The Outsiders
13 Chapter XIII – CELEBRATION DAY
Notas iniciais
Celebrem conosco nossos queridos! E agradecemos imensamente a paciência pela demora!
Esse capítulo, especialmente, é inteiramente dedicado não à Maru ou a Lothus, mas às DUAS como PARCEIRAS! Pois se não existissem as duas juntas aqui, a TO também não estaria onde está!
PARABÉNS À NOSSA PARCEIRIA AMORA! E obrigada por estar nessa comigo.
Musica do Capítulo: Run Through The Jungle - Creedence Clearwater Revival
http://www.youtube.com/watch?v=EbI0cMyyw_M&feature=player_embedded
Mais informações no nosso Blog:
http://slashyaoifanfics.blogspot.com/2011/12/ola-todos-mais-uma-vez-aqui-para-avisar.html
Uma Boa leitura!♥
Quando finalmente acordou, com o pescoço dolorido e desnorteado, percebeu que ainda estava na cadeira do computador, sentado desconfortavelmente. E que provavelmente se a bendita não tivesse aqueles braços laterais, teria acordado há tempos no chão, inclinado como estava para o lado do beliche.
A segunda coisa que percebeu é que Sam ainda dormia. Parecia mais sereno e estava agarrado à coberta de um jeito quase infantil, meio embolado.
Mas foi a terceira que o fez levantar bruscamente, nervosamente.
Mas que diabos... Quem tinha lhe enfiado aquela porra de coberta?
Passou as mãos pelo rosto tentando acordar de verdade e olhou outra vez para o lado. Sam parecia estar tão ferrado no sono que sinceramente não conseguia imaginar que ele acordara milagrosamente no meio da noite, mas como iria saber?
Também não achava que seu pai tivesse acordado de madrugada depois de entornar toda aquela garrafa de uísque e definitivamente a coberta não tinha ido parar ali sozinha!
– Dean...? Que horas são?... – fingiu não se sobressaltar com a voz sonolenta às suas costas e se virou, olhando para o relógio de pulso.
– Quase 8:30. Finalmente acordou Bela Adormecida, devo ter te chamado umas mil vezes e nada! – forçou-se a responder mal-humoradamente e viu-o franzir a testa meio confuso.
– Cara, tá tudo bem com você?
– Levanta logo daí Samantha! Bora, café! – ignorou-o e saiu do quarto a passos largos. Nem mesmo sabia se tinha alguma coisa para tomarem de café, ou se seu pai tinha acordado ainda para fazer algo, mas não estava preocupado com isso naquele momento.
Viu o irmão sair e não conseguiu evitar um sorrisinho conformado. Não poderia esperar algo diferente. Não de Dean. Mas sinceramente não se importava, depois do que ele lhe falara enquanto fingia dormir.
–--
27 de Setembro de 2006... Talvez se não fosse por toda a situação que estavam passando naquelas semanas, jamais lembraria num futuro próximo, o que acontecera nesse dia.
Claro que não podia esperar um dia muito útil depois do que tinha sido a noite anterior para todos. John estava sofrendo claramente os efeitos do excesso do dia anterior, ainda que não tivesse falado absolutamente nada sobre isso e Dean aparentemente ainda estava num mau humor fodido, evitando o máximo possível qualquer contato que não fosse estritamente necessário com qualquer pessoa que fosse e, talvez por isso mesmo, ninguém nem mesmo comentou sobre abrir a oficina naquele dia.
Ou sobre Adam.
Sinceramente, não teve coragem de visitá-lo sozinho, ainda que quisesse vê-lo mais do que nunca. Sempre era difícil demais, vê-lo naquela situação e saber que aquilo era por sua causa, fosse como fosse, principalmente depois de tudo que falaram ontem... Com o Aniversário dele tão perto...
Passou a tarde toda então no computador do quarto, pesquisando tudo o que podia sobre coma, numa tentativa de pelo menos entender o que tinha acontecido.
Viu sobre a escala de coma de Glasgow, leu histórias e histórias sobre pessoas que viveram décadas em estado vegetativo. Pessoas que depois de tanto tempo e nenhuma esperança, surpreendentemente acordaram, como a da Patricia White Bull, que acordou em Dezembro de 1999, depois de ficar em coma por 16 anos. Viu sobre como existem conceitos errados e confusões sobre coma; a diferença entre estar em coma e estar em estado vegetativo... Até mesmo viu uma representação em vídeo, mapeando o as principais partes externas do cérebro: Lobo Frontal, Bulbo olfatório, Lobo Temporal, Ponte, Cerebelo...
E quanto mais via sobre isso, mais e mais óbvio ficava o quanto que o que aconteceu com Adam não era nem um pouco natural. Havia sido causado por aquilo. Pelos olhos amarelos. Algo premeditado, proposital.
E simplesmente não conseguia conviver com essa ideia. De que aquilo poderia ter sido evitado, pois não tinha sido uma fatalidade. Que alguém, algo, causou aquilo de caso pensado. De que talvez Dean ou seu pai pudessem ser os próximos. De que não tinha a menor ideia do que fazer para evitar isso, porque nem mesmo sabia por onde começar.
Como tentar proteger o que ainda tinha...
Não se reuniram nenhuma outra vez naquele dia. Comeram em horários diferentes — os que comeram — e ficaram isolados em seus quartos, todos eles. Sem TV, som, ou qualquer coisa que pudesse trazer, mesmo que falsamente, alguma sensação de vida 'praquele lugar.
E quando o dia finalmente passou e foram dormir novamente, teve pesadelos a madrugada toda e quis sinceramente que, pela ultima vez que fosse, Dean estivesse ali outra vez lhe dizendo que podia dormir tranquilo, porque tudo poderia estar errado mas pelo menos ele estava ali.
–--
O outro dia não foi essencialmente tão diferente, principalmente para Dean e John. Apenas foram para a oficina e terminaram os serviços pendentes. Teve que ligar para os donos dos autos que ainda estavam lá para que fossem buscá-los e acertava as contas, enquanto seu irmão e pai trabalhavam como se não houvesse amanhã.
Não aceitaram nenhum novo pedido.
E de noite quando chegaram em casa, tentaram agir como uma família normal e tomaram a primeira refeição do dia juntos, em frente a TV assistindo a um jogo de baseball qualquer.
Sam estava ainda mais quieto e introspectivo que no dia anterior, o que pareceu passar despercebido pelos outros dois — o mais novo pensou, e até agradeceu por isso -, pois se seu pai e irmão apenas aguardavam pesarosa e introspectivamente também à ideia de que aqueles eram os últimos momentos que tinham para preparar o espírito para o mais impensável dia de tristeza da vida deles: o primeiro aniversário de Adam onde o ele não passaria o dia todo pela casa cantando: ‘Parabéns para mim’, seu tormento começou logo quando acordou, pois mais que a véspera do aniversário de seu irmão internado em coma no hospital, aquele dia 28 também era, para seu desespero, o aniversário de um mês da morte de Jessica, e tudo o que queria era não ter que pensar naquilo, mesmo que não pudesse evitar.
Não falou palavra sobre aquilo. Apenas ficou lá com eles, tentando fingir que não estava quebrado como estava, pois sabia que não era o único ali. E no fim das contas, todos eles mais beberam do que comeram, primeiro cerveja, depois algo mais forte e então quando estavam cansados e bêbados demais para continuar com aquilo, finalmente foram dormir, exaustos, um sono abençoado, sem sonhos.
–--
E então era o dia.
29 de Setembro.
Depois dos últimos 2 dias tentando o máximo possível levar uma vida normal depois de tudo que tinha acontecido.
O dia de celebração.
Celebração... Aquilo soava tão irônico dentro dos pensamentos de qualquer um deles... Porque de algum jeito, não era exatamente como se tivessem algo a celebrar no momento.
Tudo naquele dia parecia pesado e cinza. Levantar de manhã e ver a cama de cima vazia. Tomarem o café da manhã predileto de Adam — panquecas caseiras do papai — em silencio, sem ouvir a voz jovem e ainda às vezes meio desafinada reclamar de seu aniversário ter caído logo numa sexta-feira para então pedir para o pai numa imitação amadora da carinha de cachorro do irmão para ficar em casa naquele dia já que era seu dia...
Exigindo bolo de chocolate com recheios extravagantes, perguntando se esse ano pelo menos seu pai o deixaria beber mais que um gole de cerveja, perguntando se podiam fazer um churrasco no fim de semana para comemorar, se esse ano poderia receber alguns colegas de escola, se iriam comer hambúrguer de almoço, pois queria hambúrguer, se agora que já dirigia ganharia um carro também...
Mas, principalmente, terem que ir ao hospital para ver o aniversariante ali, inerte, quase como se dormisse... Menos pelo fato, talvez, de que não fosse acordar. Sem ocupar todo o ambiente com sua voz e sua presença. Sua ironia e suas perguntas quase tão sem-fim quanto as de Sam.
Aquele provavelmente foi um dos dias mais tétricos que já haviam tido juntos, com os três reunidos a beira da cama de Adam, alternando por uma hora inteira para segurar sua mão e mantendo períodos de silencio longos demais. Que só eram quebrados quando lembravam de alguma das tiradas sarcásticas que eram tanto a cara do caçula. Ou de mais uma daquelas situações quase ridículas que ele viva se metendo por simplesmente ser ele demais.
E os sorrisos quase sem humor sumiam rápido quando percebiam mais uma vez que Adam estava ali, mas não estava. Que ele não levantaria da cama para responder como queriam tão desesperadamente, ou acordaria então, reclamando do colchão.
– Lembra daquela vez que ele quase pôs fogo na casinha de ferramentas lá fora? – o pai comentou com um sorrisinho saudoso, acariciando os fios loiros com a ponta dos dedos antes de hesitar e afastar a mão, desacostumado a esses tipos de demonstrações abertas de afeto como era.
– Com os fogos do 4 de Julho né? – Dean sorriu discretamente, meio sarcástico, cruzando os braços e balançando a cabeça, pensando consigo no ‘Loiro!’ que o próprio Adam soltou quando viu que tinha mirado os fogos errado depois de acendê-los.
E ficaram em silencio mais uma vez. Com aquela sensação estranha de vácuo ao não ouvir o caçula gargalhando ao lembrar disso e mandando eles calarem a boca. Ou soltando um ‘viva a America’ em meio a um sorrisinho irônico tão parecido com o do primogênito.
Sam só pode baixar a cabeça, lembrando do irmão lhe ligando para contar isso naquele dia e xingando-o por não estar ali com eles naquele feriado, pois estava ‘com uma puta saudade’. Pois mesmo estando de férias, tinha preferido não voltar para casa naquele ano. Não tinha ido para o Natal, e nem mesmo voltara nas férias. Ficara lá em Palo Alto com sua namorada e os colegas de faculdade.
E era estranho, pensar que ainda que tivesse aproveitado todo o tempo que pode com Jess enquanto pode, havia deixado de lado a coisa que deveria ser mais importante do que tudo no mundo segundo seu pai: A Família.
E então toda aquela briga com Dean antes de partir para a faculdade pareceu fazer sentido agora. Não era sobre ter ou não ter um futuro, era sobre estar perto de quem amava e por quem era amado, afinal não sabia na época, mas eles não estariam ali para sempre. Tinha sido o jeito de seu irmão de dizer que estava jogando de lado algo que deveria ser mais importante do que tudo para si e por mais que pensasse que não era necessariamente assim, percebeu o quanto perdeu por simplesmente não estar por perto.
Foi sua vez de caminhar até a beirada da cama dele, sentando ao lado do corpo desacordado com o coração se contraindo como se quisesse dar um nó em si mesmo. E aquilo doía num grau físico enquanto lembrava com um sorrisinho dolorido de quando ele foi buscá-lo na estrada.
‘ Hey, bonitão! Precisando de uma carona?’
E teve que controlar uma risada sem humor de quebrar o silêncio ali ao pensar que precisava dele, isso sim...
Apoiou-se na parede, cruzando os braços outra vez sobre o peito enquanto via seu pai e Sam, cada um de um lado da cama do caçula com aquele maldito olhar. E, céus... Daria simplesmente qualquer coisa para que as coisas não fossem assim. Para que Adam estivesse em casa, irritando a todos apenas porque era seu aniversário e ele achava que isso lhe dava plenos poderes... Para ouvi-lo desobedecer o pai e ver o velho bater o pé no chão daquele jeito autoritário, na espera de uma resposta decente do filho, o que sempre o obrigava a dar um tapa em sua nuca. Ou ouvi-lo falar alguma besteira que fizesse Sam rir daquele jeito que só ele tinha, jogando a cabeça para trás exibindo as covinhas infantis nas bochechas coradas.
E lembrou das tantas vezes que chegava da oficina primeiro, cansado, e encontrava o irmãozinho na cozinha, preparando um lanche quase como se esperasse que fosse aparecer para roubá-lo para então protestar rindo.
‘Qual é Dean! Deu trabalho pra fazer!’
Nada era o mesmo sem ele ali. E a falta que ele fazia era tão escandalosa que nem mesmo precisavam de tempo para senti-la, porque Adam sempre parecia estar por toda a parte e agora simplesmente não parecia estar mais em lugar nenhum.
Foi, em todos os sentidos, um dia difícil. Ficaram juntos e tentaram aguentar firme como tinham que fazer, é claro, mas existem coisas que simplesmente são apenas difíceis demais. E de tudo, verem o pai beijar a testa do menino com os olhos úmidos demais e sussurrar aquele ‘parabéns filhão’, talvez na vã tentativa de não se fazer ouvir quando resolveram por bem que era hora de ir embora, foi de longe o mais difícil.
Voltaram para casa meio desnorteados, depois de esperarem John quase que uma hora inteira no hall do hospital enquanto ele ‘ia ao banheiro’.
E outra vez jantaram comida congelada juntos, numa tentativa de serem uma família ali. Mas durante todo o tempo, John parecia distante e perturbado, ainda que durante vários momentos da refeição tivesse olhado para os dois rapazes e sorrido num tipo de sorriso entre o orgulhoso e o abatido. E então quando tudo a volta parecia lembrar demais que as coisas não eram mais como deveriam ser e as cervejas da geladeira pareceram finalmente chegar ao fim, apenas se despediram com boas noites fracos e se recolheram, lá pelas 10 horas da noite, esperando que talvez essa noite conseguissem dormir alguma coisa, ainda que nem de longe esperassem mais por paz.
–--
O quarto estava escuro e os contornos pareciam estranhos. Era como se tudo estivesse mais esfumaçado, menos reto, mais obscuro.
Virou na cama algumas vezes, inquieto com a visão do quarto quando ouviu então o barulho do estrado de cima ranger daquele jeito seco, de leve, e suspirou aliviado àquilo, levantando da sua cama para chamá-lo na de cima.
Mas quando olhou para ela, não tinha nada ali.
– Me procurando?
Virou assustado para trás, dando de cara com ele ali.
– Adam, cara... Não me assusta assim! – murmurou meio sem ar, arregalando os olhos de um jeito que fez o outro rir.
– Você não devia se assustar comigo Sam!... Não vou te machucar. Não você... – ele disse e sorriu de um jeito doce, quase afetado para si. E, algo naquele sorriso... Sentiu algo horrível se apertar e contrair dentro do peito, confuso, pois naquele momento junto àquilo sentiu aquele instinto de correr ou atacar lhe tomar, ensandecido, urgente, como se ele fosse uma ameaça.
Não... Não era seu irmão ali.
Se afastou o máximo que pode, quase colando suas costas a estrutura de madeira e viu o sorrisinho forçadamente doce se tornar cínico antes dele cobrir quase toda a distancia entre eles, agarrando seu braço com força com os dedos quentes, enquanto passeava a outra mão quase que carinhosamente pelo seu rosto, causando aversão. – Dois já foram Sammy... – ele sussurrou com gosto, fechando os olhos por um momento, quase prazerosamente, pressionando suas bochechas com os dedos, obrigando-o a olhá-lo. E quando os abriu, era ele ali.
Os olhos amarelos.
E então finalmente acordou.
Suado, assustado, arfante, o corpo dolorido, tenso... E aquele maldito nó outra vez o impedindo de respirar. Sentando então na cama, ainda perdido.
Um pesadelo... Tinha sido só mais um pesadelo..., pensou tentando acalmar a respiração curta e descompassada, olhando à volta desamparado e secando o suor da testa com as costas das mãos trêmulas.
Mas quando olhou outra vez para o lado, o encontrou ali novamente, parado, o observando e sorrindo sarcasticamente, quase ao pé da sua cama.
Abriu os olhos de repente, acordando num susto, como se só tivesse voltado a respirar naquele momento. Puxando-o lenta e barulhentamente enquanto tomava, aos poucos, ciência das coisas à sua volta outra vez. Sentiu mãos quentes sobre seus ombros e tentou afastá-las ansioso, e só percebeu que era o mais velho ali quando ele o chacoalhou de um jeito definitivamente preocupado, chamando seu nome ansiosamente.
– Dean–... – gemeu dolorido, puxando o ar com força para os pulmões enquanto o mais velho apenas o olhava em silencio, passeando os olhos verdes por seu rosto atentamente, ainda apertando seus ombros com as mãos grandes.
– Hey... Olha Sam, foi só um pesadelo... Vamos, só mais um pesadelo. Já acabou... Já é de manhã. – deu um tapinha de incentivo nos ombros do mais novo antes de largá-los hesitantemente e se afastar apenas um pouco, incomodado, mas ainda assim preocupado em ver se ele realmente estava ali.
– E o pai...?
– Vou acordar agora. – desviou o olhar e pigarreou, coçando a nuca um tanto desconfortável. – Vai. Vai lá lavar essa cara, que tá toda marcada de travesseiro...
Não respondeu nada. Apenas concordou com um aceno frouxo e viu o irmão hesitar um segundo apenas antes de balançar a cabeça negativamente e sair do quarto, deixando-o sozinho para poder se jogar novamente na cama, suspirando alto.
Perturbado com mais aquele sonho.
–--
Mas quando levantou finalmente, seu pai não estava no quarto e, aparentemente, em lugar nenhum.
Dean havia checado, mas ainda assim procuraram-no outra vez pelo andar de cima, primeiro curiosos, para depois descer pelas escadas e checar o de baixo já preocupados. Quartos, banheiro, sala, cozinha, lavabo, quintal, porão e nada. Nem sinal dele.
Pensaram em talvez checar na oficina, mas a ideia não fazia sentido, afinal não tinha serviço a ser feito lá! Tinham liquidado tudo na véspera do aniversário do irmão. E quando discutiram sobre isso, em meias palavras apressadas, começaram a ficar realmente ansiosos sobre o que raios tinha acontecido.
– Talvez não tenhamos procurado direito.
– Pode ser. Olha, procura na garagem Sammy... vou ver de novo os quartos e banheiro. – respondeu em tom firme, vendo-o apenas concordar com um aceno rápido antes de sair a passos largos.
Ia mesmo fazer o que havia dito, mas resolveu procurar antes na lavanderia, onde não tinham olhado ainda. Nunca se sabia em que hora louca seu pai resolveria colocar panos de prato pra lavar, tentou pensar com calma. Mas quando passou pelo corredor da cozinha, percebeu algo largado sobre a mesa. Um papel dobrado às pressas que tinha passado despercebido pelos dois, na ansiedade de achar o velho.
E quando o pegou, viu que era uma carta. Largada junto com o diário de seu pai. E quando percebeu isso sabia que aquilo só podia não ser bom sinal.
“Simplesmente não consigo ficar parado vendo como ele está, imaginando qual de vocês pode ser o próximo e rezando para isso não acontecer. Precisamos de respostas, todos nós, e vou atrás delas. E isso pode demorar.
Cuidem-se direito e não tentem me localizar. É perigoso.
Deixo com vocês o meu diário e acho bom guardá-lo bem. Vou voltar para buscá-lo. (Caso não entenda Sam, significa que voltarei pra vocês, então, por favor, pelo menos tente não me odiar como sei que já deve estar acontecendo.)
Dean tome conta dos seus irmãos. Conto com você.
John.”
– Dean, a caminhonete não está na garagem!
– É porque ele foi embora.
– Ele o quê? – caminhou apressado para onde ouviu a voz do irmão e viu-o estático, cenho franzido, segurando uma folha de papel. E tudo o que conseguiu fazer foi tomar a folha das mãos dele ansiosamente, engolindo o bolo que subiu por sua garganta e comendo as palavras ali escritas, linha por linha. Amassando a carta com uma raiva doentia quando a terminou. Porque simplesmente não conseguia sentir mais nada, dor, tristeza, decepção, pânico, preocupação. Agora aquele maldito sonho fizera sentido. Mais uma vez: ‘Dois já foram’... – NÃO! Ele não-! Não podia-...! Merda, ele não tinha-...!
– Sam-... – tentou chamá-lo quando percebeu o rosto dele se avermelhar muito rápido enquanto se contraía. Ele parecia perturbado, completamente fora de si. Mas quando chamou-o, ele o olhou quase com ódio, jogando o papel no chão pouco antes de derrubar a mesa da cozinha também levando junto o Diário do pai, que quase como em zombaria, abriu na página do Adam. Causando um ataque de risos no mais novo, um riso irônico, amargo.
– Claro, o que mais podia se esperar meu D-...! Já tinha largado todos nós pra trás sem mais nem menos antes, porque não faria de novo, não é? Deus, como eu sou idiota! – falou rápido, alto, andando de um lado ao outro meio perdido, sem conseguir olhar pra qualquer outra coisa que não fosse aquele maldito diário no chão. Aberto com o nome do Adam bem ali.
– Sam-...
– Não Dean! Olha a MERDA de situação que a gente tá! Olha-... olha tudo que aconteceu com o Adam! Com a SUA família! – cuspiu o ‘sua’ com agressividade, sarcasmo.
Só... estava tão cansado de não se encaixar, de não pertencer aonde quer que estivesse! De bagunçar a vida de todo mundo sem nem mesmo querer e de ver tudo aquilo acontecer a sua volta. Por Jessica, Adam, sua mãe — as duas, aliás — e nem sabia por quem mais que tivesse sofrido ou mesmo morrido por sua causa. Por sua culpa.
Como raios poderia viver com isso?
E então seu pai simplesmente ia também? Sozinho, se pondo mais vulnerável ainda com aquilo? Talvez Dean fosse o próximo a ir também e, simplesmente por mais profunda e dependente que fosse sua ânsia por não ficar sozinho, nem mesmo poderia culpá-lo se ele quisesse ir embora!
Ficar longe da aberração que tinha destruído tudo que ele amava...
– Ele praticamente passou os últimos 3 dias bêbado como um gambá e agora simplesmente some assim?! Vai sair por aí sozinho, dar uma de desbravador, se pondo em risco à toa enquanto a família precisa dele?? O Adam está em COMA caralho! Mas, como ele não iria não é? ‘Encontrar respostas’... Não quer mesmo ser o próximo Dean? Porque realmente acho que a uma ÓTIMA ideia! Sério, como querem que eu engula essa porra de historinha de que isso tudo não é minha culpa? Porque, mesmo? Até onde eu sei, se eu não estivesse nessa porra de lugar, vocês TODOS estariam bem! Reunidos pra um almoço chato de sábado! Mas não! O cara sumiu! Deixou a gente pra trás DE NOVO sem pensar duas vezes e sem a menorpista de onde ele pode ter ido e ainda falando pra não tentarmos achá-lo! Será mesmo que realmente ele volta? Porque talvez ele só tenha entrado pro clube! E não sei se já percebeu que existe um padrão em tudo isso! E que esse padrão sou EU? – apontou para si e esfregou as mãos nos cabelos com ódio, andando de um lado para o outro enquanto vomitava frase por cima de frase descontroladamente. Sem linearidade ou sentido, apenas aquela fúria irracional e toda aquela maldita culpa. – Eu nem devia estar aqui, merda!... Porque se aquele cara-, o meu pai de verdade tivesse pelo menos sido homem o suficiente e realmente me matado como tanto queria, NADA disso estaria acontecendo! E pelo menos não estaria de novo sozinho nessa maldita casa, com você me odiando a cada maldito minuto que passa enquanto o seu pai está por aí caçando sabe-se lá o quê pra provavelmente ainda voltar todo fodido! Ou nem mesmo voltar dessa merda!-...
Interrompeu-se sem ar, surpreso, quando foi pego pelo colarinho bruscamente, suas costas acertando a parede com força, num baque quase oco.
– Cala-a-boca! – mandou entredentes, empurrando-o mais contra ela. – Olha o que tá falando do nosso pai!
– Exatamente! – sorriu irônico outra vez, segurando as mãos sobre seu colarinho com raiva. – SEU pai!
Bateu as costas do mais novo contra a parede outra vez, encarando-o intensamente. – Você não sabe o que tá falando, você não sabe de nada, então cala a porra da sua boca antes que eu arrebente ela! – empurrou-o uma ultima vez, soltando-o então. E saiu andando em direção ao corredor quando ouviu a voz quase partida do moreno às suas costas.
– Você me odeia lembra? Por que sempre segura a vontade que tem de me quebrar no meio hn? Olha a bagunça que a tua família virou por minha causa! Você sabe que eu nem devia estar aqui! Sempre quis me ver pelas costas mesmo e olha tudo o que aconteceu! Isso não te deixa puto Dean? – cuspiu as palavras de um jeito exasperado, seco. Não, não estava mais possesso. Mas então uma mágoa e cansaço tão grandes se fizeram presentes, corroendo-o de tal jeito, que nem mesmo se importou quando Dean voltou a prensá-lo contra a parede com força.
Ficaram se olhando por alguns momentos, tão perto um do outro que quase podiam sentir as respirações se misturando. E só quando as mãos firmes afrouxaram o aperto em seu colarinho, sem largá-lo, é que ouviu a voz conhecida soar baixo, tão perto como estava.
– Se você não percebeu ainda, você é toda a família que me resta agora no momento! Então para de dar chilique como uma cheerleader que engordou uma libra e aguente as pontas comigo, porque não vou segurar sozinho! – falou meio engasgado, vendo tão de perto aqueles olhos tão conhecidos rasos d’água talvez pela milésima vez apenas naqueles malditos 3 dias. Implorando silenciosamente por socorro.
– E quem falou que você alguma vez esteve sozinho Dean? – retrucou baixinho, cansado, negando com a cabeça e segurando-o pela frente da camisa também. – Eu sempre estive aqui! Você que fechou as portas pra mim.
– É. Fechei portas e janelas sim, mas elas são de vidro se não percebeu! Nunca teve uma droga de dia que eu não estivesse atento a você! – respondeu antes mesmo de pensar e prendeu o ar meio arrependido assim que o fez, umedecendo os lábios. Será que era incapaz de não dar uma fora? Super!...
– Então que deixasse aberto!
– E quem disse que eu podia?
Se olharam em silencio de novo. As respirações rápidas, quase se confundindo e teve que segurá-lo outra vez quando sentiu o corpo se afastar um pouco. – E por que não?
Não respondeu mais nada, apenas se desvencilhou do corpo maior, saiu andando para fora de casa cegamente. As chaves do carro em mãos.
Ainda tentou chamar Dean, seguindo-o quase desnorteadamente até o lado de fora da casa, mas ele simplesmente entrou no Impala e deu a partida. Sumindo pela rua à toda.
–--
Continuou dirigindo. Sem rumo. Não sabia para onde estava indo e no fim das contas nada disso importava. O rádio estava alto, mas não prestava atenção no que tocava, apenas andava pelas ruas, cada vez mais rápido sem nem mesmo perceber.
Whoa, thought it was a nightmare,
Lo, it's all so true,
They told me, "Don't go walking slow
'Cause Devil's on the loose."
Pensou em parar num bar, mas ironicamente não tinha vontade para isso. Só... Estava cheio. Entendia os motivos de seu velho — Deus como entendia! -, mas aquele aperto na boca do estomago não passava.
Tinham sido deixados para trás outra vez.
Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Whoa, Don't look back to see
Sam era tudo que realmente lhe restava no presente momento e apesar de não conseguir nem de longe se sentir satisfeito com isso, aquele maldito medo de nem isso ter também o perturbava. Tinha que cuidar dele, protegê-lo e estar por perto e só ele sabia o quão difícil aquilo poderia vir a ser para si.
Thought I heard a rumbling
Calling to my name,
Two hundred million guns are loaded
Satan cries, "Take aim!"
Porque não era mais apenas sobre convivência. Agora era pra valer. Questão de vida ou morte e seu pai tinha lhe dado essa tarefa: Cuidar deles.
E sabia que o faria com sua vida.
Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Whoa, Don't look back to see. […]
Bateu os dedos no volante e soltou o ar cansadamente, balançando a cabeça ao perceber que estava na Maine Street, rua do Lawrence Memorial Hospital. Porque antes, passar por ali simplesmente não significava absolutamente nada e sabia que se pudesse, faria qualquer coisa para que continuasse a não significar.
Parou o carro do outro lado da rua encarando a fachada do prédio. Talvez... estivesse dentro do horário de visitas ainda. Talvez desse tempo para dar uma passada, ver como Adam estava...
Não pensou duas vezes. Simplesmente desceu do Impala olhando atenta e discretamente à volta algumas vezes, aquela sensação de alerta entorpecendo seus pensamentos por um precioso e bem-vindo momento, e apenas quando concluiu que realmente ninguém prestava mais atenção nele do que o que normalmente prestariam é que bateu a porta do carro e atravessou a rua, entrando no edifício a passos apertados e parando brevemente na recepção para ser liberado para a visita.
Entrou no quarto de olhos baixos, fechando-os por um momento na tentativa de se preparar outra vez para aquilo. Era sempre uma sensação desgraçadamente horrível, ver o Dam ali daquele jeito. Deitado, quieto, inerte. Sem reclamações, sem vida, sem nada.
Angustiante.
E até o começo de barba se pronunciando sutilmente na pele clara dele parecia querer deixar claro que mesmo ‘fora da área de cobertura’, o tempo estava passando para ele também. Não mais um pirralho de 15, mas sim um de 16, perdendo o correr da própria vida, preso naquela maldita cama sabe-se lá por quanto tempo mais.
E, sinceramente, se perguntava quanto tempo mais será que ele poderia ficar ali. Quantos aniversários mais ele perderia. Será que ele morreria antes de acordar outra vez? De voltar pra eles?
Porra, que saudades que estava daquele moleque irritante... As coisas seriam tão mais fáceis com ele ali! Mesmo que fosse só pra ele dar chilique, exatamente como Sam havia feito... Ou talvez até pior, já que sabia que mesmo não querendo, Sam tinha motivos. De sobra, aliás...
Se aproximou mais da cama, olhando seu irmãozinho atentamente e engoliu em seco ao pensar pela nem-sabia-mais-qual-ésima vez que, não tinha ainda nem mesmo completado três semanas que Adam estava lá com eles, se fazendo presente até mesmo quando não devia. Fazendo bagunça, ou perguntando sobre o que não era da conta dele. Mexendo onde não devia, dando trabalho enquanto achava que estava cuidando deles e no fim só se intrometendo mais outra vez. Trancado no quarto colado no computador, ou preocupado com seus ‘grandes problemas adolescentes’ como escola, garotas, punhetas e espinhas.
Não... Talvez fosse até mesmo melhor que ele não estivesse lá para ver o que estava se tornando a vida deles. O que provavelmente se tornaria ainda...
– Vamos lá... o que você e o pai querem Dam? Quem vai me impedir agora de enfiar o punho na cara do teu irmão, hãh...? – murmurou baixinho para ele e tentou sorrir, esticando o braço em direção ao corpo inerte, mas não conseguiu. Quis acariciar o rosto conhecido, mas não teve coragem e recolheu o braço, cruzando-o com o outro à frente do corpo.
Era um pouco mais fácil — ou só menos difícil — de suportar enquanto não o tocasse. Ver tudo ali e não sentir fisicamente o quão real era, mesmo que já o sentisse demais de todas as outras formas. Sabia que enquanto conseguisse manter qualquer distância que fosse, suportaria ficar de pé e era só isso que importava agora.
Tinha que estar ali. Ser forte, não só por ele.
Tinha que cuidar da situação. Cuidar de Sam. Olhar por ele, mesmo que para isso tivesse de abrir as portas de novo.
Era o que seu pai queria. O que esperava dele como homem: Que cuidasse da sua família. Que olhasse por Adam sim, mas principalmente que cuidasse de Sammy.
Mas, Deus... Será que aguentaria?
‘É que não entendo. Você parece ter tanta raiva dele o tempo todo Dean! Que que ele fez?'
– Com licença... Está tudo bem? – não tinha percebido a enfermeira entrar no quarto e se virou para ela depressa, instintivamente, o cenho franzido em dor, pigarreando então e limpando os olhos rapidamente quando percebeu que devia estar lacrimejando.
– Uhum. Super! – respondeu meio ironicamente e olhou novamente para o mais novo. – Ele só está em coma... Podia ser pior, não é? Não tá mais aqui, mas pelo menos sobrou a embalagem pra olhar. Melhor que ter que mandar empalhar.
– Senhor-!...– teve que rir do tom de voz ofendido que ela usou, mesmo que não tivesse realmente achado graça. Talvez até mesmo o fosse, mas era algo meio difícil, ver graça em qualquer coisa no meio daquela merda toda.
Esfregou a ponta dos dedos nos olhos mais uma vez e arqueou as sobrancelhas. – Se fosse ele – falou meneando a cabeça, apontando para o lado com o polegar e virando o rosto novamente para o garoto antes de voltar a fitar a moça com um olhar vazio. – Teria rido da piada.
[…]Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Better run through the jungle,
Não ficou esperando resposta. Apenas saiu do quarto sem olhar para trás, passando reto por ela na porta. E por qualquer outra pessoa com quem talvez tivesse cruzado o caminho.
Whoa, Don't look back to see.
–--
Olhava para os lados perdido, as mãos inquietas migrando de bolso em bolso pelo jeans, ou procurando o tecido surrado das mangas de sua camisa, puxando-o com ânsia enquanto tentava conter aquele maldito nó que parecia querer explodir em seu peito e garganta, sufocando-o.
Queria conseguir manter a calma, pensar em alguma coisa que o livrasse daquela sensação constante de queda-livre — aquela sensação angustiante, como se tivesse caído num poço sem fundo onde tudo o que poderia fazer era esperar eternamente pelo momento em que seria dolorosamente esmagado contra o chão -, mas tudo o que conseguia era ter vontade de berrar de frustração.
Abandonados de novo. Só ele e Dean agora para segurar as pontas num lugar em que nada mais parecia seguro, e mais do que nunca, as coisas pareciam prestes a explodir entre eles.
Levou as mãos aos olhos, segurando a cabeça com força e soltou o ar com violência. Não entendia o que Dean tinha querido dizer com aquilo. Mas não conseguia pensar sobre isso também, pois os pensamentos pareciam escorrer de sua mente toda vez que sentia-se sobressaltar vergonhosamente a cada mínimo ruído que escutava.
Olhou à volta novamente. Fechou a porta da cozinha e encostou-se a ela com um suspiro dolorido, fechando os olhos. Deus, se era assim que pessoas paranoicas se sentiam... Aquela sensação de perseguição, por mais que quisesse evitar, parecia persegui-lo também.
Como raios seu pai conseguia se manter são no meio de tudo aquilo?
Recostou a cabeça contra a madeira maciça, ajeitando-se melhor e soltou o ar devagar. E sorriu de leve, quase lamentavelmente conformado, ao lembrar que tinha feito exatamente a mesma coisa quando praticamente brigou com a namorada, só porque ela estava andando pela casa com as pernas cheias de um creme depilatório horroroso com cheiro de ovo podre e havia caído na besteira de reclamar sobre isso com ela.
Ela tinha saído irritada, pisando duro e batendo a porta do banheiro e ele tinha feito exatamente isso: se encostado na porta e fechado os olhos, soltando o ar devagar para não se aborrecer com algo tão idiota como aquilo. Era nessas horas que ela explodia por nada que sabia quando ela estava na TPM ou mesmo quando estava deprimida.
E lembrar disso o fez pensar dolorosamente que nunca mais teria que lidar com aquilo.
Como podia? Há pouco mais de um mês ela estava lá, viva, feliz, largando os malditos sapatos no meio do caminho e reclamando do trabalho, carregando orgulhosamente no dedo seu anel de compromisso. Porque agora, cada vez mais, parecia que aquilo tudo nunca tinha existido? Que sua Jess não passava de uma fantasia distante, um sonho do qual acordou cedo demais.
– Céus... Como posso sentir falta até das nossas brigas Jess?... – murmurou para o nada e riu sem humor, passando as palmas das mãos sobre os olhos antes de abri-los finalmente.
Hesitou, mas pegou o celular no bolso da calça e passou o dedo pelas teclas suavemente, acessando a caixa postal mais uma vez como tantas outras naqueles malditos dias que precederam sua volta pra casa. Acessando as mensagens salvas.
– ‘Hey baby... Adivinha quem é. Tá, sem brincadeiras... Sam, desculpa mesmo por isso, mas estou na casa da Katlin consolando ela — de novo — pelo pé que levou do Brady... É, eu sei que já faz quase um ano, mas a garota não quer largar o osso! Então... Então eu tentei te ligar pra perguntar se você se importaria de deixar nossa comemoraçãozinha pra amanhã. Por favorzinho? Afinal de contas, não é todo mundo que tem a minha sorte não é mesmo? Mas... sério. Desculpa por isso tá? Juro que compenso depois, juro, juro, juro. Vai pensando em algo aí, mas já aviso que não vale sacanagem hein? Hahaha...Te amo, gigante. Muito.’
Desligou o celular meio anestesiado quando a mensagem terminou com aquele ‘piii’ irritante, ainda ouvindo ecoar aquela voz lhe dizendo aquilo. Deixava uma sensação desesperadora, mas ao mesmo tempo reconfortante ouvir outra vez aquela voz. Saber que era real. Que foi real, em algum momento.
Não estava mais ansioso. Nem preocupado, tenso ou confuso. Só... conseguia sentir um vazio profundo e estranhamente bem-vindo.
–... Eu também.
–--
Da mesma forma que dirigiu sem rumo e acabou parando no hospital, saiu de lá. Sem rumo.
Dirigiu a esmo, sem qualquer objetivo concreto, e por não querer voltar pra casa, fez o caminho mais longo possível, sentido oeste, pra não passar perto dela. Riu quando percebeu que o que era para ser apenas um desvio, o levou para Clinton Lake.
Desligou o carro sem maiores cuidados e pôs-se a caminhar, fazendo propositalmente exatamente o mesmo caminho que tinha feito com seu ‘irmão’ alguns dias antes.
Comprimiu os lábios com amargura, lembrando da conversa que tiveram aquele dia. Como é que Sam poderia acreditar que ele o odiava? Não fazia outra coisa desde que ele chegara a não ser ser vítima de sua boca grande e deixar escapar vez o outra o quanto ele realmente importava para si.
Dean suspirou, lembrando-se das sábias palavras de Bobby.
O problema não era Sam. O problema era ele. Tinha passado tanto tempo realmente tentando se convencer de que o odiava, que durante muito tempo tinha feito ambos acreditarem.
Só que o que ninguém entendia, era que ele não odiava Sam. O que ele odiava era o fato de que ele não era seu irmão...
‘...Cruzou os braços sob a cabeça e fechou os olhos tentando realmente dormir, mas a cena das mãos de Sam correndo afoitas as costas... invadiu sua mente impiedosamente.’
Porque se fosse, gostaria dele como gostava de Adam e jamais teria doído como doeu ver que Sam não era apenas aquele menino inteligente e adorável que todos imaginavam.
‘Eu odeio você!’
Mas Sam...
‘... Acabou Samuel!’
– Ah... Qual é!... – falou passando as mãos ansiosamente no rosto e chutando as folhas secas no chão. Tipicas folhas de outono, daquelas que recolhiam, eles dois, todo ano no quintal de casa apenas porque viam as crianças das casas vizinhas fazerem o mesmo.
Mas já estava esfriando e escurecendo ali.
Ao invés de ficar remoendo essas coisas — que a essa altura e com todos os acontecimentos recentes, deveriam ser insignificantes; Banais... -, devia ir para casa de uma vez, já que era o único teto que tinha.
Até porque, do jeito que Sam estava alterado era capaz de fazer uma besteira e sair andando por aí de novo como daquela ultima vez que tinham estado ali.
E pensando nisso, voltou para o carro a passos apertados, batendo a porta e arrancando às pressas dali.
–--
Jogou o aparelho celular em cima de sua cama e soltou o ar com força, evitando olhar para a cama de cima. Evitando pensar no pesadelo novamente, pois foi apenas entrar naquele quarto outra vez, que parecia a todo o momento que daria mesmo de cara com um Adam possuído.
Dar de cara com os olhos amarelos.
Olhou para o celular por um momento e esfregou a mão direita à boca impacientemente outra vez. Queria ouvir. De novo e de novo. Mas aquilo machucava e lhe enfraquecia e não podia se dar a esse luxo agora.
Deus sabia o que ainda poderia acontecer a seguir..., pensou com desgosto, baseado em suas experiencias anteriores com sua falecida noiva e mesmo as com Adam e precisava estar preparado.
E, Deus... Como devia ter ido embora naquele dia...
Se não tivesse ouvido Dean — e ainda não entendia direito porque o tinha feito — e tivesse ido embora, talvez realmente nada daquilo tivesse acontecido e Adam estivesse bem.
Poderia continuar com sua vida, mesmo que cheio de duvidas, de uma forma quase normal. Talvez nunca descobrisse ‘a verdade’ e mesmo que descobrisse, ao menos não o achariam tão rápido e não teria como envolver mais ninguém nisso. Sua família estaria segura, certo?
E não estaria sozinho naquela merda toda, do lado da única pessoa que não o queria por perto de jeito nenhum.
John pediu para Dean cuidar deles e sabia que ele o faria a todo custo, mas não era isso que queria. Não queria ser um peso para alguém que já não o suportava. Viver às custas de uma obrigação para ter pelo menos a sombra do irmão que teve um dia olhando por si.
‘Estou aqui Sammy... Pode dormir tranquilo.’
Porque, a quem queria enganar?... Por mais que lhe confundisse a cabeça, tê-lo ali, cuidando, zelando por seu sono... Por mais que procurasse as atitudes protetoras de um Dean que talvez não existisse mais nas atitudes do Dean que conhecia, talvez tudo aquilo fosse apenas mero reflexo do choque que foi perder Adam desse jeito. Logo logo passaria e tudo voltaria a ser como antes e então, seria cada um para seu lado. E esperar isso era quase pior do que esperar virem atrás de si.
Pensou naquelas imagens horríveis que alucinara antes de tentar ir embora da vez anterior quando pensou naquilo e mais uma vez o pesadelo lhe veio à cabeça.
‘Dois já foram Sammy...’
– Merda... – riu sem humor, inquietamente, quando sentiu cair por seu rosto uma lágrima. Descendo torta por sua bochecha, escorrendo por seu queixo. Secou-a com raiva, cansado de sofrer de auto-piedade.
Seu pai podia sumir atrás de respostas sem ligar para mais nada? Ótimo. Então também podia procurar as suas, pensou decidido. Resolvido a ir embora de uma vez.
Tornou a encher a mochila que tinha levado para a casa de Bobby, tirando apenas o porta-retratos que carregara consigo desde então. Não podia olhar para aquilo sem falsear em sua decisão e sabia que era o certo a se fazer.
E quando terminou, fechou tudo com cuidado e saiu. Caminhando decidido, desta vez sem hesitações. Sem rumo, exatamente como daquela outra vez. Mas desta, não teria nenhum Dean para impedi-lo de ir.
–--
Parou o carro em cima da grama mal tratada mesmo, batendo a porta com força e pressa antes de entrar chamando pelo mais novo.
Nada. Nenhuma resposta.
– Não, não, não, não, não... Você não fez isso não é Sammy? – murmurou para si ansiosamente, vasculhando todo o andar de baixo de uma vez. – Você não fez isso comigo! Sam? Sam! SAM!
Esmurrou o batente da porta da sala e se encostou a ela, tomando fôlego para subir para o andar de cima, correndo, decidido a procurar as coisas dele no quarto.
Mas quando encontrou o armário aberto e vazio e o celular e porta-retratos sobre a cama, virou prontamente para o corredor, descendo as escadas com a chave do Impala na mão.
Mas parou quando chegou ao último degrau, respirando fundo e sentando.
Acabou.
Ele tinha ido pra valer.
‘Ódio? — perguntou deixando as lágrimas escorrerem – É tudo o que mereço dos anos todos que venho sendo mais do que um irmão para você?... Não sabe o que é ódio! Mas vai saber; vai ter a exata noção daqui para frente! Acabou Samuel!’
– Realmente acabou não é...? – falou para si mesmo e entrelaçou os dedos, vencido.
Simplesmente ficou lá, sentado com as mãos na frente da boca, braços apoiados nos joelhos, sem saber minimamente o que fazer.
–--
Desacelerou os passos sem nem mesmo perceber quando chegou perto da esquina com a Rhode Island St, exatamente como da outra vez. Lembrando do Impala aparecendo no meio do seu caminho do nada e da voz mandona, quase seca, do mais velho ao percebê-lo indo.
‘Entra na porra do carro Sam. Agora!’
E ao lembrar disso olhou meio perdido para a frente, sentido oeste. Revivendo mentalmente o caminho pela Massachusetts St até a N1415 Rd ao som de AD/DC. Da parada em Clinton Lake. Da cerveja espatifada e daquelas palavras mais uma vez.
‘O que interessa, é que você não tem o direito de mais uma vez pegar a porra da sua mochila e sair da minha vida-... Nossa!...Da vida deles, inferno!’
Parou de caminhar antes mesmo que percebesse e esfregou os olhos cansadamente. Porque por mais que sua razão dissesse que não, queria tão fodidamente que aquilo realmente significasse algo!...
‘Se você não percebeu ainda, você é toda a família que me resta agora no momento! Então para de dar chilique como uma cheerleader que engordou uma libra e aguente as pontas comigo, porque não vou segurar sozinho!’
Mas tirou as mãos do rosto bruscamente ao lembrar isso. Ele não iria aguentar sozinho.
Deus, no que estava pensando! Como iria deixá-lo sozinho depois de tudo? Do caçula no hospital, do pai ter sumido de novo? Ia mesmo abandoná-lo pra lidar com tudo aquilo sozinho?
Uma mulher carregada de compras desviou assustada de si quando começou a rir em meio às lágrimas, parado à esquina com a mochila nas costas. Riu com gosto ainda que sem humor, ao perceber que não tinham escolha. Estavam juntos nessa e era assim que tinha que ser.
Não ia deixar Dean na mão na primeira vez em anos que ele realmente precisava de si...
Olhou para trás e viu a mulher, que o observava indiscretamente, apertar mais as sacolas de compras aos braços e virar para frente e mordeu os lábios ao pensar que não aguentaria mais um único dia com aquele clima entre eles mais comida congelada...
Bom, pelo menos quanto a um desses problemas, podia fazer algo a respeito...
–--
Escutou o barulho de chaves girando à porta e por mais perdido que se sentisse, sentiu o coração acelerar ao pensar que devia ser seu pai.
Levantou ansiosamente e abriu a porta de uma vez, surpreendentemente dando de cara com Sam ali.
– Hey... Esperando alguém? – ele comentou dando de ombros como se nem estivesse com a mochila nas costas e entrou, batendo a porta descuidadamente.
– Onde você estava?
– Fui comprar algo para comermos. Cara, percebeu que não tem nada que não seja congelado aqui?...
– E precisa das suas cuecas para fazer compras? – apontou com a cabeça para as alças nos ombros largos e viu o mais novo dar de ombros outra vez como se aquilo não fosse nada, tirando a mochila então e a colocando no sofá.
– Com fome?
Ficou assistindo ele ir para a cozinha com as sacolas e deu um sorriso de lado, aliviado. O primeiro verdadeiramente feliz em muito tempo.
– Morrendo! O que tem aí? Cara... Se for salada... – respondeu simplesmente, concordando com a mudança de assunto do mais novo e ouvindo com o coração mais leve o riso baixo vindo da cozinha.
– Vai cozinhar? Não. Então não reclama.
– Sabia! É salada...
– Vê se não enche!
Negou com a cabeça em desaprovação, mas não respondeu nada, ainda sorrindo de leve quando levantou e rumou até a cozinha, vendo-o tirar as coisas das sacolas com naturalidade. Encostou-se no batente da porta e quando o viu fingir que não o percebera ali, controlou uma risada baixa, debochada.
– Precisa de uma mão pra preparar a salada?
– Mac‘n’cheese... – corrigiu, revirando os olhos enquanto separava os queijos que ia usar para cozinhar na própria pia mesmo.
– Sério? Mac‘n’cheese, mr.Saudável? – mordeu a língua depois de soltar a provocação e encarou o olhar torto do moreno até como merecido, apesar de não ter gostado nem um pouco de recebê-lo.
– Por acaso prefere a salada? – retrucou impaciente, controlando um suspiro cansado. Tinha esquecido como ele conseguia ser irritante quando queria. – Não... Sério Dean? É isso que dá tentar achar um meio termo entre os meus gostos e os do meu próprio irmão?
– Não-... – franziu o cenho e suspirou discretamente, impedindo-se de continuar com o ‘...somos irmãos ok?’, mas pelo olhar decepcionado que recebeu novamente do mais alto, ele com certeza tinha lido nas entrelinhas. –... É isso ok? Mas sério? Você e queijo?
– Era meu prato preferido quando era pequeno. – respondeu ansioso, tentando fingir indiferença àquilo. Mas percebeu claramente como Dean parecera se controlar para não falar algo depois daquele ‘não’ e, bem, não era como se não conhecesse o discurso...
E, droga, aquela maldita tensão no ar de novo-...
– Até aí o meu era ovos mexidos com calda de chocolate e não é mesmo como se eu fosse querer mais comer isso de novo um dia, não é? – retrucou impacientemente também, mas apenas desistiu de continuar a discutir sobre aquilo. Mal tinham voltado e já estavam discutindo sobre idiotices?
E vamos lá... Mac‘n’cheese nem era tão mau assim...
– Ok, se não quer comer, fala! Fazemos outra coisa, merda! Comemos comida congelada de novo, sei lá!
– Tá brincando...? Depois de toda essa sua defesa ao bendito do macarrão?
– Dean-...
– E não é prioridade só sua não, ok? Mac‘n’cheese é o prato favorito de qualquer criança. – cortou-o de propósito e sorriu ladino ao vê-lo suspirar derrotado. – Vai querer a porra da mão ou não?
– Não. Cara...Vai pra sala! Quanto tiver pronto eu chamo.
– Treinando os dotes de esposa Samantha?
– Dean-!
– Tchau.
–--
Não era como se as coisas entre eles realmente estivessem bem, mas de alguma forma... Passaram bons momentos juntos naquela noite, pela primeira vez em anos. Comendo em silencio em frente a TV mais uma vez, apenas para não terem que conversar sobre o que quer que fosse.
De algum jeito aquilo entre eles desviou suas atenções dos problemas à volta e mesmo que fosse estranha, aquela sensação de que a qualquer momento John chegaria cansado e sujo de graxa, ou mesmo que Adam correria escada abaixo reclamando que eles não o chamaram pra jantar, ainda assim as coisas pareciam menos difíceis com os dois juntos do jeito que dava.
Mesmo com algo ainda quebrado entre eles.
Resolveram ir dormir não muito depois do jantar e subiram juntos as escadas em silêncio também. E quando chegaram próximo às portas dos quartos, pararam quase que ao mesmo tempo, se encarando desconfortáveis com aquilo.
– Ahn... Boa noite... então. – estranhou dizer aquelas palavras pro mais velho e sorriu meio sem-graça, dando de ombros, enquanto o outro apenas coçou a nuca em silencio e deixou a mão pender pesadamente ao seu lado antes de encará-lo.
Há quanto tempo tinham deixado de se desejar até mesmo um simples ‘boa noite’?
– Obrigado Sam.
– Obr-..? Po-por quê?
– Por não ter ido embora desta vez. – murmurou sério e o encarou, mas ergueu as sobrancelhas de um jeito jocosamente orgulhoso à cara de bobo do mais novo e sorriu discretamente. Era estranho depois de tanto tempo, simplesmente sorrir para ele sem ironias, ou provocações maldosas. Afinal, bem ou mal eram praticamente 9 anos de estrago na relação deles.
– Eu-... – olhou perdido para o irmão, sem saber o que falar e sentiu-se idiota por querer chorar ao vê-lo sorrir sem malícia ou provocações implícitas. Apenas aquele ‘eu sei’ escrito no fundo dos olhos verdes.
Mas ele só balançou a cabeça e deu um passo para trás, baixando a vista por um momento, como se tentasse controlar algo.
– Boa noite Sam.
Virou de costas e caminhou para o quarto sem olhar para trás, perdendo o sorriso confortado do moreno antes dele fechar a porta do quarto exatamente como ele próprio fez em seguida, encerrando de vez aquele loongo dia.
–--
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