The Romance Of Sadness
8 VII
VII
Pode entrar," disse a voz atrás da porta de madeira escura para o homem de longos cabelos louros.
Dois toques. Dois toques que haviam sido herdados de seu irmão mais velho e que de certa forma foram adotados sistematicamente. Mario sempre dizia que o primeiro toque funcionava como cortesia, o segundo, um aviso. Durante anos aquele foi o sinal que Giuseppe dava quando parava em frente à porta do quarto de seu Chefe. A maçaneta dourada girou e o Braço Direito adentrou ao cômodo. As janelas estavam abertas e as cortinas azuis arrastadas e ajeitadas em extremidades opostas. O quarto estava frio e aparentemente o dono não estava visível.
"Francesco?" O louro olhou ao redor, encarando a porta do banheiro aberta.
"Aqui." A voz veio de dentro do closet. O gigantesco armário era embutido em uma porta próxima à parede e tinha o espaço de meio quarto. "Um segundo."
"Tome o seu tempo. Eu posso retornar mais tarde."
Giuseppe fez menção de se virar, mas o rapaz de cabelos castanhos surgiu em seu campo de visão. O futuro Chefe dos Cavallone usava uma calça marrom e terminava de vestir uma camisa branca. Os olhos verdes se abaixaram e o Braço Direito virou o rosto discretamente para o outro lado, fingindo notar algo no papel de parede. De novo. Isso também aconteceu ontem. A parede do quarto do herdeiro era forrada de estampas cor vinho, o que dava ao cômodo um ar naturalmente escuro. Ontem, quando entrei no quarto, ele vestia apenas a toalha ao redor da cintura. Giuseppe fechou os olhos, respirando fundo. Era difícil. Estava cada vez mais difícil lidar com aquilo.
"Meu pai já desceu?" A voz de Francesco havia se aproximado um pouco. Ele caminhou até o espelho. Embora estivesse de costas, o louro conhecia cada centímetro daquele quarto.
"Sim. Ele já tomou café e está no escritório."
"Você já tomou café, Peppe?"
"Sim, mas posso acompanhá-lo se desejar."
"Eu gostaria disso."
O rapaz de cabelos castanhos se aproximou e então o Braço Direito se virou. O futuro Chefe dos Cavallone havia fechado a camisa, deixando dois botões abertos. Giuseppe ergueu a mão, fechando o segundo botão enquanto erguia uma das sobrancelhas. Os dedos correram pelos cabelos de sua companhia, ajeitando-os. O herdeiro tinha fios finos e eram fáceis de serem manuseados. Francesco ficou imóvel, de olhos fechados e um sorriso satisfeito nos lábios. Quando o momento terminou, o sorriso tornou-se largo.
"Obrigado." O rapaz de cabelos castanhos disse com amabilidade, segurando a mão direita do homem de longos cabelos louros e depositando um casto beijo na parte de cima. "Mas eu declinarei o café na mesa. Estou pensando em dar uma volta, você me faria companhia?"
"Mas você precisará levar algo para comer." O Braço Direito ponderou. Normalmente ele negaria aquele pedido, porém, a pessoa à sua frente vinha trabalhando duro nos últimos dias e um passeio matinal não faria mal a ninguém.
"Passaremos na cozinha. Avise às empregadas que não precisam arrumar a mesa." O futuro Chefe colocou as mãos na cintura. "Eu irei terminar de me arrumar e nos encontramos no jardim, está bem?"
Giuseppe fez uma discreta reverência antes de deixar o quarto. O dia estava bonito, com direito a um inusitado sol de final de inverno. A escadaria foi transposta com passos rápidos e o louro sorriu satisfeito ao entrar na sala de jantar e encontrar as empregadas, pois isso lhe pouparia tempo. O recado foi passado e ele seguiu direto à cozinha, pegando dois pedaços generosos de pães e lambuzando-os com um pouco de geleia de amora. Lorenzo reclamou, avisando que o herdeiro estava em fase de crescimento e precisava de refeições completas. O Braço Direito apenas se desculpou, concordando totalmente, no entanto, sentindo-se mal por não colocar em prática tal ensinamento. Ele realmente está crescendo. Giuseppe deu uma mordida em seu pão. Ele já está alguns centímetros mais alto e me passará em pouco tempo. Aquele pensamento o fez suspirar. Se já era difícil domar aquela pessoa na atual situação, quem dirá quando Francesco se tornar um ou até dois palmos mais alto.
O rapaz de cabelos castanhos desceu minutos depois. O louro estava recostado ao chafariz, segurando o único pedaço de pão restante. O futuro Chefe dos Cavallone vestia um colete marrom por cima da camisa branca e botas altas para poder caminhar na grama. O inverno estava se despedindo e isso significava que a neve derreteria e a terra se transformaria em lama, e isso era sinônimo de tombos, quedas e principalmente roupas sujas.
"Você não veio preparado." O herdeiro ergueu as sobrancelhas ao ver que sua companhia vestia sapatos baixos.
"Podemos caminhar pelo estacionamento."
"Ou poderíamos ir até sua casa...?" Francesco deu uma larga mordida no pão.
A sugestão não fora de todo ruim e uma parte do Braço Direito aprovou totalmente aquela ideia. Contudo, aquela parte não deveria ser ouvida. Na verdade, ela nem ao menos deveria existir. Era perigosa e inconsequente. Possessiva e egoísta. E é o único lado que ele jamais poderá conhecer. Giuseppe mordeu o lábio inferior, juntando forças para dizer não. Teoricamente era um passeio de menos de vinte minutos de carro, entretanto, eles estariam sozinhos e o louro evitava aquelas situações sempre que surgiam. Nós costumávamos fazer esses passeios quando ele era mais novo. Eu dirigia e Francesco ia ao meu lado, sorridente e animado. Eu sinto falta daqueles dias felizes. A realidade, todavia, era diferente. Não. A realidade é a mesma. A pessoa à sua frente, comendo o pedaço de pão e olhando-o com olhos cor de mel que aguardavam ansiosamente a resposta positiva era a mesma. O Braço Direito havia mudado.
"Certo, vamos." A resposta foi dada sem nenhuma expressão. Por dentro seu coração sorria.
"Eu te amo, Peppe!"
As palavras foram seguidas por um rápido abraço, como sempre acontecia quando o rapaz estava contente. Giuseppe deu as costas, seguindo na direção do estacionamento e tentando esconder o sorriso que havia brotado em seus lábios ao ouvir aquela parte. O futuro Chefe havia adotado aquele hábito nos últimos meses. Sempre que o louro fazia ou dizia algo que lhe agradava, o herdeiro o abraçava ou dizia que o amava ou, como acontecera naquele instante, ambos. Isso começou depois do Natal. Lembrar-se daquela noite de Natal era uma constante na vida do Braço Direito. Ele não queria. Ele não devia recordar-se daquilo, mas sua mente adorava pregar-lhe peças e, sempre que se pegava divagando, a cena do quarto retornava e Giuseppe se recordava do beijo. Foi um bom beijo. Bagunçado, mas bom. O homem de longos cabelos louros sorriu ao aproximar-se do carro, porém, afastou a expressão feliz no instante seguinte ao erguer o braço e chamar o subordinado que estava mais próximo. O homem correu até ele, fazendo uma polida reverência para ambos.
"Eu vou para minha casa buscar minhas botas. Se alguém perguntar diga que levei Francesco comigo." A seriedade que deixou aqueles lábios era estrangeira. O Braço Direito preferiria ter dado um aviso informal, no entanto, seu cargo não permitia certas liberdades.
"Entendido. Aproveite o passeio!"
Francesco acenou antes de entrar no carro. Giuseppe sentou-se no assento do motorista, dando partida e ajeitando o espelho retrovisor. O veículo deslizou pelo caminho de pedra batida, seguindo novamente até o chafariz, contudo, virando à direita. O caminho até sua casa era limpo e reto, e dali já era possível ver o sobrado ao longe. O dia claro ajudava e não havia nada que os impedisse de chegar ao destino então o louro sabia que teria alguns minutos a sós com seu Chefe.
"Obrigado pelo pão, estava delicioso." O rapaz de cabelos castanhos recostou-se melhor ao banco. Seus olhos encaravam a paisagem e ele sorria.
"Quando chegarmos eu preparei alguma coisa. Você precisa se alimentar direito."
"Eu quero chá de morangos."
"Você tomou isso ontem." O Braço Direito juntou as sobrancelhas.
"Eu sei, mas o seu chá de morangos é o melhor. Eu poderia passar o resto da vida apenas bebendo isso."
Giuseppe permitiu-se um sorriso, apoiando o braço esquerdo na janela aberta. Estar ali, lado a lado com o futuro Chefe dos Cavallone, era muito mais do que ele poderia desejar. Depois da conversa que ambos tiveram no escritório, há cerca de um mês, tudo se tornou diferente. O herdeiro estava se esforçando para controlar sua personalidade e gênio. As discussões com Catarina não voltaram a ocorrer, embora o louro percebesse que Francesco ainda se sentia relutante em deixá-lo com a irmã. Eu sempre estive ao seu lado, logo, é natural que ele se sinta possessivo. O Braço Direito, entretanto, sabia que aquele ciúme era apenas momentâneo e não envolvia sentimentos reais. No fundo ele me vê como um dos seus livros ou cavalos. Eu pertenço a ele, eu sou dele. Todos temos ciúmes daquilo que é nosso. Aquele pensamento não o incomodava mais, como um dia chegou a incomodar. Giuseppe já havia se conformado com certas coisas e isso incluía qualquer tipo de reciprocidade por parte do rapaz de cabelos castanhos.
O louro jamais se esqueceria do momento em que seu Chefe pediu-lhe um beijo de presente de Natal. O pedido soou tão absurdo que ele achou que estivesse sonhando. Quando percebeu que aquilo não era brincadeira, o Braço Direito precisou de alguns minutos para conseguir esboçar qualquer reação. Eu deveria ter negado. O que eu fiz foi antiético e absurdo. Giuseppe deixou que aquela parte tomasse conta. Seus sentimentos jamais poderiam ser transmitidos e o louro se martirizou por semanas. Ele sabia que o pedido não fora feito devido a sentimentos ou qualquer emoção especial. O herdeiro era jovem e aquele gesto não passou de uma maneira de saciar sua curiosidade natural. Ele queria que o primeiro beijo fosse com alguém que ele conhecesse e eu, ao invés de negá-lo, fui egoísta. O beijo não foi o primeiro do Braço Direito, todavia, foi o mais doce e significativo que ele já trocara na vida. Aqueles rápidos segundos o fizeram sentir-se amado e querido e naquela noite ele não dormiu, encarando o teto e relembrando a cena várias vezes. Ele amava Francesco. Ele sempre amou e sempre amaria aquela pessoa.
O rapaz de cabelos castanhos riu ao seu lado e Giuseppe saiu de seus devaneios para encará-lo. O futuro Chefe olhava pela janela, admirando o entorno e provavelmente perdido em seus próprios pensamentos. Eu desejaria que fosse comigo, o louro voltou a encarar o caminho que tinha pela frente, sentindo-se amargamente esperançoso, eu desejaria que ele estivesse pensando em mim. Aquela esperança, porém, era impossível e intangível. O herdeiro estava completamente fora de suas mãos, uma distância que jamais diminuiria. A cada dia ele está mais e mais longe e chegará um momento em que eu provavelmente não conseguirei mais vê-lo. O Braço Direito aumentou a velocidade e tornou-se sério.
O sobrado estava vazio quando os dois entraram. O ruivo estava na mansão desde muito cedo, portanto, ambos teriam a casa somente para eles. Francesco entrou, pedindo licença e parando e esperando um dos donos da casa juntar-se a ele. Ambos adentraram e viraram à direita, seguindo até a cozinha. A janela foi aberta, fazendo com que o ar entrasse. Giuseppe pegou a chaleira e a encheu de água, aproximando-se do local em que ficava a madeira e separando alguns pedaços que pareciam prontos para uso.
"Eu posso ajudar em alguma coisa?"
"Não, não, eu tenho tudo aqui." O louro abriu o compartimento no fogão, depositando a lenha. Uma pequena quantidade de líquido inflamável foi despejada e, quando o fósforo foi riscado, o fogo queimou automaticamente.
"Não consigo imaginar Mario cortando lenha." O rapaz sentou-se em uma cadeira ao redor da pequenina mesa da cozinha. Ela era simples e básica e servia para degustar refeições rápidas. A grande mesa estava localizada na sala de jantar.
"Isso é porque ele não corta lenha." O Braço Direito riu. Abrindo um dos armários e pegando o pote com as folhas para o chá de morangos. "Nós trazemos da mansão. Ela já está cortada, mas saiba que Mario é extremamente mortal com um machado nas mãos."
"Eu me lembrarei disso." O futuro Chefe ficou estranhamente sério e pensativo.
"Eu tenho alguns biscoitos, quer?"
O pote de biscoitos estava na metade e o herdeiro dos Cavallone não perdeu tempo em se servir de vários. A água esquentou rapidamente e Giuseppe encheu duas xícaras antes de se sentar para fazer companhia a Francesco. Aquilo estava longe de um café da manhã decente, no entanto, era melhor do que uma simples fatia de pão com geleia. O rapaz de cabelos castanhos não pareceu se importar e a felicidade ainda estava estampada em seus belos olhos cor de mel.
"Alguma notícia de Alaudi?" O futuro Chefe perguntou após dar um longo gole em sua xícara.
"Da última vez que falei com Giulio ele disse que Alaudi está bem." E isso aconteceu há uma semana. "Se você quiser escrever alguma coisa eu posso enviar."
"Eu não quero escrever nada, eu quero vê-lo." Havia uma genuína irritação naquele tom de voz, que não passou despercebida.
Ele está bravo, o louro tentou pensar em algo reconfortante ou otimista para dizer, contudo, não havia nada. A situação era séria o bastante e não existia frase feita ou palavra bonita que pudesse amaciar o que a pessoa à sua frente pudesse sentir. Eu gostaria de poder ajudar, mas tudo o que posso fazer é ir duas vezes por semana a Roma falar com Giulio. Mario e o Vice-Inspetor não estavam em bons termos, então ficou a cargo do Braço Direito receber notícias. Esses passeios eram feitos em segredo, claro. Há três semanas Ivan reuniu os filhos, além dele e Mario, e comunicou que Alaudi não fazia mais parte da família e que provavelmente não voltaria a aparecer.
Nenhum dos presentes pareceu surpreso. Giuseppe soube através do irmão sobre a briga, e sua reação foi um automático menear de cabeça. O ruivo e o Guardião da Nuvem não se gostavam, logo, o louro imaginou que, para o seu irmão, não faria diferença se o Inspetor era ou não parte da família. Entretanto, quando ouviu aquela notícia, os olhos verdes foram automaticamente para as duas pessoas mais jovens da casa. O herdeiro tinha um semblante pesado, todavia, Catarina parecia alheia ao que acontecia. Francesco questionou o pai e quase chegou a erguer o tom de voz, mas o argumento morreu quando Ivan deixou claro que aquela havia sido a sua escolha. Ele entendeu. Francesco entendeu porque o pai fez aquilo, por isso ele se calou. A ruiva, porém, permaneceu em silêncio e apenas abriu a boca para perguntar se poderia ir para o seu quarto.
A garota não foi a mesma após aquela conversa e todos na casa notaram, principalmente o pai. Catarina passava mais tempo em seu quarto e não acordava tão cedo. Suas lições continuaram e o Braço Direito assumiu o lugar de Alaudi. Por várias vezes ele questionou a pequena, tentando incitá-la a se abrir um pouco e com isso, quem sabe, fazê-la entender que a decisão não havia sido tomada com um sorriso no rosto e que Ivan era aquele que mais sofria. Porém, a ruiva não oferecia nenhum momento de deslize e quando tentava tocar no assunto a resposta era sempre um sorriso vago e um breve "Eu sei, Peppe," dito com olhos sem vida e um desânimo que não combinava com sua personalidade. Eu queria que tudo isso terminasse logo. Eu queria que tudo voltasse ao normal.
Pensamento positivo nunca foi o forte de Giuseppe e ele estava tendo trabalho em assumir a posição otimista. Se na Família a situação estava ruim, o mesmo poderia ser dito sobre a situação fora dela. Os encontros com Giulio eram breves e geralmente feitos em lugares estrategicamente escondidos. Na semana anterior eles se encontraram em um Hotel noturno e o louro esteve tão perturbado por estar ali, com o amante de seu irmão, que a conversa durou menos de dez minutos. Nesse meio tempo ele soube que o Guardião da Nuvem estava se afundando em trabalho, no entanto, que era clara a maneira como ele não se sentia confortável com o que havia acontecido. Contudo, a parte realmente difícil foi quando o moreno perguntou sobre Mario. O Braço Direito sentiu-se mal por não ter nada positivo a dizer. A única vez que questionou o irmão sobre o assunto, o ruivo lhe lançou um olhar pesado e pediu gentilmente que ele não voltasse a falar sobre aquilo. O Vice-Inspetor, entretanto, apesar de sério e discreto, parecia realmente preocupado e ansioso por qualquer notícia sobre seu amante. É uma pena que eu não tenha nada de bom para dizer a ninguém. No final, o que eu posso fazer?
As xícaras se tornaram vazias e os biscoitos satisfizeram o propósito de alimentá-los, pelo menos por algum tempo. Giuseppe lavou a louça rapidamente, enquanto o rapaz se prontificou a apagar o fogo. O louro teria sugerido que eles retornassem, todavia, o futuro Chefe dos Cavallone disse que gostaria de passar mais tempo ali.
"Não há nada para fazer aqui, Chefe."
"Nós podemos caminhar, não? Você troca os seus belos sapatos por um par de botas e andamos pela propriedade."
"Apenas por um momento, está bem?"
O Braço Direito subiu para o quarto, tempo suficiente para trocar os sapatos. Sua companhia o esperava na entrada da casa com um grande sorriso nos lábios. Giuseppe retirou o terno e os dois deram a volta pelo sobrado, seguindo em linha reta. A propriedade era vasta, e eles jamais conseguiriam percorrê-la a pé, mas era possível distrair-se um pouco. As árvores serviam como fonte de sombra e frescor, porém, apesar de o Sol brilhar no céu, a temperatura estava agradável. O herdeiro e o louro caminhavam lado a lado, sem pressa ou preocupação, pelo menos naquele momento. Francesco mencionou as aulas e questionou se haveria alguma viagem marcada para as próximas semanas.
"Enquanto não descobrirmos quem está por trás dos ataques não poderemos deixar o país." Giuseppe encarou o horizonte.
"Mas nós sabemos que quem feriu Alaudi foi o próprio Chefe, não?" Aquele comentário fez o louro engolir seco. Ivan havia compartilhado a verdade com o filho, no entanto, o Braço Direito ainda se sentia desconfortável com certas coisas. Se fosse possível, ele protegeria aquela pessoa de tudo o que fosse ruim no mundo. "Só precisamos descobrir a mando de quem."
Ou talvez não haja mais ninguém. Mario mencionara há dois dias que algo dentro dele dizia que talvez eles estivessem andando em círculo. Ele acha que não existe mais ninguém. Que tudo foi orquestrado pelo Chefe Principal. O ruivo ainda não compartilhara com ninguém aquela opinião, e não seria Giuseppe quem o faria. Nas últimas semanas todas as nossas refeições são feitas ao redor desse assunto. Eu não lembro a última vez que sentamos e rimos ou ficamos em silêncio. Eu sinto falta do meu irmão. Do homem que sempre tinha alguma história tola para contar sobre Giulio. O louro não fazia ideia do motivo por trás da briga entre os dois, contudo, imaginou que era algo sério o suficiente para fazer com que o Braço Direito de Ivan não quisesse sequer ouvir o nome do moreno em suas conversas.
"Peppe!" A voz do futuro Chefe o fez piscar, como se acordasse de um sonho. Ele estivera tão concentrado em seus próprios pensamentos que não ouvira. "Onde você está?"
"A-Aqui." O Braço Direito não compreendia.
"Não, não está." O herdeiro tornou-se sério.
"Desculpe, eu estava pensando em Mario."
"Ele ainda não fez as pazes com Giulio?" A resposta foi um menear negativo de cabeça. "Você gosta de Giulio, Peppe?"
"Sim." Giuseppe sorriu. O Vice-Inspetor havia se tornado parte da família. "Como um irmão mais velho."
"Hmm..." Francesco pareceu pensativo. "Diga, hipoteticamente falando, claro... se você fosse uma garota, Giulio seria o namorado perfeito?"
"De onde você tirou isso, Francesco?" O louro riu, sem entender. Há alguns dias o rapaz de cabelos castanhos o surpreendia com aquele tipo de questão. Na segunda-feira ele perguntou se o pai era o exemplo de "melhor marido do mundo”.
"Eu estou somente curioso, responda! Se você fosse uma garota e pudesse descrever o amante perfeito como ele seria?"
"Bem..." O Braço Direito cruzou os braços e fingiu pensar. A resposta estava literalmente ao seu lado, entretanto, ele não ousaria dizê-la. É você. Com todos os defeitos e qualidades. Sendo ou não uma garota, você é perfeito para mim. Giuseppe sentia-se mal por não poder dizer a verdade. Eu não posso dizer diretamente, mas ele pediu minha opinião, não? "Alguém que seja forte, não no sentido físico, mas com caráter e personalidade. Gentil, quando necessário, porém, firme e sério quando a situação exigir uma posição certa." O louro pegou-se sorrindo. Ele poderia passar o dia descrevendo sua companhia. "Mas no fundo o que importaria é como essa pessoa me faria sentir. Ela poderia ter um milhão de defeitos, um milhão de qualidades, e não fazer meu coração bater mais rápido."
"Você já encontrou alguém assim?" A voz veio de longe e o Braço Direito parou de andar, notando que sua companhia estava um pouco atrás. "Você já encontrou alguém que faz seu coração bater mais rápido?"
Giuseppe engoliu seco. Eram em situações como aquela que ele se arrependia de ter beijado seu Chefe na noite de Natal. Até aquela noite ele não sabia a textura daqueles lábios ou a maneira gentil, mas forçosa, com que o herdeiro movia sua língua. Aquele beijo despertou algo dentro dele, um sentimento que estivera escondido durante todos aqueles anos e que deveria ter permanecido omitido. No momento em que o louro deixou de enxergar Francesco como uma criança tudo mudou. Enquanto o rapaz de cabelos castanhos era um garoto, o Braço Direito conseguiu ignorar seus próprios sentimentos. Todavia, quando ele foi forçado a enxergar, Giuseppe teve certeza de que as coisas jamais seriam as mesmas.
Os olhos verdes se abaixaram e o louro esboçou um triste sorriso.
"Vamos retornar?"
O Braço Direito se aproximou, porém, seus olhos não encararam os olhos cor de mel e seu coração havia se tornado apertado. O futuro Chefe virou-se e postou-se ao seu lado, andando no mesmo ritmo. A volta, no entanto, não foi feita com o mesmo entusiasmo. O silêncio que os envolveu foi doloroso e a cada passo Giuseppe enxugava as lágrimas que não escorriam por seu belo rosto. Felizmente ele se tornara excelente na arte de omitir seus sentimentos.
x
O retorno à mansão foi feito basicamente em silêncio. O homem de longos cabelos louros tentou iniciar duas vezes algum tipo de conversa, contudo, seu interlocutor se mostrou resistente às suas tentativas. O herdeiro não o destratou ou respondeu atravessado, pelo contrário, apenas parecia distante e estranhamente pensativo. Os olhos cor de mel fitavam a paisagem, como se vissem muito além do largo gramado úmido devido à neve derretida. Quando notava que seu Braço Direito tentava conversar, Francesco respondia algo vago e logo voltava ao seu estado calado. Em determinado momento Giuseppe achou melhor ficar quieto e nos minutos restantes o único som entre eles foi o barulho do motor do carro.
O veículo parou na frente da mansão, e foi exatamente ali que o louro soube que eles teriam companhia. Geralmente ele deixaria o rapaz na entrada e então dirigiria até o estacionamento, retornando minutos depois. Entretanto, muito antes de parar o carro, o Braço Direito soube que precisaria abrir uma exceção. Os dois desceram e Giuseppe fez sinal para um dos subordinados, pedindo que ele guardasse o carro. De novo. É a terceira vez esta semana. Os olhos verdes se abaixaram e o louro seguiu atrás do futuro Chefe dos Cavallone. Ambos entraram na mansão e então o silêncio foi quebrado, todavia, infelizmente, a voz animada e contente não foi direcionada a ele.
A garota estava no meio do hall e conversava com Ivan.
Mario estava ao lado e o olhar do ruivo incomodou muito mais do que a estranha presença. O herdeiro apertou o passo, aproximando-se de sua convidada e fazendo uma polida reverência antes de segurar a pequena mão direita, depositando um gentil beijo. A garota riu baixo, meneando a cabeça e desejando um bom dia. O Braço Direito balançou a cabeça e sorriu contido, sem saber o que realmente expressar. Ele nunca sabia. Todas as vezes que aquela pessoa aparecia na casa era como se de repente Giuseppe esquecesse suas cortesias e modos.
Clara Allegria frequentava a mesma escola que Francesco, embora em outra turma, uma somente para garotas. Seu pai era um dos pequenos Chefes de Roma e foi através dessa conexão que os dois se conheceram. Desde então, há quase um ano, a garota passou a frequentar à mansão. As visitas eram primeiramente esporádicas, mas, desde o início dos atentados aos Chefes Mafiosos, Clara passou a visitar o rapaz quase semanalmente. Na semana anterior os dois, além de Enrico, voltaram juntos da escola e passaram a tarde debruçados sobre livros na biblioteca. A garota era gentil e educada, altura mediana e aparentava ter seus reais 15 anos. Os cabelos eram longos e castanhos, presos em uma longa e delicada trança; os olhos azuis e os traços belos e delicados. Clara provavelmente conquistou a atenção do futuro Chefe por não ser como a grande maioria das jovens que frequentavam a mansão. Durante todas as vezes que teve a chance de observar, o louro não se recordava de tê-la ouvido falar sobre romances, vestidos ou as tais bobagens que o herdeiro tanto detestava. Naquela manhã, em especial, a garota vestia um simples vestido rosado, bordado nas pontas e incrivelmente discreto. Não havia sapatilhas, mas sim duas botas escuras, o que fez com que o Braço Direito deduzisse que ela estava ali para um passeio.
"Desculpe por aparecer sem avisar, mas a manhã estava tão bonita que achei um desperdício permanecer na cidade." A voz de Clara era baixa, mas audível.
"Não se desculpe. Eu vejo que veio preparada." Francesco apontou para as botas. "O que acha de darmos um passeio? Podemos ir até a casa de Enrico."
"Eu gosto da ideia." A garota sorriu. "Onde está Catarina? Nós poderíamos levá-la também."
"Catarina não está muito disposta." Ivan respondeu com um breve meio sorriso. Ela provavelmente já foi convidada e se recusou a descer.
"Entendo." Clara parecia genuinamente preocupada.
"Vamos?" O rapaz de cabelos castanhos colocou as mãos na cintura e sorriu animado. "Mas é bom que esteja preparada, porque eu não vou carregá-la se você se cansar."
"Da última vez foi você quem se cansou." A garota riu baixo.
Giuseppe deu um passo à frente, pronto para seguir atrás dos dois jovens, porém, o futuro Chefe ergueu a mão direita e balançou a cabeça em negativo.
"Eu estarei bem, Giuseppe." A ordem foi dada com um meio sorriso e o herdeiro deu as costas, deixando a mansão ao lado de sua companhia.
O homem de cabelos louros fez uma breve referência, sentindo a garganta apertada. Ele não sabia qual situação era pior: quando precisava estar ao lado de Francesco, ouvindo e observando a pessoa que ele amava passeando de braço dado com outra; ou aqueles momentos em que ele não estava presente e tudo o que restava fazer era esperar e tentar sobreviver às travessuras mentais que sua imaginação lhe pregava. Em ambos os casos o Braço Direito sabia que não tinha direito algum a se chatear ou ficar enciumado. Não importava quantas vezes seu peito se tornasse apertado, fosse com um sorriso visto ou uma risada ouvida, de nada adiantaria nutrir aqueles sentimentos negativos. O rapaz de cabelos castanhos estava muito alto para ser tocado por suas mãos.
"A garota sabe?" A voz de Mario trouxe Giuseppe de volta a realidade. Ele se esquecera de que não estava sozinho.
"Acredito que não.” Ivan coçou a nuca, visivelmente desconcertado. “A mensagem veio junto com o motorista. Acredito que a garota é ignorante quanto às intenções do pai."
"E você? Permanecerá ignorante?" O ruivo questionou de maneira afiada. O moreno apenas suspirou.
"Eu comunicarei Francesco, mas não o forçarei a decidir nada." O Chefe dos Cavallone encarava a entrada da mansão, por onde o filho havia saído.
"Perdoe-me, mas o que está acontecendo?" O louro tentou forçar um meio sorriso, no entanto, ele apenas tremeu em seus lábios.
"O pai da garota quer noivá-la com Francis." Foi Mario quem respondeu. Havia um estranho contentamento em sua voz, contudo, foram os olhos verdes que denunciaram as reais intenções. Intimamente ele sorria. "O motorista entregou a mensagem a Ivan."
"Entendo." O Braço Direito encarou o moreno, esperando uma resposta um pouco mais concreta. "Francesco ainda é uma criança, não? Casamentos soam... adulto demais."
"Eu penso o mesmo." O Chefe dos Cavallone sorriu. "Mas aos olhos dos pais os filhos sempre serão crianças, portanto, acredito que minha opinião não mereça peso. Para ser sincero, eu gostaria de esperar mais uns dois ou três anos até sugerir tal coisa, mas deixarei nas mãos de Francis a decisão. Se ele estiver inclinado em aceitar Clara o casamento seria uma mera formalidade."
"Vocês são os únicos que veem o rapaz como criança." O ruivo respondeu sério. "Até onde eu sei, eles podem ser namorados e não fazemos ideia."
"Eles não são namorados." Giuseppe respondeu no mesmo instante, lançando ao irmão um olhar pesado. Eu estive em quase todos os passeios em que eles fizeram. Isso jamais foi mencionado. "E desculpe, Mario, mas acredito que depois de Ivan e Alaudi eu sou a próxima pessoa a falar sobre Francesco."
O louro havia se esquecido totalmente do Guardião da Nuvem. Ivan tornou-se sério e mentalmente o Braço Direito se desculpou por ter mencionado o Inspetor de Polícia, entretanto, ele não ouviria certas coisas calado. Mario o encarou surpreso, todavia, sua expressão logo se tornou taciturna. O moreno pediu licença, avisando que estaria no escritório e deixando os dois irmãos no hall. O ruivo esperou o Chefe desaparecer de vista para se virar e erguer uma sobrancelha.
"Você tem ideia do que acabou de fazer?"
"Eu sinto muito. Eu esqueci completamente a situação." Giuseppe não desviou os olhos. Ele sabia que o assunto principal não era aquele.
"Preste atenção às suas palavras da próxima vez. Eu venho fazendo o impossível para Ivan se esquecer desse assunto e não preciso que ele seja lembrado porque meu irmãozinho decidiu ter ciúme do Chefe."
"Perdoe-me, mas não sei do que você está falando." O louro respondeu inexpressivo. Eles já haviam dançado aquela música e ele se lembrava muito bem dos passos. "Minha opinião sobre o casamento não tem relação com nenhum sentimento pessoal."
"É mesmo?" Mario cantou as palavras.
"Sim, na verdade, irmão, eu fico surpreso por ver você incitar tal coisa quando temos assuntos muito mais urgentes para resolver. Nunca pensei que relacionamentos se tornariam o foco principal de suas preocupações." As palavras saíram rápidas, sem que o Braço Direito pudesse pensar realmente no que dizia. Ele estava frustrado e chateado e enciumado e ouvir do ruivo aqueles absurdos não ajudava sua situação.
Mario calou-se e estudou o irmão por alguns segundos. O que ele viu, através dos grandes olhos verdes, Giuseppe jamais saberia. Porém, foi suficiente para encerrar o assunto. O ruivo pediu licença e seguiu por onde seu Chefe havia ido, mas não sem antes pedir que o herdeiro fosse avisado que deveria ir conversar com Ivan quando retornasse. O homem de cabelos louros respondeu com uma reverência, suspirando longamente quando notou que estava sozinho. Depois que tudo for resolvido, o que acontecerá? O Braço Direito mordeu o lábio inferior. Eu disse que era contra, pois a situação é séria e exige que pensemos com calma. No entanto, o que acontecerá quando tudo retornar ao seu devido lugar? A simples menção de que o futuro Chefe dos Cavallone poderia aceitar aquela proposta fez Giuseppe tremer. O silêncio do hall só serviu para lembrá-lo de que ele estava sozinho e o louro virou-se e seguiu na direção da porta. A claridade do dia acertou seu rosto e ele respirou fundo. A vida estava acontecendo rápida demais.
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Francesco retornou antes do almoço e sem sua companhia. Clara despediu-se no chafariz, e o rapaz acenou até que o carro sumisse de vista. O Braço Direito esteve na pequenina escadaria de mármore, observando, contudo, sem saber ao certo o que sentir e muito menos o que fazer. O futuro Chefe o avistou, esboçando um meio sorriso e aproximando-se.
"Como foi o passeio, Chefe?"
"Agradável." O herdeiro respondeu enquanto entravam na mansão.
"Fico feliz em ouvir, mas preciso informá-lo de que seu pai gostaria que fosse ao escritório. Ele está te esperando."
"Aconteceu alguma coisa?" A expressão tranquila tornou-se séria. Os olhos cor de mel automaticamente fitaram o segundo andar. "Catarina está bem? Alaudi?"
"S-Sim." Giuseppe sentiu-se perdido. "Não é relacionado à Catarina ou Alaudi."
Um suspiro aliviado escapou por entre os lábios de Francesco e ele meneou a cabeça em positivo e seguiu na direção do escritório. O louro abaixou os olhos, percebendo que não tinha absolutamente nada para fazer. Seus pés seguiram até a escadaria e o Braço Direito se viu subindo os longos degraus e parando em frente ao quarto de Catarina. Duas baixas batidas soaram contra a madeira e em alguns segundos um rosto infantil e pintado de sardas surgiu em uma pequenina fenda.
"Desculpe incomodá-la." Giuseppe esforçou-se para sorrir. "Eu vim chamá-la para almoçar."
"Obrigada, Peppe." A garota esboçou um meio sorriso. "Eu vou arrumar algumas coisas e descerei."
"Precisa de ajuda?"
"Não, obrigada."
A porta foi fechada depois de outro sorriso e o louro retornou ao estado letárgico. Suas mãos tremiam um pouco e seu coração batia rápido, incerto e temeroso. O Braço Direito viu-se descendo as escadas e retornando ao hall apenas para iniciar uma estranha e suspeita caminhada pela casa. Eu estou ansioso, Giuseppe engoliu seco ao passar pela segunda vez em frente ao escritório. A porta estava fechada e as paredes eram grossas, então nenhum som era ouvido. E, quando não havia para onde ir, ele simplesmente recostou-se a um dos pilares que ficavam no hall, cruzando os braços e decidindo esperar pacientemente a conversar terminar. Independente do resultado o louro saberia, logo, não havia motivos para nervosismos gratuitos. A realidade, claro, era bem diferente e durante os dez minutos que permaneceu ali o Braço Direito não soube dizer como foi capaz de manter a sanidade.
O rapaz de cabelos castanhos deixou o escritório e Giuseppe desencostou-se do pilar. Os dois se olharam e por um momento ele achou ter visto uma pitada de tristeza nos olhos cor de mel. O futuro Chefe dos Cavallone cruzou o hall, seguindo pela escadaria e fazendo com que o louro se movesse. Seu coração batia rápido e ele estava curioso demais para esperar que o assunto fosse mencionado displicentemente.
"Você sabia qual seria o assunto da conversa?" O herdeiro mencionou na metade do caminho.
"Sim." O Braço Direito respondeu prontamente.
"Meu pai disse que você é contra a ideia." Francesco abriu a porta do quarto e a deixou aberta, mostrando que sua companhia poderia entrar. Quando Giuseppe colocou-se dentro do cômodo, o rapaz virou-se e o encarou sério. "Por quê? Eu quero saber o motivo."
O louro sabia que poderia dizer qualquer coisa menos a verdade. Bem, quase toda a verdade. Expor seus sentimentos estava fora de cogitação, entretanto, a parte em que ele achava desnecessário tratar do assunto enquanto pessoas caiam mortas como moscas era real. O Braço Direito não mentira para seu irmão. Ele realmente achava que outros assuntos mereciam mais relevância do que casamentos, todavia, aquela era uma meia verdade. E, infelizmente, era tudo o que a pessoa à sua frente receberia.
"Eu não acho que o momento é oportuno. Estamos lidando com uma ameaça invisível e depois que Alaudi foi atacado sabemos que a polícia está envolvida." Giuseppe respondeu como se houvesse ensaiado. "Alaudi foi atacado a mando do próprio Chefe, e não vejo como um casamento pode ser mais relevante do que descobrir quem tentou feri-lo e matou todas aquelas pessoas."
"Entendo." O futuro Chefe dos Cavallone manteve a expressão séria. "Então você está me dizendo que no momento meu casamento seria equivocado, mas quando tudo for resolvido não haverá problema, certo?"
Não. Eu nunca diria isso. O louro engoliu seco. Aquilo seria difícil. Imaginar aquela conversa acontecendo em sua mente era diferente de ter de mentir diretamente para a pessoa mais importante de sua vida. Eu jamais diria para você se envolver com ninguém. O pensamento egoísta quase o fez sorrir, mas o Braço Direito permaneceu inexpressivo. Não havia nada o que ser dito, portanto ele apenas meneou a cabeça.
"A decisão é sua Francesco. Eu estarei ao seu lado independente de qual seja."
"Obrigado." O agradecimento deixou os lábios do herdeiro, porém, não condizia com o triste brilho em seus olhos. "Meu pai disse que eu devo pensar a respeito, mas eu já tomei a minha decisão."
"M-Mesmo?" Giuseppe não sabia se sua companhia conseguia ouvir a maneira como seu coração batia rápida e dolorosa. O louro deu um passo à frente, sentindo que muito dependia daquela resposta.
"Eu decidi aceitar o noivado." Francesco esboçou um meio sorriso. "Meu pai disse que profissionalmente falando é uma ótima união."
Em todos aqueles 26 anos aquela seria a primeira vez que o Braço Direito não tinha ideia do que dizer ao rapaz de cabelos castanhos. Quando ele me perguntou, há bastante tempo, de onde vinham os bebês eu tinha uma resposta na ponta da língua. Quando ele me questionou se a mãe estava no Céu eu também soube o que responder. Porém, agora... Giuseppe tinha conhecimento que deveria felicitá-lo, mas ele sabia que aquilo seria impossível. A menção de que o futuro Chefe pudesse casar-se já havia passado por sua mente, então o pensamento não era inédito. No entanto, em todos os seus ensaios mentais ele não achou que seu peito fosse doer tanto quanto doía. Sua garganta fechou-se e o louro imaginou como seria ter de encontrar a pessoa que ele amava ao lado de outra. Como seria observar os dois descendo a longa escadaria, de mãos dadas e sorrisos tolos, deixando o quarto, a cama e as horas de amor que passaram naquele cômodo? Como suportar, respirar e viver, sabendo que a pessoa que ele amava estava feliz ao lado de outra?
O Braço Direito não tinha respostas, apenas dúvidas e tolas ansiedades. Eu sempre soube que este dia chegaria, mas a realidade é um pouco mais cruel do que eu imaginava. Giuseppe esboçou o melhor sorriso que conseguiu e pediu licença. O herdeiro fez sinal para que ele saísse e o louro não perdeu tempo. O corredor estava silencioso e vazio, contudo, ele não teria visto ou ouvido ninguém. O Braço Direito não se recordava se encontrara algum subordinado enquanto descia as escadas e deixava a mansão. Seus passos o levaram até o carro e foi ali, no pequeno espaço, que Giuseppe conseguiu finalmente respirar. As costas escorregaram pelo banco e os olhos verdes se fecharam. O louro sentia-se absurdamente cansado e a pior parte era saber que aquela sensação não passaria.
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Ele tentou três vezes pedir dispensa do jantar, entretanto, Mario não deu atenção.
O Braço Direito alegou que não tinha fome, estava cansado e indisposto, todavia, o irmão mais velho simplesmente o olhou e meneou a cabeça em negativo. "Coma alguma coisa e depois vá para casa se desejar, mas a mansão já está triste o bastante e quanto menos pessoas à mesa, pior". Giuseppe sabia que o ruivo estava certo, mas a última coisa que ele queria era permanecer além do necessário ao lado de Francesco. Já faz dois dias, mas é como se ele houvesse me dito aquilo há cinco minutos. O louro sentou-se à mesa e seus olhos verdes automaticamente encararam o prato vazio, impossibilitados de se erguerem. O rapaz de cabelos castanhos estava sentado à sua frente, e daquele ângulo o Braço Direito podia sentir o olhar, porém, nada no mundo o faria retribuir.
Desde a conversa que tiveram no quarto, Giuseppe evitava o próprio Chefe sempre que possível. Graças às próprias palavras do herdeiro, o louro tinha livre acesso e não precisava ficar na mansão durante todo o tempo. Ele utilizou a situação ao seu favor, permanecendo cerca de uma ou duas horas diárias e depois retornando para a sua própria casa, onde seu tempo era passado com livros e pensamentos pessimistas e tristes. Eu preciso esconder melhor meus sentimentos, o Braço Direito esperou a sua vez de se servir. Mario me perguntou várias vezes se alguma coisa havia acontecido e em breve outras pessoas irão notar. Eu preciso me policiar. Os olhos de Giuseppe se ergueram, fitando o lugar vago ao lado de seu Chefe. Ela não desceu novamente.
Aquela era a segunda noite consecutiva que Catarina não aparecia para o jantar. Na noite anterior a garota se recusou a deixar o quarto, e quando Ivan subiu os dois discutiram e aparentemente ela havia sido colocada de castigo... de novo. O louro tentou conversar com a pequena, no entanto, até mesmo ele teve dificuldades. Catarina ouvia, contudo, não parecia realmente escutar. Suas respostas eram vagas e, o tempo que passou em seu quarto, a ruiva permaneceu sentada próxima à janela, perguntando sobre o tamanho da propriedade e cavalos e o clima. A pior parte foi quando Mario sugeriu que talvez ela devesse visitar Alaudi. Há tempos eu não via Ivan tão irritado. O moreno declinou a ideia e ele e o ruivo discutiram um pouco, entretanto, logo estavam dividindo uma garrafa de vinho no escritório. Desde que o Guardião da Nuvem deixou a mansão, Mario basicamente morava na casa, fazendo com que o Braço Direito retornasse sozinho todas as noites. Eu prefiro assim. Pelo menos por enquanto eu quero ter tempo e privacidade para colocar meus pensamentos em ordem.
"Molho?"
A voz veio da frente e foi impossível para Giuseppe ignorá-la. Francesco segurava a molheira, um sorriso tímido nos lábios e brilhantes olhos cor de mel. O louro, todavia, permaneceu irredutível. Sua cabeça meneou em negativo e ele abaixou os olhos, começando a comer sua salada. Eu preciso me acostumar a manter certa distância. Sorrisos e gracejos não me levarão a lugar algum. O quanto antes eu aprender a ser somente um empregado, mais rápido esses sentimentos irão desaparecer. Aquela ideia surgira quando o Braço Direito deixara o quarto do rapaz de cabelos castanhos, há dois dias. Não havia nada que ele pudesse fazer além de seguir em frente e esquecer aquele amor impossível e improvável. Muito em breve ele começará a cortejar a garota e eu não sou uma daquelas pessoas que apreciam sofrimento gratuito. Quando isso acontecer eu deixarei claro que não tenho intenção de seguir como babá.
A firmeza, porém, era o ponto fraco daquela decisão e basicamente o motivo que fazia com que ele ainda ponderasse se aquela era a melhor saída. O futuro Chefe dos Cavallone o havia questionado naquela manhã sobre a mudança repentina, perguntando se era causada pela decisão sobre a futura-pseudo-noiva. Ele estava sorrindo. Provavelmente deve ter ficado triste por eu não consegui sorrir ou felicitá-lo. Giuseppe então esboçou um forçado sorriso e apenas disse que estava cansado. A congratulação, no entanto, não aconteceu. Desejar felicidades estava além de suas capacidades.
O jantar corria parcialmente silencioso.
Mario e Ivan comentavam alguma coisa sobre os próximos dias, enquanto o herdeiro permanecia em silêncio. Vez ou outra o louro se sentia observado, mas em nenhum momento seus olhares se encontraram. A refeição estava na metade quando a porta da sala de jantar foi aberta com violência. Todos os presentes ergueram os rostos e ambos os Braços Direitos ficaram em pé e sacaram as armas por mero reflexo. O subordinado ergueu as mãos, mostrando que era da Família e Giuseppe juntou as sobrancelhas, surpreso. Todos estavam à flor da pele nos últimos dias e qualquer movimento brusco o fazia reagir por puro instinto.
"Chefe, algo aconteceu com a pequena! Por favor, venha. Eles não sabem o que fazer."
Ivan jogou-se da cadeira e saiu tão rapidamente da sala de jantar que o louro não teve tempo de pensar. A arma foi recolocada em sua cintura e o Braço Direito olhou para Francesco. Os dois se encontraram na porta e correram até o hall. O local estava cheio de subordinados e a grande porta aberta de ambos os lados, deixando que o ar frio entrasse. No centro estava o moreno, ajoelhado em frente a uma trêmula Catarina, que estava completamente suja de lama, dos pés à cabeça.
"Você está bem? Algo dói?" O Chefe dos Cavallone tinha as mãos sobre os ombros da filha, e a olhava com olhos extremamente preocupados. A ruiva tinha o braço esquerdo junto ao peito, provavelmente torcido, contudo, parecia assustada demais para responder.
"O cavalo..." Giuseppe virou o rosto na direção da voz. Um dos subordinados estava tão sujo como Catarina. "Ela pediu o caminho inteiro para que não sacrifiquem o cavalo. Ele não teve culpa."
O louro aproximou-se, passando pelo irmão e se colocando ao lado de Ivan. Ele não sabia se aquela atitude era além de sua função, entretanto, seu corpo simplesmente se moveu. A garota ergueu os olhos e o abraçou com tanta força que o Braço Direito quase caiu para trás.
"Ela pediu que não sacrifiquem o cavalo." Giuseppe tocou os cabelos sujos de lama da garota e pediu um baixo por favor para Ivan. O moreno suspirou e disse algo para Mario. O hall havia se tornado menos agitado, e o ruivo foi responsável por deixá-lo ainda mais quieto quando a porta foi fechada e seu irmão deixou a mansão. Ele foi chamar Ottavio. "Está tudo bem, Catarina. Nós não estamos bravos."
A garota ainda permaneceu algum tempo na mesma posição até criar coragem para encará-lo. Os olhos castanhos estavam arregalados e ela parecia ainda mais nova do que seus nove anos. Foram precisos vários sorrisos encorajadores para fazê-la falar:
"Onde você pretendia ir com o cavalo?" O louro ajoelhou-se e aquela atitude pareceu incentivar sua companhia.
"Eu queria ver Alaudi."
A resposta não agradou ao Chefe dos Cavallone, que ficou visivelmente irritado, afastando-se parcialmente. Os sons de seus sapatos ecoando pelo piso de mármore só tornaram as coisas piores.
"Quantas vezes eu preciso dizer que Alaudi não faz mais parte dessa família?" A voz de Ivan soou alta e ecoou por todo o local. Catarina encolheu-se e virou-se, encarando o pai com medo. "Você tem ideia do que poderia ter acontecido se você tivesse realmente caído? Será que você ainda não sabe medir as consequências, Catarina?"
O Braço Direito mordeu o lábio inferior, apertando a garota com mais força. Intimamente ele queria rebater aquele comentário, todavia, sabia que não poderia. Havia verdade naquelas palavras, além do fato de que o moreno era o Chefe da Família.
"Mas eu quero vê-lo! Eu quero ver Alaudi e você não pode me impedir!" A ruiva respondeu aos gritos. Seu rosto tornou-se tão vermelho quanto seus cabelos.
A expressão que Ivan esboçou calou a garota no mesmo instante. Daquela posição Giuseppe ouviu o barulho dos pequenos dentes rangendo em nervosismo.
"Catarina tem razão." A voz veio da outra pessoa presente no hall. O louro ergueu os olhos, surpreso por ver justamente o rapaz de cabelos castanhos tomar o partido da irmã. O futuro Chefe estava visivelmente sério. "Você simplesmente disse que Alaudi não faz parte da família e não ofereceu mais nada. Como quer que aceitemos isso? Sem despedidas? Sem visitas? Sem nada? Você não tem esse direito!"
"A decisão não é sua, Francesco, e limite-se a cuidar dos seus assuntos." A ira do moreno era quase palpável. Seu rosto estava vermelho e era clara a maneira como ele não esperava que justamente o herdeiro fosse bater de frente com ele. "Eu não quero mais ouvir sobre esse assunto. Você ficará meses de castigo, Catarina, e eu falo sério!"
"Eu não quero!" A ruiva soltou-se dos braços de Giuseppe e deu um passo à frente. Sua mão direita fechou-se em forma de punho, enquanto a esquerda ainda estava junto ao peito. "Eu vou encontrar um jeito de sair daqui e nunca mais voltarei! Eu te odeio, pappà! Alaudi é o único pai que eu quero!"
Catarina deu as costas e subiu as escadas com passos rápidos, tropeçando várias vezes, mas levantando-se e batendo a porta com força ao chegar ao segundo andar. O Chefe dos Cavallone permaneceu imóvel, uma expressão tão machucada que o louro sentiu-se mal por ter sido expectador de tudo aquilo. Ivan deu meia-volta e deixou a mansão, os passos lentos e as costas arqueadas e cansadas. O Braço Direito ficou em pé, encarando as roupas sujas e soltando um longo suspiro. Os olhos verdes se viraram para encarar Francesco, porém, o rapaz passou por ele, subindo as escadas sem olhar para trás. Giuseppe fez o mesmo, sem saber por que não havia simplesmente deixado aquilo de lado. Eu não posso deixá-lo sozinho agora. O louro forçou passagem quando o futuro Chefe tentou barrá-lo na porta do quarto e, já dentro do cômodo, o herdeiro o abraçou tão forte que o Braço Direito não teve alternativa além de retribuir.
O choro de Francesco foi baixo e contido. Ele sempre foi sensível e sincero com suas emoções, então não era surpreendente que aquele assunto o houvesse atingido daquela maneira. Ele provavelmente já chorou o suficiente nessas três semanas. Giuseppe fechou a porta com uma das mãos, enquanto a outra subia e descia pelas costas da pessoa em seus braços. Os dois permaneceram naquela posição por alguns minutos e, quando se afastou, o rapaz de cabelos castanhos não fez questão de esconder as lágrimas.
"Sente-se melhor?" O homem de longos cabelos louros usou as costas das mãos para enxugar as bochechas de seu Chefe.
"Desculpe." A voz do futuro Chefe soou rouca e grossa por causa do choro. "Eu pareço patético."
"Não, não parece." O Braço Direito retirou um lenço azul claro do bolso da calça e o passou delicadamente sobre os olhos cor de mel. "Você parece uma pessoa que foi afastada de alguém importante e querida sem aviso ou explicação real. Qualquer um sentiria o mesmo na sua situação."
"Eu não posso chorar." O herdeiro fez menção de se afastar, no entanto, Giuseppe o segurou pelo braço, fazendo negativo com a cabeça.
"Quem disse? Você pode chorar quando quiser chorar. Rir quando quiser rir. Essas são suas emoções. Ninguém vai senti-las por você." O louro ofereceu um meio sorriso. "Eu achei muito corajoso da sua parte defender sua irmã. Eu estou orgulhoso." Francesco corou. "Se existir algo que eu possa fazer para te fazer sentir melhor, apenas diga. Qualquer coisa!"
"Lá vem você de novo com o qualquer coisa." O rapaz de cabelos castanhos riu baixo. Uma triste risada. "Achei que houvesse aprendido sua lição depois da noite de Natal."
"Eu falei sério."
O Braço Direito soube, no momento em que decidiu seguir o futuro Chefe, que sua resolução não era forte o suficiente. Eu vou me machucar. Isso é ridículo. Contudo, não havia nada naquele momento que ele quisesse mais do que confortar a pessoa em seus braços. Giuseppe segurou o rosto do herdeiro, inclinando-se e o beijando.
Era errado. Era ultrajante. E ele pagaria por aquilo eventualmente, entretanto, palavra alguma poderia descrever o que o louro sentiu quando Francesco o empurrou contra a porta, prensando-o e retribuindo o beijo com fome. As línguas se encontraram no mesmo instante e os lábios se moveram com rapidez e destreza. Havia uma inegável necessidade por contato e o Braço Direito teve certeza disso quando seu corpo foi parcialmente erguido, fazendo com que eles ficassem basicamente na mesma altura. É melhor que o primeiro beijo que trocamos. Deus, eu poderia beijar esses lábios por toda a minha vida. A velocidade da carícia diminuiu, mas o mesmo não poderia ser dito sobre a intensidade. Os movimentos tornaram-se lentos e profundos, e o corpo de Giuseppe ficou arrepiado quando ele notou que havia se excitado. Os lábios se afastaram pouco a pouco, todavia, o louro não teve coragem de encarar sua companhia. Suas mãos tocaram o pescoço do rapaz de cabelos castanhos, abraçando-o e afundando o rosto em seu ombro esquerdo. O futuro Chefe dos Cavallone apertou o abraço e o Braço Direito fechou os olhos.
Aparentemente, naquela noite, todos os moradores daquela casa haviam cometido erros cujas consequências seriam devastadoras.
Continua...
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