The Seven Laws of Demons
1 Prólogo
Inglaterra. Abril de 1878
O demônio explodiu em um banho de sangue e entranhas.
Ethan Cormac puxou depressa a lamina da adaga, mas já era tarde. O sangue era ácido, negro da cor de piche e viscoso. Ele praguejou e jogou a arma de lado; ela aterrissou em uma poça imunda de sangue e começou a se extinguir como um fósforo mergulhado na água.
A criatura em sí, é claro, já havia desaparecido — despachado de volta para qualquer mundo infernal do qual viera, mas não sem deixar uma bagunça para trás; Um corpo humano de quem quer que havia possuído com o corte da adaga marcado sobre a garganta, uma enorme e espeça poça de sangue negro que se afogava sobre o chão denso da floresta e agora derretia as raízes nodosas das árvores e agora um tolo caçador sem adaga que esboçava um sorriso para um de seus filhos, que acompanhará a luta atrás de si.
—Will!- Chamou Ethan, se virando para o garoto-Viu isso? Morto em apenas um golpe! Nada mal, hein?
Mas não ouve resposta, William havia pulado do esconderijo de onde seu pai havia mandado ele e o irmão se esconderem e correu cegamente em direção ao pai.
—Incrível!- O garoto exclamou- O senhor vai nos ensinar a fazer isso, não é?!
—Claro que sim- Ele respondeu, se abaixando para bagunças os cabelos do filho- Quando estiverem maiores, vão poder fazer muito mais.
William não podia estar mais feliz naquela noite. Havia sido a primeira vez que tinha se considerado com idade o suficiente para que ele e o irmão acompanhassem o pai em uma das "Caças" Que ele ocasionalmente fazia, todas sempre acabavam nas florestas do povoado, onde os demônios eram cercados e mortos logo em seguida.
Uma outra sombra havia se aproximado, quieta demais na penumbra da noite. William tinha certeza, mas agora franziu a testa com irritação na direção do irmão gêmeo —Parecia muito menos divertido admirar o pai sem que Victor estivesse lá para ver.
—Podemos ir agora?- Perguntou Victor, como se o simples fato de estar no escuro o assustasse.
Ethan encarou os filhos com indiferença. Ambos tinham apenas 9, idade o suficiente para saberem que não havia nada que habitava a escuridão sombria forte o bastante que o pai não pudesse enfrenta-lo, ou em todo caso ensina-los.
Desde os 7 haviam começado o treinamento com espadas, ainda que fossem apenas de madeira. William se esforçava ao máximo e não parava de atacar até que a espada do oponente estivesse em pedaços e suas mãos cobertas de farpas; Victor era tão bom quanto o irmão, mas depois das lições serem dadas mais de duas vezes ele fazia uma expressão como se estivesse entediado e pedia para se retirar. Sempre que fazia isso, ele ia para a biblioteca no segundo andar, ou pegava um brinquedo qualquer e ficava nos fundos da casa, sentado a porta da sala da prataria. Sua intenção era sempre querer ficar sozinho ou em algum lugar em que seu pai, o irmão ou mesmo os empregados o questionassem sobre oque estava lendo ou fazendo.
—Claro, vamos para casa.
A caminhada de volta até onde os cavalos estavam amarrados foi silenciosa o bastante para escutar o vento balançando as árvores, os animais noturnos que ficavam as espreitas para caçar.
Seguindo o caminho de volta para casa, William e Victor estavam bem adiantados em relação ao pai. Victor como sempre, estava silencioso. Will, nervoso sobre o pônei, tentando aparentar ter mais do que os seus 9 anos. Logo a cima deles, o pai se erguia como um gigante montado em seu cavalo de guerra.
Moravam próximo ao povoado de Thysland, mais ao sul da longinquá cidade chamada "Capital".
Lugar este, que era bastante estreito, repleta de armazéns e construções assimétricas de madeira. No momento estava deserta; mesmo os bêbados cambaleando para casa vindos das tabernas no alto da
rua haviam achado algum lugar para cair no sono.
O único barulho que ecoava agora, eram os cascos dos cavalos a trote sobre as extensas ruas de paralelepípedos.
Agora era William que se sentia profundamente entediado, em uma hora havia visto o pai matar uma coisa inumana com os próprios olhos, agora esperava o lento retorno para casa, para seus quartos na grande casa senhorial dos Cormac no topo da colina para ruminar noite a dentro a unica parte interessante do seu dia.
Uma ideia lhe veio a cabeça, Will deixou a montaria a par com a de Victor e passou pelo irmão dando os ombros e piscando.
—Fazemos uma corrida até o fim da rua?- Ele sugeriu.
Pela primeira vez, o irmão pareceu de fato animado.
—Fazemos.
O pai não fez objeção alguma. Observou os filhos impulsionarem os cavalos para frente e galoparem pelas ruas a fora; mesmo ali, William estava aos gritos e assobios, Victor silencioso e concentrado. Os cascos dos pôneis, ainda faziam um alto estrondo sobre as ruas e com o tempo, o som das gargalhadas de William se atenuou e as ruas ficaram silenciosas novamente.
—Estamos perdidos- Declarou Victor. Não sabia até onde ele e o irmão haviam chegado. Era para estarem no descampado da campina, perto dos montes mais a frente, mas tudo que encontraram foi uma rua sem saída alguma.
Depois de um tempo cansados e doloridos, ambos desceram dos cavalos e os guiaram pelas rédeas a passos curtos sobre as calçadas; ali corriam muito mais risco do que em meio a floresta.
Derrepente, algo cintilante refletiu sobre a luz do luar na mão de William, um brilho de uma lamina pequena porém reluzente e muitíssimo afiada.
—Por precaução- Disse ele-Você trouxe a sua?
Victor negou com a cabeça.
William não disse nada, revirou os olhos e tentou conter a vontade que tinha de gritar. Odiava o irmão pela sua fraqueza, pela falta de interesse que tinha de se agarrar a vida tanto quanto ele. Monstros agora existiam, e eles teriam que lutar contra ele um dia, mesmo sendo tão esperto Victor parecia não saber ou não ligar a minia para o assunto.
Não sabiam quanto tempo havia se passado, mas nenhum sinal do pai ou de qualquer outra pessoa na rua. Cruzavam agora um conjunto de casas, que eram pequenos retângulos estreitos, empilhados um em cima dos outros; tinham agora as janelas trancadas e as ruas escuras como breu.
Foi bem ali, na sombra da noite que um vulto passou por ele, andando a passos lentos e encolhidos. Quanto mais ele se aproximava dos garotos, mais alto William erguia a adaga esperando pelo pior.
—Vejo dois pequenos lordes perdidos- Comentou uma voz feminina com um risinho.
A sombra que estava diante dos garotos puxou o longo capuz de seu manto para trás. Era uma mulher jovem, de cabelos castanhos ondulados e olhos amarelos e cintilantes como os de um gato.
—Lady Lís- Comentou Victor com um suspiro aliviado- Ainda bem, pensávamos que era um ladrão ou...Algum monstro.
Victor sussurrou a ultima parte quase mudo, porém o sorriso de Lady Lís era gentil.
—Oque fazem aqui a uma hora dessas?- Ela perguntou- Estão perdidos.
Antes que William tomasse a diante e dissesse que não, Victor foi mais rápido:
—Sim, nós perdemos no caminho de volta pra casa.
—O pai de vocês não deve estar muito longe para procura-los então- Disse ela- Podem vir comigo e ficar em minha casa enquanto isso, podem trazer os cavalos.
Os dois responderam um "Obrigado" Em uníssono, e seguiram a mulher pela sombra da noite. Não era uma estranha de fato, já haviam a visto varias vezes visitando sua casa, mas ela ia apenas na direção do escritório de Ethan e ia embora. Lísse Dorian, não era uma mulher comum, era um bruxa. Profetisa, criadora de portais, feitiços e oque mais fosse de se imaginar aos arredores do sul.
Tinha amizade com todas as famílias de caçadores, diziam, mesmo as mais ricas até Londres e as terras da índias ocidentais. Os Cormac não era a família mais famosa, tão pouco a mais rica da região, mas Ethan procurava manter aliados por perto, especialmente os que tinham habilidades especiais, como essas em questão. Ele mesmo havia relatado quantas vezes as profecias de Lísse o salvaram de varias situações mortais ao longo dos anos.
A casa dela, porém, era simples ao se ver pelo lado de fora, não parecia muito diferente das dezenas ruas a fora. Havia um espaço do lado de fora onde os gêmeos prenderam os pôneis exaustos a uma estrutura de madeira.
Ao entraram, as velas do lugar se acenderam de imediato e por todos os lados, até chegar a deixar o ambiente tão quente e iluminado quanto um lustre. E em um estalar de dedos de Madame Lís, a lareira dos fundos se acendeu e as chamas queimaram altas e com barulhos de estalos altos. Os garotos ficaram boquiabertos.
Não havia parede que não houvesse uma estante, não havia canto de estante que não estivesse atulhado de livros. Os moveis tinha a aparência velha e mofada, porém Lísse fez um gesto para que eles se sentassem em uma mesa de madeira que continha apenas duas cadeiras, de frente para a outra.
Os gêmeos se sentaram e ficaram a merce da vela acesa no centro da mesa, em seguida Lísse havia retornado com uma bandeja de prata com três xícaras e um bule de chá fumegante, a qual ela serviu cada um.
—Esses meios podem dar certo trabalho das vezes- Ela comentou, enquanto se servia de uma xícara de chá- Mas temos que dançar conforme a musica, ou queimaremos em uma fogueira. Oque faziam vocês três a essa hora da noite?
—O pai nos levou para uma caçada- Respondeu William, sem rodeios. Madame Lís fez uma expressão irritada.
—Aquele idiota- Murmurou- Que ideia de se levar duas crianças tão pequenas.
—Não somos pequenos!- William protestou- Já somos grandes e seremos caçadores tão bons quanto ele.
Madame Lís abriu um largo sorriso.
—Querem apostar?- Ela questionou, e em seguida falou baixinho como se fosse contar um segredo- Já que estão tão grandes assim, oque acham verem o próprio futuro?
—Eu não sei...-Victor resmungou com receio- O pai diz que profecias não são precisas e que podemos ver coisa que não queremos que aconteçam.
—Grande parte delas sim- Disse Madame Lís- Estou lhes dando apenas uma opção, não irei cobrar mas tenho curiosidade de saber se chegarão a ser caçadores ou não...Cabe a vocês decidirem.
Ela apanhou a bandeja e se foi de volta para a cozinha cantarolando alegremente.
—Acha que podemos?- Questionou Victor, já também cedido a curiosidade.
—Eu acho que devemos- Respondeu William, com os olhos brilhando de excitação- Podemos nunca mais ter uma chance igual Victor, pense bem.
A proposta era realmente muito tentadora. Sempre ouvia dizer que o pai havia recebido profecias, embora não gostasse de falar sobre elas por dizer que isso interferia no destino. Se teve uma das coisas que Victor realmente aprendeu foi que as profecias nem sempre carregam a verdade e que da mesma forma, eles poderiam muda-la.
—Então?- Questionou Madame Lís, que apareceu subitamente ao lado da mesa, oque fez os gêmeos se assustarem com a presença.
—Aceitamos- Disse William.
—Bom, agora vamos para a parte...Difícil- Disse ela, de forma cuidadosa- Profecias são magias de sangue, mas é apenas um pequeno preço a ser cobrado.
Por um momento, era só possível ouvir o fogo da lareira crepitar. William tirou lentamente a adaga do bolso do casaco, virou o rosto sobre o ombro e cortou a ponta do dedo médio da mão esquerda.
Quando o sangue começou a escorrer sobre a pele, Lísse lhe pegou a palma da mão, passou o dedo sobre o sangue do ferimento e o provou.
Novamente o silencio se instaurou sobre a casa, nenhum dos dois sabia oque veria a seguir, até que Madame Lís disse com uma voz fria:
—Agora faça uma pergunta.
—Seremos caçadores?- William perguntou, apertava a mão machucada contra o peito e encarava a adaga manchada de sangue sobre a mesa.
—Sim...- Ela concluiu, ainda de forma fria como se estivesse muito concentrada- Sobre um caminho de lagrimas e fogo. O outro lado ira queimar logo depois.
Victor nada desejou com tanta força quanto um papel e caneta. Profecias eram quebra-cabeças, interpretações a serem feitas, por isso tentou cravar aquelas palavras na mente e ficou atento.
—...Vejo sete almas- Concluiu Madame Lís- Todas vestidas de negro. Vejo sete cavalos, cada um com seu cavaleiro. Três anjos aguardam aos portões do paraíso, sete heróis atenderam ao chamado, caso o contrario em as portas da morte se abrirão e o mundo terá acabado.
Todo fogo no lugar aumentou, a vela diante da mesa já estava se derretendo por completo. Logo ficou quente, tão quente quanto o inferno, isso William poderia jurar.
E em uma fração de segundos, em diferentes quartos da casa senhorial dos Cormac, os dois irmãos gêmeos acordaram ao mesmo tempo no meio da noite anos depois, em um sobressalto de medo.
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