The Science Of Seduction: Lesson Three
5 Parte v - hold me, thrill me, kiss me, kill me
Notas iniciais
Eram em torno de cinco da manhã quando, finalmente, Sherlock e John voltaram à Baker Street. O par arrastou-se escada acima, a adrenalina baixando e deixando nada além de um rastro de cansaço e e músculos doloridos e rígidos, Sherlock jogou-se sem cerimônia sobre sua poltrona, as pernas longas estendidas e a cabeça jogada para trás, os olhos fechados. John, sem dizer palavra, foi até a geladeira, encontrando ainda algumas sobras em bom estado. Serviu dois pratos e esquentou-os rapidamente no microondas, levando a refeição improvisada até a sala.
– Sherlock — ele chamou, enquanto largava os pratos sobre a mesinha de café — venha comer alguma coisa. — o detetive endireitou-se na cadeira e fez uma careta para o prato de espaguete e almôndegas.
– Isso não é um pouco… pesado para o horário? — John fuzilou-o com um olhar que dizia claramente “Não estou disposto a aceitar um não”. Sherlock fez uma careta e pegou o prato, começando a comer devagar. — Suponho que depois de “me enfiar uma refeição quente garganta abaixo”, você vai me obrigar a colocar meu pijama e ir para a cama como um bom menino?
– Não sem um banho, com certeza — John replicou, franzindo o nariz de brincadeira — Você estava bem avisado; nada de rebeldias, senhor Holmes. — Sherlock sorriu de canto sem responder, limitando-se a terminar de comer o mais rápido possível. John mastigou uma almôndega pensativamente, antes de acenar para o detetive com o garfo. — Vamos lá, você deve estar morrendo de vontade de detalhar como você chegou até Moran. — Sherlock deitou-se no sofá, as mãos postas diante do rosto em sua postura habitual, e começou a falar.
– Foi muito simples, pra falar a verdade. Milverton falou do “Tio Seb”, que servira com Lord Goodwin e retornara recentemente do Afeganistão. Foi só uma questão de cruzar referências, reduzir a lista e encontrar quem se encaixava. Brincadeira de criança.
– Há mais de 140 mil membros no Exército Britânico, sem contar os reservistas. — John falou, limpando os lábios e largando o prato sobre a mesinha de café — E desses, uns 15 mil serviram na Guerra do Afeganistão. — Sherlock bufou, como costumava fazer ao achar que John estava sendo particularmente obtuso.
– Um homem como Lord Goodwin não manteria relações cordiais pós-serviço com um homem ordinário, John. Eu estava em busca de alguém que servira com ele, que certamente tinha uma ficha de serviço excepcional, habilidades destacadas em alguma área específica, possivelmente uma posição hierárquica elevada quando de seu serviço durante a guerra, e que retornara do serviço nos últimos dois anos, no máximo. Isso tornou a busca ridiculamente fácil. — John ergueu-se com dificuldade da poltrona e fez sinal para que Sherlock continuasse falando, enquanto ele ia à cozinha ligar a chaleira e procurar analgésicos em sua maleta — Depois da filtragem, encontrei seis nomes compatíveis; destes seis, apenas quatro foram ao Afeganistão. E dos quatro, apenas dois já haviam retornado: nosso Coronel Sebastian Moran, e um Major Sebastian Leigh-Jones. Depois, foi só questão de rastrear Moran através de registros de hotel e uma ajuda de alguns contatos… menos convencionais. — John voltou para a sala com duas xícaras de chá e um punhado de pílulas, que dividiu entre ele e Sherlock.
– E o outro, o tal Major? Você nem cogitou ir atrás dele? — a voz de John estava rouca e falha, e era audível que falar era um esforço doloroso. Sherlock sentou-se, engolindo as pílulas com um longo gole de chá.
– O Major Leigh-Jones voltou à Inglaterra por invalidez. Foi ferido por um estilhaço de granada em combate e ficou paraplégico. — o detetive encarou-o por um momento, a cabeça inclinada. — Não me ocorreu, durante a investigação, que você poderia ter conhecido Moran enquanto estava lá. Uma tolice enorme da minha parte. — sua voz apresentava o tom amargo de quando perdia algum detalhe vital que, em sua opinião, não poderia ter passado despercebido. — Vocês… foram amigos? — John deu um riso cansado, balançando a cabeça.
– Não, amigos não. — ele manteve a voz baixa — Você viu a ficha de serviço dele; ele era uma espécie de lenda. Comandava um pelotão de snipers de elite, e era o melhor deles. Todos os oficiais tinham um respeito tremendo pelo homem, e eu não era exceção. Claro, corriam diversos boatos acerca dele… que era amigo demais das cartas e dos dados, que estava acumulando dívidas com os outros oficiais por causa disso, que seu temperamento era imprevisível… mas a conduta dele em campo era indefectível, então ignorávamos os rumores. Pessoalmente, eu convivi muito pouco com ele… mas uma das últimas coisas que ele me disse foi “Podíamos usar uma mão firme como a sua no pelotão, Watson”. E eu respondi que minha mão firme era para o bisturi, não para os fuzis. Depois daquilo, não o vi mais, apenas soube que ele tinha sido designado para uma missão secreta. — ele tomou o resto de seu chá, tentando reprimir uma careta de dor. — Então, quando você largou o nome dele daquele jeito, foi um choque e tanto. — Sherlock ergueu-se, espreguiçando-se como um gato, e estendeu a mão para John.
– Vamos. Vou preparar um banho quente pra você, tomar uma ducha e dormir oito horas como um bom menino. — John aceitou a mão, rindo, e deu-lhe um beijo no queixo.
– Seu bastardo. Deboche do homem que tomou uma surra pra salvar seu traseiro, vai. — Sherlock abraçou-o pela cintura e conduziu-o devagar até o banheiro. — Da próxima vez, você sai no braço com o grandalhão enquanto eu fico na retaguarda.
– Não me culpe pelo seu temperamento terrível, doutor Watson. — Sherlock respondeu, enquanto preparava o banho do outro — Se eu começasse a briga, ainda assim você ia dar um jeito de me jogar para o lado e terminar sozinho.
Depois de vinte minutos imerso em água quente, John sentia-se ainda mais exausto, se isso era humanamente possível. Ele precisou da ajuda de Sherlock para sair da banheira, e praticamente arrastou-se até o quarto.
– Fico feliz de não ter que subir aquelas malditas escadas — ele resmungou, acomodando-se na cama de lado, tentando não ferir mais as costas contundidas. Sherlock fechava as janelas, por onde a claridade baça da manhã já penetrava. — De certa forma, isso me lembra os tempos de universidade… — ele comentou, em meio a um bocejo. Sherlock olhou-o, curioso, enquanto se ajeitava na cama de maneira a não perturbá-lo.
– Como assim? — John riu e virou-se com cuidado, de forma a ficar de frente para Sherlock.
– Eu e Mike saíamos nos finais de semana, enchíamos a cara, arrumávamos brigas em praticamente todos os pubs e voltávamos pro alojamento às seis da manhã, completamente destruídos. A diferença é que eu não tenho que acordar em duas horas com uma ressaca infernal e enfiar a cara num tomo de Anatomia com duas mil páginas. — Sherlock sorriu, balançando a cabeça, e tomou a mão de John.
– Posso arranjar pra você acordar em duas horas.
– Aproveite e arranje seu funeral, porque eu mato você, se fizer isso. — os olhos do médico se fecharam por vontade própria, e ele murmurou, no limiar do sono — Boa noite, Lockie. — Sherlock beijou-lhe as pontas dos dedos antes de fechar os olhos.
– Boa noite, John.
SHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJW
A luz do Sol brincava com as curvas e cicatrizes do corpo de John, e Sherlock percorria seus caminhos com os lábios e a língua, ouvindo os gemidos baixos de seu amante… que eram interrompidos, de tempos em tempos, por um barulho irritante, como o batucar insistente de unhas sobre uma mesa. Ele traçava com a língua a cicatriz no quadril de John, que enlaçara os dedos em seus cabelos, quando aquele barulho irritante recomeçou, dessa vez sem pausa, e ele ergueu a cabeça…
… o que o levou a abrir os olhos e descobrir que estava tendo um sonho muito feliz, do qual fora acordado, aparentemente, pelo barulho de seu celular vibrando sobre a mesa de cabeceira. Pegou o aparelho sem conter um bufo de irritação, que transformou-se em um rosnado ao ver que o nome no visor era o de seu irmão. Levantando com o máximo de cuidado para não acordar John, ele saiu do quarto, atendendo a ligação com um grunhido.
– E o que você pode querer a essa hora, Mycroft?
– Eu dificilmente classificaria onze da manhã como um horário inapropriado para um telefonema, caro irmão.
– Você sabe muito bem que nós chegamos em casa às cinco da manhã, intrometido.
– Abra a porta, Sherlock.
Com um desejo homicida crescendo no peito e tendo que conter a todo custo a vontade de sair batendo os pés com força, Sherlock foi até a porta do flat e escancarou-a sem fazer ruído, encontrando seu irmão, perfeitamente vestido e penteado como era habitual, com uma sacola de papel pardo nas mãos.
– Não faça barulho, John está dormindo. — ele rosnou, afastando-se para deixar Mycroft entrar. O político encarou-o com uma sobrancelha erguida, antes de largar a sacola sobre a mesa da cozinha e sentar-se na poltrona de John.
– E desde quando você é tão respeitoso e sensível em relação ao descanso alheio, irmãozinho?
– Não é o descanso alheio, é o sono do John. Fosse qualquer outra pessoa, você poderia entrar aqui com a Banda dos Fuzileiros Navais tocando God Save the Queen que eu não estaria nem aí.
– Ah, o amor… — Mycroft suspirou, debochado — Como você está se sentindo, Sherlock? — o detetive respirou fundo, afundando em sua poltrona.
– Foi só um arranhão sem grandes consequências. Moriarty dera ordens para que eu não fosse ferido; o tiro foi um acidente infeliz. — ele fechou os olhos e pressionou a ponte do nariz com as pontas dos dedos. — John, por outro lado…
– Gregory me relatou a extensão dos ferimentos do pobre doutor. Há algo mais que possamos fazer para aliviar as aflições do nosso bom amigo, além de manter a voz baixa e, quem sabe, a chaleira ligada? — ele ergueu-se e fez sinal para que Sherlock o seguisse até a cozinha, onde começou a preparar chá para os dois. Sherlock jogou-se sobre uma das cadeiras da mesa, abanando a cabeça.
– Ele diz que só precisa de repouso e alguma coisa forte para a dor, e em dois dias — ele fez aspas com os dedos — “estará como novo.” — Mycroft pegou a sacola de papel e tirou dois frascos brancos de dentro.
– Fico feliz de poder ajudar nisso, então. Estes aqui ainda não foram liberados para comercialização pelo Departamento de Saúde, e provavelmente nem serão, por mais que eu tente; são potentes, não-aditivos e quase totalmente livres de efeitos colaterais.
– E por que ainda não foram liberados? — Sherlock olhou para o irmão, que o encarava com a sobrancelha erguida em desdém. — Ah. Quanta ingenuidade a minha.
– Ingenuidade, ou talvez a prova de que você esteja desenvolvendo um vestígio de fé na humanidade, irmão. O que é, não preciso dizer, uma rematada tolice. — ele entregou uma xícara de chá ao detetive, que provou-o e fez uma careta. — Perdoe-me se as minhas habilidades no campo das infusões deixam a desejar em relação as de seu amado. — Sherlock ergueu o olhar com um sorriso maldoso.
– Ninguém é perfeito, Mycroft. Nem mesmo o Governo Britânico.
SHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJW
Antes mesmo de abrir os olhos, John fez uma checagem cuidadosa de suas costelas e dos nós de seus dedos. Doloridos, contundidos, mas não parecia haver nenhum osso quebrado. Ele estendeu a mão cuidadosamente, sentindo o lado da cama frio. Abriu os olhos devagar, temendo o primeiro assalto da luz, mas o quarto estava abençoadamente escuro, nada além de uma nesga mínima de claridade entrando pela fresta da porta. O médico ergueu-se devagar, sentindo cada polegada de seu corpo protestar pelo esforço, mas sabendo que, se ficasse deitado, ia ser mais difícil ainda deixar a cama. Certificou-se de que conseguia ficar relativamente estável antes de arrastar-se até o banheiro.
Depois de lavar o rosto, o médico encarou-se no espelho. As marcas de dedos em seu pescoço eram visíveis, arroxeadas; engolir exigia esforço, e sem dúvidas falar causaria um certo sofrimento. Os nós dos dedos de sua mão direita estavam inchados e arroxeados também — mas lhe dava uma certa satisfação lembrar do estado que ficara o rosto de Moran. John ergueu a camiseta com cuidado e virou-se, tentando ter um vislumbre de suas costas no espelho. Hematomas e arranhões novos disputavam espaço com as cicatrizes antigas; uma ruína, em resumo.
– Lá se vão meus planos para o final de semana… — ele resmungou, antes de escovar os dentes. Talvez Greg tivesse mais algumas dicas para compartilhar, de quando ele estivera se recuperando do incidente em fevereiro…?
Depois de escovar os dentes e passar uma pomada anti-inflamatória no pescoço, John estava se sentindo um pouco mais apto a enfrentar o restante do dia. Pela claridade que entrava na janela do banheiro, já passava do meio-dia. Sherlock provavelmente estava na sala, revirando os detalhes do caso em sua mente, ou folheando um dos casos de arquivo que Dimmock deixara para aquietá-lo nos dias mais parados. Ele precisava de uma boa xícara de chá, uma torrada, se conseguisse engolir, talvez um programa idiota na televisão…
Mas o que não precisava era começar o dia com os dois irmãos Holmes juntos.
Mycroft e Sherlock estavam tendo uma de suas discussões silenciosas, em que, ao invés de falar, deduziam o que o outro queria dizer e comunicavam-se puramente por expressões faciais e gestos. As trocas envolviam olhares intensos, sobrancelhas erguidas, testas franzidas, chacoalhares de ombros, um ocasional bufo de irritação (de Sherlock) ou de desdém (de Mycroft), e costumavam terminar com um ou outro deixando a sala em um gesto dramático. Era fascinante.
E muito, muito irritante.
John tentou pigarrear, e descobriu que sua garganta estava dolorida demais para permitir. Limitou-se, então, a bater de leve no batente da porta para chamar a atenção dos irmãos. Sherlock ergueu a cabeça e, ao vê-lo, levantou-se de um salto, correndo em sua direção e tomando-lhe o rosto nas mãos.
– Você está bem. — não era uma pergunta, era uma afirmação. O detetive beijou-lhe a testa e puxou-o em direção à sala — Levante daí, paquiderme, a poltrona é dele. — Mycroft ergueu-se, contendo um sorriso, e acenou com a cabeça na direção de John.
– Parece que, mais uma vez, devo à vida do meu irresponsável irmão a você, John. Se houver algo mais que eu possa fazer, não hesite em me ligar, por favor. — John sentou-se na poltrona então vaga e suspirou, fechando os olhos.
– Não acho que o Governo desenvolveu um soro de juízo ainda, não é? — o político deu uma risada breve, balançando a cabeça.
– Ainda não, mas eu verificarei os progressos pessoalmente. — ele foi em direção à porta e parou no meio do caminho — Ah, Sherlock… por favor, ligue para Mamãe. Ela vem a Londres na terça-feira, e quer saber se você prefere almoçar ou jantar com ela. — Sherlock saiu da cozinha para olhar o irmão, um ar confuso e irritado na face.
– E por que ela quereria me ver na terça-feira? — Mycroft suspirou, exasperado.
– Olhe o calendário, irmãozinho. Tenham um bom final de semana, e neste meio tempo, tentem não morrer, por favor. — ele saiu batendo a porta, e John virou-se na cadeira, olhando para Sherlock, que tinha a testa franzida, como se tentasse recordar o que havia de importante para que sua Mãe saísse da propriedade da família em Southampton durante a semana, simplesmente para vê-lo.
– Você não lembra mesmo? — o médico perguntou. Sherlock encarou-o, aborrecido, sem responder. John sorriu de canto. — Bom, não sou eu quem vai contar, então. Faça um esforço. Ou simplesmente pergunte para sua mãe, quando falar com ela. — Sherlock voltou da cozinha com uma xícara de chá fumegante e um frasco branco, que empurrou nas mãos de John de maneira um tanto brusca antes de se jogar no sofá. — E isso é...?
– Cortesia de Mycroft. — o detetive respondeu, emburrado. — Analgésicos. Ele diz que são seguros. — John deu de ombros e tomou o remédio com um gole de chá.
– Venha cá. — ele chamou, com um gesto. Sherlock olhou para a mão estendida, e depois para o rosto sorridente de John — Ande, seu mal humorado, venha me dar um beijo decente de bom dia. — o detetive deu um sorriso mínimo e ajoelhou-se diante da poltrona, inclinado-se para beijar John com delicadeza. — Assim está melhor. Como está o corte?
– Bem. — Sherlock respondeu, lacônico, tocando a têmpora onde levara oito pontos. — E seu pescoço? — ele ergueu a mão, hesitando antes de tocar com leveza as marcas arroxeadas.
– Dói como o inferno. — John respondeu. — Falar é complicado, engolir é um suplício… mas já estive pior. Isso não passa de dano colateral. — Sherlock franziu a testa, sério.
– Não. — John olhou-o em confusão — Não tente minimizar a seriedade das suas injúrias, John. Você realmente arriscou a vida ontem. Se eu não recuperasse meu senso em tempo, Moran poderia ter… — ele parou em meio a frase, enterrando o rosto no colo de John, abraçando suas coxas.
– Sherlock… — John sussurrou, acariciando os cabelos do detetive — Não adianta ficar pensando no que poderia ter acontecido, agora. O importante é que estamos aqui. Vivos. Relativamente bem. — Sherlock ergueu a cabeça, e John foi capaz de ler claramente a dor, o pânico e, acima de tudo, a culpa em seus olhos.
– Mas… — o médico inclinou-se e silenciou-o com um beijo casto.
– Não adianta pensar nos “e se”, Lockie. Vamos… vamos apenas aproveitar o fato de estarmos bem, de estarmos inteiros. Okay? — ele tomou o rosto anguloso entre as mãos, encarando-o com firmeza. Sherlock engoliu em seco e assentiu, em silêncio. — Ótimo. Você pegou um elo importante da cadeia de comando de Moriarty, e eu ganhei uma folga prolongada do trabalho. Precisamos comemorar. O que você sugere? — um brilho malicioso insinuou-se nas íris claras, e as mãos abraçadas em suas coxas começaram a subir e descer, em uma carícia lenta.
– A química do corpo humano é uma coisa complexa e muito bem estruturada. Fascinante, na verdade. — o detetive ronronou, olhando nos olhos de John — As endorfinas, por exemplo. Elas são liberadas para auxiliar no relaxamento muscular e, principalmente, na dissipação de dores. — as mãos subiram até a cintura da calça de John, os dedos longos insinuando-se pelo elástico. — Eu digo que podemos começar testando esta hipótese.
O médico soltou um suspiro que era quase um grunhido. Como era possível que alguém conseguisse transformar um assunto como bioquímica em algo tão… sensual? Talvez fosse apenas porque era Sherlock. Tudo o que ele fazia — cada gesto, cada palavra direcionados à John — tinham a capacidade de deixá-lo trêmulo, e ansiando por mais. Como uma droga. Ele estava irremediavelmente viciado.
Os dedos hábeis de Sherlock já haviam tirado suas calças, puxando-as até o meio das coxas. Uma mão esguia envolvera seu membro semi-ereto, provocando-o em estocadas longas e lentas, enquanto a outra mão subira devagar para acariciar, com a ponta dos dedos, as marcas em seu pescoço; uma carícia leve como uma brisa, que não causou-lhe incômodo algum. Ele sabia que Sherlock estava a memorizar as marcas; ele nunca deixaria a lembrança delas morrer, mesmo depois que elas desaparecessem de sua pele. John fechou os olhos, entregando-se ao toque delicado das mãos do detetive, até ouvir a voz baixa falando junto de seu peito, o hálito morno dando-lhe arrepios
– Eu estava sonhando com você esta manhã. — John abriu os os olhos e viu que Sherlock tinha a testa encostada em seu ombro, a boca junto ao peito, a mão mantendo o ritmo lento e constante, tantalizante. — E eu pretendo, agora, continuar exatamente do ponto onde meu sonho foi interrompido. — John ergueu o queixo de Sherlock com a ponta dos dedos, instando-o a encará-lo.
– Então vamos ficar mais confortáveis, — ele falou, a voz baixa — porque você não é o único com ideias novas para colocar em prática. — os olhos de Sherlock acenderam-se subitamente, e numa demonstração de força inesperada em alguém tão esguio, ele tomou o médico nos braços e carregou-o até o quarto, entre risos.
A cama estava posta com um dos conjuntos novos, de algodão púrpura. No cansaço daquela madrugada, John não reparara que Sherlock — ou, mais possivelmente, a Sra. Hudson — trocara os lençóis. O detetive depositou-o com delicadeza no centro da cama, e ajoelhou-se junto dele, o olhar percorrendo-o, analítico, memorizando cada detalhe daquela cena. John sentou-se na cama e tirou a camiseta devagar, apreciando a maneira com que os olhos de Sherlock percorriam seu peito, a respiração acelerando-se visivelmente. O detetive espelhou seus movimentos e aproximou-se, até que os dois estivessem peito contra peito, o toque morno das peles nuas fazendo-os suspirar. Eles beijaram-se, um beijo lento e cuidadoso, as línguas tocando-se de maneira terna e quase hesitante. Sherlock deixou as mãos pairando sobre as costas de John, sem efetivamente toca-lo, temendo agravar seus machucados, mas o médico jogou-se sobre a cama descuidadamente, trazendo o amante com ele, sem romper o beijo. Foi Sherlock quem afastou a boca, preocupado.
– John, suas costas… — o médico acenou com a cabeça.
– Eu não sei exatamente o que tinha naquelas pílulas que seu irmão deixou, mas eu me sinto ótimo, e pretendo aproveitar cada minuto antes que meu corpo lembre da surra de ontem. Então… — ele deslizou as mãos pelas costas lisas de Sherlock — fora com o resto dessas roupas.
Sem conter um sorriso, Sherlock livrou-se atabalhoadamente de suas calças, e puxou as de John em um só movimento, jogando-as descuidadamente no chão do quarto. Ele ajoelhou-se sobre as pernas de John e o médico deixou-se perder por um instante na contemplação da pele pálida e das pernas longas e firmes onde ele, agora, deixava suas mãos vagarem. Sherlock olhou-o por alguns instantes, uma miríade de sentimentos nos olhos mutantes. Ele inclinou-se e beijou reverentemente a cicatriz no ombro de John, seguindo seus contornos com os lábios e seus relevos com a ponta da língua. John fechou os olhos, deixando escapar um silvo entredentes. Ele sentiu o toque dos dedos do detetive em seu queixo, instando-o a inclinar a cabeça para trás, o que ele fez, temeroso de que a musculatura ferida de seu pescoço protestasse; mas a combinação de analgésicos e da pomada anti-inflamatória agira bem. Ao invés da dor, houve a sensação leve dos lábios de Sherlock, traçando o contorno das marcas roxas em beijos suaves, apenas um roçar da boca ampla, na tentativa de apagar, pela força de sua vontade, os hematomas na pele dourada. O detetive sentia na língua o gosto leve de cânfora da pomada, mas seu olfato estava tomado pelo cheiro de John. A pele de John cheirava sempre a Sol, independente do clima; era como se o calor do deserto houvesse se entranhado em seus poros. Ele cheirava a dias ensolarados, e seu toque era sempre morno e acolhedor.
John abriu os olhos, e viu Sherlock descer, traçando uma trilha de beijos e mordidas pelo seu peito. Ele deslizou as mãos pelas costas do detetive a acabou por enlaçar as mãos nos cachos negros e desordenados, deliciando-se com a textura sedosa entre os dedos. Sherlock mordiscava a cicatriz em seu quadril, acariciando com a ponta do nariz a pele sensível da virilha, avançando milímetro a milímetro, provocando-o sem pena. Ele lambeu uma trilha lenta até a base do membro de John, e engolfou-o em um só movimento, fazendo o médico arfar, os quadris erguendo-se em direção à boca morna. Sherlock segurou a cintura de John mantendo-o preso no lugar, enquanto sua boca subia e descia em movimentos longos e lentos, a língua acariciando a veia sensível na lateral do membro, circulando e massageando a glande tentativamente.
– Lockie…. — John gemeu, acariciando seu escalpo. — É melhor ir mais devagar, ou eu não vou aguentar muito tempo…- Sherlock ergueu os olhos e, com um movimento suave, deixou o membro de John escorregar de sua boca.
– E quem disse que eu quero que você aguente, John? — o detetive provocou-o, lambendo-lhe a glande — Talvez eu queira ver você se desfazendo sob o meu toque o mais rápido possível. — Antes que ele pudesse continuar, John segurou os cabelos do detetive, impedindo-lhe os movimentos.
– Eu disse que tinha outras ideias. — o médico murmurou, a mão estendendo-se numa busca cega pelo tubo de lubrificante que costumava ficar sob o travesseiro. Ele agarrou o tubo e, soerguendo o tronco, entregou-o para Sherlock. — Eu… quero dar mais um passo. — o detetive sentou-se sobre os calcanhares, alternando o olhar entre John e o tubo em suas mãos.
– Você… você tem certeza? — John puxou Sherlock para deitar-se junto dele, virando-se de lado, e segurou-lhe o rosto entre as mãos, beijando-o de leve. Sem responder, ele tomou a mão direita de Sherlock e beijou cada um dos longos dedos, finalmente tomando o indicador entre seus lábios, sugando-o de leve. O detetive parecia em choque, sem conseguir desgrudar os olhos da boca do outro, que guiou-lhe a mão em direção ao seu membro novamente. Fixando seu olhar no de John, Sherlock ajoelhou-se entre as pernas dele, acariciando o interior das coxas com as pontas dos dedos, causando-lhe arrepios. — Alcance-me o meu travesseiro. — ele pediu, colocando a almofada sob os quadris de John, que sentiu seu coração acelerar com a expectativa. Sua ereção pulsava quase dolorosamente, implorando por atenção.
Sherlock deitou-se entre suas pernas, apoiando os joelhos de John nos ombros, a língua traçando a extensão de seu membro e aventurando-se cada vez mais próximo de sua entrada. A avalanche de sensações foi demais para John, que fechou os olhos, agarrando com força os lençóis sob seus dedos; as mãos esguias de Sherlock agarrando seu traseiro, massageando-o e mantendo-o aberto para que sua língua morna e úmida pudesse tantalizar John até o limite, a respiração quente e acelerada do detetive deixando-lhe um rastro de arrepios… ele achava que era demais, que era impossível sentir tantas coisas ao mesmo tempo sem explodir.
Até que ele sentiu a língua de Sherlock penetrá-lo.
Seus olhos abriram-se de repente com o choque que a sensação provocou. Ele sentiu seus quadris pularem de encontro à boca de Sherlock por vontade própria; a língua habilidosa, sempre tão ferina em seus comentários e tão terna em seus beijos, ia trabalhando sua entrada com movimentos cuidadosos e sensuais, movendo-se em círculos e estocadas, e John já conseguia sentir a pressão quente do clímax construindo-se em seu ventre. Ele agarrou a mão esquerda de Sherlock e chamou-o, num sussurro.
– Lockie… por favor… — Sherlock afastou-se com cuidado, beijando o interior da coxa do médico, e pegou o lubrificante, aplicando uma quantidade generosa em seus dedos e ao redor da entrada de John. Ele ergueu o corpo, alinhando-o com o do outro e, apoiando-se em um braço, beijou John, longa e lentamente.
– Tudo bem? — John assentiu, respirando fundo e forçando o corpo a relaxar. Sherlock beijou-o novamente, e sem romper o contato dos lábios, começou a circular a entrada de John com a ponta do dedo, massagendo-a levemente, antes de introduzir a ponta cuidadosamente. John soltou um gemido breve, e Sherlock não teve certeza se era de desconforto ou prazer. Ele manteve a mão parada, até sentir os quadris de John ondularem, então introduziu o restante do dedo. — Détendez, John– ele murmurou, em meio ao beijo, começando a mover o dedo em movimentos lentos e circulares. John agarrava os ombros de Sherlock de maneira desesperada, como se a pele macia sob seus dedos fosse a única coisa que o ancorasse com a realidade e o impedisse de despedaçar-se. Era uma sensação completamente nova, aquela sensação de ser preenchido; até mesmo a leve ardência, o desconforto que sentia era uma peça-chave na construção desse prazer estranho, diferente de qualquer coisa que já havia sentido. Se apenas um dos dedos esguios de Sherlock já estava lhe provocando esta, como seria a sensação de ser realmente penetrado…?
– Mais…. — John murmurou, sem sentir. Sherlock beijou-o com mais força e inseriu um segundo dedo, movimentando-os com um pouco mais de força do que antes. John contorcia-se sob ele, gemendo em meio ao beijo, e Sherlock sentia sua ereção roçar contra a coxa do médico de maneira quase dolorosa. Ele mudou devagar o ângulo da mão, e seus dedos tocaram de leve a próstata de John, fazendo-o arfar. — Aí, Sherlock, bem aí — ele grunhiu, as unhas cravando-se na carne tenra das costas do detetive. Sherlock moveu os dedos quase imperceptivelmente, e colou a boca na orelha de John.
– Mon beau John… Je vais te faire crier…– ele moveu os dedos de forma a apenas roçar o ponto nervoso, e John cravou os dentes sem cerimônia em seu pescoço. — Crier pour moi, John.– Sherlock curvou os dedos, acertando em cheio a próstata de John, arrancando-lhe um grito rouco. Ele começou a movimentar a mão em estocadas firmes, enquanto sussurrava incentivos no ouvido do médico. John sentia sua consciência escapando, a pressão em seu ventre ficando quase insuportável, até que, em um movimento mais brusco dos dedos provocadores ele deixou-se levar pelo prazer, desmanchando-se em torno dos dedos de Sherlock, suspirando seu nome enquanto gozava. Enquanto John ainda sentia as ondas de espasmos de seu orgasmo no corpo, Sherlock tomou seu próprio membro dolorosamente ereto em mãos e, em poucos movimentos, alcançou o outro em seu prazer, jogando-se sobre o peito de John e cobrindo a pele suada de beijos.
Quando suas respirações finalmente acalmaram, as pulsações mais ou menos normais, Sherlock removeu os dedos de dentro de John com todo o cuidado, provocando-lhe, mesmo assim, um pequeno silvo de dor. O detetive jogou-se de costas na cama e abriu os braços, convidando o médico a deitar-se em seu peito. Os dois ficaram um longo tempo abraçados, em silêncio, trocando beijos ternos e carícias cuidadosas. As peles estavam grudentas de suor e sêmen, mas eles não se importavam nem um pouco. John ainda tentava processar o que acontecera, e ele tinha certeza de que Sherlock catalogava tudo em sua mente, cada expressão do rosto de John, cada reação de seu corpo aos seus toques. Era estranhamente lisonjeiro, na verdade.
– Eu não tenho palavras fortes o suficiente no meu vocabulário pra definir o que foi isso. — John quebrou o silêncio, após um tempo. — Mas se eu nunca mais puder me mexer, valeu totalmente à pena. — Sherlock soltou uma risada breve, beijando os cabelos suados de John.
– Vamos esperar que você consiga se mexer, John, porque ainda temos tanto a experimentar… — ele tinha um brilho positivamente maldoso nas íris claras. — E você sabe como eu fico quando se trata dos meus experimentos.– ele ronronou, mordiscando o lóbulo da orelha de John, que enterrou a cabeça em seu ombro com uma risada.
– Oh, Céus, eu criei um monstro!
Fale com o autor