IV
Ele não sentiu a dor de imediato quando o tapa tocou-lhe o rosto. O som, sim, chegou aos seus ouvidos e Francesco virou o rosto por puro reflexo, endireitando-se em seguida. A dor então apareceu, mas não era decorrida de sua bochecha vermelha. A parte física pouco importava. Entretanto, foi impossível ignorar a maneira como seu peito tornou-se apertado quando seus olhos cor de mel encararam o homem à frente. Eu sinto muito, ecoou no mesmo instante dentro da mente do rapaz de cabelos castanhos. Eu sinto muito, ele tentou murmurar, no entanto, as palavras simplesmente não ganharam forma. Eu sinto muito, a lágrima que escorreu pelo rosto de Giuseppe fez os próprios olhos do herdeiro se tornarem úmidos. Eu sinto muito...
"Você..." A voz do homem de cabelos louros pareceu acordar o futuro Chefe dos Cavallone. Os olhos cor de mel se arregalaram ainda mais, porém, seu corpo ainda não se movia. "Você é o pior tipo de pessoa que eu já conheci, Francesco, e eu me recuso a permanecer ao seu lado."
O herdeiro nunca esqueceria o dia em que conheceu o Braço Direito. Ele já havia visto o garoto alourado perambulando pela propriedade, contudo. Aquela foi a primeira vez que seu pai os colocou frente a frente. Francesco tinha pouco mais de quatro anos e, embora não se lembrasse de praticamente nada de sua infância, o momento em que Giuseppe ajoelhou-se à sua frente, segurou a sua mão e sorriu, jamais seria esquecido. "Muito prazer, Francesco. Meu nome é Giuseppe e a partir de hoje eu estarei sempre ao seu lado." As palavras soaram grandes aos ouvidos do garotinho. Ele não conhecia aquela pessoa, não fazia ideia de quem fosse e porque eles estavam se cumprimentando, todavia, o prospecto de tê-lo sempre ao seu lado lhe agradou imediatamente. Pensando sobre o assunto, o rapaz de cabelos castanhos arriscaria dizer que se apaixonou naquele momento pelo louro. O Braço Direito manteve sua promessa e por dez anos ele esteve ao lado do futuro Chefe. Não importasse o dia ou o momento, Giuseppe era figura certa, fosse literalmente por perto, ou observando-o de longe. O herdeiro cresceu com aquele olhar e aquela companhia, a ponto de seus olhos buscarem o louro quando ele não estava por perto. Ele se tornou parte de mim... até este jantar.
Francesco não conseguiu mover um único músculo. Ele viu quando o Braço Direito deixou a sala de jantar; Mario o seguiu após alguns segundos e Catarina deixou a mesa de maneira assustada. Eu não consigo me mover. Eu quero sair, correr atrás dele e implorar perdão, mas simplesmente não consigo me mover. O rapaz de cabelos castanhos sentiu a respiração tornar-se descompassada. Suas emoções estavam uma bagunça, mas não havia nada que ele pudesse fazer já que até mesmo mover as pernas e retirar-se dali necessitava um esforço que ele não tinha no momento.
"Francesco," a voz de Ivan o fez tremer. Suas mãos moveram-se, apertando o garfo e ele sentiu-se momentaneamente dono de seus movimentos. "Vá para o seu quarto."
Em qualquer outro dia o futuro Chefe teria argumentado, porém, naquela noite tudo o que ele fez foi obedecer. O herdeiro retirou-se da mesa, deixando a sala de jantar e sentindo os olhos encherem-se com lágrimas. O hall estava vazio. Não havia sinal de Giuseppe, do ruivo ou Catarina e aquela completa desolação foi a gota d'água. Francesco então correu. O hall foi cruzado em uma rápida corrida e os degraus da longa escadaria transpostos com uma excessiva e necessária pressa. Nunca o conforto de seu quarto foi tão relevante, e somente ao fechar a porta foi que o rapaz de cabelos castanhos permitiu-se extravasar aquela onda de emoções conflitantes. As lágrimas desceram grossas e pesadas, acompanhadas por um soluço mudo e doloroso. O futuro Chefe dos Cavallone sentiu as pernas cederem, precisando sentar-se às pressas sobre a cama. O choro então se tornou mais alto, e ele deitou-se, afundando o rosto na roupa de cama e permitindo-se aquele momento de fraqueza. Há anos o herdeiro não sabia o que era chorar daquela forma. As lágrimas saíam, sem barreiras ou impedimentos. A voz do homem louro ecoava em sua mente, enquanto atrás de seus olhos fechados ele via novamente a expressão séria e enojava que seu Braço Direito lhe ofereceu antes de sair da sala de jantar. Ele havia falhado. Ele havia falhado miseravelmente com a pessoa que amava.
Por alguns minutos Francesco permaneceu na mesma posição, deixando as lágrimas saírem. Não havia ninguém para consolá-lo ou oferecer um abraço apertado, dizendo que estava tudo bem, que aquele havia sido apenas um mal-entendido. O rapaz sabia o que havia feito, e, mais ainda, sabia que sua ação teria consequências. Eu o perdi. Eu o perdi para sempre. A ideia de que Giuseppe certamente pediria para afastar-se do cargo, e consequentemente dele, fez com que o choro se tornasse ainda mais angustiante.
O futuro Chefe não tinha esperanças que seus sentimentos fossem retribuídos. Aquele era um desejo inocente e que ele não se permitia ter. O beijo que ambos trocaram no Natal, há três meses, seria a única memória que o herdeiro carregaria de seu primeiro amor. Depois do ocorrido nenhum deles voltou a tocar no assunto e Francesco estava satisfeito. Ele tinha a presença do louro diariamente, tendo-o ao seu lado, ouvindo sua doce voz e admirando-o sorrir. Aquilo era suficiente. Possuir aqueles momentos era muito mais do que ele merecia. No entanto, não mais. Eu provavelmente nunca mais o verei. Acabou.
O som de três batidas na porta fez o rapaz de cabelos castanhos se assustar. Seu corpo ergueu-se rápido, e ele passou as costas das mãos sobre os olhos, secando-os com pressa. O caminho até o banheiro da suíte foi feito com rapidez, e o futuro Chefe dos Cavallone só teve tempo de lavar o rosto, secá-lo e retornar ao quarto. Ele sabia quem era do outro lado, e aquela realização o deixou parcialmente temeroso. A maçaneta foi girada e o herdeiro respirou fundo. O primeiro rosto que surgiu em seu campo de visão foi exatamente quem ele queria ver. Alaudi pediu licença e naquele momento Francesco quase se jogou nos braços de seu segundo pai. Enquanto chorava sobre a cama, o rapaz desejou que o louro fosse aquele responsável por dar-lhe o sermão que ele sabia que ouviria. O Guardião da Nuvem era mais rígido que Ivan, contudo, possuía um ar diferente, uma maneira doce de tratar as coisas. Na noite anterior, quando o Inspetor o visitou no quarto e pediu que o futuro Chefe permitisse que seu Braço Direito fizesse companhia a Catarina, o herdeiro, apesar de não concordar, sabia que a conversa teria tomado outro rumo se seu outro pai houvesse iniciado o diálogo. Alaudi adentrou ao quarto e Francesco recuou, engolindo seco ao avistar o moreno vindo logo atrás. O Chefe dos Cavallone não o olhou, apenas entrou e fechou a porta. O louro fez sinal para que o rapaz se sentasse em sua cama, e naquele momento ele sentiu um estranho arrepio. Eu estou com sérios problemas...
Ivan caminhou até a escrivaninha, puxando a cadeira e a trazendo-a próxima à cama. O Guardião da Nuvem havia se sentado ao lado do futuro Chefe, e aquela proximidade muito lhe agradou. O moreno sentou-se e finalmente encarou o filho. O olhar, entretanto, durou meros segundos. O herdeiro não conseguia manter contato visual. Ele estava envergonhado demais para isso e sabia que seu pai jamais teria adiado aquele assunto, então a visita não o surpreendeu. Sempre que um problema surgia, o Chefe dos Cavallone procurava resolvê-lo o quanto antes. "Você terá tempo para remoer depois", eram suas palavras exatas. Todavia, o herdeiro gostaria de ter tido algum tempo, algumas horas. Ele sabia que seus olhos estavam vermelhos e era visível que estivera chorando. Aliás, a vontade ainda estava em seu peito, e o choro preso na garganta. Se Ivan estava ali era porque a situação era séria o suficiente e não poderia ser tratada somente pelo Inspetor de Polícia.
"Eu sei que fiz besteira, eu sinto muito." O pedido de desculpas finalmente saiu, mas diferente do que ele imaginara. Sua voz soou baixa, e ele se sentiu novamente com cinco anos de idade.
"Besteira seria se você tivesse quebrado uma estátua, riscado um carro ou derrubado um dos quadros." A voz do moreno soou séria. "Nós precisamos ter uma conversa séria, Francesco." O rapaz engoliu seco e permaneceu imóvel. Quanto menos ele falasse, menor seria o risco de dizer o que não deveria. "Antes, porém, eu vou contar algo te fará entender muito do que aconteceu esta noite."
Francesco juntou as sobrancelhas, no entanto, permaneceu na mesma posição. Ele ouviria tudo o que fosse dito, embora estivesse certo em seu peito que precisaria pedir desculpas futuramente. Dois pedidos de desculpas. O Chefe dos Cavallone inclinou-se à frente, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e mostrando que estava prestes a começar.
"Quando eu nasci esta casa era bem diferente. A propriedade como um todo era outra, mas foi exatamente aqui que meu pai, seu avô, decidiu que fundaria os Cavallone. No começo nós éramos apenas fazendeiros e criadores de cavalos. Seu avô possuía os animais mais fortes e belos da região, então a casa estava sempre cheia de compradores. Foi através dessas ligações que ele decidiu formar a Família. Nós poderíamos ter continuado no ramo de cavalos, mas meu pai decidiu que poderia fazer mais pelos moradores das vilas. Entretanto, ele jamais teria conseguido sozinho. A ajuda veio de seu vizinho e amigo, o pai de Mario e Giuseppe."
Ivan fez uma pausa, umedecendo os lábios e esboçando um meio sorriso, como se aquela história lhe trouxesse boas recordações. O futuro Chefe ouvia a tudo, surpreso por ainda não ter escutado aquela história. Seus olhos moveram-se momentaneamente para o lado, e foi impossível não se surpreender com a atenção que Alaudi oferecia à história. Ele nunca ouviu sobre isso também, o herdeiro deduziu ao voltar a encarar o moreno. Aparentemente o que viria em seguida seria novo para ambos.
"O pai de Mario e Giuseppe decidiu ajudar o seu avô. Eles passaram noites no escritório, bebendo vinho e pensando em como movimentariam o dinheiro e os homens necessários para o empreendimento. Eu tinha dez anos na época, assim como Mario. Giuseppe ainda não havia nascido, vivendo ainda na barriga de sua mãe. E, então, em uma manhã de sexta-feira, um dos empregados da casa entrou correndo na sala de jantar. O pai de Mario havia passado mal e ele queria pedir para o médico visitá-lo. Ottavio já morava conosco, e era um novo médico, na época. Infelizmente nada pôde ser feito e o melhor amigo de seu avô morreu naquele dia."
O Chefe dos Cavallone juntou as sobrancelhas momentaneamente.
"Giuseppe nasceu uma semana depois, em um parto difícil. Sua mãe viveu um mês e depois faleceu. Meu pai então decidiu que criaria os garotos e foi isso o que fez. Por seis anos ele foi o pai que Giuseppe nunca teve. Mario conheceu o verdadeiro pai, por ser o mais velho, mas, para o irmão mais novo, o seu avô era a única família que ele tinha. Eu fiz o possível para que eles sempre soubessem que, apesar de não sermos unidos por sangue, eu os considerava meus irmãos. E isso não mudou. Mario é muito mais minha família do que empregado e Giuseppe sempre será um irmão mais novo para mim."
Francesco entendeu o sentido da história antes mesmo de ela ter sido concluída, porém, ele permaneceu atento até o fim.
"Eu acredito que o motivo que sempre fez com que Giuseppe simpatizasse tanto com Catarina é porque ele vê na sua irmã um pouco dele mesmo. Ele nunca conheceu o pai e foi criado por pessoas desconhecidas, mas que o faziam sentir-se bem. No entanto, quem pode dizer o que ele não ouviu durante aqueles anos? Quantas vezes Giuseppe não se pegou pensando se realmente era certo estar aqui?" O moreno suspirou. "O que você disse naquela mesa foi extremamente rude e desagradável. Eu não tenho palavras para expressar o grau de maldade que você utilizou contra sua irmã, Francesco. Catarina é uma criança. Ela tem nove anos, e eu não entendo porque algo tão pequeno e insignificante tomou proporções tão grandes." A expressão no rosto do Chefe dos Cavallone tornou-se dura. "Você precisa de limites e nós aprenderemos juntos sobre isso, mas primeiramente temos coisas mais importantes a tratar. Um pedido duplo de desculpas deve ser feito, e esse é apenas o primeiro passo."
"Eu sei. Eu irei me desculpar." O rapaz de cabelos castanhos não sabia ao certo o que dizer. A história de Giuseppe o havia deixado ainda pior, e ele talvez não merecesse ser perdoado. "Eu só não sei se meu pedido de desculpas será aceito." Os olhos cor de mel se ergueram e foi impossível manter-se impassível. A lágrima escorreu por sua bochecha, e o futuro Chefe nem se deu ao trabalho de enxugá-la. "Ele vai mesmo me deixar?"
"Ele deveria." Ivan respondeu com o mesmo tom sério. "Se eu fosse Giuseppe eu nunca mais gostaria de vê-lo novamente. E não, eu não o culpo, nem mesmo pelo tapa. Na verdade, ele fez o que eu teria feito. Aquela cena foi além de qualquer coisa que eu poderia esperar de você, Francesco. Eu estou profundamente decepcionado."
A segunda lágrima escorreu e o herdeiro ficou em pé, oferecendo suas costas. A segunda crise de choro recomeçaria, contudo, ele não queria plateia.
"Eu gostaria de ficar sozinho, por favor." A voz soou abafada. Era difícil manter-se são.
"Pense no que eu disse e amanhã procure uma maneira de se redimir." O moreno ficou em pé, recolocando a cadeira em seu lugar. "Mas aviso que se Giuseppe pedir para deixar a Família eu não pedirei que reconsidere. A decisão é dele, e você precisa aprender que seus atos têm consequências. Se você não tomar cuidado um dia perderá todos aqueles que considera importantes."
O Chefe dos Cavallone deixou o quarto e Francesco fechou os olhos respirando fundo. Uma mão leve tocou seu ombro esquerdo, fazendo-o virar o rosto. O louro o olhou, entretanto, não disse nada. As lágrimas voltaram a cair e toda a força de vontade que o rapaz de cabelos castanhos possuía simplesmente deixou seu corpo. Seus joelhos tocaram o macio tapete e suas mãos cobriram seu rosto. O choro foi alto, muito mais alto do que o anterior. Seu peito doía, e o arrependimento o consumia pouco a pouco. O futuro Chefe não notou quando o Guardião da Nuvem ajoelhou-se à sua frente, todavia, sentiu a mão sobre sua cabeça. Aquele toque era reconfortante, e o herdeiro simplesmente estendeu os braços, envolvendo o Inspetor e o abraçando. Ele não sabia por que fazia aquilo. Francesco não era mais um menino de cinco anos, que precisava do colo do pai. Ele tinha quinze anos, um homem crescido, com responsabilidades e autoridade, mas que naquele momento não queria nada além de um abraço amigo e uma mão gentil que subia e descia por suas costas. Por quanto tempo o rapaz permaneceu ali seria difícil dizer. As lágrimas escorreram quentes por suas bochechas, molhando a camisa clara de Alaudi, que não disse uma única palavra em momento algum, porém, permaneceu ali o tempo todo. O cansaço se apoderou em algum momento, pois o futuro Chefe dos Cavallone se lembrava de ter sido guiado até a cama, no entanto, não se recordava do horário.
A última lembrança daquela noite foi um delicado toque em seus cabelos e então sua consciência se esvaiu.
x
O Sol nasceu preguiçoso naquela manhã de sábado. Ele demorou a surgir por trás das montanhas, contudo, quando finalmente resolveu dar o ar da graça, o herdeiro estava sentado próximo à janela, esperando-o como uma donzela esperava seu príncipe nas histórias tolas que algumas garotas de sua classe gostavam de ler. Francesco espreguiçou-se, levantando-se da poltrona e encarando seu próprio quarto. A cama estava arrumada, os livros sobre as escrivaninhas ajeitados e o dever de casa feito, refeito e revisado. Eu tive tempo, o rapaz de cabelos castanhos cruzou o quarto e seguiu para o banheiro. A troca de roupas já o esperava pousada sobre uma parte da pia. Ele mesmo a havia separado, uma das muitas coisas que havia feito desde que acordara. Eu tive tempo suficiente para pensar.
O futuro Chefe acordara durante a madrugada. Seus olhos cor de mel se abriram e ele sentou-se na cama, assustado com o pesadelo que tivera. Em seu sonho, o herdeiro chegava em casa e não havia encontrado ninguém. Ivan surgiu quando foi chamado, acompanhado por seu Braço Direito. Catarina desceu as escadas, parando na metade do caminho e olhando-o com curiosidade. A figura de Giuseppe estava ao seu lado, surpreendendo-o totalmente. Entretanto, Francesco sabia que as coisas estavam bem entre eles. Algo naquele sonho lhe dizia que não havia atrito.
"Onde está Alaudi?" Foi a primeira coisa que o rapaz perguntou. Ele não entendia bem o porquê.
"Alaudi?" O moreno juntou as sobrancelhas, olhando-o com surpresa. "Não há ninguém com esse nome nesta casa, Francis."
O que seguiu aquela resposta foi uma sucessão de perguntas. O futuro Chefe se lembrava de ter perguntado tantas vezes pelo louro, que Ivan o agarrou pelo ombro e o olhou sério: "Nunca houve ninguém com este nome. Esta pessoa não existe." O futuro herdeiro sentiu as lágrimas se formarem em seus olhos e escorrerem por suas bochechas. Francesco se afastou, seguindo até a escadaria, todavia, parando automaticamente. Catarina estava sentada em um dos degraus, o rosto escondido entre as mãos e chorando tão alto e desesperador, que o rapaz de cabelos castanhos acordou chamando o nome da irmã. Suas mãos tentaram segurá-la, mas não havia nada em seu quarto. Um sonho, apenas um sonhos. O herdeiro encarou o cômodo, claro por causa das cortinas abertas. O céu estava negro e estrelado, e ele soube que não conseguiria voltar a dormir. O restante da madrugada foi passado debruçado sobre a escrivaninha, terminando o dever de casa. E, quando não havia mais nada a ser feito, o futuro Chefe dos Cavallone arrastou a poltrona até a larga janela e sentou-se ali, enrolado em um fino cobertor. Ele permaneceu por horas naquela mesma posição, relembrando a noite anterior e pensando no que deveria fazer naquele novo dia.
O pedido de desculpas era tão elementar que sequer entrou nos pensamentos do herdeiro. Ele ficaria de joelhos se fosse necessário, porém, o que realmente o incomodava era o que fazer caso o homem de longos cabelos louros se recusasse a voltar à Família. Meu pai estava certo. Eu também não voltaria. Francesco mergulhou em lembranças, tentando encontrar no passado alguma ideia que talvez pudesse ajudá-lo com aquela situação. Um pedido de desculpas talvez não fosse suficiente, então o rapaz estaria disposto a fazer qualquer sacrifício para ser perdoado. Eu preciso falar primeiramente com Catarina, a decisão surgiu quando o sol nasceu. Os olhos cor de mel fitaram o horizonte, e ele decidiu que teria a chance muito em breve. A irmã era geralmente a primeira a acordar, então ambos poderiam ter uma conversa privada e sem testemunhas.
O banho foi rápido se comparado aos anteriores. O futuro Chefe dos Cavallone adorava cozinhar dentro da banheira, mas naquela manhã ele decidiu que deixaria aquele luxo pessoal para outra hora. Talvez eu realmente precise do banho. Talvez quando este dia terminar eu precise de algum tempo para relaxar. O herdeiro escovou os dentes e arrumou os cabelos. A troca de roupas para aquele dia seria uma calça xadrez e uma camisa branca. Giuseppe estava certo. Eu realmente pareço com meu pai. Francesco encarou o reflexo no largo espelho do banheiro, notando as semelhanças. Uma pena eu não ter herdado também a personalidade. Aparentemente caráter não corre na família. O rapaz de cabelos castanhos suspirou, deixando o banheiro. No entanto, ele não prosseguiu. Seus olhos se arregalaram um pouco e ele sorriu um triste sorriso. Aparentemente as desculpas começariam naquele momento.
Catarina levantou-se na cama ao vê-lo deixar o banheiro. A garota ainda não alcançava o chão, então precisou se arrastar até finalmente tocar os pés descalços no tapete. Aquele movimento acabou amassando seu vestido verde claro, contudo, ela não pareceu de importar. Os dois irmãos se entreolharam, e o futuro Chefe entreabriu os lábios para cumprimentá-la. Entretanto, antes que pudesse começar, a ruiva caminhou até ele, puxando-o pela camisa.
"Você está bem Francis?" Havia uma genuína preocupação naquele tom de voz. Catarina batia na altura de sua cintura. Os olhos castanhos estavam arregalados e os cabelos vermelhos úmidos e cheirando a shampoo de baunilha. "Seu rosto ainda está doendo?"
O herdeiro juntou as sobrancelhas, sem saber ao certo o que pensar ou dizer. Não fazia sentido.
"O que você faz aqui?" Foi a única coisa que ele conseguiu dizer. Estava errado. A ordem das coisas estava completamente errada. Você deveria estar em seu quarto e eu quem deveria perguntar se você estava bem.
"Eu estava preocupada. Pappà não me deixou vir ontem, então eu acordei bem cedo e vim ver se você já estava acordado." Catarina respondeu como a maior naturalidade do mundo. "E, então, como está o seu rosto?"
"O que eu farei com você, hm?"
Francesco suspirou e esboçou um largo sorriso. Sua mão direita fez sinal para que a garota seguisse até a cama e ele fez menção de ajudá-la a subir, todavia, a ruiva recusou, escalando a cama sozinha e sentando-se sem dar atenção ao vestido que se tornara ainda mais amassado. O rapaz tocou o alto da cabeça da irmã, como sempre fazia quando estavam sozinhos. Durante a madrugada, o futuro Chefe dos Cavallone teve tempo o bastante para divagar e, apesar de saber que o real problema seria lidar com seu Braço Direito, a pessoa que realmente merecia um pedido de desculpas estava literalmente ao alcance de seus dedos. Independente se Giuseppe fosse perdoá-lo, a única pessoa cujo perdão ele queria ouvir era sua irmã. Ela é melhor pessoa do que eu em todos os sentidos. Eu a tratei desumanamente ontem à noite, mas esta manhã ela está aqui, preocupada com o tapa que eu mereci ter levado. Se tem alguém que não pertence a essa Família sou eu.
"Eu tenho algo a dizer e quero que me ouça com atenção." O herdeiro começou. A garota de cabelos ruivos o olhou confusa, todavia, ele prosseguiu. "Eu sinto muito por ontem. Eu estava chateado e descontei em você. As coisas que eu disse não foram verdadeiras. Eu não acho que você seja um incômodo e seu lugar é aqui, com esta família. Eu não me importo se não dividimos os mesmos pais, você é minha irmã e isso jamais irá mudar." Francesco fez menção de tocar novamente a cabeça de Catarina, mas ela se esquivou, inclinando-se para trás e oferecendo uma expressão séria. Eu mereço isso. Eu mereço qualquer tipo de tratamento que ela queira me oferecer.
"V-Você..." Eu sei, eu sou o pior tipo de pessoa... "Você está agindo... nojento..." A garota esboçou uma expressão de nojo. "O que foi isso? Você está agindo feito uma garotinha, Francis! Eu disse a você! Francis, eu disse para você parar de andar com aquelas garotas idiotas. Elas só falam sobre romances e garotos. Elas são estúpidas!"
"Eu não ando com garota alguma." O rapaz juntou as sobrancelhas. Ele não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. "E eu estou apenas pedindo desculpas por ontem. Do que você está falando? Eu te ofendi e espero que possa me perdoar... um dia."
"Eu não me ofendi." A ruiva ergueu as sobrancelhas, franzindo a testa. "Para ser sincera, eu não prestei atenção no que você disse... você diz muitas coisas, Francis, mas a maioria são bobagens, então eu me acostumei a não dar importância." Catarina deu de ombros. "Eu disse, não? Você é estúpido e fala sem pensar, mas eu não estou chateada."
"M-Mesmo?" O futuro Chefe estava confuso. Ele não sabia como deveria se sentir. Ela é uma criança. Meu pai estava certo. Sou eu quem precisa ter responsabilidades. O herdeiro ficou sério e umedeceu os lábios. "De qualquer forma, eu sinto muito. Eu não me importo se você ache que meu pedido de desculpas é desnecessário, mas eu quero que saiba que eu me sinto péssimo por ontem. Eu nunca quis magoar você, Catarina."
"Eu disse que não estou chateada, então podemos esquecer isso?" A garota moveu as mãos no ar. Ela está incomodada. Catarina nunca foi uma pessoa complicada. Tudo é tão simples para ela. "E o seu rosto? Ainda dói?"
"O rosto não." Francesco levou automaticamente a mão ao coração. A dor física jamais se compararia a maneira como ele se sentia desconfortável pelo que havia feito. "Eu mereci o tapa, e preciso me desculpar com Giuseppe também."
"Pappà disse que ele não virá hoje." A ruiva moveu as pernas no ar. Catarina era tão pequena que lembrava uma boneca. "Mas por que Peppe reagiu daquela forma? Você estava sendo estúpido comigo e não com ele."
"Você tem alguns minutos para uma história?"
O rapaz de cabelos castanhos não questionou se era certo ou não compartilhar o que havia ouvido na noite anterior. Depois de uma série de decisões ruins, o futuro Chefe dos Cavallone decidiu seguir o que seu coração e instinto mandavam. O herdeiro resumiu a história que escutara de Ivan e a irmã ouviu a tudo em silêncio. Ao término, a garota cruzou os braços e permaneceu pensativa por alguns instantes.
"Eu entendo. Então Peppe também não conheceu os pais."
"Ele se ofendeu quando eu disse aquelas coisas. Eu sou realmente estúpido, não?"
"Eu venho dizendo isso há muito tempo." A ruiva deu de ombros. Os olhos castanhos fitaram o irmão e ela mordeu o lábio inferior. "E-Eu posso fazer uma pergunta?"
"Sim... eu acho." Francesco respondeu temeroso. Catarina nunca pedia permissão para nada e suas perguntas eram feitas diretamente e sem resguardo.
"N-Não é como se eu estivesse interessada ou nada disso. Apenas pura curiosidade." A garota ergueu as mãos e seu rosto tornou-se tão vermelho quanto seus cabelos. "Você conhece a namorada de Peppe?"
"O quê?!"
De todas as coisas que o rapaz esperava ouvir aquela definitivamente não estava na lista. Os olhos cor de mel se arregalaram e o futuro Chefe não saberia como explicar a surpresa que se apoderou de seu ser naquele momento. Do que ela está falando? O herdeiro chegou a rir baixo, porém, tornou-se sério ao notar que sua companhia não ria. Ela está falando sério. Quando a realização o atingiu, tudo o que Francesco conseguiu fazer foi menear a cabeça em negativo e perguntar de onde ela havia tirado aquilo.
"Peppe falou sobre isso... ontem." A ruiva desviou os olhos e encarou seus próprios pés. "Nós fomos andar a cavalo depois do almoço e eu perguntei se ele tinha uma namorada. Quero dizer, eu nunca o vi com ninguém. Mario tem Giulio e ele vem aqui o tempo todo, apesar de que ultimamente ele não tem vindo. Mas Peppe nunca trouxe ninguém, então eu perguntei apenas por perguntar." Catarina deu de ombros.
"E ele disse que tinha uma namorada?" O rapaz de cabelos castanhos sentiu as palavras deixarem seus lábios quase como uma canção. Então por isso Catarina parecia deprimida na hora do jantar... Seu coração batia rápido, no entanto, ele precisava saber a verdade, independente de qual fosse.
"Peppe apenas disse que tem alguém especial. Ele disse que aquela pessoa é tudo na vida dele, então eu deduzi que tudo dever significar bastante coisa." Catarina respirou fundo e desceu da cama, batendo o vestido pela primeira vez. "Bem, chega de falar nisso. Se você está bem, eu já posso ir embora."
"Eu sinto muito sobre Giuseppe, Catarina." Eu também sinto muito por mim.
"Por quê? Você está sentindo muito hoje, Francis." A garota apertou os olhos.
"Você gosta dele não é?"
"Sim, mas não dessa maneira." A ruiva riu. "Peppe é como um irmão mais velho para mim e eu estou apenas curiosa para saber quem é a mulher. Se eu não gostar dela eu precisarei pensar em uma maneira de separá-los. Peppe é uma pessoa boa demais e não merece essas mulheres estúpidas. Mario fez a escolha certa. Giulio é excelente." Catarina ergueu o polegar da mão direita e ofereceu uma piscadela.
"Boa sorte com seu plano e conte comigo." O futuro Chefe esforçou-se para sorrir. Era difícil. A última coisa que ele queria naquele momento era sorrir.
"Obrigada e quando eu descobrir quem é nós pensaremos em um plano." A garota caminhou até a porta e virou-se. "Eu vou tomar café agora, até!"
O herdeiro ergueu a mão e acenou, avisando que iria em seguida. A porta foi fechada e Francesco jogou-se na cama, encarando o alto teto branco. Então ele já tem alguém. O rapaz mentiria se dissesse que aquela ideia nunca havia passado por sua mente. Giuseppe é realmente decente, bonito, gentil e educado. O sonho de qualquer mulher. Contudo, intimamente o futuro Chefe dos Cavallone sabia que, se havia alguém no coração do louro, esse alguém era outro homem. Aquela afirmação não tinha nenhuma base para estruturá-la, além de uma desconfiança pessoal, e esse mero detalhe era o que deixava o herdeiro tão desolado. Eu sempre soube que nunca teria chance, mas saber que ele me beijou naquele dia pensando em outra pessoa é cruel demais.
Francesco rolou na cama, afundando o rosto em seu travesseiro. Ele queria chorar, porém, não havia lágrimas. Elas foram todas usadas na noite anterior, então não existia nada a fazer além de aceitar o fato de que seu primeiro amor acabara antes mesmo de começar. É assim que as coisas devem ser, o rapaz de cabelos castanhos sentou-se na cama, ajeitando a camisa, agora que eu sei que ele tem alguém tudo será mais fácil. Sem mais falsas esperanças. O futuro Chefe dos Cavallone ficou em pé e caminhou até a porta, ganhando o corredor. O menino assustado e tímido havia ficado dentro do quarto, chorando sobre o travesseiro. Quem deixara o quarto era outra pessoa, um homem.
x
Retornar para a sala de jantar havia sido uma experiência parcialmente incômoda para o herdeiro. Sentar-se em sua cadeira fez seu corpo tremer, entretanto, ele havia decidido, no momento em que deixara seu quarto, que as coisas seriam diferentes. Catarina já havia começado seu café e ficou visivelmente contente por ter companhia. Ela geralmente toma café da manhã sozinha. Deve ser solitário. As empregadas ficaram surpresas ao vê-lo, e Francesco pediu leite quente e biscoitos amanteigados com chocolate. Os dois irmãos conversaram durante alguns minutos, até um terceiro elemento juntar-se a eles. O rapaz corou ao ver o Guardião da Nuvem, lembrando-se da cena da noite anterior. O louro desejou um baixo bom dia, sentando-se em seu lugar, do lado esquerdo do futuro Chefe.
"B-Bom dia..." A voz saiu mais aguda do que ele queria, deixando-o ainda mais corado. O Inspetor de Polícia virou o rosto e o tocou no alto da cabeça. "Meu pai também desceu?"
"Sim, ele está conversando com o Insolente." Alaudi raramente chamava Mario pelo nome, então não era inédito ouvir aquele elogio. Insolente é melhor do que os outros nomes que já ouvi como Verme, Empregado e Quase-Humano.
"Entendo..." O herdeiro levou a xícara de leite até os lábios. Ele queria perguntar sobre Giuseppe, todavia, tinha medo. Na verdade, se fosse possível ele evitaria o encontro ao máximo.
"Giuseppe não virá hoje, não se preocupe." A voz do louro soou baixa, quase um sussurro.
"Obrigado." O sorriso foi fraco, mas sincero. Francesco sempre se sentia mais tranquilo na presença de seu outro pai. "E-E obrigado por ontem."
"Você sabe que Ivan foi mais duro do que o necessário, não?"
"Eu sei." As palavras do moreno ainda ecoavam em sua mente, principalmente a parte da decepção. Eu vou me redimir de qualquer maneira.
O Chefe dos Cavallone surgiu após alguns minutos. Mario não estava com ele, e Ivan não tinha a expressão séria e carregada da noite anterior. Ele desejou um bom dia seguido por um meio sorriso, sentando-se e lançando automaticamente um olhar na direção do filho. O rapaz de cabelos castanhos retribuiu o olhar, meneando a cabeça em cumprimento e voltando a atenção para a comida. Eu não posso demonstrar fraqueza. Meus joelhos tremem, mas eu tenho que me comportar. O moreno encarou os filhos por um momento e lançou um rápido olhar na direção do Guardião que Nuvem, que não disse nada, concentrado em seu pedaço de mamão.
O café da manhã passou em silêncio, porém, não era constrangedor ou pesado como o silêncio da noite anterior. Catarina foi a primeira a terminar, pedindo licença para sair da mesa e passear pelo jardim. O Chefe dos Cavallone permitiu, no entanto, avisou que ela deveria ficar longe dos estábulos. O herdeiro disse que poderia acompanhá-la e teria recebido certamente uma negativa se o Inspetor não completasse e dissesse que também se juntaria à dupla. Ivan ficou surpreso, e Alaudi apenas alegou que sabia que o moreno estaria ocupado e que ele não via problemas em acompanhar as crianças em seus passeios. Com a aprovação do Chefe dos Cavallone, a garota de cabelos ruivos deixou a mesa animada, avisando que trocaria de roupa. Francesco ainda permaneceu algum tempo na mesa, levantando-se somente quando estava plenamente satisfeito.
"Eu me desculpei com Catarina e queria me desculpar novamente com vocês." O rapaz de cabelos castanhos havia dado a volta em sua cadeira. "Eu sinto muito pela cena e desconforto que causei."
"Um passeio a cavalos não fará as coisas se ajeitaram, Francesco. Mantenha isso em mente." Ivan tinha uma xícara de café em sua mão, que foi pousada quando ele soltou um baixo "Ai!". O futuro Chefe fingiu não ter reparado, contudo, tinha certeza de que o louro havia chutado o moreno por debaixo da mesa.
"Sobre Giuseppe, eu irei me desculpar, mas não quero vê-lo por hoje." A expressão do herdeiro tornou-se séria.
"Você cometeu um erro e acha que pode escolher o momento em que deve se desculpar?" O moreno ergueu uma sobrancelha, ainda com o corpo abaixado e massageando a perna.
"Eu sei que cometi um erro, mas meu pedido de desculpas não será totalmente sincero e imparcial se for feito hoje." Francesco esboçou um meio sorriso. "E hoje eu quero dedicar o meu dia à pessoa que realmente merece minhas sinceras desculpas."
O rapaz de cabelos castanhos deixou a mesa e somente ao ganhar o hall foi que seu coração pôde bater ritmado novamente. Seus passos eram nervosos e imprecisos, e intimamente ele sentia uma vontade quase descomunal de passar o dia em seu quarto, quieto e remoendo o fato de que a pessoa que ele amava, além de provavelmente odiá-lo no momento, tinha outro em seu coração e mente. Giuseppe deve ter ido se consolar com o amante. O pensamento levou um gosto ruim à boca do futuro Chefe. A imagem de seu Braço Direito ao lado de outro homem, sendo beijado, tocado e reconfortado o fez engolir seco. Você precisa ser forte. Não aja como se a notícia houvesse te pegado desprevenido. Você sabia.
O dia estava ensolarado, entretanto, a temperatura levemente fria. O inverno ainda não havia se despedido totalmente, todavia, o herdeiro não se daria ao trabalho de trocar de roupa. As mangas de sua camisa foram dobradas até a altura dos cotovelos e ele desceu a curta escadaria de mármore, aproximando-se do chafariz. Alguns subordinados passavam pelo local e fizeram graciosas reverências ao vê-lo. Francesco retribuiu com sorrisos, mas tornou-se sério quando notou que Mario o encarava de longe. Seu corpo se endireitou e, quando sentiu o homem ruivo aproximar-se, o rapaz precisou se recostar à mureta de pedra ao redor do chafariz ou teria simplesmente saído correndo. O Braço Direito de Ivan às vezes o assustada com sua excessiva sinceridade e a total incapacidade de se importar se suas palavras pudessem ou não ofender.
"Bom dia." O futuro Chefe dos Cavallone disse inicialmente. Talvez se ele fosse educado o sermão pudesse ser menos doloroso.
"Bom dia." Mario respondeu com o mesmo tom de voz. Naquela manhã ele havia retirado a gravata e o terno, vestindo apenas a calça escura e uma camisa branca.
"S-Sobre ontem..."
"Não é comigo que você tem que resolver isso, Francesco." O ruivo recostou-se ao lado do herdeiro, evitando a luz direta do Sol. "Você não me deve desculpas."
"Eu devo desculpas por ter atrapalhado a refeição e causado mal-estar. Vocês são parte da família."
"Desculpas aceitas." O Braço Direito soou sincero. "E peço desculpas antecipadas por Giuseppe."
"Não é você que tem que resolver isso, Mario." Francesco abriu um largo sorriso. "Por favor, não se desculpe. Eu pretendo resolver esse mal-entendido em breve." O rapaz de cabelos castanhos encarou o chão de pedra. Seus sapatos eram escuros, então não haveria problemas em pisar na terra. "Eu queria fazer uma pergunta, mas gostaria que ela ficasse somente entre nós, se possível."
Aquelas palavras pareceram conquistar a atenção de Mario, pois o homem se deu ao trabalho de desencostar-se do apoio. Os dois se entreolharam e o herdeiro sentiu-se tolo por remoer aquele assunto. Deixe as cosias como estão. Por que você quer tanto uma confirmação?
"Giuseppe tem um amante?"
Durante todos aqueles anos aquela seria a primeira vez que eles conversavam sobre o assunto. Giuseppe sempre fora sua sombra, da mesma maneira como o ruivo era a sombra de seu pai. Os momentos em que ambos conversavam envolviam trabalho ou alguma brincadeira, porém, assuntos sérios e pessoais nunca entraram no leque de opções. O Braço Direito o estudou por alguns instantes, e aqueles meros segundos foram incrivelmente embaraçosos. O Guardião da Nuvem surgiu na porta de entrada e Mario umedeceu os lábios, sabendo que a conversa terminara.
"Ele deve ter. Nós não conversamos muito sobre isso." O ruivo disse baixo. "Giuseppe é bonito, o tipo de pessoa que atrai as outras, então eu não ficaria surpreso se ele tivesse alguém." O Braço Direito aproximou-se um pouco mais. "Curioso?"
"Não muito, eu já imaginava." Ele não negou que o amante é um homem. O futuro Chefe tentou sorrir, no entanto, não conseguiu. Ele se sentia a pessoa mais infeliz do mundo naquele momento. "Obrigado, Mario."
O herdeiro afastou-se, aproximando-se do Inspetor. Alaudi tinha os olhos apertados, fitando Mario até que ele sumisse do campo de visão.
"Você está bem, Francesco?" O louro o olhou sério e cima a baixo, como se esperasse ver algum pedaço faltando. "Não acredite em nada do que aquele insolente diga. Ele mente."
"Eu estou bem." Francesco esforçou-se para sorrir. Eu duvido que Mario mentiria sobre o assunto. O que ele ganharia com isso? "E Catarina?"
O terceiro elemento surgiu assim que foi mencionada. A garota trocara o vestido por uma calça marrom e uma camisa de mesma cor. A ruiva adorava usar calças e se lhe fosse permitido jamais colocaria um vestido. Os três cruzaram o jardim, seguindo para o lado direito. Os estábulos ficavam afastados, e era preciso uma caminhada de alguns minutos. Os cavalos já estavam preparados quando eles chegaram, e o rapaz de cabelos castanhos pegou o mesmo cavalo de sempre: um belíssimo corcel negro, que havia sido um presente de aniversário há alguns anos. Catarina sempre se recusou a andar de pôneis, então no ano anterior Ivan lhe presenteou com um cavalo totalmente branco. O Guardião da Nuvem não pretendia cavalgar, limitando-se a sentar em um local com sombra, um grosso livro em seu colo e pondo-se a observar.
Metade da manhã havia se passado quando o futuro Chefe avistou companhia. Eles haviam parado de cavalgar e cogitavam a ideia de retornar quando um rosto amigo surgiu do outro lado da propriedade. O herdeiro ficou em pé, batendo a grama de suas vestes e oferecendo um largo sorriso para seu melhor amigo. Enrico tinha a mesma idade de Francesco, mais velho apenas alguns meses. O rapaz era também da mesma altura, contudo, as semelhanças se encerravam ali. Enrico tinha os cabelos castanhos claros, levemente alourados e que pendiam em seus ombros. Naquela manhã eles estavam presos em um rabo de cavalo; os olhos eram grandes e azuis, um azul claro e brilhante. Entretanto, ele não aparentava ser frágil ou delicado. Sua voz era grossa e ele era um pouco mais encorpado que o rapaz de cabelos castanhos.
"Bom dia, Francis!" O jovem desceu do cavalo e fez uma polida reverência para o Inspetor de Polícia, enquanto tocava o ombro do amigo. Enrico pretendia dizer algo, todavia, assim que avistou Catarina levantando-se, seus lábios formaram um largo sorriso. "Bom dia, Catarina."
"Bom dia, Enrico." A garota se aproximou. "Você estava indo para nossa casa?"
"Sim, eu pensei em convidá-los para um passeio. Vocês já estão voltando?"
"O almoço está quase pronto, por que não retorna conosco?" O futuro Chefe dos Cavallone achou a ideia excelente.
"Hm, eu não quero incomodar." Enrico encarou Alaudi, mas seus olhos se abaixaram. O rapaz ainda era um pouco tímido quando o assunto era o louro.
"Não vai! Vamos, Enrico, vai ser divertido!" A ruiva pareceu concordar com a ideia do irmão. "Nós podemos brincar à tarde, o que acha?"
"V-Você quer brincar comigo?" O futuro médico pareceu surpreso. Seu rosto tornou-se corado e ele virou-se para o Guardião da Nuvem, fazendo uma reverência extremamente exagerada e decidida. "P-Por favor, deixe-me acompanhá-los."
"Eu não vejo problemas." O Inspetor de Polícia meneou a cabeça. "Vamos? Nós precisamos deixar os cavalos no estábulo."
O retorno à mansão foi muito mais agradável. Os animais foram colocados no estábulo e a caminhada aumentou o espírito do herdeiro. Enrico ia ao meio, dividindo sua atenção entre os dois irmãos. Alaudi andava um pouco atrás, os olhos vigilantes e atentos. Mario os saldou ao chegarem à mansão, porém, foi impossível para Francesco encarar o Braço Direito de seu pai. A rápida conversa que tiveram ainda latejava em sua mente, e naquele resto de dia ele não queria pensar no assunto, principalmente no fato de que Giuseppe poderia estar naquele exato momento nos braços de outro homem.
Ivan juntou-se a eles quando a mesa havia sido totalmente arrumada, e o moreno ficou incrivelmente feliz ao ver Enrico. O rapaz sentou-se ao lado de Catarina, e a garota pareceu ter encontrado o ouvinte perfeito. Enrico não se cansava ou se perdia nas inúmeras ideias que a ruiva tinha. Ele ouvia a tudo, paciente e atento, fazendo comentários sérios vez ou outra e mostrando que prestava realmente atenção. O rapaz de cabelos castanhos sorriu ao ver a cena, imaginando que seu amigo jamais teria cometido o mesmo erro que ele. Embora parecidos, o futuro médico da Família era mais maduro e centrado.
A refeição passou mais animada que o café da manhã. A garota de cabelos ruivos aceitou a sugestão de Enrico e decidiu passar à tarde entre livros na biblioteca. O futuro Chefe se juntou a eles e os três deixaram juntos a sala de jantar.
"Ela está feliz por vê-lo. Catarina reclamou por eu ter ido visitá-lo sem levá-la." O herdeiro comentou enquanto cruzavam o hall. A garota ia um pouco à frente.
"É-É mesmo?" Enrico coçou a nuca e sorriu sem graça. "Pois a leve da próxima vez. Será uma honra tê-la em casa."
"Catarina fala demais, você irá se cansar em pouco tempo."
"Duvido muito." O jovem abaixou os olhos azuis. "Sua irmã é uma pessoa única. Eu certamente jamais me cansaria de ouvi-la."
"Você diz isso porque não mora aqui."
Os dois riram juntos e seguiram Catarina até a biblioteca. A escolha para leitura naquele dia seria um livro sobre contos infantis alemão. Enrico era fluente na língua e se prontificou a traduzi-lo. Os dois se sentaram no grosso tapete, enquanto Francesco optou por uma poltrona. O livro de sua escolha era sobre um filósofo e ele acomodou-se ao assento, cruzando as pernas e lançando um rápido olhar para suas companhias antes de iniciar a leitura. Eles estavam lado a lado, a garota debruçada sobre uma das pernas do futuro médico e com os olhos bem abertos. Enrico tinha o rosto vermelho e gaguejou a primeira página inteira até conseguir encontrar a fluidez.
O tempo passou como se o restante do mundo não existisse. O rapaz de cabelos castanhos prestou atenção à leitura em alemão até certo ponto, no entanto, logo seu próprio livro tornou-se mais interessante. Por algumas horas o futuro Chefe dos Cavallone afastou os problemas e se dedicou às dúvidas existencialistas e universais que pareciam muito mais relevantes do que o que ele vivia. O pôr do Sol deixou a biblioteca mais escura e também marcou a despedida de Enrico. Catarina comprometeu-se a acompanhar o visitante até o jardim, e o herdeiro achou a ideia excelente. Os dois amigos se abraçaram e a garota ruiva arrastou Enrico para fora. Francesco segurou os livros, indo colocá-los em seus devidos lugares. A área reservada para as histórias infantis ficava ao fundo, contudo, daquele local o herdeiro ouviu quando a porta foi aberta.
"Você esqueceu alguma coisa, Enrico?"
Não houve resposta. O rapaz guardou o livro e refez o caminho de volta, decidido a levar o próprio livro para o quarto. Seus pés tocaram o tapete e ele sentiu seu corpo tentar virar-se sem sucesso. O que ele faz aqui?, pensou o futuro Chefe ao encarar a pessoa que havia entrado no escritório. Giuseppe estava em frente à porta, a mesma roupa social que ele usava diariamente, o cabelo firmemente preso em um rabo de cavalo, entretanto, a expressão em seu rosto era tudo, menos profissional.
"Boa tarde, Francesco." O cumprimento morreu entre os lábios secos do herdeiro. Ele permaneceu onde estava, incapaz de prosseguir ou retornar. Eu ainda não estou pronto. O homem de longos cabelos louros deu um passo à frente e colocou as mãos para trás. O silêncio que envolveu aquele momento era pesado e constrangedor, semelhante ao da noite anterior. "Eu soube que você não queria me ver hoje, mas eu insisto que conversemos o quanto antes."
Ele quer se livrar de mim o mais rápido possível. Francesco engoliu seco, apertando o livro entre seus dedos. Suas pernas reaprenderam a andar e ele aproximou-se devagar, sentando-se na mesma poltrona em que passara à tarde. O Braço Direito tomou a liberdade de se aproximar, acomodando-se no sofá próximo à poltrona. Eu darei tudo o que ele quiser. Se Giuseppe quer voltar para o amante, então que faça isso. Eu não o prenderei mais.
"Eu queria me d—"
O rapaz de cabelos castanhos ergueu a mão, interrompendo a fala de Giuseppe. Ele sabia muito bem o que viria em seguida, e não ouviria. O erro havia sido dele. O pedido de desculpas tinha que sair naturalmente por seus lábios, e o futuro Chefe dos Cavallone sabia muito bem que não conseguiria tal proeza se deixasse aquele homem se desculpar por algo que não havia feito. O tapa foi merecido, aliás, o louro havia sido gentil com aquele gesto. Outra pessoa provavelmente teria batido com a mão fechada. Mario, por exemplo...
"Eu sinto muito pela cena de ontem. Eu sinto muito por ter dito aquelas coisas e principalmente por ter feito você agir daquela forma." O herdeiro sentiu as palavras deixarem seus lábios sem ensaio. Elas vinham direto de seu coração. "Você agiu certo. Eu passei dos limites e disse coisas cruéis e mentirosas para Catarina. Eu estava irritado e não medi as consequências. Espero que possa me perdoar de alguma maneira."
O louro tinha uma expressão atônica. Seus lábios se entreabriram, todavia, ele nada disse. Os olhos verdes pareciam perdidos e confusos.
"Eu... bati em você, Francesco. Eu ultrapassei o limite e desonrei totalmente o cargo que possuo. Por favor, deixe-me pedir perdão pela minha atitude totalmente não profissional."
"Não, eu não permitirei." Francesco esboçou um meio sorriso. "Quando nos sentamos à mesa você não é meu Braço Direito, mas sim meu amigo e convidado. E, como eu disse, sua atitude foi correta. Eu não aceitarei suas desculpas, pois elas anulariam minhas palavras e eu espero do fundo do meu coração que você possa encontrar uma maneira de me perdoar." O nó na garganta do rapaz de cabelos castanhos o impediu de prosseguir. Ele queria ajoelhar-se na frente daquela pessoa, implorar perdão, implorar que ele o amasse, mas sabia que humilhação alguma faria aquela pessoa notá-lo. O amante de Giuseppe deve ser um homem mais velho e maduro, que o valoriza acima de tudo. Peppe jamais olharia para um fedelho que não respeita a irmã. A verdade o machucava a cada segundo e permanecer ali, sem poder tocá-lo ou senti-lo, e sabendo que outra pessoa tinha tal privilégio o mortificavam.
"Eu o perdoo. Se é isso que você quer ouvir, então saiba que já está perdoado." O Braço Direito corou, inclinando-se um pouco mais. "Sobre o que eu disse antes de sair... aquelas palavras horríveis, saiba que elas não foram verdadeiras." Giuseppe umedeceu os lábios. "Ivan me perguntou esta manhã se eu tinha pretensões de deixar a Família. Ele não ouviu minha resposta, apenas disse que eu deveria resolver esse assunto com você."
"Esta manhã?" Francesco juntou as sobrancelhas.
"Sim. Eu estive aqui esta manhã, mas ele disse que você deveria ser o responsável por iniciar a conversa. Eu realmente não me importo com isso e só acatei porque ele é o Chefe e seu pai. Eu queria ter resolvido isso o quanto antes, por favor, acredite."
"Eu acredito." O futuro Chefe apertou as mãos. Uma delas, por um breve momento, quase arriscou tocar as de sua companhia, o que seria um erro mortal. "E eu não me ofendi com suas palavras, então não vamos mais falar sobre perdões. Se existe alguma coisa que você queira me dizer, simplesmente diga."
"Se você realmente não está ofendido eu me sinto satisfeito." O louro abriu um sorriso tão sincero e doce que por um momento o coração do herdeiro pulou uma batida.
"Então vamos conversar sobre outra coisa agora." Francesco sabia que aquela seria a parte mais difícil. Aquele assunto foi o responsável por lhe roubar horas preciosas de sua noite e, por mais triste e inconsolável que ele sabia que ficaria eventualmente, o rapaz de cabelos castanhos tinha consciência de que era o certo a fazer. Eu venho tratando Giuseppe de maneira egoísta. Eu não sou mais um menino. Está na hora de agir como homem. Como Chefe. "Eu quero saber se você ainda tem interesse em ser meu Braço Direito."
"Você não precisa me fazer esse questionamento, Francesco." Giuseppe ainda tinha o mesmo sorriso. "Sou eu quem deve perguntar se você tem interesse em me ter ao seu lado."
Todo dia. Todas as horas. Para a minha vida inteira. Manter-se impassível foi a pior parte. Uma parte do futuro Chefe dos Cavallone queria simplesmente trazer aquela pessoa para os seus braços, envolvê-la e beijá-la novamente, como naquela noite de Natal. Essa parte havia ficado devastada quando soube que o louro tinha alguém em seu coração, e qualquer esperança que ele pudesse ter foi morta por Mario. Essa parte é aquele garoto chorão. Giuseppe é meu Braço Direito e meu amigo. Chega de fantasias e sonhos que nunca se realizarão. Se eu for tê-lo ao meu lado será dessa forma. O herdeiro respirou fundo, tentando juntar as forças necessárias para continuar.
"Eu não consigo me imaginar sem você ao meu lado, com seus conselhos e sermões. Entretanto, algumas coisas serão diferentes a partir de hoje." As palavras desfizeram o sorriso do Braço Direito. Seu corpo endireitou-se e a mudança de expressão foi tão nítida que por um momento Francesco se sentiu mal. "Eu não precisarei efetivamente de um Braço Direito até assumir a Família, então não vejo a necessidade de você se anular por minha causa. Com exceção das viagens e da escola, eu, a partir de hoje, quero que faça o que quiser com seu tempo livre. Você não precisa mais vir à mansão todos os dias e nem permanecer até o anoitecer. Sinta-se livre para..." Eu não consigo. Eu não consigo deixá-lo ir. O rapaz sentiu os olhos úmidos. Aquilo era difícil. Dizer aquelas coisas doía, pois ele sentia justamente o oposto. "Sinta-se livre para fazer o que quiser." Com quem quiser...
Giuseppe permaneceu em silêncio. Seus olhos verdes estavam levemente arregalados e ele encarava Francesco com um misto de surpresa e medo. Por vários momentos o futuro Chefe dos Cavallone quase colocou tudo a perder. Quando o louro abaixou os olhos, o herdeiro precisou ficar em pé e oferecer suas costas ou teria realmente abraçado sua companhia. Por favor, vá embora. Eu não sei se tenho mais autocontrole para permanecer indiferente.
"Você se cansou de mim, Francesco?" A voz do Braço Direito soou baixa, quase um sussurro. "A minha presença incomoda a ponto de você querer ficar longe de mim?"
"N-Não! Não!" Francesco virou-se e ajoelhou-se em frente a Giuseppe, ignorando totalmente a parte em sua mente que dizia que ele não deveria fazer aquilo. Um Chefe jamais se ajoelharia em frente a um empregado. Ele não é um empregado! Ele é o homem que eu amo. "Eu estou tentando fazer o que é certo aqui e você não está me ajudando. Eu nunca irei me cansar de você e você jamais me incomodará."
"Então por quê? Por que eu não posso estar ao seu lado o tempo todo?"
Porque você tem um amante. Porque aquele homem provavelmente deve sentir ainda mais ciúme do que eu sinto. O rapaz levou a mão até o rosto do homem de longos cabelos louros, tocando-o de leve. Os olhos verdes se ergueram e o futuro Chefe surpreendeu-se por vê-los brilhantes com lágrimas.
"Eu não quero que se sinta preso a mim se isso significar anular sua própria vida." O Braço Direito permitiu-se acariciar por uma última vez aquele rosto tão belo. "Eu o mantive de maneira egoísta ao meu lado, porque você sempre esteve comigo. Mas eu não sou mais uma criança. Eu não posso manter as pessoas comigo por obrigação. Então, com exceção do seu trabalho, por favor, não fique comigo se isso significar omitir outras coisas. Outras pessoas."
Giuseppe manteve o silêncio e o herdeiro ficou em pé. Foi preciso alguns segundos até que o louro fizesse o mesmo e então ambos ficaram frente a frente. Naqueles últimos meses Francesco havia crescido um pouco e agora os dois tinham a mesma altura. O Braço Direito o encarou por alguns instantes e abriu um confiante meio sorriso.
"Pelo que eu entendi, eu posso fazer o que quiser com meu tempo livre, não?"
"S-Sim..." O rapaz sentiu como se um punhal fosse girado em seu peito. Ele parece mais feliz.
"Compreendo, então eu concordo com esses termos, Francesco." Giuseppe ofereceu a mão.
O futuro Chefe dos Cavallone a aceitou e os dois trocaram um firme cumprimento. Porém, as mãos não se afastaram. Nenhum deles fez menção de interromper o toque, que mudou de um aperto para um entrelaçar de dedos.
"Eu irei me retirar agora. Mario dormirá na mansão, portanto, eu retornarei para casa." O louro parecia ter mudado totalmente de humor e retornado à personalidade agradável. Não havia sinal daqueles olhos tristes e baixos. "Retornarei amanhã pela manhã."
"Nós não temos viagens programadas e amanhã é domingo." Os olhos cor de mel piscaram. Ele não compreendia.
"Sim, eu sei, mas estarei aqui da mesma forma. Você disse que eu poderia fazer o que eu quisesse com meu tempo livre e eu optei por passá-lo integralmente ao seu lado, com exceção de alguns momentos com Catarina. Alguma objeção?"
O herdeiro balançou a cabeça em negativo, sem saber ao certo o que deveria responder. O Braço Direito sorriu largamente e desejou uma calorosa boa noite antes de se retirar da biblioteca. Francesco permaneceu imóvel, ainda tentando digerir o que acabara de acontecer. Todo o seu discurso e todas as horas que passou pensando e divagando não significaram absolutamente nada, e aquela constatação o fez gargalhar alto. A risada ecoou pela biblioteca e ele sentou-se com barulho na poltrona. A mão direita cobriu seus olhos e pouco a pouco a gargalhada foi morrendo até se transformar em um soluço. As lágrimas escorreram quentes por suas bochechas, enquanto seu coração estava apertado. Eu tentei deixá-lo ir. Eu queria deixá-lo ir. O rapaz de cabelos castanhos lembrou-se das palavras de Catarina e de Mario, e a dor escorreu por seu rosto. Seus sentimentos conflitavam totalmente com seus interesses e ele não fazia ideia de como seria sua vida daquele dia em diante. Ele não sabia como seria olhar para Giuseppe sem chamá-lo de "meu".
Continua...
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