The Scientist
21 Paris IV - "Diferentes tipos de cura"
Notas iniciais
10 de março
Torre Eiffel, Paris, França.
Percy só queria entender qual a parte de ele ter confessado a Annabeth que ele tinha medo de altura, ela não entendeu — ou fingiu que não entendeu. Pois agora ela estava entregando os malditos ingressos na recepção da Torre Eiffel. Se um dia ela quisesse levá-lo ao Cristo Redentor, Percy entraria em coma na subida do corcovado.
E o novo World Trade Center? Nem sendo um cidadão americano com orgulho da economia do seu país, ele iria naquele prédio.
–Vai ficar olhando lá pra cima com cara de tacho? –Annabeth perguntou a ele.
–Você sabe que eu tenho medo de altura e me traz aqui? –Percy a olhou atônito. –Queria ver se fosse uma exposição de aranhas e eu te levasse.
O rosto de Annabeth ficou pálido. Percy sabia que ela tinha uma fobia incontrolável de aranhas, era pior até que o medo dele de altura.
–Não brinca com isso. –ela disse com o semblante raivoso. – Se não eu arranco a sua cabeça da próxima vez. E eu não estou falando dá de cima!
Percy gargalhou, se esquecendo da sua fobia por um tempo. Ela o fazia feliz. Então, se por alguma desventura, ele caísse de lá de cima... Seria uma morte feliz por ter sido ao lado dela. Ele afastou esses pensamentos mortíferos da mente e eles subiram os lances de escada.
Depois de certo andar, já não era mais possível eles fazerem o trajeto pelas escadas. Então foram de elevador. O que o deixou mais nervoso ainda, já que Percy ficou imaginando o quanto seria terrível se o elevador desse defeito e eles ficassem presos a mais de trinta metros do chão. Ele tentou manter a posse de macho e ficou sério todo o trajeto. Annabeth claramente se controlava para não rir.
Percy sentiu que valeu a pena todo o sacrifício de estar lá em cima. O topo da Torre Eiffel revelava a arquitetura da cidade que parecia ter sido construída pelas pessoas mais apaixonadas do mundo. Ele olhou para Annabeth quando pensou em paixão. Ela estava sorrindo com o rosto voltado para cidade e seus olhos cinza brilhavam com as luzes de Paris. O sol se punha em todo o seu esplendor e o vento frio da noite fez os pelos do braço de Percy se arrepiarem.
–Esse lugar não deveria estar cheio? –Percy perguntou a ela.
–Ali, está vendo? –Annabeth apontou para um estádio de futebol ao norte deles. –Aquele é o estádio Parc des Princes. Hoje têm jogo do Paris Saint Germain e o Racing Club de Paris, os times mais populares aqui na França. Todos os moradores da cidade ou estão em suas casas assistindo o jogo ou estão no estádio. Por isso hoje está vazio aqui em cima.
E era verdade. A cidade parecia que tinha parado. E ao lado deles só tinha um casal com uma garotinha e outro casal de senhores. O futebol, diferente dos EUA, era o esporte mais famoso na Europa e todos paravam pra assistir um jogo que tivesse alguma rivalidade histórica.
O sol se pôs de vez, agora era noite. As luzes da cidade iluminaram o rosto dos dois.
–Olha, não precisa me contar nada se não quiser. –Annabeth começou a dizer. –Até porque eu sinto que ainda não estou preparada para te contar sobre... Sobre o que houve comigo.
Percy assentiu e tomou uma decisão.
–Eu quero te falar sobre o que houve, Annabeth. –ele disse sério e olhando para as luzes lá em baixo. –Além de te ajudar no seu trabalho, eu vou colocar tudo pra fora. Vai ser bom.
Annabeth segurou uma das mãos dele que estava apoiada no corrimão de segurança da torre. Ela entrelaçou seus dedos nos dele e Percy acariciou sua mão com o polegar. Paz era a única palavra que descrevia aquela sensação.
Percy revirou a memória e os acontecimentos do passado começaram a se fazer mais vividos.
–Eu estava iniciando o terceiro ano na faculdade e descobri o pior pesadelo da minha vida. –Percy acariciava a mão dela enquanto falava. –Eu descobri que a minha mãe tinha câncer.
Eu nunca acreditei em destino, mas de repente uma força superior a que eu poderia entender, me fez perceber que fora por um bom motivo que eu decidi fazer Bioquímica e trabalhar na composição de remédios. Eu estava desesperado para ajudá-la. Na primeira recaída tiveram que cortar os cabelos dela e eu e meu padrasto também cortamos o nosso em forma de apoio.
Ela sorria para mim todas as vezes que eu admitia não conseguir vê-la sofrer daquele jeito. E ela sempre sorria e dizia que tudo ia ficar, mesmo que ela não ficasse. A minha vida parou, literalmente. Eu já estava mal antes por ter terminado com a Rachel e depois do termino do nosso namoro acabamos nos afastando um pouco. As únicas pessoas que me sobraram foram Jason e Leo.
E foi nesses descuidos que as minhas notas caíram e o meu professor mais chegado veio me perguntar o que houve.
–Olá, Percy. –ele me cumprimentou. –O que tem acontecido com você, rapaz? Suas notas andam caindo.
–Perdão, professor, mas é um problema particular que tem me afetado bastante. –eu respondi a ele. E, claro, falei uma daquelas coisas retardadas que são dignas do meu feitio. Franzi as sombracelhas e falei tudo de uma vez: – Eu não gosto do seu nome, professor.
–Por que não, Percy? Jápeto é o nome de um titã!
–Eu acho muito longo e muito forçado. – eu pensei um pouco e disse: — Que tal eu te chamar por algum apelido, professor? Algo como... Como Bob?
Bob (sim, eu já estava o chamando de Bob mentalmente) sorriu. Interpretei aquilo como um sim. Naquela tarde eu contei a ele todo o problema com a minha mãe. E ele disse que iria dar um jeito de me ajudar.
E assim fez. O irmão dele era o maior financiador de experimentos científicos no país. Bob disse que não falava com ele por desentendimentos familiares. Ao que parece, Wilhem, o irmão dele, era um pouco obsessivo com o poder. E isso irritava profundamente Bob, afinal ele era o cara mais humilde que conheci. Mas ele voltou a falar com o irmão e depois de uma série de negociações, Wilhem decidiu financiar meus projetos.
Eu reuni uma bela equipe e que ia de cientistas até médicos. Eram os caras e as meninas mais nerds que eu conhecia na faculdade. Eu e os outros cientitas fazíamos a formula dos componentes químicos e os médicos testavam que tipo de reação aquilo teria no corpo humano. Jason era o responsável por arquivar todo o andamento das experiências.
E eu estava a cada dia mais próximo de encontrar a cura para a minha mãe.
Nesse meio tempo, decidimos fazer aplicações em camundongos. Eu ficava com pena dos ratinhos, mas eu não poderia fazer nada em relação a eles. E além do mais os experimentos nos coitados foram um sucesso enorme. O medicamento que criamos não causou nenhuma reação nos ratos.
Em uma das noites,quando eu estava até tarde trabalhando no laboratório, Wilhem veio conversar comigo.
–Olá, Percy. –ele tinha o timbre de voz parecido com o de Bob. Mas seus olhos eram sombrios. Ele era um pouco mais alto que Bob, parecia o Hellboy com a pele em tons normais. –Fiquei sabendo do seu recente sucesso nas pesquisas.
–Sim, senhor. –eu respondi. A presença daquele homem deixava minha mente nublada de medo. Era como se o tempo parasse quando ele sorria. –Logo, logo as empresas do senhor iram ser conhecidas por terem financiado a cura para o câncer. Será muito famoso, senhor Wilhem.
–Ah, por favor, garoto. –ele fez um sinal de desdém com a mão. -E aliás, me chame de Cronos. Prefiro ter o nome de um titã, como o meu irmão. Um homem acima dos deuses.
Ele era estranho, tenho que admitir. Sempre ficava me pressionando com aqueles olhos gélidos. Ele não precisava dizer nenhuma palavra para eu entender que ele queria resultados, e logo.
–Bem, acho que você deveria começar o teste em humanos, Percy. –Cronos comentou enquanto olhava para um dos camundongos arranhando a sua prisão de vidro. –Pelos relatórios que li, eles não farão mal nenhum a pessoas.
–Sério, senhor? –eu fiquei boquiaberto, aquilo custava uma fortuna. –Mas isso precisa de todo um processo. Autorizações do governo, voluntários ...
Cronos, que tinha pegado o camundongo na mão e olhava para os olhos do rato, virou seu rosto para mim e sorriu daquela maneira assustadora.
–Meu querido semideus. –Cronos associou o meu nome com o do herói grego. –Eu já resolvi tudo isso. Basta você querer começar. Pense, você está tão perto de achar a cura!
Eu poderia ter dito tantas coisas. Poderia ter me jogado aos pés daquele homem e agradecê-lo eternamente por estar me ajudando. Mas a única coisa que o meu cérebro, que estava em alerta de perigo, conseguiu pensar, e em voz alta, foi:
–Tem certeza disso?
–Claro que tenho, pequeno semideus. –Cronos pegou o ratinho branco e foi andando com ele nas mãos para a saída do laboratório. –E, Percy?
–Sim, senhor, diga.
–Não tenha medo dos erros. Eles muita das vezes podem ser a solução.
E então ele saiu do laboratório. Só hoje eu descobri que aquele rato e as suas correntes sanguíneas carregadas com o antídoto que eu mesmo criei, foi à forma que ele achou de clonar o vírus.
O grande dia havia chegado. Todos os médicos e cientistas estavam em seus lugares, prontos pra realizar o experimento. O voluntário para pesquisa era um presidiário, que buscando uma redução de pena, queria fazer parte das pesquisas. Os equipamentos foram posicionados e a aplicação na medula óssea do homem, foi realizada com louvor. Nós finalmente conseguimos ter sucesso. Até que as coisas deram errado.
Depois de dois dias, o homem morreu. O que achávamos ser o antídoto se tornou na verdade um tipo de vírus. O qual eu não conseguia achar a cura. Dias depois, o FBI invadiu o meu laboratório. Com sorrisos sóbrios nos rostos, os agentes quebraram meus equipamentos, pegaram meus arquivos e me levaram para cadeia.
Enquanto eu estava na cadeia, Jason tinha ido me visitar e disse que eles haviam queimado todo os arquivos escritos (que eram os mais importantes para mim) e deletado todos os documentos nos computadores do laboratório.
Alguns dias depois eles me liberaram. Disseram-me que Cronos havia ajeitado as coisas para mim e deixado a minha ficha limpa. Eu nunca mais voltei a vê-lo. O mesmo aconteceu com Bob. E eu não queria saber o que tinha acontecido. Nada me importava mais. Eu estava mais uma vez destruído. Eu tinha tido um grande fracasso na minha profissão e tinha feito o mesmo com a de outros amigos que trabalharam comigo.
E o mais importante: eu perdi todas as chances de ajudar a minha mãe. A pessoa que eu mais amava e amo no mundo.
A cidade inteira de Paris explodiu em gritos de euforia. Ao que parecia, o Paris Saint Germain tinha feito tinha feito um gol. No topo da torre Eiffel já não restava ninguém, a não ser Percy e Annabeth. Que ainda estavam de mãos dadas.
Percy tinha o olhar tão triste quanto se sentia. Ele havia falado do seu sonho perdido. De uma cura da qual ele jamais seria responsável. Fazia dez minutos que ele havia acabado de falar e Annabeth ainda não tinha dito nada. Ela o olhava e depois desviava o olhar.
Talvez ela não estivesse acostumada a olhar para alguém que sentisse tanta dor.
–Então — ela engoliu em seco e continuou. –A única coisa que você queria era encontrar a cura para sua mãe.
–Era. Era apenas isso, sim. –Percy balançou a cabeça em um gesto para afastar a tristeza. E continuou, lutando contra a voz embargada — Mas isso não importa mais, não é? Afinal, pelo o que Leo e Piper andam contando, ela está morrendo do outro lado do atlântico e eu mais uma vez não posso fazer nada. Tudo porque estou aqui, pagando por um erro que eu não queria ter cometido.
–Você estava tentando achar a cura de novo? Antes de virmos para a missão? –Annabeth perguntou.
–Sim, estava. –ele respondeu.
Os olhos de Percy ardiam. Ele não queria deixar as lágrimas caírem. Ele sempre brincara com Annabeth dizendo que homens não choram, mas o fato dele não chorar não tinha nada a ver com um discurso machista. Ele apenas não gostava de parecer fraco, ele gostava de ser a força que as pessoas precisavam. Quando estava indefeso depois de ter tomado o veneno, ele se sentiu como um peso para Annabeth ter que lidar.
Ela fez algo que o surpreendeu: começou a desabotoar os botões negros do seu casaco búlgaro azul marinho. Percy ficou confuso, não sabia o que ela estava fazendo. Estava um frio descomunal ali no topo da torre.
–Annabeth? Eu sei que nessa sua mente ninfomaníaca, fazer sexo no topo da Torre Eiffel parece ser legal. Mas eu tenho medo de altura, está muito frio e podemos ser presos. –Percy disse a ela.
–Deixa de ser idiota! –ela o repreendeu. –Eu estou com frio também.
E foi só com aquelas palavras que Percy percebeu que era mesmo verdade o que ela dizia. Annabeth o abraçou, ficando com o rosto no seu pescoço. Ela só tinha aberto o casaco dele para aproveitar o pouco do calor que ele irradiava. Ela estava fria e com os lábios roxos. Percy não havia percebido uma quase hipotermia dela por causa da tristeza que sentia.
–Lembra daquela viagem para Acapulco? –ela perguntou enquanto Percy a abraçava ainda mais contra si.
–Aquela viagem que eu tomei um caldo no recife da praia e um monte de algas grudou na minha cabeça? E que consequentemente você ficou me chamando de cabeça de algas?
–Essa mesmo. –Annabeth deu uma risadinha contra o pescoço dele, se lembrando do ocorrido. –Mas não era bem isso que eu queria que você lembrasse.
–Era o que então? –Percy uniu as sombracelhas, tentando se lembrar.
–Você pegou uma gripe desgraçada no terceiro dia que estávamos lá. O que só reforça a ideia de que você é realmente muito azarado. –Annabeth o olhou nos olhos. –Quando a minha mãe foi cuidar de você ela o pegou nos braços e o abraçou bem forte com uma das mãos apoiadas no seu peito. Ela dizia que quando alguém está doente ou sente dor, temos que ficar o mais perto daquela pessoa o possível e então ela ficará melhor.
–E você aproveitou o fato de estar com frio para poder me agarrar e me fazer se sentir melhor.
–Apenas juntando o útil ao agradável.
Percy sorriu para ela. Já estava virando um hábito ele dar aqueles sorrisos abertos e felizes, mas era um hábito exclusivo para Annabeth. Ele ainda pensava na sua mãe, ainda se sentia culpado por não poder ajudá-la, seu peito ainda parecia explodir por causa da dor que era carregada. Mas Annabeth ainda estava ali e de repente o seu mundo voltara a ter esperança.
Ele a beijou. Era um daqueles beijos calmos, sem aquelas brigas insistentes de línguas, apenas algo que demonstrava um sentimento novo para ele. Annabeth interrompeu o beijo, seus olhos cinza pareciam querer fazer alguma pergunta.
–Percy? –ela o chamou bem baixinho.
–Fala, Annie.
–O que você sente por mim? –ela afastou o rosto um pouco para olhá-lo nos olhos. –Você... Você me ama?
Ele não soube o que responder. Será que amava? Ele não queria mentir para ela, queria ter certeza dos seus sentimentos para poder expressá-los. Queria poder amá-la incondicionalmente. Mas ele tinha medo. Sempre aquele sentimento tenebroso dentro dele crescia quando ele pensava em se entregar de verdade a alguma pessoa.
–Eu não sei o que sinto por você, não ainda. –ele respondeu. –Mas a nomenclatura realmente importa?
–Como assim, Percy?
–“A flor que chamamos de rosa se outro nome tivesse ainda teria o mesmo perfume”. Shakespeare ilustrou bem isso em Romeu e Julieta. –Ele voltou a abraçá-la bem forte e ela voltou a esconder o rosto no pescoço dele, respirando calmamente e aquecendo aquela parte do frio. –O nome do que eu sinto por você não importa, Annabeth. Não importa se é paixão,amor ou amizade. O que importa é que vou estar sempre aqui, estarei sempre aqui para você.
Annabeth suspirou e depois deu uma risada sem humor.
–Você realmente sabe como enrolar uma garota. –ela disse e Percy até gargalhou um pouco. –Mas de qualquer forma, quando você descobrir o que sente por mim, por favor, me conte.
–Com certeza. –Percy retrucou. –Quando você descobrir o que sente por mim, me conte também. Fechado?
–Fechado. –ela sorriu divertida para ele.
Eles ficaram se beijando por um tempo indeterminado no topo da torre. Vez ou outra paravam para sorrir uma para o outro. Doía quando eles estavam juntos e doía mais ainda quando eles estavam separados. Percy não sabia se isso era normal, ele apenas sabia que não conseguia mais fazer nada sem passar ao menos um minuto pensando nela.
–Hã, Annabeth?
–Fala, Percy.
–Você gostaria de dormir no meu quarto hoje?
–Cabeça de algas. –ela o chamou pelo antigo apelido e bagunçou os cabelos dele. –Você não é nada sutil na hora de chamar uma garota pra fazer sexo com você.
Percy se fez de desentendido.
–Então... Eu deveria ser?
Annabeth gargalhou, não respondeu nada e segurou a mão dele enquanto andava em direção ao elevador.
Percy não se esquecia da sua mãe, é claro. Mas não se sentia mais tão triste também. Eles desceram de elevador novamente e Annabeth segurava a mão dele. Enquanto olhava para ela, com os olhos brilhando observando a arquitetura da cidade, ele não sentia o seu medo de altura.
E naquele momento ele percebeu que Annabeth era algo que ele precisava. E ele percebeu outra coisa também: que a havia a cura que você precisa encontrar e a cura que você precisa ser. E aquela loira, despreocupada com a vida e com o gênio forte sempre otimista, era a cura para ele.
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