The Plan

13 Capítulo 13


Notas iniciais
N/A: Votações acabaram, então não há mais placar!
Sem grandes notas, espero que gostem da atualização!
Obrigada pra Nyulan pela correção e por ter paciência com a incompatibilidade de nossos msns.

THE PLAN


_ Sasuke, hahaha, Sasuke! Pare com isso! Hahaha! O que deu em você? TEME! – Naruto perguntava entre as arfadas descontroladas de ar, tentando fugir do toque do namorado enquanto este era bem insistente em fazer cócegas em todas as partes expostas do corpo do menor. Sasuke ria de leve pelo nariz, ora sim ora não, também se divertindo com a brincadeira.

Itachi fingia nada presenciar do outro lado da sala, apertando cada vez mais o jornal que lia numa tentativa de conter suas emoções o máximo que conseguia. Sabia que havia permitido essa interação entre os dois em uma conversa com Sasuke há anos atrás, sabia até que o havia encorajado para tal, mas isso não o impedia de se sentir um lixo toda vez que tinha que presenciar alguma cena do gênero. E geralmente eles se esforçavam parar serem mais contidos do que agora.

Sasuke e Naruto haviam acabado de se formar, estavam ambos atrás de imóveis para alugar – por algum motivo desconhecido não queriam ficar mais morando juntos, Itachi suspeitava que isso era fruto do grande e intenso orgulho Uchiha – e Sasuke pedira para que Itachi o ajudasse na escolha. Sentindo falta do irmão e desejando vê-lo, pois não o via desde alguns meses atrás após a festa de formatura, decidiu tirar umas férias de seu emprego e pegar o primeiro voo para a cidade dos dois.

Não esperava encontrar um Sasuke hospedado em um apartamento já alugado pro Naruto, mas a procura de seu próprio imóvel. O loiro havia buscado Itachi no aeroporto, tagarelado como sempre, e o Uchiha primogênito se sentiu tomado por uma inveja e ciúmes desmedido ao perceber o quanto Naruto havia crescido.

Foi a primeira vez desde o inicio da relação de seu irmão com Naruto que Itachi se permitiu analisar o mais novo com olhos críticos de um apaixonado: O loiro demorou um pouco mais do que Sasuke para crescer, era até estranho ver um rapaz com pouco mais de vinte anos voltando a crescer daquela forma. Ganhara corpo também, ficando ainda mais bonito e arrancando mais suspiros por onde passava. Seus cabelos estavam um pouco maiores, encaracolando nas pontas, e seus olhos pareciam brilhar ainda mais do que antigamente. Se continuasse assim, Itachi sabia que sofreria cada vez mais e mais.

Ao chegar ao apartamento de Naruto, ficou alguns instantes a sós com o loiro, prestando atenção nas reclamações deste e procurando imóveis para Sasuke no jornal. Seu irmãozinho demorou a chegar, e quando chegou cumprimentou Itachi brevemente, antes de pular em cima de Naruto e agir totalmente fora do normal ao começar a fazer cócegas nele. A palavra "Uchiha" e "cócegas" nunca estavam na mesma frase, pelo amor de Deus! Sasuke realmente parecia feliz.

Feliz até demais...

O primogênito não conseguia deixar de pensar que talvez ele estivesse vivendo uma felicidade que pudesse ser sua se as circunstâncias tivessem sido diferente... Que seja, ele havia feito sua escolha, não ia voltar atrás, mas porra! Será que Sasuke podia ser pelo menos um pouquinho solidário com sua dor?

_ Dobe, Dobe, Dobe, Dobe... – Sasuke repetia com a voz imitando uma melodia entre cada grito de desespero de Naruto. Eventualmente o loiro conseguiu segurar as duas mãos do namorado e impedi-lo de fazer mais cocegas, ganhando um selinho nos lábios e ficando envergonhado, pois sabia que Itachi tudo assistia. Por algum motivo, mesmo tendo declarado à todos a relação que ele e Sasuke possuíam, a presença de Itachi o fazia ficar extremamente desconfortável para realizar esse tipo de interação.

_ Seu irmão veio te visitar porque você é teimoso demais pra morar comigo, acho que ele merece mais sua atenção do que eu. – falou ao controlar a respiração, e Sasuke se limitou apenas a sorrir de canto de boca com prepotência, se soltando dos braços de Naruto e inclinando-se para sussurrar em seu ouvido.

_ Ok... Me espera no seu quarto? Daquele jeito que eu gosto Usuratonkachi... – sentiu a pele de Naruto esquentar próximo a sua e sabia que ele havia corado, entendendo perfeitamente as palavras do Uchiha.

Naruto suspirou alto, ainda irritado com a indireta de Sasuke e a exposição que ele estava causando ao cunhado. Quando o moreno colocou a língua para fora e lambeu o lóbulo de sua orelha, Naruto se sentiu ainda mais envergonhado e empurrou-o para trás.

_ Comporte-se! – virou-se pra Itachi, tentando sorrir e agir como se nada houvesse acontecido, mas o moreno sequer olhava para os dois e, mesmo sabendo que o loiro o encarava, não levantou o olhar do jornal em nenhum momento. – Eu deixei o quarto de hospedes preparado pra você Itachi, tá meio tarde, então depois que vocês conversarem vão dormir, assim podemos sair amanhã cedo pra fazer turismo.

Mas o Uchiha prodígio apenas o respondeu com um aceno breve de cabeça, virando a página do jornal em seguida. Naruto sentiu-se triste, mas nada fez a respeito, virando-se para Sasuke novamente e se despedindo do namorado com um carinho breve no rosto, em seguida caminhando até quarto e fechando a porta atrás de si.

Sasuke, sentindo-se feliz como nunca, andou até o lado de Itachi e se sentou com este no sofá, também analisando os anúncios de aluguéis.

_ Este esta num preço bom e tem boa localização. – Itachi falou com a voz neutra, apontando para um em especifico que havia circulado – Mas temos que ver se o condomínio dele ultrapassa...

_ Nii-san. – Sasuke o interrompeu, fazendo Itachi erguer o olhar e encarar seus olhos acinzentados.

O primogênito compreendeu prontamente que Sasuke não o havia chamado para procurar imóveis, aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada.

_ Vamos abrir o jogo agora então? – perguntou com um leve ar de rispidez e um sorriso irônico nos lábios, mas agradecendo aos céus mentalmente por Sasuke não fazer mais cerimônia do que tinha a dizer.

Seu Otouto sorriu um sorriso amarelo, passou as mãos sobre os cabelos espetados e levemente bagunçados depois de um dia intenso de trabalho e se afastou minimamente do corpo de Itachi, sentando do outro lado do sofá e não mais ao seu lado. Encarou seu próprio joelho por alguns instantes, como se escolhesse com cautela cada palavra que seria dita, e suspirou uma segunda vez quando pareceu se decidir como abordaria o assunto.

_ Não tenho nem como contornar e te contar isso de outro jeito... Sim, eu e Naruto decidimos morar separados, pelo menos por enquanto, e eu vou mesmo alugar um apartamento. Quero sair daqui no máximo em duas semanas... Mas eu e Naruto decidimos nos... han... casar.

O barulho do jornal caindo no chão foi mais alto do que o esperado; Itachi continuou a encarar o moreno mais novo, tentando ao máximo manter a compostura, entretanto confirmando no brilho do olhar do irmão ele estava falhando miseravelmente.

_ C-casar? – o Uchiha sussurrou, recebendo um aceno leve de cabeça em retorno.

_ Sim. Eu não consigo ser contratado como servidor público por causa da minha nacionalidade, Naruto sugeriu que assinássemos os papéis para que eu adquirisse a cidadania daqui e pudesse encontrar um emprego melhor. E eu concordei.

_ Você não esta casando por amor? Você está casando por uma porra de nacionalidade Sasuke? – Itachi o censurou, cada vez mais estupefato com a informação. Sasuke mostrou feições irritadas, unindo as sobrancelhas e bufando de leve, odiava quando Itachi censurava suas escolhas.

_ Naruto está de acordo, ninguém está obrigando ninguém a nada aqui. Nós vamos casar e continuar a relação do jeito que sempre foi, cada um no seu canto. Se nos sentirmos prontos no futuro, nós juntamos e pronto. Não entendo porque um drama tão grande em cima de um contrato Aniki.

_ Patético... – Itachi exclamou, erguendo um pouco do tom de voz e se abaixando para recolher o jornal – É por isso que veio com toda essa ceninha com o Naruto na minha frente? Está querendo jogar na minha cara que conseguiu aquilo que queria? Quem você quer enganar? Você tinha o Naruto junto de si e morava com ele há anos, o que deu agora pra você não querer mais estar com ele? Pensa que eu não percebi o seu medo ridículo de ter algo mais intenso com Naruto? Do que tem medo?

_ Itachi! – mas Itachi não deixou que seu irmão continuasse a falar, interrompendo-o com um tom de voz ainda mais alto e autoritário.

_ Escuta aqui! Você tem medo da aprovação do pai, mas isso não o impede de casar com Naruto? Você acha que vai sair por cima nessa história, que o pai vai entender essa desculpa esfarrapada e Naruto vai ser submisso o suficiente de concordar com essa babaquice de morarem separados, não é? Quem você está querendo enganar senão você mesmo Sasuke!

_ Eu não...

_ Você não o que hein Otouto? – Itachi jogou o jornal no colo do irmão, ambos os olhares igualmente ferais enquanto o mais velho se levantava sem jamais deixar de encará-lo – Além do mais, você sabe o que eu sinto mesmo não tendo falado expressamente isso pra você. Eu abri mão de tentar qualquer coisa por causa da consideração que sinto por vocês dois e por ter achado que vocês se amassem. Eu realmente esperava uma "vitória" mais digna da sua parte, irmãozinho tolo. Está começando as coisas do jeito mais errado que existe, enganando a todos e principalmente a você mesmo!

_ Ei! Não venha aqui criticar a minha forma de conduzir a vida!

_ Ótimo! – Itachi caminhou até a porta do corredor, pegando sua mala a havia deixado na entrada do apartamento. Sasuke não tentou impedi-lo, apenas acompanhou sua passada até a saída e girou a chave da fechadura, escancarando a porta em seguida e cruzando os braços, aguardando em silêncio. O moreno mais velho ainda ficou alguns segundos na briga de olhares com seu Otouto, respirando fundo por fim e decidindo falar com uma voz firme, mas consideravelmente menos ríspida – Eu abri mão da pessoa que eu amo achando que ela iria estar feliz em um relacionamento de amor, mas ver um casamento por puro interesse egoísta e mesquinho só me faz ficar decepcionado com você.

_ Eu não preciso que tenha orgulho de mim. Eu não estou pedindo nada de você, eu apenas estou te informando a minha decisão. Que se dane sua opinião! – o caçula gritou em voz alta, e Itachi se perguntou mentalmente como Naruto não havia percebido a discussão e aparecido novamente na sala até agora.

_ É mesmo Sasuke? Minha opinião não conta nada? Todos aqueles anos tentando me superar em tudo foram apenas coincidências? Você quer que eu realmente acredite que nunca esperou que eu reconhecesse nada em você? Saiba de uma coisa: O fato de eu ter acreditado que Naruto fosse ser mais feliz contigo do que comigo foi o maior reconhecimento de sua superioridade que você arrancou de mim em todos esses anos de vida. – Itachi precisou respirar fundo para conter as emoções, e amaciou as feições em seguida, olhando para o moreno mais baixo um olhar recheado de súplica por compreensão – Eu nunca lutei por Naruto, e vou morrer de bom grado sem saber se eu tinha chances ou não. Decidi não entrar na briga por reconhecer você como alguém superior a mim Otouto; não venha a essa altura do campeonato me provar o contrário.

Sasuke foi pego de surpresa pelas palavras do irmão mais velho, não tinha uma resposta na ponta da língua para o que acabara de ouvir. Jamais havia passado por sua cabeça que o fato de seu irmão ter desistido de Naruto significasse que o considerasse um companheiro mais digno do loiro. Ele pensava que o que Itachi sentia por Naruto não era tão forte, era meramente uma atração física, assim como ele sentia àquela época.

_ Não sou mais uma criança, sua opinião vale o mesmo que nada pra mim. – mentiu Sasuke, sentindo um nó se formar em sua garganta por discutir com Itachi. O Uchiha mais novo odiava profundamente brigar com seus parentes, em especial seu irmão, mas seu orgulho estava sendo ferido de maneira brutal pelas palavras do primogênito: ele não ia ceder.

O olhar que o moreno mais velho direcionava ao menor mudou de súplica para decepção, em seguida um pouco de raiva se via presente em suas pupilas. Seus punhos se fecharam fortemente, e ele precisou respirar fundo para se conter e não fazer uma besteira.

_ Tenha um excelente falso casamento Otouto. Dê os meus pêsames a Naruto.

_ Cale a boca! Suma daqui! – o caçula gritou, apontando para fora com o braço esticado. Itachi não fez mais nenhum tipo de cerimônia, caminhando para fora com passos lentos e recebendo uma portada forte em suas costas ao se retirar.

Encostou-se à porta de madeira espessa, deixando o corpo padecer e os sentimentos de tomarem conta de suas ações. Sentou-se no chão, abraçando os próprios joelhos e tentando controlar as ondas de emoção que percorriam seu corpo antes de sair à procura de um hotel.Que droga Sasuke, que DROGA!

E, do outro lado da porta, o moreno caçula repetia os seus atos, tentando derramar o mínimo de lágrimas necessárias para afrouxar a dor em sua garganta e poder entrar no quarto, inventando uma mentira qualquer para Naruto a respeito da saída repentina de sua visita.

Será que é impossível pra você me entender?– os dois pensavam a mesma coisa, cada qual lamentando suas próprias dores e decepções, sem jamais entender o lado daquele que compartilhava o mesmo sangue que o seu.


(***)


Itachi...

Naruto definitivamente não estava mentindo. Itachi existia no passado de ambos como uma pessoa particularmente importante: seu irmão, o sangue de seu próprio sangue. Como ele podia tê-lo esquecido até então? Como Naruto o esquecera da mesma forma?

Itachi...

Seu egoísmo chegou a esse ponto? Ele bloqueara a completa existência de Itachi em sua vida para impedi-lo de se sentir culpado pela briga sobre o coração de Naruto? Que tipo de pessoa ele era ao agir assim?

Itachi...

Isso era nojento! Deplorável! Como ele foi capaz de...

_ Tsk...Os Uchiha e suas dores de cabeças... – ouviu uma voz falar de longe, interrompendo seus pensamentos. Sasuke silenciou-se mentalmente, percebendo que aos poucos recobrava a consciência. Primeiro voltou a sentir seus membros, como se estivesse despertando de um sono longo e sem sonhos, mas que o mantinha igualmente cansado ao amanhecer. Os sons voltaram a atingir seus ouvidos, sua própria respiração se fazia presente entre os ruídos, assim como a respiração de outra pessoa a qual ele não conseguia enxergar.

Piscou os olhos diversas vezes, acreditando que não pudesse ver devido à falta de costume com a claridade, mas se deu conta alguns instantes depois de que não enxergava por estar em uma quase completa escuridão. Apenas uma luz tímida e bem distante era vista, talvez fosse advinda de uma vela, era difícil saber. Grunhiu, sua cabeça realmente o matava de dor, e tentou levar umas das mãos as têmporas e massageá-las com a expectativa de minimizar o desconforto, mas apenas então percebeu que estava imobilizado.

Ao perceber a situação de vulnerabilidade, seus sentidos voltaram com mais velocidade devido à intensa adrenalina despejada em seu sangue. Olhando freneticamente ao redor à procura de alguém, nada mais conseguia enxergar além da luz distante. Fitou seu próprio corpo, seus olhos acostumaram minimamente a escuridão para poder compelir tal ato, e percebeu estar amarrado em uma cadeira solitária na sala escura e tenebrosa. Seu medo triplicou e sua respiração acelerou, e uma risada breve foi ouvida por seus ouvidos agora completamente atentos.

_ Quem está ai! – exclamou em voz alta, exigindo respostas o quanto antes. Ouviu passos, alguns barulhos, mas a pessoa não respondeu nem chegou próximo ao seu limitado campo de visão. Sasuke se desesperava cada vez mais – Eu tenho dinheiro! Eu posso...

_ Isso não é um sequestro Sasuke Uchiha, poupe suas palavras. – uma voz grave e demandante falou às suas costas. Ele tentou virar a cabeça o máximo que pode para trás, mas nada conseguia visualizar.

_ Quem está ai? – tornou a perguntar. – Quem é você?

_ Eu? Oras, Uchiha, essa não é a pergunta certa. A pergunta certa seria: Quem é você?

O moreno se calou, sentindo seu corpo arrepiar diante da entonação de voz extremamente irônica.

_ Eu...

_ Sasuke Uchiha, filho único de Mikoto e Fugaku Uchiha, oncologista de renome internacional, ex-marido do prefeito Naruto Uzumaki... ou Sasuke Uchiha, filho caçula de Mikoto e Fugaku Uchiha, irmão de Itachi Uchiha, sendo este um escritor de renome ainda maior do que o de seu irmãozinho tolo em sua profissão medíocre?

Sasuke não respondeu, seu coração batia cada vez mais e mais forte. Como um completo estranho que o imobilizara na cadeira poderia saber o que se passava em sua mente? Parecia que ele sabia memórias que sequer ele próprio recordava existirem no interior de sua mente, fazendo flashs instantâneos de tais momentos aparecerem diante de seus olhos em milésimos de segundos, verdadeiros insights.

Como um completo estranho podia colocar o dedo na sua ferida daquela forma?

_ Eu posso responder essas perguntas Sasuke. – o estranho falou perante o silêncio recheado de confusão do moreno.

_ Eu...

_ Faça suas perguntas.

_ Por que eu deveria conversar com um completo estranho? Nem ao menos sei quem você é, o que você quer!

_ O fato de eu saber tudo a respeito de você não o deixa nem um pouco curioso Uchiha? Humm... Às vezes acho que não importa o tamanho da queda, tem pessoas que nunca mudam. – o homem falou pensativamente enquanto caminhava, os passos lentos ecoando nos ouvidos de Sasuke. Ele percebeu que o homem não falaria mais até que ele se pronunciasse a respeito de algo, e depois de conseguir relaxar um pouco (apenas um pouco) decidiu que não havia outra coisa a fazer, estava de mãos atadas naquela situação; tudo que podia fazer é cooperar.

_ Diga-me você que dúvidas eu possa ter.

_ Hum, prefere assim? Ok então Uchiha. Você possui dúvidas a respeito de Itachi, que até poucos instantes se tratava de Itachi Sarutobi, mas agora sua mente insiste em denominá-lo como Itachi Uchiha. Você não sabe quem ele é na verdade, e consequentemente não sabe quem você é, pois a identidade dele muda absolutamente tudo em sua existência. Não sabe o que Naruto sabe, e isso apenas intensifica ainda mais o seu desespero e anseio por respostas. Não consegue distinguir se as novas memórias são reais, ou se as anteriores são as reais. Não sabe de nada a respeito de...

_ Cale-se.

_ ... como chegou até aqui, do porquê estar aqui, de sua amiga Sakura ou seu ex-professor Kakashi e...

_ CALE A BOCA! – o moreno gritou em plenos pulmões, fazendo finalmente o estranho se calar – EU QUERO RESPOSTAS! EU NÃO AGUENTO MAIS!

_ Eu possuo a respostas, basta você desejar ouvir e prestar atenção em cada palavra que eu digo, pois sua existência e triunfo na vida dependem dessas palavras. – o homem recomeçou a falar, caminhando, e pela reverberação de sua voz no ambiente, tudo indicava que agora ele estava diante de Sasuke, mas ainda imerso na escuridão.

O Uchiha forçou o olhar, conseguindo distinguir apenas uma silhueta que nada revelava a respeito da identidade da pessoa a não ser o óbvio: era um homem, vestia provavelmente um terno e mantinha suas mãos dentro dos bolsos da calça, parecia ser alto e estar se divertindo consideravelmente com a situação, inclinando seu corpo para frente e para trás enquanto aguardava uma resposta. Sasuke suspirou fundo, abaixou a cabeça e, fechando os olhos e depositando todo a sua concentração nos ouvidos, cedeu.

_ Me diga quem é Itachi.

_Viu só? Não doeu tanto assim, doeu? – o homem perguntou em tom de chacota, o moreno optou por não contrariá-lo. O desconhecido riu pelo nariz e prosseguiu um discurso com a voz áspera, grave e parcialmente divertida – Itachi é seu inimigo. Não interessa se ele é seu irmão ou não, se o passado que acabara de recordar é verdadeiro ou falso, o que interessa é que em ambas as realidades Itachi é seu rival, seu obstáculo, seu inimigo. Ele possui metade do coração de Naruto Uzumaki, assim como você possui os restos daquele sentimento de amor do loiro.

_ Naruto ama apenas a mim. – Sasuke falou com convicção, em nenhum momento duvidando das palavras que saiam de sua boca. Ele jamais duvidara do amor de Naruto, se não havia dado certo seu casamento não foi por falta de amor, e sim por aquela atração desmensurada que Naruto tinha pelo tal Itachi. Mas mesmo assim, Sasuke duvidava que Naruto amasse o outro homem, ou pelo menos era nisso que sua mente prendia a sanidade emocional.

_ É, continue repetindo esse mantra pra você mesmo e viva a ilusão. Essas palavras nada mais são para você do que o ópio foi para a China: Naruto não ama apenas a você. Naruto é volúvel, instável e movido por desejos luxuriosos direcionados tanto para ti quanto para Itachi, e isso faz de Itachi seu maior rival. Estamos de acordo? – Sasuke preferiu não responder, apertando seus punhos firmemente a lateral do corpo amarrado. Ouviu uma risada breve de contentamento do estranho misterioso – Certo. Chegamos a essa conclusão: Itachi é seu rival, e por isso pouco importa quem ele é na verdade, pois se trata apenas de um obstáculo a ser eliminado. Agora passaremos ao mérito de Naruto.

_ Não ouse...

_ Naruto não esta sofrendo como você. – o homem falou em voz alta, interrompendo qualquer tentativa de se pronunciar do Uchiha. Sasuke calou-se abruptamente diante das palavras, desejando pela primeira vez ouvir qualquer informação a respeito de Naruto, daquele que tanto evitava tomar conhecimento nos últimos tempos – O que foi? Você achou que ele ia estar desolado como você, bebendo de bar em bar todas as noites para esquecer-se do romance fracassado, mas falhando miseravelmente ao acordar quase todas as manhãs ao lado de uma sósia desconhecida de seu antigo companheiro?

_ Como sabe...

_ Você é previsível Uchiha, eu não precisaria ser quem eu sou para saber a forma desolada como você leva a vida na ausência do Uzumaki.

_ E quem é você? – Sasuke questionou, e o estranho mais uma vez riu em voz baixa, caminhando ao redor do rapaz. Pela primeira vez Sasuke sentiu que ele se aproximara consideravelmente de si, podia sentir a respiração do homem próximo ao seu ouvido, mas uma áurea de medo não o permitiu que criasse coragem para se virar e encará-lo, como se temesse ser esfaqueado caso compelisse tal alto. O individuo respirou fundo e respondeu a pergunta de Sasuke com um sibilo longo, ríspido e tenebroso.

_ Eu sou Deus.

Por mais insanas que as três palavras fossem ao ouvido de qualquer um, principalmente do outro ocupante do cômodo, o Uchiha não pode evitar o arrepio que percorria seu corpo. Sentia suas pernas tremerem de leve, eminentemente apavorado em estar em uma situação tão deplorável diante de um completo lunático que se autodenominava Deus, mas na verdade só podia ser um stalker dos perigosos.

_ Mas voltando ao foco principal: o Uzumaki. – o homem voltou a falar de maneira divertida, se afastando de Sasuke e voltando para frente deste, mantendo a distância necessária para se mantivesse no anonimato – Naruto não sente sua falta, apesar de eventualmente lembrar-se de você e ligá-lo de vez em quando. Ele está bem entretido com outros assuntos, posso te afirmar com completa certeza.

_ Você está mentindo. Você deve estar me vigiando e por isso sabe tanto da minha vida, você deve ser um rival político de Naruto e quer que eu me volte contra ele e revele a você informações pessoas que pudessem prejudicá-lo na reeleição como vingança.

E o homem riu de verdade, gargalhou alto, sua voz ecoando maleficamente no ambiente escuro. Sasuke sentiu os cabelos de sua nuca se arrepiarem com o som que mais lembrava a um rugido de um predador do que uma risada amigável, e o estranho ainda precisou de alguns minutos para se controlar e recobrar o fôlego.

_ Uchihas, Uchihas... Já devia ter me acostumado, são sempre tão desconfiados, eu só não me recordava que podiam ser tão criativos... Certo, vamos ver, eu posso provar minhas palavras nesse exato momento, o que acha disso?

Sasuke não respondeu, apenas ouviu o homem novamente circundá-lo e, desta vez, colocar algo sobre seus olhos, vendando-o.

_ O que está...!

_ Shii... – sibilou ao ouvido do moreno, fazendo-o trincar os dentes diante da vulnerabilidade crescente. Estava com medo, mas estava ainda mais e mais apavorado – Você e Naruto possuem uma ligação bem peculiar com o olhar, não possuem?

Desta vez Sasuke realmente se assustou, trancando a respiração com força.

Isso era um tremendo tabu, sequer conversara com o loiro a respeito disso, apesar de ter a completa certeza que ele também sentia a mesma coisa que ele quando fitavam os olhos um do outro. Por parecer conversa de louco, nunca tocaram no assunto – e se jamais conversaram entre si a respeito, imagina para terceiros. Ele poderia jurar que Naruto nunca revelaria algo do tipo pra alguém, e ele próprio jamais abrira o bico a respeito. Como este homem... Como ele podia...

_ Como...?

_ Já disse, eu sou Deus. Agora ouça: essa ligação que você e Naruto possuem pode ser muito incomoda às vezes, principalmente entre as discussões e no convencimento de argumentos e tantas demais ocasiões, mas podem ser prazerosas e não vamos entrar em detalhes. O fato é que isso não existe por acaso, vocês possuem um canal comunicativo no olhar, e se eu acessá-lo como um meio de comunicação entre os dois, nos podemos fazer coisas incríveis em uma distância inimaginável.

_ Você é lunático...

_ Você é descrente demais. Não tem fé em mim Uchiha? – duas mãos frias, verdadeiramente gélidas, foram colocadas nas têmporas de Sasuke, e ele precisou se controlar para não choramingar devido ao susto e medo. O homem passou a massageá-lo, cantarolando baixo em seu ouvido uma melodia realmente sinistra – Relaxe e me deixe agir... Você ficará surpreso com a verdade de cada silaba que proferi.

Sasuke não sabia se podia considerar o que acontecera como um relaxar, mas aos poucos foi se sentindo cada vez mais sonolento, prestando atenção apenas no cantarolar baixo e percebendo que seu cérebro era recheado de emoções extasiantes, felizes, motivadoras. Já havia presenciado tal acontecimento diversas vezes: quando Naruto estava feliz ou empolgado, ele recebia esse tipo de emoção de seu amor sempre que fitava intensamente seus olhos – isso era como sua droga particular. Relaxou, deixando um gemido escapulir por sua boca: era tão bom sentir isso novamente... Ele sentira tanta falta da felicidade compartilhada com o loiro.

_ Isso Uchiha, relaxe...

Aos poucos o cantarolar foi ficando cada vez mais distante. Aos poucos sua paz foi ficando mais e mais evidente, até que era incapaz de dizer se havia dormido ou estava acordado, se estava sentado ou estava deitado.

Se estava naquela sala escura, ou em outro lugar...


(***)

_ Naruto Uzumaki, pode me ouvir?

Minha cabeça... Dói... Dói tanto...

_ Uzumaki, vamos, pronuncie-se.

Eu não quero, eu quero dormir, a dor tem que passar...

_ Acorde Naruto.

_ Porra Itachi, eu quero dormir. – respondeu em voz alta, assustando-se com a entonação da voz que ecoara em seus ouvidos.

O que Sasuke estava fazendo naquele quarto junto com ele e Itachi? E além do mais, proferindo as mesmas palavras que ele? Itachi riu, mas não era a voz de Itachi e sim a de um desconhecido, e Naruto tentou abrir os olhos e entender o que acontecia: apenas para dar-se conta de que não estava mais no mesmo local que adormecera da última vez.

Tomou consciência que estava imobilizado, sentado em uma superfície e vendado. Não conseguia ver nada, nem se mover, nem sequer respirar coerentemente. Será que as almas haviam os encontrado enquanto dormiam e agora haveria de enfrentar o cruel destino e ter sua mente apagada? Será que Itachi também fora pego? Estremeceu só de imaginar o que aconteceria com o Uchiha primogênito caso houvesse...

_ Tsk, não crie milhões de teorias na sua cabeça. Você já sabe como as coisas funcionam por aqui, então está apto a compreender que aquilo que julga impossível nem sempre pode ser considerado como impossível. Você, Naruto Uzumaki, encontra-se nesse determinado momento sob a pele de Sasuke Uchiha, seu tão amado ex-marido.

_ Não fale... bes... teiras... – Naruto pretendia gritar, mas não foi a própria voz que ouviu sair de sua boca. Não senhor: foi aquela voz tão conhecida e apreciada pelo loiro, a voz de Sasuke, a voz que ele tanto adorava e que ouvira durante muitas manhãs de sua vida. Seu corpo começou a estremecer, e por mais que seu cérebro gritasse que era impossível ser verdade as palavras que o estranho lhe direcionava, o restante do cérebro percebia fatos particulares que ainda não havia se dado conta.

O cheiro de Sasuke estava presente, bem próximo de si, mais especificamente em seu próprio corpo. Quando mexia levemente a cabeça, podia sentir seu cabelo diferente, roçando-lhe a ponta do queixo como a franja cumprida de Sasuke costumava fazer no rosto do ex-marido. Acariciou seus próprios dedos, percebendo a maior aspereza na pele de suas mãos: uma textura que costumava sentir nas mãos de Sasuke, quando ele tomava suas mãos à dele e caminhava consigo em algum passeio romântico.

A realidade atingiu seu peito como uma facada, e o fato de saber que não se tratava de seu próprio peito – e sim do peito de seu amado – fazia tudo doer ainda mais.

_ As ligações particulares de almas gêmeas não existem apenas para que elas se identifiquem, até porque, em geral, isso pouco interessa. Mesmo se essas particularidades não existissem, você ainda se sentiria atraído por Itachi e Sasuke. A ligação que você tem com os dois existe para que nós tenhamos o controle em aspectos fungíveis como estes: eu posso "acessá-lo" se estiver de posse ao seu outro canal cármico, ou seja, a sua outra metade. Sasuke e Itachi são suas almas gêmeas, então de alguma forma consigo trazer você para mim e vice versa se necessário. Por um pequeno período, até a instabilidade emocional de vocês dois reverter todo o meu esforço, mas ainda sim o suficiente para deixar um recado:

Houve uma pausa considerável onde apenas a respiração ofegante de Naruto era ouvida, seu cérebro tentando compreender o que acontecia, por mais que parecesse um sonho absurdo, ele sabia que não era o caso...

_ Como vê, Sasuke Uchiha está sobre a minha posse. Assim que você retornar ao seu corpo, venha até o Lobby conjuntamente com Itachi Uchiha se não deseja maiores complicações para seu amado Sasuke, nós não estamos brincando quando dizemos que vale tudo na guerra, no amor e nas missões. Apesar de ser um ditado manjado, nós levamos muito a sério esse costume.

_ Filho da puta... – a voz de Sasuke ecoou mais uma vez por sua garganta, e ele sentia que sua venda ficava úmida pelas lágrimas de desespero que se formavam em seus olhos... Seus olhos agora cinzas, e não mais azuis como de costume.

_ Está avisado Uzumaki. E se quer um conselho de amigo: poupe Itachi, não abra o jogo, não o faça sofrer, apenas o distraia para que ele não perceba seus capturadores, se o Itachi se distrair por um instante conseguiremos pegá-lo... Aqui resolveremos o problema de maneira indolor para ambos, chega de fugir de seu próprio destino. Por isso, poupe-o de sofrimento, já que é o máximo que você pode fazer. Não é mesmo?

Ele não sabia se o político o havia escutado por completo, pois em meio as suas últimas palavras o mesmo havia trincado os dentes, soltando um gemido de dor, mordido o lábio inferior na tentativa conter eventual grito de desespero. Logo em seguida deixara de mostrar consciência, se permitindo abaixar a cabeça e respirar pesadamente em um aparente sono. Mas ele sabia mais do que isso, isso significava que Sasuke havia vivido fortes emoções do outro lado e não conseguira manter a ligação por muito mais tempo, e agora retornam ao corpo de origem de sua alma. Tudo estava funcionando de acordo com o que havia planejado.

(***)

Quente e confortável: era assim que Sasuke se sentia naquele determinado momento. Uma grande quantidade de calor irradiava atrás de si. Virou-se lentamente, sem abrir os olhos, para abraçar Naruto e depois reclamaria que não gostava de dormir de conchinha com o loiro por trás, mas apenas depois que acordasse de verdade, pois agora estava tudo muito aconchegante para despertar completamente.

Estava feliz por ter acordado daquele sonho tenebroso e assustador. Abraçou-o de frente, enterrando seu rosto na dobra do pescoço do amado e tentando sentir o cheiro que tanto adorava em seu Dobe. Mas o cheiro que entrou em suas narinas não era aquele que esperava. Na verdade ele era muito acostumado com esse cheiro, mas esse não era o cheiro de seu marido.


_ Nii-san, porque seu quarto cheira como você? – Sasuke de cinco anos perguntava, pulando na cama do irmão mais velho que tentava desesperadamente se concentrar para estudar.

Os pais de Itachi haviam pedido que cuidasse de Sasuke por algumas horas e ele pretendia fazer isso sem problema algum, afinal de contas ele gostava bastante da companhia do irmãozinho. Mas ele estava contando que Sasuke dormisse como qualquer criança normal por pelo menos quarenta minutos pra que ele pudesse estudar para o teste de matemática, porém o caçula não parecia necessitar de nenhum tipo de reposição de energias.

Suspirou, largando o lápis na escrivaninha e se virando em direção ao menor. A criança parou de pular, seus imensos olhos de criança nova brilhando em expectativa e um sorriso largo brotando-lhe os lábios quando Itachi fez um gesto com os braços indicando que Sasuke deveria se aproximar. O pequeno pulou da cama, correndo ao encontro do irmão mais velho que tanto admirava, seu herói, seu ídolo. Itachi abaixou brevemente o tronco, pegando Sasuke pelos braços e o colocando em seu colo, sorrindo comedido enquanto colocava a criança sentada acima da escrivaninha.

_ Seu quarto também cheira a você Sasuke, isso é normal.

_ Não, meu quarto cheira aqueles perfumes de mulherzinha que a Kaa-san passa. – a criança respondeu com um bico, fazendo Itachi rir um pouco mais.

_ É porque você não sente seu próprio cheiro Sasuke, mas todas as outras pessoas no mundo sentem. Você está acostumado com ele, por isso não sente e sente o cheiro dos produtos da Kaa-san, mas seu cheiro sobressai.

_ E qual é meu cheiro? – a criança perguntou, não entendendo todas as palavras de seu irmão, mas não querendo revelar sua ignorância. Um dia ele seria tão inteligente quanto seu Aniki e saberia tantas palavras difíceis.

_ Você cheira a bebê.

_ Eu não sou um bebê!

_ Ok. – falou, tentando se controlar para não rir diante da expressão extremamente ofendida de seu Otouto – Você cheira uma mistura de talco, baunilha, o cheiro da mamãe e o seu shampoo de camomila... É mais ou menos assim o seu cheiro. Você consegue entender?

_ Não... Nii-san... Seu nariz está com problemas, tenho certeza que não é esse o meu cheiro.

_ Irmãozinho tolo. – Itachi sorriu, dando um peteleco leve na testa de Sasuke e fazendo-o ficar ainda mais bicudo. Tirou a criança de cima da mesa, colocando-o no chão e falando com um olhar sério.

Itachi sabia que quando falava sério com Sasuke, ele interpretava qualquer coisa que fosse dita como uma missão e se esforçava o suficiente para fazer. Seu irmão mais novo o admirava, e fazia qualquer coisa que ele pedisse.

_ Eu preciso estudar, tenho uma prova amanhã. Você pode tentar dormir um pouco? Quando você acordar, nós brincamos mais.

_ Posso dormir na sua cama?

_ Pode.

Contente e determinado a realizar a missão imposta, Sasuke correu para a cama de seu irmão, entrando embaixo das cobertas enquanto este se virava novamente e voltava a escrever em seu caderno. Sasuke sentia o cheiro de Itachi ainda mais intenso entre os lençóis, e, ainda que levemente sonolento, percebeu que se revelasse como era o cheiro do mais velho para seu Nii-san, ele estaria fazendo uma revelação inédita que Itachi não era capaz de ter coincidência, pois como seu próprio irmão disse: cada qual estava acostumado com o próprio cheiro e por isso não o sentia. Ele queria revelar algo que seu Aniki nunca seria capaz de descobrir por conta própria, algo que ele até então achava ser impossível quando se tratava de seu ídolo.

Ele queria ser útil.


_ Você cheira uma mistura de maçã, canela e aqueles livros chatos sem figuras que o Tou-san pede para eu tentar ler toda hora... Onii-san... – falou de maneira sonolenta. Itachi girou o corpo de leve, encarando seu irmão adormecido por alguns instantes e se permitindo sorrir antes de voltar sua atenção para seus estudos.


Maçã, canela e livros. Aquele não era o cheiro de Naruto, era o cheiro de Itachi.

Sobressaltado Sasuke abriu os olhos, percebendo que Itachi estava realmente ali, adormecido e envolvendo seu corpo em um abraço afetuoso, provavelmente sonhando com algo extremamente bom, pois sorria enquanto dormia.

Desesperado pelo contato físico muito próximo e pela descarga de intensas emoções empurrou Itachi com a maior quantidade de forças que conseguiu juntar, e rastejou para trás na cama até quase cair na borda.

Itachi acordou com a movimentação abrupta. Olhando para o loiro assustado que o fitava como se ele fosse um fantasma.

_ Naruto? O que houve? – perguntou docemente, tentando se aproximar do homem e esticando um braço para tocá-lo.

_ Não chegue perto de mim! – Sasuke gritou, mas se surpreendeu ao perceber o quanto sua voz estava diferente, se assemelhando bastante a uma voz por ele tão conhecida... Empurrou seu corpo ainda mais para trás, e entre o desespero de se afastar ainda mais de Itachi acabou caindo para fora da cama, batendo cabeça levemente no chão e encarando o teto do quarto pela primeira vez devido à posição.

E os olhos azuis de Naruto o encararam pelo reflexo do espelho de motel no teto, fazendo-o se arrepiar. O que estava acontecendo? Como acabara naquele lugar? Onde estava o seu próprio reflexo? Por que Naruto estava onde seu reflexo devia estar?

Esticou as mãos para frente, analisando os dedos mais finos do que o normal, a pele mais bronzeada do que costumava ser, a marca de aliança ainda evidente no dedo anelar...

Aquela não era sua mão, era a mão de Naruto.

_ Naruto! O que está acontecendo! – Itachi apareceu novamente em seu campo de visão, olhando para ele de cima da cama e esticando uma mão na tentativa de ajudá-lo a se levantar, aguardando para que ele agarrasse-a e fosse levado para cima – Você teve um pesadelo?

O desespero que tomou conta do Uchiha foi enorme, e tudo ficou cada vez mais embaçado. Fechou os olhos, suspirando alto e ouvindo os gritos de Itachi de longe, sentindo seu corpo cada vez mais imergir novamente na escuridão.


(***)


Naruto acordou respirando fundo como se estivesse se afogando há poucos segundos atrás, empurrando Itachi para longe de seu corpo. O Uchiha estava assustado, ajoelhado do seu lado e tentando fazê-lo recobrar a consciência nos últimos instantes, e Naruto entendia perfeitamente o porquê.

_ N-naruto!

_ O que aconteceu? – perguntou rispidamente, se levantando com velocidade e olhando para todos os lados tentando se readaptar ao novo ambiente, percebendo que novamente estava em seu corpo. Itachi acompanhou seus movimentos, esticando o braço e forçando-o a se sentar na cama, enquanto o encarava com os olhos ainda apavorados.

_ Eu que pergunto! Em um momento estávamos dormindo, no outro você pira completamente, me empurra, cai da cama e desmaia!

_ Eu...

_ O que aconteceu Naruto! Seja sincero comigo! – Itachi falou, estreitando o olhar perigosamente para o loiro, pois estava começando a desconfiar do desespero crescente deste.

Não era natural agir assim depois de um pesadelo. Era como se Naruto estivesse relembrando alguma coisa, mas Itachi não via nada no passado esquecido dos dois que pudesse gerar tal reação no homem mais novo.

O político se concentrou em normalizar sua respiração, apertando o peito com força. Seu cérebro processava as informações que Itachi havia dito: então realmente não fora um sonho, Sasuke provavelmente também estivera sobre sua pele e se assustara com Itachi e...

Droga... O que o Teme deve estar pensando de mim agora?

_ Vamos Naruto, responda! – o Uchiha ordenou uma segunda vez, chocalhando os ombros de Naruto com um pouco de impaciência desta vez. A cabeça de Naruto doía muito, ele precisava pensar, ele tinha que pensar! Ele não podia simplesmente levar Itachi para o território inimigo, mas não podia deixar Sasuke naquele lugar!

_ Desculpe Itachi, eu preciso ficar sozinho. – sussurrou baixinho tais palavras, se levantando com velocidade antes que o mais velho pudesse tomar qualquer tipo de reação. Correu até o banheiro da suíte, trancando a porta atrás de si e ignorando os protestos e batidas na madeira do outro lado da porta. Sabia que Itachi devia estar preocupado, mas ele precisava pensar!

Apoiou-se na pia, encarando o próprio reflexo e sentindo uma extrema vontade de quebrar todo aquele banheiro até que não sobrasse mais um único objeto intacto. Por que tudo isso estava acontecendo com os três? Por que eles não podiam simplesmente serem felizes? O que haviam feito de tão ruim para merecerem isso?

_ Naruto! Abra essa porta AGORA! – Itachi continuava a gritar seu nome com a voz cada vez mais autoritária, mas o loiro o ignorava, perdido sua concentração em seu próprio reflexo e percebendo que estava nu... Deus... Sasuke deveria estar decepcionado ao encontrá-lo com Itachi na cama, ainda mais nessas determinadas circunstâncias.

_ Mas... Eu não me arrependo. – falou para si mesmo, concordando minimamente com suas palavras com um aceno de cabeça, como se estivesse em um diálogo e não um monólogo.

Não se arrependia de ter desafiado, não se arrependia de ter relembrado a verdade, e certamente não se arrependia de ter dormido com Itachi na noite anterior. Ele iria resolver isso, ele iria resgatar Sasuke e tudo ficaria bem, tudo tinha que ficar bem. Mas por mais que repetisse essas palavras como um mantra em sua cabeça, o que sua boca exteriorizou foram apenas quatro palavras regadas de desespero e ansiedade:

_ O que vou fazer...?


(***)


Sasuke não precisava ser um gênio para perceber que estava novamente em seu corpo, e não conseguia reagir fisicamente de maneira alguma. Estava chocado, extasiado com o que acabara de acontecer, sem reação diante a situação cada vez mais assustadora em que se encontrava.

Estava estupefato ao perceber que realmente Naruto e Itachi estavam juntos...

Como eles puderam fazer isso comigo? – pensou, sentindo uma ira crescente explodir cada vez mais em seu peito. Deixou um soluço de desespero escapar seus lábios, trincou os dentes com tanta força que chegava a doer em seu próprio crânio. A venda que ainda encobria seus olhos apenas molhava cada vez mais devido as lágrimas de raiva que se formavam em seus olhos.

_ Casos extremos exigem tratamento de choque Uchiha, queira me perdoar. – o misterioso falou, caminhando mais uma vez para perto de Sasuke e desta vez o moreno sentiu que as cordas que o amarravam estavam tendo seus nos afrouxados pouco a pouco – Você pode ficar aqui o tempo necessário para colocar as ideias no lugar, sei que fará a coisa certa no fim das contas. Quando sair pela porta desta sala, será levado novamente para sua cidade em um local conhecido por ti, e de lá deve tomar as atitudes que achar melhor para lidar com tudo isso.

Sasuke estava desamarrado, mas ainda vendado. Por mais que há poucos minutos atrás tudo que desejasse fosse arrancar aquela venda e descobrir quem era a pessoa misteriosa, agora tudo que ele queria era desaparecer no mundo. A identidade do homem estranho não o chamava mais nenhuma atenção... Tudo em que ele conseguia pensar era no rosto de Naruto fitando-o pelo espelho do quarto de motel, enquanto o Itachi tentava puxar o suposto Naruto novamente pra a cama... Os olhos azuis assustados, refletindo suas próprias emoções... Mas ainda sim eram os olhos de Naruto, olhos de alguém que fora pego em uma situação desesperadora.

Sua dor em imaginar que Itachi e Naruto estavam juntos era sem tamanho, e ele sequer se importou quando ouviu a porta da sala abrir e se fechar levemente com um click suave, som este revelando que seu companheiro dos últimos minutos havia se retirado.

Sasuke não sabia ao certo quanto tempo ficou parado na mesma posição, vendado, desesperado. Nada fazia sentido em sua cabeça além de uma única coisa: Itachi verdadeiramente era seu inimigo, seu rival, sua ruína.

Imerso em pura raiva e rancor, arrancou a venda de qualquer jeito do rosto, puxando alguns fios de seu próprio cabelo no processo. Gritando de maneira animalesca, se ergueu em um pulo e jogou a cadeira com força contra a parede do outro lado do cômodo da sala, ouvindo-a espatifar-se com um estrondo alto.

Rosnava e sibilava enquanto andava em círculos, suas mãos se enterrando nos cabelos bagunçados e puxando-os com força enquanto ele tentava pensar em qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, que não fizesse seu coração doer tanto daquela forma. Mas nada mais lhe vinha à mente além do que acabara de presenciar através de olhos alheios. Seus pés tremiam, seu corpo latejava... Estava sentindo uma quantidade avassaladora de emoções de uma vez só, não sabia como tudo aquilo podia caber dentro do corpo de um único indivíduo.

Seu corpo padeceu e ele caiu de quatro no chão, deixando sua testa descansar sobre o piso de pedra gelado. As lágrimas escorriam ainda mais, seus punhos à lateral da cabeça apertavam-se com tanta força que pareciam perfurar a pele da palma de suas mãos.

_ Eu vou destruir com minhas próprias mãos aquele que causou tudo isso! – grunhiu entre o choro silencioso, seus pensamentos não alterando em nenhum momento – Eu sou um Uchiha, um verdadeiro Uchiha consegue tudo o que quer...

E ninguém, ninguém mesmo, faz isso com um Uchiha.


... Continua ...