XI


O homem inclinou a garrafa, enchendo metade da taça com vinho. O líquido avermelhado contrastava perfeitamente com a transparência do vidro, criando uma exótica combinação. Giuseppe esticou a mão, mas a recuou no mesmo instante, tocando o balcão de madeira escura e pensando consigo mesmo que não havia nada de errado em degustar um pouco de vinho. Eu não sou fã de bebidas. O belo homem de longos cabelos louros juntou as sobrancelhas, encarando a taça e percebendo o quão ridículo aquilo parecia. A última vez que tentei beber eu terminei ajoelhado no banheiro e o vinho saiu por onde havia entrado. Eu passei o dia seguinte com dor de cabeça e desde então não deixei que álcool tocasse meus lábios. Aquele incidente acontecera há alguns anos, e, não importasse o quanto precisasse esquecer certas coisas, o Braço Direito se recusava a apelar para a bebida. Mario consegue virar garrafas e garrafas como se fossem meros copos com água, o pensamento o fez tocar a taça, sentindo o vidro frio entre seus dedos, mas Mario é forte e eu não passo de um covarde.


Giuseppe levou a taça aos lábios, deixando que sua língua sentisse o gosto da bebida. A recordação da última vez o fez pousar a taça novamente sobre o balcão, e o longo suspiro que se deixou seus lábios apenas confirmou seu desânimo. Ele não queria estar ali. O último lugar em que o louro gostaria de estar era em um caro bar, independente se a bebida fosse excelente. Eu gostaria de estar na mansão, lendo alguma coisa para Francesco. O pensamento era mais otimista do que realista. Francesco não é mais um garotinho que precisa que leiam para ele. Há muito tempo ele já escolhe seus próprios livros. O coração do Braço Direito bateu mais rápido. Ele evitava ao máximo pensar em seu Chefe, principalmente agora que o herdeiro estava prestes a noivar. A taça voltou aos seus lábios e Giuseppe obrigou-se a dar pelo menos um pequeno gole.


"Você está desperdiçando um excelente vinho com essa indecisão."


A voz veio ao lado, fazendo-o virar os olhos. Estrangeiro, foi a primeira coisa que ele pensou ao ouvir o sotaque por baixo do perfeito italiano. Ao seu lado esquerdo havia um homem jovem, provavelmente da mesma idade que ele próprio ou mais novo. Seus cabelos batiam na altura dos ombros, castanhos claros e levemente enrolados. Os olhos eram azuis, belos e profundos olhos azuis que emolduravam uma face que continha traços delicados e lábios rosados e bem preenchidos. O louro ofereceu um meio sorriso, sentindo-se constrangido por ter sido observado em um momento tão inoportuno. Mais alguém sabe o quão patético eu sou...


"Eu não estou acostumado a beber." O Braço Direito sentiu-se corando para um estranho sem motivo aparente.


"Talvez queira começar com algo não tão forte." O estrangeiro ergueu a mão e o homem atrás do balcão se aproximou. "Sirva uma dose do que estou bebendo para minha companhia de bar."


Normalmente Giuseppe jamais aceitaria uma bebida de estranhos. A profissão o ensinou a ser alerta, porém, o homem atrás do balcão era um subordinado dos Vongola, assim como basicamente todos os presentes naquele bar, com exceção do estrangeiro e mais meia dúzia de pessoas que não faziam ideia do que estava acontecendo. Eles não têm conhecimento de que estão no meio de uma missão. Uma nova taça foi pousada em frente ao louro. O conteúdo era vermelho, um pouco mais claro do que o vinho e havia uma cereja boiando sobre a superfície. O Braço Direito segurou a taça, levando-a até o nariz e sentindo um agradável e doce aroma. Sua companhia sorriu, bebericando sua própria taça e o incitando a fazer o mesmo. O líquido desceu devagar por sua garganta e ele ficou surpreso ao notar que havia bebido tudo. Eu mal senti o álcool, Giuseppe ergueu as sobrancelhas. O gosto da cereja escondia totalmente o perigo.


"Apenas tome cuidado, querido. O doce esconde a verdade, mas a bebida é mais forte do que uma mera taça de vinho." O estrangeiro ofereceu uma piscadela ao louro, pousando sua taça no balcão. "Qual o nome dela... ou dele?"


"Perdoe-me?" O Braço Direito juntou as sobrancelhas.


"Para alguém incrivelmente atraente como você estar sentado sozinho em um bar em plena sexta-feira à noite só pode significar coração partido."


Eu estou aqui em uma missão, Giuseppe tentou sorrir, no entanto, não conseguiu. Ele não poderia informar o real motivo que o levou ali, contudo, a maneira como aquele total estranho pareceu adivinhar a situação que o fez pedir originalmente a taça de vinho o incomodou. Estar aqui, sentado e esperando é parte da missão. Pedir vinho e tentar esquecer minha vida é outra coisa... O louro ergueu a mão, pedindo mais uma dose do que quer que fosse aquilo que tocara seus lábios há poucos instantes.


"Eu estou aqui pelo mesmo motivo." O estrangeiro tomou a voz ao notar o silêncio. "Cada taça me afasta do meu coração partido."


"Está funcionando?"


"Não e não funcionará." O homem apoiou o rosto na mão encostada ao balcão. "Esta não é minha primeira noite aqui. Desde que cheguei à Itália eu venho bebendo minha rejeição, embora ela só tenha se tornado oficial há poucas semanas."


"França?" O Braço Direito sorriu. Ele havia identificado o sotaque após a segunda frase.


"Paris." O francês pediu mais uma taça assim que a de Giuseppe foi servida. "Eu nasci e cresci na terra do amor, mas foi aqui que eu realmente soube o que tal coisa significava."


"Ela não estava apaixonada?"


"Ele tinha outro." O homem suspirou.


"Eu sinto muito." O louro tornou-se sério. Ele entendia aquela sensação melhor do que ninguém.


"Não mais do que eu, querido. Ele foi meu primeiro amor. Todos os que vieram depois foram meras... distrações."


"Pelo menos vocês ficaram juntos, não?" O Braço Direito não sabia por que estava respondendo. Aquela seria a primeira vez que ele falava do assunto com outra pessoa. "As lembranças servem para reconfortá-lo."


"Memórias são cruéis. Elas servem para te lembrar de que você não tem mais a felicidade nas mãos e que nunca voltará a ter." O francês deu um gole em sua nova taça. "Seu amor não é correspondido? Nunca foi?"


"Não..." Giuseppe esboçou um sorriso e meneou a cabeça em negativo, sussurrando e sentindo-se consciente do homem atrás do balcão. "Ele vai se casar."


"Oh..." Foi a vez de sua companhia tornar-se séria. "Isso é ainda mais cruel e eu não sei o que dizer."


"Não é necessário." O louro deu de ombros. "Eu já me conformei com a situação. Um dia ela se tornará mais fácil de lidar e aceitar."


"Ele é ruivo?" O francês pareceu pensativo. "Esse amor não correspondido possuí cabelos ruivos?"


"Não. Castanhos." O Braço Direito riu baixo, lembrando-se automaticamente de Mario.


"Então você terá mais sorte do que eu."


"Eu conheço um ruivo. Ele é um pouco inconstante e teimoso..."


"Todos são," o homem sorriu, "mas também são inesquecíveis e apaixonantes."


Há muito tempo Giuseppe não sabia o que era conversar displicentemente sobre nada. Os dois estranhos permaneceram cerca de dez minutos dividindo comentários tolos e bebericando uma deliciosa bebida doce. O louro sentiu o efeito na segunda taça, entretanto, isso não o impediu de pedir uma terceira. Suas bochechas se tornaram coradas e ele ria com vontade e não sentia vergonha de criticar o homem que havia rejeitado o francês. Os dois estavam prontos para pedirem outra taça quando o Braço Direito sentiu uma mão pesada sobre seu ombro. Os olhos verdes se viraram e a animação que ele sentia desapareceu.


"Desculpe a demora." O novo homem disse baixo, esboçando um largo sorriso.


"Não demorou." Giuseppe ficou em pé, retirando a carteira do bolso e depositando o dobro da quantia sobre o balcão. "É por minha conta. Obrigado pela companhia." Seus olhos pousaram no estrangeiro e o sorriso oferecido foi genuíno.


"Agradeço a cortesia." O francês corou. "Eu estava em dúvida se o convidava para deixar esse local, mas vejo que tem companhia."


"Eu estava apenas aguardando."


"Esse ai não tem cabelos castanhos." O estrangeiro abaixou os olhos e sussurrou. "A vida continua, não?"


O louro meneou a cabeça em positivo e manteve o sorriso até a saída do bar. Lentamente seus lábios se tornaram uma fina linha e a voz do francês ecoou por sua mente. O homem ao seu lado passou a mão sobre seu ombro e ambos seguiram lado a lado. Ele não tem cabelos castanhos... O Braço Direito ergueu os olhos, fitando sua companhia. Os cabelos eram negros e pendiam abaixo da orelha, perfeitamente penteados. Olhos azuis e brilhantes o encaravam e os lábios tinham um meio sorriso que dizia claramente suas intenções. Os dois caminharam por alguns momentos e Giuseppe precisou fingir que não sabia que seria empurrado ao passar por um beco. Suas costas encostaram à parede e tudo o que aconteceu em seguida pareceu passar em velocidade reduzida por seus olhos.


O beijo foi afoito e necessitado. A língua invadiu sua boca com força e em uma desnecessária tentativa de surpreendê-lo. Eu tenho que dançar conforme a música. Os olhos verdes se fecharam e o louro moveu os lábios, retribuindo o beijo. Uma mão ousada desceu por seu quadril, apalpando-o e fazendo-o juntar as sobrancelhas. Eu quero socá-lo, mas não posso. O Braço Direito gemeu, não por excitação, mas por saber que aquilo era o esperado para aquelas situações. O homem em seus braços pareceu gostar, pois os beijos desceram pelo pescoço pálido e Giuseppe pôde revirar os olhos como bem queria.


"N-Nós estamos na rua..." A voz soou propositalmente tímida. Era sua função. Era seu papel. Era sua parte na missão...


"Você me fez esperar duas semanas. Eu estou no meu limite."


"V-Você prometeu..." O louro tentava se livrar das mãos que miravam diretamente na direção de seu baixo ventre.


"Meu hotel fica próximo, o que acha?"


"Hotel?" O Braço Direito ajeitou a camisa que usava por baixo do sobretudo. Seus olhos fitaram o chão e toda aquela encenação barata e proposital o irritava, todavia, não havia nada que ele realmente pudesse fazer. "Eu não sei... eu não aceito convites para hotéis, normalmente..."


"Vai ser divertido, eu prometo." O homem deu um passo à frente, tocando o rosto de Giuseppe com as costas de suas mãos. "Eu não farei nada que você não queira."


Eu tenho que provocá-lo. O louro mordeu o lábio inferior e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Ele já tinha sua resposta, porém, precisava permanecer no papel de inocente por mais alguns momentos.


"Eu acho que bebi demais, então aceitarei." O Braço Direito sorriu tímido. “M-Mas você tem que prometer que não fará n-nada...”


O sorriso nos lábios do homem foi genuinamente largo e por um momento Giuseppe sentiu-se mal por enganá-lo, no entanto, aquela sensação foi passageira. Os dois voltaram a caminhar e os passos de sua companhia se tornaram mais rápidos. Ele está com pressa... o que é ótimo. O louro permaneceu em silêncio, rindo quando necessário, contudo, sem dizer nada relevante. O hotel surgiu em seu campo de visão após três esquinas e o Braço Direito entrou pela porta de vidro, sem ver direito por onde andava. O homem ia à frente, segurando-o pela mão e assoviando uma animada música italiana. O cômodo ficava localizado no quarto andar, e, ao parar na porta de número 15, Giuseppe sorriu consigo mesmo.


O quarto era uma suíte e ele soube disso no instante em que foi jogado contra a cama. Um novo e afoito beijo invadiu sua boca, seguido por duas mãos rápidas e que abriram seu sobretudo em segundos. Ele é esperto. O louro virou-se, ficando por cima e interrompendo o beijo. As mãos subiram por suas coxas e ele utilizou a posição para se livrar de seu sobretudo. Seu corpo moveu-se para baixo, sentando-se sobre a ereção do homem que estava por baixo e mexendo-se devagar. Já faz tempo que não faço isso. O gemido que escapou pelos lábios do Braço Direito não havia sido falso. Eu preciso me concentrar.


"Deite-se direito..." Giuseppe saiu de cima do homem e ajoelhou-se sobre a cama, abrindo os bolsos de seu sobretudo e retirando duas algemas.


"Oh..." O homem riu alto e ajeitou-se na cama prontamente. "Eu não sabia que você gostava desse tipo de coisa."


"Faz parte do trabalho como Guarda-Costas." O louro riu e voltou a se posicionar sobre o homem. As algemas prenderam os pulsos à cama e o Braço Direito abaixou os olhos, sorrindo para sua companhia. "Confortável?"


"Muito." O homem passou a língua sobre os lábios. "O que acha de começar a se despir? Eu estou muito curioso a respeito do que você esconde debaixo dessa roupa, embora eu já o tenha desnudado em meus sonhos."


Giuseppe riu, uma risada baixa e falsa. Seu corpo arrastou-se para fora da cama e ele soltou um longo suspiro. Finalmente estava terminado.


"Ele é de vocês. Meu trabalho está feito."


A porta do banheiro foi aberta, coincidindo com a entrada do quarto.

Em segundos o cômodo tornou-se cheio de pessoas, incluindo Mario — que estivera no banheiro —, e Giulio, que fora o primeiro a invadir o quarto. O ruivo calou o homem algemado à cama, que começou a gritar ao notar que havia sido vítima de uma armação. O golpe foi certeiro na cabeça e dado com o cano do revólver. Os subordinados o retiraram da cama enquanto o louro ajeitava suas vestes e encarava o céu escuro através da janela. A movimentação acontecia nas suas costas, entretanto, o Braço Direito estava longe, muito longe. Eu preciso de um banho urgente e algo para tirar o gosto daquele homem da minha boca, a ideia de retornar ao bar e aceitar o convite do estranho francês parecia tentadora, todavia, Giuseppe apenas riu ao pensamento, ele tem cabelos castanhos, mas não é o homem que procuro.


x


Durante todos aqueles anos que serviu a Família Cavallone, aquela seria a primeira vez que o homem de longos cabelos louros pedia férias. Ivan sempre foi o responsável por oferecer alguns merecidos dias de folga, mas o Braço Direito os aceitava por obrigação. Ele nunca se sentiu inclinado a afastar-se da casa e de sua vida até aquele momento. E, então, pela primeira vez Giuseppe foi pessoalmente e diretamente ao Chefe da Família e pediu uma semana de licença. A missão havia sido um sucesso, o louro congratulado por sua perfeita atuação e, quando todos retornaram para a mansão após a reunião na mansão dos Vongola, o Braço Direito aproximou-se do moreno — ignorando totalmente a figura de Mario, que, ao ouvir o pedido, pareceu genuinamente surpreso —, e pediu educadamente que fosse liberado por alguns dias. O Chefe dos Cavallone sorriu e disse que não havia problemas e que aquela semana seria um merecido descanso. A única coisa que Ivan pediu foi que ele avisasse Francesco de sua ausência, atitude que Giuseppe tomou ao deixar o escritório.


O rapaz de cabelos castanhos já estava de pijamas quando o louro bateu em sua porta. O futuro Chefe tinha um largo sorriso nos lábios e o convidou a entrar de imediato.


"Perdoe, mas eu vim apenas comunicar que ficarei ausente durante a próxima semana." As palavras saíram sérias e ensaiadas. Ele já havia decorado o que diria.


"Oh..." O herdeiro pareceu tão surpreso quanto o ruivo.


"Eu já tinha planos de tirar alguns dias de férias, mas estava esperando a missão ser concluída."


A menção à missão fez sua companhia coçar a nuca e sorrir.


"Eu não sabia sobre a missão. Eu apenas notei que você se ausentou mais do que o costume." Francesco voltou a coçar a nuca. "M-Mas eu entendo e tire as suas férias. Você planeja viajar... ou sair... ou ver alguém... ou algo assim?"


"Eu estarei de volta em uma semana. Cuide-se, Chefe."


Giuseppe fez uma polida reverência, dando as costas e seguindo para o primeiro andar. Seu coração bateu rápido o tempo todo. Ele detestava aquilo. Detestava ter de tratar a pessoa que amava com frieza e certa indiferença, porém, ele sabia melhor do que ninguém que precisava daquela distância ou seus sentimentos acabariam sobrepondo o seu bom senso e aquilo jamais poderia acontecer. Minha função é protegê-lo e não amá-lo. Eu tenho uma semana para aprender essa diferença ou será melhor que eu desista do trabalho. A ideia de abdicar do cargo era latente e já havia criado raízes em sua mente. Mario pensa o mesmo. Eu posso ver isso em seus olhos. O irmão mais velho o esperava do lado de fora da mansão, olhos pesados, no entanto, sem dizer uma única palavra. Os dois dirigiram em silêncio e, ao entrar em sua casa, O Braço Direito do futuro Chefe dos Cavallone soube que teria alguns dias de paz.


Voz suave, traços femininos, personalidade discreta e de poucas palavras. O louro sempre recebeu a mesma descrição, não importasse se fosse nos tempos de escola, treinamento ou próximo aos membros da Família. Giuseppe nunca foi uma pessoa impulsiva, teimosa ou extrovertida. Esse era Mario, seu total oposto. Contudo, ele nunca se sentiu inclinado a ser como o irmão. O ruivo sempre foi admirado, entretanto, nunca invejado. Eles tinham a mesma função, todavia, desempenhavam-na de maneiras diferentes, exatamente porque protegiam pessoas diferentes. Os Cavallone sempre foram sua família e Ivan nunca fora um problema. Eles costumavam brincar todos juntos quando crianças, e, mesmo a diferença de idade ser de quase uma década, o moreno sempre o tratou como um membro da família. Por essa razão o louro sabia que não era justo nutrir tais sentimentos pelo filho do homem que o aceitou como um irmão e que nunca, em todos aqueles quase 26 anos, o fez sentir como se ele não merecesse aquela família ou aquele cargo.

Porém, palavras e ações nem sempre andam juntas e o Braço Direito teria se trancado em casa durante uma semana se um inusitado convite não houvesse chegado às suas mãos.


Se a salvação possuía um nome então seria Giulio. Se possuísse uma fisionomia seria a de um charmoso homem de quase 40 anos, cabelos ainda negros, olhos verdes e que trazia consigo um magnético e bondoso sorriso todas as vezes que o via. Giuseppe sempre apreciava os momentos que tinha com aquela pessoa. O moreno era educado, íntegro e, apesar de tratá-lo, às vezes, como uma criança — o que o louro não se importava, na verdade — era basicamente a única pessoa com que ele se sentia à vontade nos últimos dias. O convite para o primeiro almoço veio através de Alaudi. O Guardião da Nuvem o surpreendeu ao visitá-lo no segundo dia de férias, logo após o café da manhã, agradecendo a cooperação durante a missão e entregando um bilhete de seu Vice-Inspetor. Giulio possuía a letra caprichava e forte, e naquele pequeno pedaço de papel ele o convidava para almoçarem juntos algum dia daquela semana. Não seria necessário dizer que o Braço Direito estava fielmente na sede de polícia na tarde seguinte. Se fosse qualquer outra pessoa ele teria simplesmente ignorado o convite, mas não o moreno.


Eles almoçaram em um delicioso restaurante conhecido por ter as mais diversas opções de saladas e pratos frios. O Vice-Inspetor sabia que Giuseppe não era muito inclinado a comer carnes, e aquele detalhe muito lhe agradou. A refeição realmente estava deliciosa, e o louro degustou spaghetti com brócolis após devorar um pouco de cada uma das mais de doze opções de saladas. A conversa precisava ser trivial devido ao local ser público, e não demorou a que o assunto caísse em Mario. O Braço Direito não se importou em ouvir e falar sobre o irmão, no entanto, foi naquele primeiro almoço que Giuseppe se deu conta do quão sortudo e desmerecedor o ruivo era. Ele é amado. Mario é amado e provavelmente não faz ideia do quanto. Naquela noite, quando o irmão mais velho retornou, o louro manteve-se em silêncio durante o jantar. As palavras de Giulio, a maneira amável com que ele falou do ruivo, os olhos brilhantes e o sólido respeito... tudo retornou e o Braço Direito não conseguiu sequer iniciar um diálogo. Não era justo. Algumas pessoas tinham tudo.


Aquele primeiro encontro repetiu-se mais três vezes durante aquela semana. Giuseppe não achou que realmente aproveitaria aquelas férias inusitadas, pois, entre as idas e vindas do centro de Roma, ele basicamente permanecia em seu quarto com algum livro nas mãos enquanto sua mente tentava se focar na história ao invés de lembrá-lo de que o que o separava da pessoa que ele amava eram vinte minutos de carro. O moreno nunca fez nenhuma pergunta pessoal e por isso o louro seria grato. Os dois se encontravam durante o almoço e seguiam caminhos diferentes após a refeição. Foi através do Vice-Inspetor que o Braço Direito soube que Mario havia terminado o relacionamento e aquilo não o surpreendeu. Ao opinar sobre o assunto, Giuseppe precisou de alguns segundos em silêncio, até finalmente conseguir se expressar.


"Eu amo meu irmão, mas se ele não consegue ver o quanto é amado então talvez não mereça o seu amor."


O louro não se lembrava da última vez que criticou o ruivo. Eles sempre foram diferentes um do outro, contudo, acabavam se entendendo. Entretanto, quando o assunto era Giulio, o Braço Direito não conseguia evitar pensar que o irmão estava jogando fora a melhor oportunidade de sua vida por um motivo banal. Giulio me contou sobre o catalisador daquela briga e no dia eu só consegui pensar como Mario pôde acreditar que depois de todo esse tempo aquele homem teria algum interesse na mulher que o traiu. O último almoço entre eles aconteceu em uma sexta-feira e os dois se despediram com um amigável aceno. Todavia, Giuseppe não seguiu direto para casa. Não havia nada a fazer em seu quarto, e a verdade era que sem seu trabalho a vida era tediosa e um pouco maçante. O louro dirigiu até o centro e passou algum tempo olhando lojas, admirando Cafés e só retornando depois de provar uma torta de chocolate que desceu acompanhada por um delicioso chá inglês. O Sol se punha no horizonte quando o Braço Direito deixou o carro, espreguiçando-se e pisando na grama que começava a tornar-se verde. Se ele soubesse o que o esperava assim que entrou em casa, talvez Giuseppe tivesse permanecido por mais tempo entre tortas e chás.


Ele soube que ouviria alguma coisa petulante no instante em que encarou Mario parado no meio da escadaria. Eram poucos degraus até o segundo andar, mas apenas uma pessoa subia ou descia, logo, o louro precisaria esperar o irmão descer ou subir. O ruivo terminou o caminho, demorando propositalmente e parando em frente ao Braço Direito. Os dois se olharam e Giuseppe engoliu seco.


"Você sabe que não vou proibi-lo de se encontrar com Giulio, mas eu quero que saiba que não existe chance de reatarmos o relacionamento prévio."


"Eu não sei do que você está falando." O louro abaixou os olhos, abrindo os botões do sobretudo. "Se você está insinuando que eu estou tenho um caso com Giulio, permita-me dizer que a ideia é ridícula."


"Eu não estou falando sobre isso." Mario pareceu ofendido. "Você tem todo o direito de se encontrar com Giulio e manter a amizade, mas não se apegue demais. Ele não voltará a frequentar esta casa."


"Eu ouvi o que você disse da primeira vez." O Braço Direito de Francesco retirou o sobretudo, pendurando-o sobre o braço esquerdo. Os dois irmãos se olharam e Giuseppe soube imediatamente que se arrependeria daquela conversa. "Você está cometendo o maior erro da sua vida, Mario. Se você deixar Giulio ir embora eu tenho certeza de que você irá se arrepender para sempre."


"Isso não é assunto seu." O ruivo respondeu ríspido.


"Eu sei, e foi isso que eu disse a ele nesta tarde." O louro esboçou um sorriso triste. "Eu disse que ele deveria desistir e ir procurar alguém que merecesse aqueles sentimentos, aquelas palavras gentis e aquela admiração toda. Você é meu irmão e eu o amo incondicionalmente, mas, se me permite a franqueza, você é um idiota."


O Braço Direito não se recordava da última vez que ofendeu outra pessoa, porém, tinha pleno conhecimento de que aquela era a primeira vez que tal termo era direcionado a Mario. O ruivo juntou as sobrancelhas e ficou quase tão surpreso quanto o próprio Giuseppe. Eu finalmente disse o que vim guardando todos esses dias. O irmão mais velho entreabriu os lábios, procurando as palavras certas, no entanto, não encontrando nada além de gruídos indistintos.


"Você não faz ideia do quão amado é, Mario. Aquele homem falou de você durante todos os almoços que compartilhamos e não houve uma única vez que o seu nome fosse mencionado com raiva, rancor ou qualquer sentimento negativo." O louro continuou. Ele já havia começado, qual o problema em terminar? "Giulio jamais teria se envolvido com aquela mulher, não quando você é a única coisa em sua mente e coração. Então, boa sorte em afastar o homem que foi responsável por torná-lo mais... humano. Eu não duvido que Giulio vá encontrar outra pessoa, porém, eu não acredito que você conseguirá tal proeza."


A última parte foi dita baixa e o Braço Direito passou por Mario, subindo as escadas e sem olhar para trás. Ele trancou-se no quarto por horas, saindo apenas para tomar banho e retornando logo em seguida. As luzes do andar debaixo estavam acessas e havia movimentação na cozinha, no entanto, Giuseppe não sentia fome. Eu fui cruel, mas Mario precisava ouvir aquilo. Ele precisa ter conhecimento do que tem nas mãos e no que irá perder se não fizer alguma coisa. O louro não tinha esperanças de que seu irmão fosse ouvi-lo realmente. O ruivo sempre foi teimoso e genioso para certas coisas, contudo, foi com o Vice-Inspetor que ele aprendeu moderação. Sem o moreno, o Braço Direito só conseguia imaginar quando as noitadas de Mario recomeçariam. Os dois se amam, então por quê? Eles não têm ideia da sorte que possuem.


Naquela noite Giuseppe demorou a dormir. Seus olhos permaneceram encarando o teto e ele pegou-se imaginando como seria sua vida quando a segunda-feira chegasse e suas férias terminassem. A figura do rapaz de cabelos castanhos brotava insistentemente em sua mente e em determinado momento o louro encolheu-se na cama e fechou os olhos. Ele já não sabia o que era mais forte em seu coração: o desejo tolo e impossível de ter seu amor correspondido ou a desmedida vontade de esquecer o futuro Chefe dos Cavallone para sempre.


x


O retorno ao trabalho aconteceu mais tranquilo do que o Braço Direito esperava.

Nem bem ele havia entrado na mansão e Catarina praticamente se jogou em suas pernas, abraçando-o tão fortemente que por um momento Giuseppe achou que cairia. A garota exigiu um longo e apertado abraço, ralhando com ele e avisando que da próxima vez ela gostaria de ser avisada sobre as férias. O louro desculpou-se, sentindo-se genuinamente mal por não ter se lembrado de comunicar à ruiva sobre sua ausência. A mente do Braço Direito estava abarrotada de pensamentos sobre o herdeiro, entretanto, aquele detalhe não deveria ou seria mencionado a Catarina. Certas coisas deveriam ficar em seu coração.


A recepção de Francesco, todavia, não foi tão calorosa. O encontro aconteceu após o café da manhã, e isso porque Giuseppe foi avisar seu Chefe que havia retornado. Os dois se desencontraram no café, mas o rapaz de cabelos castanhos estava em seu quarto, como esperado. O futuro Chefe o convidou a entrar, mas o louro permaneceu na entrada. Aquilo fazia parte de suas novas decisões, na verdade, era apenas uma decisão e que possuía pequenas ramificações que funcionariam como regras. A primeira e mais importante era exatamente manter distância e só invadir o espaço pessoal quando fosse extremamente necessário, o que não era o caso naquela manhã.


"Vim comunicar que estou de volta e ao seu dispor. Se existir alguma coisa que eu possa fazer, não deixe de pedir."


"Eu tenho um jantar esta noite e gostaria que você me ajudasse com a roupa."


"Certamente." O Braço Direito retornou mentalmente uma semana e tentou lembrar se havia alguma coisa marcada. Nada relevante veio à mente. "Qual a ocasião?"


"O pai de Clara quer oficializar o noivado e meu pai aceitou o jantar." O herdeiro deu de ombros, como se não fosse realmente ele a participar.


Manter a máscara de indiferença foi fácil. A parte difícil foi controlar a incrível vontade que Giuseppe sentiu de voltar para casa, entrar debaixo do macio e grosso cobertor verde e permanecer ali o resto da vida. Ele não respondeu ou expressou reação alguma além de um automático menear de cabeça. Por dentro seu coração estava apertado, porém, aquilo não seria novidade. A dor havia se tornado parte dele.


"E como foram suas férias?" Francesco perguntou displicentemente. "N-Não que seja da minha conta com quem você saiu nesses dias... d-digo, eu não procurei saber, eu apenas ouvi, s-sabe, curiosidade..."


"Eu almocei com Giulio. Ele me levou a alguns restaurantes novos e nós conversamos sobre Mario." A resposta saiu baixa e o louro não se lembrava realmente de ter respondido. Seus lábios simplesmente se moveram.


"A-Ah... Giulio? Oh..." Havia real surpresa na maneira como o rapaz de cabelos castanhos passou a mão na testa. Um largo sorriso cruzou seus lábios e ele voltou a convidar seu Braço Direito a entrar.


"Desculpe, mas eu tenho algumas coisas para resolver."


Giuseppe fez uma polida reverência e deu as costas. Não havia nada que requeresse sua atenção, no entanto, ele simplesmente não sabia como se comportar na presença do futuro Chefe dos Cavallone. Então ele realmente decidiu unir as Famílias. O louro sentia-se completamente impotente, sem saber para onde ir ou se havia algum lugar para ele. O que eu farei depois que Francesco estiver casado? Não será hoje e nem amanhã, mas um dia. Qual será meu papel em sua vida? Eu não conseguirei ficar nesta casa. O Braço Direito não era altruísta o suficiente para desejar felicidades ao herdeiro. Se o ciúme já não fosse suficiente, Giuseppe ainda se martirizava por não conseguir ser uma pessoa melhor. Por não conseguir ver a pessoa que amava sorrir sem que ele fosse o causador de tal sorriso.


O local escolhido para que o louro colocasse os pensamentos em ordem foi o jardim atrás da mansão. Aquele local era gelado no inverno, contudo, naquele começo de primavera ele parecia agradável e fresco. As costas da mansão projetavam uma larga sombra e não havia subordinado ou empregado por perto. O Braço Direito sentou-se no banco frio, lembrando-se de que a última vez que sentara ali havia sido com Francesco, no meio do baile de Natal e após terem sido ameaçados por Mario. Ele costumava correr até aquela macieira, enquanto eu permanecia sentado e observando. Os olhos verdes fitaram a árvore ao longe e um meio sorriso brotou em seus lábios. Aquelas lembranças estavam longe, guardadas em uma parte especial de seu peito. Giuseppe as manteve vivas, achando que se visse o rapaz de cabelos castanhos como um garotinho, uma criança, talvez aqueles sentimentos permanecessem adormecidos.


Tudo havia começado com admiração. O louro tinha quase doze anos quando Ivan o chamou em seu escritório e lhe ofereceu o cargo de Braço Direito. "Eu terei um filho em poucos meses e gostaria que você ficasse encarregado de protegê-lo". Giuseppe — na época apenas uma criança — ficou deslumbrado com o convite e principalmente o prospecto de retribuir um pouco do muito que recebera. O louro não conheceu seu pai ou sua mãe. O ruivo era sua família por parte de sangue, entretanto, os Cavallone o criaram, o vestiram, o educaram e ofereceram um teto para que ele morasse. No dia da morte do pai de Ivan, o Braço Direito jurou para si mesmo que faria o possível para ser útil. Então, quando o moreno lhe ofereceu a chance, ele a agarrou sem questionar. Giuseppe afastou-se da mansão e viveu longe por quase cinco anos. Suas visitas eram esporádicas, todavia, o irmão o visitava todos os finais de semana. Foi com Mario que ele aprendera a manejar uma arma e a lição que o ruivo passou jamais seria esquecida. Em suas mãos o revólver parecia grande, pesado e adulto. Muito adulto.


"Ouça bem, Giuseppe, porque antes de aprender a segurar uma arma você precisa aprender por que a segura. Isto aqui..." O Braço Direito do Chefe da Família disse enquanto segurava um pesado revólver. Na época Mario tinha cabelos longos, mas os mesmos olhos afiados e sorriso fácil. O louro treinava em um local próprio, afastado de Roma e próximo ao interior. O lugar era mantido pela Família, porém, era basicamente um vilarejo. As garotas costumavam estar sempre presentes quando o ruivo visitava. "Você não irá usar a arma para atacar. Você irá usá-la para proteger."


Desde então o menino se transformou em um homem e aquela lição não foi esquecida. O Braço Direito nunca havia utilizado arma alguma com outro intuito além do passado por seu irmão. Giuseppe conheceu o herdeiro ainda bebê, e ele jamais se esqueceria o que sentiu ao segurá-lo em seus braços. No entanto, emoção alguma poderia ser maior do que o dia em que eles foram oficialmente apresentados como Braço Direito e Chefe. O pequeno menino de cabelos castanhos, com seus cinco anos de idade, bermuda marrom e suspensórios. Os olhos eram cor de mel e brilhavam como duas pequenas moedas de ouro. "Então a partir de hoje estaremos sempre juntos, né?", disse o pequeno Francesco para um envergonhado louro de dezesseis anos, cabelos abaixo da orelha e bochechas coradas. A frase foi seguida por um tímido, contudo, caloroso meio sorriso. A partir daquele momento Giuseppe tinha alguém para proteger, uma pessoa para dedicar sua vida e um propósito que vinha acima de qualquer necessidade pessoal. A vida do louro pertencia ao Chefe. O homem vinha em segundo plano.


O vento moveu-se devagar, levando algumas folhas e movendo os cabelos do Braço Direito que estavam presos por uma longa trança. Ele não sabia há quanto tempo estava ali, entretanto, havia sido o suficiente para que aquele turbilhão de lembranças o fizesse lembrar de sua verdadeira missão naquela casa. O herdeiro era um homem agora e não um garoto. Aqueles dias de brincadeiras, corridas e esconderijos não retornariam. Em breve aquele rapaz se tornaria chefe de família e também Chefe da Família. Ele provavelmente teria um ou dois filhos e o legado seria passado para eles. E, então, o que restava fazer? Meus sentimentos não mudarão. Eu achei que uma semana seria tempo suficiente para ponderar e pensar em uma saída, mas não há outro caminho. Giuseppe fechou os olhos e levou a mão até as costas, puxando o caprichado laço que prendia a trança e deixando que seus cabelos dançassem com o vento. Os fios se moviam devagar, descendo por suas costas e ombros. Os olhos verdes voltaram a fitar a macieira e o louro esboçou um meio sorriso antes de ficar em pé.

Ele não sabia se voltaria a ver aquela paisagem, pelo menos no papel de Braço Direito.


x


Francesco escolheu um sobretudo creme para aquela noite.

A roupa completa contava com calça e terno negros, camisa branca e uma belíssima gravata trazida da Inglaterra. O rapaz tomou um demorado banho enquanto Giuseppe separava a roupa. As peças foram espalhadas sobre a cama, pela ordem que seriam vestidas. O futuro Chefe dos Cavallone abriu a porta do banheiro enquanto o louro estava no closet e, quando o Braço Direito retornou ao cômodo, a calça e a camisa branca haviam desaparecido. O herdeiro surgiu em seguida, fechando os botões da camisa e oferecendo um sorriso. Todavia, nada no mundo faria com que Giuseppe sorrisse. Suas mãos foram para a gravata e ele esperou pacientemente que sua companhia se aproximasse. O tecido foi passado com gentileza pelo pescoço e Francesco virou-se, permitindo que o louro cuidasse do nó. Gravatas nunca foram o forte do rapaz de cabelos castanhos, e por muito tempo o Braço Direito aproveitou aquela proximidade. Geralmente suas mãos tremiam ou até mesmo suavam por puro nervosismo. Mas naquele começo de noite Giuseppe não tremeu ou hesitou e suas mãos pousaram com familiaridade sobre os ombros da pessoa à sua frente.


"Minha parte está feita.” O louro esboçou um meio sorriso. De repente seu coração se sentia leve, agora que ele sabia que seria a última vez. "Não há nada mais que eu possa fazer por você."


"Eu tenho certeza de que precisarei de ajuda com minhas gravatas por um bom tempo." O futuro Chefe riu e passou ambas as mãos pelos cabelos, ajeitando-os no mesmo instante.


"Eu falei sério, Francesco." O Braço Direito pegou o terno e auxiliou sua companhia a vesti-lo. Quando a peça de roupa foi ajeitada, ele deu um passo à frente, descendo a mão sobre o peito do herdeiro. Ele se tornou um homem. Mais alto do que eu, mais forte e certamente mais feliz. "Eu pedirei ao seu pai que me tire do cargo de Braço Direito."


"Do que você está falando, Peppe?" Francesco permaneceu no mesmo lugar. Sua mão direita ergueu-se e ele colocou uma parte do cabelo de Giuseppe atrás da orelha. Aquele simples toque fez o louro arrepiar-se. "Você já teve as suas férias. Prepare-se para não se ver livre de mim por um tempo." Havia certa amabilidade e graça na maneira com que aquelas palavras foram proferidas e por um momento o Braço Direito se viu vivendo aquela vida, porém, a imagem sumiu rapidamente quando ele deu um passo para trás.


"Eu falo sério. Hoje é meu último dia ao seu lado."


O rapaz de cabelos castanhos precisou de alguns segundos para entender que aquelas palavras eram reais. Que a despedida era real. Suas sobrancelhas se juntaram e o futuro Chefe dos Cavallone deu dois passos para trás, tentando falar, mas sem conseguir realmente se expressar.


"N-Não... Você não vai a lugar algum! E-Eu não permito isso!" Pânico fez com que a voz masculina soasse mais alta.


"Eu não posso ficar, Francesco. Eu sinto muito." Giuseppe sentiu a própria voz sair apenas um fio. A decisão estava tomada em seu coração, então por que era tão difícil dizê-la em voz alta? Ele sentiu quando seus olhos começaram a brilhar e os sentimentos pareciam brincar com seu coração, fazendo-o bater forte e doloroso.


"O que você quer dizer? Como não pode ficar? O seu lugar é aqui! Ao meu lado!" O herdeiro deu um passo à frente, segurando o braço do louro, no entanto, sem utilizar força. "Eu preciso de você aqui. Se você for embora o que eu farei? Por favor..." Os olhos cor de mel se arregalaram um pouco e Francesco deu mais um passo à frente, segurando-o agora pelos dois braços e balançando-o um pouco. "O que houve, Giuseppe? O que está acontecendo?"


Ele não entendia. Tudo o que o Braço Direito pensava era porque aquela pessoa o chacoalhava. Eu não consigo vê-lo. Eu quero vê-lo, mais uma vez... a última vez, mas não consigo. Giuseppe só notou as lágrimas quando elas formaram uma única gota no final de seu queixo. O rapaz o abraçou forte, mantendo-o firme e protegido em seus braços. E, como se houvessem retirado a tampa de um ralo, todas as emoções conflitantes que o louro guardou em seu peito durante todos aqueles anos transbordaram. Seus joelhos desistiram de mantê-lo em pé, tocando o macio tapete que forrava aquela área do quarto. O futuro Chefe ajoelhou-se com ele, mantendo-o abraçado e mostrando que não o deixaria ir. O choro foi alto e suas mãos apertaram as vestes do herdeiro sem se importarem com jantares, noivados e responsabilidades. A última vez que o Braço Direito chorou daquela maneira foi quando o pai de Ivan morreu. Ele agarrou-se a Mario e chorou até perder os sentidos. As lágrimas poderiam ser diferentes, contudo, o motivo continuava sendo o mesmo: no final, Giuseppe sempre perdia as pessoas importantes.


"V-Você... tanto... t-tanto, Francesco..." A voz saiu abafada. As lágrimas salgadas misturavam-se com as palavras desconexas.


"Eu não consigo te entender." Francesco sussurrou. Aquela voz parecia tão calma e segura. Tão familiar...


"Eu te amo! Eu te amo, Francesco... eu sempre te amei." O abraço tornou-se mais apertado e as palavras saíram com as novas lágrimas. "Eu não consigo ficar feliz por você... eu tentei, mas não consigo. Eu não quero estar aqui para vê-lo feliz. E-Eu te amo tanto e eu sinto muito." Eu sou o pior tipo de pessoa do mundo... eu queria poder desaparecer.


O quarto tornou-se quieto, com exceção do choro do louro. O rapaz de cabelos castanhos permaneceu imóvel, envolvendo-o. O abraço, entretanto, tornou-se menos apertado após algum tempo e naquele momento o Braço Direito soube que tudo estava acabado.


"Você fala sério?" O futuro Chefe dos Cavallone afastou-se um pouco, o suficiente para que eles se encarassem diretamente. "Eu posso realmente acreditar nessas palavras?"


O que mais ele quer que eu diga? O Braço Direito meneou a cabeça em positivo, sem saber se aquele tipo de pergunta possuía uma resposta certa, ou melhor, se possuía sequer uma resposta.


"Eu quero que me escute com cuidado." A voz do herdeiro soou séria. Ele parecia ter amadurecido em poucos segundos. "Eu preciso ir agora, mas quero que me espere no quarto à frente. Você não está em condições de me acompanhar, então eu pedirei a Mario que vá comigo, embora ele esteja estranhamente mal-humorado." Francesco moveu-se e esboçou um meio sorriso enquanto passava as costas das mãos sobre os olhos chorosos de Giuseppe. "Tome um banho, coma alguma coisa quente e me espere. Eu provavelmente demorarei, mas me espere, entendeu?"


O homem de longos cabelos louros não conseguia pensar, portanto, sua única resposta foi um menear de cabeça.

O rapaz ficou em pé, pegando os sapatos e o sobretudo creme e saindo sem olhar para trás. O Braço Direito permaneceu onde estava, encarando o tapete enquanto enxugava os olhos. O que eu fiz? Eu não acredito que perdi o controle na frente dele. Ficar em pé exigiria uma força de vontade que infelizmente Giuseppe ainda não possuía, então tudo o que ele fez foi permanecer sentado por algum tempo. Ninguém entrou no quarto para procurá-lo e, quando finalmente conseguiu levantar-se, seus passos apenas atravessaram o corredor, entrando no quarto à frente. Aquele era o local em que o louro sempre ficava quando passava a noite na mansão, seu velho quarto herdado dos tempos de garotinho.


Eu deveria ir para minha própria casa. O pensamento cruzou sua mente, todavia, o Braço Direito merecia ouvir o que quer que o futuro Chefe tivesse a dizer. As roupas foram retiradas no caminho até o banheiro e colocadas sobre a pia. Os quartos do corredor principal eram todos suítes, então ele teria alguns minutos privados. A trança foi desfeita e Giuseppe arrastou-se até o box, ligando o chuveiro e erguendo a cabeça. A água quente tocou seu rosto, misturando-se às novas lágrimas. Durante todos aqueles anos ele nunca se sentiu tão indigno de estar naquela Família. Mario estava certo. Mario sempre esteve certo. Minha função deveria ser proteger meu Chefe e não me apaixonar por ele. Eu realmente preciso ir embora.


Mas ele não foi.

O banho fez as lágrimas desaparecerem e o louro retornou ao quarto, indo direto para o guarda-roupa ao lado direito. Ali havia pelo menos três trocas de roupas limpas, e não foi difícil encontrar algo para vestir. O Braço Direito retornou ao banheiro, dedicando alguns minutos aos seus cabelos, que pendiam até o meio de suas costas como uma faixa dourada. Giuseppe sentou-se na cama, abraçando um dos travesseiros e pousando os belos olhos verdes na porta. Ele esperaria o tempo que fosse necessário e, quando não houvesse mais nada a ser dito, o louro desceria e conversaria com Ivan. Eu preciso pensar em alguma coisa. Ele jamais me deixará ir se eu não oferecer um motivo consistente. A verdade estava fora de cogitação, portanto, o Braço Direito decidiu dedicar o tempo de espera para a desculpa perfeita. Várias ideias brotaram em sua mente, mas nenhuma parecia suficiente. Conhecendo o moreno, ele sabia bem que não conseguiria sair da situação sem preparo.


Naquela noite Giuseppe não desceu para o jantar, embora fosse chamado por Catarina. O louro sentiu-se mal por rejeitar o convite, porém, ele sabia que não seria boa companhia para ninguém. A garota, no entanto, pediu que uma das empregadas levasse uma bandeja com uma xícara de chá e algumas torradas. O Braço Direito aceitou o chá, contudo, não se sentiu inclinado a comer nada. Seus olhos permaneceram na porta, e as duas visitas que recebeu — Catarina e a empregada — foram suficientes para que seu coração pulasse uma batida. Este quarto não tem vista frontal. Eu não os verei chegar e provavelmente não os ouvirei. A janela do quarto dava para uma das laterais da mansão, logo, tudo o que Giuseppe veria seria grama e algumas árvores.


O herdeiro estava certo ao dizer que demoraria, entretanto, o louro sentiu como se cada hora durasse dias. O relógio da cabeceira da cama marcava quase meia-noite quando ele notou que havia movimentação no jardim. Ele chegou. O Braço Direito engoliu seco, dando as costas para a janela e voltando a se sentar em sua cama, olhos atentos e coração angustiado. Seus cabelos haviam secado e pendiam soltos ao lado de seu rosto. Todavia, a tão esperada visita não veio de imediato e Giuseppe ainda precisou esperar mais vinte minutos até que Francesco finalmente retornasse. A porta do quarto foi aberta sem nenhum aviso e fechada em seguida. O homem de longos cabelos louros se pôs de pé no instante em que viu sua companhia entrar e, ao se encararem diretamente, ele sentiu as lágrimas novamente em seus olhos. Eu preciso ser forte.


"Obrigado por esperar." O rapaz de cabelos castanhos aproximou-se devagar. Havia um largo sorriso em seus lábios e ele parecia em ótimos humores.


"F-Francesco, nós precisamos conversar." O Braço Direito levou uma das mãos ao peito. Criar uma desculpa para Ivan seria fácil se comparada à ideia de negar seus sentimentos. "Sobre o que eu d-disse, nós t—"


"Está tudo acabado!" O futuro Chefe dos Cavallone continuou a andar. Quando seu pé esquerdo tocou a área do tapete, Giuseppe engoliu seco. "Eu terminei oficialmente o compromisso que tinha com Clara e estou livre. Eu sou todo seu agora!"


"Hã?"


A primeira coisa que ele sentiu foi a mão em sua cintura. Ela era grande e quente e forte o suficiente para puxá-lo em um único movimento. Porém, foram os lábios do herdeiro que realmente surpreenderam o louro. Eles se encontraram aos seus, forçosos e ávidos por contato. A língua de Francesco invadiu a boca do Braço Direito, mostrando claramente quais eram suas intenções. Este não é um beijo de criança. Giuseppe apertou as mãos, tentando manter a compostura, mas aquela tentativa vã durou segundos. Seus dedos subiram pelos ombros de sua companhia até segurá-lo pelo rosto, ao mesmo tempo em que intensificava a carícia. O beijo tornou-se profundo quando o futuro Chefe deu dois passos à frente, prensando-o contra a parede ao lado da cômoda. O louro movia os lábios com pressa, ignorando as lágrimas que escorriam por suas bochechas e querendo ao máximo diminuir a distância que já era praticamente inexistente. Ele sentiu quando as mãos de sua companhia desceram até seu quadril, erguendo-o um pouco. Um gemido baixo escapou através da boca do Braço Direito quando o herdeiro inclinou um dos joelhos por entre suas pernas. Aquilo pareceu agradar Francesco, que afastou os lábios e abriu um largo sorriso.


"Você é meu agora, e não há ninguém neste mundo que vá interferir."


"E-Eu não posso..." Giuseppe murmurou baixo, no entanto, seus lábios voltaram a beijar o rapaz de cabelos castanhos. Há muito tempo ele sonhava com longos e intermináveis beijos.


"Você me ama, Peppe?" O futuro Chefe dos Cavallone disse de maneira bagunçada enquanto seus lábios continuavam a carícia. Os olhos cor de mel estavam abertos e brilhantes.


"Eu amo, e por isso eu n-não posso..."


"Eu fiz isso por você. Eu terminei meu namoro, noivado ou o que quer que fosse aquilo por você, então não venha me dizer que não pode ou não quer." O herdeiro riu baixo. "Você tirou um peso enorme das minhas costas. E eu te amando sozinho por todos esses anos..."


"V... Você me ama?" O louro arregalou os olhos, ficando visivelmente surpreso.


"Hahahaha o que é isso? Você acha que eu beijo qualquer pessoa que se confessa para mim? N-Não que eu tenha recebido muitas confissões..." Francesco disse animado. "Eu sou apaixonado por você desde sempre. É impossível que você nunca tenha reparado nisso."


"Eu nunca soube..." O Braço Direito corou. Ele não tinha se dado conta de que estavam um nos braços do outro até ver-se refletido nos olhos cor de mel. Ele cresceu. Ele se tornou mais alto e mais forte do que eu. Quando foi que isso aconteceu?


"Agora você sabe." O rapaz desceu uma das mãos pela bochecha úmida de lágrimas de Giuseppe. "Eu posso acreditar em seu amor? Porque agora eu estou sozinho e alguém precisa se responsabilizar pela noiva perdida."


"Você está fazendo a escolha errada." O louro sentiu que tremia ao descer as mãos pelos ombros do futuro Chefe. Eles eram mais largos do que ele se lembrava. "Meu amor não vale nada e não vai te levar a lugar algum."


"Isso eu decido." O herdeiro ofereceu outro sorriso de canto, juntando as mãos do Braço Direito e beijando-as ternamente. "Então, você me aceita? Porque eu não vou perder tempo com mal-entendidos. Eu estou sendo totalmente sincero quando digo que quero você para mim."


Pânico pintou os olhos verdes e Giuseppe teria dado um passo para trás se não estivesse prensado junto à parede. Eu não sei o que responder, o louro engoliu seco. Ele ainda podia sentir o gosto do beijo em seus lábios e a temperatura do corpo de Francesco. Tudo era tentador demais, desejável e querido demais. Eu nunca sonhei tão longe. Eu nunca sequer imaginei uma resposta para isso.


"Eu não posso te dar nada. Eu não tenho berço, ou dinheiro ou nada. E você tem que continuar a Fam—"


Um longo dedo foi pousado sobre seus lábios, seguido por vários "tsk". O rapaz de cabelos castanhos meneou a cabeça em negativo, contudo, logo sorria novamente.


"Uma passo de cada vez. Nós resolveremos as partes difíceis depois. Hoje o que eu quero é saber que colocarei a cabeça no travesseiro sabendo que você é meu. Que amanhã, quando eu acordar, eu serei o seu amante. Eu pertencerei a você."


"Eu continuarei seu Braço Direito, não se esqueça." As lágrimas voltaram a escorrer por seus olhos em uma insistente teimosia. Giuseppe sentiu os lábios sorrindo, sem conseguir definir ao certo o que aquele turbilhão de emoções significava.


"Eu não aceitaria de outra forma!"


O segundo beijo foi um pouco mais casto, entretanto, não menos passional. O louro não se conteve, envolvendo o pescoço de sua companhia e deixando-se apenas aproveitar aquele momento. O gesto não foi desajeitado e bagunçado como o primeiro beijo, e nem provocante como o segundo. Aquele beijo tinha gosto de certeza e dever cumprido. A cada movimento o Braço Direito tinha mais e mais convicção de que não era um sonho, então não haveria decepção ao acordar. Eu não acredito que é real. Giuseppe ficou nas pontas dos pés, abraçando o futuro Chefe dos Cavallone e fechando seus olhos. Duas grandes mãos subiram por suas costas, retribuindo a carícia com a mesma intensidade. Ele se tornou um homem. E meu amante. Mario vai me matar quando descobrir... A mínima menção ao irmão fez o louro rir baixo. Um passo de cada vez... hm? Então por que eu sinto como se houvesse caminhado quilômetros?


Continua...