XVII


Eu não sou uma má pessoa, Giuseppe murmurou baixo enquanto colocava mais um livro na prateleira. Seu braço esquerdo segurava o peso de seis exemplares, enquanto sua mão direita os colocava perfeitamente nos espaços reservados. Aquele lado fora designado a receber as novas aquisições dos Cavallone, destinadas unicamente a Catarina e sua nova paixão: japonês. Desde que começara a ter aulas com Ugetsu, a garota decidiu que gostaria de se envolver o máximo possível com a língua. A irmã de Alaudi, que morava no Japão há mais de uma década, enviou alegremente uma boa quantidade de material e a garota ruiva não conseguia conter sua animação, embora estivesse longe de conseguir ler fluentemente aqueles livros.


Eu não sou uma má pessoa. O último livro foi colocado na prateleira e o louro virou-se e voltou à mesa, segurando uma nova quantidade. Havia dois baús cheios de livros e ele queria terminar aquela tarefa antes do almoço. E isso me manterá ocupado. O Braço Direito mordeu o lábio inferior, sentindo-se tolo. Eu deveria cuidar de outros assuntos e não me esconder em uma biblioteca. O local era imenso, maior do que o escritório que ficava ao lado. Havia dezenas de prateleiras, todas divididas por temática e separadas por ordem alfabética. Giuseppe adorava passar seu tempo arrumando os exemplares e adicionando novas aquisições, mas ele sabia melhor do que ninguém que o real motivo que o levara até ali não era seu amor por literatura.


A porta foi aberta e por um momento o homem de longos cabelos louros quase derrubou o livro que tinha em mãos. Os olhos verdes se mantiveram fixos na tarefa e mentalmente ele pedia para que sua nova companhia fosse uma das empregadas ou Catarina. Ninguém se anunciou e nenhum passo foi ouvido até o Braço Direito virar o rosto e encarar a pessoa parada ao longe, no começo daquele corredor. Oh não... Giuseppe retornou sua atenção aos livros, esperando que sua companhia notasse que ele estava ocupado e não poderia lhe dedicar tempo algum. Eu não sou uma má pessoa. Eu não estou sendo egoísta... O último livro daquela leva teria de ser colocado mais acima, então o louro esticou-se, porém, não era suficiente. Quem teve a ideia de fazer uma prateleira tão alta? O Braço Direito gostaria de ter ficado surpreso ao ver o livro sendo retirado de sua mão e colocado no local certo, no entanto, ele não ficou. Por que você está aqui?


"Obrigado." Giuseppe respondeu baixo, não oferecendo um olhar sequer para a pessoa ao seu lado.


"Quer ajuda?" Francesco respondeu com um sorriso animado. "Eu posso cuidar das prateleiras mais altas."


"Não, é meu trabalho, obrigado." O louro encarou o caminho que teria de percorrer até sair daquele corredor e a ideia não pareceu promissora. Suas pernas simplesmente não se moviam. "Você deveria estar sobre a escrivaninha, estudando, não? Você tem uma prova importante amanhã."


"Eu não estou preocupado. Eu sei o que fazer." Havia confiança na voz do rapaz de cabelos castanhos. "Achei que se eu o ajudasse você terminaria mais rápido e então..."


"E então...?" O Braço Direito virou-se sério. Ele não deveria estar aqui. Nós não deveríamos ficar sozinhos.


"Você está bravo com alguma coisa?" O futuro Chefe dos Cavallone disse com graça, dando um passo à frente.


"N-Não." Giuseppe respondeu sem muita certeza. Ele não fez nada. Eu estou simplesmente descontando nele um problema meu. Não é justo... " Mas eu não sei se é seguro ficarmos sozinhos."


"Por quê? Meu pai e Catarina estão na casa de Alaudi, Mario está na casa de Giulio e nenhum subordinado entrará aqui. Somos somente eu e você, Peppe."


E é isso o que eu mais temo. O comentário foi seguido por uma mão leve e gentil que tocou a bochecha esquerda do homem de longos cabelos louros, fazendo-o corar imediatamente. O herdeiro sorriu, aproximando-se devagar e beijando-o displicentemente. A língua passou furtivamente por entre seus lábios, e os olhos verdes se fecharam enquanto um gemido que ficou preso no fundo da garganta era omitido. O Braço Direito sentiu as próprias mãos subirem pelo peito de seu amante, apertando a camisa cor creme e sentindo a pele quente por baixo. A carícia tornou-se intensa em poucos segundos e Giuseppe assistiu seu bom senso deixá-lo quando Francesco desceu as mãos por sua cintura e apalpou seu quadril. Um suspiro mais alto deixou seus lábios e o louro não se importou com os apertos e esfregões que recebia. Seu corpo estava quente e a necessidade por contato parecia mais forte conforme o beijo se prolongava. Eu preciso pará-lo. Se eu não me impuser eu não sei até onde vamos. Os olhos verdes se abriram quando o beijo foi interrompido e o Braço Direito viu ali a oportunidade para ser o lado responsável, contudo, ele descobriria que aquela ideia havia sido ingênua e tardia.


O rapaz ajoelhou-se, abrindo o zíper da calça e levando a ereção com destreza até os lábios. Giuseppe tapou a boca com as mãos, evitando deixar que os gemidos saíssem. Seu corpo tornou-se arrepiado e ele não saberia dizer o que parecia mais satisfatório: a maneira como a língua do futuro Chefe brincava com seu membro ou a visão de ver seu amante fazendo algo tão indecente. Não é a primeira vez, mas por que eu me sinto assim? Por que é que todas as vezes que ele me toca eu sinto como se fosse perder a consciência? O louro fechou os olhos, focando-se no prazer que recebia ao mesmo tempo em que se martirizava por não ter sido capaz de evitar aquela situação.


Os gemidos se tornaram audíveis após algum tempo, e eles se misturavam aos sons emitidos durante o ato, tornando a situação do Braço Direito ainda pior. E-Ele precisa parar. Eu não sei se conseguirei me controlar por mais tempo. Giuseppe puxou o herdeiro pela camisa, entretanto, aquilo não foi suficiente para pará-lo. Dois grandes olhos cor de mel se ergueram e Francesco cessou o que fazia momentaneamente, apenas para umedecer dois de seus dedos. O que ele vai fazer? A ereção voltou para dentro da boca do rapaz de cabelos castanhos e, quando o louro pensou em tentar forçá-lo a parar, seu corpo tremeu ao sentir-se penetrado pelos dedos de seu amante, fazendo-o gemer alto enquanto chegava ao orgasmo.


A biblioteca tornou-se silenciosa. O futuro Chefe dos Cavallone só levantou-se após alguns segundos, todavia, não antes de oferecer mais alguns segundos de prazer. Sua boca foi limpa com as costas da mão esquerda e ele sorriu maldosamente ao ajudar o Braço Direito a se colocar de pé. Ele nunca havia feito isso antes... Como ele sabia o que fazer? Giuseppe aceitou a ajuda ou acabaria deixando-se cair, mas assim que se endireitou ele empurrou o herdeiro e se afastou, tentando fechar os botões da calça e fazendo o possível para não corar. Ele nunca havia me tocado dessa maneira. Ele está se tornando ousado.


"O que foi?" Francesco parecia confuso.


"V-Você... aconteceu! O que você pensa que está fazendo? A-Aqui? O-O que você fez?" O louro não conseguia fechar os botões por puro nervosismo.


"E-Eu não achei que você fosse se importar. Nós quase... você sabe, no fim de semana, e eu sempre quis saber como seria... sentir você, por dentro..."


O rosto do Braço Direito tornou-se quente e por um momento ele cogitou simplesmente correr. Aquilo era embaraçoso demais, porém, a pior parte não fora a surpresa por ter sido tocado em certos lugares, e sim a total incapacidade do rapaz à sua frente em analisar a situação.


"Francesco, nós estamos na biblioteca! Você não pode sair me atacando todas as vezes que quiser. O que você é? U-Um cachorro?"


As palavras saíram sem muito pensamento e Giuseppe se arrependeria de tê-las dito no instante em que elas chegaram aos ouvidos do futuro Chefe. Sua companhia encarou-o boquiaberta, tornando-se séria e lançando um olhar raivoso e pesado.


"Engraçado como você não pareceu reclamar, hm? Oh, espere, você estava ocupado demais aproveitando o que eu fazia." O herdeiro passou a ponta da língua sobre os lábios. "Infelizmente não posso dizer que não aproveitei. Você tem um gosto excelente, Peppe, e tentarei me lembrar disso quando eu precisar de um pouco de incentivo."


A mão ergueu-se, no entanto, o tapa não chegou a ser completado. Francesco o segurou pelo pulso, virando-o e empurrando-o com força contra a parede. O louro arregalou os olhos, surpreso por não ter percebido o quanto forte seu amante se tornara. Ele poderia facilmente ter feito o que quisesse comigo e eu não teria como fazer nada. Ele é mais forte do que eu e mais alto... quando isso aconteceu? Quando ele deixou de me respeitar? O rapaz de cabelos castanhos o encarou por um instante e o soltou, dando um passo para trás e se afastando.


"Eu acho melhor não nos vermos por uns dias." O futuro Chefe dos Cavallone não parecia irritado, apenas sério. "Eu não posso me afastar por causa do trabalho, mas não quero mais visitas no meio da noite. Se você precisar dormir na mansão fique no seu quarto."


"Sou eu quem deveria dizer isso." O Braço Direito respondeu baixo e massageando o pulso que fora apertado. Havia uma visível linha vermelha no local em que ele havia sido segurado.


"Não se preocupe, o cachorro não irá atacá-lo no meio da noite, durma tranquilo."


O herdeiro lançou um novo e pesado olhar, dando as costas e afastando-se. Giuseppe permaneceu imóvel, deixando-se escorregar pela prateleira de livros ao ouvir o barulho da porta sendo aberta e consequentemente fechada. O que eu fiz? O homem de longos cabelos louros suspirou, afundando o rosto em seus joelhos e tentando fazer com que sua respiração voltasse ao normal. Seu coração batia rápido, contudo, não era decorrente dos minutos de prazer que ele recebera.


O Braço Direito sabia que havia passado dos limites e que precisaria desculpar-se eventualmente, entretanto, tudo o que ele sentia era medo. No final, eu sou uma má pessoa. Ele não tem culpa por isso. Francesco tem quinze anos; sou eu quem deve definir os limites. Giuseppe ergueu o rosto e fitou a prateleira que estava diante de seus olhos. As bochechas tornaram-se quentes e ele precisou voltar a esconder o rosto, pois, apesar de saber que aquilo fora errado, havia uma parte dentro dele que desejou que seu amante houvesse ido até o fim. Está cada dia mais difícil esconder que tudo o que eu quero é estar com ele... toda hora, todos os dias e de todas as maneiras possíveis.


x


A teimosia dos Cavallone era conhecida e famosa. Mario costumava contar histórias que envolviam longos sermões e até mesmo castigos para um genioso e teimoso Ivan Cavallone. O louro sempre achou que tudo aquilo soava enfeitado e até inverossímil, porque ele lembrava-se pouco da versão jovem e não tão responsável do Chefe da Família. O Ivan em seus olhos era um homem íntegro, responsável e gentil. O Braço Direito, todavia, descobriu que aquelas histórias eram verdadeiras e que certas coisas eram passadas de pai para filho. Que o doce e gentil garotinho de cinco anos crescera com uma personalidade geniosa e parcialmente difícil aquilo não era segredo para ninguém. Porém, desde que começaram a se envolver, Giuseppe notou uma nítida melhora em seu Chefe e amante... ou isso era o que ele pensava.


Naquela mesma noite o louro tentou fomentar um pedido oficial de desculpas. Francesco o evitou durante todo o restante do dia, mas o Braço Direito conhecia os hábitos do rapaz e não foi difícil abordá-lo depois do jantar. No entanto, o futuro Chefe estava irredutível e, mesmo ouvindo o que ele tinha a dizer até o final, sua resposta foi desinteressada e não passou de tudo vago "Eu entendo." Giuseppe sabia que ele não entendera, e no dia seguinte a distância parecia ter se tornado maior. O louro decidiu oferecer um pouco de espaço, sabendo bem que havia magoado o herdeiro com suas palavras. Ele não teve real intenção de ofendê-lo, pois o seu problema era pessoal embora tivesse relação direta com Francesco.


Intimamente o Braço Direito travava uma dura e árdua batalha contra si mesmo e a cena na biblioteca só serviu para deixá-lo ainda mais confuso. Eu não posso dizer certas coisas para ele, mas sinto que preciso fazer alguma coisa. Giuseppe chegou a essa conclusão no terceiro dia, enquanto voltava para casa. Nós nem sequer conversamos hoje. Francesco voltou tarde da escola e passou o restante do dia na casa de Enrico. A noite estava agradável, quente e o céu estrelado. O único que parecia não aproveitar aquele clima de primavera era o homem de longos cabelos louros.


As luzes estavam acessas quando ele entrou em sua casa e o barulho de vozes chamou sua atenção. O Braço Direito seguiu na direção da cozinha, seguindo os sons distintos que ouvia e parando na entrada. Uma risada espontânea e gostosa chegou aos seus ouvidos e aquilo o surpreendeu muito mais do que ver Mario e Giulio beijando-se próximos a pia. O moreno vestia um avental escuro, as mangas de sua camisa estavam levantadas até os cotovelos e ele segurava uma colher de pau. O ruivo estava entre seu amante e a pia, a blusa suja com molho de tomate, assim como a ponta de seu nariz e parte da bochecha. A risada havia deixado os lábios do Vice-Inspetor e aquela fora a primeira vez que Giuseppe vira-o realmente rir.


"G-Giuseppe..." Mario afastou-se de Giulio no mesmo instante, limpando o rosto com o pano de pano e aproximando-se um pouco desconcertado. O moreno corou e deu as costas, voltando a atenção para uma das panelas e recolocando a expressão séria. "Eu não te ouvi chegar."


"Desculpe, eu não sabia que Giulio estava aqui." Aquela era uma quarta-feira e seu irmão só via o amante aos finais de semana.


"Eu só vim fazer uma visita rápida; já estou de saída." A resposta foi dada ainda de costas e era fácil notar que o Vice-Inspetor estava extremamente envergonhado.


"Não, fique, por favor." O louro esforçou-se para sorrir. "Eu voltei para tomar banho e retornarei para a mansão. Eu preciso repassar algumas coisas para a próxima viagem."


"Você está bem?" O irmão seguiu-o até a escadaria que levava ao segundo andar. "Você parece pálido, Giuseppe."


"Eu estou um pouco cansado." Os dois subiram um atrás do outro. "Peça para Giulio ficar. Eu realmente não planejava passar a noite aqui, e ele parece tão contente cozinhando."


"Ele fará rondelli ao molho à bolonhesa, por que não fica para o jantar?" Mario tocou o alto da cabeça do Braço Direito. "Eu estou preocupado com você. O trabalho se tornará mais difícil a cada dia."


"Eu sei, mas agradeço ao convite." Giuseppe parou no alto da escadaria. "Mas eu jantarei na mansão. Obrigado, realmente."


O ruivo o olhou e ofereceu um meio sorriso. Os dois se separaram, seguindo cada um para o seu quarto. O louro passou rapidamente no cômodo, pegando uma troca de roupas limpas e caminhando até o banheiro. As roupas foram retiradas sem pressa e o Braço Direito desculpou-se mentalmente pela desfeita. Eu não sou a melhor companhia para ninguém esta noite. Ele adorava a companhia de Giulio e jamais poderia negar o quão bom aquele homem conseguia ser na cozinha, contudo, Giuseppe não se sentia inclinado a conversas animadas. Não havia real trabalho na mansão, entretanto, ele não queria atrapalhar o irmão e seu amante somente porque se sentia infeliz. O banho não foi demorado e o louro permaneceu apenas o tempo necessário para sair limpo. O moreno o abordou assim que o viu descer as escadas, oferecendo um meio sorriso que dizia claramente que ele sentia muito. Giulio é uma boa pessoa. Mario tem sorte.


"Tem certeza de que não quer ficar para o jantar?"


"Sim, obrigado pelo convite, mas eu preciso retornar. Cuide do meu irmão enquanto eu estiver ausente."


O Vice-Inspetor encarou a direção da cozinha antes de dar um passo à frente. Sua mão direita tocou o ombro do Braço Direito e sua expressão tornou-se séria.


"Eu não sei o que aconteceu, mas se precisar conversar saiba que pode me procurar." Havia uma real gentileza naqueles olhos verdes e foi impossível para Giuseppe não engolir seco. Giulio tinha esse efeito sobre ele, fazendo-o sentir como se, no fundo, ele não estivesse sozinho e que existia no mundo um amigo incondicional e que ouviria seus problemas sem julgá-lo. Desculpe, Giulio, mas ninguém pode saber o que está acontecendo... eu sinto muito.


"Obrigado, mas eu estou bem." Dizer aquilo havia se tornado tão fácil quanto respirar. Talvez um dia eu passe a acreditar nisso. "Aproveite o jantar."


A despedida foi um breve aceno e em segundos o louro estava novamente a caminho da mansão. Os minutos que passou dentro do carro foram silenciosos e serviram para fazê-lo remoer mais uma vez o assunto que andava tirando seu sono desde o dia em que ele e o rapaz de cabelos castanhos acabaram indo muito além de castos beijos e toques mais íntimos. Eu não tinha ideia de que me sentiria dessa forma. Eu realmente acreditei que conseguiria ser adulto e responsável.


A verdade era que o Braço Direito tinha experiência limitada naquele campo da vida. A primeira vez que dividiu a cama com qualquer ser humano — e que aconteceu de ser outro homem — foi aos 21 anos, e ele estava extremamente desconfortável com a ideia de fazer sexo sem nenhuma ligação direta ou emocional. Seu parceiro foi um antigo amigo de escola, e, embora eles repetissem aquela noite um ano depois, Giuseppe só foi entender um pouco a química e a interação entre dois homens quando se permitiu sair uma noite e aceitar o convite de um total estranho, isso há três anos. O louro mentiria se dissesse que não foi uma boa experiência, todavia, culpa e vergonha o impediram de repetir aquele momento. Porém, desde que descobrira que o futuro Chefe dos Cavallone compartilhava de seus sentimentos, o Braço Direito permitiu-se fantasiar um pouco mais. O único problema era que, não importasse o quanto dissesse para si mesmo, o herdeiro continuaria sendo dez anos mais jovem, seu Chefe, e o relacionamento estava fadado a uma tragédia.


O veículo parou e Giuseppe utilizou a manga do terno para enxugar as lágrimas. Ele estava próximo à mansão, e daquele local era possível ver as luzes acessas vindas das janelas dos quartos, o chafariz em forma de cavalos alados e algumas sombras de subordinados fazendo a segurança. Por um momento ele contemplou o silencioso e a solidão de estar dentro de um carro escuro, no meio da noite e sem ninguém para compartilhar seus medos e anseios. A única pessoa que sabia o evitava e não havia nada que o louro quisesse mais do que estar na companhia de seu amante. Os três dias de total indiferença o atingiram com mais força do que ele esperava e o próprio Braço Direito estava surpreso por isso. Em outros tempos teria sido fácil burlar as palavras ríspidas e a personalidade difícil de Francesco, mas as coisas pareciam pesar o dobro e qualquer comentário era motivo de brigas ou discussões. Eu quero vê-lo... eu quero muito vê-lo.


O carro voltou a movimentar-se e Giuseppe fez o restante do caminho com o dobro da velocidade. O jantar já havia sido servido quando ele finalmente entrou no hall e seus pés moveram-se com pressa, subindo a longa escadaria e chegando ao corredor do segundo andar. Duas batidas na porta com os nós de seus dedos anunciaram sua presença e a espera foi curta. O rapaz de cabelos castanhos abriu somente um pedaço da porta, olhando-o com desconfiança. Por favor, não torne as coisas mais difíceis.


"Nós combinamos que isso não aconteceria mais." O futuro Chefe disse baixo, visivelmente relutante em permanecer ali.


"Eu sei, mas nós precisamos conversar... de verdade." Foi difícil para o louro falar sem que a voz soasse presa em sua garganta. "Por favor, Francesco."


O futuro Chefe dos Cavallone o estudou por um momento e acabou afastando-se, abrindo a porta e oferecendo passagem. O Braço Direito entrou e parou no meio do cômodo, mexendo as mãos e ponderando exatamente o que diria. E, no fim, não havia outro meio de começar aquela conversa.


"Eu sinto muito. O que eu disse na biblioteca foi impensado e absurdo." Giuseppe só notou que não havia prendido os cabelos ao colocar uma mecha atrás da orelha. "Eu espero que você possa encontrar uma maneira de me desculpar."


"Eu acho que é muito cedo para termos essa conversa." O herdeiro disse sem hesitar. Ele havia caminhado até o outro lado do quarto, recostando-se à escrivaninha. As mãos estavam dentro dos bolsos da calça escura e ele vestia uma camisa azul clara que ressaltada o dourado de seus belos olhos. "Eu não sei como esquecer que fui chamado de cachorro. Você tem ideia do quanto isso me deixou... frustrado? Você não pode falar o que quiser e achar que tenho alguma obrigação de desculpá-lo."


"Não," o louro sentiu o choro preso na garganta, no entanto, ele faria o impossível para mantê-lo longe daquela conversa, "se fosse você a me chamar de tal coisa eu certamente não teria conseguido me recuperar, por esse motivo eu estou aqui." O Braço Direito deu um passo à frente. Eles continuavam afastados, contudo, ele precisava fazer qualquer coisa que diminuísse a distância física. "Porque eu sou o cachorro."


"Você?" Francesco cruzou os braços.


"Sim. Eu o ofendi como uma maneira de transferir meus próprios sentimentos ao invés de encará-los." Giuseppe fazia o possível para manter os olhos retos e sérios. "Eu não sou quem você pensa que eu sou, Francesco. E-Eu sou sujo e imoral e-e não sou bom o suficiente para você."


"Você não está fazendo sentido. Eu não tenho ideia do que você está falando, Peppe." O rapaz parecia visivelmente confuso.


Peppe. Aquele nome arrancou um sorriso confortável dos lábios do louro. Ele não está tão bravo quanto eu imaginei. Ouvir seu nome ser chamado daquela maneira fez com que o Braço Direito se sentisse corajoso o suficiente para caminhar até a cama e sentar-se sem resguardo. O futuro Chefe dos Cavallone, entretanto, permaneceu no mesmo lugar, longe e fora do alcance de suas mãos. Eu mereço isso. Eu mereço muito mais do que não poder tocá-lo.


"Eu não esqueci que você é mais jovem do que eu, aliás, eu nunca esqueço sobre isso. O que eu disse na biblioteca foi uma maneira de omitir que, no final, quem se comporta de maneira duvidosa sou eu. Francis, você tem 15 anos. Tudo o que você deseja e sente é normal, eu ap—"


"De novo? Até quando vamos andar em círculos com esse assunto?" O herdeiro desencostou-se da escrivaninha e passou a mão pelos cabelos de maneira nervosa. "Todas as vezes que algo acontece é a mesma coisa, as mesmas desculpas e você sempre retorna ao mesmo assunto. Qual o seu problema? A minha idade te incomoda tanto? Eu não posso fazer nada! Nada! Se você quer alguém mais velho e—"


"Eu quero você!" Giuseppe ficou em pé e sua voz saiu mais alta. Ele não entende o que eu digo. "Eu estou exatamente dizendo que eu quero você, muito, a ponto de eu não conseguir me controlar! Eu não sou mais eu! Quando eu estou com você eu me torno alguém diferente; eu passo a querer coisas diferentes..." O louro podia ouvir as batidas de seu próprio coração ecoando dentro de seu peito. Ele nunca fora muito bom em falar de seus sentimentos ou anseios. Mario sempre foi aquele que conseguia transmitir tudo, sem pudores ou medos de represálias. Eu o amei por tanto tempo e agora que o tenho as coisas deveriam ser mais fáceis. "Naquele dia, na biblioteca, eu não estava me escondendo de você, mas de mim mesmo. Eu não confio em mim perto de você."


"Por quê?" Francesco finalmente se aproximou. Seus olhos pareciam preocupados e tentavam encontrar qualquer coisa que fosse semelhante a uma resolução. "O que eu fiz para que você se sentisse dessa forma?"


"Nada, porque você não é o problema, sou eu. Eu não consigo pensar ou agir quando estamos próximos. Minha mente começa a pensar em coisas que não são próprias para o momento e eu tenho medo de que isso acabe te afastando."


"Apenas para eu ter certeza de que estamos falando a mesma língua aqui." O rapaz de cabelos castanhos parou em frente ao Braço Direito. Uma de suas mãos envolveu a cintura de Giuseppe, erguendo-a um pouco e juntando os corpos. "Agora, nesse momento, o que você gostaria que eu fizesse?"


"Que me deitasse sobre a cama e fizesse amor comigo." A resposta saiu sem um segundo de pensamento.


O futuro Chefe tentou não sorrir, todavia, foi impossível. A resposta o agradou e era visível a maneira como ele havia gostado de ouvir aquilo.


"E quando estávamos na biblioteca, você pensou algo semelhante?"


"Sim." O louro meneou a cabeça em positivo. "Todo o tempo. Eu penso sobre isso todas as vezes que estamos juntos."


"Antes de mim, você já chegou a pensar sobre isso com relação aos... outros?"


"N-Não..." O Braço Direito juntou as sobrancelhas. "Nunca ninguém me fez sentir dessa forma. Essa... fome que eu sinto, e-eu nunca senti antes."


"Então, qual o problema?" O herdeiro completou com a voz doce. "Por que você precisa esconder o que realmente quer? Por que você não pode aceitar que você me deseja?"


"Porque eu sou mais velho. Porque você é meu Chefe. Porque eu deveria ser adulto e responsável e impor limites. Porque eu tenho medo de envolvê-lo e precisar dizer adeus..." Giuseppe sentiu a voz mudar de tom. Era desespero. "Porque eventualmente alguma coisa irá nos separar e eu não sei se sobreviverei com uma mera lembrança."


O homem de longos cabelos louros amava o silêncio. Ele gostava de permanecer quieto, parado e concentrado em alguma tarefa que requeresse sua completa atenção. Quando era mais novo, muito antes de começar seu treinamento como Braço Direito, ele costumava passar horas na biblioteca da mansão, lendo livros que eram adultos e complexos demais para o seu intelecto, mas que o faziam simplesmente degustar os minutos de pura calmaria. Porém, o silêncio que envolveu aquela declaração nua, crua e totalmente sincera, não foi agradável ou aproveitável. Os olhos cor de mel o encaravam, no entanto, seu amante nada disse, deixando que ele enchesse sua mente com possibilidades e medos.


"Eu entendo." Francesco soltou os braços e deu um passo para trás. O nó na garganta de Giuseppe tornou-se mais apertado ao ver seu amante afastar-se e ir até a porta. Ele vai me pedir para sair... as coisas se tornaram piores. O rapaz colocou a mão sobre a maçaneta, contudo, ao invés de abrir a porta, ele virou a chave dourada, trancando-a. "Tire a roupa."


Hã? O louro permaneceu imóvel. Ele certamente não ouvira corretamente.


"Vamos, tire a roupa." O futuro Chefe dos Cavallone abriu a própria camisa, atirando-a para um canto do quarto e sem se preocupar se a peça estava ou não amassada. Os botões da calça pareceram insignificantes e, quando a roupa de baixo foi retirada, o Braço Direito encontrou voz suficiente para se expressar.


"O-O que você está fazendo? Por que você está... nu?" Mantenha os olhos altos. Mantenha os olhos altos. Mantenha os...


"Da última vez que ficamos com as roupas foi uma bagunça, e eu não quero precisar inventar desculpas de que perdi peças." As mãos do herdeiro subiram pelo peito de Giuseppe e ele deslizou o terno pelos ombros magros. "Nós faremos amor esta noite, Peppe."


"F-Faremos?" O louro abaixou os olhos, entretanto, logo os ergueu, corando violentamente ao ver o sorriso de satisfação nos lábios de seu amante. "Não podemos! S-Seu pai está na casa e eu não trouxe nada... com homens é diferente, eu preciso de ce-certas coisas..."


"Sim, sim eu sei." Francesco revirou os olhos. A camisa do Braço Direito fora aberta, todavia, ele o que fazia e se afastou um pouco, indo até uma das cômodas, retirando algo do fundo da terceira gaveta e jogando em sua direção. "Isso servirá, não?"


"O que é isto?" Giuseppe tinha um pequeno pote circular na palma de sua mão. "Onde você conseguiu isto?"


"Enrico." As mãos do rapaz de cabelos castanhos voltaram a despi-lo.


"E-Enrico? Ele sabe?" Quem não sabe sobre nós? "C-Como ele sabe? E como você conseguiu isto?"


"Ele sabe, digo, ele desconfiou e eu não neguei." A voz do futuro Chefe dos Cavallone saiu levemente contrariada. "E ele me deu o pote porque disse que funcionaria, funciona ou não?"


"Sim..." Melhor do que qualquer outra coisa... O louro engoliu seco, pois não sabia o que era mais embaraçoso: imaginar Enrico entregando a pomada lubrificante ou o fato de que ele mesmo passou a adquirir aquele tipo de coisa após iniciar o relacionamento com o herdeiro.


"Ótimo, então não vamos perder tempo, hm? Nós já enrolamos demais." Francesco abaixou a calça do Braço Direito com um único puxão, empurrando-o sem gentileza contra a cama e terminando de retirar a peça que ficara embolada na altura dos tornozelos. "E eu não sou o único disposto a fazer isso."


"Eu sou um homem, lembra? Essa reação é natural." Giuseppe respondeu sem graça. Ele sabia que seu amante se referia à sua ereção.


"É mesmo?" O rapaz apoiou um dois joelhos na cama, inclinando-se sobre ele e oferecendo aquele maldoso sorriso que sempre aparecia quando o futuro Chefe queria provocá-lo. "Eu daria qualquer coisa para ver o que você faz quando estamos separados. Ouvir aquelas coisas só serviu para provocar minhas fantasias."


"Você soa adulto demais para os seus 15 anos, garoto!" O louro sorriu. Se ele deixasse que seu amante tivesse vantagem aquele seria oficialmente o seu fim.


"Oh!" O herdeiro ofereceu outro sorriso. Suas mãos subiram pelos joelhos do Braço Direito e ele afastou ambas as pernas sem pudor ou gentileza. Os olhos cor de mel brilharam e por um momento Giuseppe sentiu-se arrepiado. Eu não conheço essa pessoa, mas eu mal posso esperar para conhecê-la. "Eu sonhei tantas vezes com esse momento que mal consigo manter a sanidade." As pontas dos dedos brincaram com a parte interna de uma das coxas do louro, provocando-a.


O Braço Direito não era a pessoa mais resistente do mundo no quesito prazer. Até mesmo quando estava sozinho, na intimidade de seu quarto, ele não precisava de muito para chegar ao clímax. Antes de conhecer sobre os sentimentos de Francesco, Giuseppe tinha uma rotina regular de momentos íntimos; de duas a três vezes por semana, porém, muitas vezes ele chegava a ficar semanas sem se tocar, por pura falta de interesse ou motivação. No entanto, desde que ele e o rapaz de cabelos castanhos cruzaram os limites entre Chefe e subordinado, o louro não conseguia passar um dia sem se permitir aqueles minutos tão prazerosos. O herdeiro estava sempre em sua mente, provocando-o, amando-o e o envolvendo de maneiras doces, ou ousadas ou até mesmo humilhantes.


Eu não conhecia certas coisas sobre mim mesmo até permitir que ele entrasse em minha vida. Masturbar-se pensando em seu amante tornou-se necessário, e aquilo foi basicamente o catalisador da inusitada dúvida de consciência que ele tivera antes da briga na biblioteca. Naquela manhã eu não consegui me satisfazer com apenas toques. Meu corpo inteiro estava em chamas. O Braço Direito demorou mais de uma hora no banho, imaginando que não eram seus dedos que o invadiam, mas seu jovem amante. Os gemidos foram abafados pelo barulho da água e Giuseppe sentiu-se tão envergonhado ao deixar o banheiro que tudo o que ele queria era permanecer afastado, com medo de que seus desejos acabassem controlando-o. E se eu fizer sexo com Francesco e tudo piorar? E se essa fome jamais passar? O louro ouviu o gemido que deixou seus lábios quando o rapaz tocou sua ereção com as pontas dos dedos. É tarde demais... e eu não farei nada para pará-lo.


Francesco deitou-se sobre ele e sua mão automaticamente subiu pela coxa do Braço Direito, apertando-a com possessividade. O coração de Giuseppe batia rápido, contudo, havia algo dentro dele, uma vozinha baixa que dizia que tudo estava bem e que o que eles fariam não era errado ou imoral. Eu o amo tanto. Sempre foi ele, sempre. Suas mãos seguraram o rosto de seu amante e partiu dele a iniciativa para o beijo. Havia luxúria na maneira como o futuro Chefe dos Cavallone retribuiu à carícia. As línguas se encontraram e se envolveram, diminuindo a distância entre eles e aumentando o desejo e necessidade que um sentia pelo outro. O louro desceu as mãos pelos ombros do herdeiro, sentindo os músculos das costas e imaginando que aquele garoto se transformaria em um homem em um piscar de olhos. As ereções se esfregavam, fazendo com que o Braço Direito começasse a imaginar se ele conseguiria notar a diferença conforme seu amante amadurecesse. O pensamento o fez suspirar longamente, excitando-se com os prospectos de sentir literalmente na pele as mudanças.


"Você está pensando em algo sujo, não?" A voz de Francesco era apenas um fio. A ponta de sua língua contornava o formato da orelha esquerda do homem que estava por baixo. "Você é tão indiscreto, Peppe..."


"E-Eu não sei do que você está f-falando..." A resposta saiu ensaiada. Giuseppe virou o rosto para o outro lado, sentindo os beijos descerem por seu pescoço.


O rapaz de cabelos castanhos riu e continuou a dedicar ao pescoço de seu amante alguns preciosos segundos de atenção. O louro gemia baixo, sensível a qualquer contato direto e sedento por um envolvimento mais íntimo. O futuro Chefe tocou sua mão direita, entrelaçando os dedos e guiando-a um pouco para baixo. O Braço Direito abriu os olhos, surpreso ao notar que sua mão fora guiada até a ereção do herdeiro. Ele está realmente excitado... Giuseppe engoliu seco, movendo as pontas dos dedos sobre a pele e sentindo o seu calor. É difícil de acreditar que ele tenha ficado assim por mim. Eu não tenho absolutamente nada de desejável.


O louro fechou um pouco mais a mão, começando a masturbar seu amante e arrepiando-se ao ouvir os gemidos contidos que chegavam aos seus ouvidos. Francesco permitiu a carícia por alguns segundos, entretanto, afastou o corpo, descendo um pouco mais e depositando um gentil beijo na parte que dividia o abdômen do baixo ventre. A língua moveu-se em círculos ao redor da área, descendo devagar. A ereção deslizou dentro da boca do rapaz de cabelos castanhos e o Braço Direito arqueou a nuca para trás, puxando a roupa de cama com as mãos e gemendo deliciosamente alto. O futuro Chefe dos Cavallone aprendia rápido e em poucas semanas ele se tornara extremamente habilidoso naquilo. Não somente nisso. Francesco precisou apenas de uma semana para saber todos os meus pontos fracos. Tudo para ele vem naturalmente.


Os gemidos tornaram-se mais altos conforme o herdeiro aumentava os movimentos com a língua e o interior de sua boca. A ereção entrava e saia, úmida com saliva e sensível a todos os tipos de estímulo. Giuseppe já não se importava em manter a voz baixa e seu corpo tornava-se mais e mais exigente. Eu quero mais. O homem de longos cabelos louros abriu os olhos, encarando o teto e murmurando o nome de seu amante, que parou o que fazia, erguendo os olhos cor de mel e esperando o que viria em seguida. O Braço Direito empurrou o pote de lubrificante, cobrindo o rosto com um dos braços. Não houve comentário ou risada ou nada que o fizesse sentir-se ainda pior, todavia, quando ele ouviu o barulho do pote sendo aberto, Giuseppe soube que não teria mais volta. Aquela noite definiria o rumo daquela relação, independente de qual seria.


O primeiro dedo entrou após alguns segundos de provocações. Francesco brincou com sua entrada até finalmente penetrá-lo. Não houve dor, apenas uma estranha e natural resistência que se tornou um pouco mais amena quando o segundo dedo fez companhia ao primeiro. O louro afastou as pernas deliberadamente, regulando sua respiração e sabendo bem que tudo dependeria do nível de relaxamento que seu corpo pudesse obter. É diferente, o Braço Direito deixou escapar um gemido baixo quando os dedos tocaram seu ponto especial, quando eu estou sozinho a sensação é diferente. Os gemidos retornaram após alguns instantes, seguidos pela incrível sensação de dupla satisfação quando o rapaz de cabelos castanhos voltou a dedicar atenção à sua ereção. Os dedos moviam-se com mais pressa e pressão, provando aquela área e fazendo com que ela se acostumasse à invasão.


"É aqui, não?" A voz do futuro Chefe soou baixa e foi quase omitida pelos gemidos altos que Giuseppe deixava escapar.


"S-Sim..." O louro inclinou a nuca para trás. Ele sentiu os beijos em seu pescoço, a respiração de seu amante, porém, nada se comparava à maneira como os dedos o penetravam, tocando seu ponto especial com insistência a cada estocada e o fazendo gemer como ele nunca gemera antes. "Sim... sim..."


"Quando foi a última fez que você se tocou... aqui?" A voz do herdeiro veio de sua orelha direita. "Eu irei parar se você não responder..."


"H-Hoje," as palavras saíam sem que ele pudesse realmente pensar no que queria dizer, "hoje de ma-manhã."


"Foi bom?"


"S-Sim..."


A voz tornou-se mais e mais próxima e o Braço Direito não sabia mais o que fazer além de gemer. Os nós de seus dedos estavam brancos, puxando a roupa de cama e tentando encontrar um alívio que parecia nunca se aproximar.


"Melhor do que agora?" Os dentes de seu amante morderam o pescoço pálido, arrancando um gemido de êxtase.


"Si-Não... N-Não, n-não... n—"


O último gemido foi acompanhado por um espasmo tão forte que Giuseppe chegou a perder momentaneamente a consciência. Seu corpo tremeu no exato momento em que o orgasmo pintou seu abdômen e peitoral. Ele não notara que havia rasgado a roupa de cama e que se movera um pouco para cima, suficiente para que sua nuca pendesse fora da cama. O louro nunca havia conseguido chegar ao clímax sem o duplo estímulo, e ele não acreditava que era possível sentir tanto prazer. Os dedos deslizaram para fora de seu corpo e os olhos verdes se abriram devagar, desfocados e incertos. Francesco havia se arrastado para o meio de suas pernas, afastando-as com gentileza e permanecendo imóvel. Ele está esperando... impaciente. As mãos que seguravam seu quadril tremiam e o Braço Direito pegou-se sorrindo, pois, apesar de malicioso e provocativo, o futuro Chefe dos Cavallone o respeitava a ponto de pedir permissão para continuar. O sinal positivo veio na forma de um menear de cabeça, que foi aceito no mesmo instante. O membro deslizou sem problemas, invadindo-o profundamente. Dois gemidos distintos se misturaram e o rapaz só parou quando estava totalmente dentro. Ele é maior do que eu pensava. Giuseppe respirava com dificuldade, ainda sensível devido ao orgasmo anterior.


"Apertado..." A voz do futuro Chefe soou sussurrada. "Você é muito apertado."


O homem de longos cabelos louros riu baixo. O membro deslizou um pouco para fora, voltando a penetrá-lo em seguida e tornando tudo mais fácil. A terceira estocada usou de força, e o Braço Direito sentiu-se novamente estimulado em seu ponto especial. O herdeiro precisou de alguns segundos, provando e experimentando cada movimento até descobrir a melhor maneira de continuar.


"V-Você está bem?" Francesco ergueu os olhos cor de mel. Seu rosto estava absurdamente corado.


"Sim." Giuseppe respondeu ao mesmo tempo em que meneava a cabeça em positivo.


As estocadas se tornaram ritmadas e em pouco tempo os gemidos voltaram a se misturar. O rapaz de cabelos castanhos não possuía a sincronia de um amante experiente, mas ele tinha instinto e atenção, o que basicamente pagava por sua falta de experiência. O louro voltou a apertar a roupa de cama quando sua ereção retornou, ignorando o fato de que seu quadril começou a mover-se no mesmo ritmo das estocadas. O orgasmo do futuro Chefe dos Cavallone aconteceu sem aviso, antecipado somente por um gemido rouco e alto. Os olhos verdes do Braço Direito se abriram, não surpresos por aquilo ter acontecido devido à idade e inexperiência de seu amante. É diferente... Giuseppe umedeceu os lábios. Ele não havia permitido que nenhum de seus amantes anteriores fizesse aquilo, no entanto, não viu motivos para negar ao herdeiro o privilégio de depositar o clímax dentro dele.


"D-Desculpe..." Francesco subiu as mãos pelas costas do louro, puxando-o para cima.


"Você não precisa se desculpar." O Braço Direito inclinou-se à frente, sentando-se no colo do rapaz e apoiando um joelho de cada lado da cama. "Quer que eu me levante?"


"Não, eu só preciso de alguns instantes." O futuro Chefe sorriu largamente, depositando um beijo estalado em sua bochecha. "Nós iremos continuar, não?"


"Onde você aprendeu... aquilo?" Giuseppe começou a mover o quadril devagar, arrancando suspiros dos lábios de seu amante.


"Você ficaria surpreso com o conteúdo de certos livros de anatomia." O herdeiro riu. "Mas eu não sabia que funcionaria... tão bem."


As bochechas do louro se tornaram rubras e ele escondeu o rosto no pescoço de Francesco. A ereção retornou dentro dele e as mãos do rapaz de cabelos castanhos desceram por suas costas, segurando-o pela cintura e fazendo-o sentar com mais afinco. O Braço Direito tremeu, arrepiado e excitado, enquanto sua própria ereção implorava um pouco de alívio e atenção.


"Você poderia se virar?" O futuro Chefe dos Cavallone sussurrou aquele pedido. "Eu sempre quis... v-você sabe... naquela posição..."


Giuseppe corou ainda mais, contudo, não pestanejou ou retrucou. Seu corpo inclinou-se para trás, sentindo o colchão em suas costas e a ereção sendo retirada. A sensação de vazio o deixou solitário, entretanto, ele sabia que era por pouco tempo. O corpo do louro virou-se na cama e ele apoiou-se sobre os joelhos e cotovelos. O herdeiro posicionou-se quase no mesmo instante, e a nova ereção o penetrou com força e pressa, como se ele houvesse estado em seu limite há muito tempo. Essa é a primeira fez que fico desse jeito. O Braço Direito tentou manter a voz baixa, todavia, seria difícil. Naquela posição o membro deslizava melhor e seu ponto especial basicamente era tocado em cada estocada. Duas grandes mãos seguraram sua cintura, puxando o quadril para trás e iniciando um ritmo forte e erótico, que envolvia gemidos altos, sons cheios de luxúria e pedidos que jamais teriam deixado os puros e gentis lábios de Giuseppe em uma situação normal.


Por longos minutos ele permitiu-se ser invadido e provado, tocado e experimentado, como se não houvesse regras, cargos ou nada além deles e do ato em si. Cada estocada tinha desejo, mas também amor, paixão e necessidade por contato, qualquer contato. O louro não pensou em nada naquela noite além de satisfazer seu corpo e coração. Os problemas estariam lá quando o momento terminasse e talvez aquilo se transformasse futuramente em mais uma lembrança, porém, uma parte do Braço Direito sabia, ou queria acreditar, que era apenas o começo... que seu lugar era ali, com a única pessoa que ele amou e sabia que conseguiria amar naquela vida.


x


O céu estava azul e o sol brilhava forte quando Giuseppe deixou a mansão e pisou na entrada de mármore. A vida começava cedo na propriedade, com os subordinados da noite trocando de turnos com aqueles que fariam a segurança durante o dia. Raul, Carlos, Antonio, Filipo, o homem de longos cabelos louros conhecia todos por nomes e faces. Um breve aceno e um bom dia sorridente eram tudo o que ele precisava para sentir-se normal e lembrar-se de que aquele era seu trabalho. E essa é minha vida. A água que subia pelo chafariz caía com barulho e era possível ocultar-se do sol atrás das duas estátuas em forma de cavalos, no entanto, o Braço Direito precisava da luz naquela manhã. O calor que tocava sua pele era real, as pessoas que passavam diante de seus olhos não faziam parte de um devaneio, o ar que entrava e saia por seus pulmões era prova de sua existência e a noite passada não havia sido um sonho.


Ele caminhou através do jardim, sentindo a grama embaixo de seus sapatos negros. Alguns pássaros cantavam, provavelmente em seus ninhos entre galhos e folhas e frutos. Giuseppe conhecia aqueles passos e aquela paisagem como a palma de sua mão. Era naquele largo gramado que ele costumava correr com Mario e Ivan, quando crianças, e mais tarde com Francesco e Catarina. Se o louro parasse e pensasse perceberia que tudo não passava de sucessões: uma vida por outra e a história se repetindo novamente, geração após geração. Ivan correu por esses jardins, como seus filhos fizeram e como outras crianças o farão. Os olhos verdes se ergueram e o Braço Direito notou que havia dado a volta na mansão e encarava o estacionamento que ficava na parte detrás. Os passos o levaram até o banco rente à parede e foi ali que ele sentou-se e pôs-se a admirar a manhã como se não houvesse nada mais a fazer.


A noite anterior não fora a primeira vez de Giuseppe, contudo, seria impossível negar que alguma coisa dentro dele mudara. Ao acordar naquela manhã, envolvido pelos braços de um inconsciente Francesco Cavallone, o louro precisou de alguns segundos para acreditar que aquilo era real. O sol ainda não havia nascido e ele permitiu-se alguns minutos de pura admiração. Sua companhia dormia pesado, os cabelos castanhos bagunçados, entretanto, uma expressão tranquila, calma e quase pura. Arrastar-se para fora da cama foi difícil e o Braço Direito sentiu o efeito das horas que passou sobre aquela cama, gemendo e mostrando um lado que nem ele mesmo sabia que possuía. Fazer amor com o futuro Chefe fora a experiência mais erótica e íntima que Giuseppe tivera na vida. Não fora perfeita ou extremamente experiente, todavia, nada se compararia a ter a pessoa que ele tanto amava envolvendo-o, provando-o e fazendo-o sentir-se tão querido e desejado.

E, então, veio a manhã e o louro precisou lidar consigo e com sua consciência.


O Braço Direito seguiu para o seu quarto após vestir-se com extrema dificuldade. Por sorte a distância eram meros passos e ele permitiu-se um longo e necessário banho de banheira. Seu corpo estava exausto, mas Giuseppe não poderia descansar e, de banho tomado e vestindo uma nova troca de roupas, o louro seguiu até a cozinha onde tomou um reforçado café da manhã. O restante do tempo foi passado no escritório, separando papéis, ajeitando relatórios e deixando tudo preparado para Ivan. A casa acordou aos poucos, primeiro Catarina e depois o Chefe dos Cavallone. O herdeiro foi o último a descer, e foi exatamente nesse momento que ele retirou-se da mansão e se pôs a andar. Eu não sei como devo me portar, ou o que devo dizer. Não havia destino certo ou local exato onde o Braço Direito gostaria de ficar; a única certeza em seu peito era a grande necessidade em agir normalmente, embora isso parecesse impossível de ser realizado no momento.


A companhia surgiu minutos depois que Giuseppe havia se sentado, e Francesco trazia uma maçã nas mãos. O louro não ficou surpreso ou espantado, apenas afastou-se um pouco para que o rapaz tivesse espaço para se sentar. A maçã foi oferecida a ele, e o Braço Direito a aceitou com um sorriso. A fruta era grande e a cor vermelha causava um interessante contraste com a palidez de sua pele.


"Como você se sente?" O futuro Chefe dos Cavallone o olhou preocupado.


"Eu estou bem." Giuseppe deu uma pequena mordida na maçã.


"Eu fiquei preocupado quando acordei e não te vi." O herdeiro passou as mãos sobre as próprias pernas.


"Eu acordo cedo e teria de deixar o quarto antes que qualquer um notasse a minha ausência." O pedaço de maçã foi engolido após longas mastigadas. Estava delicioso.


"Entendo..." O comentário soou displicente e era clara a maneira como seu amante queria dizer alguma coisa, porém, não se sentia inclinado a falar. "Eu sinto muito sobre ontem... s-se eu fiz algo errado." Os olhos cor de mel desviaram-se rapidamente, envergonhados e incertos. "Eu juro que tentei ao máximo... ser bom."


Ele está preocupado com isso? O louro deu mais uma mordida na fruta em suas mãos.


"Você fez tudo o que deveria ser feito. Essas coisas são aperfeiçoadas com o tempo." O Braço Direito sorriu. "Eu mesmo não sei muito."


"Então haverá uma próxima vez?" Francesco tornou-se sério, apoiando as mãos com firmeza sobre os joelhos.


"Você me diz."


Giuseppe encarou a maçã em sua mão. A fruta estava rica e saborosa, no entanto, ele não sentia como se pudesse degustá-la por completo. Uma segunda mão, maior e mais pesada, pegou a maçã e os olhos verdes viram quando o rapaz de cabelos castanhos levou-a aos lábios, dando uma forte mordida.


"Quando eu acordei sozinho esta manhã eu fiquei algum tempo deitado, lembrando do que aconteceu na noite passada. Você não estava lá, mas eu consegui sentir sua presença, seu calor e seu cheiro em cada pedaço da cama." O futuro Chefe dos Cavallone virou a maçã em seus dedos antes de dar uma nova mordida. "Eu pensei no que você disse e sabia que teríamos de conversar, então eu vou dizer de uma vez antes que você comece a pensar em bobagens." O herdeiro mordeu o lábio inferior. "Eu te amo, Giuseppe. Eu posso ter apenas 15 anos e parecer um fedelho aos seus olhos, mas eu tenho plena certeza do que sinto por você. O que eu quero saber é se você está disposto a me escolher. Não será fácil e eventualmente nós teremos de contar para o meu pai e o seu irmão e todo mundo, mas eu sei que conseguirei fazer qualquer coisa se você estiver ao meu lado.” Francesco esticou a mão e ofereceu a fruta.


O homem de longos cabelos louros o estudou por um instante, aceitando a maçã e mordendo-a sem hesitar. Os dois se encararam durante o tempo necessário para a fruta ser mastigada e engolida, e só então o Braço Direito tomou a voz:


"Você está disposto a desistir de tudo por minha causa? Você é o herdeiro de uma das maiores Família e é seu dever continuar o que seu pai começou. É esperado que você encontre uma boa esposa, gere um filho e passe para frente tudo o que aprendeu." Giuseppe deu a última mordida na maçã. Inesperadamente aquele pedaço estava doce e ideal. "Seu pai ficará desapontado e Mario nunca me perdoará por isso. Nós decepcionaremos aqueles que amamos e nada mais será como antes."


"Eu não tenho interesse em mulheres, de verdade, e duvido que conseguiria sequer me excitar a ponto de gerar um filho. Eu sei que estou deixando de lado a vida que muitos chamam de ideal, mas se você não fizer parte dela, se eu não puder ter você ao meu lado, então nada disso tem sentido. Não escolhemos quem amamos, porém, podemos escolher o que faremos com as nossas vidas e eu escolho você." A certeza que aquelas palavras continham fez o louro quase sorrir. "E eu lidarei com meu pai e Mario quando o momento chegar."


"Será um grande e terrível momento, permita-me dizer. Mario é extremamente possessivo e duvido que ofereça minha mão a um pretendente dez anos mais novo." O Braço Direito não conseguiu evitar a brincadeira. O sorriso em seus lábios era de genuína felicidade.


"Bom, teremos um grande problema." O rapaz fingiu seriedade. "Pois, nós já dividimos a mesma cama então eu terei de me responsabilizar pelo que fiz, não? E pelo que farei muitas e muitas vezes mais."


A risada que cortou o momento foi gostosa e sincera. Giuseppe corou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ele sentiu a mão de seu amante sobre a dele, discreta, quente e protetora. O sorriso se desfez aos poucos, dando lugar a uma expressão serena e tranquila. O louro ainda tinha milhões de dúvidas em seu peito, contudo, pela primeira vez sentia que havia uma pequenina chance de sua história ter um final feliz. Ivan e Mario seriam, sem dúvidas, os maiores obstáculos que eles enfrentariam, e as responsabilidades do futuro Chefe dos Cavallone o perseguiriam para sempre, entretanto, se existisse a mínima chance de ambos serem felizes, haveria mal em oferecer ao destino o beneficio da dúvida?


A noite anterior, bagunçada, levemente dolorosa e confusa poderia ter desencadeado uma série de acontecimentos que culminariam em mais sorrisos do que arrependimentos? E que, talvez, dividir a mesma cama e fazer amor com o herdeiro fora somente mais um passo que aquele relacionamento precisava dar e que agora não existia mais volta. Não havia outro caminho além de olhar para frente e encarar a vida e os problemas que surgissem.

O Braço Direito moveu os dedos, entrelaçando-os aos de Francesco. Nenhum deles disse mais nada; nenhum deles ousou oferecer gesto ou toque ousado e nenhum deles sentia como se mais alguma coisa precisasse ser dita.

Os olhares se encontraram e Giuseppe apenas sorriu.


Continua...

Notas finais
O último capítulo será postado na próxima semana :)