The Scientist
24 Berlim III - "Justiça"
Notas iniciais
19 de abril
Hotel Hackesche Höfe.
Haus de Spiegel, Berlim, Alemanha.
Annabeth rapidamente começou a vestir suas roupas. Mesmo que já estivesse passado da meia noite, ela não tinha medo de sair lá fora para encontrar um bando de terroristas, ela tinha medo na verdade de que eles viessem até onde ela estava e que colocassem a vida das pessoas que ela ama em risco. Annabeth vestiu roupas simples, jeans, camisa de mangas longas com um pano grosso por causa do frio, botas de couro preto e nem ao menos se preocupou com a maquiagem. Ela pegou uma arma que escondia debaixo da cama e colocou-a no cós da calça, na parte de trás.
–Piper? –Annabeth a chamou interrompendo a cantoria. –Piper!
–Aí, o que é? Não posso nem mais tomar banho em paz? –retrucou Piper, indignada.
–Continue no banho. Eu vou sair e não me espere. –Annabeth terminou de amarrar o cabelo em um rabo de cavalo. –Deixe o celular ligado e perto de você... Talvez eu te ligue.
–Vai sair é? Usa camisinha, hein! E fala pro Percy ir com calma, vamos precisar de você andando amanhã. –Piper gritou as brincadeiras tão alto que até as pessoas no corredor deveriam ter ouvido.
Annabeth se limitou a revirar os olhos. Ela saiu do quarto e bateu na porta a alguns metros da sua. Ela esperava a única pessoa que poderia ajudá-la no momento e que não colocaria a vida dela em risco por justamente sentir um interesse especial por ela.
–Oi, Dan. –ela o cumprimentou.
–Annie. –ele pareceu surpreso ao pronunciar o nome dela.
Daniel logo baixou os olhos. Annabeth soubera das brincadeiras de Leo com ele e ela até se sentia culpada por fazê-lo se sentir assim, mas ela especificara que não queria nada com ele. Ela amava Percy e era o único sentimento mais puro e forte que ela já teve o prazer de cultivar.
–Dan, olhe, eu preciso da sua ajuda. –Annabeth colocou a mão no ombro dele e fez com que ele a olhasse enquanto explicava a história e o bilhete recebido.
–De novo eles e esse negócio de bilhetes. –ele disse depois que Annabeth terminou de explicar a situação. Daniel suspirou parecendo cansado, talvez estivesse se sentindo usado por Annabeth, já que ela só vinha procurá-lo quando precisava de um favor. E ela se sentiu mais uma vez culpada por isso. –Espere só um instante, vou colocar uma jaqueta e já volto.
Annabeth esperou parada em frente à porta. Seu pé direito batia rapidamente no chão, mostrando a sua impaciência. Ela torcia internamente para que Percy não desgrudasse os olhos daquela maldita caderneta e fosse a procurar logo agora. De todas as pessoas do mundo que ela mais amava, Percy era de longe a que ela não queria envolvida nas suas saídas perigosas.
–Voltei. –disse Daniel. –Só quero ver a onde essas tais “pistas” vão acabar nos levando.
[...]
Assim que colocaram os pés na calçada em frente ao Hotel, Annabeth procurou alguma coisa que indicasse uma dica dos vermelhos. Enquanto ainda estavam dentro do Hotel, ela comprou um sobretudo preto e um cappuccino. Enquanto se vestia ela não imaginou que estaria tão frio lá fora. Daniel também comprou um sobretudo e estava ocupado demais o abotoando para ficar atento a qualquer movimentação estranha.
O cappuccino fumegava na mão de Annabeth e ela bebeu um gole generoso sentindo sua língua queimar e seu corpo se aquecer. Ela e Daniel ainda estavam parados em frente ao Hotel e as ruas de Berlim continuavam com algumas pessoas perambulando, mesmo sendo 00h45min. Um homem com as golas do sobretudo erguidas até a metade do seu rosto, cobrindo-o, e um chapéu negro que cobria seus olhos; se aproximou deles. Ele esbarrou em Annabeth, que conseguiu equilibrar seu cappuccino impedindo-o de cair no chão. O homem saiu apressadamente, nem lhes dando a oportunidade de ver seu rosto ou dele até mesmo se desculpar.
–Sujeito estranho. –murmurou Daniel.
–Sujeito suspeito, isso sim. –Annabeth disse e olhou para o chão, onde repousava um envelope vermelho. –Um sujeito estranho, suspeito e que nós deixou um recadinho.
–Será que eles não percebem que ficar entregando bilhetes não nos assusta? –Daniel pegou o envelope do chão e o abriu. –Aqui diz que nós deveríamos olhar mais espelhos para descobrirmos mais coisas. –Daniel bufou e fez uma cara de repulsa. –Agora eles estão nos dizendo para olharmos mais no espelho. Estão insinuando o quê, que somos feios?
–Não, Dan. –Annabeth suspirou e lhe entregou o café enquanto tirava das mãos dele o bilhete. –Aqui não diz para nos olharmos mais no espelho, diz que deveríamos olhar mais espelhos, sem preposição. Eles não estão nos insultando, estão nos dizendo a localização deles.
–Sério? Bom, se você vê uma pista aí, meus parabéns. Porque eu não vejo nada. –Daniel confessou.
–Existe um lugar em Berlim assim.
Annabeth fechou os olhos tentando se lembrar. Percy havia comentado de um estúdio de dança que era enfeitado com espelhos em todos os lugares. Era pouco conhecido e muito seletivo com as pessoas que iam até lá. Percy havia falado que seria interessante dançar com uma pessoa e ver a dança sendo reproduzida por vários espelhos — nas paredes, no teto e até mesmo em alguns lugares do chão. Annabeth retrucara dizendo que seria muito melhor fazer sexo ali, Percy corou, mais ainda assim concordou. E então eles fizeram sexo depois, só para se imaginar fazendo aquilo.
–Haus de Spiegel, a casa dos espelhos. Fica na divisa de Berlim e Brandemburgo. Não é muito longe daqui, acho que uns três quilômetros. –Annabeth disse a ele. –Você tem armas no carro, Dan?
–Sim. –ele respondeu. –Annabeth, você não acha que seria melhor avisarmos aos outros agentes? Isso pode ser perigoso.
–Não. Eles vão querer colocar limites nas minhas ações e isso eu não tolero. Pegue as armas, vamos precisar. — Annabeth teve uma ideia e disse ao amigo: — Dan, me espere aqui, vou até a recepção do hotel e já volto.
Ela corre até a recepção do hotel e falou com um rapaz chamado Werner. Ele era loiro e alto como todos os alemães, mas não era tão carrancudo e mal educado, seus cachinhos loiros o faziam parecer um bebê que cresceu até 1,92m. Annabeth puxou um pedaço da manga da camisa social dele. E ele olhou para baixo.
–Hallo, fräulein Chase! –ele a cumprimentou educado e animado, como sempre. Ele prosseguiu falando em alemão: -Gostaria de algo?
–Sim, Werner. Um pequeno favor. –Annabeth respondeu a ele também em alemão. –Se Percy passar aqui me procurando ou que seja até mesmo apressado, diga a ele que eu adoraria dançar entre espelhos.
[...]
O caminho de carro até “a casa dos espelhos” foi silencioso. Daniel a todo o momento insistia com Annabeth para chamar outros colegas de trabalho, Annabeth negava as perguntas eram feitas. Ela achava que Daniel estava sendo bem medroso pra falar a verdade. Percy nunca faria isso, diria que era perigoso, claro que diria, ele adorava lembrá-la que ela é louca; mas iria com ela até o inferno com um sorriso no rosto.
As luzes de Berlim já não se faziam mais presentes na estrada por onde eles passavam. A divisa de Berlim e Brandemburgo, mais especificamente naquela via, era escura e quase não tinha pessoas andando na rua. Mas o caminho foi rápido. Logo eles estavam numa ruazinha deserta, sem ninguém por perto e apenas algumas poucas casas. Parecia o centro comercial de uma cidadezinha pequena.
–Haus de Spiegel. –leu Daniel. –É logo ali, Annie.
–Já vi. –Annabeth tirou o cinto e saiu de dentro do carro. Fechou a porta logo em seguida e observou a pouca movimentação da rua. –Isso está estranho. Tudo aqui parece de mentira. Ou parece... Que as pessoas têm medo de sair de casa.
–Estranho? Está parecendo mais o cenário de um filme de terror. –Daniel olhou para Annabeth e viu o olhar de decepção dela. Ela realmente não queria uma pessoa ajudando-a a ficar mais assustada. Ele pigarreou. –Bem, de qualquer forma, vamos lá.
Eles se postaram em frente ao estúdio de dança e logo abriram as portas de vidro, que por sinal, estavam destrancadas. Daniel achou um interruptor e acendeu as luzes. E Annabeth não pode conter um arquejo de surpresa. O lugar era lindo, onde não tinha a presença dos espelhos, tinha a presença de um revestimento de madeira.
Um barulho foi ouvido. Era o som de passos, mas tanto Annabeth quanto Daniel não viram ninguém. Annabeth não pensou duas vezes, tirou a arma do cós da calça e apontou para o lugar de onde ouvira o barulho. Daniel fez o mesmo.
–Que merda foi essa? –ele sussurrou ao lado dela.
–Fomos nós. –uma voz disse a direita dos dois.
Era um sujeito alto e magro demais. Seus cabelos pareciam palha queimada, seus olhos eram de um azul morto e ele tinha um sorriso doentio no rosto. Annabeth revirou os olhos, um homem anoréxico e com um sorriso ridículo era tudo o que ela não precisava.
–Prazer, senhorita Chase e senhor Crawley. Eu me chamo Octavian, aquele que vai fazer das suas vidas um completo inferno. –a voz esganiçada, falou.
Annabeth o olhou com escárnio e atirou. O tiro foi certeiro bem no joelho esquerdo de Octavian. Nunca que ela iria deixar um cara ridículo daqueles a amedrontar. Octavian ficou gritando como uma garotinha, rolando de dor pelo chão. Outros homens surgiram e encapuzaram Daniel e Annabeth. Ela tentou se rebater, mas tiraram a arma de suas mãos e lhe deram uma coronhada na nuca.
Ótimo, ela pensou, mas uma coronhada para a coleção.
Annabeth sentiu seu corpo imobilizado pela pancada sendo arrastado. Mais vozes foram ouvidas, como uma reunião de bêbados em um bar. Homens, aquele lugar só tinha homens. E Annabeth era a única mulher. Aquilo lhe assustava.
O capuz foi tirado de si. Ela olhou para o lado e viu Daniel desacordado com sangue escorrendo de seu nariz e sua boca. Foi preciso muito mais que uma coronhada para acalmá-lo. Havia cinco homens na sala no total e cinco adolescentes de no máximo 18 anos.
–Bem vindos a nossa base de treinamento, subterrânea como deve ter percebido, senhorita Chase. –Octavian disse com o rosto contorcido em dor pelo tiro e usando um outro homem mais baixo como apoio. –O estúdio de dança era só uma distração, mas ainda assim as pessoas tem medo de ficar passando por essa rua, como você também já deve ter percebido.
Os homens na sala sorriam e olhavam com luxuria para Annabeth. Um medo incomum a invadiu e ela se lembrou das cenas terríveis de seu passado. Lembrou-se daqueles mesmos olharem cruéis direcionados a ela. Mas aqueles mesmos homens saíram da sala, ficando apenas os adolescentes e Octavian. Daniel foi carregado para fora dali também.
–Meninos, como base do treinamento de vocês, é necessário aprender que não existe misericórdia com os inimigos. Essa desgraçada, por exemplo, na primeira oportunidade me deu um tiro que provavelmente vai me deixar alejado! Ai, droga! –Octavian gemeu de dor enquanto ensinava a sua lição para os garotos. –Vocês dois aí, segurem os braços dela.
Os meninos, altos e fortes, foram até Annabeth. Ela chutou no meio das pernas de um, mas recebeu um tapa muito forte de outro. O lado direito de seu rosto ardia. Eles seguraram os braços dela e algumas lágrimas caíram de seus olhos. Aquilo não poderia estar acontecendo novamente. E dessa vez tudo era muito pior, não havia como ela usar sua inteligência para se salvar e não havia ninguém para resgatá-la.
–E com as mulheres nós devemos ser um pouco mais severos. Afinal, elas teimam em se meter em assuntos e trabalhos de homens. –Octavian sorria sinistramente andou , usando o cara mais baixo como apoio e gemendo de dor, calmamente na direção de Annabeth. Ele abriu o sobretudo dela com um puxão violento, fazendo todos os botões da peça de roupa se soltar. –Então nós devemos humilhá-las da forma mais estrema. Nós a usamos como o nosso saco de porra.
Os garotos sorriram. E Annabeth pensou que não havia forma mais maldosa de ensinar alguém. Ela odiou ainda mais os vermelhos por isso, como todo o seu coração. Annabeth ergueu a cabeça e aceitou o seu castigo, não iria abaixar a cabeça para esses imbecis.
–Se eu souber que alguém deixou de estuprá-la, será morto. Não temos tempo para covardes aqui. –Octavian se dirigiu até o final da sala para sair dali. –Divirtam-se, rapazes.
[...]
Que diferença faz se o corpo pode produzir benzeno, freon, enxofre ou tetracloreto de carbono; fazendo com que alguma substância tóxica possa ser expelida para fora do corpo? Que diferença faz que isso era um avanço para os estudos de Percy? Que diferença faz se ele tinha feito a barba ou não, mesmo odiando-a? Nada disso importava, porque ele não conseguia mais ficar trancafiado naquele quarto.
Ele precisava de algo para acalmá-lo, para o fazer um pouco feliz, de algo para distrair a cabeça. Ele precisava dela.
–Ei, Jay! –ele chamou Jason, que estava, no momento, colocando uma roupa qualquer para ver Piper. –Eu vou com você lá.
–Hã... Não, Percy. –Jason terminou de pentear o cabelo. –Nós não curtimos orgias.
–Não é isso, seu imbecil. –Percy se levantou e ajeitou a blusa toda amarrotada e posicionou corretamente os óculos no rosto. –Eu vou ver a Annabeth.
–Você está caidão por ela, não é? –Jason sorriu para ele atrás do espelho. –Não consegue ficar um dia sequer sem vê-la.
–Olha quem fala. Parece que se não dormir com a Piper vai ficar incompleto.
–E vou mesmo, Percy. É tão bom namorá-la. Ter a garota mais linda do mundo ao seu lado...
–Está bem, Jay. Já estendi que você está louco por ela. –Percy o interrompeu e sentiu algo ruim crescendo dentro do seu peito, como uma sensação de que alguma coisa ia dar errada com a sua loira. –Eu estou sentindo algum pressentimento ruim.
–Ih, saí pra lá, cara. –Jason fez uma careta. –Esse negócio de pressentimento é sexto sentido de mulher. Cuidado pra não começar a jogar no outro time, Percy. O lado rosa da força. –disse Jason gargalhando mais do que o necessário.
–Ha, ha, ha. Muito engraçado, Grace. –Percy revirou os olhos e abriu a porta do quarto. –Vamos logo.
–Ok, mas sem orgias.
Percy bateu na porta do quarto das garotas. Depois de três segundos, Piper abriu a porta. Ela estava só com um roupão branco cobrindo seu corpo, como se estivesse acabado de sair do banho. Sua expressão era serena e calma, e ela tinha um sorriso aberto no rosto, apesar de parecer ainda não ter visto quem batia a porta.
–Oi, Annie, esqueceu alguma cosia? –Ela perguntou, mas assim que seu olhar se levantou e seus olhos bateram em Jason o sorriso em seu rosto alargou-se mais ainda. Percy não pôde deixar de admitir internamente o quanto o amigo tinha sorte por ter uma namorada tão linda. Claro que ele preferia a sua loira e a achava muito mais bonita. –Ah, Jay.
Ela se jogou sobre ele abraçando o seu pescoço e beijando profunda e empolgadamente. O beijo foi tão longo e tão pornográfico que Percy ficou constrangido. Ele pigarreou para chamar atenção e parece que só aí, Piper o notou e Jason lembrou que ele estava ali.
–Ah, Percy, desculpa, eu não te vi. –Piper sorriu para ele e se inclinou lhe dando um beijo na bochecha. –O que vocês querem?
–Eu só quero saber se Annabeth está aí. –Percy disse.
–Não, ela acabou de sair, faz uns cinco minutos. –Piper respondeu.
Aquele sentimento de que algo ruim iria acontecer, voltou a alfinetar o coração de Percy. Algo de muito errado iria acontecer a Annabeth e ele teria que estar lá para impedir. Ele olhou para Jason e o amigo entendeu o que ele iria fazer.
Jason suspirou, assentiu e disse a Piper:
–Se veste, amor. Vamos ir atrás da loira.
[...]
Chegando ao saguão do hotel, Percy logo procurou por Annabeth, mas não a encontrou em lugar nenhum. Ele tentou ligar para o celular dela, mas estava dando fora de área. Ele não tinha como ir atrás dela se não sabia qual era o destino que deviriam ir. Percy ainda tentava ligar para Annabeth, Jason e Piper estavam olhando um catalogo dos pontos turísticos da cidade e outra pessoa vinha até eles.
–Qual é? Estão pensando em fazer uma festinha sem mim? –Leo perguntou.
–Valdez, você viu a Annabeth? Diga que sim. –Percy o agarrou pela gola da camisa.
–Ou, ou, calma, garoto. Não, eu não a vi. Eu só estava aqui conversando com a minha namorada pelo telefone do hotel. –Leo tirou as mãos de Percy de cima de si.
–Você tem namorada?
–Tem sim, é aquela garota que ele conheceu na festa que fomos antes da missão, Percy. –Piper respondeu por Leo. –Calipso.
–Ela era linda. –Percy comentou.
–Com toda certeza, cara, com toda certeza. –Leo disse abobado balançando a cabeça. Mas logo retomou uma postura séria. –Enfim, o que está acontecendo com a loira?
–Ela saiu e o Percy está com um pressentimento ruim de que algo de errado vai acontecer com ela. –Jason respondeu.
–Cara, isso é sexto sentido de mulher. –Leo falou.
–Meninos, parem já com isso. Se o Percy quer ir atrás dela, nós vamos ajudar. –Piper os repreendeu.
–Beleza, mas pra onde vamos? –Leo perguntou.
Quando todos ficaram sem fala e sem ter o que responder. Um sujeito loiro, alto, de olhos castanhos curiosos e feições de bebê, veio até eles com um sorriso gentil nos lábios.
–Herr, Jackson. seine Freundin sagte ihm eine nachricht zu geben! –disse Werner, o recepcionista que Percy achava maneiro.
–Ei, ei, ei. Vá com calma, cara, eu não falo alemão. –Percy o interrompeu.
–Ah, perdão, senhor. Eu havia me esquecido. –Werner fez uma reverencia exagerada para Percy e continuou, ainda sorrindo, a falar: -A sua namorada, que eu juro parecer um típica alemã, disse para eu lhe dar um recado.
–E qual seria, Werner?
–Ela disse que adoraria dançar com o senhor no meio de um monte de... Caramba, deixe-me lembrar... Ah, espelhos! Ela adoraria dançar com o senhor em meio aos espelhos. –Werner franziu as sombracelhas e se inclinou sussurrando para Percy. –Eu não sei muito bem o que isso quer dizer lá de onde vocês vieram, mas aqui isso significa que eu tenho que lhe desejar uma boa noite de diversão.
Werner piscou um olho e sorriu malicioso para Percy, que apenas sorriu. Afinal, aquilo não tinha absolutamente nada a ver com fazer sexo até as pernas ficarem bambas.
–Obrigado, Werner. Ou melhor: Vielen dank, Sir. –Percy agradeceu em alemão, como havia treinado desde que chegara ali.
Ele se virou para os amigos que o olhavam com expectativa. Percy ajeitou os óculos mais uma vez, que insistiam em cair da sua face .
–Vamos para a casa dos espelhos a uns três quilômetros daqui. –Percy anunciou.
–Beleza. Vocês estão a fim de dar um rolé no meu carro cheio de armas? –Leo sussurrou para eles.
[...]
–Não entendi porque você tem que dirigir o carro que é meu. –Leo murmurou emburrado.
–Porque eu dirijo melhor e com mais segurança. E porque esse carro está cheio de explosivos e você iria batê-lo no primeiro poste que aparecesse. –Percy respondeu.
–Grandes merda.
Leo estava de braços cruzados e um bico nos lábios enquanto se remexia no bando do passageiro. Jason e Piper estavam no banco de trás ligando para os outros agentes e pedindo reforços. Segundo Werner, Annabeth havia saído com Daniel, o que supostamente significava que ela havia inventado de se aventurar em mais uma daquelas missões solo suicidas.
–Armas? –Percy perguntou a Leo.
–Aqui. -Leo pegou duas pistolas no porta malas do carro. –Essas belezinhas aqui foram invenções minhas, elas tem calibre e diâmetro...
–Leo, depois você me explica o que essas armas têm, por enquanto eu só quero usá-las. –rebateu Percy.
–Ai, tá, estraga prazeres.
–Têm explosivos aí ou alguma bomba?
–Pra que você quer uma bomba, Jackson, vai explodir o que?
–O lugar pra onde vamos. –Percy ajeitou os óculos novamente, já estava perdendo a paciência com eles. –Acho que aquele lugar é o centro de treinamento dos vermelhos. Se destruirmos, vamos acabar com mais uma das peças-chaves. E assim estaremos mais próximos de vencer essa guerra.
–Você falou de uma forma sinistra agora. –disse Piper, enfiando a cabeça entre Percy e Leo. –Pareceu o James Bonde fazendo uma ameaça.
–Foi sexy, não é? Acho que é por isso que a loira ficou gamadinha nele. –Leo concordou.
–E com essa barba por fazer e esses óculos, você fica com uma cara mais misteriosa ainda. Como se não fosse hesitar em matar qualquer um que fizesse mal a sua amada. –Piper acrescentou.
–Isso é tão romântico, não é? –Jason também enfiou a cabeça entre os dois. –Perseu Jackson o cientista louco que não mede esforços pra salvar a agente da CIA com qual ele dorme, transa loucamente e, em noite raras, faz amor.
–Daria uma boa chamada para um filme, não acham? –Leo sorriu para os amigos no banco de trás.
–Dá pra vocês pararem com isso. –disse Percy, irritado e envergonhado ao mesmo tempo.
Os amigos gargalharam da expressão dele. Mas o sorriso no rosto de todos morreu quando perceberam que haviam chegado ao seu destino. O estúdio de dança se fazia presente bem na frente deles. Eles ouviram um tiro sendo dando do lado de dentro e Percy logo pegou uma das armas da mãos de Leo e arrancou aqueles óculos irritantes do rosto.
–O negócio é o seguinte: plano rápido. -Percy saiu do carro e seus amigos fizeram o mesmo. –Leo, você vai instalar explosivos nos quatros pontos cardiais do edifico. Dado o diâmetro e a estrutura, o centro de treinamento fica no subterrâneo. O que facilita que ninguém aos arredores ouça a explosão.
–E o que nós fazemos? –Piper perguntou.
–Piper você fica aqui e dê as coordenadas para que os agentes possam chegar aqui o mais rápido possível. Qualquer movimentação estranha que você suspeite não ser a CIA, ligue para o meu celular. E Jason, venha comigo.
Percy e Jason entraram, armados, no local, que era, de fato muito bonito. Eles logo ouviram vozes vindas de um ponto abaixo do chão. Havia uma alçapão ali. Percy o abriu e encontrou escadas. O lugar onde eles foram parar era um centro enorme de treinamento. Com piscina no canto direito, barras de ferros e matérias de academia no canto esquerdo e alvos para tiros no centro. Percy se lembrou de que tinha pouca experiência com armas, mas tinha uma mira poderosa. Sempre ganhava brinquedos quando ia ao parque com Annabeth na infância. Ele se lembrou também do cara que matou em Berlim e de que em alguns segundos teria que matar pessoas e aquilo o fazia se sentir culpado.
–Percy, as vozes estão vindo mais de baixo. –Jason sussurrou para ele.
–Sim, percebi também.
Jason bateu com o pé de leve no chão e percebeu que abaixo de si o barulho das pisadas fazia eco. Ele havia acabado de encontrar outro alçapão. Jason mesmo o abriu e Percy desceu primeiro pelas novas escadas, da forma mais silenciosa que conseguiu.
Quando estava na metade das escadas, Percy ouviu o som de bofetadas fortes sendo dadas em alguém e de roupas sendo rasgadas.
–Kommen müeir! Ruhig! –disse a voz de um homem. Percy conseguiu entender algo como: venha mulher, quieta.
–Bitte, nicht! – a voz de alguém que ele tanto conhecia implorou.
Ele desceu as escadas em disparada e a cena que viu fez seu coração se partir em pedaços. Cinco garotos estavam rasgando as roupas de Annabeth. O lado direito do rosto dela estava vermelho e um filete de sangue escorria de sua boca. Seu rosto estava banhado em lágrimas e sua expressão demonstrava que ela havia relutado muito em mostrar medo. Mas ela não conseguiu e agora estava ali, implorando para não ser abusada.
Os garotos estavam tão concentradas na maldade que estavam prestes a fazer que nem mesmo perceberam Percy ali. Percy mirou na cabeça de um deles. O que estava tirando as calças de Annabeth. Ele esperou mais um segundo e meio e atirou. O garoto caiu morto no chão e os outros quatro olharam Percy com uma expressão de medo.
Mais outro rapaz caiu no chão. Percy olhou para trás de si e viu Jason com a arma em punho, ao que tudo indicava, ele havia atirado no garoto. A expressão de Jason mostrava a mesma raiva e indignação de Percy.
–Meine liebe. –Percy disse para Annabeth em alemão, como ele também havia treinado. Ele estava a chamando de amor. –Saiam de perto dela. –Ele disse aos meninos restantes na sala, gesticulando com a arma.
Ele foi até Annabeth e pegou o sobre tudo dela do chão e a cobriu, ela já estava praticamente nua. Ele a abraçou forte, seu pressentimento estava certo. Ela estava precisando dele. Ela agarrou o pescoço dele como se aquilo a conectasse a vida, e chorou amargamente, soluçando e dizendo palavras desconexas. Percy acariciou os cabelos dela e lhe deu um beijo na têmpora. Uma raiva incomum se inflamou dentro de Percy.
Ele observou a sala em que estavam, parecia um escritório e um lugar de executamento ao mesmo tempo. A luz amarela de lá era fraca, tinha uma mesa no centro e uma cadeira no estilo militar perto dela. No canto havia uma câmara de gás pequena, como aquelas usadas pelos nazistas na segunda guerra, que aparentava ter capacidade para oito pessoas. Percy olhou para os garotos que Jason havia obrigado a ficar de joelhos no chão. Ele soltou Annabeth delicadamente e pegou na gola da camisa de dois dos garotos.
Ele os arrastou até a câmara e os jogou lá dentro como saco de palha. Ele fez a mesma coisa com o outro rapaz restante. Um deles começou a chorar e implorar pela sua vida em alemão, como Percy não entendia nada e já estava com raiva e irritado pela hipocrisia do adolescente em implorar pela vida, deu um soco no nariz dele, o quebrando-o e fazendo sangrar.
–Cale a boca, seu merda. –Percy disse a ele e fechou a câmara de gás.
Percy ligou o interruptor da câmara e logo ela começou a funcionar. Os garotos se debateram e gritaram lá dentro, suas mãos batiam no vidro embaçado. Mas Percy não tinha pena e estava satisfeito em vê-los sofrer. O grito deles era música para seus ouvidos. Logo já não se ouvia mais nenhum grito, os rapazes estavam mortos.
Mais passos foram ouvidos na escada. Eram agentes da CIA, sendo liderados por Joey. Eles olharam a cena em choque, mas logo se recuperaram. Joey gritou algumas ordens e eles arrombaram a porta que dava em outra sala. Os agentes da CIA trouxeram mais alguns vermelhos, todos gritando e implorando por suas vidas.
–Matem todos. –Joey ordenou aos agentes. –Leo Valdez irá explodir esse lugar logoem seguida.
–Deixe que eu faço isso. –Percy falou.
Joey o olhou e depois olhou para a câmara de gás logo atrás de Percy. Ele entendeu o recado e assentiu. Percy foi até Annabeth que estava abraçando Jason e ainda chorando.
–Leve-a embora daqui, Jason. –Percy pediu.
–Ela precisa de você, cara. –Jason retrucou.
–Mas eu preciso matá-los.
Annabeth olhou para Percy, os olhos suplicando para que ele a abraçasse e a levasse para longe dali. Ele resistiu ao impulso de fazer tudo aquilo. A raiva que ele sentia era maior que o amor por ela, no momento. Ele precisava pagar na mesma moeda a aqueles terroristas que estavam ameaçando a segurança do mundo. Ele precisava fazer justiça.
Jason percebeu que Percy não iria acompanhar Annabeth e, depois de lançar um olhar reprovador para o amigo, ele subiu as escadas com Annabeth colada ao seu corpo. Percy se virou para ver quantos outros vermelhos tinham ali. O total era de dezesseis. E a câmara só suportava oito por vezes, eles eram o dobro. Joey tirou os corpos dos garotos mortos e colocou os oitos dentro da câmara.
–Não. –Percy disse chamando a atenção dos agentes. –Coloque os dezesseis aí.
–Jackson, aqui só cabe oito. –Hall (o montanha ou o traveco grandalhão, o que você preferir) disse.
–Então vamos fazer caber todos.
Percy chutou um homem e o jogou no chão. Ele pisou no antebraço dele, quebrando-o e pegou um tijolo que curiosamente estava debaixo da mesa. Percy quebrou as pernas do homem, que gritava de dor, e o dobrou como um pacote de biscoitos. Ele o enfiou dentro da câmara, e o homem, por incrível que pareça, coube perfeitamente lá dentro.
Os agentes da CIA o olharam surpreso. Percy sempre fora muito bom e jamais faria aquilo com uma pessoa. Mas eles mexeram no ponto fraco errado dele, eles mexeram com quem ele mais amava no mundo. Os agentes seguiram o exemplo dele e quebraram os ossos dos terroristas, um por um, até fazer caber os dezesseis dentro da câmara.
Quando todos já estavam em seus devidos lugares, Percy apertou o botão que ligava o aparelho. E ouviu-os gritando mais ainda de dor lá dentro. Ele nem sequer esperou que todos morressem., subiu as escadas e procurou logo a saída daquele lugar. Os agentes fizeram o mesmo.
Quando já estavam todos lá fora, Leo acionou os explosivos. Um barulho parecido com os de fogos de artifício foi ouvido. E todos ali presentes tiveram a certeza que uma das peças-chaves, o centro de treinamento dos vermelhos, fora destruído.
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