The Science Of Seduction: Lesson Three

4 Parte iv – chats, beers, fags and killers


Notas iniciais
Então... desculpa pela demora =.=' Sem smutty, mas um pouco de BAMF John pra vcs =3

PARTE IV – CHATS, BEERS, FAGS AND KILLERS

Sherlock estava mergulhado em um transe profundo, tentando organizar as informações dentro de uma ampla sala de seu Palácio Mental. Seus olhos mexiam-se freneticamente por trás das pálpebras fechadas, as mãos movimentando-se no ar diante dele. Ele sentia uma frustração crescente ao ver que faltavam pequenos pedaços de informação que ele sabia estarem em algum lugar ali dentro; mas a desorganização naquela sala específica era enervante.

O detetive respirou fundo e abriu os olhos, encarando um raio de sol preguiçoso que pintava o teto da sala com uma luz alaranjada. Ele passara o dia inteiro em seu roupão e calças de pijama, imerso em suas contemplações, ocasionalmente disparando uma mensagem para algum informante, mas retornando ao seu estado de inércia logo em seguida. Seu foco estava inconstante, dificultando seu trabalho de encontrar as últimas peças do quebra-cabeça. Ele olhou para o crânio sobre a lareira, as mãos tremendo levemente. Ele prometera a John que pararia. Já estava há dois meses sem encostar em nada. Mas os adesivos não estavam ajudando...

Sherlock saltou do sofá e alcançou a lareira em dois passos largos, arrebatando a caveira e sorrindo ao encontrar o que procurava sob ela: um maço de cigarros pela metade e um isqueiro. Ele acendeu o cigarro e deu uma tragada funda, sentindo seus nervos automaticamente aquietarem-se e sua cabeça começar a clarear lentamente. Pegando o cinzeiro que roubara do Palácio de Buckingham, ele voltou a deitar-se no sofá, tragando vagarosamente enquanto hipóteses e teorias se formavam em sua mente.

John voltou do trabalho sentindo-se esgotado, mais pela noite mal dormida do que por excesso de trabalho. Ainda assim, ele estava disposto a manter o compromisso com Greg; ele realmente precisava conversar com alguém sobre seu relacionamento... e quem melhor do que um de seus melhores amigos, que por acaso estava em um relacionamento com o irmão mais velho de seu namorado? As escadas do 221B pareciam não ter fim, e ele abriu a porta com um suspiro fundo... e foi assaltado pelo cheiro acre de fumaça.

– Sherlock! – ele falou, depois de largar o casaco e a maleta sobre a mesa da cozinha, dirigindo-se para a sala – Não acredito que você está... – ele parou em meio à frase, sem conseguir completar. Sherlock jazia no sofá com a cabeça inclinada para trás, o longo pescoço esticado, enquanto soprava um fio de fumaça pelos lábios cheios. O braço esquerdo estava lançado displicentemente sobre o encosto do sofá, e a mão direita batia a cinza do cigarro delicadamente. O roupão aberto revelava o peito desnudo e as longas pernas envoltas em moletom cinza estendidas sobre o braço do sofá. A fumaça enrolava-se em torno dele em espirais azuladas, emprestando-lhe um ar mefistofélico. O coração de John falhou uma batida, e ele inconscientemente lambeu os lábios, incapaz de desviar o olhar. Sherlock parecia decadente, pecaminoso, delicioso. A mente de John encheu-se de imagens que fizeram seu sangue correr mais rápido. Mas a pilha de arquivos sobre a mesa lembrou-o: o caso. Quando o Jogo chamava, ele precisava respeitar o espaço e o tempo de Sherlock. Por um longo instante ele não se mexeu, apenas contemplando a visão do outro, como que em transe. Foi a voz rouca de Sherlock que o despertou.

– Os adesivos não estão funcionando. E eu estou quase terminando de montar a solução. – John balançou a cabeça, um ar desapontado nos olhos.

– Você estava indo tão bem... – Sherlock fez menção de falar, mas John ergueu a mão. – Não, eu não vou lhe dar um sermão, Sherlock. Vou tomar um banho e encontrar Greg no pub. Se você precisar de mim, é só mandar uma mensagem. – John saiu em direção ao banheiro pensando que um banho gelado era uma necessidade imediata.

SHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJW

– John, aqui! – Greg chamou de uma mesa ao fundo do pub lotado. John dirigiu-se até lá, trombando e desculpando-se o caminho inteiro, e ficou satisfeito de ver que o policial já tinha duas canecas diante dele.

– Hey, Greg. Chegou cedo. – ele sentou-se e tomou um longo gole da cerveja gelada, sentindo-se relaxar quase de imediato. Depois de uma cena de crime, uma noite de pesadelos e um dia insuportável de trabalho, ele precisava de uma bebida. – Nem sinal de Mycroft?

– Nah, ele mandou uma mensagem avisando que chega em casa esta madrugada. Então, talvez, ele me encontre muito bêbado... e quando eu fico muito bêbado, eu fico muito afetuoso. – ele sorriu para John, erguendo as sobrancelhas.

– Argh, eu não quero esse tipo de imagem na minha mente, muito obrigado.

– Dane-se, Johnny. Eu sei muito bem que você vai encher minha mente de imagens desagradáveis, também. – John sentiu o rosto esquentar, e Greg soltou uma gargalhada – Own, você fica tão bonitinho quando fica envergonhado!

– Vá se foder, Lestrade.

– Mais tarde, estou torcendo por isso! – o policial retrucou, mostrando os dedos cruzados ao levantar-se para buscar mais duas cervejas e desviando de um porta-copos lançado por John. — Okay, sem piadas, agora – Greg falou ao retornar, entregando a bebida de John e entornando um terço de sua caneca em um gole. – Eu estou muito feliz por vocês, John. Mas você já sabe...

– Sim, sim, já ouvi o discurso algumas vezes, Greg. – John respondeu com um sorriso, lembrando-se de Sally.

– Sherlock é como um filho pra mim. E você é um dos meus melhores amigos. Quero ter certeza de que vocês estão fazendo tudo certo. – Greg ergueu uma sobrancelha. – E eu imagino que você quer alguma orientação sobre como fazer uma determinada coisa da maneira correta. – John grunhiu e escondeu o rosto nas mãos.

– Droga, Greg, eu não quero ferrar com tudo! Eu nunca tinha estado com um homem antes, e Sherlock... – ele baixou a voz e aproximou-se do outro – ele nunca esteve com ninguém. Me sinto como um cego tentando guiar outro. – ele suspirou e tomou um longo gole de cerveja. – Eu só... eu quero fazer tudo direito. Quero fazer as coisas corretamente. Por ele. – Greg estendeu a mão e deu um tapa no ombro de John.

– E isso já é meio caminho andado, parceiro. Agora, — Greg endireitou-se no assento, um brilho malicioso nos olhos – imagino que você entenda a teoria de tudo. Mas e quanto a Sherlock? – John sentiu uma onda de calor subir por seu rosto.

– Ele... ele tem feito algumas pesquisas. – ele murmurou, embaraçado. – Pesquisas extensas, devo admitir.

– Por favor. – Greg falou, cobrindo os olhos. – Você não está me dizendo que Sherlock anda assistindo pornografia na internet. – John assentiu, mordendo o lábio. Greg soltou uma gargalhada estrondosa. – Oh, Deus, o que você fez com a cabeça dele, John?

– Você conhece aquele bastardo... ele não suporta admitir que não sabe alguma coisa. E confesso que os resultados das pesquisas até agora foram mais que satisfatórios. – foi a vez de Greg grunhir e esconder o rosto nas mãos. – A questão, Greg, é que nós estamos pensando em... bem... em ir até o fim. Mas eu realmente não sei como agir.

– Bom, a primeira coisa a se decidir é quem vai ser o ativo. – John empalideceu, a boca pendendo aberta. – Não tinha considerado isso ainda, hein, Casanova? – o médico acenou a cabeça numa negativa lenta. Greg acenou para o garçom trazer mais duas canecas, e esperou em silêncio até que ele se afastasse, com um ar malicioso nos olhos – E como nenhum dos dois tem experiência prévia, não há como saber exatamente pra que lado o barco de cada um flutua. Complicado. – John deixou a cabeça cair sobre o tampo da mesa, atingindo-a com um thump seco.

– O que eu faço, Greg? Eu vou acabar arruinando tudo! – ele ergueu o rosto e apoiou o queixo na madeira – Eu... eu suponho que... para a primeira vez dele em tudo... talvez seja mais aconselhável se eu... – ele parou, sem conseguir terminar a frase, o rosto em ebulição.

– Ficasse por baixo? – Greg completou, assentindo. – Isso é muito atencioso da sua parte, Johnny. – John franziu as sobrancelhas. – Não estou brincando, parceiro. A primeira vez pode ser... difícil, já lhe aviso. Ainda mais na idade dele. É bom ir com calma.

– Oh, droga. – John gemeu, afundando o rosto nas mãos ao ouvir o comentário sobre idade – O aniversário de Sherlock é em cinco dias!

– Então parece que você já resolveu o problema do presente.

– Greg, não tem graça! – Greg suspirou, subitamente sério.

– Olha, John, eu estou tentando fazer você relaxar e sair desse buraco de angústia em que você se enfiou sem motivo nenhum, okay? – John baixou os olhos, contrito. – Eu, mais do que ninguém, sei que se relacionar com um Holmes não é sempre um mar de rosas. Aqueles dois são teimosos, arrogantes e acham que tudo tem que ser do jeito deles, porque é o único jeito certo, e quando eles têm algum problema pessoal, acham mais fácil ignorá-lo e fingir que ele não existe. Durante as primeiras semanas do nosso relacionamento, Mycroft nem mesmo ficava nu diante de mim. Foi uma batalha fazê-lo confiar em si mesmo e em mim o suficiente para superar, pelo menos um pouco, todos os problemas de autoimagem dele. Mas quando finalmente conseguimos resolver tudo, bom... – ele deu um sorriso maroto, um brilho saudoso nos olhos. John sorriu, balançando a cabeça. – Eu entendo suas reservas e seus medo, John, completamente. Meu conselho final para você é: relaxe. Ah, e não se esqueça do lubrificante. – os dois riram, sentindo-se mais leves. Greg estava prestes a sinalizar para o garçom trazer mais duas cervejas quando o celular de John tocou, sinalizando um SMS. – Sherlock? – John deu de ombros e pegou o telefone.

327 Mordaunt Street, Brixton. Traga Lestrade. — SH

John franziu as sobrancelhas e disparou uma resposta.

O que houve?

A réplica não demorou nem dez segundos para chegar.

Tocaia. Venham depressa, não quero que eles escapem. – SH

– Ah, merda! – o médico ergueu-se, cambaleando levemente – Fim de festa, Greg, Sherlock encontrou os assassinos. Ele está em Brixton, nos esperando. – Greg largou um amontoado de notas sobre a mesa e sinalizou para o atendente, saindo correndo atrás de John, porta afora. – Temos que pegar um táxi o mais rápido possível, antes que ele tenha tempo de fazer uma besteira... – O policial olhou para o fim da rua e um pequeno sorriso tomou-lhe os lábios.

– Parece que não vamos precisar – ele apontou e John viu que um elegante carro preto se aproximava velozmente. Por uma vez, ele agradeceu à personalidade intrometida de Mycroft, e assistiu, divertido, Greg virar-se para a câmera de CCTV diante do pub e soprar-lhe um beijo.

O carro encostou silenciosamente junto ao meio fio, e a porta de trás abriu-se, deixando sair Anthea, Blackberry em uma mão, e um porta-copos de papelão com dois copos grandes de café na outra.

– Anthea, sua salva-vidas! – Greg tomou-lhe os copos, entregando um a John e tomando um grande gole do seu. Preto, três colheres de açúcar, exatamente da mesma marca que Mycroft usava em casa. Aquele adorável bastardo sabe-tudo.

– Boa noite, Greg, doutor Watson. – ela sorriu, sem erguer os olhos da tela do celular. – O senhor Holmes recomendou que vocês sejam cuidadosos, e manda dizer você sabe o quê, Greg. – o inspetor sorriu para a assistente de Mycroft, que segurava a porta do carro aberta para os dois.

– Você pretende ir conosco, Anthea? – John soou preocupado.

– Não, minha carona deve chegar a qualquer momento. – um rubor leve tingira o rosto de Anthea, e John ergueu as sobrancelhas, espantado. Greg, com um sorriso malicioso, apontou para um Civic prateado que se aproximava.

– Acho que sua... carona já está aqui. – os três observaram o carro estacionar atrás do sedan preto e Sally Donovan desembarcar, usando um vestido vermelho de saia ampla e tecido vaporoso, que fazia um belo contraste com sua pele. – Hey, Sals, bela roupa.

– Chefe, doutor Watson. – ela acenou com a cabeça, virando-se para Anthea com um sorriso largo. – Vamos, Annie? O maître vai segurar nossa reserva por mais vinte minutos. – A assistente acenou para os dois homens, dando a volta para entrar no carro da sargento. Sally lançou-lhes um olhar duro – Vocês dois, tentem não se meter em uma encrenca grande demais que acabe por arruinar meu encontro, está bem? E tirem aquele bastardo de qualquer que seja a encrenca que ele se meteu ileso. Vão!

SHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJWSHJW

Vinte minutos e dois copos de café extra-fortes depois, Greg e John desembarcavam em Brixton, a uma quadra do endereço que Sherlock lhes passara, decididamente sóbrios. Ao longe, eles avistaram o vulto alto e esguio de Sherlock, escorado contra uma árvore, soprando a fumaça do cigarro para o ar displicentemente. Quando ele avistou os dois, jogou o cigarro no meio-fio, avançando silenciosamente até alcança-los a meio caminho.

– Eles entraram já tem um tempo, e estão prontos para sair a qualquer momento. – falou, a voz baixa levemente rouca dos vários cigarros que fumara enquanto esperava. – O melhor que temos a fazer é...

– Boa noite pra você também, Sherlock. – Greg replicou, mal humorado. – O que temos que fazer é esperar os reforços chegarem antes de entrar na casa. Eu já liguei para Dimmock, eles estarão aqui a qualquer minuto.

– E pode ser tarde demais! – Sherlock falou, entredentes. — Estou seguindo esses dois praticamente desde a hora que John saiu de casa, e agora que finalmente os encurralei, não vou deixá-los escapar só para seguir o procedimento. – ele concluiu, cuspindo as últimas palavras venenosamente.

– Não. – John replicou duramente, erguendo o rosto para encará-lo. – Você vai esperar para não levar uma bala nessa sua cabeça dura e teimosa! – Sherlock encarou-o, ensaiando uma resposta, mas foi cortado pelo outro – Não me interessa se eles escaparem e nós precisarmos correr atrás deles o resto da noite, se isso significa manter o seu traseiro a salvo, seu bastardo teimoso! – Sherlock ficou em silêncio um instante, observando John respirar fortemente, controlando a irritação. Ele virou-se para Greg, que observava a cena, divertido.

– Espero que você tenha avisado os seus colegas para não virem com as sirenes berrando e fazendo estardalhaço. – Greg franziu a testa e deu um tapa na nuca de Sherlock, fazendo-o encolher-se.

– Eu não sou um recruta, seu idiota, eu sei como proceder numa tocaia! Agora me diga quem exatamente são esses desgraçados, e como você chegou até eles. – os olhos de Sherlock brilharam e ele endireitou-se, respirando fundo – A versão resumida, Sherlock. Depois você pode contar todos os detalhes brilhantes do seu processo mental, mas agora eu quero só os fatos principais. – o detetive fez uma careta descontente, arrancando um sorriso de John, mas encostou-se à mureta da casa em frente a qual eles haviam parado e começou a falar.

– Quando chegamos à cena do crime e encontramos o cartão que viera com as flores, vi que o caso era uma obra de Moriarty. – ele endireitou a postura, os olhos brilhando, as mãos movendo-se no mesmo ritmo em que as palavras lhe deixavam os lábios – Primeiro, o porquê: por que ele queria aqueles garotos mortos? Isso eu consegui deslindar logo que chegamos em casa, após examinar a cena do crime. James Moriarty pode ser um psicopata insano e megalomaníaco, mas ele é esperto, muito esperto, e ele tem classe. – John franziu a testa diante da maneira apreciativa com que Sherlock falou de sua nêmesis. – Se o objetivo fosse apenas a morte desses garotos, se eles fossem as verdadeiras vítimas, ele as teria levado para outro lugar, teria cuidado deles de uma maneira mais... pessoal. Não, ele queria passar uma mensagem a alguém. Quem sofreria com a morte desses garotos, a quem Moriarty pretendia intimidar? Minha primeira medida, naquela noite, foi investigar as famílias, incluindo a do senhor Milverton; afinal de contas, ele sobrevivera à chacina pelo que parecia apenas um capricho do destino. Não teria talvez sido manipulado e chantageado para colaborar com as mortes? – Sherlock puxou um maço de cigarros e um isqueiro do bolso, ignorando o grunhir irritado de John, e acendeu um cigarro antes de prosseguir – Eu voltarei a ele mais tarde. Como eu dizia, chequei o background das famílias e das relações íntimas das vítimas, e encontrei uma coisa interessante. Apesar de não terem nenhuma outra relação social ou mesmo de trabalho em comum, tanto Lord Goodwin, quanto o doutor Carlisle e o senhor Singh possuem uma quantidade considerável de ações de uma mesma companhia: uma empresa de importações chamada Blaubart. Não encontrei nenhum registro dos produtos que esta empresa supostamente importava; constava apenas como equipamentos domésticos e de lazer. Os livros e os registros da empresa pareciam em ordem, mas ainda assim, alguma coisa não estava encaixando. Então, tive que fazer uma coisa que me desgosta profundamente. – ele olhou para John, que o encarava com um olhar sombrio, e ergueu uma sobrancelha.

– Você pediu ajuda ao seu irmão durante um caso. – ele respondeu, com um meio sorriso. Sherlock assentiu, a boca torcida num esgar de desgosto. Greg teve que disfarçar a risada que lhe escapou dos lábios como um acesso de tosse pela fumaça do cigarro.

– Eu contatei Mycroft e perguntei o que eles tinham sobre este assunto. Ele ficou irritado quando toquei no nome da empresa, e pediu que eu ficasse longe; típico. Eu disse a ele que já estava ciente de que o cabeça por trás da Blaubart era Moriarty, e só precisava confirmar em que ramo de atividade criminosa eles operavam. – depois de uma última tragada, ele jogou a guimba no meio-fio, e Greg acompanhou a trajetória com um olhar desejoso. Sherlock conteve um sorriso maldoso antes de prosseguir – Finalmente, consegui arrancar do meu irmão que a Blaubart estava envolvida em uma investigação de tráfico humano, ligado à exploração sexual.

– Isso explica a violência sexual, então? – Greg falou, encarando Sherlock firmemente – Os pais ficaram devendo a Moriarty, ou tentaram sair do esquema, e ele mandou um aviso a eles referenciando a natureza do negócio. – Sherlock assentiu, prosseguindo.

– Definimos com isso o porquê. A investigação na cena do crime nos forneceu a maior parte do como; e o que ainda não sabíamos, ia também responder o quem. John chamou minha atenção para o fato de que havia cinco conjuntos de louça separados para o jantar na cozinha, mas só havíamos tomado conhecimento de quatro convidados. O próximo passo era procurar Adam Milverton, e me certificar de sua total ignorância em relação aos assassinatos. Quando eu verifiquei o passado das famílias, a única que não tinha nenhum ponto de ligação com as outras era a dele; então, ou ele era um cúmplice, ou apenas estaria no lugar errado, na hora errada. – Sherlock pegou o maço de cigarros nas mãos, mas deteve-se antes de acender um, ao ver a pequena veia pulsando na têmpora esquerda de John; mau sinal. Ele guardou o maço, e ignorou solenemente o riso debochado de Lestrade – Eu já tinha minha opinião formada, e minha teoria quase toda pronta, mas precisava de alguns últimos detalhes que apenas o jovem Milverton poderia me fornecer.

– Sherlock, eu pedi a versão resumida; você pode se exibir pro seu namorado mais tarde! – Greg explodiu, nervoso e irritado com a demora dos reforços e com a necessidade absurda que Sherlock tinha de sempre se mostrar o mais esperto; àquela hora, ele realmente não estava com paciência para afagar o ego do detetive. – Milverton tem culpa no cartório ou não? – Sherlock bufou, reprimindo uma careta.

– Não. Ele foi interceptado no trânsito pelos homens de Moriarty, que armaram o acidente de forma que ele não estivesse lá na hora do crime; não, isso não foi feito para “poupar uma vida inocente”, como vocês parecem estar pensando agora, e sim como forma de arrumar, ao mesmo tempo, uma testemunha e uma distração que desviasse a polícia do caminho certo da investigação. O quinto convidado misterioso era um homem que Adam conhecia apenas como “tio Seb”, supostamente um antigo colega de exército de Lord Goodwin que conhecia o jovem Arthur desde a infância e retornara recentemente do Afeganistão. – Sherlock olhou para Greg com irritação, por não poder contar, naquele momento, todo o processo que o levara a descobrir quem ele era. – Em resumo, este “Seb” é um dos homens de Moriarty; seu braço direito, na verdade, coronel Sebastian Moran. — com os olhos ainda cravados em Greg, Sherlock não viu o enrijecimento súbito na postura de John ao ouvir o nome. O médico fechou os punhos, respirando fundo para dominar-se e continuar ouvindo a explanação. — Ele teve a ajuda de um criminoso menor, Benjamin Mitchell, e eles estão na casa aqui em frente, acertando as contas. Ah, e parece que se formos esperar seus amigos, vamos perder nossos criminosos. – ele apontou para o outro lado da rua, onde era possível ver a luz da varanda acesa e a porta sendo aberta.

Da casa, saíram dois homens; um deles era baixo e magro, com cabelos avermelhados e um rosto fino, e o outro era alto e bem constituído, com cabelos loiros cortados em estilo militar e uma cicatriz que lhe cruzava a face esquerda. Sherlock puxou John pela mão, e sinalizou para que Lestrade os seguisse para trás de um container de lixo, onde eles continuaram a observar os homens. Os dois trocaram algumas palavras antes de se dirigirem até a rua, cada um tomando uma direção.

– Você vá atrás de Mitchell, nós vamos atrás do Moran; mande metade dos reforços na nossa direção assim que possível. – Antes que Greg pudesse perguntar quem era quem, Sherlock saltara, a mão num aperto de ferro no pulso de John, e seguira na direção do homem loiro. Ele praguejou em silêncio, puxando o celular para falar com Dimmock e disparando na direção oposta.

Sherlock continuou a arrastar John consigo, sem notar que o outro tentava retardar-lhe o progresso.

– Sherlock. — John falou, tentando manter a voz baixa, e sendo completamente ignorado. — Sherlock! — ele forçou o pulso para fora do aperto férreo do detetive, que continuou avançando. — Lockie! — parando abruptamente ao ouvir John chamando-o daquela maneira em público, Sherlock virou-se, surpreso. — Eu… eu conheço ele.

O detetive venceu em dois passos a distância que os separava, o olhar arguto escanenando o rosto de John, tomando nota da veia latejante na têmpora esquerda, o esgar quase imperceptível na boca, a rigidez da postura e o modo com que o médico abria e fechava o punho esquerdo, como se procurasse a empunhadura de sua arma.

– Oh. — ele murmurou, parando diante de John e segurando-o pelos ombros. — Você consegue me acompanhar mesmo assim? — John assentiu, sério, e não conteve um pequeno sorriso ao sentir os lábios frios do parceiro em sua testa. — Não vamos perder tempo, então.

Moram entrou na Brixton Road, e Sherlock e John apressaram-se para não perdê-lo de vista. O detetive sentia-se desconfortável; Londres Central era seu território de caça. Ele conhecia as ruas da cidade melhor do que a palma de suas mãos, cada curva, desvio e peculiaridade gravados no mapa de seu Palácio Mental. Naquele lugar, ele não tinha a mesma proficiência. E foi por isso que, ao ver Moran dobrar uma esquina e segui-lo alguns segundos depois, com John em seus calcanhares, ele se viu em uma ruela escura, sem saída, com o cano de uma pistola automática apontada diretamente para sua cabeça.

– Eu não daria mais nenhum passo, senhor Holmes. E também não faria isso, Capitão Watson. — Moran falou, vendo John levar a mão às costas. — Mãos onde eu possa vê-las, os dois. — Sherlock ergueu as mãos, rolando os olhos.

– Um clichê atrás do outro. Vejo que foi o pendor pelo drama barato que aproximou você de Moriarty.

– Isso, e um cheque de pagamento gordo. — o sniper retrucou. — É bom ver você de novo, Watson. Você ganhou peso.

– E você perdeu. — John manteve um tom falsamente cordial. — Faz o quê, seis anos, Coronel? A última vez que o vi você estava tentando salvar uma unidade de Infantaria inteira, no meio do deserto, com só um cartucho de munição. — Moran estreitou os olhos, fingindo ignorar o tom reprobatório do outro.

– E a última vez que eu vi você, você tinha um colete de Semtex amarrado no peito e eu tinha uma mira laser na cabeça do seu namoradinho.

– Ora… — Sherlock falou, sarcástico — Parece que, afinal de contas, Moriarty arrumou mesmo um animalzinho de estimação. — ele viu que atingira um ponto sensível quando a arma balançou quase imperceptivelmente na mão até então firme de Moran, que voltou sua atenção integralmente para o detetive.

– Eu não sou animalzinho de estimação de ninguém, Holmes. — ele grunhiu, com raiva — Não quero ser incluído nos joguinhos mentais doentios que você e Jim parecem gostar tanto. — Sherlock viu com o canto dos olhos Johh ir abaixando o braço lentamente, milímetro por milímetro, e continuou a provocar o sniper, chamando toda a atenção para si.

– “Jim”, hun? A parceria vai um pouco além das atividades criminosas, Moran? — Sherlock observou as pequenas pistas na expressão aparentemente impassível do outro. — Oh, eu vejo… você alimentou a esperança de que isso acontecesse, e Moriarty brincou com seus sentimentos.

– Cale essa boca. — Moran falou entredentes. — Cale essa boca, Holmes, ou eu juro por Deus que nem mesmo a possibilidade da fúria de Jim caindo sobre mim vai me impedir de puxar esse gatilho! — concentrado em sua raiva cega, ele não viu John avançar lentamente para o lado e erguer sua Browning com cuidado.

– Oh, coitadinho do Sebastian! — Sherlock debochou, e o dedo do sniper tensionou-se no gatilho — O grande e malvado Moriarty quebrou seu coração?

– CALADO! — o grito de Moran foi seguido pelo estampido da arma de John; o tiro acertou-o na mão, e ele disparou a própria arma com o impacto, antes de derrubá-la no chão — Watson, seu filho da puta!

John jogou sua pistola no chão e saltou sobre Moran, atingindo-o em cheio no queixo, fazendo-o cambalear. Ele olhou para o lado e sentiu seu sangue gelar ao ver Sherlock, muito pálido, encostado em uma lixeira, o lado esquerdo do rosto coberto de sangue. Sua visão tornou-se vermelha, a pulsação rugindo contra seus ouvidos, fúria correndo por cada centímetro de seu corpo. Moran vinha em sua direção com o punho fechado, mas John desviou em uma finta e pulou nas costas do outro, forçando-o a ajoelhar-se, passando o braço por seu pescoço e apertando-o com toda a força que dispunha. Moran lutava por ar, arranhando o braço de John, que parecia ficar mais forte quanto mais seu adversário reagia. Com a visão já começando a falhar, Moran conseguiu colocar-se em pé e jogar-se contra a parede, tirando o fôlego do médico. John, surpreso, afrouxou a pressão, e Moran prontamente libertou-se, virando-se e jogando-o com o corpo contra os tijolos mais duas vezes. Com as pernas fraquejando, o médico sentiu-se ser agarrado pelo pescoço e erguido lentamente, a fúria cega de Moran transformada em força física.

– Jim deixou muito claro que eu não deveria matar Holmes por iniciativa própria, mas você sempre foi um ponto confuso, Watson. — ele grunhiu, a voz áspera. — Acho que vou acabar com você agora e dizer que foi um aci.. — John estava quase perdendo a consciência quando a pressão em seu pescoço aliviou, Moran desmoronando diante dele, e Sherlock parado na frente dos dois, suspirando e segurando sua Browning descuidadamente, depois de aplicar uma coronhada na nuca do sniper com precisão cirúrgica.

– Um clichê atrás do outro. — ele murmurou, ajoelhando-se ao lado de John, que desmoronara no chão e, sem cerimônia, deitara-se ao comprido no chão do beco. — Você está bem? — John assentiu, engolindo com dificuldade e erguendo a mão para o rosto ensanguentado de Sherlock. — A bala pegou de raspão na têmpora, parece mais grave do que realmente é. Você consegue se sentar? — John ergueu o corpo devagar e sentou-se escorado na parede, respirando fundo. Sherlock sentou-se ao lado e tomou-lhe a mão, beijando-lhe os nós dos dedos. — Mandei uma mensagem para Lestrade, ele está a caminho. Dimmock já está com Ben Mitchell sob custódia. — John soltou a mão de Sherlock e tirou seu casaco e a camisa que usava, ficando apenas com uma regata branca. Rasgando uma das mangas da camisa, começou a limpar com cuidado o rosto do detetive, numa tentativa de analisar a extensão e a gravidade do ferimento.

– Depois que Lestrade levar Moran, nós vamos para casa. — ele falou, a voz áspera, terminando de limpar o rosto de Sherlock e aliviado ao ver que fora, realmente, pouco mais que um arranhão. — Nós vamos tomar um banho, eu vou forçar uma refeição quente em você e você vai dormir, pelo menos, oito horas. — eles pararam ao ouvir um gemido vindo de Moran. Sherlock virou-se e, quase com displicência, aplicou outra coronhada na lateral da cabeça do homem. Ele virou-se para John, acenando para que que ele prosseguisse. — Que horas são? — Sherlock puxou o celular do bolso.

– Pouco mais de uma hora. — John suspirou e buscaou seu próprio telefone nos bolsos do casaco.

– Vou ter que ligar para Sarah e pedir que ela cubra meu turno amanhã; não vou conseguir me erguer da cama pra trabalhar, depois da surra que levei. — Sherlock acariciou com a ponta dos dedos os hematomas que já começavam a escurecer no pescoço de John. — Não é nada sério, Lockie. — ele falou, baixinho. A garganta já começara a doer; falar ia ser uma experiência desconfortável, no dia seguinte. — Uns analgésicos e uma xícara de chá quente, e eu vou ficar como novo. — Sherlock assentiu e encostou-se novamente ao lado de John para aguardar por Lestrade. De súbito, o médiuco foi tomado por um surto de risos que parecia quase doloroso.

– O que houve? — Sherlock perguntou, espantado. John balançou a cabeça e esforçou-se para dominar-se.

– Nada, é só… — ele imitou a expressão e o tom de voz entediados do detetive. — “Um clichê atrás do outro” — John foi novamente dominado pelo riso, e Sherlock juntou-se a ele, apoiando a cabeça no topo da do médico.

– Mas é verdade! O que ele achou, que estava em um filme de James Bond?

– Bom, se fosse isso, ele deveria saber que o vilão que se gaba sempre acaba pego. — Os dois voltaram a rir, e ainda tentavam controlar os acessos de riso e ocasionais gemidos de dor quando Lestrade chegou em uma viatura, com uma ambulância na esteira. Ele segurava um pacote de gelo junto à mandíbula.

– Bom encontrar vocês de bom humor. — ele falou, então reparando no rosto ensangüentado de Sherlock e nos hematomas de John. — Bom Deus, parece que vocês tiveram uns momentos complicados.

– Assim como você. — John retrucou. Sherlock ergueu-se sem dificuldade e ofereceu uma mão a ele, que levantou-se devagar, suprimindo uma careta. — Um pouco de resistência? — John escorou-se em Sherlock, que passou o braço por seus ombros, sustentando-o.

– Nada sério. O garoto era um peso leve. — Os paramédicos aproximaram-se e ergueram a forma ainda insconsciente de Moran, colocando-o em uma maca e levando-o para a ambulância. — Vamos, eu levo vocês até Barts.

– Nós estamos bem, Greg. Os ferimentos parecem piores do que realmente são, eu posso cuidar disso em casa.

– Eu sei que pode, John, mas eu preciso que vocês façam um exame de corpo de delito. — Sherlock bufou, aborrecido.

– Isso é mesmo necessário, Lestrade? Não é como se não houvéssemos sofrido ferimentos piores em outros casos…

– Não é com os seus ferimentos que eu estou preocupado, Sherlock! — Greg explodiu — Eu não quero é que aquele cretino ali escape porque eu deixei de cumprir algum procedimento, ferrando com um caso que nem é meu pra começo de conversa! — Sherlock ergueu uma sobrancelha, mas não retrucou — Vamos, quanto antes terminarmos, melhor. Deus, eu preciso dormir… — ele apertou o pacote de gelo e afastou-se em direção à viatura, pisando duro. O detetive e o médico trocaram um olhar divertido e apressaram-se em segui-lo.

– Vou ligar pra Sarah. — John falou, quando já estavam acomodados no banco traseiro da viatura, um policial uniformizado ao volante e Greg no banco do passageiro, exsudando mau humor. Ele discou o número, e ficou aliviado quando a colega atendeu no primeiro toque, a voz alerta. — Sarah, é John. Desculpe estar ligando tão tarde… não, não é nada muito grave. Escute, Sherlock e eu tivemos alguns problemas com um caso, e eu queria saber: você poderia cobrir meu turno amanhã? Não, Sarah, nós não fomos presos. Não, não é uma desculpa pra… que droga, Sarah! — o rosto de John tingiu-se de vermelho, e ele espiou Sherlock com o canto dos olhos, mas o detetive estava imerso em pensamentos. — Escuta, eu cubro o plantão do próximo final de semana, okay? Mas eu levei uma surra de um cara muito maior do que eu, e não vai ser bom aparecer na frente dos pacientes coberto de hematomas. — ele respirou fundo, jogando a cabeça para trás e imediatamente se arrependendo quando a musculatura do pescoço protestou — Não é tão ruim assim… eu só preciso de uma porrada de analgésicos e um bocado de descanso, e vou ficar como novo. Está bem, obrigada, Sarah. Te vejo na segunda.

John desligou o telefone e esfregou os olhos fechados, exausto. Por que suas noites fora sempre terminavam dessa maneira? Ele então sentiu a pressão da mão de Sherlock em sua coxa e sorriu. Claro; porque ele inventara de se apaixonar por Sherlock Maldito Holmes. E enquanto tomava a mão de dedos longos na dele, ele pensava que não trocaria isso nem por todas as noites sossegadas do mundo.

Notas finais
Tem smutty no próximo capítulo pra compensar. Em amplas doses. [junto com amplas doses de angst, tb]