The Scientist
27 Florenza- "Inseguranças"
Notas iniciais
01 de maio
Centro de concentração da CIA.
Florenza, Itália.
Percy ajeitava os óculos de grau acima no rosto. Era o terceiro, já que os outros dois primeiros foram destruídos em missões. Aquele havia sido presente de Piper, que sempre reparava que ele forçava muito a vista para ler algo que estivesse longe, o que sinalizava que a miopia ainda não tinha ido embora por completo. O problema dos óculos serem um presente é que ele não havia provado, e a armação estava um pouco frouxa e ficava a todo tempo caindo do seu rosto. Era uma armação frouxa, como todas as outras. Ele realmente não tinha sorte.
Ele encostou as lente do óculos no microscópio, a fim de ver mais de perto as análises sanguíneas do Padre Enzo, sem acreditar realmente no que via.
–Conseguiu descobrir alguma coisa, Percy? –Annabeth perguntou enquanto entrava no pequeno laboratório que a CIA havia feito para ele, que era o único autorizado a mandar naquele lugar, só entrava quem ele queria.
E Annabeth era alguém que ele sempre queria por perto. Ela estava magnífica no momento, com uma bata preta, os cabelos soltos, calça jeans e All Star. Os anos pareciam não ter chegado para ela, já que ela ainda se assemelhava a uma adolescente encrenqueira. Enquanto Percy parecia mais velho a cada dia que passava.
–É praticamente um milagre. –ele respondeu a ela.
Annabeth se inclinou para lhe dar um beijo rápido e depois se sentou ao lado dele, olhando para as anotações a mão que ele havia feito.
–Então, me diga que milagre é esse. –ela pediu com os olhos ligados ao dele.
–Bem, já ouviu falar do processo de seleção natural?- ele perguntou e Annabeth assentiu. –Foi isso que aconteceu com o Enzo. De certa forma o vírus falhou com ele, que segundo o próprio, ficou três dias agonizando de dor. Nesse meio tempo o organismo dele começou a formar defesas contra o vírus e foi se adaptando para que ele não o fizesse mal.
–O que isso tem haver com o processo de seleção natural? Pelo o que eu sei, isso está relacionado com modificações no corpo humano para se adaptar ao ambiente ou ocasião. Para que a pessoa ou animal não morra. –observou Annabeth.
–Eu tinha quase me esquecido de que você tinha esse lado nerd, sabia? –Percy falou os fazendo rir. –Mas é isso mesmo. E foi isso que aconteceu com o corpo do Enzo. Nos três dias que ele passou sofrendo, o corpo expulsou parte do estômago dele em vômito, evitando que ele morresse, num processo de seleção natural. E os anticorpos dele fez algo parecido com vírus e bactérias contra antibióticos. Eles se tornaram mais fortes e resistentes e afugentaram o vírus.
–Então esse cara está curado?
–Não tecnicamente. O vírus ainda está dentro dele, só que não faz nada. É tipo o portador de AIDS, ele leva o HIV pra outras pessoas, essas pessoas morrem porque o vírus se manifesta, mas o portador não sofre nenhum dano porque o seu corpo já se acostumou com ele.
Annabeth processou todas as informações e repentinamente seu rosto se iluminou com um sorriso.
–Isso significa que você conseguiu encontrar a cura?
–Tecnicamente, sim. –Percy respondeu sorrindo. –O que complica é que eu não quero que o vírus seja contido, quero que ele morra. É pra isso ainda preciso de alguma coisa, algum ingrediente, alguma última fórmula pra cortar o efeito do vírus. –logo a expressão no rosto de Percy estava sombria, ainda faltavam algumas peças do quebra-cabeça pra juntar.
–Bem, acho que você já se esforçou demais por hoje. –Annabeth arrumou os papéis em cima da mesa, tirou o óculos do rosto de Percy e colocou seus dedos dentro do jaleco dele, fazendo-o deslizar para fora do corpo de Percy. –Agora vai tomar um banho, que temos jogo de futebol pra assistir.
–Podemos fazer algo mais interessante. –Percy a puxou para os seus braços, segurou os cabelos da nuca dela e lhe deu um beijo no pescoço.
–Vou pensar no seu caso. –Annabeth disse baixinho, aproveitando as caricias e dando um leve gemido. –Acho que já pensei...
–Qual foi a resposta, então?
–Nunca que eu ia perder um jogo do Milan contra o Juventus. –ela respondeu e saiu andando magistralmente para fora da sala.
Percy era o primeiro a achar legal ter uma namorada que fosse louca por futebol, mas agora ele não achava tão legal assim.
[...]
Eles estavam reunidos na sala de estar da CIA. Aquele sem dúvida havia sido o local mais bonito que eles se hospedaram na Europa. Era no alto das montanhas de Florenza, com vista para todo o cenário rural da cidade. Percy estava na varanda do lado esquerdo da sala, enquanto seus amigos se dividiam sentados no sofá. Ele estava consideravelmente afastado, ninguém ouviria sua conversa dali.
O brilho da paisagem refletiu nos seus olhos verdes claros no momento. Era final de tarde, então os raios alaranjados do sol refletiam no topo das cordilheiras. Era um lugar bonito demais para estar se tendo uma conversa triste, mas Percy havia adiado demais esse momento.
–Alô? –era a voz de sua mãe do outro lado da linha.
–Oi, mamãe. –Percy respondeu.
–Percy, meu menino, é você?
–Não sou mais um menino, mas sou o Percy sim.
Ele a ouviu sorrir do outro lado da linha. Uma risada doce, carregada de amor, dada do jeito que só uma mãe consegue dar.
–Como você está, meu filho? Está mesmo namorando a Annabeth como seus amigos disseram? Você está feliz? Como está o novo emprego? –sua mãe o bombardeou com perguntas feitas quase ao mesmo tempo.
–Bem, sim, sim, difícil. –ele também respondeu tudo ao mesmo tempo. –Mamãe, eu sou lerdo, a senhora não pode me fazer perguntas rápidas todas ao mesmo tempo. –Percy disse fazendo sua mãe gargalhar.
–Você continua o mesmo menino brincalhão de sempre. E sei que você está feliz, até a sua voz está com menos seriedade.
–Quanta controvérsia, dona Sally. Primeiro diz que sou brincalhão e depois diz que minha voz é carregada com seriedade.
–Eu sou mulher, Percy. Nós nascemos com um dom perfeito para criar controvérsias.
–Tenho que concordar com você, mamãe.
Eles conversaram sobre tudo um pouco. Sua mãe lhe contou que Hazel, como sempre, tinha sido um anjo nesses tempos em que ele estava fora. Frank, o novo namorado dela, sempre a ia visitar também. Poseidon ligara dizendo que Percy era um filho ingrato que havia ido embora de sua casa tão depressa quanto chegou, e confidenciara a Sally que o filho deles estava pegando uma loira gostosa, que era a garotinha com quem ele brincava aos oito anos de idade. Sally disse que Paul finalmente concertou a pia da cozinha direito e ela passou a não ficar mais entupida. Ela disse que o verão nos EUA estavam sendo chatos como sempre e que queria estar em Florenza também.
Percy contou tudo o que podia e, é claro, deu ênfase no que se tratava de Annabeth. Sua mãe disse que toda vez que ele falava o nome dela, sua voz mudava, como se fosse o nome mais importante no mundo que ele pudesse pronunciar. Percy não discordou, mas também não apoiou a ideia. Finalmente os assuntos acabaram e ele teve a brecha perfeita para perguntar o que tanto queria.
–Mamãe, me diga, como está a doença? Evoluiu, você está bem... O que está acontecendo? –a voz dele tremeu um pouco.
–Ah, meu menino. –Sally suspirou do ouro lado da linha. –Não vou mentir pra você. Talvez você não me veja mais.
–Não diga isso, mãe. A senhora não pode me deixar. Eu não sei cuidar de mim direito, preciso de uma mulher pra tomar conta de mim. –ele disse em tom brincalhão e ouviu uma risada fraca de sua mãe. Mas ainda assim sentiu sua voz falhar um pouco. –A senhora disse que ia viver tempo suficiente para me levar ao altar. E eu sempre dizia que nunca ia me casar, lembra? Quer dizer, eu não quero me casar agora e nem sei se algum dia vou querer, mas se eu fosse, eu acho que já encontrei a pessoa certa. Então a senhora precisa continuar viva.
–Já encontrou a pessoa certa? –Sally perguntou, incrédula.
–Sim. –ele respondeu com firmeza.
Percy olhou para onde Annabeth estava. Ela usava, como sempre que se tratava de futebol,com uma camisa dele. Ela estava discutindo com Leo, ele tinha perdido uma aposta e ela estava revindicando o dinheiro.
“Não vale, o juiz roubou. Você viu, Chase.” Leo se agarrou.
“Valdez, você tem que aprender a não torcer pelo time errado. Até lá, você me deve grana. Passa.” Annabeth retrucou.
“Não vou te dar nada.”
“Se demorar mais um pouco eu vou te castrar!”
E então, ela ganhou a discussão e ficou com o dinheiro. Annabeth olhou para onde Percy estava, sorriu e deu um aceno rápido. Ele sorriu triste de volta.
–É mãe. Ela é uma dama. Com certeza é ela. –Percy disse a sua mãe.
–Eu sabia que vocês iam acabar juntos, meu filho. –Sally disse quase em um sussurro. –Eu sinto muito estragar a sua felicidade, mas quero que você se prepare para algo...
–Mamãe, isso não vai...
–Perseu, não me interrompa. –sua mãe pediu delicadamente. –Você disse que precisa de uma mulher para tomar conta de você. E eu acho que você já achou, meu filho. Sinto muito por isso. Eu amo você.
–Mãe, a s-senhora não vai ir embora. –Percy sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos mas logo piscou, as afastando. –Eu vou dar um jeito, mãe.
–Filho...
–Eu vou dar um jeito, mãe. –ele repetiu as palavras com mais clareza e determinação. –Eu te amo, mãe, muito. Agora eu tenho que ir, tudo bem?
–Tudo bem, Percy. –ele a ouviu sorrindo de novo do outro lado da linha. Ela sempre sorria e isso sempre o deixava melhor. –Quando você voltar, vai ter biscoitos azuis te esperando.
–E um chocolate bem quentinho e o seu abraço para me deixar feliz. –Percy completou. –Tchau, mãe.
–Tchau, filho.
Sally mesma desligou o telefone. E Percy deixou que sua cabeça pendesse. Ele segurou no corrimão de ferro que circulava a varando e olhou para o todo das montanhas. “Queria estar Florenza também”, dissera sua mãe. E ele só queria estar onde ela estivesse.
–Percy? –uma voz aveludada e carinhosa o chamou.
–Estou aqui. Só não sei se muito inteiro, mas estou. –Percy respondeu dando um sorriso contido para não parecer muito dramático. –Como foi o jogo?
–O Juventus venceu. Eu ganhei 50 euros. –Annabeth fechou as portas de madeira da varanda atrás de si e se postou ao lado dele. –Estava falando com a sua mãe?
–Sim. –foi tudo o que ele conseguiu dizer. Percy tinha um olhar cansado, triste, digno de compaixão. –Eu me sito inseguro, sabe?
–Inseguro como? –Annabeth colocou a mão em cima da dele no corrimão.
–Inseguro por ter medo de que eu não a veja quando voltar pra casa. –ele confessou, sentindo seu coração pesar.
–Oh.–Annabeth se viu surpresa e sem saber o que dizer. –Ah, meu amor...
Ela o abraçou apertado e ele aproveitou o abraço. Percy não queria chorar, apesar de saber que um dia teria que jogar tudo pra fora. Annabeth não disse mais nada, apenas ficou lá o abraçando e mostrando que estava ali para ele. Depois de um tempo, ele a afastou um pouco, mas ainda com os braços em volta da cintura dela.
–Obrigado por me emprestar o celular. –ele falou enquanto colocava o aparelho no bolso de trás da calça dela.
–De nada. –ela retrucou.
–Eu vou te beijar agora, está bem?
–Você não precisa anunciar, Percy.
Annabeth mesma tomou a iniciativa e Percy a deixou conduzir o beijo. Calmo, apaixonado e cheio de uma sensação boa que invadiu o corpo de Percy, o fazendo se sentir melhor instantaneamente. Percy puxou Annabeth mais para si e aproveitou o calor reconfortante. Quando se separaram, Percy puxou o lábio inferior de Annabeth com os dentes, de uma forma suave e provocadora.
–Eu nunca beijei uma garota que me fizesse se sentir tão bem quanto você. –ele disse a ela.
–E eu queria beijar você o dia todo, só pra te fazer se sentir assim.
Percy sorriu genuinamente para ele. Annabeth retribuiu, lhe deu um selinho rápido e depois um beijo na bochecha. Ela descansou a cabeça no peito dele e ele lhe deu um beijo na testa antes de apoiar o queixo no topo da cabeça dela. Eles ficaram em silêncio apenas curtindo a companhia um do outro. Percy olhou para o começo da montanha de onde ficava a mansão onde eles, os amigos e alguns outros agentes estavam. Haviam alguns homens subindo pela pequena estrada dali.
–Annabeth, estava programada alguma visita para nós? –Percy perguntou.
–Pelo o que eu saiba não. Por que? –Percy apontou para a metade da montanha e os olhos de Annabeth ficaram alarmados.
–Senão é visita, o que é aquilo, então?
–É uma invasão. –ela respondeu a contragosto.
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