XII


A porta fechou-se com um barulho oco, e oco também foi o som das costas batendo de encontro à madeira. Casacos foram retirados em uma necessária pressa, camisas abertas sem delicadeza e fazendo com que os botões ricocheteassem pelas paredes e chão. Não havia tempo para conversas, pedidos ou gentilezas. Mario caiu de joelhos, livrando-se da própria camisa, enquanto seus dentes abriam os botões da calça do homem que estava à sua frente, ansiando pelo que encontraria escondido por baixo daquelas duas camadas de roupas. A camisa branca desceu por seus ombros pálidos e salpicados por sardas, e então suas mãos estavam livres para terminar o trabalho que seus dentes haviam começado. A ereção estava lá, esperando-o impacientemente e entrou sem problemas por entre seus lábios. Eu senti falta disso... por Deus, como senti falta disso. Os olhos verdes se fecharam, saboreando o momento, enquanto uma de suas mãos dava atenção ao seu próprio membro, negligenciado e solitário dentro da calça escura.



Os gemidos começaram em poucos minutos, mas não continuaram por muito tempo. O ruivo sentiu-se puxado para cima e suas mãos automaticamente foram para o pescoço de sua companhia, envolvendo-o e suspirando quando foi afoitamente beijado. Duas grandes mãos desciam sua calça e as pernas fizeram o restante do trabalho, chutando a peça de roupa para algum lugar do cômodo, provavelmente próximo aos casacos. O cheiro levemente doce do óleo lubrificante veio acompanhado de dois forçosos dedos que invadiram sua entrada sem hesitação. O Braço Direito gemeu, juntando mais os corpos quando uma de suas pernas foi parcialmente erguida e os dedos se tornaram mais insistentes. Os lábios se engoliam em uma dança perigosa que envolvia muito mais do que luxúria e desejo contido.



Mario nunca havia passado mais de uma semana sem sexo e aquela noite finalmente colocaria fim a mais de dois meses de uma estranha e inesperada castidade. Por quase onze semanas o ruivo não tocou ou foi tocado por outro ser humano. Com exceção do beijo de Jules, o Braço Direito havia deixado de lado aquela necessidade tão básica por conta de problemas profissionais e principalmente pessoais. Eu esperei tempo demais, um gemido alto escapou pelos lábios de Mario quando os dedos encontraram seu ponto especial. Seus cabelos foram puxados e o ruivo sentiu-se guiado para trás, caindo com barulho sobre a macia e larga cama do Hotel. O homem terminou de se livrar da calça e da roupa de baixo, ajoelhando-se na cama e virando o Braço Direito em um rápido e ríspido movimento. O que veio em seguida arrancou um gemido e uma risada dos lábios de Mario. Ele não sabia dizer qual veio primeiro.



A cama rangia na mesma sincronia que os gemidos e os suspiros. As mãos do ruivo apertavam a roupa de cama, puxando-a e empurrando-a para baixo. Os travesseiros foram jogados ao chão e logo não havia nada em que ele pudesse se apoiar. Uma ousada gota de suor escorreu por seu queixo, pingando no colchão. Ele podia sentir o calor de seu corpo, e principalmente o calor do corpo de sua companhia, invadindo-o com movimentos fortes e fundos, fazendo com que sua pele se tornasse arrepiada. As mãos seguravam seu quadril com firmeza, mantendo-o em uma mesma posição e acertando o ponto especial do Braço Direito em todas as estocadas. Ele conhece meu corpo melhor do que eu mesmo. Mario deixou escapar um gemido choroso. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram e a próxima penetrada trouxe o alívio que ele tanto precisava e não houve milímetro de seu corpo que não agradeceu pelo orgasmo. O ruivo não precisou sequer se masturbar, sensível àqueles toques tão íntimos e necessários. As estocadas, no entanto, não cessaram.


E o quarto passou a ecoar os gemidos baixos e contidos de Giulio.


O Braço Direito dos Cavallone jamais achou que voltaria a dividir cama alguma com o moreno. Quando colocou fim ao relacionamento, há duas semanas, ele estava certo de que aquele seria um dos últimos momentos que passariam juntos e entre quatro paredes. A missão havia sido um sucesso, e os dois capturaram a ligação mais importante que o Chefe Principal da polícia possuía em Roma, antes que o homem pudesse colocar as mãos em seu precioso irmãozinho. Aquela noite deixou um gosto amargo na boca de Mario. Ele permaneceu escondido no banheiro por horas, e ainda precisou presenciar Giuseppe ser assediado pelo pior tipo de homem: ele, ou melhor, o homem que ele costumava ser. O ruivo só se sentiu aliviado quando os dois Guardiões dos Vongola levaram Carlo embora. Os Cavallone eram responsáveis pela captura, portanto, a parte de interrogatórios ficaria a cargo de Giotto e sua Família. Não seria necessário dizer que o homem cantou todo o plano rapidamente, ou como o Chefe dos Vongola disse na reunião dias depois da captura: "Ugetsu é uma pessoa extremamente persuasiva". Na dúvida, o Braço Direito fez uma nota mental para sempre estar em bons termos com o Guardião da Chuva.



Um novo encontro com o Vice-Inspetor aconteceu naquela mesma reunião, e aquele dia marcaria uma série de novos encontros cujo assunto principal era prender os mafiosos estrangeiros que estariam pisando em solo italiano na semana seguinte. Mario foi indicado como líder do grupo, embora preferisse ter ficado incumbido da outra parte da missão. Ivan e Giotto seriam responsáveis por falar pessoalmente com o Chefe Principal, e levariam com eles Alaudi e G.. Logo, ficou a cargo do ruivo liderar o ataque, tendo Giulio como principal apoio. Ah, a vida! Desde então, o Braço Direito dos Cavallone e o moreno passaram a se encontrar diariamente, repassando mapas e discutindo planos e estratégias. O assunto pessoal foi deixado de lado e nenhum deles parecia inclinado a relembrar do ocorrido, ou pelo menos era o que Mario acreditava que aconteceria. Pois, naquela mesma manhã, o Vice-Inspetor deixou claro que não havia esquecido nada e o ruivo soube imediatamente que precisaria de muito mais do que distância para colocar um ponto final naqueles dez anos.



Um beijo. Tudo o que Giulio precisou foi beijá-lo furtivamente no meio de uma explicação sobre um dos mapas de determinada estrada. O Braço Direito estava concentrado, e não notou sua companhia inclinar-se sobre ele. Os lábios se encontraram e imediatamente o corpo de Mario lembrou-se daquele homem. Suas mãos correram até a nuca, sentindo os fios curtos entre seus dedos. O beijo foi longo e profundo e era exatamente como o ruivo se recordava. Eu teria ido muito mais além se ele não tivesse afastado o rosto. Se Giulio realmente quisesse nós teríamos feito sexo no meio do meu escritório, e eu nem teria me importado com Giuseppe na cozinha. Os encontros aconteciam geralmente em sua casa, local isolado e longe dos olhares policiais. O moreno era dirigido até lá por algum subordinado da Família, depois do almoço, e passava a tarde e boa parte da noite discutindo a missão. Quando os lábios se afastaram, o Vice-Inspetor ergueu os grandes olhos verdes e voltou ao seu lugar como se nada houvesse acontecido.



Aquela pequena brasa queimou dentro no peito do Braço Direito o dia inteiro. Eles não conversaram sobre o assunto, porém, permanecer lado a lado com aquele homem mostrou-se perigoso e em determinado momento o autocontrole de Mario simplesmente voou pela janela do carro quase literalmente. Os dois haviam deixado a propriedade dos Cavallone e o ruivo planejava deixar Giulio em sua casa, como fazia nos últimos dias. No entanto, na primeira parada dentro da cidade o Braço Direito puxou o moreno para um segundo beijo, que os levou eventualmente até aquele quarto. Há muito tempo ele não frequentava aqueles hotéis noturnos, e a nostalgia só não foi maior do que a busca por prazer. O Vice-Inspetor moveu-se uma última vez e Mario soube que teria alguns minutos de descanso.



O ruivo foi envolvido mais uma vez antes de cair exausto sobre a larga cama do hotel. Ele esteve por cima e o restante de energia foi utilizado para rolar para o outro lado, respirando de maneira ofegante e tentando capturar o máximo de ar possível. Sua companhia também respirava com dificuldade, contudo, ambos estavam plenamente satisfeitos. Hábito o fez se virar para o outro lado, atitude que ele sempre teve após as horas de sexo. Normalmente o Braço Direito procuraria os lábios de seu amante, buscando um beijo cansado, como uma xícara de café após uma boa refeição. Entretanto, foi aquele o momento em que a realidade resolveu esgueirar-se e puxar-lhe a perna. Mario arregalou os olhos, ficando surpreso por ver que Giulio também havia se virado. Ambos ficaram frente a frente e, embora estivessem nus, foi ao encarar aqueles olhos que o ruivo sentiu-se verdadeiramente despido. O moreno aproximou-se, beijando o pescoço pálido do Braço Direito. Não, disse Mario para si mesmo enquanto fechava os olhos e sentia os lábios traçarem um indigno caminho até sua própria boca, eu não posso tê-lo novamente.


E o beijo foi longo, muito longo.


O tempo pareceu parar naquele quarto e por um momento o ruivo esqueceu-se de todos os problemas dos últimos meses. Sua mente viajou no tempo, para as tardes de sábado passadas no gigantesco quarto do Vice-Inspetor; para os jantares preparados na cozinha de sua casa, em que ele passava os braços pela cintura de seu amante, ficando na ponta dos pés e depositando possessivos beijos no pescoço nu de Giulio, e, principalmente, os momentos em que o Braço Direito acordava no meio da noite e se dava conta de que estava envolvido pela única pessoa que fora capaz de compreendê-lo e aceitá-lo por completo.



O beijo terminou e Mario ficou em pé. Giuseppe estava certo. Eu nunca encontrarei alguém como ele, embora Giulio possa facilmente encontrar alguém melhor do que eu. Os passos o levaram até o banheiro e o ruivo entrou debaixo do chuveiro, fechando os olhos e deixando que a água lavasse muito mais do que aquele erro. O cheiro do moreno estava em cada pedaço de seu corpo e foi difícil tirá-lo. A porta foi aberta após algum tempo e o Braço Direito encarou um quarto vazio. Ele se deu ao trabalho de arrumar a cama. Os olhos verdes se abaixaram e Mario voltou ao banheiro. Eu sinto como se fosse a última vez que tivéssemos nos visto. Aquela, todavia, era uma inverdade. Eu o verei amanhã à noite para a missão. Ainda teremos um último encontro.



x



O ruivo passou a noite no Hotel, retornando para casa quando o Sol havia acabado de nascer. Giuseppe já estava de pé, cantarolando baixo na cozinha. O cheiro de café fez seu estômago roncar, mas o Braço Direito ofereceu apenas um rápido olhar, satisfeito pelo irmão estar de costas e não tê-lo visto. Ele parece feliz. Aquilo, obviamente, era um bom sinal, porém, a origem daquela inusitada felicidade incomodava Mario há dias e ele só esperava a missão terminar para investigar o que acontecera. Em um dia Giuseppe está carrancudo e jogado pelos cantos, para no outro cantarolar na cozinha e distribuir sorrisos e olhos brilhantes. Algo aconteceu. O ruivo tinha suas desconfianças, mais especificamente uma desconfiança que atendia pelo nome de Francesco Cavallone. Desde que o garoto colocou fim à união das Famílias... Giuseppe mudou desde aquela noite. Mas eu descobrirei o que aconteceu. Uma parte do Braço Direito estava contente por ver o irmão animado novamente, no entanto, aquela felicidade poderia ser apenas passageira. Se o término do noivado realmente era a raiz do problema, seria uma questão de tempo até o rapaz arranjar outra garota, e, então, o que aconteceria?



Mario dormiu durante toda a manhã, descendo no horário do almoço de banho tomado e vestindo seu pijama negro. Ivan não estaria na mansão, logo, não haveria motivos para se locomover até lá. O moreno seguiria da casa de Alaudi e ambos iriam juntos, enquanto Giotto iria com G.. A despensa estava cheia, contudo, o ruivo não se sentia inclinado a cozinhar nada e teria beliscado qualquer bobagem se Giuseppe não surgisse minutos depois trazendo uma larga travessa em mãos.



"Eu deduzi que você não iria à mansão, então trouxe seu almoço. O cozinheiro fez especialmente para você: risotto de camarão."



"Agradeço a preocupação." O Braço Direito pegou os talheres e os pratos, arrumando a pequena mesa na cozinha. "Você já almoçou?"



"Sim, mas farei companhia a você." O louro depositou a travessa na mesa e sentou-se. "Nervoso?"



"Por quê?" Mario serviu-se sem cerimônia. A travessa estava forrada por risotto e os camarões eram gigantescos, sem necessidade para qualquer outro acompanhamento. "É somente mais uma missão."



"Eu estou nervoso." O Braço Direito de Francesco serviu-se de apenas duas colheradas. "Eu sempre fico nervoso quando você sai para realizar qualquer missão." Os olhos verdes do irmão se abaixaram e o ruivo admirou os longos cílios dourados. Giuseppe não possuía o rosto cheio de sardas como ele, entretanto, a herança materna era visível se vista de perto e as sardas estavam ali, apesar de quase invisíveis. “Apenas tome cuidado, está bem? E não faça nada desnecessário.”



"Você deveria se preocupar consigo mesmo." O estômago do Braço Direito de Ivan agradeceu a atenção. O tempero estava delicioso, como sempre. "Embora você tenha se saído muito bem em sua missão, mas ela foi fácil, não?"



"Fácil?" O louro ficou sério. "Você não faz ideia do que foi enrolar aquele homem por dias. As piores partes foram... as físicas. Nenhum banho será capaz de me deixar limpo daqueles toques."



Mario riu, todavia, uma parte dele estava aliviada pela missão ter acabado. Infelizmente o Braço Direito de Francesco era justamente o tipo de homem que Carlo gostava, portanto, Giuseppe tornou-se o único voluntário. De qualquer forma, ver seu precioso irmão nas garras daquele tipinho fazia o sangue do ruivo ferver. Eu adoraria que ele tivesse seguido algum caminho menos perigoso e casto. Uma pena que Giuseppe nunca teve inclinação religiosa. Imaginar o louro puro e intocado, longe daquele mundo mundano era um dos sonhos íntimos do Braço Direito. Ele poderia nunca demonstrar ou nem ao menos deixar transparecer, mas Mario sentia certo ciúme do irmão e por se conhecer bem demais, sabia que certos homens poderiam ser perigosos. Com sorte Giuseppe jamais se envolverá com alguém assim. Nesses momentos eu desejaria que Francesco acordasse e notasse o quanto é amado. Seria um alívio deixar Giuseppe em mãos conhecidas. O pensamento, claro, sempre terminava quando ele imaginava qualquer pessoa colocando as mãos sobre o louro. E, no fim, ninguém era bom o suficiente, nem o futuro Chefe dos Cavallone.



A refeição passou boa parte em silêncio. Giuseppe iniciou um vago diálogo quando seu prato tornou-se limpo, dizendo que dormiria na mansão e estaria acordado até que ele voltasse. O ruivo afirmou que não era necessário, porém, sabia que seria uma total perda de tempo discutir com o irmão. Ele se preocupa demais. Giuseppe só irá sossegar quando eu voltar. O louro se prontificou a cuidar da louça e então o Braço Direito se viu livre para ajeitar os últimos detalhes de sua missão. A tarde foi passada limpando armas, relendo mapas e Mario desceu pela segunda vez somente quando viu um familiar carro parar ao lado do seu veículo. O Vice-Inspetor o esperava na soleira da porta, oferecendo um baixo boa noite que foi retribuído sem nenhuma emoção. O ruivo trancou a porta de sua casa e ambos seguiram até o carro de Giulio. No banco traseiro havia cordas e outros materiais que seriam usados para imobilizar aqueles que se rendessem sem lutar. Para os outros o Braço Direito tinha quatro armas escondidas por baixo da roupa social. Aquela noite seria decisiva e falhas ou imprevistos não seriam aceitos.



A informação mais importante compartilhada por Carlo foi que a principal Família envolvida chegaria naquela noite a Roma. A Família era francesa, natural de Marseille e não tinha ligação com os Jeanfreau ou os Lacoursiere, principais Famílias mafiosas da França. O plano do Chefe Principal era destituir a Itália dos dois sólidos pilares que sustentavam a máfia local, abrindo caminho para que Chefes estrangeiros se infiltrassem e que servissem para solidificar uma possível campanha em que ele seria o único Líder. A ideia poderia soar sonhadora e ambiciosa, no entanto, era possível. Se por ventura os Cavallone e os Vongola caíssem, as demais Famílias necessitariam de ajuda imediata e o Chefe da Polícia sabia disso melhor do que ninguém. A Força Policial tinha conhecimento da existência de Ivan e Giotto, e a única razão que os mantinha calados era porque sabiam da ajuda que a máfia oferecia para a população, e que era, sem sombra de dúvidas, mais eficiente e imediata do que a do próprio governo. Mas aquele homem não pretende ajudar. Ele quer apenas poder.



A distância entre a mansão e o ponto de encontro era de quarenta minutos, exatamente a distância até o centro de Roma. O moreno pegou a estrada principal, contudo, tomou o caminho da esquerda após cerca de dez minutos. Aquela estrada tinha como destino o porto, entretanto, eles não iriam tão longe. Abordar alguém próximo ao mar era difícil, e sempre havia a chance de fuga. Em terra, e quase no meio do país, seria mais complexo encontrar uma saída quando todas as portas estivessem amontoadas de homens armados até os dentes e cujo único propósito era o de estar ali. A cidade cresceu na última década e a parte oeste concentrava luxuosos hotéis, localizados no coração de grandes fazendas. Aquele era definitivamente um excelente local para ficar hospedado, além de servir como perfeito esconderijo. Está quieto aqui, Mario tinha um dos braços apoiados na janela e sentia o vento bater em seus cabelos. Ele sabia que o Vice-Inspetor não falaria de nada que não fosse relacionado a trabalho, então a noite anterior seria conversada em outra oportunidade. Ivan deixará o país assim que a missão terminar. Giotto ficará na Itália, mas alguém precisará representar o país lá fora. A França possuía como base três grandes Famílias e todas estavam a par do plano. Todavia, como ele aconteceria em solo italiano, nenhum deles poderia interferir até que os membros da Família intrusa estivessem em seu país de origem.



"Sobre ontem." A voz de Giulio assustou o ruivo. Ele havia conseguido esquecer momentaneamente aquele assunto e voltado a se focar na missão.



"Conversaremos sobre isso em outro momento." O Braço Direito moveu-se incomodado em seu assento.



"Nós iremos, mas quero deixar claro que não ficarei satisfeito com a sua decisão e acredito que meu beijo tenha falado por si." Havia certo ar pomposo ao redor do moreno e seus lábios se repuxaram em um raro meio sorriso.



"Você é um adulto não? Achei que sabia o momento certo de desistir. Eu já dei a minha resposta. O que aconteceu ontem não voltará a se repetir."



"É mesmo? Por que eu penso justamente o contrário." O Vice-Inspetor aumentou a velocidade ao notar que a estrada seguia em linha reta. Durante o caminho até ali não havia casa ou habitação. Somente uma vasta e escura paisagem. "Eu não o trai e não menti. Você tirou conclusões precipitadas e eu levei um soco gratuito. Agora, diga Mario, quem aqui precisa reconhecer que não age como adulto?"



A pergunta foi acompanhada por um rápido olhar de soslaio. Mario trincou o maxilar, virando o rosto e encarando sua companhia. Eu gostaria de poder socá-lo novamente! Uma pena que isso provocaria um acidente. Giulio era uma pessoa naturalmente séria, mas aquele lado nunca incomodou o ruivo, a não ser naquele tipo de momento, quando o moreno parecia sempre estar com a razão e o tratava como um jovem rebelde. É pior durante as discussões. Enquanto o Braço Direito perdia a noção, gesticulando e às vezes aumentando o tom de voz, o Vice-Inspetor permanecia impassível e de braços cruzados, como se assistisse a uma peça entediante. Se isso já não fosse suficiente, ainda havia certa prepotência nas certezas que Giulio tinha, como se soubesse exatamente como as coisas terminariam, e, para variar, tudo caminhava para o seu benefício.



Mario não rebateu aquela provocação. Seus olhos verdes voltaram a encarar a janela e ele achou melhor guardar qualquer comentário para outra ocasião. De nada adiantaria desafiar o moreno e a última coisa que ele precisava era estar emocionalmente desestruturado para aquela missão. Muito dependia do sucesso daquele plano e o ruivo repassou mentalmente o mapa da propriedade durante o restante do caminho. A paisagem mudou de deserta para habitada, e diversas pequenas residências apareceram ao lado da estrada. O destino final surgiu depois de cerca de vinte minutos, porém, o Vice-Inspetor não pegou o caminho principal. O carro invadiu o gramado e seguiu pela lateral, perdendo-se entre as árvores e só parando quando chegou à parte de trás. O veículo foi desligado e o Braço Direito precisou colocar a mão sobre a boca ou teria gritado quando uma alta sombra surgiu de lugar nenhum, parando do seu lado da janela.



"Perdoe-me." A voz continha um forte sotaque. A face era bela e decorada com dois olhos puxados. "Tudo está pronto do lado interior. Há dez homens à direita e outros dez à esquerda."



"Nós assumiremos nossas posições." Giulio respondeu ao deixar o carro e Mario fez o mesmo, espreguiçando-se e voltando a encarar sua nova companhia.



"Lembrem-se, tentem desarmá-los apenas. Giotto quer enviá-los vivos." Ugetsu tornou-se sério. Era difícil acreditar que o homem bem-humorado e que fazia Catarina gargalhar com suas histórias conseguia se tornar tão sério e compenetrado.



"Faremos o possível." O ruivo respondeu retirando uma das armas da cintura e ajeitando-a firme entre seus dedos.



O Guardião da Chuva dos Vongola meneou a cabeça e se afastou, entrando no Hotel pela porta dos fundos. A mansão funciona como Hotel de luxo, no entanto, naquela noite ela receberia apenas mafiosos. Havia iluminação saindo das inúmeras janelas, contudo, não havia nenhum civil hospedado. Cada cômodo possuía entre dois e três subordinados de Giotto e até mesmo a recepção fora substituída por homens da Família. O Chefe dos Vongola adquiriu o Hotel unicamente por causa da missão, então não haveria risco de algum inocente sair ferido. A função daqueles que estavam do lado de fora era garantir que ninguém deixasse o Hotel pela porta dos fundos e fugisse pelo jardim. Havia uma quantidade absurda de árvores, e seria muito simples esconder-se durante a noite. Tudo correrá bem. Eu retornarei para casa, tomarei um longo banho e dormirei profundamente até amanhã. Aquele prospecto muito agradou ao Braço Direito. No entanto, quando se imaginou fazendo tudo isso, a figura do moreno surgiu ao seu lado e aquilo o aborreceu. Quando isso terminar eu arrancarei esse sorriso prepotente do seu rosto, Giulio. Se você pensa que eu não sou capaz de manter uma decisão, você está enganado. Mario caminhou até a porta dos fundos, escondendo-se ao lado. O Vice-Inspetor estava do lado oposto, também recostado à parede, entretanto, sem olhá-lo. E agora eu soei realmente como um jovem rebelde. Patético!



A espera foi sem dúvidas a parte mais difícil. Aguentar os olhares cheios de significados de Giulio foi simples se comparada à ansiedade que ele sentia em resolver aquela missão o mais rápido possível. O entorno estava silencioso, portanto, seria fácil ouvir os barulhos dos carros quando eles fossem estacionados em frente à mansão. Eles estavam adiantados, e o ruivo sabia que precisaria aguardar se quisesse um pouco de ação. Os minutos passaram arrastados e vez ou outra sua atenção saia da porta para o som de algum mosquito ou dos inúmeros grilos que pareciam cercar a propriedade. A noite estava escura, pois não havia estrelas ou lua para decorar o céu. O Braço Direito ajeitou a arma melhor em sua mão, esperando que suas pernas também não estivessem dormentes. Todavia, os primeiros sinais de movimentação surgiram assim que Mario voltou a encostar-se à parede e ele e sua companhia trocaram um breve olhar.



"Se algum deles escapar. Eu correrei."



O ruivo moveu os lábios devagar e o moreno meneou a cabeça em positivo. Os barulhos se tornaram mais altos e audíveis, até que o som de carros e vozes conseguiu chegar até aquela área. O Braço Direito inclinou-se um pouco para o lado, mantendo uma postura neutra. Se alguém surgisse através da larga porta ele precisaria estar preparado para atirar; se alguém conseguisse cruzar a porta ele precisaria correr. O Vice-Inspetor não se moveu de sua posição, vestindo a expressão séria e parecendo concentrado demais para se preocupar com posições. Mario havia recebido a lista de pessoas que estariam ali naquela noite, e havia mais que o dobro de subordinados para os vinte e dois convidados. As vozes se tornaram mais e mais baixas e naquele momento o ruivo teve certeza de que todos estavam dentro do Hotel. Os olhos verdes se abaixaram, contando mentalmente os segundos. Ele sabia que a qualquer momento os gritos e tiros começariam a ser soados e então aquela agradável e calma noite se transformaria em um campo de batalha.



Os gritos não foram acompanhados por tiros, mas sim outros gritos. Eles começaram a soar depois de três minutos, criando um desagradável coro. Os tiros aconteceram depois, provavelmente vindos daqueles que não quiseram se render pacificamente. Ugetsu utiliza uma espada, logo, ele precisará estar próximo ao alvo. Isso é arriscado, porém, eficaz. Eles irão se assustar ao vê-lo lutar e com sorte todos irão se render sem nenhuma casualidade. Aquele pensamento era otimista demais para a situação e o Braço Direito sabia disso perfeitamente. Essa Família aliou-se a um lixo humano e deixou sua terra natal para dominar outra região. Eu duvido muito que eles vão se render sem oferecer uma boa luta. Pessoas desesperada têm tendência a cometer erros com mais frequência, no entanto, são as mais mortais. Alguém que não tem nada a perder pode fazer um estrago sem precedentes. Mario afastou-se da porta ao ouvir passos. O dedo indicador estava no gatilho, porém, foi impossível raciocinar, ponderar e atirar quando a porta se abriu. Uma rápida sombra passou por ele e seu corpo automaticamente se moveu.



A primeira missão do ruivo, na época um abusado e furtivo garoto de 13 anos, foi encontrar um gato preto que estava localizado no meio de uma floresta e durante a noite. Seu Mestre — que não era necessariamente um mestre, mas era conhecido por tal apelido — avisou que ele não poderia retornar até que encontrasse o animal. O Braço Direito sabia que aquilo não havia sido uma missão sadista, pelo menos na teoria, e sim uma maneira de ensiná-lo a utilizar o ambiente em seu próprio benefício. Obviamente o gato foi encontrado na manhã seguinte, quando o Sol brilhava intenso e quente no céu, no entanto, ele o havia procurado a noite inteira. Desde então, sempre que queria aguçar seus sentidos Mario procurava um local confuso e de difícil acesso. Os olhos se acostumavam à escuridão, o nariz captava cheiros diferentes e os ouvidos se tornavam sensíveis a qualquer movimento que não fosse natural ao entorno. Contudo, a diferença entre a missão do gato e a corrida do ruivo por entre as árvores era que seu alvo não estava imóvel ou escondido.



O Braço Direito movia as pernas com rapidez, enquanto seus ouvidos captavam os barulhos de passos e galhos sendo afastados ou pisados. Em determinado momento um desses galhos atingiu seu rosto, ferindo-o na bochecha esquerda. A única saída para a floresta é uma cerca há poucos metros. Ele conseguirá pulá-la, mas então estará em céu aberto e eu atirarei sem hesitar. A pessoa que corria pareceu entender que aquele destino não seria o mais viável, pois, um pouco antes da floresta terminar, Mario jogou-se atrás de uma árvore, desviando por pouco de um tiro. Um...



"Não há como fugir." O ruivo gritou, abaixando-se e pegando uma das pedras ao redor da árvore e jogando-a para o lado. A isca foi agarrada com fervor e o Braço Direito sorriu ao ouvir mais dois disparos.



Não houve resposta, como esperado. Aquele tipo de situação não era propícia para longos diálogos e Mario precisava apenas ganhar tempo e com isso sabia que venceria aquela situação. Ele usa um revólver americano... O ruivo conhecia armas como conhecia amantes, e jamais se esquecia do som que uma bala fazia ao deixar o cano de uma arma. Eu preciso de um pouco mais de tempo. O Braço Direito virou-se, inclinando-se um pouco à frente e atirando para cima. O disparo foi recebido por outro e naquele momento ele sorriu.



"Eu não vou a lugar algum. É melhor se render e retornar com vida ou acabará jogado naquele pasto com três balas nas costas."



O recado foi seguido por outra pedra voando em uma direção aleatória. Dessa vez a pessoa atirou uma vez e barulhos de passos foram ouvidos. Mario soltou um baixo suspiro decepcionado por precisar sujar as mãos em uma missão parcialmente simples. A mão esquerda retirou outra arma da cintura e o ruivo saiu detrás da árvore, armas em mãos e caminhando na direção de sua companhia. A pessoa estava parada no final da floresta, com a arma também em punho.



"Você tem apenas mais uma bala e eu duvido muito que consiga me acertar. E mesmo que tenha outro revólver, o tempo que você gastará pegando-o é o tempo que preciso para derrubá-lo. Você escolhe."



O silêncio permaneceu até que ele se aproximasse. Não havia luz, somente os olhos adaptados à escuridão, entretanto, qualquer um poderia enxergar quando estava há dez passos. A pessoa abaixou a arma, jogando-a para longe e erguendo as mãos. O Braço Direito pediu que sua companhia se virasse e ficasse de joelhos, e não abaixou as armas até estar em uma distância próxima. Suas mãos sentiram a cintura da pessoa abaixada, procurando por algum sinal de armamento extra, todavia, não encontrou nada. Porém, as sobrancelhas se juntaram e ele sorriu.



"Você é uma mulher." Mario a ergueu pelo braço, retirando uma algema do bolso e prendendo bem os pulsos.



"Não pense que poderá tirar vantagem por causa disso." A mulher era morena e os cabelos eram curtos, mas os olhos eram de um azul brilhante e desafiante. O sotaque deliciosamente provocante o fez lembrar-se automaticamente de certo pintor francês...



"Fique tranquila, eu não estou interessado." O ruivo a empurrou levemente, mostrando que eles deveriam seguir pelo caminho que vieram.



O retorno foi feito com passos largos, no entanto, não houve pressa. O Braço Direito ficou surpreso consigo mesmo ao notar que percorrera uma distância longa. Suas pernas não doíam e seu coração ainda batia rápido devido ao exercício, contudo, ele sabia que estaria exausto no dia seguinte. Eu não tenho mais 13 anos e encontrar gatos na floresta está se tornando mais e mais difícil. As luzes da mansão se tornaram visíveis e aquele sinal foi um alívio para Mario. A parte detrás da casa — local onde ele estivera esperando ao lado de Giulio — estava cheio de subordinados dos Vongola e foi Ugetsu quem o recebeu de volta. O japonês aproximou-se, guiando a mulher capturada para fazer companhia aos doze franceses que estavam ajoelhados no meio do pátio.



"Mais alguém fugiu?" O ruivo guardou as armas e correu o perímetro atrás de um rosto conhecido.



"Dois mortos do lado deles e três feridos. O Vice-Inspetor está na frente da mansão com os demais prisioneiros."



"Você precisa de ajuda?" O Braço Direito passou as mãos pelos cabelos, imaginando o longo e demorado banho que tomaria ao chegar em casa.



"Estamos bem. Você pode ir checar o seu amigo."



O comentário foi seguido por um sorriso e Mario retribuiu o gesto. Ele poderia seguir reto e entrar no Hotel, saindo diretamente na porta de entrada, entretanto, o ruivo optou pelo caminho lateral. Ali havia alguns subordinados dos Vongola, todavia, a grande maioria estava realmente na frente do Hotel. Dois corpos jaziam lado a lado em determinado local; dois feridos diziam ofensas em francês enquanto eram colocados dentro de um dos carros. Nesse momento Ivan e Giotto devem estar cara a cara com o Chefe Policial. Aquele prospecto muito agradava ao Braço Direito. Ele sempre achou fascinante a maneira cínica como algumas pessoas viviam suas vidas, e naquele ramo de trabalho cinismo era usado como o mais forte dos escudos. Mario correu os olhos mais uma vez, pousando-os no terceiro ferido. Esse estava sentado na escadaria de marfim, cabeça baixa e a perna totalmente ensaguentada.



O ruivo desviou o olhar, encontrando o moreno não muito longe e vendo-o dar ordens para alguns subordinados. Ele está bem. O Braço Direito continuou a andar, aproximando-se devagar. Os cabelos de sua nuca se tornaram arrepiados e instintivamente seus olhos voltaram ao homem ferido nas escadarias. Uma de suas mãos foi para a arma na cintura enquanto suas pernas se moveram tão rapidamente que Mario não sentiu o chão ao pisar sobre a grama. Os sons das vozes e dos motores dos carros desapareceram e então um alto e sonoro tiro cortou o ar e ensurdeceu todos os presentes.



Durante toda a vida o ruivo havia matado exatamente 150 pessoas. Para cada morte havia uma bala dentro de uma caixa de madeira em seu escritório. O Braço Direito sempre guardava a bala, não como troféu, mas um lembrete de que aquela havia sido mais uma pessoa que ele falhara em proteger. Armas não deveriam ser utilizadas para ferir. Elas foram feitas para proteger. Infelizmente, a proteção de uns significava o fim de outros. Foi aquele o ensinamento que Mario passou para Giuseppe e todos os subordinados treinados até aquele dia. Para aquelas 150 pessoas, o ruivo havia sido ferido uma única vez, há anos, um tiro de raspão em uma de suas coxas. Eu nunca senti o impacto. A única sensação foi uma picada forte, como o ferrão de uma abelha. Ele jamais esqueceria aquela peculiar dor, pois era exatamente o que ele sentia naquele exato momento.



O Braço Direito não viu o homem sentado na escadaria cair para trás, atingido diretamente no meio da testa. Seu próprio mundo tornou-se confuso e ele encarou o Hotel seguido pelo céu escuro. Um oco barulho soou quando suas costas atingiram a grama, porém, Mario não sentiu a queda ou ouviu as vozes que se misturaram ao redor. Eu me sinto cansado, o ruivo fez menção de se levantar, no entanto, não conseguiu. Ele sabia que havia caído, provavelmente tropeçado ao dar o tiro, contudo, isso não explicava porque seus músculos não respondiam. Eu preciso ajudá-los com os prisioneiros. O Braço Direito tentou se erguer mais uma vez, sem sucesso. O céu escuro tornou-se embaçado, voltando ao foco somente quando um rosto familiar surgiu em seu campo de visão. Mario não se sentiu segurado, entretanto, ele sabia que fora erguido um pouco. O homem que o olhava dizia coisas desconexas, todavia, som algum deixava aqueles lábios rosados. Eu amo esses lábios. O ruivo sentiu-se sorrindo e sua mão direita levantou-se com dificuldade, tocando o rosto de Giulio. Eu me sinto cansado... muito cansado. O moreno voltou a dizer alguma coisa, mas tudo o que o Braço Direito viu foi a mancha vermelha que seus dedos deixaram na pele do Vice-Inspetor.



Oh... Mario queria rir e gargalhar, porém, seu corpo já não respondia. Eu levei o tiro por ele. O ruivo sentiu o gosto forte de ferro em sua boca e manter-se acordado tornava-se mais e mais difícil. Tão exaustivo... Ele está chamando meu nome. O Braço Direito leu os lábios do Vice-Inspetor e aquilo o fez sorrir novamente. O céu escuro pareceu englobar tudo e todos e Mario não soube exatamente o momento em que seu corpo chegara ao limite. Ele disse que ficaria me esperando na mansão e que eu deveria ser cuidadoso durante a missão. O ruivo permaneceu consciente o máximo de tempo possível, encarando aqueles profundos olhos verdes. Giuseppe irá chorar. Giuseppe sempre chora...



Continua...



Imagem click bônus aqui!