The Scientist
7 Londres - "Os vermelhos"
Notas iniciais
08 de fevereiro, Londres, Inglaterra.
Londres era uma cidade linda e, apesar de ter muitos habitantes, era calma. Os britânicos era mais civilizados e andavam com leveza pelas ruas, não eram apressados e incoerentes como os Yankees, nova iorquinos.
Daniel andava ao lado de Annabeth e eles estavam de mãos dadas. Claro que tudo aquilo era só um disfarce para se passarem por um casal normal, mas ela estava um pouco desconfortável. Ela conhecia Daniel a apenas dois dias e nesse meio tempo, ele não parava de dizer a ela o quanto ela é bonita. Ele não era nenhum galinha, era descendente de uma família aristocrata inglesa que o criara para ser o mais educado e menos namoradeiro possível. Mas ele estava dando em cima dela e se mostrava claramente interessado.
–Eu não vi nenhum sinal dele até agora, Annabeth. -resmungou Daniel.
–Continue procurando, uma hora ele irá aparecer. -ela disse. -Ele não pode ter ido muito longe.
Eles procuravam um homem que tinha ido até o hotel e perguntado por Perseu Jackson. O homem havia usado a desculpa de que Percy havia esquecido uma mala no aeroporto e que precisava entregar a mala a ele. Quando a recepcionista do local dissera para ele lhe dar a mala que ela mesma entregava, o homem foi embora sem nem mesmo se identificar.
Eles sabiam que Percy estava ali, e a CIA sabia que eles também estavam por lá. A caçada tinha começado.
–Me diga novamente como ele é. -pediu Daniel.
–Pelo o que vi nas câmeras de segurança, ele era uns cinco centímetros mais baixo que eu. Cabelos negros e sobrancelhas grossas, barba rala, olhos negros escuro. Usava um sobretudo preto e esfarrapado e uma boina cinza.
–Bem, ou aquele cara é um azarado por estava vestido igual a esse sujeito ou ele é o sujeito que estávamos procurando. -Daniel apontou para um homem que se encaixava exatamente na descrição dela.
Eles seguiram atrás do homem que estava indo para umas vielas e becos estreitos. Annabeth deduziu que aquele seria o lado negro da cidade: o lugar onde moravam os pobres drogados e mendigos. Annabeth decidiu que eles teriam que se separar. Então, Daniel foi para um lugar um pouco mais a frente, onde o homem provavelmente iria fugir caso houve necessidade de fuga.
Annabeth continuou atrás do sujeito baixinho com cara de rato. Ele constantemente olhava para trás, mas ela se escondia atrás de escadas de emergência dos prédios, entrava em lojas ou ficava parada atrás de bancas de jornal. Finalmente, o homem entrou em um beco. Ela o seguiu.
No final do beco havia uma parede de madeira. O homem provavelmente a tinha pulado, mas Annabeth não tinha certeza se deveria fazer isso. Ele podia estar a esperando do outro lado e, assim que ela pulasse, ele poderia lhe dar um tiro. Ela achou melhor não arriscar.
Estava quase indo chamar Daniel para que eles fossem embora quando ouviu vozes do outro lado da parede de madeira.
–Meu camarada Vyalov. -cumprimentou alguém. -Conseguiu falar com o cientista?
–Não, meu camarada, eu não consegui. -respondeu Vyalov.
Annabeth encontrou um pequeno buraco na parede de madeira e observou a cena pela brecha. O homem baixinho, o tal do Vyalov, conversava com um homem muito alto de cabelos grisalhos e expressão carrancuda.
–Como assim não conseguiu, meu camarada? -perguntou o homem de cabelos grisalhos.
–Eles me pegaram, senhor. O cientista está sendo muito bem vigiado, tem muitos agentes perto dele. -respondeu Vyalov com um sotaque russo. Ele falava muito mal o inglês e se Annabeth não falasse russo também, não teria entendido nada da conversa.
–Eu sei que tem agentes com ele, eu sei que ele está tentando achar a cura para o ANZ1, eu sei que tudo sobre ele! -rosnou o outro homem. -Você sabe que os meus planos irão falhar sem ele!
Annabeth não conseguia ver direito, mas pelo pouco que via dava pra perceber o pânico de Vyalov diante do homem de quase dois metros a sua frente.
–Olhe, me desculpe, senhor. Eu tentei, mas o senhor sabe que não tenho muita experiência nisso. Fiz pela minha família, o senhor prometeu que os tiraria da pobreza que recaí sobre Stalingrado, na minha amada Rússia. -Vyalov começou a choramingar. -Por favor, me perdoe, senhor.
Annabeth teve que se conter para não soltar um palavrão bem alto. Por que o ele não chamava o homem pelo nome? Seria muito mais fácil se ela soubesse com quem está lidando.
O homem de cabelos grisalhos bufou.
–Tudo bem, meu camarada. Acho que eu posso te perdoar.
–Ah, muito obrigado, senhor. Muito obrigado. O senhor merecia ser czar, por tamanha generosidade. -disse Vyalov, fazendo Annabeth revirar os olhos por tanta puxação de saco.
–Argh, tanto faz. -respondeu o homem. -Só mais uma coisa, Vyalov. Você deixou as câmeras do hotel o filmar?
–Ah, e-eu não sei, senhor — gaguejou Vyalov. -Talvez um só tenha me filmado.
–Puxa, que pena. -disse o homem fingindo falsa compaixão. -Você se tornou uma pista para eles nós seguirem e descobrirem quem somos.
Annabeth ouviu o barulho de dois tiros e o barulho de um corpo se chocando contra o chão.
–Desculpe, meu camarada. Mais era necessário que eu fizesse isso. –murmurou para si mesmo o homem de cabelos grisalhos.
–Senhor – a voz de outro homem que Annabeth não conseguiu ver, chamou. -Temos que partir, já que eles sabem que estamos aqui.
–Sim, eu sei. -respondeu o cara que Annabeth intitulou como "o chefão". -Vamos para o palco da guerra civil mais linda da Europa. Os Espanhóis ficam extremante adoráveis nessa época do ano. -O chefão mexeu no corpo de Vyalov com a bota. -Deixe o corpo desse inútil aqui como lembrete a esses merdas da CIA de que não estamos brincando.
Depois de um tempo olhando pela brecha, Annabeth percebeu que não havia mais ninguém do outro lado da parede de madeira.
–Annabeth... — a voz de alguém a chamou.
Ela girou o corpo a cento e oitenta graus e agarrou o pescoço de alguém, o pressionando contra a parede de madeira.
–C-calma. -gaguejou com falta de ar, Daniel. -Eu só vim saber como você está.
–Desculpe, Daniel. -disse Annabeth o soltando. -Eu me assustei um pouco, não vi você chegar aqui.
–Tudo bem. -Daniel deu uma risada abafada esfregando o pescoço. -O quê você descobriu?
–Primeiro me ajude a pular essa parede de madeira aqui, depois quando chegarmos ao hotel, eu te explico tudo.
Daniel assentiu e se agachou para que Annabeth subisse nele para pular para o outro lado. Quando ela conseguiu pousar com tranquilidade no outro lado, ela encontrou o corpo de Vyalov tremendo. Ele tinha tomado dois tiros no peito e ainda assim estava vivo. Annabeth se ajoelhou do lado do corpo do homem e pegou uma rosa vermelha que estava em cima da barriga dele.
Daniel pulou também e se colocou do lado de Annabeth, se ajoelhando e encarando o rosto de Vyalov.
–Você pode se redimir, homem. -falou Annabeth em russo. -Você pode me dizer quem são eles antes de morrer, e talvez você vá para um lugar melhor que o inferno após a morte.
O homem tossiu e cuspiu sangue. Annabeth conteve o grito de repulsa quando o sangue cuspido pelo homem respingou no seu braço e algumas gotas molharam seu rosto.
–Os vermelhos... São os vermelhos... O nome deles. -Falou Vyalov, também em russo, pausadamente, até que parou de se mexer e morreu.
Daniel fechou os olhos dele e ajudou Annabeth a limpar o sangue do braço.
–Não vai me contar o que descobriu? -perguntou Daniel com aqueles lindos olhos azuis claro.
–Aqui não, Dan. Vamos para o hotel e lá eu te conto — ela respondeu.
[...]
Quando Annabeth e Daniel avistaram Phill no saguão do hotel, ele os puxou para uma sala ao lado da recepção. Era a sala onde ficavam os produtos de limpeza.
–O que vocês descobriram? -perguntou Phill.
Então, Annabeth contou tudo o que aconteceu a eles. Daniel a olhava vidrado, admirando a coragem dela por ter seguido o russo até onde ocorrera a conversa e a admirando também pela sua beleza. Sim, Annabeth chegou à conclusão de que Daniel estava sim muito interessado nela e talvez até mesmo apaixonado.
–Então eles chamaram um ao outro de "camarada"? -indagou Phill.
–Sim, chamaram. -concordou Annabeth. — Talvez a nacionalidade deles seja russa. Os russos costumam chamar uns aos outros assim desde a revolução russa.
–Não acho que eles sejam russos. -disse Daniel. -Quer dizer, não todos eles. Eles devem ser de várias nacionalidades diferentes, todos desgostosos com os Estados Unidos por algo. Não querendo falar mal do país de vocês, mas quase todos os países no mundo têm um motivo para serem hostis com os americanos.
Annabeth deu um sorriso torto e olhou para o lindo britânico na sua frente. Ele tinha razão, quase todos no mundo odiavam os americanos por algum motivo.
–Você tem razão, senhor Crawley. -observou Phill, enquanto coçava o queixo. -Eles não são apenas de um lugar só. Por isso que as mensagens terroristas vinheram de todos os lugares da Europa.
–Bom, pelo menos sabemos nosso próximo passo. Temos de ir à Espanha. Eles falaram algo sobre a maior guerra civil da Europa e sobre os espanhóis estarem amigáveis essa época do ano. -lembrou Annabeth.
–Sim, isso mesmo. Esse será o nosso próximo passo. -Phill estava com uma expressão pensativa. -Vocês estão dispensados, senhores.
Daniel saiu e perguntou se Annabeth também iria, ela pediu que ele a esperasse no saguão do hotel.
–Phill, quero que me responda uma coisa. -ela pediu.
–Se eu puder contar, eu falo sim, Annabeth. -ele retrucou. -O quê você quer saber?
Ela suspirou, não sabia se deveria fazer aquela pergunta, mas mesmo assim fez:
–Por que o Percy? Quer dizer, ele é bom no que faz, mas ele não é o melhor cientista americano da atualidade. Existem vários outros que ganharam o prêmio Nobel e que são reconhecidos mundialmente. Por que ele?
Phill abaixou o olhar, tinha uma expressão preocupada no rosto e as mãos estavam apoiadas na cintura. O bigode e o cavanhaque tremiam junto com a boca que abria e se fechava e mesmo assim não emitia nenhum som.
–Nós o escolhemos, Annabeth, por que... Porque foi ele quem criou o vírus. -Phill respondeu.
–O quê? -Perguntou ela em voz baixa. -Mas ele nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas!
–Ele não criou o vírus sabendo no que ele iria se tornar, Annabeth. Ou pelo menos nós achamos isso. -Phill passou as mãos pelo cabelo curto. -Eu não posso te contar tudo e você não pode contar isso a ele. Nós achamos que ele não sabe o que fez, mas ele é o único que pode achar a solução para esse problema.
–Por isso os rebeldes o querem tanto. -Annabeth estava com as mãos tremendo e o coração apertado. -Ele pode escolher se juntar a eles. Pode escolher salvar ou destruir a nossa nação.
Phill assentiu com o pesar estampado no rosto.
–Sim, é por isso. E é por isso também que você tem que ficar o mais próximo a ele possível. Conhecer todas as pessoas que ele conhece, saber todos os segredos dele e vigiá-lo de perto. Não podemos deixar que nada o corrompa. E precisamos saber se ele criou o AZN1 propositalmente ou não.
–Então... Você quer que eu fique a mais colada nele possível? -ela perguntou ainda um pouco confusa com aquelas palavras.
–Não é um querer meu. É uma exigência da situação. -Phill respondeu.
Annabeth assentiu e abriu devagar a maçaneta da porta. Ela não sabia se Phill ainda tinha alguma coisa para dizer, mas ela sabia que não queria ouvir mais nada. Seu melhor amigo tinha inventado um vírus que poderia desencadear o Apocalipse e ninguém tinha o avisado. E o coitado passa horas escrevendo na sua caderneta, pegando todas as informações que recebia e as transformando em fórmulas químicas para tentar achar uma cura para algo que ele nem sabia o que era. Dos quatro dias que eles estavam ali em Londres, Percy tinha dormido apenas oito horas e ainda sim sempre que a via ele lhe dava o seu melhor sorriso. Mas ela podia sentir que por dentro ele estava apavorado com a ideia de não conseguir salvar o mundo.
Ela pensava nessas coisas enquanto caminhava até Daniel, que estava sentado no sofá do saguão do hotel. Quando ela chegou lá, se sentou do lado dele.
–Como foi o final da conversa com o Phill? -perguntou ele.
–Ah, ocorreu tudo bem. -ela respondeu.
–Tem certeza? -perguntou Daniel franzindo o cenho. -Você está com cara de quem viu o bicho papão. -brincou ele.
Annabeth sorriu. Era engraçado ouvir um britânico contar uma piada. Eles eram muito sérios e o sotaque todo pomposo não ajudava. Ou seja, ela achava hilário.
–Estou bem, Dan. Não precisa se preocupar. -ela respondeu gentilmente a ele.
Daniel se remexeu no sofá. Por algum motivo Annabeth achou que ele estava nervoso.
–Então, Annabeth... Eu tava pensando se você não gostaria de jantar comigo qualquer dia desses. -ele a olhou com os olhos azuis agitados. -Você aceita?
–Ah... Eu, não sei, Dan — ela tentou se esquivar da pergunta e arranjou a desculpa perfeita: -Estamos em missão e muito ocupados. Eu não acho que seja certo sairmos para um jantar, pode... Sei lá, chamar atenção, sabe?
–Sei, sei sim. -ele concordou um aceno de cabeça e uma expressão triste.
Annabeth não sabia por que estava recusando um convite tão fofo como aquele. Daniel era lindo, educado e inteligente. Era perfeito. Mas ela se sentia desconfortável saindo com outro cara enquanto Percy estava por perto. Ela não sabia se era por causa do que aconteceu no passado e por ela não querer fazer a mesma coisa com ele no presente. Mas sair com outro cara enquanto Percy estava bem ao seu lado parecia tão... errado.
–Dan, posso te pedir uma coisa? -ela pediu. -
–Pode me pedir o que quiser, Annabeth. -ele respondeu um pouco meloso demais.
–Bem, eu e Percy somos amigos de infância e eu me preocupo muito com ele. -ela levantou o rosto de Daniel para que ele a olhasse diretamente nos olhos. -Eu não quero e nem posso permitir que nada aconteça a ele. Você precisa me prometer que vai me ajudar a protegê-lo.
–Sim, Annabeth, eu prometo. -Daniel tinha uma expressão de decepção no rosto: — Mas vocês não têm nenhum caso, não é?
Annabeth gargalhou diante daquela pergunta. Daniel estava com ciúmes de Percy.
–Não, Dan, não temos nada. -ela disse ainda sorrindo um pouco. -Ele é só meu amigo.
–Então isso significa que eu posso continuar te chamando pra sair até você aceitar? -Perguntou ele com esperança e animação nos olhos.
–Pode sim, só não te garanto que eu vou aceitar. -ela lhe deu um beijo no rosto. -Eu já deixei bem claro que não quero ter nenhum relacionamento no momento. E não quero machucar você.
Daniel sorriu, um sorriso determinado e belo.
–Ah, Annabeth. Quem acredita sempre alcança. -ele lhe devolveu o beijo no rosto. -E não se preocupe, o cientista vai estar em segurança enquanto eu e você estivermos por perto. Ele pode ser bonito e até mesmo um concorrente em potencial, mas ele é um cara legal. E o destino do mundo está nas fórmulas químicas dele, não é? Temos que protegê-lo.
–Ótimo, Dan. Obrigada por me ajudar.
Annabeth se despediu dele e pegou o elevador até o seu quarto. Ela tinha conseguido duas coisas importantíssimas naquele dia. Ela descobriu o nome dos rebeldes que se intitulavam como "Os vermelhos", e conseguiu que mais alguém se comprometesse a proteger Percy. E mesmo que Daniel não fizesse isso, ela iria. Iria defender-lo custe o que custar.
Ela ficou observando os números no elevador. Suspirava enquanto o elevador passava em andar por andar. Um pensamento sombrio a incomodou: ou Percy havia criado o vírus contido naquela bomba e ele nem mesmo sabia disso; ou ele era o grande vilão da história, passando a perna em todos os agentes e estivesse apenas atuando e fingindo participar da missão. Ela teria que descobrir e entender melhor aquela história. Desvendar detalhe por detalhe.
E principalmente, tinha que fazer Percy contar seus segredos.
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