The Science Of Seduction: Lesson Three
3 PARTE III – CSI: CRIME SCENE INFATUATION
Notas iniciais
Eu sei que houve um hiatus de três meses, e acho que devo uma explicação pra vocês.
A vida me pegou pelas bolas, esse é o resumo da coisa. Como a maioria de vocês bem sabe, eu não sou cocotinha: tenho 28 anos, trabalho 44 horas semanais e tenho um filho de quatro anos (a criança mais maravilhosa da face da Terra, aliás 3). Minha vida pessoal sofreu uma série de percalços e tribulações que travaram completamente meu processo criativo. Eu não estava satisfeita com o que estava escrevendo, e só agora eu consegui colocar um rumo mais ou menos como eu queria na história novamente. Ela provavelmente vai ser um pouco mais longa do que eu planejei a princípio, mas se eu contar pra vocês que tudo isso começou com a ideia de uma JohnLock one-shot, vocês terão uma idéia de como a minha mente funciona (era pra tudo ter terminado depois da cena do chuveiro em Lesson One!).
Como sempre, minha Mystrade vai ser atualizada ao mesmo tempo que a Johnlock, e ainda virão algumas outras novidades 3
Essa é a minha explicação explicação e pedido de desculpas a vocês, assim como um agradecimento pela paciência.
Hope you enjoy this chapter!
Era uma casa de dois andares em Notting Hill, o tipo de lugar onde se espera encontrar um casal com dois filhos e umterrierno quintal dos fundos. A frente já estava bloqueada pelas viaturas da Polícia Metropolitana. Junto à fita de isolamento da cena do crime, um policial gordinho e muito jovem montava guarda, nervoso. Sherlock aproximou-se a passos largos, John correndo de leve para alcança-lo.
- Senhor, é uma cena de crime! – ele tentou interromper Sherlock, que passara sob a fita e agora a segurava, erguida, para John – O senhor não pode...
- Tudo bem, Lewis. – a voz desdenhosa de Sally Donovan veio da porta da casa – Eles estão aqui a pedido do Detetive-Inspetor Dimmock. – ela virou-se para Sherlock. – Okay, Aberração, pode vir comigo. – John carranqueou para Sally e virou-se para Sherlock, que a observava com os olhos estreitados e um sorriso ferino.
- Ora, ora, Sargento Donovan... a Yard deve estar pagando melhor do que eu pensava, se agora você consegue comprar saias Stella McCartney. – ele sorriu com falsa inocência – Mas acho que o tamanho da saia está errado, parece tão apertada... e, John, esse não é o mesmo perfume que a assistente do meu irmão usa? Chanel nº 5, sempre achei tão enjoativo... mas é uma melhora significativa, em comparação com o terrível desodorante barato que Anderson usa. – com um olhar maldoso, ele saiu em direção aos degraus da entrada, examinando o chão com cuidado, saltando de um lado para o outro. John virou-se para Sally, contendo um sorriso.
- Você devia comprar um perfume próprio, Sally. Usar o perfume dos seus amantes é muita bandeira, mesmo para os meus padrões. – Ele olhou para a elegante saia xadrez, claramente um número menor, que a sargento usava e balançou a cabeça, rindo abertamente. – Diga a ela que mandei lembranças. – ele saiu atrás de Sherlock, deixando Sally fumegando de raiva, lançando maldições ao céu de início de noite.
Eles encontraram Dimmock no vestíbulo, balançando nos calcanhares ansiosamente. John gostava de Dimmock; como Lestrade, ele aceitava as excentricidades de Sherlock, sem se deixar arrastar por elas. Desde o caso envolvendo o Lótus Negro, ele esporadicamente procurava Sherlock em busca de orientação. Ele ouvia, e aprendia; cada vez mais a estrela dele na Scotland Yard ascendia. Lestrade dizia que, se alguém da nova geração de inspetores tinha uma boa cabeça sobre os ombros, esse alguém era Michael Dimmock. Mas ainda havia casos que desafiavam sua compreensão e, para eles, existia Sherlock Holmes.
- Boa noite, Sherlock, John. – ele acenou com a cabeça, sinalizando para que um dos rapazes da perícia trouxesse os trajes protetores. – Três vítimas: o dono da casa, Arthur Goodwin, 25 anos, sua noiva, Padma Singh, 23 anos e a colega de quarto dela, Lucy Carlisle, 25 anos. Eles foram encontrados por Adam Milverton, namorado da srta. Carlisle, que veio encontra-los para um jantar comemorativo do noivado do Sr. Goodwin e da srta. Singh. Os corpos... – Sherlock ergueu a mão, e Dimmock calou-se. – Já sei: sem ideias preconcebidas. Vocês têm dez minutos. – Sherlock colocou as luvas de látex, ignorando completamente o traje azul descartável.
- Posso precisar de mais tempo, Dimmock. – o inspetor franziu o cenho e endireitou a postura, cruzando os braços e tentando parecer o mais ameaçador possível.
- Dez minutos, Sherlock, e eu vou precisar de todas as informações que você puder me dar. – Sherlock fechou a expressão, contrariado, mas um meio sorriso perverso logo insinuou-se em seus lábios.
- Alguém anda aprendendo com o sogro. – ele provocou, e ficou satisfeito ao ver as bochechas do inspetor tingirem-se suavemente de vermelho. – Aliás, onde ele anda? Normalmente, ele é chamado em casos assim. Hierarquia ou outra bobagem dessas. – ele falou, com uma careta.
- O julgamento do caso Winger começou hoje de manhã. Ele está atolado até o pescoço com a promotoria. – Sherlock assentiu, sem prestar muita atenção. John fechou o zíper do traje e virou-se para Dimmo, que terminava de calçar as luvas.
- Quem é a equipe forense que está aí?
- Anderson e O'Neil. – John assentiu, munindo-se de uma dose extra de paciência. Sherlock ia ser mais desagradável do que o habitual; O'Neil era nova no departamento, e era de conhecimento geral que, desde que fora chutado por Donovan, Anderson andava esforçando-se para impressioná-la. — Vamos, os corpos foram encontrados na sala de estar.
A sala de estar era apinhada de poltronas e sofás, com mesinhas laterais cheias de porta-retratos e bugigangas. Seria um lugar acolhedor e agradável, não fossem os três corpos nus que jaziam entre móveis virados e cacos de porcelana. Os olhos gris de Sherlock escaneavam a cena no umbral da porta, catalogando o que viam. Ele sacou o celular e começou a tirar fotos aparentemente a esmo. John examinou a sala com cuidado, tentando registrar algum detalhe interessante, antes de voltar o olhar para os três corpos. Três garotos, com a vida inteira pela frente. Ele ainda surpreendia-se com a facilidade com que alguns ditos seres humanos dispunham da vida dos outros.
Sherlock avançava pela sala agora em passos cuidadosos, examinando os sofás e depois as paredes, tirando fotos com o celular de vez em quando. Ele finalmente agachou-se ao lado do corpo do rapaz, usando a ponta de uma caneta apara afastar o cabelo que cobria o orifício de entrada do tiro que o matara. Ele fez sinal para que John se aproximasse, e o médico agachou-se do outro lado do corpo.
- E então, alguma ideia? – o detetive assentiu, examinando um largo hematoma no rosto do rapaz, e logo partindo para examinar as mãos.
- Sete, até agora. – ele ergueu os olhos e encarou John – O que você pode me dizer? Começando pelo sr. Goodwin, aqui.
- Acausa mortisé, obviamente, o tiro na têmpora. – John inclinou-se para examinar a ferida e cheirou-a de leve – Tiro à queima-roupa, pela queimadura em volta; ainda dá pra sentir o cheiro de cordite. Pelo tamanho, eu diria que um calibre .38.
- E pelo ângulo da ferida de saída, eu diria que o sr. Goodwin estava ajoelhado quando foi atingido. – Sherlock interrompeu. – O que mais, John?
- Em algum ponto, ele resistiu; é possível ver a marca de uma coronha no hematoma. – ele apontou as marcas para Sherlock. – E como não há outras marcas, imagino que, depois disso, ele colaborou com o assassino.
- Ou assassinos. – corrigiu Sherlock.
- Ou assassinos. – John concordou, continuando o exame do corpo que jazia meio de bruços. – Hum... parece que ele foi...
- Sim. Todos os três foram vítimas de violência sexual. – Sherlock cuidadosamente virou o corpo, mostrando que o órgão sexual estava coberto de sangue e fluidos – Mas não da maneira que a polícia pensou a princípio. – John desviou o olhar, subitamente nauseado à medida que a ideia começava a formar-se em sua mente.
- Qual é a sua teoria, Sherlock? – o detetive ergueu-se, movendo-se para examinar o corpo da noiva de Goodwin, que jazia próximo à lareira.
- A mesma que a sua, pelo visto. – ele fez sinal para que John viesse examinar o corpo, e dessa vez ele agachou-se ao lado de Sherlock, que examinava as orelhas. – Ele foi coagido a violenta-las, e depois ele mesmo foi violentado. – John abriu a boca, e Sherlock ergueu um dedo. – É inútil procurar por DNA; Goodwin foi violado com um objeto. Só precisamos encontra-lo. – ele foi examinar o terceiro corpo, enquanto John terminava com o da Srta. Singh. Depois de pegar todas as informações possíveis, Sherlock voltou a examinar a sala. Ele parou junto ao mantel, examinando um complicado buquê de tulipas laranja, embrulhado em papel grafite brasonado em prata. Pegando o cartão pendurado no buquê, ele ficou muito quieto por um instante. – John? – o médico ergueu-se de onde concluía o exame no último corpo com um grunhido, por causa dos joelhos rígidos, e juntou-se ao detetive – Você lembra quando meu irmão enviou aquele buquê de flores para a Yard, no aniversário de Lestrade? – John conteve um sorriso, lembrando das provocações infinitas de Sherlock quando eles estavam sentados no escritório e o sofisticado buquê de girassóis chegou para o detetive-inspetor. Ele assentiu. – E você lembra o que eu falei sobre a floricultura? — John assentiu novamente, lembrando-se da arenga sobre como aquela floricultura usava métodos alternativos de cultivo, e produzia inclusive seu próprio papel para os cartões que acompanhavam os buquês. Ele lembrava claramente da expressão sonhadora de Greg ao revirar o pequeno cartão preto em suas mãos. – Bom. Então, o que este cartão diz a você? – Sherlock ergueu um pequeno pedaço de papel para o escrutínio de John.
Era um cartão aparentemente normal. Um pequeno retângulo, do tamanho de um cartão de visitas, em um belo tom de marfim, um papel texturizado, de aparência cara. No meio do cartão, em tinta azul e escrita fluida, duas palavras: "Toc, toc".
- Alguém trocou o cartão. – John realizou, confuso. – Por que alguém faria isso? – Sherlock bufou, exasperado, e agarrou John pelos ombros, encarando-o com força.
- Vamos lá, John, você pode fazer melhor do que isso! – John, a despeito de irritado pelas maneiras rudes do outro, não conseguiu evitar a onda quente que lhe percorreu ao sentir que Sherlock, inconscientemente, acariciava seus ombros com as pontas dos dedos durante o aperto. Dimmock os observava da soleira da porta, e John sentiu o rosto esquentar. – Onde você viu esse papel antes? – ele falou, em voz baixa, para que apenas John ouvisse – Onde você viu essaletraantes? – ele soltou os ombros de John e arrancou as luvas de látex, dirigindo-se a Dimmo – A cozinha? – o detetive-inspetor apontou para o fundo da casa.
John seguiu-o rapidamente, e viu o esgar de desgosto nos lábios de Sherlock ao ver Anderson descendo as escadas, seguido de perto pela nova legista. O legista olhou com visível desprezo para o par.
- Ah, você já está aqui, Aber... Holmes. – John não perdeu o corte abrupto na forma de tratamento; obviamente, Sherlock também não. – Espero que não tenha contaminado a minha cena do crime. – Sherlock tinha um brilho maldoso no olhar, e John respirou fundo, preparando-se para uma tempestade de insultos... que nunca chegou.
- Vamos, John. Quero ver se esses idiotas não deixaram escapar nada de importante. – ele puxou o médico pela manga da camisa até o cômodo nos fundos da casa. A cozinha era moderna, com eletrodomésticos de aço e superfícies de granito, e uma porta que dava para um pequeno jardim murado. John ficou parado na porta, enquanto Sherlock colocava um novo par de luvas e começava a examinar os balcões e o conteúdo da lixeira. O detetive estava estirado no chão, olhando embaixo dos armários quando Anderson alcançou-os, com O'Neil em seus calcanhares.
- Escute aqui, Aberração, eu estou cansado dos seus insultos! – Sherlock ignorou-o completamente, e John virou-se para o legista, um ponto branco e quente de irritação crescendo em seu peito.
- Engraçado reclamar de insultos quando você é o primeiro a gritar nomes cada vez que chegamos para trabalhar. – ele rosnou. – Você devia era agradecer aos céus, Anderson, que Sherlock ainda se dá ao trabalho de aparecer, apesar do jeito que você e seus colegas o tratam; quantos casos ficariam sem solução se não fosse por ele? – Anderson fechou as mãos e ensaiou uma resposta, mas John virara o rosto e agora encarava a ilha central da cozinha com uma expressão intrigada. – Sherlock?
- Hum? – o detetive examinava a borda da janela, tentando ver se ela fora aberta naquela noite.
- Há três vítimas, mais a testemunha que os encontrou... no entanto, há louça para cinco pessoas sobre o balcão. – Sherlock pulou em direção ao balcão, notando os pratos empilhados e os talheres espalhados ao lado. Cinco pares de talheres, cinco pratos. Ele virou-se para John com um brilho maníaco nos olhos.
- John... você nota as coisas mais banais e absurdas. – John franziu a testa, confuso, e Sherlock aproximou-se dele, tomando-lhe o rosto entre as mãos. – Você é brilhante. — o detetive beijou-o, um beijo lento e carinhoso que fez o médico derreter-se completamente. John enlaçou a cintura de Sherlock, até que um súbitothumpfê-los romper o beijo. Os dois viraram-se e deram de cara com Anderson estendido no chão, e O'Neil olhando-os levemente constrangida.
- Ele... ele simplesmente desmaiou quando viu vocês se beijando. – ela falou pela primeira vez naquela noite. – Não sabia que ele era tão homofóbico. – ela completou, carranqueando para o colega desacordado.
- Ele não é homofóbico. – Sherlock falou, soltando-se do abraço de John e pulando por cima do corpo de Anderson. – Ele pode ter muitos defeitos, mas esse não é um deles.
- Anderson é... Holmes-fóbico. – John falou, agachando-se ao lado do legista e batendo em seu rosto com um pouco mais de força do que seria necessário para despertá-lo. – Acorde, Will. Você vai contaminar a cena do crime. – Anderson abriu os olhos e encarou John, confuso. O médico deu um sorriso maldoso e balançou a cabeça afirmativamente. – Sim, você viu. – John ergueu-se, sem fazer menção de auxiliar o outro a levantar-se, saboreando essa pequena vingança por todas as vezes que o legista chamara Sherlock de aberração, entre outras coisas. – E espero que essa imagem assombre você por noites a fio.
John foi encontrar Sherlock na frente da casa, entregando suas deduções para Dimmock, que anotava rapidamente em uma caderneta. Sally estava escorada ao lado do detetive-inspetor, ainda com um ar mal humorado, mas decididamente mais relaxada. Quando viu o médico aproximar-se, ela fez sinal para que ele o seguisse até a viatura estacionada mais adiante. John ficou intrigado, e acompanhou a sargento, encostando-se no carro ao lado dela. Sally respirou fundo, com um sorriso de canto nos lábios cheios.
- Então... Anderson não aguentou a visão de vocês dois se beijando? – John riu, balançando a cabeça.
- Parece que descobrir que Sherlock é, afinal de contas, humano, foi demais para ele. – Sally sorriu por um instante antes de endireitar-se e virar-se para John, subitamente séria.
- Olhe, Doutor Watson... eu sei que você não gosta do jeito que eu falo com ele. Mas você precisa entender uma coisa... ele pode ser uma aberração, mas é anossaaberração. Nós negamos até a morte, masprecisamosdele, e que diabos,gostamosde ter ele por perto. – John olhou-a, espantado. Não era possível que, dentre todas as pessoas possíveis,Sally Donovanestivesse dandoO Discursopara ele. – Então, você já sabe... cuide dele. Porque, se você não cuidar dele, se você machucar ele... eu e Lestrade vamos machucar você. Entendido? – o médico assentiu, em silêncio. – Bom. E se você repetir uma única palavra do que eu falei, eu vou negar até a morte.
John observou em estado de choque a sargento afastar-se em direção a Dimmock e Sherlock, fazendo algum comentário ferino que foi prontamente respondido pelo detetive. Ele balançou a cabeça, pensando que nunca ia parar de se surpreender com as pessoas que lhe cercavam em sua vida.
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A viagem de volta até Baker Street foi feita em silêncio. Sherlock entrou no táxi e, imediatamente, recolheu-se às profundezas de sua mente. John, acostumado com os humores do detetive quando estava trabalhando, encostou-se a janela e fechou os olhos, tentando dormir um pouco. Passavam alguns minutos das oito horas, mas o estresse do dia já pesava sobre seus ombros. A noite mal dormida, preocupado com o sumiço de Sherlock, depois a cena na clínica... Ele estava deslizando em direção a um sono mais profundo quando foi despertado por um toque muito leve em sua mão. Abriu os olhos, e surpreendeu-se ao ver Sherlock, ainda com os olhos fechados e a cabeça recostada no banco, acariciando seus dedos de leve, como se não percebesse o que estava fazendo. O táxi encostou diante do 221B, e o cessar do movimento despertou o detetive de seus devaneios. Sem dizer uma palavra, ele pagou ao motorista e arrastou John para fora do carro.
Ao entrar no flat, Sherlock atirou-se no sofá, as mãos unidas diante do rosto em intensa concentração. John foi para a cozinha, colocar a chaleira para ferver. Preparou um chá em silêncio, não querendo interromper a linha de raciocínio do detetive (ainda que ele acreditasse ser impossível), e sentou-se em sua poltrona cuidadosamente, contendo um suspiro de exaustão. O médico aproveitou para observar a figura do amante imerso nas profundezas de seu Palácio Mental, o corpo em perfeita inércia, os dedos longilíneos levemente apoiados nos lábios cheios, os olhos movimentando-se rapidamente por trás das pálpebras fechadas enquanto ele colocava as peças do mistério em ordem. Durante um longo tempo os dois permaneceram quietos, até que os olhos de Sherlock abriram-se e ele pulou do sofá, agarrando o telefone celular sobre a mesa.
- O cartão. – ele falou, enquanto mandava uma mensagem de texto. John piscou, tentando limpar o sono dos olhos.
- O que tem ele?
- Você não notou? – Sherlock olhou-o em descrença – O papel, John! – John esfregou a ponte do nariz e respirou fundo.
- Eu sei, não é o papel que a floricultura normalmente usa. Foi substituído, você já disse. – Sherlock bufou, conferindo a mensagem que chegara em seu telefone antes de responder.
- Você prestou atenção no papel, John?Observouele de verdade? – o médico permaneceu em silêncio, esperando que o detetive esclarecesse o que ele havia perdido. Sherlock suspirou, exasperado. – Papel da Boêmia, com fibras de linho. E a escrita... caneta de ponta de feltro, a pessoa que escreveu é canhota, letra levemente feminina, mas pesada ao ponto de marcar o outro lado papel. O que isso lembra a você?
Um dedo frio pareceu percorrer a espinha de John, enquanto ele sentava-se reto na poltrona, memórias de uma piscina escura e o peso de um colete de Semtex amarrado ao seu peito correndo em sua mente. Sherlock viu em seus olhos a compreensão, e acenou com a cabeça levemente.
- Por quê? – foi só o que John conseguiu articular, enquanto sentia uma garra fria apertar seu coração. Seeleestava de volta em suas vidas, qualquer coisa podia acontecer.
- Ainda não sei. – o detetive levantou-se, vestindo o paletó e colocando o celular no bolso. – Preciso ir até a Yard, verificar os registros dos pais das vítimas.
- Dos pais? – John olhou-o, intrigado. – Por que os pais? – Sherlock rolou os olhos, exasperado.
- Porque claramente isso foi um ataque aos pais. Se nós não estivéssemos lá, os idiotas iriam tratar isso como um simples latrocínio. – John não conseguiu conter a onda de afeição que sentiu ao ouvir Sherlock dizer "nós", e o detetive não perdeu a suavidade que tomou o olhar do outro, apesar do assunto. – Sim,nós, John. Você, afinal, chamou a minha atenção para o quinto convidado misterioso, que pode ser a peça que falta para completar a imagem em minha mente. Vamos. – John largou a xícara sobre a mesa e foi vestindo o casaco ao sair.
- Vai haver alguém na Yard, a essa hora?
- Eu enviei uma mensagem para Dimmock. Ele disse que Lestrade está lá, revisando os autos de hoje do julgamento Winger. — Sherlock acenou para um táxi e, não pela primeira vez, John pensou que o detetive tinha uma espécie de habilidade sobrenatural para invocar o transporte. Em menos de trinta minutos, eles entravam pela porta da New Scotland Yard, indo direto para o escritório de Greg, que ergueu a cabeça dos documentos com uma careta.
- Não trouxeram nem um café? – Sherlock ignorou-o completamente, pegando a pilha de arquivos que Dimmock deixara para ele sobre a mesa e sentando-se em uma das cadeiras.
- Boa noite pra você também, Greg – John respondeu, bem humorado apesar do cansaço. – Se Sherlock for demorar, vou pedir comida. Chinesa?
- Indiana. – Greg resmungou, esfregando os olhos. – O maldito promotor está ferrando com o caso. E a defesa caiu em cima de mim, alegando que eu não estava presente no flagrante da prisão, então meus testemunhos acerca das noites de tocaia não devem ser considerados. Se eles deixarem esse cretino escapar... – ele balançou a cabeça, exasperado. – Hey, mas amanhã é a segunda quinta-feira do mês. Será que você vai poder deixar seu ninho de amor para tomar umas canecas com seu velho parceiro? – Greg desviou agilmente do peso de papel arremessado por John.
-Velhosendo a palavra chave da frase, vovô. Mesmo horário, mesmo local. – John sentou-se ao lado de Greg e espiou os autos sobre o ombro do amigo. — Mycroft está na cidade? – o policial respirou fundo e largou os documentos sobre a mesa, desistindo por aquela noite.
- Não... voltamos de Surrey ontem pela manhã, e antes do almoço ele já estava no ar. Não sei exatamente onde, e também não sei quando ele volta... nada como dois ou trêspintse um pouco de conversa fiada pra passar a noite, então. – ele viu John olhar de canto para Sherlock, como se certificando de que o detetive estava completamente mergulhado no caso, antes de olhar novamente para Greg com um olhar levemente constrangido. – Okay, pode despejar. – o policial falou em um tom de voz baixo.
- Bem... eu gostaria de conversar algumascoisascom você. – Greg ergueu as sobrancelhas, incitando-o a prosseguir. – Tirar algumas dúvidas... sobre... relacionamento. – as bochechas de John queimaram em um tom violento de escarlate, enquanto ele desviava o olhar do rosto do amigo, que continha a muito custo um sorriso maldoso.
-Ooh, isso vai ser interessante. Mal posso esperar, Johnny. – o médico grunhiu e enterrou o rosto nas mãos, arrependendo-se imediatamente de ter cogitado pedir conselhos para o outro.
Era mais de meia noite quando Sherlock finalmente recolheu os arquivos e decidiu continuar o trabalho em casa. John e Greg haviam pedido comida, e depois de conversar um pouco, acabaram por cair no sono, cada qual em sua cadeira. O policial não estava particularmente feliz em voltar para um flat vazio, mas se ele dormisse mais uma noite no sofá de seu escritório, Mycroft ia arrancar sua cabeça quando voltasse à Londres. John estava mais do que ansioso em voltar para casa, se enroscar na cama, mesmo sozinho, e tentar arrancar algumas horas de sono antes de ter que voltar para o trabalho.
Ao chegar a Baker Street, Sherlock estirou-se no sofá sem nem mesmo trocar de roupa, entrando em transe quase que imediatamente. John murmurou um "boa noite" exausto e recolheu-se ao quarto, desanimado ao lembrar que teria que enfrentar um longo turno de trabalho em menos de sete horas. Encostou a cabeça no travesseiro e sentiu-se escorregar para a inconsciência.
Calor, uma claridade que machucava os olhos, areia por todos os lados e o odor pungente de pólvora, suor e sangue. Se existia um inferno, John tinha certeza de que era exatamente igual àquela maldita zona de guerra. Ele estava à beira de uma estrada, a alguns quilômetros da base aérea de Kandahar, e seu comboio fora atacado por uma patrulha avançada da milícia Taliban. Ele estava curvado sobre o corpo de um jovem soldado galês, um rapaz de não mais que vinte anos, com um estilhaço de granada alojado na coxa. Ele sabia que, qualquer mínimo movimento faria com que ele acertasse a artéria femoral, e o rapaz sangraria até a morte. Concentrou-se no trabalho médico e confiou nos companheiros para que mantivessem sua segurança. Mas sempre havia algo que escapava; nesse caso, foi umsniper, escondido em meio às dunas. John retirava cuidadosamente um estilhaço quando sentiu um impacto em seu ombro esquerdo, que jogou-o contra o corpo do rapaz. A dor foi imediata e enlouquecedora; ele tentou erguer-se, e viu o sangue que escorria de seu ombro misturar-se ao sangue que jorrava da perna do garoto. Tentou primeiro estancar a hemorragia do rapaz, enquanto gritava para que os companheiros se reagrupassem para esperar o resgate. Viu a luz se apagar dos olhos verdes do garoto, ao mesmo tempo em que a vertigem tomou conta de si, e teve apenas um último pensamento antes de desmaiar. "Por favor, Deus, me deixe viver".
John acordou suado, enrolado nos lençóis, com lágrimas correndo pelas faces. Ele respirou fundo e sentou-se, esfregando os olhos com força, tentando apagar as imagens de sua mente desperta. Aos poucos, então, deu-se conta de que uma melodia suave invadia o quarto, e fora o que, possivelmente, o acordara. As notas delicadas acalmaram sua pulsação, e ele sentiu sua respiração regularizar-se aos poucos. John deitou-se novamente, respirando fundo, sentindo a música derramar-se sobre ele, um bálsamo em seus nervos abalados. Seus olhos fecharam-se aos poucos, sua mente evocando a imagem de Sherlock em pé, diante da janela, curvado sobre o violino, de olhos fechados, arrancando-lhe aqueles doces sons. Logo ele mergulhava em um sono sossegado e sem sonhos.
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