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[ K O U Y O U’ S pov ]

Estava andando em uma rua deserta, com casas iguais e brancas, flores brancas decoravam a sacada das janelas. As ruas também eram brancas, assim como as calçadas, postes, grama... Tudo era de um branco impecável. Continuei andando, até que a porta de uma das casas se abriu, revelando uma pessoa com a mesma cor de sua residência. Ela sorria, mostrando os dentes pontiagudos, o olhar malicioso sobre mim.
Andei mais rápido, deixando-a para trás. Quando me virei pra frente, ela me esperava com o mesmo sorriso. E ela estava acompanhada de um homem e de crianças, todas com o mesmo sorriso e o mesmo olhar. Quando tentei correr em direção contrária, havia mais deles, todos sorrindo pra mim.
Eu estava cercado.
Minha respiração se dificultou, o coração batia rápido demais. O desespero se acumulando em minha garganta, me impossibilitando de gritar. E cada vez mais eles se aproximavam de mim, formando um círculo ao meu redor. De repente, eles pararam e abriram um espaço, por onde surgiu uma mulher usando um vestido vermelho.
Tsukushi.
Engoli seco enquanto ela se aproximava lentamente, um sorriso contido nos lábios finos. Quando ela se aproximou, eu pude visualizar que ela não segurava um buquê de flores em suas mãos, mas sim um bebê. O desespero aumentava na mesma proporção em que ela se aproximava. Não conseguia me mover, não conseguia gritar, não conseguia respirar.
Olhei ao redor, procurando por alguma ajuda, mas os olhos brancos e sem vida me olhavam com malícia, inveja, cobiça.
Até que eu o encontrei.
Um par de olhos pequenos, pretos, profundos.
Yuu.
Meu coração acelerou, um sorriso brotando em meu rosto como mágica. O desespero se dissolvendo, uma sensação de paz me envolvendo.

- Sai daqui. – Eu ouvi a voz bonita do meu Yuu. Mas era pronunciada com desprezo.
- Yuu...
- SAI DAQUI! AGORA! – Ele bradou, mas eu não vi os lábios se movendo. Pelo contrário, estavam repuxados em um delicado sorriso.

- Yuu... Yuu... YUU! – Gritei, arfando logo em seguida.
Meus olhos estavam ardendo e desfocados, me acostumando aos poucos com o ambiente. Ainda puxava o ar com dificuldade, exigindo demais de meus pulmões. Olhei ao redor, finalmente reconhecendo o lugar que eu estava. Na verdade, eu lembrava vagamente do local, por causa da noite passada.
Noite passada...
Meus dedos automaticamente tocaram meus lábios, como se eu pudesse sentir o toque de Aoi ainda por ali. A cama bagunçada ao meu lado estava vazia, me levando a ter dúvidas se tudo fora real.
Levantei rapidamente, e a dor que eu senti no meio das pernas me provou que era real. Ri da minha própria constatação, me enrolando em um dos lençóis – o azul, não estava confiando muito em nada branco – e saí do quarto, andando pela casa bagunçada, indo pelo único corredor.
Escutei vozes exaltadas vindo do que eu pensei ser a sala. Uma eu reconheci como sendo a de Yuu e a outra não me era desconhecida... Eu já ouvira em algum lugar, só não lembrava onde. Encostei-me à parede próxima da sala, de onde quem quer que fosse não pudesse me ver.
Já disse que algum dia eu morro por ser tão curioso.

-... Sério, vai embora. – Aoi pediu, ele parecia estressado e cansado.
- Eu não vou. Só saio daqui depois que você admitir que é só meu.

Que diabos significava isso?

- Saia daqui, por favor.
- Eu sou seu único amor, Yuu. Você mesmo me dizia isso... Lembra?
- Depois de tudo o que você fez, realmente acha que eu te amaria? Me largou aqui sem nenhuma explicação, nenhum papel, nada... Achou que eu ficaria aqui te esperando pra sempre?
- Eu fui embora pra estudar, Yuu... Você sabe que se eu ficasse aqui eu nunca mudaria... Eu mudei. E eu mudei por você. Achei que você estive me esperando. Vai me abandonar assim?
-Não se faça de coitado, a culpa é inteiramente sua. – Aoi respondeu, irônico.
- Pelo menos eu não me tornei um adolescente inconseqüente, que vive em festinhas, bebendo e pegando todos... Só pra chamar atenção. Até repetiu de ano... Sinceramente, Aoi, você precisa de mim... Só eu pra te colocar nos trilhos de novo.

O silêncio dominou a sala.

Eu queria saber o que Yuu diria. Se eu estivesse lá, ele provavelmente diria outra coisa.
E de repente o medo de perdê-lo se instalou em mim como um veneno, destruindo as palavras doces dele lentamente.

- Eu... – Prendi a respiração quando ele respondeu. – Eu te amei, Miyavi. Mas foi você quem me abandonou.

Miyavi...?

- Aoi, eu voltei! Não me diz que eu não sou nada pra você... Ou eu fui só mais um na sua listinha? Aposto que tentou ficar com um monte de outros pra me esquecer, não é? – O tom de voz do outro se tornou esnobe. – Eu te conheço, Yuu... Larga quem quer que esteja lá na sua cama e volta pra mim...

O silêncio de Yuu me fez engolir em seco. Ele ainda sentia algo por Miyavi, e provavelmente eu estava sendo usado como um escape, alguma pra fazê-lo esquecer do outro. Milhares de coisas se passando pela minha cabeça: o medo, a frustração, a raiva... E todas elas se acumulando na minha garganta, transbordando por meus olhos.
Eu era apenas um passatempo.
Pra quê continuar lutando por isso? Por esse sentimento, por ele... Por nós?
Nada mais fazia sentido ali, os dois ainda conversavam, mas eu não entendia nenhuma palavra que era pronunciada por Aoi, não queria entender, não queria ouvir.
Voltei ao quarto com passos leves, me controlando para não chorar ali mesmo, não gritar. Lágrimas rolavam sem minha permissão, eu tremia enquanto catava minhas roupas espalhadas pela casa. Sentia-me sujo, corrompido. Vesti-me às pressas, enxugando as lágrimas que insistiam em cair com as costas das mãos. Voltei ao corredor, tentando me concentrar e encarar os dois na sala. Respirei fundo e coloquei minha máscara de indiferença. Se eu não valia nada pra ele, ele não valeira nada pra mim também.
Mas a cena que presenciei quando entrei no cômodo me fez vacilar.
Os dois se beijando.
Eu fiquei cego pela quantidade de lágrimas que saíram dos meus olhos, e a única coisa que eu pude visualizar era a porta abeta. Corri o mais rápido que eu pude, ignorando os chamados de Aoi, descendo as escadas de três em três. Saí correndo para fora do prédio, ainda ignorando os chamados do moreno que estava quase me alcançando.
Quando eu cheguei à rua, praticamente me joguei na frente do táxi pra ele parar, e entrei, ordenando apenas para ele sair dali. Mas antes que o carro arrancasse, Yuu segurou-se na minha janela, que estava com os vidros abaixados.

- Kou, me escuta, eu te amo! – Ele olhou em meus olhos, suplicante.
- Dá pro senhor pisar na porra do acelerador e sair daqui? – Evitei seu olhar, falando o mais firme que eu conseguia.
- Uru, eu não tenho nada com o Miyavi e... – O moreno foi interrompido pelo motorista, que acelerou, ignorando o homem que estava atracado na janela.

Eu olhei pra trás, o vendo parado no meio da rua apenas de pijama, as mãos no alto da cabeça. Mas, o que me manteve ali no carro foi a cena do beijo que eu presenciara.
Eu me senti perdido, desprotegido. O aperto no um peito crescendo cada vez mais, o nó na minha garganta me sufocava, eu não sabia o que fazer.

-

Quando eu cheguei em casa, fui direto pro banheiro, tomando um banho demorado. Queria limpá-lo de mim. Sentia-me sujo, usado. As lágrimas pareciam que nunca cessariam, a dor no meu peito apenas se intensificara. Apoiei minha cabeça na parede enquanto deixava a água me lavar, como se ela limpasse Yuu de mim. Só fui perceber que estava muito tempo no chuveiro quando vi a ponta dos meus dedos, semelhantes a ameixas secas. Enxuguei-me de qualquer jeito, vestindo uma roupa frouxa e me olhei no espelho.
Eu estava horrível.
Olhos inchados, sem foco, nariz vermelho, e com algum resto de maquiagem borrada. Os cabelos pretos todos desgrenhados e molhados, jogados de qualquer jeito só pra um lado.
Peguei uma mecha do cabelo, girando-a entre os dedos. Todos os sentimentos voltando com mais força ainda, me fazendo sufocar, a dor no peito era quase física e eu estava com muita dor de cabeça.
Jamais imaginei que amar era assim... Tão bom e, no entanto, tão... Dolorido.
Senti raiva de mim, fui um idiota, me deixando levar por alguém que não merecia. Eu estava com muita raiva de Yuu. Mas nada se comparava à raiva que eu sentia de mim mesmo, por ter me iludido tão facilmente. Por ter me apegado a alguém que desde o início eu sabia que não prestava. E não foi por falta de aviso. Todas minhas conversas com Ruki passavam na minha cabeça como um filme.
Ri de minha própria imbecilidade, enquanto ainda chorava. De como eu fui ingênuo, tolo, burro. Havia uma marca de mordida nas costas da minha mão, e eu fiquei passando os dedos por ali. Minha ingenuidade me irritou. Eu precisava de alguém que me amasse. Dedicasse todo o amor só pra mim. E eu coloquei essa necessidade na pessoa errada. No fim, a culpa foi minha, inteira e totalmente minha. Foi minha culpa ter me deixado me envolver com ele. Foi minha culpa ter beijado Aoi. Foi minha culpa arrastá-lo para aquela maldita cama.
Tudo era por minha causa.

-

- SANTO DEUS, O QUE HOUVE COM VOCÊ? – Ruki exclamou quando entrou no meu quarto e me encontrou com os olhos vermelhos.
- Yuu.
- Ah, mas eu sabia! Eu sabia! Ele não vale nem a cueca que cobre aquele cu aceso dele!
- Calma, Ruki.
- Calma o caralho e... Você mandou eu pedir calma?
- Sim.
- Mas ele... Ele... O que ele fez, Uru?
- Trocou-me pelo Miyavi. – Falei simples, suspirando pela milésima vez naquele dia. Meu peito parecia pesado.
- MAS O QUÊ, COMO AQUELA BICHA PRETA TEVE CORAGEM DE FAZER ISSO COM VOCÊ? – Exclamou, jogando as mãos pra cima e andando de um lado pro outro na minha frente.
- Ele só fez isso porque eu deixei. Se eu tivesse me afastado, isso jamais teria acontecido.
- Mas...
- Sério, não quero falar sobre isso.
- Mas justo agora que eu teria a oportunidade de xingar aquela bicha até a morte? – Ele falou num falso tom de indignação, vindo até mim e me abraçando.

Eu me inclinei até conseguir esconder o rosto no pescoço do pequeno e, mesmo que eu tentasse, lágrimas voltaram aos meus olhos. Estava me sentindo tão só, tão desprotegido. E como sempre, lá estava o meu baixinho pra me consolar, me proteger. Agradeço aos céus por Ruki existir.

- Mas não fica achando que eu vou te deixar nessa fossa, Kou. Mas não mesmo! – Anunciou, enxugando minhas lágrimas e me fazendo sorrir agradecido. – Lembra que você ainda tem um casamento amanhã, não é?
- O casamento... – Como eu tinha me esquecido desse detalhe? – Céus, eu tinha me esquecido!
- Eu sei. – Ruki levantou uma sobrancelha, mas logo sorriu. – Vamos dar um jeito nessa tua cara, amanhã você tem que estar mais bonito do que a noiva.
- Como se isso fosse difícil.
- Uh, Urudivalism attacks?
- Claro. – Falei, sorrindo e largando o menor e indo me trocar.

Eu necessitava me curar de Yuu. Ele era uma doença, uma droga. Eu não ia entrar em crise de abstinência apenas por não tê-lo mais.

-

Depois de um dia todo em um salão de beleza – isso foi altamente gay, eu sei, mas é tudo culpa do Ruki. – estávamos em um barzinho perto do salão. O pequeno me convencera a pintar meus cabelos de loiro de novo, não o que estava antes, mas algo mais puxado para o ruivo, quase laranja. Eu gostei. Pelo menos me livrara da lembrança que o cabelo preto me causava. Compramos também algumas roupas, e Ruki não parava de tagarelar sobre o namorado novo e de como ele era perfeito. No fundo, era só uma desculpa esfarrapada pra não ficar com Reita; Ruki era tão previsível pra mim que era fácil saber quando o menor mentia.

- Você sabe, ne? Aquele Reita... Ele presta tanto quanto o Aoi. Por isso que eu não fiquei com ele. – Falou, enquanto bebericava alguma coisa alcoólica.
- Você fala como se fosse a pessoa mais correta do mundo. – Ele me encarou com uma sobrancelha erguida, e eu logo continuei. – Sinceramente não sei por que você não dá uma chance a ele.
- Por que... Por que... – Mordeu os lábios enquanto pensava em alguma coisa convincente. Eu ri de sua atitude.
- Dê uma chance a ele, Chibi.
- Não me chame assim!
- Chamo, chamo, chamo! – Brinquei, apertando suas bochechas, enquanto ele corava e batia na minha mão pra se livrar do aperto.
- Eu vou pensar no seu caso.
- Acho bom pensar rápido, olha quem está ali! – Abaixei o tom de voz, ao ver quem entrava no local.

Era perseguição, só pode. Tudo me lembrava Yuu. Agora até o melhor amigo do dito cujo apareceu.
Isso aí, vida.

- Oi, Kou! Oi, Ruki! – Falou entusiasmado, enquanto se sentava à mesa sem ser convidado.
- Colocou um GPS em mim, ô seu frango?
- Não. Te localizei pelo cheiro.
- Ahn?
- Ruki, admite, eu não sou banco Itaú, mas fui feito pra você. — Ele apoiou o braço na mesa, sorrindo maliciosamente para o loiro menor, que o encarava com incredulidade.
- Essa foi a pior do dia, Reita.
- Então me faz parar de te cantar, cai logo na minha rede, peixão.
- Isso é sério? – Indaguei, me controlando pra não rir.
- Claro que é. Vou apelar pro meu lado pedreiro até esse aí parar de doce. – Reita respondeu, dando de ombros. – Hey, Ruki, sabia que hoje de manhã eu quase cozinhei um ovo?
- Você, cozinhando? – Esnobou.
- Claro! Mas tinha um pinto dentro. Já pensou se eu cozinho com um pinto dentro? – Reita aumentou o riso sádico, enquanto lambia os lábios e piscava sugestivamente para Ruki, que rodou os olhos e bufou.

E não me aguentei em ver aqueles dois, ri abertamente, quase chorando no processo. Era disso que eu precisava. Amigos.

- Vê se desaparece, antes que eu quebre a tua cara. – Ruki ameaçou, cruzando os braços.
- Você, quebrar a minha cara? – Reita debochou. – Okei, Rukizito. Eu deixo você me bater, mas só se a gente estiver num quarto sozinhos e pelados.
- Foda-se! –Ruki bufou, jogando um guardanapo no outro loiro.
- Mas em falar em foder... O que você fez com o Yuu, Uru? – Ele mudou totalmente de assunto e eu me engasguei com minha própria saliva ao ouvi-lo.
- ANH?
- É, ele tá com o braço machucado... E ele tava chorando.
- NÃO CAI NESSA, KOU, O YUU MANDOU ELE AQUI PRA TENTAR RECONCILIAR VOCÊS DOIS! – Ruki esbravejou, apontando para o loiro, que arregalou os olhos.
- VOCÊS TERMINARAM? – O outro também berrou, fazendo todos que estavam próximos olharem para nós.
- Isso, seu idiota, grita mais alto. – Ruki reclamou, enquanto dava um tapa na nuca do mais alto.
- Olha quem fala. – O de faixa o desafiou, cruzando os braços também.
- Ora seu...
- Mas enfim, Takashima-san! – Cortou o menor. – Por quê?
- Ele só me usou. Eu fui só o brinquedinho dele enquanto o Miyavi estava longe.
- Mi-quem? – Ele arregalou os olhos e fez uma careta de dúvida. – Miyavi... Ishihara? Um que tem tatuagem?
- Esse mesmo.
- Impossível.
- Eles estavam se beijando.
- Yuu o quê?!
- Estava beijando o Miyavi.
- Acho que você viu de mais, loiro.
- Não fica defendendo o Aoi só por que ele é seu amigo, sua coisa enfaixada! – Ruki se intrometeu.
- Não é defender... É só que é bem improvável o Yuu querer alguma coisa com o Miyavi.
- Miyavi disse que tinha voltado pra ele...
- Mesmo?
- Sim.
- Depois de tudo o que ele fez... – Reita falou com um pouco de nojo, enquanto Ruki analisava-o.
- E... O que esse tal de Miyavi fez pro Aoi? – Ruki indagou visivelmente curioso.
- Ele simplesmente transformou o Aoi nessa bicha purpurinada que ele é hoje. Foi o primeiro namorado do Aoi, mas largou ele e foi embora, sem dizer nada. Sumiu, evaporou. Por isso que o Aoi entrou nessa vidinha de bebida, cigarro e boate gay.
- Então... Não tem como o Aoi ainda amar alguém como o Miyavi, tem? – Ruki perguntou um pouco esperançoso.

Mesmo que ele não o amasse mais, ele me usou. Isso era um fato. Mas mesmo assim, meu coração bateu mais rápido em expectativa.

- Definitivamente não. Eu acompanhei o quanto o Aoi sofreu pelo Miyavi, hoje em dia aquela coisinha não quer mais nem saber o Miyavi, te garanto.
- Como eu posso ter certeza? – Indaguei, sem mostrar interesse.
- Olha, Kouyou... O Yuu sofreu muito, mesmo. Teve uma época que ele só ficava bem quando estava porre ou transando com alguém. Às vezes ele não gostava de falar com ninguém, mas... Desde quando ele começou a... Sair... – Falou meio em dúvida. – Com você, ele nunca mais ficou com ninguém. Yuu era muito depressivo, e você tirou ele daquela fossa que ele vivia.

O silêncio se instaurou ali.
Por mais sinceras que fossem as palavras do loiro, nada jamais apagaria da minha mente a cena do beijo e as palavras que foram pronunciadas por Yuu. Meu peito ainda doía por ele. E muito.

- Eu... E-eu não sei o que fazer. – Declarei.
- Vai atrás daquela dançarina de cabaré e faz ele te explicar tudo.
- Eu não vou conseguir olhar pra ele, Reita.
- Vai sim, eu sei que você consegue. Se você quiser, você consegue.
- Você tá parecendo animador de torcida. – Alfinetou Ruki.
- E você parece uma cereja, deixa eu te chupar? – Retrucou o loiro enfaixado para o menor, que quase engasgou; fazendo-me rodar os olhos.
- Então, acho melhor irmos pra casa. – Declarei, vendo que estava tarde.
- Certo. – Ruki praticamente saltou da cadeira, ignorando o outro.
- Err, Reita? – Chamei-o. – Se você quiser ir o meu casamento... É amanhã.
- Você vai mesmo casar?
- Sim... Yuu já me deu muita dor de cabeça... E não tem nada que eu possa fazer quanto a isso.
- Hm, certo. Onde vai ser?

Passei o endereço a ele, me despedindo com um aceno rápido, enquanto ele ainda assobiava e chamava Ruki.
A cada passo que eu dava, mais minha mente entrava em colapso.
E se eu estivesse julgando-o mal?
E se ele realmente me amasse?
E se... Probabilidades irritantes.

Metade de mim estava gritando para eu ir atrás dele, abraçá-lo, fugir com ele pra bem longe e nunca mais voltar. Mas uma outra parte – que por sinal era bem mais forte – me fazia lembrar da cena que eu presenciei no apartamento de Aoi. E era essa parte que me segurava, me controlava. Eu não podia me deixar envolver de novo. Já estava bastante quebrado pra sofrer mais. E a insegurança sempre me assombraria.

-

- Preparado para se tornar homem, meu filho? – O homem um pouco mais baixo que eu e com uma leve careca, que eu chamava de pai desde que me lembro, indagou.
- Sim. – Respondi automaticamente.
- Logo você vai entrar na faculdade... Não vejo a hora de você começar a trabalhar comigo, Kou-chan.
- É, pai. – Tentei parecer o mais convincente possível, falhando miseravelmente.
- Parece meio triste. – Não era uma pergunta, era uma afirmação.
- Sabe o que eu penso sobre tudo isso. – Desabafei.
- Kouyou, não é hora de discutirmos isso. Vamos, termine de se arrumar, só a noiva pode se atrasar. – Falou mal-humorado, enquanto saía do quarto, me deixando a sós com o grande espelho que havia ali.

Tantas dúvidas. Tantas incertezas. Eu já estava no meu limite.

Yuu era minha porta de escape, por causa dele eu consegui seguir em frente. Sentia-me tão dependente dele que até me assustei quando constatei tal fato. Eu o amava – amo – tanto que machucava. Era uma necessidade.
Mas eu não podia simplesmente sair por aquela porta e ir atrás dele. Havia mais coisas em jogo. Coisas que seriam dificilmente ignoradas.
Eu precisava me desligar dele, já havia aceitado isso. Independentemente de ontem, eu ainda o amava. E o fazia como nunca havia feito com ninguém. Mas eu sabia que nunca poderia ficar com ele; o fato dele ainda amar Miyavi – mesmo que Reita dissesse que não, eu ainda acreditava nisso – era apenas mais um empecilho. O maior deles, sem dúvidas, mas ainda sim, era uma coisa que nos separava. E eu não iria mais lutar por alguém que não me ama.
Enxuguei a lágrima solitária que resolveu sair sem meu consentimento e terminei de me vestir, usando o paletó cinza, com detalhes prateados, que Tsuki escolhera.
Tsuki...
Eu não sabia como seria minha vida com ela, seriamos como dois estranhos dividindo a mesma casa. Eu não sabia quase nada a respeito de sua vida e ela sabia apenas o que era apresentado pelas revistas.
De longe, casar com ela seria a maior merda que eu faria.
Mas aí eu percebi: Eu não tenho um sentido na minha vida.
Talvez até tenha, mas um que foi imposto por outras pessoas. Eu não tinha sonhos, objetivos... Vazia.
Todas as lembranças ruins dos dias anteriores passando na minha cabeça como um filme repetido. Senti um nó na minha garganta e um aperto no coração enquanto deixava o quarto, indo para o carro que me aguardava pra me levar à igreja.
Durante o percurso, eu percebi que não estava nervoso, nem ansioso, muito menos alegre – como um noivo de verdade deveria estar. Era indiferente agora. Não havia mais nada. A não ser o aperto no peito de não ter Yuu.
Algum dia talvez eu o procurasse. Talvez o ouvisse.
Talvez, sempre o maldito talvez.

-

- Você está lindo, Kouyou! – Ruki exclamou quando me viu, quando ia para o lado da igreja, por onde eu e os padrinhos entraríamos. – Como sempre.
- Obrigado, Ruki.
- De nada! — Ele sorriu daquele jeito adorável, e só aquilo já fez meu coração esquentar um pouco.
- O Reita veio! — Falou animado até demais pro meu gosto.
- Mesmo? Ruki... Eu perdi alguma coisa?
- Acho que... A gente se acertou. – Ele falou olhando pra qualquer lugar da igreja, menos pra mim. Eu ri com a timidez que não combinava em nada com ele.
- Finalmente o peixe caiu na rede?
- Vai se foder. – Emburrou-se, mas logo sorriu. – Vou procurar ele, depois te vejo no altar, loiro!
- Okei.

E ele fez o que falou, me deixando sozinho ali, numa sala com duas portas e um crucifixo na parede.

- Kouyou? – Arrepiei-me ao ouvir aquela voz.
- O que você quer aqui? – Indaguei ao poste colorido, usando minha máscara de indiferença. – Veio ter certeza que eu não voltar atrás do Aoi?
- Sabe... Eu não gosto de perder... Mas... O Aoi sente uma coisa por você que ele nunca sentiu por mim e nunca vai sentir.
- Escuta, se você veio aqui pra defender ele...
- Não! – Me interrompeu. – O Aoi... O Aoi me odeia. — Ele falava muito sério, uma lágrima escorreu silenciosamente por seu rosto, mas ele não deu atenção. – Eu estraguei a vida dele, sabe? E quando eu tive a chance de deixá-lo feliz... Eu simplesmente estraguei com o meu egoísmo, fui um completo idiota... E agora ele te ama... Eu sou só parte de um passado que ele nem quer lembrar. Tem noção de como é difícil pra eu dizer isso? – Seu tom era desesperado. – Ele... Ele quebrou o braço ontem, tentando me bater... Eu me sinto um monstro... Eu tinha que fazer isso... Por ele... Não quero fazer a mesma coisa outra vez... Eu o agarrei contra sua vontade aquele dia, você entendeu errado. Ele disse que não esperava ter se apaixonado por você... E... Eu pensei que se eu o beijasse... Talvez ele voltasse pra mim, mas... Ele me odeia... Não posso fazer nada pra mudar isso, mas posso tentar reparar alguma coisa, eu acho...

Ele estava visivelmente arrependido pelo acontecido e queria me convencer disso. Meu coração batia mais rápido a cada pronunciada, eu não sabia o que pensar, não conseguia falar nem respirar.

Meu cérebro ainda processava as palavras ditas por Miyavi.
Ele me amava.

E esse fato foi o suficiente para o aperto em meu peito aumentar. Eu não o teria mais.

- Pensa no que eu estou te dizendo, Kouyou. Casar com a Tsukushi vai ser o maior erro da sua vida... Não faz mais o meu Aoi sofrer como eu fiz... não é culpa dele... Por favor.

Eu não estava em condições de pronunciar nenhuma palavra. Minha mente trabalhava em uma velocidade anormal, o medo e o desespero me dominando, meu coração despedaçando.
Eu não sabia se chorava ou sorria, eu não sabia se ficava ali ou saía correndo, eu não sabia se acreditava ou não em Ishihara. Entraria em colapso a qualquer minuto.
O mais alto ainda me encarava esperançoso. O que estava em jogo não era quem ficaria com Aoi, o que estava em jogo era a felicidade do meu Aoi. O que estava em jogo era minha felicidade.
Mas antes que eu decidisse alguma coisa, a marcha nupcial entoou em toda igreja, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés.

- Desculpe... Não... Não podemos simplesmente ficar juntos...
- Pensei que você o amava, do mesmo jeito que ele te ama. – Havia desprezo em seu tom de voz.
- Eu o amo. Mas não posso mais lutar. – Admiti.
- Se você o amasse de verdade, lutaria! – Falou entredentes, antes de sair, me deixando sozinho naquela pequena sala. – Se você casar agora, vai estar tudo acabado! Pare de ser infantil desse jeito, você não percebe o quanto ele te ama!? Sentado aqui de mimimi, fazendo tudo que o papai manda, achei que você fosse digno pra ele, seu merdinha! Mas pelo jeito vai casar com qualquer uma e esquecer ele em uma semana. Só digo uma coisa, se você derrubar ele do mesmo jeito que eu fiz, não sei se ele vai conseguir se levantar mais uma vez.
- Kou? – Ruki apareceu em uma das portas – Tá tudo bem? – Ele encarou o mais alto, que agora saía batendo a porta com força.
- Sim. – Menti, tentando sorri para o menor.
- Vem, tá na hora.

Medo, desespero, agonia, tristeza. Eu estava perdido e desprotegido. Eu ia cair outra vez, e ninguém estaria ali pra me ajudar, pra me fazer sorrir, pra me mostrar que sonhos existem.
Não haveria Yuu.

Posicionei-me no meio do altar, tentando ainda me conformar com aquilo. Mas minha mente estava inundada de Yuu. Necessitava dele ali, me provando que eu conseguiria; que eu seria forte, que enfeitaríamos tudo juntos.
A porta da igreja se abriu, me fazendo prender a respiração quando a mulher que seria minha apareceu diante da porta, trajando um vestido vermelho. Como um flashback, o sonho do dia anterior voltou à minha cabeça, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés.
E dessa vez era real.
Ela veio andando lentamente, sorria abertamente, acenando para todos, enquanto se aproximava cada vez mais de mim. Estava desacompanhada, queria brilhar sozinha. Como bile, meu nojo pela mulher que se dirigia até mim se apossou de mim. Não tinha sentido estar ali. Não tinha sentido eu estar sem ele.
Quando ela chegou perto de mim, apertou minha mão e sorriu ainda mais. Tentei retribuir o sorriso, mas falhando.
Eu não conseguia mais fingir. Eu não queria mais fingir.
Logo o homem rechonchudo começou seu falatório, enquanto minha cabeça vagava para algum lugar longe daqui. Para Aoi.

- E você, Takashima Kouyou? Aceita Yamato Tsukushi como sua esposa, promete amá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?

Notas finais
MAOE AOE. PEGUEI VOCÊS COM QUEM ESTAVA LÁ NA PORTA, NE? SHOAISHAISAHSIAHOSAI Eu sei, eu sei, quando eu tive essa ideia eu tbm me surpreendi (?) n Mas enfim, desculpem pela demora, mas é que eu to com psêudo-bloqueio, ai já viu e3e'' obrigada pra Hokutinha que betou, me aturou e leu todas as 29137839 modificações que eu fiz no texto -q Antes que alguém pergunte, o Reita e o Ruki se ajeitaram mesmo, E VAI SER TUDO MOSTRADO NO BONUS REITUKI QUE EU TO TENTANDO ESCREVER, OK? Ç-Ç# Se vocês quiserem mandar ideias, eu ainda tô aceitando, ta? G3G -qs Enfim, mandem reviws, porque o Kou ainda está no altr, lembrem-se que eu posso fazer ele aceitar e AINDA ESCREVO O HENTAI DELES, e -NOT. /hoku aqui postando: essa capítulo foi HARD de terminar flw, deixem reviews, é