VI


O Chefe está te chamando. Ele pediu que você fosse ao escritório."

A xícara foi pousada sobre o pires e Mario ergueu os grandes olhos verdes. Uma mão grande e pesada bateu em seu ombro, seguida por uma risada sarcástica. O ruivo virou o rosto, oferecendo um largo sorriso e inclinando-se para o lado. O pão estava quente, recém-saído do forno e seus dedos pagaram o preço por sua ansiedade. Entretanto, ao sentir a massa tocar seus lábios e derreter em sua boca, o Braço Direito dos Cavallone soube que o sacrifício havia valido a pena.


"Vá falar com seu Chefe e pare de roubar comida." O cozinheiro acertou um tapa rápido na mão de Mario quando ele tentou pegar outro pão doce.


"Eu já vou, já vou!" O ruivo levou os dedos parcialmente queimados até os lábios, sugando-os de leve. "Um homem não pode sequer degustar seu café da manhã. Em que mundo vivemos, meu Deus."


"Um homem não pode sequer invadir a cozinha e furtar a comida, você quis dizer." A voz veio da entrada, do mesmo local em que o subordinado que trouxera a mensagem sairá há alguns segundos. O dono daquela voz ergueu uma fina sobrancelha loura e aproximou-se, recebendo um pão doce. "Obrigado."


"Hey, hey, mas o que é isso?" O Braço Direito virou-se e fingiu uma exagerada indignação. "Por que ele ganha e eu preciso implorar?"


"Giuseppe é um bom garoto. Você nunca foi flor que se cheire, Mario." O cozinheiro respondeu com os olhos apertados. O homem havia retirado outra fornada de pães e passado para os quatro ajudantes.


"Isso é uma injustiça e você sabe disso, Lorenzo! Eu sou uma pessoa amável, assim como meu irmão aqui." Mario pousou a mão no ombro do homem de cabelos louros, recebendo um sorriso de boca cheia como resposta.


"Amável? Hm, sei!" Lorenzo era um senhor de quase sessenta anos, cabelos totalmente brancos, olhos pequenos e azuis, que sempre tinha os óculos na ponta do nariz e estava na Família desde a época do pai de Ivan. O cozinheiro colocou o pano de prato sobre o ombro esquerdo. "Eu não sei por que você está aqui, mas seu Chefe te chamou então vá ser amável em outro lugar."


"Há injustiça em todos os lugares. Este é um mundo cruel, irmão." O ruivo deu de ombros, e ofereceu um sincero sorriso na direção de Lorenzo. "Obrigado pelo lanche, estava ótimo." O homem fez um gesto com a mão e voltou aos seus afazeres. O Braço Direito deixou a cozinha, notando que Giuseppe o acompanhava.


"Está tudo bem?" O louro limpou os cantos da boca com as pontas dos dedos. Os dois seguiam com passos lentos e desinteressados.


"Eu não sei." Mario deu de ombros, demonstrando que não fazia ideia.


"Se existir algo que eu possa fazer, por favor, avise. Eu me sinto mal por não fazer nada."


"O que você pode fazer é distraí-los. Mantenha-os ocupados e tente parecer o mais natural possível."


"Eu sei, mas é tão difícil." O Braço Direito de Francesco soltou um longo suspiro. Eles cruzavam o corredor que levava à sala de jantar e aquela seria a primeira vez em dias que os dois irmãos conversavam a sós. "Você já conversou com Giulio?" O ruivo lançou um olhar entediado, que respondeu à pergunta. "Não seja tão teimoso. Se nenhum de vocês der o primeiro passo permanecerão no mesmo lugar."


"Esse é o plano." O Braço Direito de Ivan piscou para o irmão, mas parou de andar. "E por que é que você se importa tanto se eu e Giulio estamos bem?"


"Hm..." Giuseppe levou o dedo indicador da mão esquerda até os lábios e pareceu pensar por alguns segundos. "Você é bem mais amável quando as coisas estão bem com Giulio."


"É mesmo?" Mario fingiu ignorância. "E você anda bastante amável ultimamente. Algo bom aconteceu?"


"Nada." O homem de longos cabelos louros respondeu balançando a cabeça para os dois lados.


"Já faz algum tempo que eu não o vejo tão alegre. Não minta para mim, Giuseppe. Eu sei que algo aconteceu."


"Eu estou falando a verdade, nada aconteceu."


"Nada?"


"Nada!"


"Você tem um amante, não é?"


Se havia algo que nunca entediava o ruivo era provocar o irmão. Poucas coisas na vida davam tanto retorno quanto deixar aquela pessoa totalmente sem palavras. O Braço Direito do futuro Chefe dos Cavallone era um ser humano extremamente reservado. A vida de Giuseppe era tão discreta, que Mario poderia até desconfiar que seu irmão permanecesse intocavelmente virgem. Aquela seria uma afirmativa falsa, claro, pois o próprio louro já havia afirmado que não era. Eu me lembro desse dia. Nós estávamos tomando café da manhã quando ele respondeu que passara a noite fora. Eu me senti... violado ao ouvir que Giuseppe havia passado a noite com um amante.


Era difícil para ele aceitar que seu irmãozinho pudesse fazer todas as coisas que ele mesmo geralmente fazia. Ouvir que Giuseppe tinha uma vida sexual me chocou mais do que descobrir que o amante era um homem. Eu sabia que isso aconteceria. Todavia, aquela conversa não voltou a acontecer, e como o Braço Direito não deixou de dormir em casa, o ruivo às vezes imaginava que a experiência acontecera somente uma única vez. Talvez ele tenha ficado traumatizado. Mario lembrava-se bem das pouquíssimas vezes que se permitiu deixar-se envolver. Com exceção de Giulio, todos os outros foram de razoáveis a péssimos. E eu sei que meu irmão aqui foi envolvido ao invés de envolver.


Giuseppe ficou tão visivelmente desconcertado com o comentário que o Braço Direito do Chefe dos Cavallone precisou permitir-se um sorriso. O rosto do louro tornou-se corado e seus lábios, apesar de entreabertos, não proferiam nada.


"Eu estou brincando." O ruivo adiantou-se antes de ouvir uma bronca.


"Seu senso de humor sempre foi duvidoso." O Braço direito de Francesco tentou parecer sério, mas era visível que a pergunta o havia incomodado. "E minha vida pessoal não te diz respeito."


"Eu sinto muito está bem?" Mario seguiu atrás do irmão. "Foi apenas uma brincadeira."


"Se você tem tempo para brincar, então vá ver o que seu Chefe deseja."


O ruivo deu de ombros e os dois irmãos cortaram o hall. Giuseppe ia à frente, porém, parou ao notar quem descia as escadarias. Francesco parecia distraído, no entanto, ao vê-los no hall, o rapaz de cabelos castanhos abriu um largo sorriso, aproximando-se animado. Ele não sorri para mim. Ele provavelmente nem sequer me vê aqui. Hey, Francis, eu estou bem aqui! O Braço Direito não parou de andar, contudo, foi impossível não encarar aquelas duas pessoas. Os olhos verdes se apertaram e Mario decidiu dar atenção ao caminho que tinha pela frente. Todas as vezes que se pegava pensando sobre aquilo seu humor se tornava ruim.


Eu achei que depois do tapa Francesco iria dispensar os serviços de Giuseppe. Por um momento aquilo me deixou feliz. Aquele incidente, porém, parecia ter acontecido há muito tempo. Quando seu irmão esbofeteou o próprio Chefe na sala de jantar, o ruivo realmente chegou a pensar que tudo estava acabado. O louro foi para casa em seu próprio carro e o Braço Direito o seguiu, chegando minutos depois. Giuseppe trancou-se a noite inteira em seu quarto e os dois só conversaram na manhã seguinte. Ele já havia tomado a decisão quando deixou o quarto. Tudo o que eu disse entrou por um ouvido e saiu pelo outro.


O homem de cabelos louros era tão teimoso quanto gentil. Mario tentou persuadi-lo a pedir demissão do cargo, mas o Braço Direito estava decidido a implorar para continuar na posição se as coisas chegassem a esse ponto. Eu não sei o que foi que os dois conversaram, mas quando Giuseppe retornou para casa ele tinha um estranho ar de satisfação. O futuro Chefe dos Cavallone não o puniu ou nada parecido. O ruivo soube que ele se desculpou com a irmã e com o próprio louro, no entanto, não escapara do castigo que teria ainda duração de mais três meses. Ivan deixou claro que os passeios e saídas haviam sido cortados, assim como metade da mesada. O herdeiro, contudo, não pareceu se importar e o Braço Direito mentiria se dissesse que o clima não melhorara naquelas duas semanas. E isso me preocupa. Mario ajeitou a gravata ao encarar a larga porta escura do escritório. E ser chamado para conversar também. Ultimamente tudo me preocupa.


Duas leves batidas anunciaram sua presença, e o ruivo abriu a porta sem saber ao certo o que esperar. O moreno estava sentado atrás de sua mesa, e os olhos cor de mel se ergueram assim que ele entrou. O Braço Direito o cumprimentou, aproximando-se devagar. Esta é a primeira vez que o vejo desde a madrugada. Mario não sabia se deveria sorrir ou manter a expressão neutra. Na verdade, ele não sabia o que fazer naquele tipo de situação, o que era algo raro. O Chefe dos Cavallone, apesar de confortavelmente instalado em sua cadeira, não trabalhava. A mesa estava limpa e o ruivo teve a impressão de que seu amigo passara o dia simplesmente... ali.


"Desculpe chamá-lo de maneira abrupta, mas eu gostaria de pedir um favor."


Seria impossível descrever a maneira como o Braço Direito se sentiu ao ouvir tais palavras. Aquela havia sido a primeira vez que Ivan pedia por um favor. Normalmente ele fazia pedidos, entretanto, era o trabalho de Mario realizá-las. Sua função era autoexplicativa, e geralmente não havia cerimônias entre eles. O moreno pedia, ele realizava e assim a relação entre eles fora construída. Todavia, para o Chefe dos Cavallone utilizar aquelas exatas palavras só poderia ter um significado. O que ele me pedirá não será relacionado ao trabalho.


"Diga." Foi tudo o que o ruivo conseguiu dizer.


"Alaudi enviou uma mensagem esta manhã dizendo que viria à mansão, mas eu respondi que ele não viesse sozinho. Eu sei que o que vou pedir é egoísta e seja sincero se não estiver inclinado em realizar a tarefa." Ivan estava sério. Desde a noite anterior aquele homem não esboçava nada além de uma fina linha entre os lábios e olhos sem vida. "Eu gostaria que você fosse buscá-lo."


Se lhe fosse possível declinar aquele pedido o Braço Direito diria honestamente que não tinha interesse algum em ir. Há três meses ou menos, talvez, aquela seria sua resposta. Não era segredo para ninguém que ele e o amante de seu Chefe e melhor amigo não se suportavam. O sentimento era mútuo, embora Mario soubesse que dava menos importância para o assunto do que o louro. Porém, a inimizade existia e seria impossível negligenciá-la. Dez anos não foram suficientes para apaziguar os ânimos, pois, em cada oportunidade que tinham, ambos deixavam claro que não se suportavam. Eu não posso apenas desejar que eles terminem. Aquele pensamento deixara de ser um desejo no momento em que Catarina entrou naquela casa. Talvez, no passado, com apenas Francesco, pudesse existir a chance do moreno tentar uma separação se algo extremo acontecesse, mas o ruivo sabia que tal coisa seria impensada no momento. Seu Chefe construiu um lar naquela mansão, e Francesco e Catarina viam o Guardião da Nuvem como outra figura paterna. Se um dos pais não estivesse mais presente, o Braço Direito não tinha ideia do que poderia acontecer.


"Eu irei." A resposta saiu sem emoção. Ele sabia muito bem que não adiantaria fingir uma animação inexistente.


"Obrigado."


Ivan abaixou os olhos e Mario deu meia-volta, retirando-se do escritório. Giuseppe e Francesco não estavam mais no hall e infelizmente o ruivo não tinha tempo para se preocupar com seu irmão. O céu estava azul, no entanto, a temperatura continuava baixa. A primavera começaria em uma semana e aparentemente eles ainda teriam alguns dias gelados. O Braço Direito fechou todos os botões do sobretudo, descendo os curtos degraus de mármore e ganhando a entrada. Seu carro estava estacionado um pouco longe, contudo, ele declinou quando um subordinado se prontificou a ir buscá-lo. O veículo estava quente, entretanto, a temperatura não foi suficiente para descongelar sua expressão séria. Eu tenho um mau pressentimento, o veículo foi ligado e Mario apoiou-se à janela. Um subordinado se aproximou e o ruivo deixou ordens estritas para que o homem procurasse Giuseppe e avisasse que ele não saísse da casa. O subordinado fez uma reverência formal e desejou ao Chefe uma boa viagem.


A mansão dos Cavallone era localizada em uma área alta, então sempre que precisava deixar a propriedade o caminho era sempre descida. Do alto era possível ver todo o entorno, e Roma não passava de um ponto isolado no horizonte. Daquele local o Braço Direito também viu a entrada da propriedade, a menos de dez minutos da mansão e em uma área já plana. Ali ficava o largo portão dourado, onde dois cavalos estavam incrustados frente a um gigantesco "C". A velocidade diminuiu ao chegar ali, todavia, Mario sabia que o portão estaria aberto sem que ele precisasse parar. Aquele local, em particular, fez o ruivo se arrepiar. Há menos de 24 horas ele esteve ali, parado e completamente surpreso por ver quem era seu visitante. Meu coração pulou uma batida quando vi Giulio descer do carro. Eu não sabia se ficava feliz ou irritado com a visita.


Na noite anterior, pouco depois do jantar, o Braço Direito recebeu uma mensagem de um dos subordinados avisando que havia alguém no portão e que pedia urgentemente a sua presença. Mario entrou no carro e desceu, avistando o Vice-Inspetor parado do outro lado do portão. O moreno estava pálido e a expressão em seu rosto dizia que o motivo que o levou ali não era um romântico pedido de desculpas. Giulio fez sinal para que o ruivo saísse do seu próprio veículo e os dois entraram juntos no carro do moreno.


"Alaudi foi esfaqueado."


"Ele está morto?"


"Não, o corte foi superficial." As perguntas foram feitas uma atrás da outra, sem chance de ponderar as palavras. Aqueles dois se conheciam bem demais para cerimônias em momentos importantes e profissionais. "Eu o levei ao hospital e o deixei em segurança. Eu vim avisar porque sei que seu Chefe mandará o médico da Família examinar Alaudi, não? Eu posso esperar e levar o homem comigo."


"Eu vou chamá-lo."


Aquele foi o único diálogo que os dois amantes travaram depois de mais de duas semanas de ausência. Nenhum deles fez qualquer comentário pessoal e o Braço Direito entrou novamente em seu carro, refazendo o caminho com o dobro de velocidade. Quando retornou à mansão, Mario mandou um subordinado ir às pressas até a casa de Ottavio com urgência. O ruivo entrou no hall, passando a mão na nuca e sabendo que infelizmente o pior trabalho sempre caia em suas mãos. A longa escadaria até o segundo andar foi percorrida com rapidez, mas a pior parte foi sem dúvidas as duas batidas na porta para anunciar sua presença. A voz do Chefe dos Cavallone soou alta, e o Braço Direito o encontrou sentado em uma das poltronas com um livro nas mãos.


"O que houve?" O livro foi fechado e o moreno ficou em pé no mesmo instante. Mario sabia que não esboçava expressão alguma, porém, seu melhor amigo sempre parecia sentir quando as coisas não estavam bem.


"Alaudi foi ferido, Giulio o levou ao hospital e o corte foi de raspão." As informações relevantes foram ditas de uma vez. As sobrancelhas de Ivan se tornavam mais e mais juntas a cada segundo. "Mandei chamar por Ottavio e o enviarei a Roma para que o examine."


O moreno entreabriu os lábios, no entanto, nada disse. O ruivo engoliu seco, sem saber o que fazer.

Ele estava acostumado a dar notícias desagradáveis, contudo, aquela seria a primeira vez que a notícia era relacionada diretamente ao Chefe dos Cavallone. Eu não tenho tempo a perder. O Braço Direito pediu licença e retirou-se, descendo e retornando à entrada da mansão. Ottavio apareceu em poucos minutos e ele mesmo o levou até o portão aonde o Vice-Inspetor aguardava. Nos curtos minutos que passaram dentro do carro, Mario pediu ao médico discrição e que fizesse um exame minucioso. Entretanto, a pior parte foi definitivamente a última:


"Se algo sério acontecer eu quero que o senhor venha a mim primeiro." A voz do ruivo soou trêmula. Ele detestava o Guardião da Nuvem dos Vongola, todavia, a simples ideia de que aquele homem pudesse morrer fez seu mundo se tornar um lugar bem menos feliz.


"Entendido."


Ottavio desceu do carro e Giulio o guiou até seu próprio veículo. O Braço Direito permaneceu em seu carro, observando a tudo e retornando somente quando seu amante estava fora de vista. Mario permaneceu na mansão naquela noite e seu amigo só desceu quando o médico retornou, e isso coincidia com o nascer do dia. O moreno estava com a mesma roupa da noite anterior e pelas olheiras embaixo de seus olhos cor de mel, e a expressão séria, o ruivo teve certeza de que aquele homem não dormira. Ottavio resumiu o estado do Inspetor, avisando que não havia perigo e que Alaudi já retornara para sua residência. O corte foi superficial e foram necessários apenas alguns pontos, mas que já haviam sido feitos no hospital. A notícia não pareceu animar Ivan, que agradeceu ao médico e voltou para o quarto, onde permaneceu boa parte do dia. Francesco e Catarina perguntaram pelo pai, e foi muito difícil para o Braço Direito omitir a verdade, principalmente com relação à garota ruiva, que parecia ver muito além do que aparentava.


Mario deixou a propriedade dos Cavallone para trás e com ela aquelas amargas lembranças. Com toda aquela confusão, o ruivo teve muito pouco tempo para pensar em sua própria situação. A imagem de Giulio surgiu em sua mente o dia inteiro, e foi impossível para ele não se perguntar como o moreno não estaria se sentindo. Alaudi é seu melhor amigo. Se Ivan houvesse sido ferido eu certamente estaria inconsolável. O Braço Direito fechou um pouco mais os vidros do carro ao ganhar a estrada, pois o vento batia em seu rosto e o fazia tremer. A paisagem não lembrava em nada a vistosa primavera italiana, e boa parte do entorno ainda possuía a cor opaca e sem vida do inverno.


Por quarenta minutos Mario travou uma dura batalha interna entre seu orgulho e sua preocupação. O Vice-Inspetor permaneceu em sua mente durante todo o tempo e, quando finalmente entrou em Roma, o ruivo soltou um longo suspiro. O que ele estava para fazer não era de seu feitio, mas não poderia ser evitado. Eu normalmente não faria isso, mas acredito que a atual situação é qualquer coisa menos normal. E juntos, talvez, nós possamos pensar melhor. A residência do louro ficava mais afastada do centro, porém, havia um local que o Braço Direito precisaria visitar antes de se encontrar com o Guardião da Nuvem. Por sorte eu não devolvi a chave.


Mario sentiu um estranho frio na barriga ao entrar na rua onde ficava localizada a casa de Giulio. Na maioria das vezes ele estacionava em frente à residência, no entanto, naquela tarde ele decidiu deixar o veículo um pouco afastado, no caso de alguém vigiar a casa. O restante do caminho foi feito a pé, e a cada passo o ruivo sentia a ansiedade crescer em seu peito. Isso é novo. Lembro de ter me sentido assim quando começamos a sair. Todas as vezes que ficávamos sozinhos eu voltava aos 14 anos de idade. A chave prateada tremeu entre seus dedos, contudo, ela foi colocada com firmeza dentro da fechadura. O click, entretanto, fez seu coração bater mais rápido, e foi naquele momento que o Braço Direito soube que era tarde demais para voltar. O que quer que acontecesse dali para frente deveria ser encarado de queixo erguido.


"Giulio, você está em casa?"


A voz soou alta do corredor. Mario havia visto o veículo de seu amante estacionado do outro lado da rua, logo, ele tinha certeza de que o moreno estava em casa. Seus passos cortaram o corredor e ele seguiu diretamente para a sala de jantar. Um baixo barulho de voz o fez sorrir de canto, imaginando que o Vice-Inspetor estaria na sala de estar. Suas pernas moveram-se com mais pressa e foi somente naquele momento que o ruivo notou o quanto havia sentido falta daquela casa. Da última vez que estive aqui eu entrei alegre e sai irritado. Vamos ver qual será o meu humor esta tarde.


"Giulio, eu vim p—"


O barulho, pensou o Braço Direito ao parar em frente ao limiar entre a sala de jantar e a de estar. Eu deveria ter prestado atenção ao barulho. Os olhos verdes se ergueram e Mario olhou para as duas pessoas à sua frente. A da esquerda era Giulio, que estava de pé e o olhava com tanta surpresa que o ruivo não pôde evitar sorrir. Um amargo e triste sorriso. Do lado direito, sentada sobre o sofá e segurando uma xícara de chá, havia uma belíssima mulher morena e de olhos claros. Seu vestido era longo e azul, com detalhes brancos que lembravam flores, e sua expressão exibia surpresa e curiosidade. A vadia. O Braço Direito umedeceu os lábios e passou a mão pelos cabelos, rindo internamente por um momento. Não era possível. A vida não poderia ser assim tão sem graça.


"Desculpe, eu não sabia que você tinha companhia." Mario disse as palavras sorrindo. Ele não conseguia fazer outra coisa. Os músculos de seu rosto pareciam travados.


"M-Mario, eu..." O moreno deu um passo à frente, todavia, parou no exato momento em que o ruivo lhe lançou um olhar mortalmente irritado.


"Boa tarde." A mulher pousou a xícara sobre o pires que estava em cima da mesinha de centro e o Braço Direito dedicou toda a sua atenção àquela pessoa. A voz era baixa e bem feminina e aquilo o irritou ainda mais. "Desculpe, mas nos conhecemos?"


"Oh, eu temo que não." Mario se aproximou, oferecendo a mão para a mulher, que o cumprimentou com um meio sorriso. "Meu nome é Mario, é um prazer conhecê-la."


"Eu me chamo Antonietta. O prazer é todo meu." A mulher desviou os olhos para o Vice-Inspetor. "Você é conhecido de Giulio?"


O ruivo ergueu as sobrancelhas, esperando a resposta. Aquilo seria ótimo.


"S-Sim." Giulio respondeu confuso.


"Espero não atrapalhá-lo com a minha visita." Os olhos verdes de Antonietta então pousaram sobre o ruivo e ela esboçou uma expressão confusa. "Perdoe-me, mas como entrou aqui? Por acaso deixei a porta aberta?" Havia genuína preocupação naquelas palavras.


Há muito tempo o Braço Direito não se sentia tão tentado a usar violência. Seus olhos fitaram o moreno e naquele momento Mario sentiu-se profundamente humilhado. O Vice-Inspetor pareceu notar, pois deu um passo à frente, mas o ruivo se adiantou. Não havia pedido de desculpas ou declaração melosa que pudesse resolver aquela situação. O Braço Direito retirou a chave do bolso da calça, pousando-a sobre a mesinha de centro. Os olhos verdes se ergueram e ele encarou Giulio sem hesitar.


"Eu vim apenas devolver a chave. Obrigado."


Mario virou-se para Antonietta e fez uma polida reverência antes de dar as costas e retornar pelo caminho que havia feito. A voz do moreno tornou-se audível e o ruivo escutou quando ele pediu licença para a ex-noiva. Os passos apressados que vinham atrás denunciavam totalmente que o Braço Direito estava sendo seguido, porém, não foram suficientes para fazer com que ele parasse. O ar frio da rua atingiu seu rosto e Mario abriu o portão com fúria, seguindo pela calçada e sentindo cada fibra de seu corpo tremer de raiva. Cretino. Eu jamais voltarei aqui. A realização de que seu carro estava afastado o deixou ainda mais irritado, no entanto, nada superaria o momento exato em que uma mão grande e íntima o tocou no ombro esquerdo.


O ruivo não se lembrava da última vez que bateu em outra pessoa, contudo, ele dificilmente se esqueceria do que sentiu quando seu punho atingiu o rosto de Giulio, fazendo-o recuar para baixo e tocar a calçada com um de seus joelhos. Tudo acontecera muito rápido, o toque e o soco basicamente tiveram o mesmo momento, e o Braço Direito não ficou para ver a reação do moreno, seguindo para o carro e agora tendo de se preocupar também com a mão latejando. Mario deu partida no veículo, afastando-se daquele lugar como se sua vida dependesse daquilo. Sua expressão estava branca e seus músculos haviam se esquecido como sorrir. Tudo o que ele queria era ir embora, entrar em seu escritório e passar o restante do dia bebendo e esquecendo o que acabara de acontecer.


Cretino! A imagem da mulher era a única coisa que o ruivo conseguia se lembrar e aquilo o deixava furioso. Ver a causa de todo o seu sofrimento havia sido um choque muito mais profundo do que ele imaginava. O Braço Direito parou o carro após alguns minutos, fechando os olhos e respirando fundo. Eu não posso chegar assim. Eu preciso me focar no que realmente vim fazer aqui. Mario apoiou a testa ao volante, tentando ignorar a maneira como suas mãos tremiam. O local em que ele acertara o Vice-Inspetor estava vermelho, entretanto, nada doía mais do que seu peito. Isso deveria ter acontecido antes. Eu jamais teria perdido tanto tempo. Dez anos jogados no lixo.


x


O ruivo parou na calçada, juntando as sobrancelhas e encarando o homem sentado na soleira da porta. Seus passos chegaram ao portão, e o Braço Direito não se deu ao trabalho de atravessá-lo. O homem levantou-se e bateu a poeira da roupa, aproximando-se e mostrando as palmas das mãos.


"Ele pediu que Marcos o levasse." O subordinado de nome Clemente disse com a voz baixa.


"Marcos foi dirigindo?"


"Sim. Alaudi disse que não seria necessário, mas eu vou te dizer uma coisa, Mario, nunca vi Marcos tão sério." Clemente era um pouco mais baixo que Mario, moreno e com olhos tão negros quanto o bigode que tentava deixar crescer acima do lábio superior. "Ele sabia que o Chefe ficaria furioso se visse Alaudi dirigindo, então não se preocupe, Marcos guiou o carro."


"Menos mal." Mario pousou a mão sobre o ombro do subordinado e retornou para o seu veículo. Se Alaudi já está indo para a mansão, então meu trabalho está terminado.


O carro voltou a se movimentar e o ruivo se pegou perambulando pelas ruas. Se já fosse noite ele certamente se enfiaria em algum bar, entretanto, com as pessoas descentes ainda caminhando sobre solo italiano, o Braço Direito sabia que não acharia diversão ou conforto naquela hora do dia. Por duas vezes ele passou em frente a um mesmo Café, estudando se deveria ou não descer e tentar relaxar antes da viagem de volta para casa. Sua mão ainda doía, e todas as vezes que tinha consciência da dor Mario trincava o maxilar e sentia o sangue voltar a ferver. Não era justo. Não era justo que depois de todos aqueles anos Giulio decidisse querer aquela mulher de volta em sua vida. Ele havia mantido sua parte no acordo. Quando os encontros entre eles começaram, o moreno deixou claro que aquela seria uma relação monogâmica. "Se você acha que não conseguirá, então sugiro que paremos por aqui.", foram as exatas palavras do Vice-Inspetor, ditas na cozinha da casa do ruivo. Não havia problemas com aquele acordo. Ele poderia realmente ter dormido com metade de Roma — a metade atraente, claro —, todavia, o Braço Direito não era fã de traições ou relacionamentos duplos.


A promessa foi mantida e Mario não teve muito trabalho para isso. Seu único interesse nas pessoas sempre fora sexual, e nesse quesito Giulio era simplesmente impecável. Sexo entre eles nunca foi problema, e nos braços do moreno o ruivo sempre esteve satisfeito, o que era algo inédito em sua vida. Vez ou outra ele se sentia atraído por outra pessoa, fosse um belo rapaz na alfaiataria, ou uma moça de sorriso inocente na fila do Café. Não importava; aquela admiração momentânea desaparecia no momento em que o Vice-Inspetor surgia em seu campo de visão, pois ele sabia que seria amado tão fervorosamente que não existiria espaço para uma terceira pessoa. Porém, o fantasma da rejeição nunca realmente afastou-se daquela relação.


O Braço Direito dos Cavallone jamais esqueceu por completo aquela noite e as palavras de Giulio. Em todos os desentendimentos e em todas as discussões aquela noite retornava à sua mente e Mario se pegava pensando “Até quando...” Os anos, no entanto, transformaram aquela sensação em apenas uma má lembrança. Os dois não eram mais tão jovens, e a convivência criou uma estranha sensação de completude e agradável rotina. E, quando achei que talvez fosse hora de finalmente enterrar o passado, ele retorna e se senta no mesmo sofá em que Giulio já me possuiu incontáveis vezes. Bebendo o chá que eu comprei no mês passado e ao lado do homem que deveria ter enxotado a vadia no primeiro sinal de que ela pretendia retornar. O veículo finalmente parou após passar em frente ao mesmo lugar várias vezes. O ruivo desceu e ajeitou o terno, erguendo os olhos e encarando o outro lado da rua. Ele sabia que não deveria estar ali, assim como a vadia não deveria estar na casa dele.


A recepção era pequena e havia um simpático rapaz por trás do balcão de madeira clara, que sorriu descaradamente ao ver o Braço Direito entrar. Mario tentou ser o mais amável possível e, quando a informação que ele procurava foi dada, o ruivo ofereceu uma charmosa piscadela para o rapaz. O quarto ficava no terceiro andar, e subir aqueles três lances de escadas não foi nada se comparado aos passos necessários para chegar à porta de número 34. Os olhos verdes fitaram o número, incrustado em madeira mais escura, e sua consciência gritava para que ele fosse embora. Hábito o fez bater duas vezes, e a voz dentro do quarto gritou delicadamente que já estava a caminho. O Braço Direito passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se nervoso. A maçaneta girou e um par de olhos verdes o fitou por entre uma pequenina fresta, que se tornou uma largo vão quando a pessoa percebeu quem ele era.


"Oh!" Foi tudo o que Jules conseguiu dizer. A porta havia sido completamente aberta, mostrando o interior do quarto. O francês tinha um avental por cima das roupas, que estava cheio de marcas de tinta. O quarto cheirava a solvente e ao fundo havia uma tela inacabada.


"Desculpe se o atrapalho em uma hora imprópria." Mario sorriu sem perceber. Ele adorava aquele cheiro.


"Você nunca atrapalha!" A sinceridade com que aquelas palavras foram ditas fez o sorriso se tornar maior. O louro pareceu perdido por um momento, mas acabou fazendo sinal para que sua nova companhia entrasse. "Espero que não se importe com o cheiro."


"Não se preocupe com isso." O ruivo pediu licença e adentrou ao quarto. Seus olhos automaticamente encararam a cama e ele tentou a todo custo não deixar que seus pensamentos fossem longe demais.


"A que devo essa inesperada visita?" Jules passou o braço pela testa, tentando tirar os cabelos que caiam em seu rosto, contudo, sem sucesso. "Eu disse que seu quadro não ficará pronto por alguns dias."


"Eu vim apenas passar o tempo." O Braço Direito encarou o cômodo, pousando seus olhos verdes na tela. A pintura ainda estava no começo, mas ele sabia que seria uma mulher seminua e sentada sobre uma cama de colcha azul. "Suas mulheres são incrivelmente belas. Modelos reais?"


"Jamais." O francês riu e fez uma careta. "Eu frequentei todas as minhas aulas e tínhamos modelos ao vivo. Eu recebi uma grande encomenda de quadros femininos. Se dependesse de mim eu jamais as pintaria."


"Mulheres têm suas vantagens." O Braço Direito aproximou-se e tocou a testa do louro, colocando a franja atrás da pequena orelha e recebendo um sorriso como agradecimento. "Mas confesso que nunca foram meu alvo favorito. Mulheres são superestimadas em minha modesta opinião. Nós, homens, pagamos um preço alto demais por sexo mediano. Infelizmente a boca e a personalidade vêm junto com os seios."


"Nunca me interessei por seios." Jules riu. "Posso te servir alguma coisa? Café ou chá?"


"Café, por favor. Sem açúcar." Mario caminhou até a única poltrona livre e sentou-se. Daquele local ele poderia ver o quadro e a figura do francês saindo do outro cômodo.


"Seu amante sabe que você está aqui? Aquele homem é assustador."


"Você o encontrou?" Aquilo era novidade.


"Sim. Ele foi à galera na semana passada." O louro sentou-se na beirada da cama depois de oferecer a xícara de café. "Perdoe-me, mas eu precisei provocá-lo. A oportunidade era boa demais."


O ruivo ergueu as sobrancelhas e bebericou o café. O sabor era fraco se comparado aos cafés que ele estava acostumado a beber.


"E o que vocês conversaram?"


"Ele identificou o quadro à primeira vista..." Jules esboçou um maldoso sorriso e balançou a cabeça em negativo. "Eu sei que prometi retirar o quadro, mas seria uma verdadeira injustiça. Eu quero que todos vejam o quão desejável você é." O francês parecia exatamente o mesmo quando sorria ou ria. Apesar de ter seus 28 anos, ele aparentava ser muito mais novo e o ar inocente e perigosamente angelical ainda não desapareceram de seus traços. E eram exatamente aquelas características que perturbavam o Braço Direito e o faziam lembrar o quanto ele desejava aquela pessoa. "Obviamente ele não gostou de saber que você posou novamente para mim."


"Não novamente," Mario ergueu uma sobrancelha, “eu não posei da primeira vez."


"Você teria permitido se eu houvesse pedido?"


"Talvez." O ruivo ponderou.


"De qualquer forma seu amante não gostou. Nós fomos até um Café e ficamos muito pouco tempo. Ele fez questão de deixar claro que eu jamais estarei entre vocês." O louro mordeu o lábio inferior.


Jamais? O Braço Direito dos Cavallone pousou a xícara na mesinha que estava ao lado no momento em que viu Jules levantar-se da cama. Ele sabia exatamente o que aconteceria, entretanto, não fez nada para impedir. Suas mãos pousaram sobre os braços da poltrona, e os olhos verdes viram quando o francês caminhou até ele, passando um joelho de cada lado e sentando-se sobre seu colo. O avental foi retirado com uma perigosa sensualidade e Mario precisou prender a respiração. Seus dedos apertaram o acolchoado da poltrona, sentindo o tecido grosso e esperando que aquilo fosse suficiente para controlar seu corpo. Cada fibra de seu ser desejava o louro.


"Eu nunca te esqueci completamente, Mario." Jules ajeitou-se um pouco melhor, e esboçou um sorriso satisfeito ao posicionar-se sobre o membro do ruivo. "Nenhum dos meus amantes chegou aos seus pés."


"Agradeço o elogio." A voz saiu baixa e rouca. Era difícil se concentrar quando havia tantas distrações. O francês era simplesmente irresistível, como se houvesse sido feito exatamente para aquele tipo de coisa. A pele pálida e delicada, os grandes olhos verdes, os lábios rosados e os cabelos macios. O cheiro de tinta misturava-se ao próprio perfume do louro, e todas aquelas pequenas sensações faziam com que o Braço Direito ficasse com água na boca.


"Você brigou com aquele arrogante, não foi?" As mãos de Jules seguraram o rosto de Mario. "Você entrou neste quarto sabendo que eu faria isso. Da última vez que esteve aqui você sequer aceitou minha xícara de café. O que te fez mudar de ideia?"


Não houve resposta. O ruivo não sabia ao certo o que responder, porque a realidade era triste demais para ser dita em voz alta. Ele sabia por que havia ido até ali. Eu teria escolhido um bar se já fosse noite. Eu só vim aqui porque sabia que Jules tentaria me seduzir. A realização o fez sorrir tristemente. Qualquer um serviria. Eu só precisava de alguém para extravasar.


"Eu não dormirei com você." O Braço Direito disse sussurrado quando sentiu a respiração do francês próxima à sua.


"Eu sei."


O beijo levou uma onda de eletricidade pelo corpo de Mario, como um fio de luz em um quarto escuro. O ruivo apertou o braço do sofá com mais força, tentando ao máximo se manter impassível. A língua do louro encontrou-se com a sua, e a resistência simplesmente desapareceu. O Braço Direito dos Cavallone, todavia, manteve as mãos afastadas durante toda a carícia. Sua própria língua correspondia, vasculhando a boca do homem sentado sobre seu colo e provando novamente aquele beijo delicado e cheio de desejo. Ele se recordava dos beijos de Jules; eles eram deliciosamente tentadores, embora houvesse algo errado. Eu me acostumei aos lábios de Giulio. Mario teve certeza disso após alguns instantes. Os beijos do moreno eram diferentes, forçosos e continham uma pitada de algo que ele sabia que jamais encontraria no francês. A carícia encerrou-se, mas o louro manteve-se na mesma posição. Seu rosto estava corado e não era necessário ser o melhor dos observadores para notar a ereção na altura de seu estômago.


"Eu quero você... de novo." A voz de Jules soou baixa e as pontas de seus dedos percorreram os cabelos vermelhos.


Por um instante o Braço Direito conseguiu visualizar aquela cena. Ele pôde ver claramente o momento em que se levantaria daquela poltrona e jogaria o francês sobre a cama, retirando suas roupas às pressas entre beijos e apertões. Seus lábios desceriam pelo abdômen pálido e Mario dedicaria um longo tempo ao baixo ventre daquele homem, beijando aquela região e fazendo com que a doce voz ecoasse pelo quarto. Eu o provocaria até que ele implorasse por isso, e então o possuiria com força durante o restante do dia e da noite. E iríamos para a França e eu passaria o restante da minha vida fazendo sexo com meu amante estrangeiro.


O problema é que ele não faria nada daquilo. O ruivo não dormiria com o louro, não abandonaria a Itália e muito menos deixaria os Cavallone. Aquele tipo de coisa jamais passou por sua mente e infelizmente — e por mais tentadora que fosse a oferta — o Braço Direito sabia que aquele beijo seria o máximo que os dois trocariam. Jules pareceu entender e sua testa pousou sobre o ombro de Mario. Foi somente nesse instante que as mãos do ruivo se soltaram dos braços do sofá, tocando as costas do louro. As palavras foram ditas baixas e em francês, porém, o Braço Direito entendeu a confissão perfeitamente. Um triste sorriso pintou seus lábios ao final, e que o fez pensar se sua vida não teria sido diferente, melhor, se ele, há dez anos, houvesse aceitado os sentimentos de Jules. Nós nunca saberemos.


"Obrigado pelo café." Mario levantou-se da poltrona quando o francês ficou em pé. Não havia lágrimas no rosto do louro, apenas uma sutil tristeza.


"Eu ficarei por mais algumas semanas. Quando meu retorno estiver marcado eu entrarei em contato para que venha buscar o quadro."


"Você realmente vai deixá-lo exposto até o final?"


"Eu disse, não?" Jules esboçou o mesmo travesso meio sorriso. "Eu quero que vejam o que eu tive o prazer de possuir, mesmo que por pouco tempo."


O ruivo riu baixo e deixou o quarto de número 34 sem olhar para trás. O caminho foi feito devagar, no entanto, em nenhum momento ele fez qualquer menção de retornar. O céu estava claro e não havia mais como fugir de suas responsabilidades. Pessoas estão morrendo, meu amante toma chá com a ex-noiva que o traiu e eu permiti que outra pessoa me beijasse. Eu amo minha vida! O Braço Direito deu partida no carro, abrindo bem os vidros das janelas e soltando um longo suspiro. Ele tinha cerca de uma hora para passar consigo mesmo e, naquele momento, aquilo era tudo o que Mario menos queria.


x


A primeira coisa que ele notou ao entrar na mansão foi Catarina sentada no pé da longa escadaria.

A garota ergueu os olhos, contudo, permaneceu no mesmo lugar, assustada e séria. Naquele momento o ruivo soube que havia algo errado, e foi com esse sentimento que ele cortou o hall e se aproximou de sua companhia. Entretanto, muito antes de abrir a boca e indagar o que havia acontecido, os ouvidos do Braço Direito captaram os gritos. Catarina ergueu os olhos e apenas apontou para o lado direito. Mario afastou-se no mesmo instante, seguindo para a direção indicada e aumentando a velocidade dos passos ao notar que, quanto mais se aproximava do escritório, mais alta a voz de Ivan se tornava. As paredes são grossas. Se eu estou ouvindo a voz é porque Ivan está fora de controle. Nunca, em todos aqueles anos, o ruivo entrou em qualquer cômodo da casa sem ser anunciado. Seus dois toques eram sua marca registrada, todavia, naquela tarde ele não se importou. A larga porta de madeira escura foi empurrada e tudo o que aconteceu em seguida parecia ter saído de um pesadelo.


"EU DISSE PARA VOCÊ IR EMBORA!"


A voz do moreno soava tão alta que por um momento o Braço Direito achou que estivesse entrado no lugar errado. Ivan Cavallone não gritava. Aquele homem era extremamente composto, e era a primeira vez que Mario ouvia aquele timbre. A pessoa a quem aqueles gritos eram direcionados estava de costas para o ruivo, mas ele pôde imaginar facilmente a expressão puramente branca no rosto do Guardião da Nuvem dos Vongola. Nenhum deles, porém, pareceu notar que um terceiro elemento havia entrado no escritório.


"Eu não quero mais ver você! Eu quero que vá embora dessa casa e não retorne mais!"


Nada. O Inspetor permanecia imóvel.

O Chefe dos Cavallone passou as mãos pelos cabelos parando em frente ao amante. Seus olhos cor de mel tinham um brilho diferente, perigoso e inédito. Seus lábios estavam crispados em uma fina linha. Quem é esse homem? Ivan levou a mão até o pescoço e puxou a corrente de ouro com força, retirando-a e deixando uma marca vermelha no local.


"É isso que te impede de ir embora? É essa porcaria de anel?" Corrente e anel foram jogados no fogo da lareira como um pedaço de papel que não tinha mais serventia. Mas que diabos! "Pronto! Nada mais te prende aqui, então fora! Eu não quero você um segundo a mais na minha casa!"


O Braço Direito nunca achou que chegaria o dia em que precisaria tomar o partido de Alaudi. Se alguém lhe dissesse que chegaria o momento em que ele teria de estar literalmente entre seu amigo e o louro, sua reação seria uma larga e sonora gargalhada. No entanto, foi exatamente o que aconteceu quando o moreno fez menção de agarrar o braço do Guardião da Nuvem. Mario, que permanecera imóvel durante todo o tempo, moveu-se em uma velocidade espantosa, empurrando o Inspetor de Polícia para o lado e segurando o Chefe dos Cavallone pelo pulso. Os dois amigos se olharam e naquele momento o ruivo entendeu o que estava acontecendo. Ivan puxou sua mão, oferecendo nada mais do que suas largas costas. O Braço Direito piscou, sabendo que teria de agir com rapidez. Seu corpo virou-se e pela primeira vez ele pôde ver Alaudi. O louro parecia tão chocado que Mario não soube exatamente o que fazer. O Guardião da Nuvem encarou as costas do moreno por um momento e, quando os olhos azuis se abaixaram, o ruivo decidiu que era hora de fazer alguma coisa. Qualquer coisa.


"Eu não quero mais ver esse homem nessa casa, Mario. A partir de hoje a propriedade está fechada para ele. Não o deixe mais entrar." A voz do Chefe dos Cavallone soou alta e pesada, contudo, ele não se virou.


"Sim."


A resposta foi dada sem muita importância. O Braço Direito fez sinal para que o Inspetor viesse com ele, e ambos deixaram o escritório lado a lado. Catarina não estava mais na escadaria, entretanto, havia uma infinidade de subordinados na entrada da mansão, todos surpresos e assustados.


"Marcos," Mario chamou o primeiro homem que apareceu em seu campo de visão, "siga-me com outro carro."


O veículo de Alaudi estava próximo, e o ruivo abriu a porta do passageiro, fazendo sinal para que ele entrasse. Antes que o louro pudesse fazer qualquer pergunta, o Braço Direito deixou claro que o levaria até Roma. Todavia, não houve objeção. Na verdade, não houve... nada. O Guardião da Nuvem sentou-se no mais puro silêncio, virando o rosto para o seu lado da janela e permanecendo imóvel. Mario não se lembrava como havia dado a partida, e nem dos minutos que levou da mansão até o portão principal. Suas mãos tremiam e, durante os quarenta minutos que passou lado a lado com o Inspetor, nenhum deles disse nada. Aquela fora a viagem mais rápida e mais difícil que o ruivo já havia feito. A cena do escritório passava várias e várias vezes diante de seus olhos, misturando-se com a estrada. Mas que diabos você fez, Ivan? Era isso o que você tinha em mente quando me pediu para buscá-lo? Idiota!


O carro parou em frente à casa de Alaudi e ambos desceram no mesmo instante. O louro passou por ele, os olhos baixos e sem dizer nada. O Braço Direito precisou correr atrás do Guardião da Nuvem para entregar a chave do carro, e todo aquele estado letárgico o assustou. Merda! Mil vezes merda!! Mario chamou um dos homens que faziam a proteção daquela área, e deixou ordens explícitas para que ficassem de olho no Inspetor de Polícia. E, quando finalmente entrou no carro em que Marcos trouxera, o ruivo fechou os olhos e respirou fundo.


"Está tudo bem?" O homem perguntou sério.


"Apenas dirija, Marcos. Eu preciso chegar à mansão o mais rápido possível."


Ele estava tremendo. O Braço Direito permaneceu boa parte do caminho com os olhos fechados. Suas mãos estavam juntas e rentes ao peito, mas ele ainda podia sentir o pulso de Ivan tremendo quando ele o segurou. Alaudi acreditou naquele teatro? Era isso o que você queria, não? Que ele acreditasse que você não tinha mais interesse? O quão tolo você consegue ser, Ivan? Mario levou a mão à testa, incrédulo. Era difícil para ele acreditar que seu amigo teve coragem de dizer aquelas coisas para o próprio amante. O ruivo sabia muito bem o quanto o moreno adorava aquele homem. Eu sei que você quer protegê-lo e que se sente culpado por causa do ataque, mas isso? O Braço Direito sentiu-se inquieto ao avistar a entrada da propriedade. Ele queria descer e fazer o trajeto a pé, porém, sabia que seria impossível e aquilo só lhe roubaria um tempo que ele não tinha.


O carro mal havia parado ao lado do chafariz quando Mario desceu e subiu os degraus de mármore com uma pressa absurda. Suas pernas se moveram sem que ele percebesse e o ruivo correu pelo hall, ouvindo nada além do som de seus sapatos tocando o piso branco. A porta do escritório foi aberta e os olhos verdes se arregalaram. As cinco prateleiras de livros foram derrubadas e o chão estava coberto por grossas edições. A pesada mesa de madeira havia sido virada, as poltronas jogadas para um canto. Vasos foram derrubados, partes do tapete manchadas e a única coisa inteira parecia ser o grande quadro da Família que ficava pendurado em um local alto demais para as mãos destrutivas do Chefe dos Cavallone. A Família sempre sobrevive. O Braço Direito cruzou o escritório, pisando nos pouquíssimos espaços livres e aproximando-se da lareira. O fogo ainda queimava, então ele precisou da ajuda de um atiçador para retirar a pequena peça dourada que estava ao fundo. Nenhum arranhão, Mario pensou ao colocar a corrente e o anel sobre o tapete. Eu só não sei se a sua relação sairá intacta, Ivan.


Continua...