V

O último gole da garrafa foi despejado dentro da taça. O líquido desceu sem gosto pela garganta do homem sentado à mesa, e ele não se recordava se aquela era a primeira ou segunda garrafa. O jantar já havia sumido do prato há algum tempo, porém, enquanto houvesse álcool na casa, Giulio estaria em boa companhia. O moreno não era uma pessoa que se apoiava em bebida para resolver seus problemas, não somente por não acreditar que pudesse ajudá-lo — o que não deixava de ser verdadeiro —, mas por ter uma alta tolerância a álcool. Eram extremamente raros os momentos em que o Vice-Inspetor conseguia realmente se embebedar, e as tentativas geralmente não valiam o esforço, pois suas ressacas eram devastadoras. Todavia, desde que sentara naquela larga mesa para jantar, Giulio perdera as contas de quantas vezes virou sua taça. A refeição daquela noite foi um generoso prato de spaghetti à bolonhesa, que terminou muito antes do vinho. O moreno encarou o lugar vazio em frente ao seu assento, sem acreditar que completariam quase duas semanas que sua companhia de jantar não aparecia ou dava notícias. Aquela não seria a primeira briga entre eles, no entanto, pela primeira vez em dez anos o Vice-Inspetor não tinha ideia de como remediar a situação.

Há quinze dias Mario deixara sua casa após uma desnecessária discussão. Giulio esperou dois dias, contudo, quando decidiu ir atrás de seu problemático amante, o trabalho o chamou e foi impossível deixar a sede de Polícia. Com o Chefe Principal na cidade e fazendo visitas diárias e suspeitas a Alaudi, o moreno jamais arriscaria comprometer-se com algo que pudesse criar ainda mais atrito. O ruivo também não o procurou, e no fundo ele sabia que o motivo era mais pessoal do que profissional. A primeira semana de ausência passou e a distância acalmou os ânimos. O Vice-Inspetor precisou de um pouco de tempo para compreender o que realmente havia acontecido naquele dia, e, por mais que entendesse, era simplesmente difícil acreditar que o Braço Direito dos Cavallone estivesse com ciúmes. Mario não é esse tipo de pessoa. O Inspetor de Polícia, e também seu melhor amigo, foi o responsável por abrir-lhe os olhos.

"Você sabe que meu conselho será terminar o relacionamento. Eu sempre direi isso." O louro comentou baixo, no final do expediente da segunda-feira. Ele passara o final de semana na mansão e havia retornado ainda mais exausto. "Entretanto, infelizmente eu não consigo simpatizar com a sua atitude."

"Antonietta não significa mais nada. Nós não somos sequer conhecidos." Giulio mentiria se dissesse que não ficou surpreso ao ouvir que o Guardião da Nuvem concordava com seu amante. Aquilo era definitivamente inédito.

"Não importa. O Insolente levou a pior no final, não?" Alaudi ergueu os olhos azuis. "Não que não tenha sido merecido, mas tudo o que você guardou por anos acabou explodindo nas mãos dele. E, agora, anos depois, a mulher responsável por tudo isso reaparece e você não esboça o mínimo de raiva ou irritação? Até eu que não tenho relação com o assunto não simpatizo com ela. Ela te traiu, Giulio. Ela desonrou um compromisso importante.”

O moreno voltou para casa naquele dia e reservou algumas horas para pensar sobre o assunto. Ele compreendia o que o louro havia dito, porém, simplesmente não conseguia acreditar que Mario ainda guardasse rancor sobre um assunto que acontecera há uma década. O próprio Vice-Inspetor mal se recordava daquela época, pois o tempo que passou ao lado do ruivo foi tão marcante e incrivelmente proveitoso que os momentos ruins não eram nada além de pequenas lembranças espalhadas em sua mente. Ele queria falar com seu amante, não somente naquela noite, também durante a semana que se seguiu, no entanto, existiam outros assuntos, infelizmente de maior importância, e que exigiam certo nível de imediatismo. Todas as vezes que cogitava dirigir-se à mansão Giulio se pegava entre relatórios e reuniões intermináveis, então entrar em contato tornou-se inviável. Eu enviei uma mensagem, mas não recebi resposta. Mario ainda deve estar irritado. O último gole de vinho desceu por sua garganta e o moreno levantou-se, carregando o prato e a taça vazia. Aparentemente ele não teria companhia por mais uma noite.

x

A primeira coisa que o Vice-Inspetor fez quando a reunião terminou foi esticar as pernas. Seu pescoço estalou para ambos os lados, primeiro para a esquerda e depois à direita. Ele estivera por duas horas sentado na mesma posição, os braços cruzados, o olhar reto, contudo, foi muito difícil manter-se acordado e até mesmo atento. O homem ao seu lado, entretanto, parecia muito mais composto. O Guardião da Nuvem levantou-se devagar, arrumando os relatórios e os separando por relevância. Não havia sinal de cansaço ou exaustão, todavia, Giulio sabia que seu Chefe e melhor amigo estava no limite.

"Por quanto tempo precisaremos aguentar esse tipo de coisa?" O moreno ofereceu o relatório que estava sobre o seu lado da mesa. O Inspetor agradeceu e o colocou no meio dos demais.

"Mais alguns dias." Alaudi pousou a mão na nuca e somente naquele momento o moreno notou algo diferente. "Eu gosto disso tanto quanto você."

"Nossas posições são diferentes. Eu honestamente não sei como você consegue ouvi-lo ofender Ivan. Eu não sei se teria tamanha frieza." O Vice-Inspetor foi sincero. Durante duas horas eles ouviram o Chefe Principal da polícia italiana difamar o Chefe dos Cavallone de todas as maneiras possíveis. O homem descrito não era o amante atencioso que o louro conhecia, ou o excelente pai de duas crianças. Era apenas um monstro.

"Eu não me importo, porque não passam de inverdades." O Guardião da Nuvem respondeu com a voz baixa, mas havia algo naqueles olhos que fez com que Giulio tivesse certeza de que aquela resposta não era totalmente sincera. No fundo Alaudi se importa mais do que deixa transparecer. Eu realmente não gostaria de estar em seu lugar.

"Alguma novidade sobre quem está por trás de tudo isso?" Os dois deixaram a sala e a conversa morreu. As reuniões eram feitas no segundo andar, em uma larga sala próxima à do Inspetor. Ambos cortaram o corredor entre as mesas e a resposta para aquela pergunta veio somente quando a porta foi fechada.

"Ivan disse que é uma questão de tempo." Alaudi guardou os relatórios na terceira gaveta de sua mesa e encarou o moreno de frente. "Você tem a mesma desconfiança que eu, não?"

"Eu tentei não pensar sobre isso." O moreno engoliu seco. Ele não achou que aquela conversa aconteceria tão cedo. "Ou não quis acreditar que pudesse ser real."

"Eu mais do que ninguém, acredite." O louro encarou o relógio. "Você pretende almoçar em algum lugar especifico? Poderíamos ir ao restaurante próximo à praça."

"Hm... eu tenho um compromisso, digo, eu já combinei de almoçar com alguém hoje." O Vice-Inspetor corou. Há algum tempo ele não se sentia tão... jovem.

"Entendo." O Guardião da Nuvem meneou a cabeça. "O Insolente foi até sua casa?"

"Não, eu não irei almoçar com Mario."

Eram raros os momentos em que o Inspetor se dava ao trabalho de expressar o que sentia ou pensava. Até mesmo entre eles, amigos desde sempre, Giulio poderia contar nos dedos os momentos em que Alaudi ofereceu sua opinião sobre algo relacionado à vida do moreno. O assunto sempre foi o ruivo, e o louro nunca perdeu a chance de dizer o quanto o detestava e como o Vice-Inspetor deveria terminar com o relacionamento. Porém, naquele instante, Giulio sabia que teria um daqueles raros momentos, e por ser tão inédito, talvez, ele não tenha se importado em receber o olhar pesado e acusador.

"Não se preocupe, eu não direi nada." O Guardião da Nuvem sentou-se em sua cadeira, no entanto, manteve os olhos em sua companhia. "Eu confio em seu julgamento."

"Obrigado."

O moreno pediu licença e se retirou. O dia não estava quente ou abafado, contudo, o Vice-Inspetor afrouxou a gravata quando saiu da sede de Polícia. Ele esperava que seu amigo fosse dizer duas ou três palavras a respeito, além de deixar claro que não concordava com aquela atitude. Entretanto, o silêncio do Inspetor foi mais penoso e desconfortável do que um discurso completo. Giulio sentia como se estivesse fazendo algo errado e aquela sensação o seguiu até o restaurante. Naquele começo de tarde ele degustaria as especiarias de um restaurante familiar e que ficava a vinte minutos da sede de Polícia. O carro foi estacionado do outro lado da rua, e sua companhia já o esperava dentro do restaurante.

Antonietta levantou-se quando o viu, meneando a cabeça e cumprimentando-o com um largo e jovial sorriso.

"Boa tarde." O moreno sentou-se e colocou o guardanapo sobre o colo. Seus lábios esboçaram um meio sorriso enquanto seus olhos fitavam o belo vestido azul claro que sua companhia escolhera para aquela ocasião. A cor sempre foi a favorita de Antonietta e deixava o verde de seus olhos ainda mais evidente.

"Espero não tê-lo roubado de seu trabalho." A mulher bebeu um gole d'água. Os anos poderiam ter passado, todavia, ela continuava tão bela quanto na época em que eles estavam juntos. Os cabelos eram longos e negros, a pele levemente morena e os olhos grandes e verdes. O tempo apenas acentuou o que já era agradável aos olhos, e os sinais da juventude deram lugar às feições dignas de uma mulher madura.

"Eu tenho alguns minutos para o almoço."

Aquela refeição havia sido marcada há três dias, quando os dois se encontraram em um Café. O Vice-Inspetor havia passado para comer alguma coisa rápida, pois não encontrara tempo para almoçar durante basicamente todo o dia. Antonietta estava de saída, e ficou tão visivelmente surpresa ao vê-lo, que o convite para o almoço saiu como uma brincadeira, mas foi aceito de qualquer forma. Giulio tinha uma leve desconfiança sobre aquele encontro, e seria impossível não ter percebido o peculiar interesse que sua ex-noiva tinha em sua pessoa. O moreno não era ingênuo o suficiente para não notar certos olhares e sorrisos. Ele havia convivido tempo demais com aquela mulher para decifrá-la totalmente. Eu estou aqui somente por curiosidade.

O pedido para aquele almoço foi um prato de risoto de legumes na manteiga e um pedaço de carne assada, acompanhado por saladas. Sua companhia pediu uma sopa e os dois conversaram sobre trivialidades durante boa parte da refeição. A ex-noiva mencionou o tempo e os jornais, o clima e a alta dos preços dos alimentos. O Vice-Inspetor ouviu a tudo, respondendo e concordando que no ano anterior você pagava muito menos por uma xícara de café. O assunto nunca saia das linhas superficiais. Nenhum dos dois mencionou nada pessoal e até aquele momento o moreno não vira necessidade ou vontade de cruzar aquele limiar. Antonietta havia se casado e agora era mãe de três crianças, o restante ele não queria saber e não fazia questão de perguntar.

"Soube que a exposição com os novos artistas está excelente. Visitei-a no final de semana e fiquei encantada com a qualidade. Acredito que você ainda pinta, não?"

"Muito raramente. O trabalho não me permite tanto tempo livre." Giulio havia terminado de comer. "Ela está sendo sediada ao lado do Museu, correto?"

"Sim. Recomendo que dê uma olhada. Os pintores estrangeiros, em especial, mostraram ter técnicas excelentes . Retornei para casa com dois quadros."

A ideia agradou ao moreno automaticamente. Há muito tempo ele não tocava em um pincel ou sentava relaxado em frente a uma tela. Ele e o Braço Direito dos Cavallone visitavam regularmente exposições, e aqueles passeios muito lhe agradavam. Além da incrível afinidade sexual, os dois eram amantes de Arte, e visitar galerias era um dos passatempos favoritos entre eles. Eu sinto falta desses momentos. Eles parecerem tão distantes. Lembrar-se seu amante era doloroso, principalmente em momentos como aquele. Se ele nos visse agora eu certamente precisaria muito mais do que um discurso bonito para remediar a situação. O pensamento fez o Vice-Inspetor sorrir triste. Não havia motivo real para ele estar ali além de curiosidade. Eu deveria estar com ele. Pedindo desculpas e aproveitando o meu tempo. Os olhos verdes se ergueram e Giulio retirou a carteira de dentro do bolso do terno.

"Achei que tivesse tempo para almoçar." Antonietta juntou as sobrancelhas, confusa.

"Eu tenho, e já estou satisfeito, mas permita-me pagar pela refeição." O dinheiro foi depositado embaixo da beirada de seu prato vazio e o moreno ficou em pé. "Eu preciso visitar um lugar antes de retornar ao trabalho."

"Compreendo e obrigada pela companhia. Talvez pudéssemos combinar de tomarmos um chá algum outro dia."

O Vice-Inspetor umedeceu os lábios e estudou por alguns segundos a mulher sentada. Ela costumava ser o meu mundo. Giulio lembrava-se do dia em que a pediu em casamento, ajoelhado em um restaurante como aquele. O anel havia lhe custado meses de salário, e nem seria preciso dizer o quanto ele não havia gastado com a casa. Antonietta chorou ao aceitar o pedido e as pessoas presentes no restaurante aplaudiram a cena e felicitaram o novo casal. Os dois seguiram para o local em que o moreno morava — na época, uma casa menor e em outro lugar — e o restante da comemoração foi passada sobre a cama. Recordar-se daquele tempo era quase como ler um livro ruim: você não esqueceria a história, mas era difícil lembrar-se das partes boas, porque a obra como um todo havia sido decepcionante. Aquela certeza cresceu mais e mais em seu peito, até que o Vice-Inspetor notou que não ganharia nada se encontrando com a mulher que havia destruído seus antigos sonhos.

"Eu não sei por que você insiste em se encontrar comigo, Antonietta. Eu não tenho interesse em vê-la novamente, portanto, acredito que esta será a última vez." A surpresa no rosto da mulher foi tão visível que Giulio quase sorriu. "Com licença."

O moreno retirou-se depois de um polido cumprimento. A gravata foi apertada assim que ele ganhou a rua e, ao contrário da expressão constrangida que o acompanhou quando deixara a sede de Polícia, agora o Vice-Inspetor se sentia confiante. Eu achei que me encontrando com Antonietta eu pudesse descobrir algo, alguma sensação perdida, mas não existe nada. Giulio não sentia raiva, desprezo ou ressentimento. Sua ex-noiva simplesmente não significava nada, e sua presença era semelhante à de um estranho. O moreno não era a melhor pessoa do mundo e conseguia ser irritante quando queria, porém, não havia nada para sentir ou nenhum sentimento para remoer. O carro foi ligado e o Vice-Inspetor esboçou um meio sorriso. Eu já perdi tempo demais longe dele, então, se eu vou me humilhar e pedir uma segunda chance que seja com um belo pedido de desculpas. O veículo deslizou pela rua e o sorriso tornou-se mais largo. Giulio amava Arte.

x

A galera ficava a quinze minutos do restaurante, no entanto, naquele começo de tarde o moreno fez o trajeto em dez. A rua em frente ao local estava cheia, logo, o Vice-Inspetor estacionou em uma esquina paralela. Seus olhos correram o perímetro antes de descer do carro, em busca de algum rosto suspeito ou ação estranha. Cuidado nunca era demais e Giulio poderia se vangloriar por ser uma pessoa extremamente precavida. Ele não combinara um horário certo para retornar, e duvidava que Alaudi se importasse se seu retorno fosse breve ou um pouco mais demorado. Nos últimos dias o louro estava concentrado no trabalho, sendo o primeiro a chegar e o último a sair. Muitas vezes o moreno o visitava, levando uma xícara de café ou alguma coisa para comer. Ele sempre teve o péssimo hábito de negligenciar as refeições quando está concentrado. No dia anterior, se não fosse pelo Vice-Inspetor, o Guardião da Nuvem teria passado o dia somente com uma xícara de leite no estômago.

Havia uma grande quantidade de pessoas na longa escadaria que levava à entrada. Giulio sentiu um agradável frio na barriga, aquele mesmo sentimento de pura excitação que ele sentia quando entrava em uma local como aquele. As seções eram divididas por nacionalidades, contudo, como tinha pouco tempo nas mãos, o moreno decidiu que apenas passaria os olhos e retornaria outro dia, quando possuísse tempo livre. A primeira parte era reservada aos pintores locais, e os olhos verdes estudaram os quadros, principalmente as paisagens. Aquele sempre foi o tipo de arte favorita do Vice-Inspetor. Giulio pintava nas horas vagas, nada profissional, apenas hobby, entretanto, nunca conseguiu retratar pessoas. Elas sempre foram um grande desafio, então seus sentimentos e pensamentos eram expostos na forma de paisagens. Montanhas, gramados, serras e campos... tudo dependia de seu humor.

A área reservada à arte estrangeira era dividida por salas. A primeira era espanhola e ali o moreno sentiu as cores se tornarem mais vibrantes, principalmente com o uso do vermelho e do amarelo. Um quadro de uma garota brincando em uma fonte, molhada e com um largo sorriso no rosto, fez com que o Vice-Inspetor se surpreendesse com a técnica utilizada, principalmente a escolha das proporções. Grande parte dos quadros daquele local estava vendida, pois havia uma pequenina fita vermelha pendurada embaixo de seus nomes. Espero encontrar algo para presenteá-lo. Faz algum tempo que não visitamos exposições e eu sei que Mario adora ganhar quadros. No último aniversário do ruivo, Giulio o presenteou com um quadro de sua autoria. A paisagem era do nascer do Sol vista de cima de uma montanha. O Braço Direito pendurou o quadro em seu quarto, em frente à cama. Ele disse que adora acordar e encarar aquela cena. Me pergunto se Mario ainda sente o mesmo. O moreno deixou a sala e seguiu para a seção dedicada à arte francesa. Seu peito doía ao lembrar-se de seu amante, todavia, ele precisava se focar ou seu presente passaria despercebido por seus olhos desatentos.

A sala reservada aos pintores franceses era quase toda dedicada à pintura humana, e por um momento o Vice-Inspetor quase deu as costas e passou para o lado oriental. Porém, ao pisar naquela área, os olhos verdes foram capturados pela larga pintura no final da sala, e que ficava basicamente em frente à porta de entrada. Giulio cruzou a distância, pé depois de pé, ignorando totalmente o entorno. Ele não viu, por exemplo, o belíssimo quadro de uma prostituta, nua e deitada sobre uma cama de colcha azul clara. Seu pescoço havia sido cortado e o sangue que pingava em sua pele pálida parecia realmente sangue e não tinta; ou a pintura de várias crianças de mãos dadas ao redor de um chafariz. Naquele momento tudo o que o moreno via era o quadro, e, quando finalmente parou em frente à pintura, os lábios do Vice-Inspetor formaram uma dura e fina linha.

Ele conhecia aquelas costas.

Ele identificou os ombros assim que seus olhos pousaram sobre o quadro e automaticamente sua mente lhe mostrou as milhares de vezes em que ele pôde vê-las. As sardas foram cuidadosamente pintadas e, mesmo não estando tão próximo, Giulio pôde notar a dedicação que o pintor ofereceu à pintura. Os detalhes eram vivos, como a colcha vermelha e as linhas das costas. Os fios de cabelos ruivos fora meticulosamente desenhados e, apesar de saber que a pessoa naquele quadro jamais se viraria, a sensação que percorreu o moreno não foi saudável. O Vice-Inspetor se sentia incomodado. Em ambos os lados havia pessoas paradas, observando o mesmo quadro e fazendo comentários. Uma delas, um homem provavelmente da mesma idade do moreno, comentou com outro sobre a pele pálida e a deliciosa sensação que não deveria ser senti-la em seus dedos. Outro comentário partiu de uma moça, sussurrando com uma amiga sobre o rosto do modelo, desejando vê-lo para saber se era tão belo quanto suas costas. Ele é. Ele é muito mais belo. As sardas cobrem seu peitoral e nariz. Os olhos são verdes, os lábios bem preenchidos e rosados, os dentes perfeitamente alinhados e brancos. O homem desse quadro é simplesmente perfeito... e todos agora sabem disso.

Giulio sentiu as mãos se fecharem em forma de punho. Sua cabeça parecia pesada e ele se arrependera amargamente de estar ali. Os olhos verdes fitaram o quadro, procurando por algum sinal de compra, e, ao não encontrar nada, o moreno automaticamente apertou os olhos, decidido a tirar aquela pintura de circulação. O pensamento de ver as pessoas encarando o que era seu, o homem que era seu amante, o deixava extremamente incomodado. Seu pé direito deu o primeiro passo, caminhando na direção do quadro a fim de ler o nome do pintor. Tudo o que eu preciso fazer é me dirigir a ele e perguntar seu preço. Eu pagarei o que for preciso, mas levarei o quadro comigo. Hoje. Agora. As letras se juntaram, no entanto, antes que o Vice-Inspetor pudesse lê-las, alguém parou ao seu lado.

"Desculpe, senhor, mas esse quadro já possui dono."

"Eu pagarei três vezes mais do que foi oferecido." Giulio conseguiu ler o nome e seus dentes trincaram. Ele sabia muito bem quem estava ao seu lado.

"Desculpe novamente, senhor, mas o quadro não foi vendido." O homem de cabelos louros respondeu com um sorriso. "Foi um presente."

"Não me diga." O moreno encarou sua companhia. Ele não aparentava ter mais de 22 anos, contudo, o Vice-Inspetor sabia muito bem que na verdade ele tinha quase 29. "E por que alguém abriria mão de ganhar dinheiro? Acredito que você seja famoso em seu país."

"Muito pelo contrário. Eu vivo da minha arte e infelizmente não posso me dar ao luxo de fazer doações, mas a ocasião foi especial." O pintor virou-se e encarou o quadro com olhos brilhantes. O corpo inteiro de Giulio tremeu de raiva. "Fizemos um acordo e acredito que ambas as partes saíram ganhando."

"Acordo?" As palavras foram ditas arrastadas. O moreno sabia bem como esconder suas emoções quando o assunto era trabalho. Nessas ocasiões era preciso vestir uma máscara, agir como se nada ou ninguém pudesse afetá-lo. Entretanto, diante daquela pessoa, o Vice-Inspetor não conseguia omitir seu ciúme. Mentalmente ele desejava colocar aquele homem contra a parede e interrogá-lo através de meios não muito justos. Quando o assunto era o ruivo, Giulio simplesmente não conseguia manter a cabeça no lugar.

"Eu disse que daria o quadro se ele posasse mais uma vez para mim."

"E você quer que eu acredite que ele aceitou tal coisa?" Foi impossível não sorrir naquele momento. O moreno encarou o chão, achando que já havia ouvido o suficiente.

"Eu não me importo se você acredita ou não." Jules virou-se para o Vice-Inspetor. Daquele ângulo Giulio pôde vê-lo melhor. Ele mudou, mas ao mesmo tempo continua o mesmo. São os olhos. Os mesmos olhos daquele tempo. "Mas Mario posou para mim anteontem, no Hotel em que estou hospedado. Nós conversamos e rimos e ele permaneceu sobre a minha cama por horas, enquanto eu o pintava. O quadro ficará muito melhor do que este, porém, eu não o venderei. O manterei comigo para me recordar d—"

O homem louro ficou na ponta dos pés, todavia, seus olhos se mantiveram desafiadores. O moreno não soube o momento exato em que sua paciência se esvaiu, apenas sentiu quando sua mão direita segurou o francês pelo colarinho da camisa e o ergueu, o suficiente para que ficassem frente a frente. O jovem ergueu as mãos, mostrando que não lutaria, e havia um cínico e debochado sorriso em seus lábios perfeitamente delicados e rosados. As pessoas ao redor se afastaram, e o Vice-Inspetor o soltou antes que a segurança chegasse. Jules ajeitou suas vestes, mas seus olhos permaneceram em sua companhia o tempo todo.

"O que me diz de uma xícara de café?" O louro não parecia abalado pelo que acabara de acontecer. "Eu acredito que precisamos conversar."

"Não há nada que você tenha para me dizer que possa me interessar." Giulio tinha o rosto em chamas. Não era de seu feitio fazer aquele tipo de coisa, ainda mais em um local público.

"Se você está enciumado com o que eu disse, saiba que o encontro foi profissional. Nada aconteceu. Mario deixou claro que só serviria de modelo." O francês apontou na direção da porta. "Por favor, eu insisto. Estou curioso sobre certas coisas, principalmente a hostilidade gratuita, sendo que nunca nos falamos anteriormente."

Alaudi diria que esta é uma escolha ruim e que eu deveria ir embora, o moreno pensou consigo quando deixou a sala acompanhado pelo jovem pintor. Os dois cruzaram a galeria, seguindo para o fundo onde havia a parte reservada para gastronomia. O Vice-Inspetor não reparou nas demais salas, ignorando totalmente os quadros pendurados, fossem paisagens ou desenhos humanos. A cada passo Giulio sentia sua calma retornar, e ele sabia que não conseguiria permanecer ali se não encontrasse novamente sua serenidade. Eu não quero acreditar que Mario realmente se encontrou com essa pessoa... e sem me dizer nada. O moreno apertou novamente a mão direita, e sentindo o gosto amargo do café que ele ainda não havia sequer provado. A imagem de Antonietta apareceu em sua mente e automaticamente o Vice-Inspetor entendeu a sensação. As palavras do ruivo fizeram mais sentido e Giulio sentiu-se egoísta por ter agido de forma idiota no dia da briga.

O moreno nunca havia realmente conversado com Jules, porém, ele sabia quem era aquela pessoa.

O Braço Direito dos Cavallone jamais mencionara seus amantes antigos, no entanto, o louro, em especial, chegou ao seu conhecimento por mero acaso. Aquela história nunca fora contada a Mario, embora o Vice-Inspetor estivesse inclinado a achar que muito em breve o ruivo saberia de todos os detalhes. Dez anos atrás, eles ainda não eram amantes. Antes da conversa que ambos tiveram no escritório da casa do Braço Direito, Giulio passou semanas amargurando uma escolha ruim, e sem saber como dar o próximo passo. Por diversas vezes ele ensaiou o pedido de desculpas, contudo, alguma coisa sempre ficava no caminho, fosse o trabalho ou a ausência de Mario na cidade. E, em uma tarde, o moreno avistou o ruivo por mero acaso em um Café. Ele não estava vigiando ou esperando encontrá-lo, apenas aconteceu. Na data o Braço Direito estava acompanhado pelo francês, na época praticamente um adolescente. Os dois permaneceram no local por algum tempo, e seguiram depois até um Hotel. De onde estava o Vice-Inspetor jamais conseguiria afirmar o que conversaram, entretanto, ele viu muito bem o momento em que o jovem puxou Mario pela camisa, beijando-o profundamente, ali, no meio da calçada.

A cena jamais saiu da mente de Giulio. Ele poderia não se recordar de toda a história, todavia, a imagem do ruivo beijando outra pessoa o assombrou por noites. Naquele momento o moreno soube que se não tomasse uma atitude ele perderia o Braço Direito sem nunca ter tido a chance de realmente possuí-lo. Aquele homem não era comum. Mario poderia estar com qualquer pessoa, a qualquer hora e em qualquer lugar. A realização de que uma pessoa como aquela havia se interessado por ele fez com que o Vice-Inspetor entendesse um pouco da sorte que tinha nas mãos. Giulio investigou Jules depois disso. Ele descobriu o local de nascimento, o nome, a idade e a universidade que frequentava. A busca foi apenas por mero desencargo de consciência, pois o moreno nunca imaginou que viveria para vê-lo novamente. Isso é um pesadelo...

O pequeno Café da galeria estava cheio, mas o louro milagrosamente conseguiu um local vago, próximo à rua. O lugar era coberto, porém, aberto; daquele local eles poderiam ver o céu parcialmente azul de Roma, e que infelizmente para o Vice-Inspetor não estava assim tão belo. O francês sentou-se, pedindo uma xícara de cappuccino com duas colheres de açúcar. Giulio pediu uma xícara de café preto e seus braços foram cruzados no instante seguinte. De nada adiantaria esconder suas reais intenções, não naquela altura do campeonato. O jovem recostou-se à cadeira e esboçou um meio sorriso, e a sensação de que talvez aquela pessoa estivesse se divertindo com a situação o irritou. Uma pena que eu não possa prendê-lo!

"Eu o vi naquele dia," Jules tocou o guardanapo branco que estava próximo, "do outro lado da rua, em frente a um carro negro. Eu não sabia quem você era, mas eu sabia o que você fazia ali."

Ele sabia. O humor do moreno se tornara ainda pior.

"Você o beijou sabendo que eu estava ali, não?"

"Sim e não. Eu o beijei porque sabia que seria nosso último beijo, mas eu também sabia que você não iria gostar." O louro ofereceu uma piscadela. "Eu notei que você nos seguia desde o Café então deduzi que fosse o tal homem que havia roubado o sorriso de Mario. Aparentemente eu estava certo."

Os pedidos foram servidos e a conversa foi momentaneamente interrompida. O francês agradeceu ao atendente e levou a xícara até os lábios, bebericando primeiro a espuma do cappuccino. O café do Vice-Inspetor permaneceu onde estava. Ele não sentia sede ou real necessidade de digerir a bebida, apenas a pediu para prolongar algo que não deveria ser prolongado. Eu não vou ficar aqui perdendo o meu tempo com joguinhos. Esse garoto está se divertindo às minhas custas.

"Eu o quero para mim." Jules pousou a xícara sobre o pires. O sorriso tolo havia se desfeito e os olhos azuis estavam sérios. A voz — arrastada e com forte sotaque — soou masculina e direta.

"Ele não está à venda." Giulio precisou beber seu café ou o teria jogado no rosto do louro. Pirralho audacioso.

"Eu não disse que pagaria por ele." O francês recostou-se à cadeira, estudando o moreno. "Mario está preso, como há dez anos. Imagine minha surpresa após reencontrá-lo depois de tanto tempo e notar que o motivo pelo qual aquele homem não sorri é exatamente o mesmo."

"Eu não discutirei a minha vida pessoal com você, jovem." O Vice-Inspetor retirou a carteira do bolso do terno pela segunda vez naquele dia e depositou uma quantia suficiente para pagar ambas as bebidas e ainda deixar o atendente feliz. "Eu não sei o que você viu ou ouviu, mas eu e Mario estamos juntos há dez anos. O que nós construímos não pode ser destruído por um rapaz de olhos brilhantes e sorriso fácil. Se ele não te quis naquela época, saiba que as chances de ele te querer agora são nulas."

Pela primeira a expressão cínica deixou o belo rosto de Jules. O comentário havia visivelmente acertado suas inseguranças, e naquele momento Giulio sentiu-se bem consigo mesmo. Ele não mentira. Os dois estavam juntos há uma década e passaram por muita coisa juntos. Brigas, discussões, risadas, gargalhadas, noites frias, noites quentes, noites no sofá, na cama e sobre a mesa de jantar. O ruivo trouxe cor à sua vida, e o moreno sabia que havia moldado certas peculiaridades em seu amante. O Braço Direito se tornou menos explosivo, embora sua ousadia não houvesse diminuído. Nós construímos tantas coisas juntos. Chega a ser injusto ouvir desaforos de alguém que não faz ideia de que eu e Mario nos tornamos um só.

O Vice-Inspetor se levantou, oferecendo um sincero sorriso ao deixar seu lugar. Ele não viu que expressão o louro vestia, no entanto, imaginou que era algo parecido com a que ele mesmo esboçara durante os últimos dez minutos. Giulio cortou novamente a galeria, descendo a escadaria e seguindo até seu carro. Ele não havia encontrado o presente ideal, contudo, aquele inusitado encontro o fez lembrar-se de que, não importasse o quão belo e caro fosse o quadro, se o ruivo não quisesse vê-lo então não haveria como pedir desculpas. E eu voltei ao ponto de partida...

x

Não foi fácil retornar à sede de Polícia. O moreno sentiu-se tentado várias vezes a abandonar o caminho original e seguir na direção da mansão da Família Cavallone. O desejo o seguiu durante os minutos necessários para chegar ao trabalho e, ao entrar no prédio, o Vice-Inspetor soltou um longo suspiro. Um dos policiais se aproximou, avisando que Alaudi havia saído para almoçar, entretanto, não sabia se retornaria. Isso significa que eu precisarei ficar aqui. Giulio subiu até o terceiro andar, entrando em sua sala e fitando as paredes. Havia quadros em toda a parte, alguns novos, outros antigos, todavia, não passavam de pinturas. O francês surgiu em sua mente, e o moreno sentou-se com barulho em sua cadeira. A mesa estava organizada, mas a pilha de papéis do lado direito precisava ser lida e assinada. Desde que o Chefe Principal chegou a Roma, o Vice-Inspetor precisou dividir seu tempo entre a investigação — ou a não-investigação dos Cavallone —, e os problemas rotineiros. Assaltos, invasões e até uma tentativa de sequestro... apenas mais um dia na cidade.

A tarde passou devagar. Giulio não se sentia inclinado a ler relatórios, porém, ele sabia melhor do que ninguém que não adiantaria fugir. Em algum momento aqueles papéis precisariam descer para o primeiro andar, e o quanto antes, melhor. Em determinado momento um policial pediu licença, entrando e depositando uma mensagem sobre a mesa. Por um momento o coração do moreno bateu mais rápido, imaginando se aquele pequenino bilhete poderia trazer alguma notícia de seu teimoso amante. A letra era caprichada e delicada demais e, assim que encarou o pedaço de papel, o Vice-Inspetor soube de quem se tratava. Antonietta desculpou-se pelo almoço e pediu que eles se encontrassem novamente, pois havia algo que ela gostaria de conversar. Giulio suspirou, colocando o bilhete dentro de uma das gavetas e voltando ao trabalho.

Trabalhar quando sua mente estava em outro lugar não era uma tarefa simples. A janela ficou aberta durante a tarde, portanto, o moreno pôde utilizar o céu italiano como medida de tempo. Os relatórios desapareceram pouco a pouco, assim como a claridade do céu. Do azul claro para o azul escuro e finalmente o negro da noite. O Vice-Inspetor sabia que era tarde, muito mais tarde do que ele estava acostumado a trabalhar. Durante as horas que ficou em seu escritório, ele foi visitado várias vezes pelos policiais, cada um por um motivo diferente. Quando o Guardião da Nuvem não estava no prédio, era seu dever assumir as responsabilidades imediatas. O tempo passou e o local tornou-se mais e mais vazio. O último policial subiu até o terceiro andar, avisando a Giulio que estava de saída. Os dois se despediram e o moreno mandou lembranças à esposa do homem, que sempre trazia deliciosas tortas para os colegas de trabalho.

O Vice-Inspetor encarou o relógio, ignorando que já havia passado das onze da noite. Normalmente ele deixava a sede de Polícia depois das 17h, no entanto, naquela noite Giulio não se sentia inclinado a retornar para casa. O local parecia maior, principalmente seu gigantesco quarto. Quando decidiu que transformaria o segundo andar em sua suíte particular, o moreno sabia que estaria abrindo mão de seis cômodos para abrigar um quarto desnecessariamente grande. Por anos ele ficou satisfeito, embora sempre achasse que tinha espaço de sobra. Contudo, Mario fazia com que o local possuísse o tamanho ideal. Vez ou outra eles trocavam a cama pelo chão, fosse próximo à lareira ou embaixo das janelas. Uma vez, no verão, os dois passaram a noite encarando o céu estrelado, deitados no tapete e olhando além da janela. O ruivo dormiu primeiro, uma expressão tranquila e quase inocente pintava seu rosto salpicado por sardas. Eu sinto falta daqueles momentos, o Vice-Inspetor levantou-se e caminhou até a janela de seu escritório. O céu também estava estrelado, entretanto, infelizmente ele não estava ao lado de seu amante.

Giulio abaixou os olhos e piscou. Suas sobrancelhas se juntaram e ele teve a estranha impressão de ter visto alguém entrar no edifício. O seu escritório ficava no terceiro e último andar, em frente à rua, então era fácil observar a entrada. O moreno voltou para sua mesa, abrindo a segunda gaveta e retirando suas armas. Uma delas foi colocada em sua cintura, enquanto a outra foi parar em sua mão esquerda. Ele as checava diariamente, e sabia que estavam carregadas. Tudo o que eu preciso é algum meliante tentando invadir o prédio. O Vice-Inspetor cruzou o escritório com pressa, todavia, abriu a porta com gentileza. O terceiro andar servia como arquivo, mas as luzes estavam acessas. Giulio permaneceu imóvel, prestando atenção a qualquer som distinto. Nada. Não havia barulho ou movimento, apenas o silêncio. O moreno saiu do escritório, fechando a porta às suas costas com gentileza, e mantendo os olhos atentos. Seus pés caminharam lentamente na direção da escadaria, evitando ao máximo fazer qualquer ruído. Eu estou ficando paranoico. O Vice-Inspetor coçou a testa com o polegar e seu corpo deu meia-volta no exato momento em que um pesado som o fez arrepiar-se por inteiro.

O segundo andar estava tão iluminado quanto o terceiro e Giulio desceu as escadas às pressas, sem sentir os mais de vinte degraus. Os olhos verdes correram o local, não vendo absolutamente nada de diferente. O barulho veio daqui. Alguma coisa caiu aqui. O moreno segurou a arma com ambas as mãos, deixando que seus olhos examinassem minuciosamente o entorno. Não havia corredor. O segundo andar era cheio de mesas e cadeiras. Todos conseguiam ver quem subia ou quem descia, logo, não havia aonde se esconder. A sala de reuniões permanece fechada, portanto... Espere, existe um lugar. O Vice-Inspetor virou o rosto para a esquerda, encarando a sala de Alaudi. Aquele era o único local restrito: uma pequena sala localizada do seu lado esquerdo. A porta está aberta. Há muito tempo Giulio não sentia aquela agitação no trabalho. Antes da atual situação, os casos que surgiram foram pequenos e parcialmente parados. Eles foram resolvidos em sua maioria atrás de sua mesa, então, para o moreno entrar sem bater e completamente descomposto, era porque havia algo realmente errado acontecendo.

O Vice-Inspetor nunca esqueceria o dia em que viu Alaudi pela primeira vez. O louro não passava de um garoto, pequeno para sua idade, olhos baixos e cujos lábios nunca sorriam. O Guardião da Nuvem estava sentado em uma poça de lama quando Giulio se aproximou e ofereceu a mão para ajudá-lo a ficar em pé. Ele havia surrado os garotos que pregaram aquela peça, porém, a pobre vítima permanecera no mesmo local, como se estivesse impossibilitada de se mover. A gentileza não foi aceita, claro, e o Inspetor levantou-se sozinho e se afastou, ignorando as roupas sujas. O moreno soube naquele momento que ambos seriam amigos. Ele soube que sempre precisaria estar por perto, pois aquele garoto tinha um estranho dom para se meter em problemas. Mais de vinte anos haviam se passado desde aquele encontro, porém, ao entrar na sala de Alaudi, o Vice-Inspetor sentiu-se novamente uma criança vendo o louro sobre a poça de lama.

A única diferença é que dessa vez não era terra e água. Era sangue.

Continua...

Notas finais
Como mencionei para alguns leitores, aqui a imagem do modelo que me lembra o Enrico. Enjoem : http://i1064.photobucket.com/albums/u373/burunas/TomaszPastyrczak_Enrico.jpg