II

Mario sempre foi um entusiasta quando o assunto era Arte.

As cores, as paisagens, as poses e os retratos... ele amava tudo o que podia ser colocado em uma tela. Entretanto, o ruivo sabia que não levava jeito para a coisa. Quando mais jovem, durante um tempo, ele recebera a oportunidade de estudar sob a influência de uma excelente pintora, mas aquela empreitada se mostrou infrutífera. Infelizmente certas coisas não poderiam ser obtidas através de trabalho duro ou cega persistência, e aquela lição o Braço Direito carregava firme e permanente em seu coração. As aulas de pintura não o levaram a lugar algum, por um tempo, claro, pois, cinco anos depois ele se tornaria amante da mesma pintora e nada lhe agradaria mais do que fazer amor em um quarto cheirando a tinta e solvente.

Os dedos tamborilaram sobre o volante e Mario juntou as sobrancelhas, sem entender porque havia se recordado daquela mulher. Ela se casou dois anos depois de encerrarmos nossas aulas e hoje tem filhos da idade de Francesco. O tempo realmente passa. O ruivo dobrou a esquina e o carro deslizou pela rua por alguns minutos até parar em frente a outro veículo. O Braço Direito desceu, olhando ao redor e sorrindo na direção do outro lado da calçada. A rua está cheia de homens da Família. Eu estou seguro aqui. Mario caminhou alguns passos, entrando pelo baixo portão branco e subindo os degraus que o levariam até a entrada do sobrado. A chave estava dentro de seu bolso e o barulho da fechadura sendo aberta o fez tremer levemente.

A casa estava silenciosa e aparentemente não havia sinal de que o anfitrião estivesse presente. A porta foi trancada e a chave voltou para o bolso de sua calça. É estranho ter minha própria chave. Há três anos, e após incansáveis tentativas e furtivos momentos de persuasão, Giulio conseguiu fazer com que o ruivo aceitasse ter uma cópia da chave de sua casa. Eu nunca pedi por isso, e nunca fiz questão. Qual o problema em descer e abrir a porta? Não é como se eu aparecesse todos os dias. O Braço Direito negou aquele mimo desde a primeira vez que o moreno iniciou aquela conversa. Os dois estavam saindo por um ano quando o Vice-Inspetor pousou a chave prateada sobre a mão de Mario e esboçou um convencido e triunfante sorriso. A chave foi devolvida no mesmo instante e o ruivo continuou a negá-la até três anos atrás, quando Giulio insistiu pela milésima vez. Desde então, todas as vezes que o Braço Direito precisava visitar seu amante, ele tinha a casa à sua disposição.

O segundo andar não estava tão silencioso e foi somente ao encarar o largo quarto que ocupava o andar inteiro, que ele soube aonde o moreno poderia estar. O barulho que vinha do chuveiro o deixou mais aliviado e Mario permitiu-se caminhar por todo aquele local, sem medo de ser visto por quem estivesse na rua. As grossas cortinas estavam abaixadas, criando um clima aconchegante e íntimo. Este é definitivamente o melhor cômodo da casa. Os olhos verdes pousaram sobre a cama perfeitamente arrumada e o ruivo deixou escapar um suspiro. Há algum tempo ele não sabia o que era perder-se naqueles lençóis, deixando que seu amante fizesse o que quisesse e como quisesse. Existe sempre alguma coisa. Trabalho do meu lado, trabalho do lado dele e agora trabalho de ambos os lados. As sobrancelhas se juntaram e o Braço Direito caminhou até a cama, porém, não teve a chance de se sentar. A porta do banheiro foi aberta e em uma questão de segundos o dono da casa apareceu somente com uma toalha branca em sua cabeça. Dos olhos para baixo o Vice-Inspetor estava completamente nu.

"Não acha que a toalha está no lugar errado?" Mario esboçou um largo sorriso. Seus olhos encaravam o rosto de Giulio, pois ele sabia muito bem que aquele era o local mais seguro.

O moreno retirou a toalha imediatamente da cabeça e o olhou com uma surpresa tão genuína que ele sentiu-se um pouco lisonjeado. O ruivo ficou em pé, pronto para começar com o assunto que o havia levado até ali e que, infelizmente, não era a saudade que sentia de seu amante. Todavia, ele jamais chegou a concluir o pensamento ou até mesmo iniciar nada. A toalha foi para o chão e o Braço Direito foi puxado pelos braços fortes e possessivos do Vice-Inspetor. O beijo que invadiu sua boca tinha gosto de menta, saudades e um terceiro sabor que ele ainda não conhecia. Mario demorou alguns segundos até conseguir se situar, no entanto, seria impossível não retribuir à carícia. Suas mãos subiram pelo peito úmido, envolvendo o pescoço de Giulio e tornando inexistente a distância entre os corpos. Seu amante cheirava a flores e a colônia, e suas mãos começaram a puxar o terno do ruivo, até retirá-lo por completo, contudo, quando os botões da camisa branca passaram a ser abertos sem muita gentileza, o Braço Direito dos Cavallone sentiu-se trazido à realidade.

"Gi-Giulio, espere." Mario tentou se afastar, mas esquecera que o homem em seus braços era maior e mais forte. "Eu não vim aqui para isso."

Os beijos cessaram por um momento. Os grandes olhos verdes do moreno olharam seu amante por um instante, e o ruivo arrepiou-se.

"Quanto tempo você tem?" A voz do Vice-Inspetor soou séria.

"Meia-hora, no máximo." O Braço Direito franziu a testa. "O assunto é importante."

"Eu sei." O Vice-Inspetor roubou um rápido beijo e suas mãos terminaram de abrir os botões da camisa branca. "Dez minutos, é tudo o que eu peço."

"Dez minutos?" O ruivo ergueu levemente o rosto e apertou os olhos. "Alguém aqui está sendo excessivamente confiante."

"E alguém aqui vai me implorar por mais dez minutos."

O Braço Direito soube que estaria sobre aquela cama no exato momento em que Giulio deixou o banheiro. Embora eu achasse que faríamos isso depois, claro. Mario retirou o restante da roupa, empurrando-a para um canto. O moreno deu um passo à frente, porém, o ruivo fez sinal para que ele permanecesse no mesmo local. Desculpe, Giulio, mas eu venho ansiando por isso há dias. O Braço Direito ajoelhou-se, guiando o membro do Vice-Inspetor até sua boca. Ele adorava o corpo de seu amante; não havia nada sobrando ou fora do lugar. Giulio era excessivamente consciente com alimentação e exercícios físicos, mantendo sua boa forma e não deixando aparentar seus quase 40 anos. Mario, em comparação, era bem menos encorpado. Enquanto seu amante exibia um branco saudável, quase moreno claro, o ruivo era pálido e possuía sardas. Não havia um fio de cabelo em seu corpo que não fosse vermelho e todas as vezes que estavam um nos braços do outro ele gostava de admirar aquele contraste.

A ereção cresceu entre seus lábios, fazendo com que o próprio membro do Braço Direito aparecesse. Sua língua movia-se com pressa, sabendo exatamente os locais que deveria dar mais atenção. Mario gostava de oferecer aquele tipo de serviço, exatamente por saber o quão agradável era receber tal tratamento. A respiração do Vice-Inspetor tornou-se menos nivelada e seu quadril começou a mover-se para frente, deixando que a boca do ruivo o recebesse quase por completo. Quando os gemidos começaram, no entanto, Giulio deu um passo para trás e passou as mãos pelos cabelos molhados. O Braço Direito o olhou sério, como uma criança que havia visto seu doce favorito ser retirado de seus lábios a força. O moreno nada disse, apenas apontando para a cama com um dedo trêmulo.

Mario ficou em pé e deitou-se em seguida, arrastando-se para o meio da cama. O Vice-Inspetor aproximou-se devagar, puxando-o um pouco mais para baixo. O ruivo inclinou a nuca para trás, surpreso ao ver Giulio abocanhar sua ereção. Ele está com pressa, o Braço Direito não tinha vergonha de deixar sua voz ser ouvida, então o gemido soou alto e satisfeito. Suas mãos puxaram o lençol azul, sentindo a maciez do tecido. Por alguns segundos tudo o que ele fez foi gemer e chamar o nome de seu amante. Em um determinado momento a carícia parou, contudo, retornou assim que o moreno fechou a gaveta da cômoda. Mario sentiu o cheiro doce do óleo lubrificante antes de sentir a invasão, entretanto, ele gemeu da mesma forma, afastando um pouco mais as pernas e assim facilitando os movimentos. Os dois não faziam sexo há quase duas semanas e, embora tivesse uma dose diária de, bem, atenção pessoal, o ruivo sabia que não era a mesma coisa. O Braço Direito tinha problemas em chegar ao orgasmo sem aquele tipo de estímulo, e, mesmo quando precisava se virar sozinho, não era a mesma coisa. Ter o Vice-Inspetor entre suas pernas, tocando-o com força e desejo, era extremamente satisfatório.

Geralmente Giulio levava alguns minutos para prepará-lo. Mario não era muito exigente e diria que até gostava de sentir um pouco de dor ou incomodo durante o ato, mas ele seria somente masoquista se não aceitasse o tempo essencial de atenção que seu corpo exigia. O moreno retirou seus dois dedos, substituindo-os por sua ereção. O ruivo deixou escapar um palavrão, no entanto, seu amante não parou. As costas do Braço Direito se arquearam um pouco da cama e os gemidos que escaparam pelos lábios era uma mistura de prazer e êxtase. As mãos do Vice-Inspetor erguiam seu quadril, tornando as estocadas certeiras. Não havia contenção ou cuidados na maneira como Giulio movia-se dentro de Mario, e aquilo muito agradava ao homem que estava por baixo.

O moreno era o melhor amante que ele tivera em sua vida, o único que conseguiu domá-lo a ponto de fazê-lo mudar de posição, pois não havia nada mais prazeroso do que ser devorado, quase literalmente, por aquele charmoso e perigoso homem de olhos esmeraldas. Por dez anos o ruivo vinha permitindo que o Vice-Inspetor invadisse seu corpo e coração. Ele passou a achar interessantes os momentos em que seu amante queria "fazer amor". O Braço Direito nunca foi fã de sexo gentil ou contido. Ele, muitas vezes, envolveu amantes com calma, porém, porque eles pareciam frágeis, fosse a altura baixa ou o corpo muito magro. Todavia, Mario tinha um porte físico mediano, e que não exigia certos cuidados. Giulio, claro, discordava e o ruivo já perdera as contas de quantas vezes permitiu-se ser amado devagar, com movimentos lentos, ouvindo sussurradas e doces palavras em seus ouvidos. Não importava muito como o moreno queria possuí-lo, pois, no fim, o Braço Direito dos Cavallone sabia que ficaria plenamente satisfeito.

O Vice-Inspetor parou de se mover, puxando Mario pela cintura e fazendo-o sentar-se sobre seu colo. O ruivo apertou os ombros de seu amante, pendendo o pescoço para trás e gemendo tão alto que ele achou que o quarteirão inteiro saberia o que eles estavam fazendo. A resposta de Giulio foi uma risada baixa, enquanto ajeitava suas pernas e deixava o homem que estava por cima mais a vontade. O Braço Direito tinha o rosto corado, sem conseguir respirar normalmente. Aquela posição era traiçoeira, e ele precisava estar preparado tanto fisicamente quanto psicologicamente. Os olhos verdes se apertaram e Mario empurrou o peito do moreno, fazendo-o deitar-se sobre a cama. As mãos do ruivo apoiaram-se sobre o abdômen do moreno e ele moveu seu quadril devagar, subindo-o e descendo-o em movimentos lentos e torturantes. Os gemidos que deixavam seus lábios eram baixos e ele estava arrepiado, sentindo toda a extensão do membro penetrá-lo por completo.

"Você é tão sujo, Mario." As mãos do Vice-Inspetor seguraram a cintura do homem que estava por cima, fazendo com que o corpo se movesse para baixo com o dobro de força. A reação foi imediata e o Braço Direito gemeu docemente.

"Su-Su... Sujo?" Mario passou as mãos pelos cabelos já úmidos com suor, sentando-se melhor sobre a ereção de seu amante. Seu quadril moveu-se devagar e então foi a vez de Giulio gemer. "Nós mal começamos, e só lamento não termos tempo ou eu mostraria o que é ser realmente sujo."

A gargalhada que deixou os lábios do moreno foi alta e gostosa de ouvir. Aquele som arrepiou o ruivo e ele sabia que nenhuma palavra sórdida teria o mesmo efeito. O Vice-Inspetor era um homem sério e centrado. Quando o viu pela primeira vez, o Braço Direito teve certeza de que aquela pessoa não sabia sequer como sorrir. Entretanto, Giulio sabia sorrir e rir e gargalhar como havia acabado de fazer. Os momentos eram raros e especiais, como aquele, contudo, aconteciam. Mario adorava ouvir o som daquela risada, pois o fazia sentir bem, vivo e amado. O moreno virou-se, invertendo as posições e afastando as pernas do ruivo, voltando a penetrá-lo com o dobro de força O Braço Direito levou a mão até sua própria ereção, começando a masturbá-la e sentindo que chegaria ao clímax em poucos minutos. A voz do Vice-Inspetor soou com mais frequência e Mario deixou escapar outro palavrão quando chegou ao orgasmo. A sensação foi forte e seu corpo respondeu tão honestamente ao estímulo que a única coisa que Giulio conseguiu fazer foi penetrá-lo com mais força enquanto também chegava ao clímax.

Os dois amantes permaneceram imóveis por longos segundos. O ruivo encarava o teto, distante e completamente branco, imaginando como havia sobrevivido àquelas duas semanas. Seus lábios gemeram baixos ao sentir o membro do moreno retirar-se de dentro dele, mas, quando o Vice-Inspetor deitou-se sobre ele, a sensação foi substituída pelo gosto doce do longo beijo que trocaram. Agora eu precisarei de um banho. O Braço Direito tocou os ombros largos e suados do homem que estava por cima, deixando que as pontas de seus dedos marcassem a pele. A carícia terminou e Giulio abriu um meio sorriso que transbordava satisfação.

"O que acha de me acompanhar em outro banho?" A voz ainda soava rouca.

"Não, você vai primeiro. Nós precisamos conversar e ambos sabemos muito bem que se dividirmos o mesmo banheiro não existirá conversa."

O sorriso desapareceu lentamente e o moreno suspirou, saindo de cima de Mario e sentando-se sobre a cama.

"Use este banheiro; eu ficarei como o do andar debaixo." O Vice-Inspetor levantou-se. "Eu deixarei uma troca de roupas limpas sobre a cama."

"Eu posso te ajudar a arrumar... e limpar." O ruivo ficou em pé com dificuldade, notando que aquela sugestão havia sido mal calculada. "Eu acho melhor ir para o meu banho."

Giulio riu baixo e o Braço Direito seguiu até o banheiro ouvindo aquele doce e agradável som. O banho não foi longo, no entanto, serviu para limpá-lo por completo. Mario fez questão de usar o shampoo que cheirava a flores, e só deixou o banheiro quando seus cabelos pareciam fazer parte de um jardim. O quarto estava perfeitamente arrumado, como se há alguns minutos os dois não houvessem desmantelado toda a cama e sujado um belíssimo lençol. A roupa de cama havia sido trocada, as janelas abertas e as roupas do ruivo estavam colocadas sobre a colcha, agora verde. O Braço Direito tinha uma parte reservada no guarda-roupa, então nunca precisava se preocupar com roupas esquecidas ou a falta delas. Trocar-se, porém, mostrou-se uma tarefa complicada, principalmente pela dor em seu quadril. Fazer sexo era o esporte favorito de Mario, contudo, o pós-sexo era geralmente doloroso e incomodo. A calça foi colocada, o cinto ajeitado perfeitamente em sua cintura e a camisa azul clara fechada somente os três últimos botões. O terno, entretanto, foi segurado em suas mãos e o ruivo desceu para o primeiro andar, pensando que talvez fosse mais seguro ter aquela conversa em um cômodo menos... tentador.

O moreno ainda estava no banho quando o Braço Direito desceu. O banheiro do primeiro andar era menor, mas servia para momentos como aquele. Eu talvez precise construir outro banheiro. Mario riu consigo mesmo ao recordar-se do dia em que o Vice-Inspetor saiu do banheiro, em sua casa, e deu de cara com Giuseppe. Aquilo havia acontecido no primeiro ano em que eles começaram a sair, e Giulio, por sorte, tinha a toalha enrolada em sua cintura. Ele entrou tão desconcertado no quarto que eu achei que algo sério houvesse acontecido. O ruivo nunca esqueceria a maneira trêmula com que o moreno se explicou e o rosto absurdamente vermelho. Eu nunca o ouvi dizendo tantos “Eu sinto muito”. O homem de longos cabelos louros recebeu um polido e extremamente formal pedido de desculpas, no entanto, por um mês o Vice-Inspetor não pisou na casa. Dois idiotas. Giuseppe também se desculpou e eu me diverti por meses criando situações constrangedoras entre eles.

Aquela era uma ótima lembrança e o Braço Direito sabia disso melhor do que ninguém. Durante aqueles dez anos vários outros momentos se transformaram em importantes memórias. As noites ardentes, as longas conversas, os dias calmos e tranquilos passados no sofá da sala e até mesmo as brigas. Mario se recordava de tudo, e o motivo que o havia levado até ali era exatamente a vontade que ele sentia de preservar aquela relação. O ruivo nunca almejou nada daquilo, nem o amante e nem o futuro, porém, tudo havia sido conquistado com muito esforço e uma dose extra de mal-entendidos de ambos os lados. Eu quero saber a opinião dele sobre a situação, mas acredito que esta será a última vez que nos encontramos, pelo menos por um tempo.

O Braço Direito caminhou até a sala de estar, sentando-se no sofá e olhando ao redor. Tudo estava da maneira como ele se lembrava, limpo e perfeitamente organizado. Os olhos verdes então pousaram sobre a mesinha de centro e suas mãos se esticaram. O jornal do dia foi parar em seu colo, contudo, algo caiu em seus pés. Mario abaixou-se, praguejando ao sentir-se todo dolorido. Todavia, no instante em que se sentou novamente, o ruivo sentiu como se houvesse mergulhado em uma banheira de água gelada. Cada músculo de seu corpo tornou-se rígido e ele teria ouvido o trincar de seus próprios dentes se não estivesse tão concentrado no pequeno envelope entre seus dedos. O jornal foi colocado novamente sobre a mesinha, entretanto, o envelope recebeu atenção especial, sendo pousado por dedos incertos e de modo delicado.

"Eu não sabia que você se correspondia com sua ex-noiva." As palavras deixaram sua boca de maneira estrangeira, mas seus lábios sorriram. Ele sabia que Giulio havia entrado na sala de estar muito antes de vê-lo. No entanto, quando seu corpo se virou, o sorriso desapareceu totalmente. O Braço Direito não sabia explicar, porém, sentia uma vontade quase incontrolável de acender a lareira e queimar aquele pedaço de papel.

O moreno permaneceu no mesmo local por alguns instantes antes de se aproximar. Sua expressão era séria, como de costume, e ele não se sentou no sofá, escolhendo uma poltrona lateral. O Vice-Inspetor vestia uma calça negra e sua camisa era branca, entretanto, estar bem vestido não o salvaria daquela situação.

"Eu a encontrei semana passada em um restaurante." A resposta de Giulio saiu baixa e devagar, como se ele contasse as palavras.

"Oh!" Mario cruzou as pernas. "Mas como você ainda consegue manter contato com... aquilo?" O ruivo sentiu o veneno em suas palavras, contudo, não conseguia evitar. O homem diante de seus olhos havia sido traído da pior maneira possível e seria simplesmente impensável não simpatizar um pouco com sua dor.

"Nós não estamos mais juntos e já faz muito tempo. Eu não me importo mais." O moreno manteve o mesmo tom de voz. "Ela provavelmente quer saber como estou, não se preocupe."

"Eu não estou preocupado." O Braço Direito respondeu rápido. "Mas bem, vamos ao que interessa porque eu preciso ir embora."

O Vice-Inspetor ergueu os olhos e acomodou-se melhor na poltrona. Mario colocou a franja atrás da orelha, sem entender porque parecia tão difícil iniciar aquele assunto, ou melhor, começar qualquer conversa. De repente permanecer naquela casa tornou-se extremamente penoso e os olhos verdes fitaram a saída da sala de estar, desejando ardentemente que não houvesse nenhum assunto a ser tratado e que ele pudesse simplesmente ir embora.

"Acredito que vocês já saibam da situação." Partiu de Giulio o primeiro passo.

"Sim."

A resposta do ruivo foi propositalmente vaga. Ele e Ivan conversaram sobre aquilo previamente. Seu Chefe e melhor amigo sabia daquela visita e os dois combinaram tudo o que poderia ser dito. O Braço Direito então mencionou que tinha conhecimento sobre as mortes, o envolvimento do Chefe Principal italiano no caso e que havia partido dele a ideia de colocar Alaudi como o responsável pela investigação. Se tudo fracassar, o pobre idiota terá de arcar com as consequências. Isso não é algo escolhido ao acaso, mas sim planejado há muito tempo. Todavia, Mario omitiu a parte do Conselho, não por Ivan, mas em respeito aos demais Chefes.

"Alaudi está sendo usado feito uma peça de xadrez. Um movimento em falso e ele não terá nem mesmo aonde morar." O ruivo completou e deu de ombros. "O que jamais acontecerá, pois eu conheço um certo alguém que o receberia de braços abertos."

"Ele sabe disso." O moreno ouvira a tudo em silêncio e com uma expressão séria, como sempre acontecia quando o assunto era trabalho. "Alaudi sabe que está sendo usado e que cada movimento é vigiado e esperado, por esse motivo ele se mantém distante da mansão. Se a Força Policial descobrisse o envolvimento entre ele e seu Chefe as coisas ficariam incrivelmente difíceis."

"Não se preocupe, isso não acontecerá." O Braço Direito inclinou-se um pouco à frente, apoiando os cotovelos sobre seus joelhos. "Mas foi realmente bem pensado, não? Quero dizer, o Chefão escolheu justamente Ivan, quando poderia ter optado por Giotto." Um maldoso sorriso cruzou os lábios de Mario. "Ele sabe do envolvimento de Alaudi com os Vongola, não é? Ele pretende fazer uso dessa influência. Um tanto quanto perigoso esse senhor, permita-me fazer tal observação."

O Vice-Inspetor umedeceu os lábios, contudo, não respondeu de imediato. Os olhos verdes encararam a mesinha de centro e aquilo fez o sangue do ruivo ferver. Suas pernas o colocaram em pé e ele lançou um olhar sério para Giulio. Nós já falamos o essencial. Tudo o que virá daqui para frente não é necessário. Eu não tenho motivos para continuar aqui.

"Nós estamos trabalhando para ajudar a desmascarar aquele homem. Ivan sugeriu que Alaudi vá falar com Giotto, o que eu acho muito improvável." O Braço Direito deu as costas, no entanto, voltou, lembrando-se de algo muito importante. "E eu não sei quando Alaudi vai nos dar a honra de sua presença, mas peça para que escreva à Catarina. A garota sente falta dele e não anda se comportando normalmente. Lembre aquele cabeça dura de que ele tem responsabilidades e uma família o esperando."

"Alaudi pretende visitar a mansão pelos próximos dias, mas eu repassarei o recado." O moreno ficou em pé, puxando-o pelo braço. Sua expressão era ainda mais séria. "Eu não quero acreditar que você está me tratando dessa maneira por causa de uma carta ridícula."

"O quê?" Mario virou-se e ergueu as sobrancelhas. "O que você está insinuando? Eu cheguei aqui avisando que meu tempo era escasso e que precisaria conversar. Uma pena que nossa conversa não tenha durado muito tempo, já que eu fui atacado quando cheguei."

"Ah sim, eu me lembro disso." O Vice-Inspetor apertou um pouco mais o braço entre seus dedos. "E também lembro como você lutou para ser afastar e principalmente a maneira imprópria como deixou sua voz ecoar pelo quarto. Realmente, Mario, sua força de vontade é invejável."

O ruivo sentiu a veia em sua testa tremer. Seus dentes trincaram e seu rosto tornou-se corado, não por timidez, por pura ira.

"Eu não me lembro de você ter reclamado do meu tom de voz nos últimos anos, mas quem sabe você tenha mudado de opinião agora que tem uma segunda opção para te fazer companhia no meio da madrugada." O Braço Direito deu um passo à frente, encostando os lábios ao ouvido esquerdo de seu amante e deixando que sua voz soasse sussurrada. "Eu tenho certeza de que a vadia não gritava tanto."

O braço de Mario tornou-se dormente, tamanha a força que Giulio empregou ao apertá-lo. O moreno tremia e por um instante o ruivo achou que acabaria levando um soco, ali, bem no meio da sala.

"Uma parte dentro de mim está incrivelmente lisonjeada por vê-lo com ciúmes depois de todos esses anos, mas eu não vou admitir que você fale comigo nesse nível e com esse tom." As palavras deixaram os lábios do Vice-Inspetor devagar, como se ele falasse com uma criança.

"Vá para o inferno." O Braço Direito disse entre os dentes. "Você e aquela vadia!"

Mario soltou-se das mãos do Vice-Inspetor , deixando a casa com passos tão largos e pesados, que ele estava em seu carro depois de meros segundos. Seu sangue fervia e o veículo deixou a rua às pressas. Há muito tempo o ruivo não perdia a paciência daquela forma. O Braço Direito tinha a personalidade levemente explosiva, mas conseguia conter suas emoções de maneira magistral. Entretanto, Mario viu todo o seu autocontrole deixar seu corpo durante aquela conversa. Nós deveríamos ter falado sobre a situação e não aquela adúltera. O ruivo virou a terceira esquina, seguindo em linha reta e então tomando a esquerda. O carro foi estacionado e o Braço Direito fechou os olhos e respirou fundo. Seu corpo tremia e ele sabia que não conseguiria chegar em casa daquela forma. Eu acabarei jogando o carro em algum rio e ai sim será uma grande perda. Mario recostou-se melhor ao banco, deixando que sua respiração fosse nivelada e que seu corpo se acalmasse. A última parte da conversa latejava em sua mente, e as palavras de seu amante soavam como música ruim. Eu não sei do que ele estava falando, o ruivo cobriu o rosto com uma das mãos, não é ciúmes... Não existe a possibilidade eu estar com ciúmes dele!

x

O fraco sol estava se pondo quando o Braço Direito desceu do veículo. Os passos foram lentos e cansados, e nunca subir aquela pequena escadaria de mármore lhe pareceu tão penoso. Alguns subordinados saíam da mansão e Mario apenas meneou a cabeça ao passar por eles. O hall já estava bem iluminado, com todas as suas lâmpadas acessas. Os olhos verdes correram o entorno e o ruivo parou de andar ao ver quem descia a grande escadaria.

"Bem-vindo." Giuseppe disse ao parar em frente ao irmão. Sua cabeça inclinou-se um pouco para o lado e uma de suas delgadas e frias mãos tocou a testa do Braço Direito de Ivan. "Você parece... bravo."

"Eu estou bravo." Mario respondeu com o tom de voz habitual. "Alguma coisa aconteceu enquanto estive ausente?"

"Nada, somente o de sempre." Um cansado suspiro escapou pelos lábios do louro e o ruivo apertou os olhos. Havia algo errado. "Francesco e Catarina brigaram novamente. Eu não sei mais o que fazer."

"Deve ser difícil ser você, irmão." O Braço Direito sorriu de canto. "Qual foi o motivo dessa vez?"

"Catarina ficou irritada por não ter ido com Francesco à casa de Enrico. Ela jogou lama nas roupas do irmão." Giuseppe juntou as sobrancelhas. "Ivan colocou os dois de castigo, mas... não vai adiantar."

"Você deveria conversar com seu Chefe. Francesco é o mais velho."

"Eu farei isso, mas ele está com o pai no escritório há algum tempo."

Aquela informação não surpreendeu Mario. Ele sabia do que pai e filho falavam e achava justo que o herdeiro soubesse da situação. Embora eu tenha certeza de que Francesco se sentirá apenas impotente por não conseguir fazer nada.

"Eu vou tomar um banho agora. Qualquer coisa me procure." Os dois Braços Direitos estavam morando provisoriamente na mansão, por medida de segurança. A ideia partiu do ruivo, mesmo sabendo que sentiria falta de sua própria casa e de seu espaço pessoal. "E fale com Francesco, Giuseppe!"

Os passos até o andar de cima foram dados sem pressa. O Braço Direito de Ivan teve 40 minutos, de Roma à mansão, para refletir sobre o que havia acontecido e depois que a raiva passou somente um amargo sentimento de desgosto instalou-se na boca de seu estômago. Mario não era o tipo ciumento, mas não seria feito de idiota. A vadia o traiu em sua própria cama, e o tolo a perdoa como se fosse algo insignificante. O ruivo tinha um passado extremamente negro, porém, jamais havia traído. Até mesmo quando estava com um amante, embora temporário, o Braço Direito sempre fez questão de deixar claro que aquela pessoa era sua, naquele momento. Então, para alguém como Mario ver aquele tipo de situação com bons olhos era simplesmente um grande absurdo.

Há dez anos, quando ele me ofendeu e me humilhou daquela forma foi por causa dela. Eu fui tratado feito lixo porque Giulio estava traumatizado demais para confiar nas pessoas. Mas agora, como mágica, os dois são bons amigos? Faça-me rir. O quarto que o ruivo utilizava na mansão ficava ao lado do de Giuseppe, e quase em frente ao de Francesco. A porta foi aberta e as roupas retiradas e jogadas pelo chão. Ele não precisava realmente de um segundo banho, no entanto, o Braço Direito sabia que enquanto não retornasse ao seu estado normal ele não poderia descer e encarar Ivan. Havia muito a ser conversado e a última coisa que seu Chefe precisava era de um ajudante incapaz de fazer o seu trabalho. Eu nunca vou perdoá-la. Eu jamais perdoarei o que ela fez com Giulio.

x

O banho não foi suficiente para fazer as memórias ruins se dissiparem, contudo, o mesmo não poderia ser dito sobre uma boa noite de sono. Mario foi para cama cedo naquela noite, pulando a sobremesa e caindo exausto sobre o macio colchão. Não houve sonho ou pesadelo, apenas oito horas de um necessário e precioso sono. Quando acordou, o ruivo se sentia novo em folha e pronto para o dia mais esperado da semana. Sua rotina começou pontualmente às 8h, horário em que Ivan desceu para o café. Os dois entraram juntos na sala de jantar, sendo recebidos por uma eufórica Catarina. A garota agarrou-se à cintura do pai, pulando e agitando um pedaço de papel que tinha em mãos.

"Alaudi me escreveu!" A ruiva estava extasiada. "E eu consegui ler tudo! Tudo!"

"Isso é ótimo, não?" O moreno tocou a cabeça da filha, bagunçando os fios de cabelo. "E o que foi que ele te disse?"

"E-E... Eu não posso dizer." Catarina deu um passo para trás, escondendo a carta. Naquela manhã ela vestia um vestido creme, mas ao invés de sapatos calçava botas. "É segredo."

"Oh!" O Chefe dos Cavallone fingiu surpresa. "M-Mas eu prometo não dizer nada a Alaudi."

"N-Não!" A garota parecia em um dilema. "Eu não posso dizer. Esqueça que essa carta chegou."

"Aonde você vai?" Ivan fez menção de segurá-la quando Catarina passou por ele, entretanto, a garota se esquivou com total perfeição que mais lembrou um gato fugindo de seu dono. "E o café da manhã?"

"Já são oito horas, pappà! Mas é claro que eu já tomei o meu café!"

Catarina acenou e afastou-se, cruzando o hall e balançando a carta em suas mãos. O moreno permaneceu no mesmo lugar, os olhos cor de mel brilhando de satisfação e um tolo sorriso nos lábios.

"Eu não o vi correndo dessa forma quando te entreguei a mensagem esta manhã." Mario abriu um sorriso.

"Oh, eu corri! Depois que você saiu do quarto, claro."

Os dois amigos riram e seguiram na direção da mesa. Os pratos de Catarina haviam sido retirados e a cesta com pães reposta. O Braço Direito encheu uma xícara de café, esperando que a cafeína fizesse o efeito desejado. Ele acordara oficialmente às 7h, recebendo a presença de um subordinado que dizia trazer mensagens de Alaudi. As três cartas foram depositadas em suas mãos e após o banho Mario dirigiu-se aos quartos das crianças, colocando os envelopes debaixo das portas. Ivan foi o único a receber a mensagem em mãos. O moreno abriu a porta, piscando longamente e mostrando que acabara de sair da cama. Todavia, assim que o ruivo mencionou sobre a carta, foi como se o sono desaparecesse por completo. O Braço Direito não sabia — e não tinha interesse em saber o conteúdo das mensagens —, mas ouviu através de seu amigo que o Guardião da Nuvem apareceria pelos próximos dias. Ivan ficará esperando fielmente. A cada barulho ele correrá até a janela, torcendo para ser aquele insensível. Tolo!

"Eu estarei me ausentando depois do almoço. Deseja algo do centro?" Mario estava na metade de seu café da manhã. Depois da refeição ele faria pessoalmente a ronda pela propriedade.

"Hm... não, obrigado." O Chefe dos Cavallone limpou o canto da boca. "Você irá à exposição?"

"Sim. Eu não a perderia por nada." O ruivo sorriu. Aquele definitivamente seria o melhor momento da semana. "Com sorte encontrarei um quadro para pendurar na biblioteca."

"Nada que envolva pessoas sem roupas, por favor." Ivan riu. "Lembre-se do que houve com aquela inocente obra de arte."

"Ah! Aquele incidente não foi culpa minha." O Braço Direito apontou a colher na direção de seu amigo. Ele degustava um delicioso pudim de frutas. "O quadro era incrivelmente belo. Eu não posso fazer nada se Catarina repara em coisas que não deveria. Por anos nenhum de nós notou que ao fundo havia um homem nu e, acredite, eu teria notado tal coisa!"

A risada do moreno soou alta e até mesmo Mario não resistiu e também riu. No ano anterior, no meio de um almoço, a garota de cabelos ruivos disse que havia visto "Um homem pelado na biblioteca." A mesa inteira parou o que fazia, e Giuseppe engasgou-se com o pedaço de cenoura que tinha na boca. O Chefe dos Cavallone perguntou à filha sobre o assunto e então todos souberam sobre a figura ao fundo de um belo quadro alemão. A obra de arte estava há anos naquele mesmo lugar e, apesar da cena principal ser a figura de seis mulheres em um salão de baile, havia realmente um desnecessário homem nu escondido atrás de uma das cortinas. A peça foi retirada, no local existia um espaço vazio e que exigia que algo belo — e inocente e obviamente sem membros expostos — fosse colocado em seu lugar.

O restante do café da manhã passou entre comentários bobos e conversas agradáveis. Morar na mansão tinha suas vantagens, o ruivo precisaria reconhecer. Ele e o amigo tinham mais tempo para serem apenas eles, sem responsabilidades, somente dois homens que se conheciam a vida inteira e que gostavam de falar bobagens, comer coisas gostosas e rir de histórias ridículas. Entretanto, a responsabilidade chamou e o Braço Direito ficou em pé quando Francesco entrou na sala de jantar. O rapaz de cabelos castanhos desejou um animado bom dia e era fácil adivinhar o motivo daquela animação. O Insensível pode não ter serventia alguma para mim, mas os pequenos o consideram como um segundo pai. Até mesmo Francesco deve ter sentido falta da presença de Alaudi. Mario acenou para os dois Cavallones antes de sair. Aposto que ele não teria ficado de castigo se o Guardião dos Vongola estivesse aqui. Garoto esperto!

A ronda pela propriedade custou a manhã inteira do ruivo. Ele visitou os vilarejos vizinhos, sendo bem recebido e até mesmo mimado pelos moradores. Todas as pessoas possuíam um carinho imenso pela Família e tal admiração era tão clara, que o Braço Direito chegou a corar quando uma senhora mencionou que se lembrava de vê-lo correndo com Ivan, e que sabia que aqueles garotos se tornariam grandes homens. A visita mais demorada foi à casa de Ottavio, médico da Família, e Mario permitiu-se alguns minutos a mais, aceitando um pedaço de torta e uma xícara de chá. Enrico apareceu quando a visita estava quase no fim, perguntando sobre os herdeiros. O rapaz tinha a mesma idade de Francesco e os dois eram melhores amigos. Enrico era um pouco mais baixo, os cabelos batiam na altura dos ombros, castanhos e claros, quase louros. Seus olhos eram de um azul vivo, assim como os do pai, e o rapaz era educado e falava de maneira calma, totalmente o oposto de Francesco. Difícil de acreditar que sejam amigos. Enrico é um exemplo de pessoa, Francis... bem... O ruivo suspirou. Tal pensamento não o levaria a lugar algum.

O almoço estava sendo servido quando o Braço Direito retornou. Giuseppe avisou que se dirigia à sala de jantar e Mario só se deu ao trabalho de lavar as mãos antes de fazer companhia ao irmão. Todos os demais membros da Família já estavam sentados e no exato momento em que eles entraram, ou melhor, quando o homem de cabelos louros entrou, os dois herdeiros ergueram as mãos ao mesmo tempo, convidando-o a sentar nas cadeiras ao lado. Giuseppe ficou surpreso e sem saber o que responder. Catarina lançou um olhar furioso ao irmão, alegando que o Braço Direito havia jantado ao lado de Francesco na noite anterior e que agora era sua vez de tê-lo como companhia. O rapaz contra-argumentou, mas no final Giuseppe aceitou o convite da garota, para total desolação de seu Chefe. O ruivo acomodou-se no local de sempre, ao lado esquerdo de Ivan, e tentando ignorar o que acontecia, porém, seria impossível. Os olhos verdes pousaram na figura de Francesco, que remoia a derrota e encarava o prato com seriedade, estudando-o e decidindo se aquele era o dia em que ele teria uma conversa séria com Ivan sobre o filho. Hoje não. Quem sabe amanhã. O Braço Direito decidiu quando chegou a sua vez de se servir. O almoço aparentava estar delicioso e ele iria para uma exposição de arte em poucas horas e nada estragaria aquele seu dia.

O Braço Direito deixou a mansão depois das 14h.

Seu humor estava excelente e nem ele mesmo acreditava que estivesse se dirigindo a Roma novamente, principalmente depois do fiasco que fora o dia anterior. As lembranças ainda estavam vivas na mente de Mario, no entanto, ele jamais permitiria que aquele seu tão esperado passeio fosse importunado. O ruivo decidiu que lidaria com Giulio e toda aquela situação em outra ocasião, e que de preferência levasse algum tempo. Se antes o Braço Direito tentava fazer o possível para continuar se encontrando com seu amante, no momento Mario simplesmente não se importava. Para ser sincero, o ruivo acreditava que talvez alguns dias afastados lhe pudesse fazer bem, principalmente no que dizia respeito à Família. Algum dia isso tudo terminará e então nós conversaremos. Se depois disso não chegarmos a um acordo então eu diria que é o fim. Pensar naquela possibilidade fez o estômago do Braço Direito dos Cavallone se revirar, apesar de ainda estar irritado com o moreno e aquela inusitada e desprezível amizade com a ex-noiva-adúltera.

Ele gostava do Vice-Inspetor, gostava muito, a ponto de permanecer naquele relacionamento há uma década praticamente; todavia, se existia algo que até mesmo alguém como Mario não permitia eram mentiras e uma suposta traição. Se Giulio pretendia se encontrar às escondidas com a mulher que o traiu, que o fizesse, contudo, o ruivo não queria nenhum envolvimento com uma pessoa dessa índole. Eu nunca traí. Eu sempre tive quem quis. Eu sei que não mereço os restos ou migalhas de ninguém e certamente não ficarei sozinho se eu não quiser. Giulio sabe disso. Para o Braço Direito, a ideia de ser o outro soava incrivelmente absurda, pois, embora possuísse um passado negro e sujo, Mario tinha asco daqueles que mentiam para si mesmos e se enfiavam em problemas com pessoas comprometidas. Você pode inventar quantas teorias e desculpas quiser, no final, é a sua total incapacidade de conseguir alguém disponível que te mantém em uma relação assim. O ruivo abriu um largo sorriso. Há muito tempo ele não se sentia vivo daquela maneira.

Roma estava como ele se lembrava: levemente fria e levemente cheia de gente. As ruas reservadas ao comércio estavam lotadas e foi difícil cruzar aquelas que eram cercadas por restaurantes. A direção que o Braço Direito seguia naquela tarde ficava no coração da cidade, não muito longe do Coliseu. Aquela área era nova e havia sido inaugurada há pouco mais de oito meses. Não havia comércio, apenas salas de exposições e um teatro. As ruas que cercavam o prédio em que Mario pretendia ir estavam lotadas de carros, então foi um pouco complicado encontrar uma vaga livre. Todavia, assim que estacionou, o ruivo suspirou e ganhou a rua, arrumando a gravata e ajeitando os cabelos ruivos. Os olhos verdes olharam para ambos os lados antes de atravessar e, ao encarar a grande galeria de arte, o Braço Direito sentiu os olhos brilharem de entusiasmo.

Durante um mês a galeria seria dedicada aos "Novos Artistas". Não havia quadros famosos ou pintores conceituados, somente estudantes e novos pintores procurando o seu lugar ao Sol. Entretanto, o local estava cheio e Mario sentiu-se extremamente satisfeito ao ver-se caminhando pelo lustroso piso de mármore, com as mãos no bolso do caríssimo terno, enquanto passava por pessoas que ele nunca havia visto na vida. O ruivo adorava aquele ambiente; o cheiro de tinta e verniz, a luz estrategicamente colocada nos corredores... tudo o fazia esquecer momentaneamente seus problemas e responsabilidades, deixando-o abraçar forte uma de suas paixões pessoais.

A primeira parte da galera era dedicada aos pintores italianos, e o Braço Direito decidiu tomar o seu tempo para admirar a arte nacional. Havia pinturas de paisagens, figuras humanas e arte abstrata. Os quadros eram divididos por pintores e esses separados por ordem alfabética. Mario raramente lia o nome dos artistas, deixando para fazer isso apenas se a obra lhe chamasse realmente a atenção. O motivo que levava toda aquela gente para uma exposição de desconhecidos era que, talvez, com um pouco de sorte, um daqueles jovens talentos se tornaria um nome famoso e um quadro adquirido por uma pechincha valeria eventualmente uma propriedade inteira.

A visita à seção italiana lhe roubou uma hora inteira. A segunda parte era dedicada à arte espanhola, mas o ruivo se permitiu deixar aquela área para outro momento. Seus pés cortaram o caminho e ele aproximou-se da terceira parte da galeria, entrando em uma gigantesca sala. Havia muita gente naquele local e o Braço Direito caminhou sem pressa entre os quadros de agradáveis paisagens francesas e belíssimas mulheres nuas. Por três vezes ele precisou desviar os olhos das obras para sorrir. Mario tinha consciência da impressão que causava nas pessoas, e seu charme natural não havia diminuído naqueles dez anos. Ele sorriu para uma mulher sentada em um banco, sentindo-se satisfeito ao vê-la corar tão indiscretamente que foi impossível não sorrir novamente. A terceira vez foi uma piscadela na direção de um jovem de cabelos negros e que não aparentava ter mais de 25 anos. O homem também corou, porém, ao contrário da mulher, abriu um sorriso.

Aqueles flertes insignificantes sempre fizeram parte do ruivo, então não era nada com que ele precisasse se preocupar. Embora Giulio deteste esse tipo de coisa e fique de cara fechada sempre que recebo certas atenções. Os olhos verdes voltaram a fitar a parede, até que seus pés pararam de andar. Desde que entrara na galeria, nenhum quadro havia realmente conquistado sua atenção até aquele momento. O Braço Direito aproximou-se devagar, parando a uma distância segura e juntando as sobrancelhas. Esse quarto... Mario pensou consigo mesmo ao encarar a obra de arte diante de seus olhos. Ela não possuía nada demais; não era uma paisagem de tirar o fôlego ou cena romântica e cavalheiresca. O quadro era simples, apesar de extremamente bem pintado. Havia alguém no centro da tela, um homem — se ele analisasse as costas e a largura dos ombros —, ele estava de costas para quem via o quadro, nu, com exceção de um lençol que cobria apenas a área da cintura e quadril, deixando suas pernas à mostra. O entorno parecia ser um quarto e o homem estava deitado sobre uma cama. Não havia absolutamente nada na cena que pudesse ter realmente chamado sua atenção com exceção de um detalhe. Um detalhe que faria toda a diferença: o homem no quadro era ruivo, e seus cabelos pendiam na altura do ombro. Eu conheço essa pessoa...

"Viu alguma coisa que lhe interessasse, senhor?"

A voz veio do lado e o Braço Direito demorou alguns segundos para se dar conta de que tinha companhia. Sua atenção, no entanto, continuou no quadro.

"Qual o nome do pintor?"

"O pintor sou eu, senhor."

Mario virou o rosto, encarando a figura que estava ao seu lado. O rapaz batia na altura de seus ombros e provavelmente tinha entre 20 e 25 anos. Os olhos eram azuis e seus cabelos louros batiam abaixo dos ombros, mas estavam presos a um charmoso rabo de cavalo feito com um laço vermelho. O jovem abriu um meio sorriso e o ruivo sentiu-se arrepiado, como sempre se sentia quando seu corpo era atraído por outro. Agora não é uma boa hora para isso. O Braço Direito retribuiu o sorriso, tentando não imaginar aquele rapaz sem roupa, embora fosse tarde demais.

"Excelente trabalho. A iluminação ficou ótima e devo dizer que a escolha do modelo foi perfeita," Mario riu, "não é todo dia que temos quadros de pessoas ruivas. Ele posou para você?"

"Não exatamente." A voz do homem era baixa e soava um pouco feminina, o que fez o ruivo lembrar-se automaticamente de Giuseppe, que possuía tom de voz semelhante. "Ele não sabe que eu o pintei, mas a cena realmente aconteceu se é o que o senhor deseja saber. Eu gosto de ruivos."

Em qualquer outro tempo o Braço Direito dos Cavallone sabia exatamente o que faria com um homem atraente e que estava flertando descaradamente com ele. Os olhos verdes correram o entorno por puro hábito, avistando os banheiros ao fundo. Contudo, Mario respirou fundo e voltou a olhar para o quadro. A imagem de Giulio surgiu em sua mente, e toda a excitação que ele sentiu desapareceu. Isso me transformaria em um maldito adúltero! A ironia...! O ruivo levou a mão ao queixo, cogitando a ideia de adquirir a obra. Eu a deixaria em casa, porque Catarina certamente diria que compraram outro quadro com “gente pelada” e Ivan teria mais problemas. O Braço Direito balançou a cabeça e virou-se decidido.

"É você no quadro... Mario." O homem havia se aproximado sem que ele percebesse. Mario virou-se, ficando em frente ao desconhecido e tentando lembrar-se de quem ele poderia ser. "Eu sempre gostei das suas costas. Se você se aproximar um pouco mais do quadro poderá ver as sardas, eu as pintei exatamente como são. Eu tive tantas oportunidades de vê-las e senti-las que sei precisamente suas localizações."

"V-Você..."

O ruivo não era uma pessoa que se surpreendia com facilidade, mas seu coração bateu mais rápido quando um improvável rosto surgiu em sua mente. Seu corpo não se moveu e ele apenas viu quando o jovem pintor deu um passo à frente e depositou um casto beijo em metade de sua bochecha, enquanto a outra metade dos lábios tocou seus próprios lábios. Os olhos azuis brilharam e, ao sentir o cheiro da colônia, o Braço Direito soube exatamente quem aquela pessoa era. Jules.

Continua...