The Seven Laws of Demons
2 Agora Somos Sombras
Inglaterra. Abril de 1887
O dia não havia chegado a casa senhorial dos Cormac, no topo da colina. Tal como os irmãos acordaram em um sobressalto; Os empregados externos e criadas mal pareciam ter sequer ido dormir já que o movimento no térreo da casa era algo constante.
9 anos haviam se passado desde que William e Victor receberam a profecia e poucas noites se passavam sem que eles acordassem de pesadelos terríveis por isso. Grande parte dela realmente se cumpriu, agora além de serem responsáveis pelos bens e posses da família, ambos os gêmeos haviam se tornado caçadores; exatamente como Lísse havia previsto, sobre fogo e lagrimas. 4 anos antes, a propriedade havia sido incendiada, não se sabia o certo a causa mas fato era que o fogo se espalhou de forma rápida, Ethan Cormac havia morrido ao tentar destrancar o alojamento dos criados a fim de salva-los, dizem que a estrutura em chamas cedeu e o esmagou.
Durante esse tempo, os irmãos Cormac passaram por um longo período de luto; primeiro a mãe Cecília que havia morrido ao lhes dar a luz, agora tinham a lapide do pai ao lado dela no cemitério da cidade. Fora tempos difíceis, raramente Victor e William trocavam palavras sem brigar, logo apos a brigas se recolhiam a sobra de seus quartos por horas ou até mesmo dias.
Agora os tempos sombrios passaram, mas a dor da perda ainda era algo recente naquela casa. Antes mesmo da morte do pai, haviam acolhido a família Van Dorst sobre seu teto. Ladrões invadiram sua propriedade, mataram o Lorde Eric Van Dorst diante a mulher e os dois filhos, que agora moravam ali. Will se lembrava com clareza da chegada deles, a viuvá senhora Van Dorst era apenas um esqueleto mudo e sem vida acompanhada pelos dois filho. Elliot, era o mais velho e tinha quase a mesma idade dos gêmeos, um rapaz de cabelos negros e esguio com a aparência doentia. Emily Van Dorst, a filha mais nova não tinha menos do que alguns anos, tinha longos cabelos pretos e uma pele pálida como porcelana.
Certa vez, enquanto o Lorde Van Dorst ainda estava vivo, Ethan Cormac certo dia havia comentado enquanto andava de um lado para o outro em uma de suas reuniões " Homens sensatos não fazem as pazes com amigos, mas com os inimigos. Eric não é uma pessoa má, ele chega a ser muito ingenuo para ser mau" Os Van Dorst, eram de certa forma da mesma linhagem dos Cormac, certamente por esse motivo Ethan aceitou acolher a mulher viuvá e seus dois filhos.
Com o passar do tempo, Edith Van Dorst havia deixado a apatia de lado, principalmente para cuidar da casa, que de acordo com ela exigia a vigilância de uma governanta e agora também para o noivado da filha Emily, que se casaria com Victor daqui a alguns meses, a Senhora Van Dorst não poderia se encontrar mais feliz. Elliot, o filho mais velho havia se tornado escudeiro de Will, tendo participação na maioria das caças, era um jovem talentoso mesmo sem muita experiencia.
Ainda antes do dia nascer, William estava descendo as escadas com a intenção de cavalgar ao longo da campina até que o dia nascesse por completo; era a unica maneira que havia encontrado para se distrair dos pesadelos e do incessante barulho que ocupava a casa.
—Mestre Cormac- Chamou-lhe uma das criadas a guisa de bom dia- Vai sair a essa hora?
—Sim, Elíse- William respondeu, se recordava do nome da maioria dos empregados, seus rostos lhe eram tão familiares quanto os de seus pais- Estarei de volta antes de todos acordarem, se a Senhora Van Dorst mandar me chamar...
—Direi que o senhor está dormindo- Disse Elíse prontamente com um sorriso- Não tem problema, seu irmão já acordou e está desde o meio da noite na biblioteca, também pediu para não ser incomodado.
—Bom, estarei de volta antes do café, sim? Até lá, sejam pacientes, todos estamos aguardando o casamento do seculo.
—Perfeitamente- Disse ela, fazendo uma ligeira referencia- Tenho que me retirar, precisam de mim na cozinha.
—Claro, a vontade.
Elíse se retirou na mesma hora. William sabia que por debaixo de todo luxo e conforto de suas vidas havia pelo menos 10 pessoas encarregadas de cada uma das tarefas diárias entre os mínimos detalhes. Ainda com pressa de perder o tempo livre antes que o sol nasce-se, apanhou o casaco e a cartola no hall de entrada, mas ao passar pela porta do escritório, ouviu o piano ser tocado em alto e bom som; de fato ele não era a unica pessoa que havia acordado cedo.
O escritório de Ethan, que agora William e Victor dividiam, passava a maior parte do tempo a portas trancadas; exceto para as reuniões, mas era o único comodo da casa com um piano. Diziam que a Senhora Cormac adorava tocar tanto quanto o marido passava horas a fio a ouvindo, talvez por isso ele estivesse ali. Não havia um dia que William não passasse sem saber como sua vida seria se sua mãe estivesse ali, junto a eles, não morta sobre uma cama de sangue 19 anos atrás.
Ao abrir uma fresta da porta com uma das mãos, William viu a sombra de Elliot sentado ao piano, era estranho como ele normalmente costumava tocar de olhos fechados como se estivessem profundamente tristes mas se lembrava com clareza de quando a Senhora Van Dorst passou a ensinar ao filho. O garoto em sí já era habilidoso, tanto com armas como na parte dos estudos, sem duvida seguiria os planos do pai e se tornaria um excelente caçador quando chegasse a idade adulta.
William encostou a porta novamente e retornou a deixar Elliot sozinho; os riscos de que ele bagunça-se o lugar eram tão improváveis, que nem se deu ao trabalho de pensar em se preocupar.
Ao deixar a entrada da casa, se permitiu respirar fundo o ar frio e fino da noite antes de dar a volta até os fundos, onde ficavam os estábulos. Os cavalos só seriam realmente cuidados daqui a algumas horas pela manhã, porém Will colocou a sela sobre seu corcel de menor porte sem se preocupar. Deixou a propriedade e a casa para trás já a galopes.
Quando impulsionou as rédeas e sentiu o vento, outra hora parado, lhe soprar sobre o rosto era como se sentisse a vida voltando aos poucos e os medos do pesadelo mais recente indo embora aos poucos. Estava rápido o bastante para sentir a grama alta da campina lhe tocar os pés como água, mas não tanto a ponto de fazer a cartola cair da cabeça. Era uma das poucas habilidades que tinha.
Ao passar pela estrada cortando caminho pela campina, uma carroça de feno era guiada a galopes lentos de um burro em direção a Thysland. Will não perdeu tempo, colocou o cavalo no mesmo ritmo lento da carroça, embora tivesse demorado para se acostumar.
A garota que guiava a carroça ergueu os olhos castanhos, porém cansados e cumprimentou Will em um tom sarcástico.
—Veja só quem apareceu- Comentou ela- Imagino que daqui a alguns metros saia correndo e me deixe para trás querendo lhe quebrar pelo menos alguns dentes; pois bem, tente isso outro dia, estou com pressa.
—A senhorita não me parece ter pressa antes do próximo anoitecer- Respondeu William com um sorriso maldoso- Peço desculpas se a ofendi.
—O senhor me interessa, Senhor Cormac. E seu próprio interesse por mim também não passou despercebido.
Os dois caminharam por mais alguns metros que pareceram se dividir em anos. Embora nenhuma palavra fosse dita, havia significado no silêncio de ambos.
—Ora, acho que não estamos falando sobre o mesmo interesse, Senhorita Scott.
—Pode me chamar de Caroline, Senhor Cormac.
—Eu ainda prefiro que me chame de senhor.
—Mesmo?
—Ah, que seja, pode me chamar de Will.
Caroline sorriu; essa não era de uma família nobre, Caroline morava em uma fazenda seguindo direto muito além da colina sobre os trilhos do trem que chegavam até o povoado. Ocasionalmente durante épocas sejam de colheitas ou não, ela como filha mais velha acordava ainda no meio da noite para levar a carroça em direção a cidade, vender feno, carne e pele das ovelhas e qualquer outra coisa que crescesse mediante a suas terras.
Não demorou muito para que o seu caminho se cruzasse com o da família no topo da colina. Anos antes, quando Ethan ainda era vivo, ele e os filhos saíram em uma caçada em busca de um licantropo que havia se infiltrado dentro daquelas terras e a cada noite sacrificando boa parte do rebanho dos Scott. Mediante ao favor que os caçadores lhe haviam feito, Ethan ganhou a gratidão da família simples que sempre fornecia suprimentos para a grande casa senhorial.
Foi assim que William e Caroline se conheceram, quando os tiros das Flintlocks carregadas com balas de prata sessaram e a garota saiu mediante do seleiro assustada demais para agradecer, mas ao longo do tempo foi se acostumando com a ideia de que aquilo que os Cormac caçavam era real e tinha em sua cabeça a visão de que eles eram heróis.
Filha de fazendeiros que um vestido desbotado e calçava enorme botas de trabalho, um trapo branco prendia o longo e desfiado cabelo castanho sobre a cabeça. Tinha os dentes tortos e os olhos eram muito separados. Ainda sim, se observasse mais de perto, a nítida visão dos olhos castanhos cintilavam ao luar e mesmo o sorriso fazia os dentes tortos não serem um problema o bastante para que ela evitasse de faze-lo. Detalhes simples que não faziam William deixa-la de nota-la, seja demais ou de menos.
Will saboreava cada momento quando Caroline estava por perto — tudo nela, todas as curvas e todos os contornos, seu cheiro, sua risada, sua inteligência. Tudo isso passou pela cabeça de William enquanto parecia ameaçar adormecer novamente sobre o cavalo devido ao ritmo lento.
—Como vão os planos para o casamento?- Ela perguntou, interessada.
—Imagino que esse seja o assunto principal- Resmungou Will.
—Um pouco- Admitiu Caroline- Lugar pequeno, poucas novidades e entre elas o casamento de um lorde. Como seu irmão se sente em relação a isso?
—Você pode me perguntar qualquer coisa, mas nunca sobre isso.- Respondeu ele de forma frustada- Francamente, parece que eu moro com um estranho; ele anda como sempre, com a cara enfiada em algum livro e o resto do corpo na biblioteca.
—Acabaram as caçadas? Não sabia que quando você se casava era o fim da linha.
—Acho que ela já estava condenada ao fim bem antes desse noivado- Disse ele, sombriamente- Ele pode ficar aqui, eu vou pegar o próximo trem até a capital e passar o resto dos meus dias caçando nas ruas de Londres.
—Vai acabar encontrando coisas bem piores em Londres do que só demônios- Ela respondeu, tentando abafar uma risada- Sua família tem uma casa lá, certo? Eu digo que vá, é um direito seu, além do que seu irmão vai cuidar dos negócios aqui logo terá uma família; você não vai querer apodrecer nesse lugar, assim como eu não quero.
—Isso é um convite indireto?- Perguntou Will com não mais do que uma sugestão de sorriso no rosto.
—Veremos isso em breve Senhor Cormac, pode ter certeza disso.
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