, por quem nos últimos tempos eu me apaixonei.
Estranho e contraditório isso, não?
Um cubo de gelo dando vida a sentimentos que ele mesmo desconhece. Mas talvez seja aquele momento da vida que a ficha cai e percebemos o quanto perdemos tempo com coisas banais, que na época eram de extrema importância.
Prendi os cabelos e sai em disparada para a casa que eu tão bem conhecia, quantas vezes adormecera ali? Ah, eu perdi as contas há anos.
Desci em uma velocidade absurda toda aquela escadaria e quando cheguei à porta daquela minha segunda casa, não pensara duas vezes e entrara procurando por seu residente gritando seu nome. Mas diferente do que de costume, ele não estava esparramado no sofá adormecido ou comendo.
Corri até o seu quarto, o encontrando ali e estacando os meus passos juntos com a minha respiração.
Aquilo seria real? Não... Não poderia! Definitivamente não! Já estou entrando em desespero, isso não pode ser real.
Aproximei-me do meu doce anjo, e mirei o que não parecia ser ele. Os cabelos desajeitados e embaraçados, os lábios sem cor, sua bochecha sem o leve rubor de sempre, pálido. E os olhos... Marejados e sem a vida que tivera sempre.
–Milo!- Eu gritava enquanto lágrimas escorriam pela minha face. –Por Athena Milo! O que aconteceu com você?
Ele tentara balbuciar algo que eu entendi como “Camus, você veio... Por que está chorando?”
–Milo, há quanto tempo você não come? – Estava praticamente afogado em lágrimas de dor. Lágrimas que queimavam a minha pele. Que me machucavam, mas não do que presenciar aquela cena... Por quê?
Não esperei resposta, corri para a cozinha e peguei o que foi mais fácil; algo leve para ele pelo menos não ficar sem comer e um copo de água. Correra de volta para o quarto e apoiara a pequena refeição.
Ele estava fraco... Dias sem comer e provavelmente levantar. O levantei e o apoiei em meu colo, tentando alimentá-lo. Mas ele parecia não conseguir comer, ou melhor, não fazia questão.
–Oras Milo, cadê aquele meu anjo que sempre lutou pela vida, por tudo?- Eu praticamente gritei, com a voz alterada pela dor que estava me consumindo. – Vamos lá Milo!
Tinha tantas coisas que eu gostaria de lhe falar, mas não consigo.
Pedir para que se segure em mim e agüente isso firme, por mim, por nossa amizade... Quem sabe pela minha paixão. Eu nunca poderei mudar o que eu fizera, o tanto que sofrera por minha conta, mas, por favor... Deixe-me ver seu sorriso mais uma vez. Deixe-o brilhar mais uma vez como eu sempre o vira.
Não tenha medo, você agora está em meus braços, e eu irei aquecê-lo, irei te dar minhas forças, para que possa continuar ao meu lado.
– Promete... Pela nossa amizade. – Agora fora minha vez de balbuciar palavras. –Que você vai ficar bem, para poder ficar ao meu lado? Não posso perder a cor da minha vida, Milo... Por mim... Agüente!
Então tudo pareceu mudar, e um leve brilho em seus olhos surgiu e isso foi o suficiente para eu me amolecer ainda mais e derramar mais de minhas lágrimas.
Com certeza nem ele me vira chorar tanto algum dia.
Então ele apenas apontou para uma caixa que estava ao longe no chão, como se pedisse para eu pegá-la... E assim o fiz, recolhi a caixa e a abri. Para a minha surpresa eram cartas... Para mim.
Cartas escritas desde que éramos crianças... Comecei a ler... E cada vez me sentia mais culpado. Eu fora o motivo do sofrimento dele, e eu ainda o sou!
Como se não agüentasse mais, peguei a última que fora datada e comecei a ler.
“Ah Camyu...
Seria tudo tão mais fácil se brigássemos menos e pudéssemos passar mais de duas horas sem discordar de algo.
Mas parece que eu gosto disso... Gosto de toda essa oposição.
Gosto de sofrer também, porque desde pequenos eu mantenho alguns sentimentos pelo meu melhor amigo. Que feio isso, não? rs
Sempre tive vontade de te falar sobre isso. Mas lembro-me toda vez que você ama a outro... Isso me machuca.
Mas fazer o que, né?
Acho que eu deveria me contentar em ter sua amizade, pois mesmo sofrendo, ela me faz bem. Ela me segura e me dá todas as forças que eu tenho para viver e seguir em frente...”
Então... Ele sempre me amou... E sempre o fiz sofrer com a minha frieza.
Eu nunca me perdoaria. Não mesmo.
Ele sempre esteve ao meu lado, sempre me protegeu, e eu apenas o fiz sofrer...
Eu não poderia deixar essa situação nesse estado, então começara a falar calmamente. – Por que nunca me falou de seus sentimentos, Milo? Sabe o quanto eles são preciosos pra mim? Você sabe que eu sou um cretino! Por que não me contou antes?
Mas é a verdade.
Se ele tivesse me falado disso antes, poderíamos quem sabe estar juntos... E agora ele me olhava confuso, como se não entendesse o que eu queria dizer, o porque do meu nervosismo.
–Ah Milo! Sou tão idiota ao ponto de não conseguir expor meus sentimentos?- Disse e lhe abracei com força, como se aquele momento fosse se eternizar, e ele pareceu ainda mais surpreso com essa minha atitude. — Como eu pude fazer você sofrer tanto? Eu te amo Milo. Amo-te demais! Promete-me que tudo irá ficar bem!
Nada mais fazia sentido para mim.
Naquele momento, a terra parava seu ciclo e nos prendia sem ar. Tudo perdera a cor, a vida. Quando vi em meus braços o homem que eu tanto amava, naquele estado e agora chorando. Chorando pela minha confissão, que tardou, mas veio. Chorando por todos esses anos que sem querer o aprisionei junto a mim à minha solidão.
Como eu nunca percebera? Como nunca notei que os olhos dele cintilavam ao me ver, que eles sorriam? Que aqueles sorrisos que sempre me foram direcionados, eram tão sinceros, e escondiam tanto amor?
Sou idiota a esse ponto?
Quantas vezes ele me dissera que ia fazer de tudo por quem ele amasse... E realmente. Ele fez. Ele me protegeu, esquentou-me, me deu um amor que sempre estivera mascarado em uma amizade singela e pura. E sempre manteve a mão estendida pra quando eu precisasse levantar mais uma vez.
Esse momento liberou-me todos os meus sentimentos, que a tanto eu lutava contra eles. Começara a praguejar palavras contra minha própria pessoa, contra minhas atitudes.
Inadmissível.
Toda a minha alegria esteve resumida com os momentos que passara ao lado desse homem! O que fazer num momento desse? Em que me sinto incapaz de fazer qualquer coisa?
Ele precisava comer, precisava de mim! E eu estava sem reação diante disso!
Então tudo voltou ao seu estado caótico... Livrei-me um pouco desta tensão quando ele olhou fundo em meus olhos e me pedira ajuda. Que sentia fome...
Tratei de alimentá-lo, com muito cuidado, eu o via voltando à cor de sua pele... Mas ainda estás doente, quem sabe esteja apenas constipado. Que Athena escute meus pedidos. Pouco a pouco ele voltava ao normal, me lançando sorrisos e olhares quentes e cheios de amor, que agora posso perceber... O quanto ele esperou para EU ser o herói dele... E não o contrário, como costumava ser.
Minha vida estava voltando... Aos poucos mais estava.
Eu fora cruel e egoísta esse tempo todo... Como eu pudera?
O avisei que ele precisaria dormir essa noite, e que eu ficaria ali com ele, velando seu sono. Sentei-me à beira da cama e dei-lhe a mão, desejando-lhe uma boa noite.
– Apenas feche seus olhos, eu estarei com você.
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