The Romance Of Sadness
4 III
III
Você tem certeza de que não quer ir?" O convite foi feito com o mesmo tom voz baixo e contido, mas o homem sentado atrás da mesa de madeira escura apenas ergueu os olhos verdes, meneando a cabeça em negativo.
"Alguém precisa ficar aqui no caso de alguma coisa acontecer. Eu ficarei bem."
O homem de cabelos louros deu as costas e seus olhos piscaram longamente, saindo da lembrança e retornando ao momento atual.
Ele não sabia por que estava revivendo aquela conversa pela terceira vez desde que entrara no carro. O veículo atravessava a estrada deserta, deslizando com facilidade e levando Alaudi na direção do único lugar que ele sabia que não deveria ir, no entanto, aquele que não deixara sua mente durante a semana. Faz uma semana. Há uma semana eu não vejo ninguém. Os dedos pálidos apertaram o volante e o Guardião da Nuvem dos Vongola sentiu o estômago revirar. Internamente, ele estava ansioso, uma estranha e incômoda sensação de não saber o que o esperava. Talvez eles nem se lembrem mais de mim. Catarina certamente está furiosa. O Inspetor de Polícia desviou momentaneamente os olhos azuis para o lado direito, mais precisamente o embrulho sobre o banco do passageiro. Eu espero que isso seja o primeiro passo na direção da minha redenção.
O portão de entrada surgiu após quinze minutos e Alaudi apenas meneou a cabeça para os subordinados que vieram recebê-lo. Um deles abriu um largo sorriso, mencionando que "O Chefe ficará feliz em vê-lo!". O louro voltou a sentir o estômago girar, sabendo que em menos de dez minutos estaria diante da mansão e então não haveria volta. Eu não dirigi por quase uma hora para simplesmente retornar como um cão, com o rabo entre as pernas. O pessimismo acompanhou o Guardião da Nuvem até o carro ser estacionado ao lado do chafariz. O pacote foi para os seus braços e seria impossível não estranhar que ninguém havia deixado a casa para recebê-lo. A ideia de que talvez a sua presença não fora sentida era infinitamente melhor do que o pensamento de que os moradores daquele lugar simplesmente não se importavam. E, então, respirando fundo e ignorando totalmente as batidas altas de seu coração, o Inspetor de Polícia se pôs a subir os pequeninos degraus que o levariam até o hall.
A primeira palavra que Alaudi ouviu ao abrir a porta foi "estúpido".
A segunda foi "idiota", seguida novamente por "estúpido". As sobrancelhas se juntaram e foi difícil para o louro esconder um meio sorriso ao encarar as pessoas que estavam no centro do hall. Ele não viu, por exemplo, que, apesar de estarem realmente ali, Catarina e Francesco discutiam. Aos seus olhos ele só via as duas pessoas que habitaram sua mente por todos aqueles penosos dias e que o fizeram enfrentar uma indesejável fila na confeitaria somente para comprar a sobremesa favorita de ambos. O Guardião da Nuvem não se importou, a princípio, que o rapaz de cabelos castanhos houvesse chamado a irmã de idiota por duas vezes, ou que a garota de cabelos ruivos chutara propositalmente a canela do herdeiro, fazendo-o ajoelhar-se ao chão. Entretanto, foi impossível para o Inspetor de Polícia permanecer impassível quando Francesco disse que ninguém se importaria com Catarina se ela sumisse.
"Chega!" A voz soou alta. Alaudi raramente levantava o tom de voz, porém, ele sabia que teria de se fazer presente naquele momento.
Os dois irmãos viraram o rosto ao mesmo tempo. As reações foram similares, contudo, o rapaz de cabelos castanhos jamais conseguiria correr com a mesma graça e leveza que a garota de cabelos ruivos, ainda mais ajoelhado e com o tornozelo machucado. Catarina jogou-se nas pernas do louro, abraçando-o pela cintura e o apertando tão forte que o pacote em seus braços precisou ser erguido ou teria caído ao chão. O herdeiro dos Cavallone levantou-se, todavia, permaneceu no mesmo lugar. Havia um sincero e aliviado sorriso em seus lábios.
"Alaudi! Alaudi! Alaudi!" A garota ergueu o rosto, esboçando as bochechas coradas e salpicadas por sardas. "Você finalmente voltou, Alaudi! Eu senti tanta a sua falta!" Catarina voltou a abraçá-lo, mas o gesto durou poucos segundos. E, como se lembrasse de algo importante e que não deveria ter sido esquecido, a ruiva o soltou e deu um passo para trás, colocando as mãos na cintura do vestido azul e o olhando com a melhor expressão raivosa que uma criança de nove anos poderia esboçar. "Eu estou tão brava com você, Alaudi! Por um momento eu esqueci, mas agora eu me lembrei!"
O Guardião da Nuvem juntou as sobrancelhas. Aquilo seria difícil.
Sua única vontade naquele momento era ajoelhar-se e abraçar aquele pequeno ser e dizer o quanto havia sentido sua falta, seguido por um milhão de pedidos de desculpas. Entretanto, aquele não seria ele, e havia algo mais importante a ser feito. O Inspetor de Polícia passou os olhos ao redor, não vendo sinal de Ivan ou de nenhum dos Braços Direitos.
"Qual o motivo dessa discussão? Por que vocês estavam brigando?" Alaudi tentou parecer o mais sério possível.
"É tudo culpa do Francis. Ele é tão estúpido, Alaudi!" Catarina nem se deu ao trabalho de se virar e encarar o irmão. "Ele e Enrico foram andar a cavalo e não me chamaram. Eu fiquei sozinha, Alaudi! Sozinha! Francis levou Peppe e eu não tive companhia alguma."
"Por que é que eu te chamaria?" Francesco parecia realmente irritado. "Enrico é meu amigo."
"Eu não me importo com Enrico, mas por que não deixou Peppe aqui? Nós tínhamos planos!"
"É mesmo?" O rapaz de cabelos castanhos cruzou os braços. "Você acha que Giuseppe perderia tempo brincando com bonecas?"
"Eu não brinco com bonecas!" A garota ruiva virou-se, apertando os olhos e ameaçando ir até o irmão, porém, parando ao sentir a mão do louro sobre seu ombro esquerdo. "Eles me deixaram sozinha esse tempo todo. Por favor, não vá embora de novo."
As palavras foram seguidas por um novo abraço e então toda a força de vontade deixou o corpo do Guardião da Nuvem. Ele sabia que precisaria ser sério e resolver a situação, contudo, como ignorar um pedido tão honesto? O Inspetor suspirou, pensando no que poderia dizer para amenizar a situação. Não havia nada em sua mente, discurso ou ideia mirabolante, embora o que o incomodasse mais era saber que Ivan não notara que aquilo estivesse acontecendo.
"Por favor, dê licença."
A voz veio de trás e fez com que Alaudi virasse o rosto. Suas sobrancelhas se juntaram e seu estômago girou, no entanto, por outro motivo: asco. O rosto de Mario estava há poucos centímetros do seu, em uma distância desnecessariamente próxima. O louro afastou-se da entrada, e o ruivo adentrou acompanhado pelo irmão mais novo. Giuseppe abriu um largo sorriso ao vê-lo, desejando boas-vindas e pedindo para segurar o pacote que estava em suas mãos.
"Eu levarei para a cozinha." O Braço Direito de Francesco afastou-se e o Guardião da Nuvem desejou que o outro irmão fosse tão prestativo, assim ele se livraria de sua presença.
"Mario! Mario! Alaudi está de volta." Catarina ainda estava abraçada à cintura do Inspetor de Polícia.
"Eu vejo, Bambina. Espero que agora vocês se comportem melhor." O Braço Direito encarou Alaudi, abrindo um falso sorriso educado. "E onde está seu pai?"
"No banho." A garota ruiva respondeu prontamente.
O louro tocou a cabeça de Catarina, tentando ignorar a maneira como seu coração decidiu bater mais rápido com aquela notícia. Ao entrar na mansão, o Guardião da Nuvem achou que Ivan estivesse ausente. Todavia, quando a insolente figura de Mario surgiu, ele soube que o moreno estava em algum lugar daquela mansão. Um sempre está na presença do outro e Ivan jamais deixaria a mansão sem sua insolente e arrogante sombra. O Braço Direito colocou a mão na nuca, olhando para cima, mas permanecendo no mesmo lugar. O Inspetor o encarou por um momento, lembrando-se novamente da rápida conversa que tivera com Giulio antes de deixar a sede de Polícia. Pela primeira vez em anos Alaudi o convidou para irem juntos à mansão, e acabou culminando em uma recusa por parte do moreno. No fundo o louro sabia que isso aconteceria, no entanto, uma parte dele quis acreditar que a resposta poderia ser diferente. Várias primeiras vezes estão acontecendo, o Guardião da Nuvem pensou ao fitar Mario retirar-se do hall e seguir na direção de um dos corredores, é a também inédito e totalmente não esperado que eu precise simpatizar com esse homem.
O Inspetor de Polícia soube através de seu amigo sobre Antonietta.
Eles estavam almoçando em um excelente restaurante quando Giulio mencionou a ex-noiva. Alaudi lembrava-se de ter um delicioso ravioli na ponta de seu garfo e a caminho de sua boca, quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Os olhos azuis se ergueram e naquele momento toda a fome que o louro pudesse sentir simplesmente desaparecera. O moreno apenas mencionou que havia encontrado Antonietta em um restaurante há alguns dias, e que os dois conversaram durante alguns minutos. O assunto terminou rapidamente, porém, o Guardião da Nuvem teve um péssimo pressentimento, que apenas se confirmou no meio da semana, quando o Inspetor perguntou ao amigo porque ele havia se atrasado. Giulio respondera que não havia dormido direito e em pouco tempo Alaudi descobriu sobre a discussão e principalmente o motivo. E, pela primeira vez, ele precisou considerar a ideia de que talvez o ruivo estivesse com a razão.
O louro não entendia como seu amigo conseguiu ter estômago para conversar com a ex-noiva. O Guardião da Nuvem sabia que jamais faria tal coisa, principalmente devido aos motivos que levaram ao rompimento do relacionamento. O Inspetor de Polícia estava em sua casa, cerca de treze anos atrás, quando Giulio chegou tarde da noite, ensopado, batendo em sua porta e pedindo para passar a noite. Alaudi esteve presente durante os meses seguintes ao término do noivado em que o moreno pareceu outra pessoa: ombros curvados, olhos baixos e uma visível infelicidade que fez o louro oferecer um mês de férias, mas que fora recusada pelo Vice-Inspetor. O tempo foi agente indispensável na recuperação de Giulio, contudo, o amigo não foi mais o mesmo. O Guardião da Nuvem nunca mais ouviu as gargalhadas altas dentro da sede de Polícia, ou o sorriso brilhando de felicidade que o moreno sempre esboçava quando Antonietta vinha buscá-lo após o expediente. O Vice-Inspetor superou o incidente, mas aquela pessoa o havia marcado totalmente e de uma maneira não positiva. Embora não suportasse Mario, o Inspetor não pôde não entender e concordar com a atitude. Pois, no final, o ruivo havia sido aquele que precisou receber diretamente todos aqueles anos de frustrações que o Vice-Inspetor acumulara.
O Braço Direito se afastou e somente ao correr os olhos mais uma vez pelo hall foi que Alaudi se deu conta de que estava sozinho. Francesco e Catarina haviam deixado o local, e ele esteve tão absorto em pensamentos que não percebera. Eu preciso parar de pensar nos problemas alheios. Eu tenho minha cota de aborrecimentos para cuidar. O louro cruzou metade do hall, decidido a subir para o quarto. O jantar seria servido em algumas horas, então ele teria tempo de conversar com Ivan. O pé direito pisou na escadaria, entretanto, o Guardião da Nuvem recuou. Seus olhos azuis se ergueram e ele soube que a atitude mais sábia seria permanecer exatamente onde estava.
Do topo da escada o moreno o olhou com um misto de genuína felicidade e franca dúvida. O Chefe dos Cavallone vestia uma calça marrom e uma camisa branca; seus cabelos estavam arrumados e daquela distância o Inspetor infelizmente não possuía meios de sentir o cheiro do shampoo que ele usara, ou qual dos sais de banho escolhera para utilizar naquela noite. Ivan começou a descer a escadaria, e pouco a pouco a expressão em seu rosto transformou-se em um largo sorriso. O moreno parou em frente ao amante, e por um momento Alaudi achou que seria agarrado e beijado ali, no meio do hall.
"Podemos ir para o escritório?" O Chefe dos Cavallone apontou para a direita. "Acredito que seja o melhor lugar para conversarmos."
O louro precisou de alguns segundos para responder, e a única coisa que conseguiu fazer foi balançar a cabeça. Ivan seguia ao seu lado, porém, havia uma visível distância entre eles; uma distância que não estava nos planos do Guardião da Nuvem. Ele imaginou que precisaria lidar com uma versão pegajosa e melosa de seu amante, que provavelmente o beijaria na frente de todos, sem se importar com hora e local. Todavia, enquanto caminhavam na direção do escritório, o Inspetor de Polícia não viu ou sentiu nada que pudesse induzi-lo a ter tais pensamentos. O moreno abriu a porta, fazendo sinal para que ele entrasse primeiro. Alaudi olhou ao redor, notando que nada havia mudado naqueles sete dias. A mesa continuava no mesmo local, arrumada e em frente à janela; o tapete xadrez forrava o lado esquerdo, enquanto várias prateleiras de livros ocupavam o lado direito. O louro adentrou ao cômodo, esperando a porta ser fechada para então decidir o que deveria dizer ou fazer. Quando o som chegou aos seus ouvidos, o Guardião da Nuvem virou-se um pouco, disposto a iniciar a conversa.
O beijo aconteceu, não no exato momento em que ele esperava, no entanto, aconteceu. Um dos braços fortes do Chefe dos Cavallone o envolveu pela cintura, erguendo-o um pouco e trazendo-o para perto. A outra mão segurou o rosto do Inspetor, enquanto a língua de Ivan invadia sua boca de maneira não muito comportada. Por um momento Alaudi não soube o que estava acontecendo. Seus olhos se arregalaram e suas mãos tocaram o peito de seu amante. Contudo, embora sua mente tentasse encontrar alguma racionalização para aquele ato, seu corpo não se importava com tais explicações. Os dedos subiram pelo peito do moreno e seus braços evolveram o pescoço, diminuindo ainda mais a distância entre os corpos. Os olhos azuis se fecharam e o louro permitiu-se ficar na ponta dos pés, retribuindo à carícia e tentando ao máximo não perder o controle. Aquela semana havia sido longa, os dias extensos e as noites muito piores. Há anos o Guardião da Nuvem não se ausentava por tanto tempo, e palavras jamais poderiam descrever o nível de solidão que ele sentira todas as vezes que precisou retornar para sua solitária casa. Não havia crianças brigando, ou homens insolentes ou longos e apaixonantes beijos. Durante sete dias o Inspetor reviveu sua antiga vida, aquela anterior ao baile dos Vongola, o dia em que ele e o Chefe dos Cavallone se conheceram. E havia sido ruim. Ruim, solitário e extremamente sem vida.
Os lábios permaneceram unidos por preciosos minutos. O primeiro beijo encerrou-se quando a necessidade por ar tornou-se inevitável, entretanto, um segundo beijo começou logo em seguida. Havia fome no ato, e, quando os lábios se afastaram, marcando realmente o final da carícia, Alaudi apenas desejou que aquele beijo fosse somente o início. Que Ivan simplesmente perdesse a cabeça e fizesse amor com ele naquele largo sofá. Eu não me importaria, não hoje... O louro afastou um pouco os lábios. Ele sentia a respiração do moreno, e as mãos grandes e firmes ainda seguravam suas costas. Um largo e travesso meio sorriso surgiu no rosto do Chefe dos Cavallone, e por um momento o Guardião da Nuvem achou que seu desejo seria realizado. Todavia, Ivan não o empurrou contra o sofá e retirou suas vestes com pressa e fúria. O moreno apenas o segurou pelo queixo, erguendo-o um pouco. Os olhos cor de mel brilhavam e o Inspetor de Polícia viu-se refletido naquele olhar, sentindo-se um pouco constrangido. Seu rosto estava absurdamente corado.
"Por mais que eu queria o que você quer, nós precisamos conversar primeiro." A voz do Chefe dos Cavallone soou rouca. "Tenha somente um pouco de paciência, está bem?"
Alaudi juntou as sobrancelhas, dando um passo para trás e oferecendo suas costas. Ele sentia o rosto quente, e era simplesmente uma afronta demonstrar aqueles sentimentos de maneira tão aberta. Como se ele pudesse ver através de mim... O louro afastou-se, sentando-se em uma das poltronas e cruzando os braços. Ivan coçou a nuca e acomodou-se no sofá, dobrando uma das pernas e soltando um longo suspiro.
"Eu estou muito feliz por vê-lo de volta, Alaudi. A semana que passou foi difícil."
"Francesco e Catarina estavam brigando quando cheguei. O que você andou fazendo?" O Guardião da Nuvem não sabia ao certo como iniciar aquela conversa. O assunto principal era outro, porém, encontrar uma maneira de transmiti-lo seria uma tarefa complexa para alguém fechado e calado como ele.
"Eles sentiram sua falta. Os dois estão no limite e eu não sei o que faria se você não tivesse aparecido." O moreno soou exausto. O Inspetor de Polícia encarou melhor seu amante e notou que o Chefe dos Cavalone aparentava estar realmente cansado. "Mas podemos conversar sobre isso outra hora, não? Nós temos assuntos mais urgentes para tratar." Ivan esboçou um sorriso sem graça. "Quanto tempo eles te deram?"
"Um mês." Alaudi respondeu prontamente. Ele tinha certas coisas para perguntar e informar, mas havia algo que precisaria ser dito antes de qualquer informação. "Eu tenho convicção de que você sabe que eu não acredito em nada do que me foi informado." O louro engoliu seco. "Eu sei que a sua Família não fez nada daquilo."
"Mas é claro que eu sei disso." O moreno arrastou-se para a ponta do sofá, o suficiente para que pudesse segurar a mão do Guardião da Nuvem. "Eu não estou duvidando de você, ninguém está. Eu sei que você está sendo usado, e minha maior preocupação não é essa." O Chefe dos Cavallone apertou um pouco mais a mão de seu amante entre seus dedos. "Eu só quero que você fique seguro. O restante será resolvido."
"Você não precisa se preocupar comigo." O Inspetor afastou a mão, voltando a cruzar os braços. Aquele comentário o deixara parcialmente irritado.
"Eu não quis ofendê-lo, mas não é questão de você ser ou não capaz de se proteger. As pessoas envolvidas já demonstraram que conseguem ferir Chefes que andam protegidos até os dentes. E, sim, eu estou extremamente preocupado com o seu bem estar, desculpe por isso."
Ivan ficou em pé, visivelmente contrariado. Suas mãos foram parar na cintura e ele caminhou até a mesa, mantendo-se de costas o tempo todo. Não era para essa direção que a conversa deveria ter seguido. Alaudi encarou o tapete xadrez. Ele imaginou que o reencontro entre eles seria passado no quarto, sobre a cama, ouvindo declarações tolas que seriam ditas entre suspiros e gemidos; e não no escritório, no meio de comentários ácidos e que certamente iniciariam uma discussão.
"Você deveria falar com Giotto." O moreno ainda estava de costas. Seus dedos brincavam com uma folha de papel. "Ele pode ajudar."
"Eu não me envolvo com os Vongola." O louro apertou os olhos. Que petulância colocá-lo no mesmo nível que aqueles incompetentes.
"Pois deveria. Giotto e seus demais Guardiões estão estudando uma maneira de solucionarmos o problema. Você não conseguirá nada sozinho."
Eu achei que não estaria sozinho. O Guardião da Nuvem ficou em pé. Quando decidiu que visitaria a mansão naquele fim de tarde, o Inspetor de Polícia estava disposto a se unir ao Chefe dos Cavallone. Ele sabia que seu amante tinha algum plano em mente, alguma coisa que pudesse desvendar quem estaria usando o Chefe Principal para sumir com os mafiosos. Entretanto, Alaudi não imaginou que Ivan sugeriria que ele procurasse justamente as pessoas que deveriam ser evitadas a todo custo. Giotto e suas marionetes não poderiam fazer nada além de atrapalhar. Nada bom acontece quando você se envolve com os Vongola. O louro ajeitou o terno, disposto a deixar o escritório. Aparentemente a conversa terminara antes mesmo de ter realmente começado.
"Você vai fugir sem dizer nada?" A voz do moreno soou alta, fazendo com que o Guardião da Nuvem parasse logo no primeiro passo.
"Não há nada para conversarmos. Se a sua ideia é se aliar aos Vongola então eu me retiro."
"Faça como quiser. Eu não me importo mais."
A folha de papel foi amassada e o Inspetor deixou o escritório sem olhar para trás. Ele sabia que aquela conversa retornaria, contudo, naquele momento seria impossível. O hall estava vazio e Alaudi subiu direto para o quarto. Seu corpo pedia um longo e relaxante banho, e seria difícil descrever o que ele sentiu ao entrar no maior cômodo da casa. O coração do louro bateu mais rápido e ele se permitiu alguns segundos de contemplação. Os móveis estavam no mesmo lugar, a cama perfeitamente arrumada e as cortinas ajeitadas. Eu senti falta desse quarto... O louro adentrou ao cômodo, retirando o terno e o deixando sobre uma das poltronas. Seus passos o levaram até o closet, e ele pegou uma nova troca de roupas. O seu lado estava arrumado, as roupas separadas por tipos e cores e havia peças novas e que não estavam ali da última vez. Ivan as comprou... O Guardião da Nuvem esboçou um meio sorriso, tocando um belo e longo sobretudo negro. Parece confortável. Espero poder usá-lo no próximo inverno. O Inspetor de Polícia afastou-se do closet e seguiu para o banheiro. Naquela noite ele se permitiria um longo e relaxante banho de banheira e, quando saísse, então Alaudi pensaria em como resolver o novo conflito que havia surgido. Como se já não tivéssemos problemas suficientes.
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Ivan não estava no quarto quando o louro deixou o banheiro. O cômodo estava vazio, o que demonstrava que o moreno ainda estava chateado com a rápida conversa que tiveram no escritório. O Guardião da Nuvem, no entanto, não se deixou abalar. Ele conhecia seu amante bem demais, e sabia que cedo ou tarde eles acabariam resolvendo a situação. E eu tenho outros assuntos para cuidar. O Inspetor deixou o quarto, seguindo pelo corredor e parando em frente à porta em que havia um belo "C" cravado em madeira. Os nós dos dedos da mão esquerda bateram duas vezes e foi uma questão de segundos até a dona daquele cômodo agraciá-lo com sua presença.
"Alaudi!" Catarina o puxou para dentro do quarto. Ela tinha uma toalha sobre os cabelos.
"Eu a atrapalhei?" Alaudi encarou a empregada que havia ficado em pé ao vê-lo adentrar ao quarto.
"Maria estava penteando meus cabelos." A ruiva disse desanimada. "Eu disse que não precisava, mas ela insistiu."
"A senhorita não pode sair despenteada." A moça de nome Maria respondeu com um sorriso fraco. Seus belos olhos castanhos pediam desculpas. "Você é uma dama, Catarina."
"Mas eu já sei me pentear sozinha, obrigada." Catarina entregou a toalha molhada para a empregada. Ela trocara o vestido azul e agora vestia um verde. "E eu não sou uma dama!"
"Bem, eu vou deixá-los a sós."
A empregada fez uma polida reverência antes de deixar o cômodo. O louro caminhou até a cama, sentando-se e fazendo sinal para que sua companhia fizesse o mesmo. A garota ruiva puxou um travesseiro, indo se sentar entre as pernas do Guardião da Nuvem e oferecendo suas costas. O Inspetor de Polícia segurou a escova e deixou que ela deslizasse com facilidade pelos cabelos vermelhos de sua filha. Eles estão muito longos. Alaudi os mediu na altura da cintura. Os fios eram finos e levemente ondulados nas pontas, mas naquele momento estavam lisos e comportados.
"Você gostaria de cortar os cabelos, Catarina?"
"Eu posso!?" A garota teria se virado se o louro não a segurasse pelos ombros, pedindo que ela continuasse imóvel. "D-De verdade?"
"Sim." O Guardião da Nuvem passou mais uma vez a escova pelos cabelos. Em três movimentos a garota já estava perfeitamente penteada. Ela sempre quis ter cabelos mais curtos, mas Ivan nunca permitiu. "Eu posso pedir para Giuseppe cortá-los quando você quiser."
Catarina soltou um gritinho de felicidade, virando-se e abraçando o Inspetor com força. O gesto foi seguido por uma enxurrada de agradecimentos, e a ruiva só parou quando Alaudi disse que tinha algo a mais para dizer antes de sair.
"Sobre sua briga com Francesco... O que realmente aconteceu?"
"Eu já disse. Eles me esqueceram aqui. Na verdade, Francis me esqueceu. Peppe pediu para ficar, mas ele não deixou." A garota deu de ombros. "Ele não deixa Peppe ficar na casa, embora ele não faça nada quando Francis vai visitar Enrico. É muito injusto, Alaudi!"
"O que seu irmão fez não foi justo, mas isso não significa que você deva se comportar de maneira ruim. Eu não aprovo o comportamento que vi quando cheguei." O louro tentou manter-se sério. Qualquer sorriso significaria o fim de sua credibilidade.
"Eu sinto muito." Catarina mordeu o lábio inferior, desviando os olhos. "Eu só... não quero ser deixada de lado."
"Você não foi deixada." O Guardião da Nuvem depositou um gentil beijo na testa da garota, recebendo um apertado abraço como resposta. "Eu ficarei até domingo, mas quando eu retornar garantirei que você sempre vá participar dos passeios."
"Obrigada." A ruiva sorriu e apertou as bochechas do pai. "Mas você voltará depois, não é? Você não ficará longe por tanto tempo, não é?"
"Eu voltarei, não se preocupe." O Inspetor de Polícia ficou em pé, entregando a escova de cabelos para a dona do quarto. "E poderemos combinar uma visita a Roma, o que acha?"
"E-Eu posso dormir na sua casa?" Os grandes olhos castanhos brilharam com aquela ideia.
"Sim, claro." Não há nada lá, mas ela adora a casa. "Então, comporte-se. O passeio dependerá totalmente do seu comportamento, está bem?"
"Eu me comportarei. Prometo!" Catarina ficou em pé. "Mas você já vai? Achei que pudéssemos brincar um pouco."
"Eu tenho que conversar com seu irmão, mas posso contar uma história depois do jantar."
A ideia pareceu agradar a garota de cabelos ruivos, que saiu com Alaudi e acenou antes de seguir na direção da escadaria com passos apressados e contentes. O louro ajeitou a camisa que havia ficado amassada depois de tantos apertos e abraços, soltando um longo suspiro ao parar no último quarto do corredor. Falar com Francesco sempre era difícil, pelo menos a versão adolescente daquele garoto que costumava ser doce e educado. Os nós de seus dedos bateram duas vezes, porém, ao contrário de Catarina, o rapaz de cabelos castanhos demorou muito mais para atender, e quando abriu a porta ele tinha apenas uma toalha na cintura.
"Desculpe, eu não sabia que estava no banho." O Guardião da Nuvem deu um passo para trás. "Eu retorno depois."
"N-Não, não, por favor." O futuro Chefe dos Cavallone fez sinal para que ele entrasse. "E não faça cerimônias, Alaudi. Eu me visto rápido."
O Inspetor de Polícia adentrou ao quarto, enquanto Francesco seguia novamente para o banheiro. O cômodo estava arrumado, mas a escrivaninha continha uma infinidade de papéis e livros abertos. Ele estava estudando. Alaudi sorriu satisfeito consigo mesmo. Ao contrário da garota ruiva, que não fazia questão de ir à escola, o rapaz de cabelos castanhos adorava, e parte daquela ideia positiva provavelmente vinha do fato de que o herdeiro era extremamente popular. Os olhos azuis fitaram uma parte da mesa, detectando facilmente a caligrafia feminina em alguns dos papeis. Ele é popular com as moças. Não seria de se admirar se Francesco aparecesse com uma namorada em algum desses dias. O dono do quarto surgiu após alguns minutos, e o louro precisou engolir seco. Ele está a cada dia mais parecido com o pai. O rapaz de cabelos castanhos vestia uma calça negra e uma camisa da mesma cor. Os cabelos estavam bagunçados, no entanto, a semelhança era tão evidente que o Guardião da Nuvem sentiu o peito apertado ao relembrar a discussão no escritório.
"Então, o que houve?" O futuro Chefe dos Cavallone passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os.
"Nós precisamos conversar sobre o seu comportamento em relação à sua irmã." O Inspetor de Polícia foi direto ao assunto. "Por que você não permitiu que Giuseppe lhe fizesse companhia?"
"Ele é meu Braço Direito, não? A função dele é estar ao meu lado o tempo todo. Por que eu o deixaria para trás?" A insolência que aquelas palavras continham não surtiu efeito algum em Alaudi.
"Eu não sou Ivan e essa desculpa não funcionará comigo." O louro ergueu uma sobrancelha e Francesco desviou os olhos no mesmo instante. "Você sabe melhor do que ninguém que a função de Braço Direito só se torna efetiva quando você se tornar Chefe, o que você não é." O Guardião da Nuvem fez questão de utilizar propositalmente aquelas palavras. "Giuseppe nada mais é do que um amigo da Família até que você assuma, e não um capacho que você carrega para cima e para baixo." O rapaz de cabelos castanhos fez menção de rebater, contudo, o Inspetor de Polícia ergueu a mão esquerda, mostrando que ainda não havia terminado. "Ivan não sabe que isso vem acontecendo ou teria tomado providências, então eu sugiro que repense suas atitudes daqui para frente. Eu não direi nada dessa vez, entretanto, se chegar ao meu conhecimento que sua irmã foi deixada sozinha na mansão por capricho seu, eu informarei a Ivan e então a conversa irá para outro nível."
Não houve resposta por parte do herdeiro, apenas um resignado balançar de cabeça seguido por um polido pedido de desculpas. Alaudi suspirou, cruzando a distância e se aproximando de deu problemático filho. Francesco havia crescido nos últimos meses, e os dois agora tinham a mesma altura. O louro tocou a camisa do rapaz, ajeitando a gola e desamassando uma parte no ombro que provavelmente estava daquele jeito devido à pressa em vestir-se. O futuro Chefe dos Cavallone permaneceu imóvel e, quando os olhares se encontraram, Francesco esboçou um meio sorriso e naquele momento ele voltou a ser o doce garotinho de cinco anos.
"Eu estou feliz por você ter voltado." O rapaz corou um pouco. "A casa não é a mesma sem você."
O Guardião da Nuvem sentiu o rosto corar, todavia, sua única resposta foi bagunçar um pouco os cabelos do herdeiro. Francesco riu, e o Inspetor pediu licença, retirando-se do quarto. Seus ombros estavam mais leves quando ele ganhou o corredor, embora soubesse que havia um outro assunto que ainda precisaria ser resolvido. O delicioso cheiro que vinha da sala de jantar chegou a Alaudi enquanto ele descia a longa escadaria. Seu estômago roncou baixo, lembrando-o de que sua última e única refeição havia sido o rápido café da manhã na sede de Polícia. Ivan estava em seu lugar costumeiro quando o louro entrou, e os olhos cor de mel se ergueram no mesmo momento. Mario, que estivera em pé e inclinado enquanto conversava, endireitou-se e comentou meia dúzia de palavras com seu Chefe antes de retirar-se. Catarina acenou para o Guardião da Nuvem, o garfo da mão e mostrando que esperava ansiosamente pelo jantar. O Inspetor de Polícia sentou-se em seu lugar, ao lado direito do moreno, mas não disse uma única palavra. O guardanapo foi colocado sobre seu colo e, quando Francesco finalmente entrou, Alaudi respirou aliviado.
O jantar correu mais calmo e tranquilo do que o louro imaginou. A tensão entre ele e o Chefe dos Cavallone ainda existia, porém, nenhum dos pequenos presentes pareceu notar. Catarina comentou sobre o que fez naqueles dias, dizendo com orgulho que resolvera um difícil problema de matemática sem ajuda. O rapaz de cabelos castanhos mencionou que Enrico agora ajudava Ottavio com os pacientes, mas antes que o assunto voltasse aos dias em que a garota ruiva ficou sozinha, Ivan aludiu que gostaria de comer bolo de cenoura no café da manhã do dia seguinte, e então a atenção de Catarina foi totalmente para aquela ideia. Naquela noite eles tinham frango assado com batatas como prato principal, no entanto, Catarina comeu apenas a parte do peito, e depois que o moreno retirou toda a pele e qualquer vestígio de gordura. A cena fez o Guardião da Nuvem sorrir, admirado com o bom senso que sua filha possuía. O futuro Chefe dos Cavallone raramente comia sobremesas, contudo, aparentemente aquela noite seria uma exceção, pois Francesco serviu-se de um pequeno pedaço de pudim, saindo da mesa somente quando todos os pratos foram retirados.
"Boa noite." O rapaz disse com um meio sorriso.
A garota de cabelos ruivos permaneceu até o chá ser servido. Catarina adorava beber chá após as refeições. Sua xícara era pequena e geralmente o conteúdo terminava em dois goles, então o Inspetor de Polícia precisou dosar a sua própria quantidade. Quando terminou, a garota lançou um olhar cheio de significados para Alaudi.
"Eu subirei em alguns minutos. Escove os dentes e não durma."
"Eu estarei bem acorda." A ruiva levantou-se e olhou na direção de Ivan. "Boa noite, pappà."
"Boa noite." O moreno esboçou um meio sorriso, acenando para a filha.
O louro bebia seu chá sem pressa, procurando o melhor momento para iniciar a conversa. Entretanto, antes que o conteúdo de sua xícara terminasse, o Chefe dos Cavallone pediu licença e ficou em pé, deixando a sala de jantar sem nenhum outro comentário ou explicação. Aquele gesto enfureceu o Guardião da Nuvem, que fechou os olhos e pousou a xícara sobre o pires, desejando morder aquele homem até a morte. A raiva durou alguns minutos, e então o Inspetor se pôs em pé e decidiu que não perderia seu tempo naquela noite. Se Ivan queria agir como um adolescente, que fizesse isso longe dele. Quando ele decidir agir como um homem de verdade eu estarei esperando. Alaudi limpou o canto da boca e deixou a sala de jantar.
Catarina estava confortavelmente deitada em sua cama quando o louro entrou. A garota acenou e fez sinal para que o Guardião da Nuvem deitasse ao seu lado, oferecendo um dos travesseiros como apoio. O Inspetor de Polícia retirou os sapatos, indo se acomodar ao lado da ruiva e sentindo-se satisfeito por vê-la já vestida com o pijama.
"Então, o que você quer ouvir?" Alaudi perguntou enquanto ajeitava o cobertor ao redor do corpo de sua companhia.
"Hm... Eu sei como você e Giulio se conheceram. Como você e pappà se conheceram, então conte algo sobre Mario."
"Por quê?" Foi a única coisa que deixou os lábios do louro. Por que eu perderia tempo falando sobre aquele homem?
"Porque você nunca contou nada sobre ele." Catarina deu de ombros. "Eu sei como ele conheceu Giulio, apesar de que a versão de Mario é mais engraçada." O Guardião da Nuvem fechou os olhos. Ele realmente não queria saber.
"Você sabe que nós não somos amigos." O Inspetor tentou soar polido. O que ele queria dizer, na verdade, era algo totalmente diferente.
"Mas vocês têm o Giulio em comum, não? Deve ser difícil ser o Giulio!" A garota cruzou os braços e pareceu pensativa.
Alaudi não respondeu ou entrou em detalhes. A sugestão para a história foi negada, por motivos óbvios, então o louro soube que precisaria oferecer algo melhor e maior. E, apesar de ser contra seus princípios mencionar o nome daquela Família, o Guardião da Nuvem se resignou e sugeriu uma história sobre os Vongola. Não seria preciso mencionar que a ideia foi aceita de imediato e Catarina até mesmo se acomodou melhor para ouvir. A história havia acontecido há alguns anos, quando Giotto foi até a sede de Polícia pedir a ajuda do Inspetor com relação a um trabalho da Família. Alaudi se recusou, entretanto, acabou aparecendo no dia marcado e com isso salvado a pele do homem de cabelos castanhos. Sua companhia foi Ugetsu, o Guardião da Chuva, e naquela época o homem ainda não era fluente no italiano, logo, o diálogo entre eles foi basicamente através de mímicas. Meu japonês também era pobre...
A garota se deliciou com os detalhes, fazendo inúmeras perguntas sobre o homem japonês e sua função naquela missão. Quando a história terminou, Catarina já bocejava e seus olhos piscavam de maneira pesada. Todavia, o louro permaneceu o tempo todo ao seu lado, levantando-se apenas quando a garota dormia profundamente. O Guardião da Nuvem se permitiu aqueles simples minutos, admirando sua filha dormir e tentando guardar aquela imagem na memória.
O corredor estava silencioso quando o Inspetor de Polícia deixou o quarto. As luzes do andar debaixo estavam apagadas, o que significava que Ivan já havia ido para o quarto. Aquela menção fez Alaudi respirar fundo, imaginando se eles finalmente teriam uma conversa decisiva e sem discussões ridículas. A porta do quarto foi aberta e o louro encarou o cômodo com certo desânimo. As cortinas estavam abaixadas e as luzes apagadas, com exceção do abajur que ficava do lado em que o Guardião da Nuvem dormia. O Chefe dos Cavallone já estava deitado, de costas para ele e aparentemente dormindo. O Inspetor entrou em silêncio, retirando os sapatos na entrada e seguindo até o closet. Sua escolha para aquela noite seria um pijama de seda azul-escuro, e ele se trocou ali mesmo, deixando as peças arrumadas. Seus olhos fitaram Ivan enquanto fazia o caminho de volta, mas ele não conseguiu ver nada por causa da pouca iluminação. Alaudi entrou debaixo das cobertas, apagando o abajur e escondendo-se totalmente debaixo do cobertor.
Aquilo era ridículo, absolutamente ridículo.
Eles não se viam há uma semana e quando tinham a chance de ficar juntos o moreno precisava ter um de seus ataques idiotas por um motivo insignificante. A cama é grande demais. O louro notou ao não sentir nada em suas costas. Havia uma grande distância entre eles, o suficiente para caberem mais duas pessoas. Porém, nada parecia mais distante do que seus corações.
Por cerca de dez minutos o Guardião da Nuvem pensou. A conversa não aconteceria naquela noite, isso era fácil de ser percebido, no entanto, ele não queria continuar naquela situação. Era torturante saber que estava tão próximo do Chefe dos Cavallone, contudo, não poderia tocá-lo, ou sentir seus cabelos ou seu cheiro ou até mesmo seus beijos. O Inspetor de Polícia ansiava por aqueles momentos íntimos em que ele poderia se perder em seu amante, sentindo o amor daquele homem em cada gesto, toque ou suspiro. A ideia de simplesmente virar-se e tentar seduzir Ivan surgiu em sua mente, entretanto, ela foi completamente afastada. Infelizmente Alaudi não era o tipo de pessoa que se considerava sensual. Ele não conseguia se imaginar desejável e muitas vezes não entendia como um homem como o moreno poderia ter interesse em sua pessoa. O sono chegou aos poucos, perturbando seus pensamentos e embaralhando suas escassas ideias. O corpo do louro tornou-se pesado e a última coisa que ele divagou foi se no dia seguinte eles poderiam finalmente conversar. Intimamente o Guardião da Nuvem desejava que, na próxima noite, ele pudesse finalmente ter o Chefe dos Cavallone em seus braços.
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A teimosia de Ivan aparentemente duraria muito mais do que o Inspetor de Polícia havia previsto.
Alaudi acordou sozinho na manhã seguinte, e se não fosse a presença de Catarina — já que Francesco permanecia durante a manhã na escola — ele teria passado todas aquelas horas simplesmente às traças. O moreno havia saído cedo, acompanhado por seu Braço Direito e só retornaria ao anoitecer, além de que aquela notícia fora informada através de um dos subordinados. Ele nem sequer se deu ao trabalho de me avisar pessoalmente ou deixar um bilhete. Essa brincadeira já foi longe demais. Giuseppe acompanhava o rapaz de cabelos castanhos, então restava à garota ruiva o trabalho de entreter o levemente desapontado louro. Os dois passaram a manhã entre livros, caminhadas e até arriscaram dar uma volta pela propriedade a cavalo. O Guardião da Nuvem não poderia dizer que aquelas horas não foram proveitosas, pois a garota era uma excelente companhia. O horário do almoço anunciou o retorno do futuro Chefe da Família, que ficou feliz ao ver o Inspetor esperando-o na mesa. O Braço Direito se juntou a eles durante a refeição, e Catarina o fez prometer que os dois fariam um passeio juntos depois do almoço.
"Eu também irei." Francesco avisou ao invés de pedir permissão.
"Não, não vai."
A garota respondeu uma única vez. O rapaz de cabelos castanhos contra-argumentou, todavia, Alaudi intrometeu-se e disse que a ruiva poderia passear com Giuseppe. O herdeiro dos Cavallone não gostou, e retirou-se da mesa assim que seu prato tornou-se limpo. O Braço Direito desculpou-se sem motivo, e o louro apenas disse que era preciso tratar Francesco com um pouco mais de pulso firme ou ele cresceria ainda mais mimado e teimoso. Quando a refeição terminou, Catarina o convidou a se juntar a eles durante o passeio, mas o Guardião da Nuvem declinou, preferindo ir à biblioteca. Seus amigos-livros nunca o deixavam sozinho e ali, em uma confortável poltrona, o Inspetor de Polícia soube que passaria sua tarde.
O restante do dia passou como se as horas não significassem absolutamente nada. Alaudi leu metade de um grosso livro, surpreendendo-se apenas quando notou que a biblioteca havia se tornado escura. O céu claro havia ganhado um tom levemente negro, e o louro espreguiçou-se antes de se levantar. O livro, porém, foi carregado com ele durante o caminho até o quarto. A luz estava acessa e o Guardião da Nuvem entrou no exato momento em que seu amante deixava o banheiro. Ivan tinha uma toalha azul ao redor da cintura e pareceu surpreso ao ver o Inspetor de Polícia. Entretanto, Alaudi não compartilhou daquela reação. Seus olhos pousaram momentaneamente no moreno, e ele apenas se aproximou para deixar o livro sobre a cama, seguindo para o banheiro como se aquele homem nunca houvesse surgido em seu campo de visão. Dois podem jogar esse jogo e você sabe que perderá quando o assunto for indiferença, Ivan. Normalmente, aquela atitude por parte de seu amante fazia com que o louro simplesmente fosse embora, no entanto, ele não abandonaria seus filhos. Aquelas duas pessoinhas eram basicamente o motivo que ainda o fazia continuar naquela casa.
O banho foi rápido e relaxante. O Guardião da Nuvem sabia que o quarto estaria vazio quando ele saísse, portanto, não houve problemas em cruzar o espaço apenas de toalha. Sua troca de roupas para aquela noite foi uma calça escura e uma camisa azul clara. Ele adorava o detalhe que ficava próximo aos botões e que lembravam pequenos pássaros. Ainda era cedo para descer para o jantar, então o Inspetor de Polícia se permitiu mais alguns minutos de leitura. Seu corpo acomodou-se em um dos sofás e por uma hora Alaudi aproveitou novamente o sossego e prazer que somente um bom livro poderia oferecer. Nada no mundo era capaz de suprir a sensação de poder ler uma obra bem escrita. O relógio marcava pouco mais de sete da noite quando o louro deixou o quarto. Seus passos foram lentos e ele não tinha pressa em chegar à sala de jantar. Ivan já estava presente, acompanhado por Francesco, Mario e Giuseppe. O homem de longos cabelos louros ficou em pé ao vê-lo, fazendo uma educada reverência, contudo, o irmão permaneceu sentado, apenas oferecendo um olhar ao novo presente. Catarina foi a última a aparecer e no momento em que a garota pisou no local o Guardião da Nuvem sentiu que havia algo diferente. A garota não ria ou sorria, e pela primeira vez não ficou extasiada ao ver Giuseppe à mesa. O Chefe dos Cavallone também pareceu notar e, quando o olhar encontrou o do Inspetor de Polícia, Alaudi desejou que eles não estivessem tão distantes emocionalmente falando.
O jantar iniciou-se calmo e tranquilo. Aquela refeição ficaria marcada na memória de todos os presentes, embora os motivos seriam diferentes. O louro, em especial, se perguntaria várias vezes porque não prestou mais atenção à mesa, ou porque permitiu que sua atenção se dispersasse e se focasse em coisas tolas. A primeira carne assada havia terminado e as empregadas trouxeram outra, assim como uma travessa com massas, que naquela noite seria macarrão tortellini ao molho de vegetais. Naquele momento ele se lembrava de que Francesco iniciou uma conversa com Ivan, todavia, o assunto era trivial, como visitas a Enrico ou passeios a cavalos. O Guardião da Nuvem se serviu de um pouco de tortellini e sua atenção então foi para o ato de espetá-los com o garfo, banhá-los no molho branco e levá-los até os lábios. Ele não notou, por exemplo, que a conversa havia se tornado uma pequena discussão quando Catarina mencionou que não gostaria de frequentar a mesma escola que o irmão. O Inspetor de Polícia só foi acordar de seu momento introspectivo quando a voz do rapaz de cabelos castanhos tornou-se mais alta. O herdeiro estava ao seu lado, e automaticamente seu rosto virou-se para a direita, surpreso por não ter notado o que acontecia.
"Francesco, pare."
A voz de Ivan soou baixa se comparada a do filho. Alaudi virou o rosto na direção de seu amante e aquele foi o maior de seus erros. Um simples segundo. Um mero momento e seu mundo simplesmente parou.
"VOCÊ NÃO TEM QUE OPINAR! VOCÊ NÃO TEM QUE DIZER O QUE QUER OU NÃO FAZER. NINGUÉM SE IMPORTA! NINGUÉM SE IMPORTA COM VOCÊ, CATARINA. VOCÊ NÃO PERTENCE A ESSA FAMÍLIA. ELE NÃO É SEU VERDADEIRO PAI E EU NÃO SOU SEU IRM—"
Ele nunca soube dizer de onde veio o som que ecoou por toda a sala de jantar, alto e agudo.
O barulho do tapa calou não somente Francesco, mas todos os presentes no cômodo. O louro tinha as sobrancelhas levantadas, observando o momento em que o rapaz de cabelos castanhos endireitou o rosto e voltou a olhar para frente. Havia uma marca vermelha do lado esquerdo do rosto, e seus olhos cor de mel se arregalaram em um misto de surpresa e um profundo e nítido arrependimento. Catarina também tinha os olhos arregalados e uma expressão de mortal assombro enquanto olhava para o irmão. O Guardião da Nuvem não notou a reação do Chefe dos Cavallone, pois sua atenção foi totalmente para a figura de Mario, que ficou em pé em segundos. E, parado do outro lado da mesa, em pé e ainda com a mão levantada, Giuseppe esboçava a expressão mais séria que o Inspetor já havia visto. Seu belo e delicado rosto estava vermelho, um escarlate que transmitia o quanto seu sangue fervia. Uma lágrima de pura resignação escorreu por uma de suas bochechas e naquele momento Alaudi soube que tudo havia mudado.
"Você..." Normalmente o homem de longos cabelos louros tinha a voz baixa e gentil, entretanto, naquele momento o Braço Direito parecia outro. "Você é o pior tipo de pessoa que eu já conheci, Francesco, e eu me recuso a permanecer ao seu lado."
O guardanapo foi retirado e jogado com força sobre a cadeira, e Giuseppe passou por Mario como se não o houvesse visto. O ruivo parecia tão visivelmente desconsertado, que precisou de alguns segundos até que suas pernas se movessem e ele fosse atrás do irmão. A sala de jantar tornou-se silenciosa, um pesado silêncio que parecia consumi-los pouco a pouco. Catarina saiu de seu lugar, pedindo licença e deixando a mesa com pressa. O louro encarava o próprio prato, incapaz de mover os olhos para nenhum dos lados. Pela primeira vez em dez anos ele não sabia o que dizer ou fazer naquela mesa de jantar.
"Francesco," a voz de Ivan soou como um trovão, fazendo o Guardião da Nuvem tremer. Ele não esperava por aquilo. "Vá para o seu quarto."
O rapaz de cabelos castanhos moveu-se devagar, retirando-se da mesa e saindo com passos vagarosos. O moreno soltou um longo suspiro, afastando os pratos e apoiando os braços sobre a mesa, enquanto escondia seu rosto. O Inspetor de Polícia esticou a mão, tocando os cabelos negros de seu amante e esquecendo totalmente o desentendimento anterior. O gesto não pareceu desagradar ao Chefe dos Cavallone, que tocou a mão de Alaudi, entrelaçando os dedos e os beijando em seguida.
"Desculpe por ontem." Ivan ergueu o rosto. Seus olhos estavam úmidos com lágrimas. "Eu sei que não é hora para isso, mas eu quero que entenda que eu farei o que for preciso para mantê-lo seguro, mesmo que isso signifique não estar com você. Eu não me importo se isso fere o seu orgulho. Eu não me importo com o meu próprio orgulho, então pense sobre isso. Se chegar o dia em que estar comigo signifique colocar em risco sua própria vida, eu farei o impossível para nunca mais vê-lo." O moreno ofereceu um sorriso exausto. "Agora eu irei subir e ter a conversa que eu já deveria ter tido com meu filho."
O Chefe dos Cavallone ficou em pé e o louro fez o mesmo. Os dois se olharam e partiu do Guardião da Nuvem oferecer a mão para seu amante.
"Ele é meu filho também."
Ivan abriu um meio sorriso, aceitando a mão e seguindo ao lado do Inspetor de Polícia.
"Mas é claro que é. De quem você acha que Francesco herdou essa personalidade difícil?"
Continua...
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