VIII



Ele sempre soube que a vida pregava peças. Do dia em que Giotto entrou em seu escritório, há anos, e disse que "A partir de hoje você será meu Guardião, Alaudi!", até o baile sediado por aquele mesmo homem, e que acarretou todas as mudanças significativas na vida do louro. Se o Inspetor não houvesse ido ao baile, talvez ele não estivesse naquela situação. Se ele houvesse permanecido em casa, como era esperado de sua personalidade, as chances de Alaudi receber aquela visita eram tremendamente remotas. Porém, aquele momento era uma das muitas entrelinhas que o louro precisaria ler e entender. Pois, em ocasião alguma — sonho, pesadelo ou variantes — o Guardião da Nuvem achou que viveria para ver aquele homem entrar em seu escritório para falar justamente com ele.


Mario estava parcialmente molhado.

O lado esquerdo do sobretudo estava molhado e mais escuro, mas os cabelos ruivos pareciam secos e perfeitamente arrumados. O Braço Direito pediu licença, entrando sem esperar réplica, puxando uma cadeira e sentando-se em frente ao Inspetor. Alaudi ergueu os olhos, sem saber se deveria mandá-lo embora com ou sem a ajuda de sua arma. A escolha era difícil. Aquele homem era basicamente a última pessoa que ele esperava receber àquela hora, ou melhor, em qualquer dia. Mario nunca era bem-vindo.


"Como está seu ferimento?" O ruivo bateu a ponta do guarda-chuva negro no chão. Chovia desde o começo da manhã e não havia previsão de céu aberto.


"Melhor." O louro respondeu cuidadoso. O que quer que houvesse levado aquele homem até ali era provavelmente importante o suficiente para fazê-lo permanecer.


O Braço Direito esboçou um falso sorriso e o Guardião da Nuvem pousou a caneta sobre a mesa, recostando-se melhor à sua macia cadeira e estudando sua companhia. Os olhos verdes o encaravam, no entanto, o Inspetor de Polícia não conseguia ler exatamente o que eles queriam transmitir.


"Eu preciso que venha comigo até a mansão." A voz rouca de Mario cortou o silêncio em poucos segundos. "Eu posso levá-lo até sua casa primeiro, se for necessário, ou podemos seguir daqui mesmo."


"O que te faz pensar que eu iria a qualquer lugar com você?" Alaudi respondeu entediado. Ele não acreditava no tamanho da presunção.


"Veja bem, Alaudi." O ruivo inclinou-se à frente e ergueu os olhos. O sorriso fácil desapareceu e ele tornou-se sério. "Eu não estou aqui porque quero ver a sua cara ou usufruir da sua companhia, o que, permita-me a sinceridade, duvido muito que possa acontecer. Contudo, eu tomei a liberdade de vir contra as ordens de certo homem teimoso, e minha cabeça deve estar a prêmio nesse exato momento."


"Eu não me importo. Você pode perder cabeça, braços e pernas, não faria diferença para mim." O louro permaneceu imóvel, entretanto, a parte em que o Braço Direito havia desobedecido a Ivan muito lhe surpreendeu.


"Como eu dizia..." Mario continuou sem se importar com a resposta não muito polida. "Eu preciso levá-lo porque as coisas não estão muito... saudáveis? Em ordem? Bem, você entendeu." O ruivo umedeceu os lábios. "Ontem à noite Catarina tentou fugir de casa. Ela esperou que todos estivessem jantando e aproveitou a troca de subordinados no portão principal para pegar um cavalo e cruzar metade do pasto. Ela não sabia que fazemos rondas por toda a propriedade naquela mesma hora, e o cavalo se assustou, derrubando a menina. E sim, ela está bem. Um braço torcido e três meses de castigo." O Braço Direito esboçou um largo sorriso, oferecendo uma charmosa piscadela para seu interlocutor. "Tenho sua atenção aqui, Senhor Inspetor?"


Os dentes do Guardião da Nuvem trincaram e foi muito difícil não demonstrar interesse. Seus olhos azuis fitaram a mesa e ele sabia que não terminaria aquele relatório, pelo menos naquele fim de tarde. Os pés se moveram e ele ficou em pé. Mario fez o mesmo, abrindo a porta e oferecendo passagem a Alaudi. Os dois caminharam pelo segundo andar, descendo a escadaria e chegando ao térreo. O louro não disse nada a nenhum dos muitos subordinados que estavam naquela parte do prédio, todavia, ao ganhar a rua, ele sabia que precisaria oferecer duas ou três frases para o homem prostrado na calçada, mãos nos bolsos e uma expressão séria.


"Eu não retornarei mais hoje. Você fica no comando." O Guardião da Nuvem tentou ignorar o fato de que seu Vice-Inspetor, e melhor amigo, não parecia ouvir. Os olhos verdes de Giulio estavam totalmente na figura do ruivo, que se afastou no instante em que o viu se aproximar, caminhando até o carro.


"C-Certo." O moreno respondeu incerto. Seus olhos ainda estavam longe. "Aconteceu alguma coisa?"


"Eu preciso morder um idiota até a morte."


O veículo estava estacionado próximo e foi com muito custo que o Inspetor sentou-se ao lado do Braço Direito. O carro deslizou pela rua, e em momento algum Mario olhou para trás. Giulio, porém, permaneceu na calçada até que o veículo sumisse de vista e ver seu amigo ali, parado e tão esperançoso, piorou ainda mais o humor de Alaudi.


"Conte-me o que houve."


"O que eu já disse..." O ruivo diminuiu a velocidade ao dobrar uma esquina. "Bambina tentou fugir, caiu e foi levada até a mansão. Ivan estava furioso e até Francesco entrou no meio da bagunça. Os três discutiram, Catarina está de castigo e o rapaz diz que não falará com o pai enquanto você não aparecer."


O louro soltou um baixo suspiro, encarando o seu lado da janela. Eu pensei que eles me esqueceriam. Eu realmente achei que já não passasse de lembrança para eles. O Guardião da Nuvem estava preocupado, mas havia uma parte em seu peito que se sentiu aquecida por ainda ser lembrado. Eu preciso pensar no que farei quando chegar. Ivan deve estar irritado.


"Ele não sabe que você está aqui?" O Inspetor de Polícia perguntou baixo e sem encarar o homem ao seu lado.


"Claro que sabe. Eu avisei que estava vindo para cá." O Braço Direito deixou escapar uma risada baixa e divertida. "Você sabe que Ivan não estava falando sério quando te expulsou da mansão, mas três semanas? Aquelas crianças perguntaram todos os dias por você!"


Você não precisa me dizer isso, Insolente. Eu sei. Alaudi engoliu seco. Não houve um dia em que seus pensamentos não remetessem àquela casa, aqueles moradores e todas as lembranças, boas e ruins, que ele havia vivido naqueles dez anos. E eu sei que Ivan não falou sério. O louro deixara a mansão sabendo bem que aquela cena não havia sido sincera. Ele sabia que Mario o havia dirigido até sua casa, provavelmente achando que o Guardião da Nuvem estava chocado demais para segurar um volante. A verdade, no entanto, era outra. O Inspetor esteve são e centrado o tempo inteiro, contudo, sua mente se concentrava no melhor caminho a ser tomado. Ivan resolveu colocar um ponto final porque não quer que eu me envolva, o que é ridículo por si só. Eu estou nisso até o pescoço. A mão esquerda tocou seu abdômen por puro instinto. O corte havia pegado de raspão, e ele não sentia mais dor, entretanto, sabia que ganhara uma pequena cicatriz. E eu tenho certeza de que o idiota achou que depois que tudo se resolvesse eu não voltaria para ele. Tolo!


"E quanto a Francesco? Ele e Giuseppe voltaram a se desentender?"


"Não. Eles estão... ótimos." Havia ironia na voz do ruivo e Alaudi optou por ignorar.


É difícil de acreditar que sejam irmãos. Giuseppe é educado, gentil e agradável. O irmão é insolente, intragável e totalmente insuportável. O louro cruzou os braços. Ele precisaria permanecer pelo menos mais meia hora dentro do carro e a última coisa que precisava era de conversa fiada. O Braço Direito pareceu compartilhar daquela decisão, pois, ao ganhar a estrada, Mario tornou-se sério. O silêncio dentro do veículo era reconfortante e o Guardião da Nuvem imaginava como seria recebido ao chegar à mansão. Catarina e Francesco ficarão felizes, mas o problema será Ivan. Nunca achei que um dia eu entraria naquela casa e não seria bem-vindo. Os olhos azuis se apertaram. A chuva tornou-se mais forte, ofuscando a visão da paisagem. O para-brisa movia-se apressado e o ruivo diminuiu a velocidade ao notar que não tinha total visibilidade. A chuva irá nos atrasar, pensou o Inspetor de Polícia, e eu preciso ter um discurso pronto ou aquele homem vai me expulsar novamente.


x


A recepção foi mais ou menos o que Alaudi esperava. O Braço Direito estacionou o carro em frente à entrada e o louro ajeitou o sobretudo sobre sua cabeça antes de subir a curta escadaria de mármore. Não havia ninguém no hall para proibi-lo de seguir adiante ou bloquear a passagem da escadaria que unia o térreo ao segundo andar. A casa estava estranhamente silenciosa e o Guardião da Nuvem sabia muito bem que aquele não era um bom sinal. Os olhos azuis fitaram o longo corredor do segundo andar, pousando na grande porta do quarto principal. Por dez anos ele entrou e saiu por aquela divisa e sempre achou que retornaria. Eu gostaria de estar mais confiante sobre isso. O Inspetor desviou o olhar, virando o rosto e encarando o lado direito. Seus pés caminharam alguns passos até finalmente pararem em frente ao quarto que o havia levado até ali. O moreno poderia se remoer de raiva ou indignação, fechado entre quatro paredes, ele não se importava. Uma das coisas que realmente fazia seu coração dançar era a mínima possibilidade de rever a pessoa que provavelmente estava além daquele pedaço de madeira.


Alaudi não soube se bateu primeiro na porta e entrou depois ou entrou primeiro e depois bateu. O louro simplesmente não se importou. A porta abriu-se de uma vez, e a próxima coisa que ele sentiu foi um forte abraço em suas pernas e cintura. Eu conheço esse gesto. O Guardião da Nuvem abaixou os olhos, sabendo que veria um monte de fios ruivos. Naquele começo de noite eles estavam muito bagunçados, como um ninho de pássaros, todavia, havia algo diferente no abraço. Ele não estava apertado como os anteriores. Ela não pode usar um dos braços. O Inspetor de Polícia ajoelhou-se e somente naquele momento pôde ver o braço esquerdo enfaixado e preso ao pescoço por um pedaço de pano branco. Catarina passou o único braço disponível ao redor do pescoço de Alaudi, chamando seu nome tantas vezes que o fez sorrir. Há algum tempo ele se esquecera de que era capaz de tal reação.


"Boa tarde, Alaudi."


A voz veio do lado; uma voz masculina e jovem. O louro ficou em pé, segurando a garota ruiva no colo e encarando Francesco, que provavelmente esteve sentado na cadeira rente à cama. A pequena saiu tão apressada que derrubou duas cobertas e um livro ao chão. O rapaz de cabelos castanhos abaixou-se para pegá-los e, quando os dois se encararam, o futuro Chefe dos Cavallone forçou um sorriso que não durou muito. O herdeiro caminhou até o Guardião da Nuvem, abraçando-o de maneira desajeitada e tímida. O Inspetor sentiu o coração apertado. Aquele tipo de situação era inédito. Eles não eram seus filhos verdadeiros. Alaudi, quando aceitou o relacionamento com o Chefe dos Cavallone, soube que jamais daria filho algum para mulher alguma. Porém, ele ganhara duas pequenas criaturas que o amavam como a um pai, que o respeitavam como um membro da família e que sentiram sua falta nos dias de ausência. Não tão pequenos... Eles não são mais crianças. Catarina foi para o chão, pois o braço do louro tornou-se dormente. Ela se tornará uma moça em um piscar de olhos e Francesco cresceu. Ele está enorme.


O Guardião da Nuvem encarou o rapaz ao seu lado, tocando o alto da cabeça castanha. Naqueles dias de ausência o futuro Chefe parecia maior, alguns dedos mais alto do que o próprio Inspetor de Polícia.


"É bom vê-lo novamente." O herdeiro tinha o rosto um pouco vermelho e seus olhos cor de mel brilhavam. Algo naquele olhar fez Alaudi lembrar-se de seu amante e aquilo o deixou triste.


"Eu não acredito que você veio!" A ruiva voltou a abraçar suas pernas. "Eu senti tanta a sua falta, Alaudi."


"Giuseppe o trouxe?" Francesco coçou a nuca, da mesma maneira como o pai fazia.


"Mario." A resposta pareceu surpreender o rapaz. "Vocês estavam ocupados?"


"Francis estava lendo para mim." A garota apontou para o livro sobre a cama. "Eu meio que estou de castigo, então não posso sair da mansão... por um tempo."


"Eu ouvi a respeito e precisamos conversar sobre isso." O louro encarou o futuro Chefe, que pareceu entender no mesmo instante.


"Eu vou deixá-los a sós. Você ficará esta noite?"


"Sim." O Guardião da Nuvem respondeu confiante. "Eu estarei aqui amanhã também."


A resposta pareceu animar o herdeiro, que desejou boa noite antes de se retirar. A porta foi fechada, e o Inspetor então encarou sua única companhia restante e ergueu uma sobrancelha. Catarina ofereceu um sorriso travesso, subindo sobre a cama e cobrindo-se com os cobertores.


"O que você fez foi errado, Catarina." Alaudi caminhou até a cama, sentando-se na beirada. "Você poderia ter realmente se machucado."


"Eu sei." A ruiva mordeu o lábio inferior. "Eu estava apenas desesperada. Eu achei que você não fosse mais voltar."


"Eu pretendia voltar, mas não agora." O louro ponderou o que deveria falar. Ivan já havia sido rígido com a garota, mas Catarina estava se tornando mais e mais inconsequente com o passar do tempo. "Seu pai estava certo ao te deixar de castigo. As coisas poderiam ter terminado de maneira muito pior."


A ruiva desviou os olhos e calou-se. O Guardião da Nuvem encarou a capa do livro que estava sobre a cama, lendo mentalmente o nome em francês. Sua atenção então retornou à garota, que o encarava com o máximo de seriedade que uma criança de nove anos poderia ter.


"Vocês não fizeram as pazes, não é? Você não sabe quando vai retornar, não?"


"Eu pretendo falar com seu pai quando sair daqui." O Inspetor disse cauteloso. De onde aquela criatura havia tirado tanta maturidade?


"Esqueça, ele não vai te ouvir. Como não quis me ouvir quando eu falei que encontraria um jeito de sair daqui. Pappà apenas escuta quando você está por perto, Alaudi. Esses dias foram horríveis. Até Francis reclamou e Francis nunca reclama!"


"Eu entendo o que você passou, mas n—"


"Não, não entende." A voz de Catarina se tornou mais alta e aguda e os olhos castanhos se tornaram vermelhos. "Você foi embora sem dizer nada e Pappà passava o dia inteiro no escritório. Não havia ninguém para conversar durante o café da manhã e todas as vezes que alguém perguntava sobre você Pappà ficava irritado. Eu não sabia quando te veria de novo. Você foi embora, igualzinho a minha mãe e meu pai. Todo mundo está indo embora e eu acabarei sozinha nesta estúpida casa gigante!"


As lágrimas haviam começado no meio do discurso, e ao final da última palavra a sempre forte e travessa garota de cabelos ruivos estava chorando como uma criança de sua idade. O choro começou contido, no entanto, tornou-se alto quando Alaudi a envolveu em seus braços. O peso da responsabilidade o atingiu, e ele se arrependeu de ter aceitado a decisão do moreno sem contra-argumentar. Deixar aquela casa havia sido definitivamente um grande erro. Eu não fazia ideia de que ela sabia sobre os pais verdadeiros. O louro tocava os cabelos bagunçados, pensando que não havia nada que ele pudesse dizer para remedir a situação.


"Eu não irei desaparecer e eu sinto muito por essas semanas." O Guardião da Nuvem perdia-se em suas próprias palavras. Não era de seu feitio pedir desculpas ou se explicar, contudo, ele sentia que aquela regra pessoal não funcionava para aquele tipo de situação. "Eu irei conversar com seu pai e as coisas voltarão ao normal."


"Ele não vai ouvir. Ele nunca ouve!" A pequena ergueu a cabeça, enxugando o rosto com o próprio cobertor. Suas sardas se tornavam mais evidentes quando seu rosto corava e naquele momento ela lembrava muito um tomate. "Ele é teimoso."


"Eu sei, mas ele irá me ouvir, eu posso garantir isso a você."


"Mesmo?" Catarina apertou os olhos, duvidosa. "Você promete?"


"Sim, prometo." O Inspetor de Polícia passou as pontas dos dedos sobre as bochechas da ruiva.


"Você pode falar também sobre o meu castigo?"


"Não. Você mereceu o castigo." A garota soltou um longo suspiro, que logo se transformou em um contido meio sorriso. "Quer que eu leia para você? Meu francês não é tão bom quanto o de Francesco, mas eu sei que não farei feio."


"Hm não, eu estava entediada com a história." Catarina arrastou-se para a cama e Alaudi a cobriu. "Você pode ir falar com, Pappà, eu vou ficar bem."


"Eu ficarei aqui até que você durma." O louro levantou-se e sentou-se na cadeira que anteriormente fora ocupada pelo rapaz de cabelos castanhos. "E amanhã de manhã tomaremos café juntos."


"Eu gosto da ideia." A ruiva segurou o livro e o ofereceu ao Guardião da Nuvem. "Página vinte."


A última vez que o Inspetor havia conversado em francês foi há alguns anos, quando um senhor de meia idade apareceu na sede de Polícia em busca de informações. A língua havia sido aprendida na escola, entretanto, Alaudi nunca teve muitas oportunidades para praticá-la. E, depois dos trinta anos, o louro se via tendo de aprender uma nova língua graças à irmã. A única família do Guardião da Nuvem era a irmã mais velha, que se casara com um homem japonês há alguns anos e se mudara para o país do marido. O Inspetor de Polícia era tio de dois garotos e as correspondências eram basicamente trocadas em japonês.


Por longos minutos Alaudi leu sobre fadas, bruxas e cavaleiros. No começo a garota parecia atenta, criticando as donzelas e afirmando que eram estúpidas por preferirem esperar os príncipes a irem elas mesmas defender suas terras das bruxas malvadas, todavia, pouco a pouco seu corpo sucumbiu ao cansaço. Os olhos castanhos tentaram se manter acordados, enquanto longas piscadas demonstravam que ela lutava contra um inimigo invisível. O louro fechou o livro, pousando-o sobre a cômoda e ficando em pé. Os cobertores foram ajeitados e a última coisa que o Guardião da Nuvem fez antes de deixar o quarto foi apagar o abajur. O corredor continuava silencioso e os olhos azuis encararam a última porta do lado direito. O Inspetor ajeitou o sobretudo e respirou fundo.

O real problema começava naquele instante.


x


Alaudi sabia que precisaria ter uma conversa realmente séria com o Chefe dos Cavallone, e não uma discussão infrutífera como acontecera há semanas, no escritório. O problema é que ele não sabia ao certo como abordar seu amante. Ivan poderia ser o homem mais gentil, educado e amável do mundo, mas somente quando queria. O outro lado da verdade escondia um nível assombroso de teimosia, e que rivalizava totalmente com uma criança. Quando pediu para ser levado à mansão, semanas atrás, o louro engoliu a dor que o ferimento causava em seu abdômen, pois precisava reportar o que sabia. Ele não dirigiu por estar exausto, e não fazia ideia, na época, de que o Chefe dos Cavallone enviara Mario para escoltá-lo. Ao chegar à mansão, porém, o Guardião da Nuvem recebeu um frio tratamento e após contar que a pessoa que o atingira fora o Braço Direito do Chefe Principal da Polícia, o moreno começou com seu show particular que acarretou na expulsão do Inspetor. Eu não acreditei em uma palavra que deixou aqueles lábios, mas fui embora porque sabia que não conseguiria fazê-lo se acalmar. Alaudi sabia que o Chefe dos Cavallone não havia sido sincero e que aquele homem estava apenas tentando protegê-lo. E por causa disso Catarina tentou fugir de casa. Ela achou que não era querida e que acabaria abandonada. Nós dois erramos, Ivan, mas somente um de nós será mordido até a morte. Eu queria poder dizer que sinto muito, mas não sinto.


Ele não batia na porta ao entrar em seu quarto e não mudaria o hábito.

A porta foi aberta com um único empurrão e a pessoa que estava dentro do cômodo ergueu os dois belos olhos cor de mel, fitando-o detrás da escrivaninha, do outro lado do quarto. O louro ofereceu um breve olhar, tentando ignorar as batidas incessantes de seu coração enquanto retirava seu sobretudo. A peça foi pousada sobre uma das poltronas e o Guardião da Nuvem seguiu para o banheiro da suíte. Um longo suspiro deixou seus lábios e ele tinha conhecimento de que havia ganhado alguns minutos com aquele banho. Ele parece furioso, o que é ótimo.


O restante da roupa foi retirado e o Inspetor de Polícia seguiu até o box. O ferimento que ele recebera no abdômen havia cicatrizado, e ele ganhara uma permanente marca do tamanho de dois dedos. Alaudi não viu, a princípio, o homem que o atacou. Naquela noite ele deixou a sede de Polícia e decidiu caminhar um pouco, buscando uma maneira de relaxar. A pessoa o pegou desprevenido quando o louro retornava, prensando-o contra a parede, na esquina com a sede, e tentando desarmá-lo. A tentativa fracassou quando o Guardião da Nuvem derrubou a arma do homem, que então retirou a faca e o furou diretamente. O corte pegou de raspão, no entanto, somente porque o Inspetor conseguiu se jogar contra a pessoa que o atacava. E foi ali, em uma fração de segundos, que ele viu os olhos azuis e os cabelos negros e lustrosos. Contudo, o que entregou seu agressor foi o perfume. Alaudi odiava aquele cheiro, pois era o mesmo perfume que o ruivo insolente geralmente usava.


A água quente relaxou seus músculos e aqueceu seu corpo, entretanto, não foi capaz de aplacar sua resolução. O louro enxugou-se com uma das muitas toalhas que estavam disponíveis e deixou o banheiro com uma ao redor da cintura. O moreno continuava atrás da escrivaninha, e os olhos cor de mel o fitaram o tempo todo, vigilantes e atentos. O Guardião da Nuvem deu a volta na cama, entrando no largo closet e não ficando surpreso por ver que tudo estava igual. Ele falou tantas coisas naquele dia, mas minhas roupas continuam aqui. Limpas, passadas e arrumadas. Você é fraco, Cavallone. O esperado de um herbívoro. A escolha para as novas vestimentas foi uma roupa de baixo branca e um confortável pijama de flanela xadrez. O Inspetor de Polícia passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os parcialmente e virando-se para retornar ao cômodo. O homem que o encarava, de braços cruzados e olhos sérios, todavia, não parecia disposto a deixá-lo seguir.


"O que você faz aqui?"


"Trocando de roupa. Achei que a ação falasse por si."


"Eu disse que você estava proibido de pisar nesta casa novamente. Eu quero que se retire, por favor." Havia indignação naquele pedido, camuflada por camadas de polidez.


"Não até que tenhamos uma conversa de verdade e não uma brincadeira de criança em que você fala e eu obedeço prontamente." Alaudi caminhou até seu amante e foi difícil passar por ele. Seu corpo arrepiou-se, lembrando-se quem era aquele homem e o que ele significava. As três semanas haviam sido penosas e solitárias, e ter a chance de estar tão próximo era agradável e torturante.


"Não há conversa. Eu disse que infelizmente não tenho mais interesse em vê-lo." O mesmo discurso do escritório cruzou os lábios do Chefe dos Cavallone. As palavras foram exatas, e ditas com o mesmo tom de voz. Como se fossem ensaiadas... "Eu sinto muito, mas apenas não sinto mais o mesmo."


"Eu ouvi você da primeira vez." O louro aproximou-se na cama e deu uma boa olhada no quarto. Tudo estava arrumado e no mesmo lugar, como suas roupas no largo closet.


"Então o que faz aqui?" A voz de Ivan mudou de séria para cínica e naquele momento o Guardião da Nuvem soube que ouviria algum absurdo. "Não diga que se sente solitário? Essas semanas devem ter sido difíceis para você. Se for sexo o que você quer eu ficarei feliz em oferecer, mas desde que vá embora depois."


"Você realmente acha que eu viria até aqui por sexo?" O Inspetor virou-se e ergueu ambas as sobrancelhas. Intimamente ele mordia aquele homem abusado até a morte, mas ele precisava manter as aparências. O moreno não era tão centrado e calmo como aparentava e se havia algo que Alaudi sabia era como tirar aquela pessoa do sério. "Eu não sei o que te faz pensar que passei essas semanas com dificuldades. Antes de te conhecer eu lidava muito bem com minhas necessidades ou tinha quem cuidasse."


A provocação acertou o Chefe dos Cavallone como um tapa na face. A ironia desapareceu por completo e Ivan tornou-se realmente sério. Agora nós poderemos conversar. O moreno passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar, porém, voltando a encarar sua companhia no segundo seguinte. O louro cruzou os braços e permaneceu imóvel, esperando aquele teatro barato terminar.


"Você está mentindo. Não há chances de você ter dormido com outra pessoa." O Chefe dos Cavallone tentava demonstrar superioridade, no entanto, o medo em suas palavras era quase palpável.


"Por quê? Por que você tem homens vigiando todos os meus passos? Eu não vi nenhum dos seus empregados na minha sala durante essas semanas. E preciso lembrá-lo que foi você quem me expulsou da casa? O que eu faço com a minha vida não te diz mais respeito, correto?"


"S-Sim..." Ivan engoliu seco, contudo, seus olhos jamais mentiriam. Eles estavam furiosos. "O que você faz não me diz respeito, então vá embora."


"Eu irei, amanhã pela manhã. Hoje eu passarei a noite aqui."


"Aqui? Impossível! A casa possui dezessete quartos vagos, encontre um ao seu gosto e eu ficarei feliz em pedir que as empregadas o arrumem."


"Eu dormirei neste quarto, nesta cama e se você se sente incomodado eu sugiro que encontre um quarto ao seu gosto." A paciência do Guardião da Nuvem começava a se dissipar. A teimosia de seu amante era simplesmente absurda. "Porque, pelo que ouvi, a casa possui dezessete quartos vagos."


O moreno assistiu atônico ao Inspetor subir na cama e arrastar-se para o seu lado da cama, entrando debaixo dos cobertores, apagando o abajur e cobrindo-se como se nada houvesse acontecido. Alaudi encarava a parede, ciente dos olhos em suas costas, entretanto, fingindo total desinteresse. O Chefe dos Cavallone bufou e entrou no closet com passos pesados e furiosos. Ele então cortou o quarto, após alguns segundos, vestindo um belo pijama negro e apagando as luzes. Os olhos azuis permaneceram abertos o tempo todo, e seu corpo arrepiou-se quando Ivan deitou-se ao seu lado. O cômodo escuro logo se tornou silencioso e o louro sabia que demoraria a dormir. Eu achei que poderíamos conversar como dois adultos, mas eu estava enganado. Ivan é tolo demais.


A pessoa ao seu lado permaneceu imóvel por alguns minutos. Com exceção da incrível familiaridade que sentia o Guardião da Nuvem não teria notado que tinha companhia se o moreno não começasse a se mover, como se o colchão estivesse em chamas. Aquela dança irritante, todavia, durou pouco e a chance que o Inspetor de Polícia tanto esperava estava prestes a acontecer.


"Você estava mentindo, não? V-Você não dormiu com ninguém nesse tempo!"


Alaudi virou-se, não ficando surpreso por ver o Chefe dos Cavallone quase sobre ele. Seus olhos já haviam se acostumado à escuridão, e ele conseguia ver o rosto sério de seu amante.


"Se você sabe disso, então por que pergunta? E se eu tivesse dormido? Você não pensou sobre isso antes de fazer aquele discurso ridículo."


"Eu pensei..." Ivan respondeu baixo, incerto. "Mas eu sabia que você não faria nada..."


A família o trouxe até aquela casa, e a razão seria responsável por guiá-lo durante a conversa que eles teriam, porém, o que fez com que o louro se inclinasse para cima e beijasse o moreno foi simplesmente saudades. Os lábios se encontraram e no mesmo instante o Chefe dos Cavallone deitou-se sobre ele e deslizou a língua para dentro da boca do Guardião da Nuvem, forçosa e necessitada por mais contato. O beijo não foi contido ou reprimido, mas sim intenso. Os dedos se misturavam, tentando despir um ao outro com pressa. Botões foram abertos, outros arrebentados; peças de roupas retiradas de maneira bagunçada, enquanto as mãos tocavam e apertavam, identificando ombros, abdomens e pernas. O Inspetor virou-se, sentando-se sobre o colo de seu amante e retirando a blusa do pijama por cima da própria cabeça. Ivan o envolveu no mesmo instante, retomando o beijo e apertando os mamilos rosados com possessividade até que eles se tornassem vermelhos. As posições se inverteram novamente, no entanto, Alaudi não encostou as costas ao macio colchão. Seu rosto afundou-se no travesseiro, sentindo o cheiro de lavanda e o fraco perfume do moreno.


A calça de seu pijama foi retirada sem gentileza, seguida pela roupa de baixo branca. Os joelhos do louro sustentavam seu corpo, contudo, foi difícil manter-se imóvel quando o Chefe dos Cavallone apoiou-se sobre ele, como um animal sobre a presa. O Guardião da Nuvem gemeu baixo, antecipando os toques e sentindo a pele arrepiada onde as mãos grandes e firmes de seu amante tocavam. Os dentes morderam seu ombro a ponto de fazê-lo gritar baixo. A língua desceu por suas costas, quente e formando um rastro de saliva. Dedos fortes apalparam sua cintura, incitando o pálido e magro corpo que tremia a cada toque. O Inspetor de Polícia apertou a roupa de cama vermelha quando sentiu a língua de Ivan descer por seu quadril e tocar a sua entrada. O gemido que deixou seus lábios foi agudo e cheio de desejo. A carícia tornou-se mais intensa e Alaudi levou uma das mãos até seu membro, masturbando-o no mesmo ritmo que a língua do moreno trabalhava. Por três semanas ele esteve limitado a rápidos momentos de alívio. Nenhum deles, entretanto, chegou próximo à sensação de ser envolvido pelo Chefe dos Cavallone. Ivan poderia estar em todas as suas fantasias, violando-o com pressa no meio da sala de estar, ou amando-o gentilmente sobre a mesa da cozinha... não fazia diferença. Imaginar e possuir eram coisas completamente diferentes.


O louro chegou ao clímax quando seu amante penetrou dois dedos de uma vez. Sua voz tornou-se rouca e seus joelhos quiseram vacilar, todavia, o moreno garantiu que ele não fosse a lugar algum. Os gemidos, porém, não cessaram. O Chefe dos Cavallone não parou o que fazia, adicionando mais um dedo ao calor de sua língua. A tortura, porém, durou pouco. O Guardião da Nuvem sentiu o quadril ser puxado para trás, fazendo seu rosto retirar-se do travesseiro. A ereção o penetrou em um único movimento, sem avisos ou gentileza. As mãos de Ivan subiram pelas costas pálidas e desceram pelos ombros até segurarem ambos os pulsos do Inspetor. Os olhos azuis se arregalaram e Alaudi gemeu alto quando sentiu a segunda estocada. Com suas mãos presas daquele jeito, os movimentos seriam profundos e fortes... do jeito que eu quero.


A cama não rangia devido ao grosso tapete que forrava aquela região. As paredes eram grossas o suficiente para omitir qualquer tipo de som, então, com exceção da vergonha pessoal de deixar que seu amante o ouvisse, nada mais estava no caminho das reações honestas que o louro esboçou. Há muito tempo ele não gemia tão alto, a ponto de sentir a garganta arranhar. Seus braços estavam dormentes e sua ereção retornara minutos depois que o moreno impôs seu ritmo. A voz do Chefe dos Cavallone soava mais contida, no entanto, em alguns momentos ela também ecoou alta e indiscreta. A temperatura do corpo do Guardião da Nuvem tornou-se mais alta, antecipando seu segundo clímax, contudo, foi a vez de Ivan atingir o ápice do prazer, penetrando-o com tanta força que uma lágrima escorreu pelos belos olhos azuis no instante em que ele se sentiu preenchido. O calor do orgasmo o excitou, entretanto, nada se compararia a maneira como o moreno o puxou para trás, grudando os corpos e fazendo com que as costas do Inspetor de Polícia se encostassem ao peitoral do Chefe dos Cavallone. A língua de Ivan subiu pelo pescoço de Alaudi, mordiscando a orelha e gemendo baixo. O moreno desceu a mão até a ereção de seu amante, começando a masturbá-la com pressa. Os olhos azuis se fecharam e o louro apoiou a nuca no ombro esquerdo do Chefe dos Cavallone, permitindo que aquele homem fizesse o que quisesse. Os sons do ato misturaram-se aos suspiros que o Guardião da Nuvem emitia e não foi preciso muito para que o segundo clímax acontecesse, sugando o restante de força que ele pudesse ter.


O Inspetor de Polícia sentiu-se deitado sobre o colchão, todavia, foi preciso alguns segundos até que seus olhos se abrissem. Eles não encontraram o par de olhos cor de mel que tanto procuravam e Alaudi precisou virar-se. As largas costas estavam brilhando de suor, e Ivan estava sentado do outro lado da cama. Por um momento nenhum deles disse nada. O silêncio normalmente nunca incomodava o louro, porém, quando o assunto era seu amante, o silêncio poderia significar muito mais do que paz e tranquilidade. O Guardião da Nuvem virou-se melhor naquela direção, esticando o braço esquerdo e permitindo que as pontas de seus dedos tocassem a pele. Ela estava quente e arrepiou-se ao toque. O moreno virou o rosto e ambos se encararam o máximo que a pouca luz permitia. No entanto, embora não conseguisse ver claramente, o Inspetor sentiu a seriedade que emanava daquele olhar. O Chefe dos Cavallone arrastou-se até ele, ficando por cima e apoiando um dos cotovelos ao lado da cabeça de Alaudi. A mão direita tocou o rosto pálido, descendo pelo queixo e pescoço. Os dedos contornaram a clavícula e só pararam ao tocar o anel pendurado na corrente de ouro, que não deixara o pescoço do louro desde o dia que em que fora colocada, no Natal do ano anterior.


"Eu joguei a minha ao fogo." A voz de Ivan era um sussurro.


"Você pode comprar outra."


"Eu posso?" Apesar da pouca iluminação, o Guardião da Nuvem sabia que o homem que estava por cima estava sorrindo.


"Apenas se você quiser."


"Há dez anos, eu fui atrás de você. Eu descobri aonde você trabalhava e o segui por dias até ter coragem de falar pessoalmente com você." Os dedos voltaram ao rosto do Inspetor, acariciando as bochechas com toques gentis. "Eu fui o primeiro a declarar meus sentimentos e também o primeiro a jogar tudo para o alto. Você não deveria ter vindo, Alaudi. Você deveria ter ficado longe, como eu disse. Eu não consigo pensar objetivamente quando o assunto é você."


Alaudi nunca se sentiu confortável ao ouvir as declarações do moreno. Tempo o ensinou a se acostumar, mas ele ainda não sabia como reagir. A carícia em seu rosto havia acalmado seu corpo e o ar entrava normalmente por seus pulmões. Uma de suas mãos subiu pelas costas de seu amante, somente para senti-lo entre seus dedos.


"Você terá de aprender, pois eu voltei para que tenhamos uma conversa séria. Então, quando tudo isso terminar, quando cada culpado for devidamente mordido até a morte, compre outra corrente e a mantenha bem presa ao seu pescoço, porque é onde ela deve ficar."


"Morder até a morte?" Havia graça na voz do Chefe dos Cavallone.


"Você entendeu..."


Ivan soltou uma risada baixa, inclinando-se e beijando os lábios do louro. As línguas se encontraram, a princípio com delicadeza, contudo, logo o beijo tornou-se profundo e longo, como quase todos os beijos que trocavam. O moreno deitou-se sobre ele, fazendo-o intensificar ainda mais a carícia.


"Cansado?" Os lábios do Chefe dos Cavallone tocaram a orelha direita do Guardião da Nuvem.


"Você sabe que não."


Com uma das mãos o Inspetor de Polícia tocou o rosto de Ivan e voltou a beijá-lo. A outra, entretanto, desceu furtivamente, tocando a nova ereção de seu amante algumas vezes até guiá-la na direção de sua entrada. O membro entrou devagar, diferente da maneira forçosa e apressada de outrora. Os lábios se afastaram e a respiração de Alaudi tornou-se agitada. O moreno depositou um gentil beijo na testa do louro antes de se erguer parcialmente, apoiando as mãos ao redor do rosto do homem que estava por baixo e penetrando-o novamente. O Guardião da Nuvem mordeu o lábio inferior, tentando manter-se impassível. A terceira estocada roubou um gemido contido, e o Inspetor desistiu de tentar controlar suas reações. As pernas envolveram a cintura do Chefe dos Cavallone, diminuindo a distância entre eles e fazendo com que o membro o penetrasse mais profundamente. Os olhos azuis, todavia, permaneceram abertos. Eles estavam completamente hipnotizados pelos olhos cor de mel que o fitavam com o amor e a doçura que Alaudi tanto ansiou naquelas três semanas, e que em momento algum ele duvidou que existissem.


x


A mão que envolvia suas costas era grande e pesada. O peitoral que o louro usava como travesseiro era firme e bem definido, embora ele nunca houvesse presenciado seu amante praticar exercícios físicos. As batidas do coração eram música para os ouvidos do Guardião da Nuvem e ele estava naquela posição há alguns minutos. Hábito o fez acordar cedo; o céu tornando-se claro e o frio da manhã o faziam lembrar que a lareira havia se apagado no meio da noite. Não que eu pudesse ter notado. O Inspetor de Polícia moveu-se um pouco, o suficiente para ver o relógio que sempre ficava sobre o seu lado da cama. Intimamente ele queria permanecer um pouco mais nos braços de seu inconsciente amante, mas havia uma endiabrada garota de cabelos vermelhos esperando-o para o café da manhã.


"Você já vai descer?" A voz de Ivan soou rouca e baixa. Os olhos cor de mel continuavam fechados e ele parecia falar enquanto sonhava.


"Sim, eu prometi fazer companhia à Catarina."


Alaudi sentou-se na cama, coçando a nuca e sentindo os cabelos bagunçados. O moreno rolou na cama, abraçando-o por trás, porém, voltando a dormir no mesmo instante. O louro desvencilhou-se dos braços de seu amante, levantando-se e espreguiçando-se longamente. Ele vestia apenas a parte de cima do pijama negro do Chefe dos Cavallone e seus passos até o banheiro foram vagarosos e sonolentos. Nós não tivemos tempo de conversar sobre tudo. O Guardião da Nuvem despiu-se e seguiu até o box. A água quente bateu em seu rosto, no entanto, foram necessários alguns minutos até que ele abrisse os olhos e percebesse que cochilava em pé. Na noite anterior, depois da acalorada discussão os dois precisaram adiar a conversa. E, quando estavam exaustos, ambos dormiram no meio do assunto, então, indiretamente a conversa seria reservada para aquele dia. O banho foi longo, contudo, não foi suficiente para afastar o sono e o Inspetor pegou-se vestindo a camisa e a calça ao contrário ao chegar ao closet. A troca de roupas demorou mais do que o esperado e, antes de deixar o quarto principal, Alaudi lançou um último olhar para o atraente homem que dormia nu na larga cama. Os cobertores omitiam o que deveria ser omitido, deixando abdômen e peitoral à mostra. E por um momento o louro desejou ainda estar sobre a cama, ouvindo as batidas do coração e o som da respiração de Ivan, enquanto esperaria pacientemente que seu amante acordasse para que pudessem passar o dia entre gemidos e suspiros. Aquela manhã perfeita, entretanto, precisaria ser adiada.


Catarina estava em seu lugar quando o Guardião da Nuvem entrou na sala de jantar. No prato da garota havia vários pedaços de mamão cortados em cubos. O braço esquerdo ainda repousava sobre a faixa presa em seu pescoço, todavia, a mão direita trabalhava com habilidade.


"Você parece estar com sono." A ruiva disse ao avistá-lo. O Inspetor de Polícia depositou um gentil beijo nos cabelos vermelhos antes de se sentar. "Pappà o fez dormir no sofá?"


"Não, eu apenas estou um pouco cansado por causa do trabalho." Alaudi encheu a xícara com café, sabendo que precisaria despertar o quanto antes. "Como está o seu braço?"


"Melhor. Enrico disse que precisarei ficar com a faixa por mais duas semanas."


"Enrico?" O louro virou-se para sua companhia, surpreso.


"Foi Enrico quem enfaixou meu braço." Catarina ergueu um pouco o braço esquerdo. "Ele estava irritado, mas Ottavio disse que ele fez um bom trabalho."


"O que houve?" O Guardião da Nuvem mordiscou um pedaço de pão. Era difícil imaginar o filho do médico da Família irritado. Enrico e Giuseppe tinham personalidades opostas, mas no quesito tranquilidade eram semelhantes e, apesar de já ter visto o Braço Direito de Francesco perder a cabeça, Enrico ainda possuía a imagem de genuína paciência.


"Ele me deu um sermão mais longo do que o de Pappà e disse que não falará comigo até que eu repense o que fiz." A ruiva deu de ombros. "Enrico é estúpido e eu não me importo de não falar nunca mais com ele."


"Enrico é seu amigo e você irá se desculpar." O Inspetor de Polícia ergueu uma sobrancelha e a garota suspirou. "Ele provavelmente estava preocupado."


Catarina falou sobre a discussão entre Francesco e Ivan, além de mencionar que o irmão passou a noite da queda na cabeceira da cama, embora não fosse necessário. Alaudi ouviu tudo, e só falou ao final. A ruiva não gostou da ideia de se desculpar, mas era difícil dizer não para o louro. Persuasão era seu forte, apesar de que ele geralmente utilizava uma arma e seu par de algemas como motivação. Com a pequena tudo o que ele precisou foram argumentos fortes e válidos, e a garota prometeu que pediria desculpas.


"As coisas retornarão ao normal, então nada de escapadas durante a noite. Em algumas semanas eu a levarei para passar um fim de semana em minha casa, mas apenas se você se comportar."


"Você prometeu isso da última vez e depois sumiu por três semanas." Os dois haviam deixado a sala de jantar e cruzavam o hall.


"Eu continuo mantendo a minha promessa." O Guardião da Nuvem tentava soar confiante, mesmo sabendo que havia falhado. "O que acha de tomarmos um pouco de sol no jardim?"


"Eu não posso pisar fora da casa." A garota revirou os olhos.


"Hm..." O Inspetor levou a mão ao queixo, abaixando os olhos e estudando sua companhia. "Certo, então vamos sentar nos degraus da entrada. Você continuará na mansão."


O sorriso travesso cruzou os lábios de Catarina e ambos deixaram o hall, sentando no primeiro degrau da escadaria de mármore. O sol demoraria alguns minutos para chegar até ali, porém, nenhum deles parecia se importar com a espera. Alguns subordinados que passavam pelo jardim acenavam, enquanto outros se aproximavam e perguntavam sobre a saúde da ruiva. A garota respondia com entusiasmo, rindo das piadas e prometendo que não faria novamente. Os primeiros raios de sol finalmente iluminaram o local e coincidiu com a chegada de Giuseppe e Mario. Os dois Braços Direitos saíram do carro e caminharam lado a lado. O ruivo desejou um animado bom dia para Catarina, bagunçando seus já bagunçados cabelos e lançando um olhar surpreso para Alaudi. Ambos se encararam e tudo o que o louro fez foi menear a cabeça em positivo. A resposta pareceu satisfazer o ruivo, pois ele entrou no hall sem nenhum outro comentário. O jovem homem de cabelos louros perguntou se poderia se juntar a eles, sentando-se ao lado da pequena. O ambiente tornou-se mais agradável e animado, e o Guardião da Nuvem sentiu-se contente ao ver Catarina conversando alegremente com o Braço Direito do futuro Chefe.


O herdeiro juntou-se a eles após meia hora, no entanto, foi arrastado por Giuseppe para a sala de jantar. "Você não pode pular refeições, Chefe. Se quiser tomar sol então faça isso depois do café da manhã." Francesco seguiu o louro sem pestanejar, contudo, o Braço Direito precisou prometer que lhe faria companhia.


"Acredito que agora seja hora de você falar com seu pai, Catarina." O Inspetor ficou em pé.


"A-Agora?" As sobrancelhas se juntaram, incertas.


"Ele já está acordado." O quarto principal era o único com vista para a parte frontal da mansão, e tudo o que Alaudi precisou fazer foi apontar para a janela aberta no alto do seu lado direito.


A ruiva levantou-se e lançou um último olhar na direção do louro, esperando alguma espécie de salvação. Um longo suspiro deixou seus lábios ao não encontrar o que buscava e a garota entrou na mansão de ombros baixos e a cabeça pendendo para o lado esquerdo. O Guardião da Nuvem a acompanhou até a escadaria, entretanto, o restante do caminho Catarina fez sozinha. O Inspetor de Polícia então deu meia-volta, todavia, parou ao notar que tinha companhia.


"Você parece bem para alguém que dormiu no sofá." A voz rouca ecoava junto com os sapatos negros. "Ou conseguiu ter o privilégio de ir para a cama?"


"Diga o que quer e vá embora." Alaudi respondeu sem emoção. Era difícil acreditar que ele devia um favor para aquela criatura insolente.


"Eu vim apenas devolver algo que não me pertence." Mario enfiou a mão dentro do terno negro e retirou um envelope branco. "Acredito que isso pertença a Ivan."


"Por que você mesmo não entrega?" Os olhos azuis se apertaram. Aquilo era suspeito. O ruivo era insolente e sem limites, então por que de repente tornou-se casto e retraído?


"Porque o efeito não seria o mesmo." O Braço Direito balançou o envelope até que ele fosse finalmente segurado. "Não se esqueça de mencionar quem foi o responsável por entregar-lhe isso. Eu estou apenas salvando minha própria pele do esporro que levarei por tê-lo trazido aqui."


Mario acenou e deixou o hall, fechando a porta e sumindo de vista. O envelope estava pesado e não havia selo ou lacre. O conteúdo foi depositado em sua mão e o louro ficou surpreso. Tanto a corrente dourada quanto o anel estavam intactos. O Insolente manteve isso guardado por todo esse tempo? O Guardião da Nuvem encarou a porta por onde o ruivo saíra, e seus olhos se apertaram como duas pequenas fendas. Ele havia conquistado outro favor e aquilo o deixava irritado. Eu preciso encontrar uma maneira de pagar. Ficar em débito com aquela criatura é a última coisa que quero para minha vida. A corrente retornou para o envelope e o Inspetor o colocou no bolso de sua camisa. Barulhos de vozes no andar de cima o fizeram virar o rosto, ficando satisfeito por ver o moreno descer as escadas de mãos dadas com Catarina. A garota parecia ainda mais animada e não havia nada no Chefe dos Cavallone que denunciasse que pai e filha não estiveram em bons termos nos últimos tempos. Alaudi permaneceu imóvel, sentindo o coração bater mais rápido quando os olhos cor de mel pousaram em sua pessoa e Ivan desejou-lhe bom dia. Pouco a pouco ele reconquistaria tudo o que havia perdido.


x


A manhã inteira foi dedicada a uma longa conversa no escritório. O louro contou exatamente o que aconteceu na noite em que levou a facada, seu agressor e o que fez naquelas três semanas. O moreno ouviu a tudo, ficando visivelmente irritado na parte sobre o Guardião da Nuvem ter retornado ensanguentado para a sede de Polícia. O Chefe dos Cavallone argumentou que ele não teria tido a mesma sorte se Giulio não estivesse no prédio, e não poupou palavras duras em seu sermão. O Inspetor de Polícia, por sua vez, ouviu a tudo sem pestanejar. No fundo, ele sabia que merecia aquela bronca, pois, felizmente, aquela vida não pertencia somente a ele. Não foi fácil para Alaudi sair de sua confortável posição, mas as últimas semanas foram longas e solitárias o bastante para que ele tivesse tempo de se colocar no lugar de seu amante. Fosse Ivan a sofrer o atentado, o louro provavelmente teria agido muito pior. Eu tenho certeza de que ele se controlou para não fazer nenhuma besteira e esse é o único motivo que me faz escutar a tudo sem replicar. O momento do moreno terminou em poucos minutos e ele voltou a se sentar na poltrona, soltando um longo suspiro.


"Apenas me prometa que tomará cuidado daqui em diante. Eu infelizmente não posso estar com você todos os dias e a todo tempo."


"Mas você tem garantido que seus empregados façam isso." O Guardião da Nuvem levantou-se.


"Eles são meus olhos quando estamos distantes. Eu mandaria Mario fazer o trabalho pessoalmente se eu não precisasse dele ao meu lado."


"Se você enviar aquele insolente eu juro que mordo os dois até a morte." O Inspetor apertou os olhos. Aquilo era ridículo. A última coisa que ele precisava era ser seguido por aquele homem.


O Chefe dos Cavallone riu baixo e Alaudi sentiu-se bem ao notar que aquela conversa não terminaria com gritos e discussões. Seus sapatos tocavam o tapete escuro que forrava boa parte do escritório, levando-o até uma estante de livros.


"Eu tenho certeza de que o Chefe Principal ordenou o ataque." O louro encarava os títulos, sentindo-se satisfeito por ter conhecimento de todos os exemplares.


"Isso te chateia?" A voz de Ivan veio de longe.


"Não como eu esperava." O Guardião da Nuvem abaixou os olhos. Ele sabia que deveria se sentir traído e apunhalado pelas costas. O homem que lhe ofereceu seu emprego e a chance de crescer era a mesma pessoa que enviou o Braço Direito para fazer o trabalho sujo. Eu deveria me importar, mas não consigo. "Através das investigações feitas por Giulio eu soube que ele tem se encontrado com pequenos grupos mafiosos franceses."


"Eu sei. Eles têm interesse em tomar o meu lugar e o dos Vongola. Mas a Itália é nossa. Nenhuma Família, grande ou pequena, vai conseguir desfazer os laços e conexões que temos." O moreno permaneceu em silêncio e isso fez com que o Inspetor de Polícia se virasse, não ficando surpreso por ver-se observado. "Nós teremos de derrubá-lo, Alaudi, e eu preciso saber se posso contar com o seu apoio."


"Eu preciso responder agora?"


"Não." O Chefe dos Cavallone sorriu, esticando a mão e o chamando. Alaudi relutou um pouco, porém, aproximou-se displicentemente. Ivan revirou os olhos, rindo e o puxando com mais força até colocá-lo em seu colo. "Existe mais alguma coisa que eu precise saber? Eu já te contei tudo o que sei e quais são meus planos."


"Eu preciso resolver algumas coisas antes de dar minha resposta. Eu a terei no final de semana."


"Isso significa que você retornará?"


"Não me faça repetir minhas próprias palavras. Você é estúpido?" O louro segurou as bochechas de seu amante, apertando-as devagar.


"E-Eu só queria ter certeza." O moreno riu e esticou a mão, segurando o queixo do Guardião da Nuvem e trazendo o rosto um pouco para baixo. "Depois do almoço iremos para o quarto. Eu quero passar a tarde com você."


"Eu tinha planos de ficar com Catarina."


"Catarina está de castigo." O Chefe dos Cavallone não parecia realmente sério quanto àquela parte. "E hoje ela tem aula com Giuseppe."


"E se eu quiser fazer companhia? Acredito que Giuseppe não se importará."


"Você é tão cruel, Alaudi." Os lábios se aproximaram devagar e o corpo do Inspetor se arrepiou ao sentir a respiração de seu amante tão próxima. "Não acredito que você trocará uma tarde comigo, em que roupas não estarão incluídas, permita-me lembrá-lo, para ouvir sobre poesia. Eu posso recitar alguma coisa se quiser, mas apenas se suas roupas também estiverem no chão."


Alaudi tinha a resposta certa para aquele tipo de insinuação, no entanto, não teve a oportunidade de oferecê-la. A porta foi aberta após três rápidas batidas e o louro se pôs de pé, como se sempre estivesse estado naquela posição.


"Desculpe interrompê-los." A cabeça do rapaz de cabelos castanhos surgiu no vão da porta. A de Catarina apareceu mais embaixo e ela acenou com a mão livre. "Mas eu vim chamá-los para o almoço."


O Guardião da Nuvem aproximou-se e esboçou um meio sorriso ao abrir melhor a porta. A ruiva ofereceu a mão, que foi aceita no mesmo instante. Ivan veio logo atrás, acompanhado pelo filho. O Inspetor de Polícia virou-se um pouco, notando como aquele dois eram parecidos. Em semanas o futuro Chefe crescera ainda mais, e certamente atingiria a altura do moreno muito em breve. Lado a lado eles pareciam quase idênticos. Nós precisaremos conversar sobre essa ideia de casamento, o assunto surgiu rapidamente durante a manhã e Alaudi decidiu deixar a conversa para outro momento. Francesco é muito novo. Se ele realmente gosta da garota e quiser se comprometer, que espere um pouco mais. A voz de Catarina chamou sua atenção e o caminho até a sala de jantar foi animado.


O prato principal do almoço seria ravioli ao molho branco, um dos pratos favoritos do louro, e ele sabia que a escolha havia sido proposital. Giuseppe e Mario não se juntariam a eles durante a refeição — esse último jamais seria bem-vindo, de acordo com o Guardião da Nuvem, contudo, o Braço Direito de Francesco era sempre companhia agradável. A garota ruiva conseguia espetar seus raviolis, então não foi preciso ajudá-la com os talheres. O Chefe dos Cavallone perguntou ao filho sobre os planos para aquela tarde e recebeu em troca alguns segundos de silêncio até o herdeiro responder que planejava visitar Enrico.


"Tome cuidado se for levar um dos cavalos e peça para Giuseppe te fazer companhia." Ivan encheu a taça do louro com vinho branco.


"Certamente." O herdeiro sorriu e meneou a cabeça em positivo. "Eu estou pensando em convidá-lo para passar o final de semana. Haveria algum problema?"


"Hm..." O moreno levou o garfo aos lábios e encarou o Inspetor de Polícia. "Alguma objeção?"


"Nenhuma." Alaudi respondeu baixo, lançando um furtivo olhar na direção da pessoinha sentada ao seu lado. "Catarina poderá usar o final de semana para se desculpar, pois seria muito cruel com Enrico esperar três meses pelo pedido de desculpas."


A garota ergueu os olhos castanhos e soltou um longo suspiro. O rapaz de cabelos castanhos riu baixo e até mesmo o Chefe dos Cavallone esboçou um sorriso. A única pessoa que parecia não ver graça na situação era a própria Catarina, que possuía um orgulho grande demais para alguém tão pequeno. O restante da refeição foi passado com conversas paralelas, basicamente entre o futuro Chefe e Ivan. O louro limitou-se a comer, saboreando um dos seus pratos favoritos e bebericando um pouco do excelente vinho. Aquela era provavelmente a primeira vez em semanas que ele comia com tanta vontade. Enquanto permaneceu longe, dedicando-se ao trabalho, o Guardião da Nuvem mal teve tempo de sentar para comer. As refeições eram feitas geralmente em sua sala, e somente porque Giulio se dava ao trabalho de ir buscar alguma coisa. Se não fosse por ele eu teria morrido de fome. Em um daqueles dias, no fim do expediente, o Vice-Inspetor o arrastou até sua casa e cozinhou para ele. Os dois comeram risotto de camarão enquanto conversavam sobre bobagens da vida. Aquela hora foi relaxante, embora o Inspetor tenha falado muito pouco. Giulio basicamente falou sobre Mario e que não sabe o que fazer para se aproximar. Eu esperei anos por esse momento, mas por que não me sinto satisfeito?


A sobremesa seria torta de limão, e dessa vez a ruiva permaneceu até o fim. Catarina não era muito fã de doces, entretanto, tortas de limão eram sempre exceções. Alaudi provou um pedaço, suspirando satisfeito ao término. As refeições feitas naquela casa eram simplesmente incríveis e, quando precisava retornar para sua própria residência, o louro se sentia desmotivado a cozinhar para si, exatamente porque sabia que não conseguiria atingir aquele nível de satisfação. O herdeiro foi o primeiro a ficar em pé, seguido pela irmã. A ruiva perguntou se poderia ir até o jardim procurar Giuseppe, todavia, recebeu apenas um menear de cabeça negativo por parte do moreno.


"Não acredito que você está sendo firme com o castigo. Estou admirado." O Guardião da Nuvem se levantou, colocando a cadeira no lugar. "Achei que desistiria na primeira vez que ela piscasse aqueles longos cílios vermelhos."


"Hahahaha acredite, está sendo difícil." O Chefe dos Cavallone deu o último gole em sua taça antes de se pôr de pé. "No começo eu achei que conseguiria, mas faz dois dias e eu já estou cogitando perdoá-la. Catarina adora passeios e detesta ficar trancada dentro de casa, porém, ela tem que entender que o que fez foi errado."


"Hm..." O Inspetor de Polícia juntou as sobrancelhas e permaneceu alguns segundos pensativos. "O que acha de deixá-la acompanhar Francesco no passeio desta tarde? Catarina é orgulhosa e, embora adore passeios, deixe claro que ela irá unicamente para se desculpar com Enrico. Pelo que ouvi o rapaz está realmente bravo e talvez isso a ajude a perceber o que fez. Aliás, o que você fez com o cavalo de Catarina?"


"Nada. Eu não sacrificaria um cavalo porque minha filha decidiu fugir de casa. Ele não tem culpa se a dona é inconsequente." Os dois caminharam poucos passos, mas Alaudi parou ao sentir duas grandes mãos em sua cintura. "Eu gosto dessa sua ideia."


"O que você está fazendo?" O louro tocou o peito de seu amante, tentando se afastar, mas Ivan intensificou o aperto.


"Eu? Nada, apenas abraçando-o."


"Estamos na sala de jantar, comporte-se." O Guardião da Nuvem fez menção de continuar a andar.


"Por que você não pode ser um pouco mais doce, Alaudi?" O moreno fingiu seriedade. Os olhos cor de mel sorriam.


"Se você quer açúcar então deveria ter se servido de um pedaço de torta. Estava deliciosa."


"Eu não preciso de tortas. A sobremesa que eu quero não poderia ser servida em um prato." A voz do Chefe dos Cavallone tornou-se baixa e ele depositou um sagaz beijo no pálido pescoço do Inspetor de Polícia. "Você não tem ideia de como foi difícil permanecer no escritório sem poder fazer nada. Eu pensei várias vezes em esquecer tudo e atacá-lo."


"Você teria levá-lo uma surra se tentasse." Alaudi tentou novamente se soltar. Se ao menos ele conseguisse pegar as algemas dentro de um dos bolsos de sua calça...


"Não vamos falar sobre coisas ruins como surras, por favor." Ivan revirou os olhos. Os lábios se aproximaram e por um momento o louro achou que seria beijado, porém, a boca de seu amante encostou-se ao seu ouvido direito. "As coisas que eu farei com você quando subirmos..."


O aviso foi seguido pela furtiva mão do moreno, que apalpou seu quadril sem nenhum aviso, fazendo-o inclinar-se para frente por puro reflexo. Os lábios do Chefe dos Cavallone o esperavam, roubando-lhe um ousado beijo. O Guardião da Nuvem arregalou os olhos, tentando empurrá-lo, no entanto, apenas fazendo com que os braços ao redor de seu corpo se tornassem mais apertados. A luta durou alguns segundos, até que o Inspetor fechasse os olhos. Suas mãos subiram pelo peito de seu amante, entrelaçando o pescoço e ficando nas pontas dos pés. O beijo tornou-se longo e intenso, e tinha gosto de vinho e torta de limão. O rosto de Alaudi havia se tornado quente e as línguas se encontravam com gentileza e paixão...


"Eca..."


A voz veio da esquerda, ele sabia.

O louro afastou-se às pressas, levando a mão à boca e ficando violentamente corado ao notar que tinha companhia. A dona da voz foi a primeira a entrar em seu campo de visão. Catarina tinha uma careta em seu belo rosto e olhava do moreno para o Guardião da Nuvem. Francesco estava atrás da irmã, sobrancelhas erguidas, contudo, não parecia surpreso ou enojado. E, por último, com o rosto absurdamente corado e sem coragem de fazer contato visual, estava Giuseppe, que provavelmente sentia vergonha por todos os presentes.


"Por que você estava colocando a língua dentro da boca de Alaudi, Pappà?"


O Inspetor de Polícia encarou o Chefe dos Cavallone por puro reflexo. Ivan estava um pouco corado, entretanto, apenas passou a mão pelos cabelos e sorriu.


"Q-Quando duas pessoas se gostam elas fazem isso."


"Não, não fazem." A careta tornou-se mais constante. "Por que alguém faria isso? Por que não colocar uma torta de limão ou pudim? Eca, eca, eca!"


O rapaz de cabelos castanhos riu alto, colocando a mão no ombro da irmã, apenas para receber um tapa. A ruiva afastou-se e olhou para os presentes com receio.


"Eu nunca vou deixar ninguém colocar a língua na minha boca. Isso é a coisa mais nojenta que já vi na vida! Eu terei pesadelos por causa disso."


A garota lançou um pesado olhar antes de cobrir a boca com a mão direita e correr para fora da sala de jantar. O futuro Chefe riu, desculpando-se e seguindo a irmã. Giuseppe não conseguiu dizer nada e sua despedida teria sido uma polida reverência se Ivan não o tivesse chamado. O pobre homem de cabelos louros retornou, todavia, sua timidez era tanta que Alaudi achou melhor intervir.


"Leve Catarina com vocês, mas deixe claro que ela irá somente para se desculpar com Enrico."


"S-Sim." Os olhos verdes se ergueram momentaneamente e o Braço Direito esboçou um meio sorriso trêmulo. "Desculpe e c-com licença."


O moreno soltou uma alta gargalhada quando estavam novamente sozinhos, calando-se assim que o louro pisou em seus pés com gosto.


"A culpa é sua."


"Minha? Eu nos fiz um favor." O Chefe dos Cavallone tornou-se estranhamente sério. "Vamos torcer para que Catarina mantenha a promessa de não querer saber de beijos. O dia em que ela começar a reparar em rapazes será o começo do fim. Você consegue imaginar? A casa cheia de pseudo-pretendentes querendo colocar suas mãozinhas sujas na minha pequena? Escrevendo poemas melosos cujo único objetivo é você-sabe-o-quê? Jamais!"


O Guardião da Nuvem ponderou por um momento, precisando reconhecer que seu amante tinha razão.


"Eu garantirei que nenhum rapaz se aproxime." Eu sou a lei. Eu posso fazer isso.


"Vê? Eu fiz um favor a todos nós." Ivan aproximou-se e depositou um delicado beijo na bochecha de seu amante. "Suba na frente e me espere. Eu irei em seguida."


"Achei que houvesse desistido dessa ideia." Os olhos azuis se apertaram como duas finas linhas. "Não somos jovens para ficarmos passando tardes em cima de camas. Temos assuntos mais urgentes a tratar."


"Desistir? Eu estou mais decidido do que nunca." O moreno ofereceu uma piscadela. "E você tem sorte de não termos nos conhecido na minha juventude. Eu teria te dado trabalho."


"Você continua me dando trabalho." O Inspetor fez o possível para não sorrir. Ele gostava daquelas conversas tolas e sem sentido, embora não houvesse real necessidade de elas existirem. "Eu subirei, mas aviso que não compactuo com essa sua ideia."


"Apenas suba. Eu tentarei persuadi-lo!"


As palavras foram cantadas e Alaudi deu as costas, deixando a sala de jantar. Nem os herdeiros e nem Giuseppe estavam no hall e o suspiro que deixou seus lábios foi de puro alívio. Que absurdo. Eu deixei minha guarda baixa. O louro era extremamente discreto e evitava até mesmo conversas sussurradas com o Chefe dos Cavallone quando estava na mansão, exatamente para não correr o risco de encontrarem com alguém. Eu tenho certeza de que Catarina não esquecerá esse assunto tão cedo. Eu só espero que ela não resolva lembrar-se disso em algum momento inoportuno. A longa escadaria foi transposta e o Guardião da Nuvem surpreendeu-se por não estar tão preocupado quanto deveria. Depois da conversa no escritório, o Inspetor de Polícia sentia como se um peso fosse retirado de suas costas. O problema estava longe de ser resolvido, mas ele havia tomado sua decisão, porém, por hora, o que restava fazer era dançar conforme a música.


As janelas do quarto estavam abertas, deixando que o ar circulasse pelo cômodo. Alaudi entrou e fechou a porta, caminhando na direção da cama e engolindo seco. O comentário que Ivan havia dito cantou novamente em seus ouvidos, fazendo-o lembrar-se de sua época de juventude. O louro costumava ser um exemplo de virtude. Ele nunca havia frequentado bares, festas ou qualquer tipo de evento social. Giulio sempre foi sua única companhia constante, e o Guardião da Nuvem passou boa parte da vida sem conhecer a sensação do toque de outra pessoa em seu corpo. E, depois que conheceu, sua opinião continuou a mesma. Ninguém conseguira mudar seus paradigmas ou questionar seus conceitos até a chegada do moreno. O barulho da porta sendo aberta chamou a atenção do Inspetor, que virou o rosto e engoliu seco ao ver o moreno trancando-a.


"Achei que já estaria me esperando debaixo dos cobertores."


"Você tem expectativas absurdas." Alaudi desviou os olhos, tentando ignorar os passos que eram dados em sua direção. O Chefe dos Cavallone parou em frente a ele, esboçando um largo sorriso. A mão direita ergueu o queixo do louro e os dedos desceram até a nuca, inclinando-a para trás.


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"Na verdade eu prefiro quando você é um pouco mais arisco."


O Guardião da Nuvem arregalou os olhos, surpreso com a facilidade com que aquele homem teve em envolvê-lo em seus braços. Ivan inclinou o rosto, tocando os lábios do Inspetor antes de beijá-lo profundamente. Alaudi ainda tentou se afastar, no entanto, qualquer fio de esperança havia sido quebrado quando o moreno deslizou a mão livre para dentro da calça escura que o louro vestia, tocando-o com vontade. O Guardião da Nuvem gemeu entre o beijo e fechou os olhos. Ele sabia que não conseguiria lutar contra aquele homem, ainda mais quando cada fibra de seu corpo queria aquilo.


x


O dia tornou-se escuro do lado de fora da janela e o Inspetor não percebeu. Há muito tempo ele não sabia o que era esquecer momentaneamente os problemas e simplesmente passar uma tarde nos braços de seu amante. O Chefe dos Cavallone cumpriu o que prometeu, e durante horas Alaudi deixou que sua voz ecoasse pelo quarto, enquanto seu corpo provava o homem que ele havia escolhido. O seu amante. E, então, quando nenhum deles parecia conseguir mover um único músculo, ambos permaneceram deitados, um nos braços do outro, conversando sobre Francesco e Catarina, e o que fariam quando todos os problemas sérios fossem resolvidos. O louro nunca foi uma pessoa apta a fazer planos. Ele sempre fora realista demais para acreditar em futuro brilhante ou ideias otimistas. Contudo, ouvir Ivan o incluindo em seus planos e pedindo sua opinião, o faziam sentir parte de alguma coisa. O fazia sentir em casa.


"Você deveria ter sido escoltado por Giuseppe ontem à noite." O moreno sentou-se na cama enquanto colocava os sapatos. "Mas Mario disse que iria no lugar no irmão. Você acredita que ele disse que fez isso, porque temia que eu ficasse bravo com Giuseppe? Ele até mencionou que o irmão acabaria chorando se isso acontecesse."


"Você não gritaria com Giuseppe." O Guardião da Nuvem já estava perfeitamente vestido: calça creme e uma camisa branca. Ele não gostava de roupas claras, pois o deixavam ainda mais pálido, entretanto, o tecido da calça era um pouco mais grosso e a camisa tinha um belo detalhe que lembrava um pássaro. O Inspetor amava pássaros. O banho que compartilharam havia sido relaxante e ele se sentia novo em folha. "Ninguém teria coragem de gritar com Giuseppe... é impossível." As sobrancelhas se juntaram e Alaudi tentou imaginar se alguém conseguiria levantar a voz para alguém tão... gentil.


"Não é? Eu disse o mesmo para Mario e ainda afirmei que me senti ofendido. Eu jamais faria isso. Giuseppe é... diferente. E eu tenho certeza de que ele acabaria chorando, o que torna tudo pior."


"O único que eu acredito ser capaz de fazer isso é Francesco, mas tenho uma leve desconfiança de que Giuseppe acabaria revidando fisicamente." A cena na sala de jantar retornou imediatamente à sua mente e o louro pôde ouvir o tapa ecoar oco em seus ouvidos. "Ele é perfeito para Francesco. Nenhuma outra pessoa teria paciência para lidar com um jovem tão... jovem."


"Mario costumava me colocar na linha, então eu confio em Giuseppe." O Chefe dos Cavallone levantou-se e caminhou até o closet apenas para uma última olhada no gigantesco espelho. "Pronto?"


"Eu estou apenas te esperando."


O Guardião da Nuvem pegou o sobretudo de cima da poltrona e deixou o quarto ao lado de seu amante. Ivan o segurou pela mão, prometendo soltá-la assim que chegassem à sala de jantar. Ao descerem, eles viram que o herdeiro estava em seu lugar habitual, acompanhado por Giuseppe e Mario. O Inspetor tentou evitar encarar aquela pessoa, indo para o seu assento e estranhando ao não ver Catarina à mesa.


"Onde está sua irmã?" O moreno juntou as sobrancelhas, colocando o guardanapo sobre o colo.


"Ela desceu, mas subiu porque foi buscar um casaco." Francesco respondeu antes de bebericar um pouco da água que estava em seu copo.


"E como foi a visita a Enrico?"


"Se você quer saber se ela se desculpou, então a resposta é sim." O rapaz de cabelos castanhos abriu um largo sorriso. "Mas Enrico não a desculpou e Catarina passou a tarde tentando agradá-lo."


"Isso é... cruel." Alaudi ficou sério. Aquilo não fazia parte do plano.


"Não, não, ele a desculpou antes de voltarmos. Enrico jamais seria cruel com qualquer pessoa." O futuro Chefe adiantou-se em tomar o partido do amigo. "Na verdade, eu acho que ele nem ao menos estava chateado, só queria ver até onde Catarina iria. Enrico ficou realmente preocupado quando soube que ela havia caído."


O assunto da conversa chegou minutos depois trajando um casaco tão vermelho quanto seus cabelos. Havia um largo sorriso em seus lábios e a garota sentou-se com barulho em sua cadeira, agradecendo quando o irmão a serviu. Os pedaços de carne já estavam cortados, o que facilitaria a situação da ruiva.


"Mario, eu sei como posso te ajudar." A refeição já havia começado quando a voz de Catarina fez com que todos erguessem os olhos de seus pratos.


"É mesmo, Bambina?" O ruivo limpou o canto da boca e ergueu as sobrancelhas fingindo surpresa. "Permita-me perguntar primeiramente em que poderei utilizar a sua valiosa ajuda."


"Eu pensei muito a respeito durante a tarde. Enrico me obrigou a ajudar a mãe dele com biscoitos, então eu tive tempo para pensar." A garota ofereceu um sorriso maldoso. "Eu sei que você e Giulio ainda estão brigados, porque ele nunca mais apareceu, então eu pensei na solução perfeita!"


Por um momento a mesa tornou-se desconfortavelmente silenciosa. O louro encarou o Braço Direito, esperando ver aquela pessoa oferecer qualquer tipo de expressão irritada. O restante dos presentes, com exceção de Catarina, parecia compartilhar da mesma opinião. Giuseppe engasgou com alguma coisa, tossindo baixo. Todavia, Mario não demonstrou nada além da mesma expressão curiosa.


"E o que me sugere, Bambina?"


"Você só precisa beijar o Giulio! Como um beijo de adultos, com a sua língua..."


As risadas aconteceram ao mesmo tempo, formando um estranho dueto. O herdeiro jogou a nuca para trás, gargalhando tão alto quanto o ruivo. O Chefe dos Cavallone havia derrubado o garfo e o louro não sabia como reagir. Giuseppe tossiu mais alto, visivelmente mais engasgado. Francesco ficou em pé, dando a volta na mesa e indo ajudar seu Braço Direito, porém, ainda rindo do que acabara de ouvir.


"De onde você tirou isso, Bambina? Quem foi que te falou tal coisa?" Mario enxugou uma lágrima que escorria por seu olho esquerdo.


"Eu vi Pappà fazendo isso com Alaudi. Ele disse que quando as pessoas se gostam elas fazem isso. Eu acho nojento, mas se funciona, então..." A garota deu de ombros.


O rapaz de cabelos castanhos riu mais alto, oferecendo um copo d'água para seu Braço Direito, que tinha os olhos brilhando em lágrimas, não somente por causa do possível pedaço de carne engasgado.


"Eu verei o que farei com essa informação importante, e obrigado pela preocupação." O ruivo sorriu sincero e piscou para Catarina.


A garota sorriu, voltando a comer e sentindo-se triunfante. O futuro Chefe só voltou para o seu lugar depois que o homem de longos cabelos louros lhe garantiu que estava bem. Ivan precisou de alguns momentos para voltar a comer e o Guardião da Nuvem estava tão desconcertado que mal conseguiu tocar na comida. Seu rosto estava quente e por um bom tempo tudo o que ele fez foi encarar seu próprio prato. O herdeiro iniciou uma nova conversa e em segundos a mesa tornou-se animada. O moreno colocou um pouco de purê no meio do prato do louro, fazendo sinal para que ele comesse. É tudo culpa sua! Os olhos azuis se estreitaram e o Chefe dos Cavallone ofereceu um charmoso sorriso, mostrando que não estava realmente preocupado com a situação.


O jantar passou rápido e foi difícil para o Inspetor se ver novamente dentro de seu carro. A despedida foi certamente a pior parte, principalmente com Catarina. A ruiva parecia relutante em deixá-lo ir, e somente soltou suas pernas quando Alaudi prometeu retornar na sexta à noite com uma deliciosa torta de limão. Francesco acenou de longe, dizendo que esperaria vê-lo em breve. Ivan, no entanto, entrou no carro e disse que o acompanharia até o final do jardim. O veículo parou e os dois se despediram com um longo beijo. Longe dos olhares de uma atrevida garotinha, o louro pôde permitir-se ser beijado sem medo de ser visto.


"Eu passarei amanhã no escritório e o levarei para almoçar. Você pode escolher o restaurante."


O Guardião da Nuvem meneou a cabeça em positivo e o moreno desceu do carro. O veículo voltou a andar, seguindo pelo caminho de pedra que o levaria até a saída da propriedade. Os olhos azuis estiveram atentos, encarando o retrovisor até que o dono da mansão saísse do seu campo de visão. O gigantesco portão principal surgiu após alguns minutos e o Inspetor de Polícia respirou fundo. Alaudi precisaria acordar cedo na manhã seguinte, mas havia um lugar que ele deveria passar antes de seguir para casa. E então tudo mudará... novamente.


Sua velha Roma surgiu depois de meia hora na estrada. O louro entrou na cidade, contudo, o caminho que tomou foi outro. Ele raramente fazia aquele trajeto e lembrar-se do local que deveria ser o seu destino nos próximos minutos apenas tornava a situação pior. O Guardião da Nuvem não se lembrava da última vez que encarou aquela rua, exatamente porque os motivos que o levavam a visitar aquela pessoa nunca eram bons. A mansão era localizada afastada do centro, entretanto, não tão excluída quanto a propriedade dos Cavallone. O Inspetor precisou de mais dez minutos até chegar ao seu destino e, quando o veículo foi estacionado em frente ao portão principal, Alaudi soube que não teria volta.


Não houve escolta e ninguém tentou pará-lo, todavia, assim que pisou na mansão um homem de cabelos médios e ruivos aproximou-se. Aquela visão o fez apertar os olhos, lembrando-se automaticamente de Mario. Os dois têm mais em comum do que imaginam. O homem entreabriu os lábios, mas o louro passou por ele, entrando na casa sem esboçar nenhum comentário. O hall estava bem iluminado e o Guardião da Nuvem não sabia se aquilo era sorte ou simplesmente coincidência, pois, quando pisou dentro da mansão, a pessoa que ele procurava surgiu, parado no meio da escadaria.


"Precisamos conversar." Foi tudo o que o Inspetor de Polícia disse.


O homem de cabelos castanhos esboçou um meio sorriso e terminou de descer as escadas, apontando educadamente para um dos lados da casa. Alaudi o seguiu, apertando as mãos e tentando afastar a sensação de desconforto por estar ali. O escritório era grande e bem mobiliado. A lareira estava acessa e o cômodo tinha cheiro de baunilha e madeira queimada.


"A que devo a honra dessa visita tão inesperada?" Giotto encostou-se à sua mesa e cruzou os braços. O sorriso tolo ainda estava em seus lábios.


"Você sabe por que estou aqui."


O louro disse entre os dentes. Ele havia tomado aquela decisão quando o Chefe dos Cavallone o expulsou da mansão, há três semanas. Porém, antes de dar qualquer passo ele precisava colocar sua vida pessoal em ordem. Eu nunca pensei que diria o que direi. Eu nunca pensei que chegaria o dia em que a vida de outras pessoas se tornaria mais importante do que a minha. O Guardião da Nuvem respirou fundo e continuou:


"Eu quero fazer parte da Família." A voz soou alta. Não havia expressão em seu rosto, no entanto, os olhos azuis estavam decididos. "Eu quero fazer parte dos Vongola."


Continua...