The Snow Queen
4 Adrian
Notas iniciais
The Snow Queen
~LightB
Capitulo 4 – Adrian
–Vossa Alteza – Adrian se curvou teatralmente assim que abri a porta do quarto, depois voltou a postura ereta e me lançou um belo sorriso, como sempre fazia – pronta para um passeio?
–Não acho que seja uma boa ideia – olhei para o chão encarando as botas negras que ele usava, parte do uniforme da guarda real – estou com mais dificuldades em controlar hoje.
Adrian estava pronto para dizer alguma coisa, mas o impedi abrindo totalmente a porta e mostrando a neve espalhada pelo quarto e o gelo que tomava conta das paredes e da janela. Ele olhou atentamente para a bagunça que eu havia criado ali, depois, para minha surpresa simplesmente sorriu e entrou no quarto me puxando junto e fechando a porta atrás de si.
–Adrian o que pensa que está fazendo? – perguntei olhando para ele que andava pelo quarto olhando ao redor, com um sorriso estampado no rosto.
–Se não quer sair, então nos divertiremos aqui mesmo.
No princípio não entendi o que ele queria dizer com aquilo, mas então ele pegou uma quantidade de neve em suas mãos, cobertas pelas luvas negras, e a moldou por alguns segundos ante de lançar a bola em minha direção, acertando meu braço.
Fiquei parada, o encarando por alguns segundos, surpresa de mais para qualquer reação, depois de alguns segundos simplesmente sorri para ele, que ria divertido, ria não, gargalhava, criei uma bola de neve em minha mão e logo estávamos iniciando uma pequena guerra, da qual obviamente eu venci, afinal, meus poderes me dão uma bela vantagem.
Estávamos deitados no chão, neve espalhada pelo quarto todo e em nós também, virei minha cabeça para o lado e pude ter uma perfeita visão dele, a pele levemente bronzeada graças ao sol dos últimos dias, o cabelo castanho, mais para preto do que realmente castanho, cortado um pouco mais curto que o normal, os olhos negros e aquele sorriso que me tirava o fôlego.
Adrian se sentou de repente, me olhando com aqueles belos olhos negros, não tão comuns no reino, ele estendeu a mão e eu a peguei, sem nem mesmo pensar, logo estava sentada tão próxima a ele que quase podia sentir seu coração bater, levemente acelerado, assim como o meu próprio.
–Eu amo você – disse sem desgrudar os olhos negros dos meus, nem mesmo por um único instante.
–Também amo você.
E então ele sorriu e me beijou, podia sentir meu coração acelerar ainda mais e eu tinha certeza, o que tínhamos não era um sentimento frágil e passageiro, eu realmente o amava e sentia com o meu coração que ele também verdadeiramente me amava.
E nada jamais mudaria isso.
Voltei a realidade ao ouvir meu nome ser chamado.
–Elsa – Jack praticamente gritava – Elsa abre a porta.
Desencostei-me das portas que recebiam batidas insistentes e cada vez mais fortes, encarei o gelo que nos separava e senti uma enorme vontade de chorar, vontade essa que eu reprimi totalmente, não podia voltar a repetir o passado, eu havia feito a promessa por um motivo, e não iria quebra-la.
Respirei fundo duas vezes antes de andar até a porta, abrindo-a de uma única vez e quase derrubando o garoto dos cabelos brancos, que agora me fitava com aqueles olhos azuis gelo que eu não conseguia encarar por mais do que alguns poucos segundos sem sentir o maldito ar escapar de meus pulmões.
–Elsa o que aconteceu? – Jack deu um passo em minha direção e eu dei as costas para ele, me mantendo afastada dele, tentando ignorar a confusão que minha mente estava se tornando, tentando não reviver as memorias do passado – Els o que foi? Esta brava pelo que eu disse? Eu poderia pedir desculpa, mas eu não me arrependo.
–Me deixa sozinha Jack – eu estava de costas para ele, mas podia sentir seus olhos em mim. Se ao menos ele enxergasse o quanto era complicado para mim, sem que eu tivesse de explicar.
–Não, eu não vou te deixar sozinha. Me diz por que você está assim.
–Elsa você sabe que jamais a deixaria sozinha se não fosse importante – Adrian gritava do outro lado da porta do meu quarto, batendo incansavelmente, como se esse ato fosse me fazer mudar de ideia e abri-la – por favor você tem que entender.
–Eu não quero que você vá – gritei nervosa, por algum motivo eu não gostava da ideia dessa viagem, sentia algo ruim, sentia que devia impedi-la, mas provavelmente era tudo graças a ida do Adrian nela.
–Elsa, por favor abre a porta – Adrian falou mais baixo, tanto que eu tive de me aproximar para conseguir ouvi-lo – por favor eu quero te ver uma última vez antes da viagem.
Meu coração foi feito em pedaços com aquela suplica, uma última vez era quase como se nós nunca mais fossemos nos ver, o que não era verdade, ele estaria de volta em menos de duas semanas, talvez fosse por isso que eu estava fazendo toda essa cena, por que não queria ficar sem vê-lo durante esse tempo.
Minha mão tocou a maçaneta quase automaticamente, meus olhos brilhando pelas lagrimas que não se derramavam, abri a porta e encontrei seus olhos negros me fitando demoradamente, um sorriso surgiu em seus lábios e logo seus braços me prenderam em um abraço apertado e confortável, não pude me impedir de retribuir e de respirar fundo seu perfume amadeirado.
–Não tem como te impedir de ir? – supliquei em uma última e desesperada tentativa de fazê-lo mudar de opinião, mesmo sabendo que eu não conseguiria.
–Eu te prometi que faria de tudo para te ajudar, mesmo que tivesse de pagar com a minha vida, Elsa eu amo você e se encontrarmos algo nessa viagem que possa te ajudar a controlar seus poderes, eu serei a pessoa mais feliz do mundo. Desculpe estar te deixando sozinha, mas são apenas duas semanas, talvez até menos do que isso, logo estarei de volta.
–Promete? – ergui minha cabeça para encarar seus olhos, eu precisava que ele prometesse, precisava saber que ele voltaria para mim.
–Prometo – ele beijou o topo da minha cabeça e sorriu antes de selar rapidamente nossos lábios – em duas semanas estarei de volta e você mal terá sentido minha falta, agora preciso ir antes que embarquem sem mim.
Adrian apertou minhas mãos uma última vez e me deu um sorriso animado antes de me afastar de seu corpo e seguir andando firmemente até a porta, uma postura ereta e confiante que todos os guardas aprendem quando estão treinando, uma coisa que eles nunca perdem, mesmo com o tempo.
–Eu amo você – falei antes que ele passasse pela porta, Adrian se virou para mim e sorriu, um sorriso deslumbrante.
–Eu amo você.
E então ele tinha ido, da mesma maneira que meus pais eu o vi desaparecer pelo longo corredor, corri para a janela e observei enquanto os tripulantes terminavam de carregar o navio, logos meus pais subiram a bordo e logo atrás estava ele, se mantendo próximo aos meus pais, eles acenaram e eu sabia que era para mim, tive um último vislumbre de um sorriso em seu rosto antes do barco começar a se afastar do porto e desaparecer em alto mar.
A última vez que o vi sorrir, a última vez que vi três das pessoas que mais amei em minha vida.
Balancei a cabeça negativamente abraçando a mim mesma, meus olhos estavam embaçados pelas lagrimas que eu não deixava cair, eu não queria chorar, não mais, estava cansada de chorar, de ser fraca.
Senti sua mão em meu ombro, me obrigando a virar para ele e quando finalmente tive coragem de olha-lo não pude mais impedir as lagrimas que insistiam em escorrer pelo meu rosto, manchando minha pele branca como a neve.
Jack parecia sem saber o que fazer, como agir ou mesmo o que dizer, então ele simplesmente fez a única coisa que eu poderia pedir naquele momento, ele me abraçou fortemente, sem me questionar, me passando um conforto caloroso que nunca senti em minha vida.
E assim como antes, apenas o fato de estar em seus braços, sentindo segura como a muito tempo não sentia, confortável, foi o suficiente para acalmar a tempestade em minha mente, para me fazer, aos poucos, parar de chorar.
–Por que está chorando? – Jack perguntou depois de algum tempo – eu sei que não é exatamente por que eu pedi um beijo de prêmio.
Refleti por algum tempo em sua pergunta, e não via o porquê de não responder sinceramente a ele, quer dizer, ele é sempre tão sincero, tão confiante em sempre falar a verdade sobre tudo sem problema nenhum, eu invejava isso e talvez fosse hora de começar a ser assim.
–Eu prometi a algum tempo atrás que jamais iria voltar a sentir algo por alguém. Não posso quebrar essa promessa – falei ainda sem sair de seus braços, minha voz levemente abafada já que eu mantinha meu rosto escondido em seu peito, sentindo aquele cheiro único de vento e neve que ele possuía.
–Els, por que você prometeu algo assim? – Jack me afastou levemente, segurando meus ombros com tanta delicadeza, como se eu pudesse quebrar a qualquer instante, seus olhos fitavam os meus azul com azul.
–Por que... por que eu não posso sentir de novo, se eu me permitir beijar você, mesmo que seja apenas o prêmio de um jogo, quem garante que eu não vá sentir algo?
Me afastei de vez dele, andei até minha cama onde me sentei e fiquei a encarar meus tênis enquanto ouvia seus passos quase inaudíveis se aproximando. Jack se sentou ao meu lado e ficou olhando para frente, como se esperasse algum tipo de explicação, da qual não estava disposta a dar.
Depois de longos e longos minutos, onde o silencio reinava de uma maneira constrangedora e incomoda, Jack, pela primeira vez desde que o conheço, não que isso seja a muito tempo, não olhou para mim enquanto me perguntava o que queria saber.
–Então você já se apaixonou uma vez? – a pergunta pareceu difícil de ser feita, ele parecia incomodado de certa maneira e quase sem realmente querer saber da resposta, mas ainda sim perguntou, o que me confundiu.
–Sim. Uma vez, a alguns anos atrás – respondi encarando os cadarços negros do meu tênis, por que ele tinha de me fazer lembrar de tudo?
Vi quando ele fechou os olhos fortemente antes de se jogar de costas na minha cama e ficar assim, parado imóvel. Jack Frost parecia irritado, mas não sei exatamente dizer se era isso, a única coisa da qual tinha certeza é que ele estava incomodado com o assunto, mas ainda continuava com as perguntas.
–E o que aconteceu? – seus olhos ainda permaneciam fechados e ele pareceu se esforçar para falar com o tom normalmente desinteressado que sempre usa.
Me peguei a encarar seu rosto, a pele tão branca como a minha, os olhos tão azuis escondidos pelas pálpebras, os longos cílios, tão brancos quando os cabelos bagunçados que se esparramavam em volta de sua cabeça, a maneira como seu peito se movia conforme respirava, o fato de que seu cajado ainda estava na sala, jogado em algum lugar, nunca o havia visto longe daquele cajado por mais do que minutos.
Pisquei algumas vezes, percebendo que eu tinha uma pergunta a responder.
–Ele morreu, por minha culpa – meus olhos voltaram a se encher de lagrimas e eu desviei o olhar, por que ele havia se sentado bruscamente com minha resposta, fixando seus olhos em mim, com certa surpresa e uma pontada de curiosidade.
–Como assim por sua culpa? – havia um certo tom de preocupação em sua voz, como se estivesse com medo de que fosse um assunto delicado demais para se tocar.
Na verdade, realmente era.
Passei tanto tempo escondendo essa dor dentro de mim que, apenas pensar em dizer em voz alta, ainda mais a alguém, parecia loucura, afinal, apenas meus pais sabiam sobre Adrian e eu, ninguém mais, nem mesmo Anna, mas estava na hora de alguém mais saber sobre isso, saber que naquela noite eu não perdi apenas duas pessoas que amava, mas sim três.
–Eu lhe contei sobre meus pais, como morreram, certo? – Jack apenas concordou com a cabeça, sem interromper minhas palavras e agradeci por isso, se fosse interrompida provavelmente não teria coragem de continuar a história – eles não eram os únicos que eu amava naquele barco, Adrian era parte da guarda real, ele estava escoltando meus pais.
–Mas, o barco afundou graças a uma tempestade, por que disse ser sua culpa?
Deixei de encarar meu all star vermelho e ergui a cabeça, sentindo finas lagrimas escorrem pelo meu rosto, geladas como o gelo a minha volta, encarei o espelho no qual podia ver nós dois, ambos nos encarando através de nossos reflexos, depois de alguns segundos desviei o olhar e finalmente criei coragem de realmente olhar para ele.
–A viajem foi por minha causa, meus pais buscavam uma maneira de me ajudar a controlar e foi por isso que viajaram – sorri tristemente lembrando de quando os vi pela última vez, acenando de dentro do barco, sabendo que eu os assistia através das janelas do meu quarto – Adrian não precisava ir, devia ter ficado cuidando de mim e de Anna, mas ele insistiu em ir, dizendo que se houvesse algo que pudesse fazer para me ajudar, ele alegremente daria sua vida, e no fim ele realmente deu a vida tentando me ajudar.
O silencio foi mortal, nenhuma palavra dita por nenhum dos dois lados, o que por um lado era tranquilizador, já que não tinha mais de falar sobre algo ainda tão doloroso, mas por outro incomodo, por que eu precisava que ele dissesse algo.
Jack me encarava em um misto de solidariedade e surpresa, aposto que esse não era o fim que ele havia imaginado para mais uma das inúmeras histórias trágicas que meu passado esconde.
Respirei fundo, limpando as lagrimas que já começavam a secar em meu rosto, eu me sentia quase melhor por ter contado a ele a verdade, por ter dividido isso com alguém, era quase como tirar um peso do meu coração, quase como me libertar de um fardo antigo, deixar os fantasmas do passado ir, eu me sentia leve.
–Elsa eu não sei o que dizer além de, eu sinto muito.
E pela primeira vez Jack Frost estava sem palavras.
Lhe dirigi um sorriso triste, mas também agradecido, e eu realmente lhe devia um obrigado, quer dizer, ele esteve ali por mim quando acordei, quando soube que minha irmã pensava que eu estava morta já a mais de sete anos e agora, quando lhe contei sobre meu primeiro amor e seu fim trágico, graças a mim.
E em todas as vezes ele esteve ao meu lado, me apoiou e, de certa maneira, me fez sentir alguém quase normal.
Estava prestes a me levantar e ir andar um pouco para esfriar a cabeça, pensar no assunto, quando ele segurou minha mão, senti um leve choque quando seus dedos tocaram os meus, a diferença de temperatura entre nós era quase mínima e sua pele realmente parecia quente contra a minha, me trazia uma sensação boa.
Virei meu rosto para ele, encarando aqueles olhos de gelo e sentindo ele entrelaçar nossos dedos, minha surpresa durou apenas o suficiente para que ele conseguisse me fazer esquecer por um momento de toda a dor que senti durante esses anos todos, apenas com um olhar, transmitir uma confiança pura.
–Por que prometeu nunca se apaixonar de novo? Para não sofrer? – sua pergunta surgiu do nada, quase como um estalo, e me surpreendeu tanto que fiquei sem ação por alguns minutos.
–Não exatamente. Eu prometi jamais voltar a me apaixonar para que eu nunca mais colocasse a vida de ninguém em risco – soltei minha mão da sua e me levantei, andando em direção a varanda, as portas abriram antes mesmo que as tocasse, afinal, eram feitas de gelo e eu o controlava.
–Como assim colocar a vida de alguém em risco? – Jack me seguiu, podia ouvir seus passos se aproximando e também o sentir próximo a mim.
Tentei ignorar sua presença e focar minha atenção no vento gelado que batia contra meu rosto, rodeava meu corpo e bagunçava meus cabelos. Mas Jack parecia disposto a ter uma resposta, parou a minha frente, me encarando firmemente, como se dissesse que não desistiria até obter uma resposta.
–Jack, será que ainda não percebeu? Todas as pessoas que eu amo sofrem. Eu quase matei minha própria irmã, meus pais e o amor de minha vida morreram buscando uma maneira de me ajudar. Eu apenas faço mal as pessoas.
Minhas palavras saíram em gritos frustrados, eu me sentia estranha, estava irritada e ao mesmo tempo confusa e triste, minha mente se encontrava uma bagunça completa e agora para ajudar havia começado a nevar, por que eu havia mais uma vez perdido o controle, afinal, não seria eu se não perdesse o controle.
–Elsa você está se escutando? Olha as bobagens que está dizendo, apenas traz mal as pessoas a sua volta? Isso é mentira – seu tom era exatamente como meu, mas havia uma certa revolta em seus olhos, como se ele não pudesse acreditar que eu realmente havia dito aquilo.
–Como pode ter tanta certeza disso? Você nem ao menos me conhece direito.
Gritei com ele e percebi a surpresa estampada em seus olhos. Jack deu um passo para trás, sem quebrar o contato visual comigo, parecia perdido nos próprios pensamentos, confuso com alguma coisa e depois ele simplesmente soltou um leve sorriso, acabou com o espaço que havia entre nós, se aproximando mais do que devia, seu olhar demonstrava certeza, uma confiança que me fez perder o foco.
–Eu sei disso por que, por mais que tenha passado pouco tempo com você, por mais que praticamente não conheça você, tudo o que trouxe para a minha vida foi bom, Elsa você me trouxe algo que eu tenho buscado a séculos, me trouxe paz, me fez sentir mais emoções nesses dias do que em todos os meus mais de 300 anos. Você me fez sentir vivo de novo, como isso pode ser trazer mal?
Meus olhos estavam arregalados, o ar havia fugido de meus pulmões e meu coração batia mais rápido do que nunca, a sensação que me atingia era inexplicável, o que eu senti ouvindo aquelas palavras, jamais havia sentido nada igual, jamais havia experimentado algo parecido, por algum motivo aquilo me afetou mais do que devia, sentia esse calor distinto no peito e não conseguia deixar de olhar em seus olhos, assim como ele não deixava de olhar nos meus.
E naquele momento eu soube, não havia por que insistir em não quebrar a promessa, eu já a havia quebrado sem nem ao menos perceber.
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