The Outsiders
14 Chapter XIV – ROAD TO NOWHERE
Notas iniciais
Sinto muito pela ausência prolongada, mas para qualquer um que se digne a ler as notas iniciais do capítulo novo de Mad Love, entenderá que da parte da minha co-autora, roteirista, minha luz-guia Lothus, os motivos definitivamente foram de força maior. De minha parte, apenas resta dizer que sinto muito.
Tive também minhas situações (nem todas ruins) para explicar a ausência, mas eu como leitora também, sei como é desesperador esperar e esperar sem perspectivas por um novo capítulo e não desejo isso para ninguém, mil perdões.
Por isso mesmo, além de dedicar novamente este novo capítulo à parceria campeã Lothus&Maru, à qual só tenho a agradecer de todo o coração, dedico este capítulo à todos vocês. Obrigada por não perderem a esperança.
TO continua, mais forte do que nunca! Aguardem e verão!
Passaram a primeira semana de outubro — e primeira após a partida de John — em relativa normalidade, ainda que fosse verdadeiramente estranho estarem apenas eles dois naquela casa, parecendo a todo o momento que encontrariam o pai ou o caçula em algum cômodo, ou que eles entrariam pela porta como se nada daquilo realmente tivesse acontecido.
Dean reabriu a oficina, mas resolveu não pegar nenhum serviço muito grande e ou que demandasse tempo, pois intimamente algo lhe dizia que não ficariam ali por muito mais tempo.
E, estranhamente, ele e Sam estavam de verdade num momento de trégua, desta vez realmente pra valer. Depois daquele dia em que Sam simplesmente resolveu voltar para ele — pois sabia que ele tinha resolvido sim ir embora -, estavam mais... Cordiais... talvez, em seu relacionamento, mesmo que talvez ‘relacionamento’ ainda fosse uma palavra forte demais para descrever o que estava surgindo ali.
Mas claro, sendo quem eram, as faíscas continuavam saindo, normalmente com tudo, e tudo o que podiam fazer para evitarem tornar as coisas ainda mais complicadas ali era ir para o seu lado. Sair do cômodo. Ler, mexer no computador, ver TV... Qualquer coisa. Ir atrás de qualquer coisa, qualquer forma de distração, evitar qualquer contato com o outro enquanto os animos iam altos a fim de evitar ainda mais brigas.
Passaram dois dias inteiros assim com relativo sucesso. Sem agressões, sem berros. Apenas se evitando quando necessário e interagindo quando inevitável. Um tentando esquecer o papel que o outro desempenhava em sua vida na maior parte do tempo e talvez, talvez, quase agindo finalmente como irmãos.
No terceiro dia de ‘normalidade’, depois de mais uma noite longa demais de pesadelos, Sam finalmente acordou, sobressaltado, suando frio, e foi tomar banho numa tentativa de acalmar os ânimos. Tentou demorar o mínimo possível, ainda que sua vontade fosse a de se esquecer embaixo daquela água, tentando imaginar que aquilo tudo, aqueles malditos pesadelos com Adam, com seu pai e com Dean, escorriam ralo abaixo junto com a água que banhava seu corpo e quando desceu à passos lentos — cabelos ainda molhados, tomando tempo para dissimular aquela sensação horrível, remanesceste do pesadelo -, sentindo cheiro de café fresco, encontrou Dean sentado à mesa com uma caneca de café puro em mãos e vários jornais velhos e mal cuidados espalhados sobre a mesa.
Parou curiosamente atrás dele, apoiando-se ao encosto da cadeira e se inclinando sobre seu ombro esquerdo, quase sentindo seu pulso encostar no tecido da camisa do mais velho enquanto olhava o que ele lia com tanta atenção. E percebeu então que todos os jornais ali largados eram datados do mês passado para trás e possuiam matérias circuladas ou mesmo apenas rabiscadas em caneta.
Todos jornais de diversas regiões do estado afora.
Serviu-se de café também sem prestar muita atenção ao que fazia e puxou uma cadeira para si, virando-a com o encosto para frente para poder se apoiar, enquanto sentava ao lado dele para ler algumas das matérias circuladas.
"Jovens vão acampar em Black Water Ridge,Colorado e desaparecem. Segundo informações da CFA (Colorado State Forestry Association), os locais dos acampamentos sugerem ataque de animais grandes, provavelmente ursos. Sem pistas sobre os jovens, a polícia lida com a hipótese de empreender buscas em resgate dos corpos."
"Universitário é encontrado morto e pendurado de cabeça para baixo sobre o próprio carro em Iowa. A acompanhante afirma não ter visto o atacante por este ser ‘invisível’, e que puderam ouvir antes da tragédia o barulho de algo metálico e cortante arranhar a lataria do veículo e placas de sinalização próximas ao local.
Segundo verificação feita por peritos, elas foram arranhadas por algum tipo de objeto obliquo cortante, pontiagudo e grande, tal qual uma foice.”
– Mas o que-...? – franziu o cenho, murmurando confusamente. Estranhando sinceramente o tipo de notícias que haviam sido grifadas ali e arrancou, num movimento brusco, uma das páginas dos jornais espalhadas acima das outras à frente do irmão, ignorando o ‘Ow!’ surpreso e contrariado que Dean fez quando teve que se inclinar pra trás para sair do caminho. – Desde quando gosta de matérias sensacionalistas Dean? Aliás, desde quando você ao menos lê jornal?
Olhou-o de esguelha, palpebras apertadas numa expressão torta, e respirou fundo fechando os olhos depois daquele último comentário do mais novo, contendo com relativo esforço uma resposta bem deseducada. O que diabos ele pensava que era?Um maldito ogro?
– Não fui eu que marquei estas notícias Sherlock. Estes jornais estavam no quarto do pai. E a propósito: É. Eu sei ler sim, obrigado. E é, faço uso dessa habilidade também se quer saber, inclusive lendo jornal. ...Às vezes.
Percebeu a nota de irritação pungente no tom baixo do mais velho e teve que conter uma careta ao ouvi-lo, parte — admitia — por vontade de rir, parte por ter sido sarcástico com o irmão. Mas era inevitável se provocarem, não estava mais do que devolvendo o favor. – E posso saber por que está olhando isso?
– Estava procurando as palavras cruzadas, o que acha Einstein? Por acaso notou as datas dos jornais? – indagou impacientemente, virando-se parcialmente para o mais novo. E quando recebeu um aceno positivo meio incomodado, continuou. – Não acha meio esquisito que o pai tenha estes montes de jornais guardados com matérias estranhas circuladas?
– No que está pensando? – virou-se meio de lado e perguntou seriamente, mesmo que já estivesse seguindo o raciocínio do mais velho.
– E se não for sensacionalismo? E se for manifestação sobrenatural ou como quer que seja que chamam essa droga?
–... E o pai vem guardando estes jornais... Pra ver o quão perto de nós estas coisas estavam...
– Bingo.
– Acha mesmo que-, todos esses anos -...? – não conseguiu sequer terminar, comprimindo os lábios enquanto olhava para o irmão meio perdido.
– Acho. E quer saber da maior? Achei jornais de todos os lugares possíveis da California no meio de tudo isso também! Montes.
Franziu o cenho sem ação ao ouvi-lo, devolvendo então apressadamente o jornal que pegara, remexendo nos outros sobre a mesa ansiosamente até encontrá-los. E sim, tinham vários:
The Californian, Coast News, Pasadena Weekly, Modoc County Record, Porterville Recorder, East Bay Express, McKinleyville Press, Daily News, Los Angeles Times, Lodi News-Sentinel, Valley Sun, Glendale News Press... Várias edições e jornais ao longo de todo o estado.
– Que... loucura! – comentou baixo, meio sem ar, lendo distraidamente uma das várias matérias sobre as tais tempestades elétricas que tinham surgido do nada por toda uma semana antes da morte de Jess nas proximidades de Palo Alto. Sabia já da existencia delas, aparentemente um homem havia morrido por conta disso. Mas não tinha até então noção da repercussão da coisa e algo de ruim despertou novamente em seu peito ao ler aquilo.
– É, nem fale. Só não sei como ele conseguiu esconder isso da gente todos esses anos... – comentou pensativo, evitando olhar demais para a expressão quase perdida que tomou o rosto compenetrado do mais novo, que sequer desviou os olhos do que tinha em mãos para sinalizar que o ouvira. Tomou um gole longo de café, desejando poder ter algo mais forte em mãos ali.
Continuou lendo, uma, duas, três, quatro matérias aleatórias de jornais diferentes, todas sobre as tais tempestades e mordeu a parte interna da boca, levantando o olhar lentamente para o mais velho, incerto em meio àquele silencio opressor. Pensando confusamente, entre outras coisas, talvez pela 20a vez apenas nos últimos dois minutos em como raios seu pai poderia ter vivido daquele jeito por tanto tempo.
– Hey, Dee? – hesitou por um momento, baixando a vista de novo e olhando para os lados sem certeza se deveria falar ou não. – Acha... Acha mesmo que ele agiu certo? Quero dizer, de esconder todas essas coisas da gente?
Buscou instintivamente os olhos dele quando ouviu chamá-lo novamente por aquele apelido carinhoso e tão dele depois de tanto tempo e por um momento angustiante, quase pode ver aquele seu Sammy de 13 anos à sua frente de novo. Mas ele, aquele Sam, sequer pareceu ter percebido o que tinha dito quando o encarou de volta inquieto.
Engoliu em seco e desviou o olhar concentrando-se na resposta.
– Acho. – disse e suspirou brevemente, largando os jornais de lado para poder virar de frente para o outro. – Sabe Sam... sei que está puto com o cara e ok, até um certo ponto concordo com você.Mas... Para um pouco também e olha o lado dele! Caramba, ele tentou ir atrás do que fez mal às nossas mães e nós corremos riscos! Ele fez o que achou que era melhor pra gente, mas nunca, em nenhum momento, nunca nos deixou sem ter como lutar ou descuidou da vigilância. Eu no lugar dele, pelos meus filhos, minha família, faria exatamente o mesmo.
Ouviu-o quieto e se ajeitou melhor na cadeira, meio de lado, virando-se de frente para ele também, próximo, torcendo as mãos uma na outra sobre o acento da cadeira.
–Dean, todos aqueles jogos, aquelas gincanas de resistencia, testes de memória, aulas de tiro, de arco-e-flecha, textos em latim... Sério, talvez tenha razão. Juro. Mas e então? E depois que crescemos? Por que raios continuar mentindo? – disse tudo num único folego, rápido, e não percebeu quando seu tom mudou de quase compreensivo para aborrecido, mas terminou cruzando os braços cansadamente sobre o encosto da cadeira novamente, quase encostando o peito no mesmo.
– Porque NÓS crescemos Sam, mas ainda tinha o Adam. E você sabe que o Dam é pior que eu você juntos, não sabe? – disse com a voz baixa e sorriu um pouco, lembrando saudosamente do caçula por um momento quase doce. Era difícil. Aquela saudade doía.
– E acabou que não resolveu nada, não é mesmo? Olha como ele está agora! – não conseguiu evitar a irritação e o sarcasmo novamente numa risada breve, anasalada e sem humor, baixando as sobrancelhas numa expressão de descrédito e negando discretamente com a cabeça.
– Sam, aquela coisa POSSUIU o Adam! Entrou nele sei lá eu como e muito menos em que momento, mas mesmo que soubéssemos de tudo, estas coisas são fortes e espertas, são verdadeiras aves de rapina. Acha mesmo que elas não aproveitariam a primeira brecha que dessemos pra nos por exatamente na mesma situação?
Forçou um pouco mais o aperto dos braços e revirou os olhos, suspirando cansadamente. E por fim, apenas concordou com a cabeça. Não tinha o que se falar. Dean tinha razão e mesmo que soubessem como impedir isso, era de Adam que estavam falando e ele poderia ser tudo, menos cuidadoso.
Seu pai tinha dado tudo o que podia, fez o seu melhor por eles, tentando preservá-los e protegelos de todo aquele mal à espreita, e se fosse sincero o suficiente, mesmo que não pudesse evitar sentir como se tivessem sido enganados, admitiria que nem mesmo conseguia imaginar o horror que seria crescer no meio daquela loucura, de qualquer forma.
– E então... Acha que além de monitorar o que estava acontecendo ao redor da gente também é assim que se ‘fareja’ um caso? – perguntou coçando distraidamente atrás da orelha, amainando o tom de voz, antes duro e repreensivo. Mudando de assunto e voltando a olhar os jornais à sua frente.
– É provável... – concordou engolindo mais um suspiro e olhando brevemente para os papéis espalhados antes de voltar a olhar para o loiro, esquecido da caneca semi-cheia de café. – Bom... Sei que sabemos quem pode nos dizer com certeza, não é?
–--
O mais velho ligou então para Bobby ainda naquela tarde de sexta-feira. E foi amorosamente coagido a contar tudo o que tinha acontecido desde sua saída de Sioux Falls. Do diário, do reencontro com o pai e do tempo que passaram juntos antes de John simplesmente ir embora outra vez, pelo menos deixando desta uma carta. E Bobby apenas grunhiu alguma coisa antes de comentar ironicamente como essas ‘saídas dramáticas’ sempre foram a cara de John.
Ignorou o comentário do velho com um sorrisinho conformado e prendeu um suspiro cansado antes de respirar fundo e finalmente perguntar o que realmente queria saber.
– Hey Bobby, eu só queria saber que tipo de padrão precisamos seguir pra encontrar onde e quando acontecem...essas coisas?
– Deus!... Vocês realmente não sabem NADA ainda? Como acham que vão durar 1 dia que seja, se puserem esses traseiros pra fora de casa desse jeito, moleque?– revirou os olhos ao ouvir a exclamação impaciente do outro lado da linha e fez um sinal de desprezo com a cabeça quando Sam o interrogou silenciosamente.
– Deixa que com isso nos preocupamos nós aqui, ok? Só responda.
– Claro, pra que me preocupar se as donzelas querem se por em risco. Sabe, não costumo concordar com nem uma única palavra do que seu pai fala, mas se ele disse pra não tentarem ir atrás, vocês cabeças ocas já pensaram que talvez, só talvez, ele tenha um motivo?
– E alguém disse que estava indo a algum lugar Bobby? Só responde logo a maldita pergunta!
–Hn, claro... É bom que saiba que o único que está fazendo de idiota aqui é você mesmo Dean! Agora, ao menos as bonecas aí lêem jornal? Ou só ligaram mesmo pra infernizar a minha vida?– engoliu em seco ao tom repreensor do velho e pode ouvir o barulho de panelas e de outro telefone tocando ao fundo, mas exatamente como ele, ignorou-os. Ele bufou outra vez.– Vamos lá: 90% de qualquer coisa sem explicação que se lê por aí, está relacionado ao sobrenatural. É isso. Então, se querem mesmo por os traseiros de vocês em perigo, divirtam-se!
– Ok... Bom, é mais fácil então procurar alguma coisa normal, porque pra mim tudo parece estranho e anormal. Por isso mesmo que nem leio jornal! – resolveu ignorar o tom de voz contrariado do velho e toda sua bronca e brincou ainda, sorrindo ladinamente com alívio ao perceber que é, era aquilo mesmo, ridículamente simples assim.
E tentando, também, descontrair a conversa com o outro, que parecia ainda mais tenso e mal humorado que o normal. Mas viu Sam franzir o cenho, negando com a cabeça enquanto Bobby soltava o ar pesada e impacientemente do outro lado da linha.
Deu de ombros pro mais novo, franzindo a testa sem entender a cara de ‘ai’ dele e ouviu pelo telefone o barulho de algo sendo tirado do gancho com violência, interrompendo o toque irritantemente agudo que soava à distancia.
– À mim já parece anormal você saber ler, mas enfim...
– Se você sabe por que eu não posso também? – retrucou de bate-pronto, estranhando a grosseria não usual, até mesmo para ele, e percebeu o moreno se aproximando à passos lentos enquanto sorria meio de lado cretinamente, se divertindo, mesmo que não devesse, com o humor de cão do amigo do pai.
– Tá, certo... Esquece. Você é filho do John.
Teve que rir a isso e coçou atrás da orelha no celular ao praticamente sentir o halito do mais novo ali, provavelmente tentando captar algo do que o velho falava. Olhou torto para ele e viu-o perguntar mudamente o que Bobby tinha dito, mas só deu de ombros, meio tenso e incomodado com o excesso de aproximação e respondeu um ‘nada’ igualmente mudo e visivelmente ansioso, dando um passo para frente, se afastando.
– Ok, valeu pela ajuda Bobby...
– É bom que me liguem avisando pra onde estão indo e que gritem bem alto caso precisem de ajuda, está me entendendo moleque?
– Ninguém disse que está indo pra lugar algum, disse?
– Não vou me dar ao trabalho de fingir que acredito nesse lixo. Entendeu o que eu disse não entendeu filho? Continuem com o bom trabalho colocando o tico e o teco para conversar e liguem. Vou estar aqui.
– Ok. Valeu mesmo Bobby... – não conseguiu evitar que um sorrisinho pateticamente carinhoso se formasse em seus lábios ao ouvi-lo.
Virou-se completamente de costas para que Sam não percebesse aquilo enquanto desligava o aparelho com movimentos amplos e lentos numa tentativa de conseguir tempo o suficiente para sumir com aquele sorrisinho estúpido antes ter de se virar outra vez pro mais novo e explicar tudo o que ouvira.
–--
Depois da conversa com Bobby e da subsequente com Sam, o mais velho resolveu dar uma geral no quarto do pai em busca de outras coisas — qualquer coisa - ligadas a caça, embora duvidasse que seu velho tivesse deixado algo mais para trás.
Mas quando chegou ao aposento novamente depois da empreitada que ocasionou todo o episódio dos jornais, percebeu novamente que o quarto em si estava uma zona e que qualquer coisa mais que fosse se aventurar a procurar ali, demandaria tempo.
Resolveu então que talvez fosse melhor mexer nele no final do dia depois que a oficina fechasse, pois já estava mais do que na hora de abrir.
Não que Sam tenha parecido gostar disso, mas ao menos sequer abriu a boca para contestar.
Ele veio junto, como nos ultimos dias. Mas após quase uma hora e meia de volta à oficina, ouviu Sam suspirar cansado, já que não tinha lá muito que se fazer por ali além de reorganizar mais uma vez toda a papelada que já fora reorganizada pelo menos umas 5 vezes apenas naquela semana, ou mexer naquele computador arcaico que mais parecia uma máquina de escrever com uma tela.
Claro que tinha notado o desanimo dele, e talvez por isso mais do que qualquer outra coisa, se rendeu àquele impulso e levou o Impala até a oficina chamando pelo mais novo com uma buzinada alta que, de longe, pareceu assustá-lo para sua diversão.
–Hey Sammy, já que o movimento está fraco, acho que está na hora de lembrar um pouco sobre carros. O que acha? – disse alto quando ele se aproximou com a expressão amarrada.
– Isso é realmente necessário? – perguntou em tom pedinte, visivelmente entediado, cruzando os braços enquanto via o irmão levar um dos proprios para fora do vidro do carro, encostando a cabeça no banco.
– Sempre é! Nunca se sabe o dia de amanhã.
– E daí? Você está aqui de qualquer forma! Sempre está. – retrucou aborrecido, encostando o corpo em ar contrariado à lataria preta do carro, próximo à porta do motorista.
Teve que conter um sorrisinho involuntário à muito custo ao ouvir aquilo. Desencostou-se do banco, ajeitando-se melhor e coçou a nuca, retomando o assunto. – Ok, e se eu não estiver? Quer um exemplo?... Lembra dessa ultima vez quando fomos para a casa do Bobby? E se eu não estivesse lá e desse aquele problema, o que você faria?
– Rebocaria? – nem mesmo pensou na resposta, apenas perguntou de forma obvia, dando de ombros e viu Dean revirar os olhos, massageando as têmporas como que pedindo paciência.
– E se estivesse numa caçada? Ia ficar sem carro? A mercê do que estivesse te seguindo?
– Não é como se fosse dar tempo de consertar o carro e fugir de qualquer forma... – desdenhou com um arquear de sobrancelhas, encarando o rosto conhecido que se franziu impacientemente.
– Cara, como você é chato!
– Não sou chato, Dean, só estou sendo lógico.
–Logicamente chato! Que saco! Pelo menos você poderia querer saber a diferença entre o carro dar pau e acabar a gasolina, não é? – umedeceu os lábios irritadamente e tamborilou o volante, vendo o mais novo olhá-lo por um segundo antes de se esticar para dentro do vidro, colocando o dedo sobre o painel do carro.
– Fica marcado aqui no medidor de combustível. – respondeu sério batendo o indicador sobre o painel duas vezes e voltando a olhar para o irmão, mas no fundo estava meio que se divertindo com aquilo. Se afastou depressa quando a porta veio com tudo em sua direção.
– Ok, desisto! – exclamou completamente impaciente, saindo do veículo e batendo a porta contidamente para não descontar em sua belezinha aquela vontade que estava de esmurrar Sam e sua droga de lógica idiota. Super! Isso que dava dar uma de molenga e se importar com aquele...chato-engomadinho-e-irritante! O que diabos achava que estava fazendo...?
Assistiu o irmão dar a volta pelo Chevrolet a passos duros e parar em frente ao motor e coçou a sobrancelha um tanto desajeitadamente, hesitando por um momento. Mas ao fim, deu de ombros e se aproximou novamente do Impala à passos lentos, tocando o ombro do mais velho de leve e sorrindo quase imperceptivelmente em sinal de paz. O que o fez suspirar e menear a cabeça, lhe lançando um olhar nem tão verdadeiramente enviesado assim, antes de abrir o capô do carro.
Também não custava relembrar algumas coisas não é?... Afinal, o pouco que sabia, tinha aprendido com Dean — uma vez que seu pai nunca foi exatamente um professor muito paciente -, antes de tudo simplesmente mudar entre eles. E tinha que admitir que, do que lembrava daqueles momentos, definitivamente não eram memórias ruins. E de algum jeito, fazer aquilo, ali, parecia significar algo.
Na verdade, do que se lembrava, tinha quase certeza de que gostava muito de passar as tardes sujo de graxa com o mais velho segurando sua mão para lhe ensinar a sentir o carro.
Ficaram lá, aproveitando o movimento fraco e só cerca de duas horas depois um cliente apareceu na oficina pedindo para verificar se havia algum vasamento de óleo ou algo assim, pois o carro estava consumindo demais.
E, sinceramente, teve de se lamentar intimamente por ter de parar com a ‘aula’, pois tinha de admitir que até que não tinha sido tão inútil ou cansativo assim, ainda que tenha sido obrigado a tirar a camisa que vestia por cima da regata branca por conta do calor.
Na verdade, havia sido o momento em que se sentiu mais próximo à Dean em anos e aquilo tinha sido assustadoramente bom.
Depois disso, somente mais uns dois clientes apareceram até a hora do almoço e entraram para tomar um lanche rápido antes de voltar ao trabalho, inegavelmente menos tensos na presença um do outro, mesmo que igualmente silenciosos.
Um dos carros deixados pela manhã o mais velho deixou para trabalhar depois do almoço e para sua própria surpresa, se viu ajudando de boa vontade e até que com mais jeito do que realmente esperava pra um principiante. E, tinha que admitir que trabalhar em silencio, ouvindo aquelas músicas que o irmão tanto adorava e vê-lo trabalhando com um sorrisinho ladino, lhe encarando vez ou outra apenas para saber como estava indo... Realmente aquilo o fazia se sentir quase próximo a ele outra vez, quase seu irmão de novo, e aquela sensação mesmo que talvez fosse mentira, era tão reconfortante...
A tarde caiu praticamente sem que percebessem e quando Sam resolveu entrar para tomar um banho com uma expressão de desgosto no mínimo cômica sobre toda a graxa que lhe cobria de cima a baixo, Dean o despachou mais amigavelmente que o comum, ainda que tenha preferido permanecer na oficina limpando e ajeitando tudo enquanto esperava o dono do carro vir buscá-lo antes de ir também.
Nenhum deles comentava a respeito, mas era sempre meio estranho estar em casa. Vê-la vazia.
E mais por estar de saco cheio de ficar enfurnado ali do que qualquer outra coisa, Dean resolveu, um tanto desajeitadamente, convidá-lo para ir comer fora. Claro, nada parecido com um encontro, pelo amor de Deus!Ah... pronto!De onde raios tinha tirado aquela porra de idéia?
Devia ser da cara de virgem tocada que Sam fez quando fez o bendito convite... Isso porque ainda acabaram quase discutindo sobre onde iriam, pois Sam estava inclinado a irem ao ZenZero , restaurante de comida Asiática, mas pessoalmente, queria realmente algo menos exótico e mais ‘vermelho’ como The Free Statee suas cervejas. Principalmente porque as garçonetes do ZenZeronem ao menos eram ou mesmo usavam aquelas roupas orientais sexys...
E quando voltaram à noite — sentindo ainda mais a estranheza que era voltar para aquele lugar vazio, pesado -, estavam realmente tão mais cansados que nos dias anteriores... Mas ainda dispostos a dar uma boa olhada no quarto do pai em busca de qualquer coisa que fosse. Qualquer uma.
E foi o que foram fazer.
Não que tivessem achado realmente nada de anormal por lá numa primeira análise e, sinceramente, ambos estavam impressionados com a habilidade de seu pai de encobrir rastros, porque tirando os jornais, era mais fácil acharem um texugo lá dentro do que pistas. Mas ainda assim continuaram com o pente fino, revirando todos os lugares menos prováveis com uma atenção e dedicação que deixaria qualquer investigação policial de queixo caído. E só depois de quase uma hora e meia revirando o comodo, desmembrando móvel por móvel, é que resolveram por bem dar uma olhada de verdade no guarda roupa praticamente vazio do velho. Desta vez literalmente de cima à baixo.
Sem nenhum sucesso.
Já estavam quase desistindo quando Dean notou algo parecido com um documento preso no fundo do móvel, emperrado atrás da ultima gaveta. Pegou o documento curiosamente, tentando não danificá-lo, e quando o conseguiu puxá-lo, notou que a foto era sim de seu pai bem como o primeiro nome, mas definitivamente o sobrenome não.
‘John Michel Costner?’ Sério? Arqueou a sobrancelha ao ler aquilo. Seu pai tinha queda pelo Kevin Costner?
– O que achou? – perguntou se aproximando de Dean ao notar a expressão estranha no rosto do irmão, que parara de revirar as coisas, perdido em pensamentos. Baixou-se ao seu lado largando a pasta de contas da oficina que encontrou nas gavetas do criado-mudo de lado, olhando sobre seu braço para o que ele segurava, mas não estava realmente pronto para ver aquilo. – Mas o que...?! – perguntou apressadamente, tomando o documento da mão do irmão. – Não-, isso não é...
– É, aparentemente o pai tinha queda pelo Guarda Costas e não pela Whitney Houston...
– Cara! Definitivamente não é isso! Isso é uma carteira falsa do FBI!
– É, ele foi do FBI no filme...
– Dean! Cara, pelo amor de Deus, esquece o filme!...Olha-, o pai usava documentos falsificados. Isso é crime federal! – sussurrou exasperado, como se alguém além do mais velho pudesse vir a ouvi-lo e Dean prestou mais atenção ao irmão quando ouviu isso, pegando o documento novamente. Analisando-o.
– Cara, isso está muito perfeito! Nem parece que é falso!
– O que? Por acaso acha que o cara estava disfarçado vivendo essa vida como John Winchester por causa de alguma missão? Qual é! Continua sendo crime federal! – reclamou inquieto, tomando o documento de volta do mais velho. – Mas pra que diabos o pai ia querer isso?
– Sam, sei que não é seu forte, mas pára pra pensar: Pra investigar mortes e desaparecimentos, o cara deve ter de encarar órgãos do governo e o caralho a quatro! Claro que ele também teria de se apresentar como uma autoridade, não é? – respondeu irônico, em ar óbvio, mas teve que revirar os olhos ao ver a expressão cada vez mais contrariada e exasperada do outro.
Saco de mania de querer fazer tudo certinho.
– Dean... Ele não pode ser idiota de mostrar isso para os Federais, não-...! Eles têm como descobrir num minuto! – prendeu a respiração por um segundo e disse o mais pausada e claramente possível, tentando deixar claro para o mais velho o absurdo daquilo, mas tudo o que Dean fez, foi sorrir de lado, um tanto orgulhoso do pai.
– Definitivamente, se tem alguém que teria coragem para isso, seria o pai.
– Isso não é motivo de orgulho!
– Sam, se o pai nunca foi pego, vai por mim, é sim! Mas, provavelmente o cara nunca esteve nisso sozinho, não é? Por exemplo, lembra da caralhada de telefones que tem na casa do Bobby? Cada um com uma sigla diferente? Eu tenho quase certeza que vi a sigla FBI num deles.
– Melhor queimar isso. – respirou fundo e não retrucou — até porque não queria pensar no Bobby metido naquele tipo de coisa também -, apenas disse em tom baixo, tentando pegar o documento do irmão novamente quando este o pegou de volta. Mas desta vez foi afastado pela mão grande em seu peito.
– Não. Deixa que eu faço isso. – garantiu Dean em ar tranquilo, olhando atentamente uma ultima vez para o documento antes de enfiá-lo em um de seus bolsos.
–--
Uma semana, mais ou menos, havia se passado sem que nenhum dos dois voltasse a tocar em nenhum dos dois assuntos. Fosse o dos jornais e ou fosse o do documento falso. Já era sábado dia 14 de mais uma semana de faz-de-conta e novamente estavam lá, na frente da cama de Adam, velando aquilo que parecia tanto ser seu sono. Em silêncio.
Ou, melhor colocando talvez, Sam estava. Ele próprio estava próximo à janela, olhando para o nada através do vidro. Braços cruzados, pensando.
Aliás, não que tivesse feito lá outra coisa nestes últimos tempos além de pensar...
Aquele quadro, exatamente, estava se tornando tão recorrente que já era quase um ritual deles. Algo lamentavelmente sagrado, passar aquele tempo com ele — mesmo que Adam sequer soubesse que estavam ali -, sem poder fazer nada além de olhar, de esperar.
Quando a enfermeira entrou no quarto anunciando o final do horário de visita como em todos os outros dias, ouviu novamente aquele suspiro angustiado do moreno como em todas às vezes em estiveram ali e isso... Isso o fez ter certeza de sua decisão.
Já era mais do que hora de acabar com aquilo. Simplesmente não dava mais para continuar desta forma. Fingindo, esperando. Tentando pensar em algo sem fazer realmente nada. Fingindo que não era nada aquela porra de sal para tudo que era lado, ou aquele constante estado de alerta em que viviam, desconfiando da propria sombra. Fingir que não percebia as horas em que Sam ficava na frente do computador, pesquisando sobre magia, possessões demoníacas, rituais, monstros, coma... As horas em que ele próprio procurava, escondido. Ou ainda mais, as horas que o mais novo passava em silencio, contemplando o nada com uma expressão que não poderia ser de nada mais que culpa.
Ambos se despediram de Adam naquela mesma ordem de sempre, Sam primeiro, ele em seguida, sempre depois de ver se de algum jeito, talvez ele fosse reagir à mão grande do moreno em seus cabelos, ou às palavras sussurradas, que nunca sabia quais eram.
Mesmo que soubesse de algum jeito com uma certeza tão opressora que Adam não ia.
E então, antes de ir embora, baixou a cabeça próxima ao ouvido do caçula enquanto o outro falava de um jeito aparentemente inquieto e polido com a enfermeira.
– Espero que possa me ouvir onde quer que esteja seu filho-da-mãe, porque aqui vai um aviso: estou indo atrás de você! – disse em tom baixo, firme, ameaçador, decidido, praticamente roçando os lábios na pele levemente rosada ali. E então levantou lentamente, numa seriedade perturbadora.
Agradeceu a enfermeira antes dela sair do quarto enquanto olhava na direção do mais velho. Claro, estranhou o jeito dele, mas se sentiu na obrigação de respeitar. Era raro ele demonstrar ou dizer qualquer coisa a respeito daquilo, ou até mesmo se aproximar tanto assim de Adam e, de certa forma, vê-los tão próximos um do outro o fez perceber mais uma vez como eles eram parecidos em alguns pontos. Como irmãos deveriam ser. E ver aquilo doeu. Doeu perceber que de alguma forma já não lembrava tão claramente de Adam como deveria, se não era mais capaz de associar imediatamente esses pontos.
Voltaram para casa em silêncio. O moreno, vez ou outra, olhando para o mais velho com uma expressão indefinível, grave, antes de voltar a atenção à janela, perdido em pensamentos também.
Entraram atentos, olhando à volta mais uma vez como sempre, procurando qualquer sinal de anormalidade, mesmo que na verdade apenas estivessem cansados demais para querer encontrar qualquer coisa. Só... No caso deles, não era uma boa ideia brincar com a sorte.
Terminaram a vistoria com olhares derrotados, constatando que estava tudo limpo e Sam foi até a cozinha pegar um copo de água, esgotado daquele ritual paranóico e de toda aquela agonia infernal que, sabia, não dominava apenas seu peito. Sentou à mesa, novamente perdendo-se em pensamentos, como sempre quando voltava do hospital.
Ouviu vagamente ao longe os passos pesados de Dean passearem de um lado para o outro em algum lugar do andar de cima antes de descer então os degraus de um jeito firme, impetuoso. Estranhamente barulhento e decidido.
E quando ele apareceu pela porta com um saco de papel cheio em mãos, sentiu uma sensação de atenção tomar conta de todos os seus sentidos enquanto seus olhos se prendiam aos do irmão.
Ele jogou uma série de coisas sobre a mesa. E quando parou para olhar, viu que eram identidades e documentos falsos, inclusive carteiras do FBI como a que tinham achado no quarto do seu pai, mas com fotos deles.
– Mas o que-... Dean? – tentou perguntar e olhou gravemente para ele, sentindo o coração acelerar e o estomago contorcer desconfortavelmente.
– Me diz uma coisa... Por quanto tempo mais vai aguentar ficar aqui sentado esperando o pai voltar, o Dam acordar e as coisas se resolverem? Não acha que chega? De esperar? De ficar à margem? De ter dúvidas? De esperar sabe Deus pelo o quê?
– Dean... Eu sei que eu também quis ir atrás do pai da primeira vez... e ainda quero, mas não temos pistas. Nem o Bobby tem! E isso, Dean, isso vai nos colocar na cadeia!
–Pistas, Sam, o jornal nos traz todos os dias! Qual é! Acha que ele não vai caçar qualquer coisa que estiver entre ele e o que quer que ele esteja procurando? – fez um gesto de desprezo com a mão direita enquanto meneava a cabeça devagar, olhando o mais novo meio de lado. – Nós fomos treinados Sam! Não fomos? Ainda que a gente esteja há um bom tempo sem atirar, temos a mira melhor que a do velho! E temos tudo o que o Bobby nos ensinou também e, sabe do que mais? Estamos esquecendo o mais importante: o Diário do Pai! – deu enfase às ultimas palavras, enquanto puxava-o do bolso interno de sua jaqueta, batendo na capa com a ponta dos dedos. – Tudo o que ele sabe sobre o Sobrenatural está aqui! É praticamente um manual de instruções! E, sabe? Para ser honesto, não sei dizer se o pai realmente deixou ele conosco porque viria buscar ou porque conhece a gente o suficiente para saber que não conseguiríamos tocar a vida ‘normalmente’ por muito tempo. Mas, definitivamente não dá pra acreditar que nada disso não possa nos manter vivos! Agora, ficar aqui esperando virem nos pegar? Nesse ensaio idiota do que nós já perdemos por medo de contar uma mentirinha? Acha que se contarmos para eles nossa história vão pensar exatamente o que, hn? Que somos uns filhos-da-puta mentirosos, ou satanistas doentes mentais, Sam! Escolha uma!
– Ok! Certo... E quanto ao Dam? – respondeu prontamente e torceu a boca, cutucando a parte interna da bochecha com a língua, enquanto assistia o mais velho voltar a guardar o diário consigo, claramente contrariado com aquilo tudo. – Quer largar ele de novo sozinho pra trás, é isso?
– Aquela coisa não vai tirar ele de lá! Dois já foram,lembra? – exclamou impacientemente, segurando o encosto da cadeira e umedecendo os lábios antes de soltar o ar com força e continuar. – Acha que aquilo significa o quê? Que um já foi tirado de circulação! Quer pagar para ver se o pai não vai ser o próximo?
Passou as mãos pelos cabelos e suspirou, apoiando os cotovelos na mesa e tapando os lábios antes de baixar o olhar e segurar uma daquelas... coisas, em mãos, lembrando mais uma maldita vez daquele pesadelo que teve, em específico, entre tantos outros. Aquelas mãos agarradas em seu braço, passeando por seu rosto enquanto sussurrava...
Dean estava certo. Irremediavelmente certo.
Estava na hora de cair na estrada.
– Precisamos de armas. Bem mais que aquelas que resolveu levar pro Bobby, aliás. Armas, Sal, água benta... Sabe que armas com balas comuns não resolvem nada, não é? – disse largando uma das carteiras com desapego sobre o móvel e voltando a olhar para o mais velho, que o encarou longamente como que para ter certeza de que ouvira direito e piscou surpreso umas duas vezes para então somente sorrir ladinamente, dando dois passos para trás.
– Pois é, vem ver o que eu descobri...
Arqueou as sobrancelhas enquanto observava-o se afastar antes de seguir o irmão, sem realmente compreender aquela reação dele, ou menos ainda quando pararam na oficina e assistiu Dean trancar a porta depois de entrarem.
– O que estamos fazendo aqui? – perguntou olhando em volta, tentando entender o ponto.
Sentiu um desconforto engraçado no fundo do estômago quando o sorrisinho de Dean se alargou consideravelmente, ainda que não fosse algo realmente feliz, apenas satisfeito.
– Empurra a mesa do computador e olha o que temos embaixo. – o mais velho comentou se aproximando ligeiramente do móvel, ainda que mantendo certa distancia, e indicou silenciosamente com a cabeça para que fosse olhar de uma vez quando permaneceu estático.
Foi até lá então, olhando do móvel para Dean repetidamente, desconfiado e fez o que ele mandou. E para sua surpresa, apareceu um alçapão ali, camuflado quase perfeitamente pela mesa daquela peça arqueológica.
– Como achou isso? – sua voz saiu um tanto mais fina e exasperada do que pretendia quando virou para encarar o loiro, que conteve uma expressão indefinida. Provavelmente devia estar com uma cara pateticamente pasma, pelo jeito quase vencedor que Dean o olhou antes de voltar sua atenção para o alçapão também.
– O pai tinha armas. Muitas armas. Eu lembro e acho que você também, certo? Mas nunca vimos elas pela casa não é? Algumas mais básicas escondidas na garagem... Mas nem de longe o armamento que ele tinha.
– Estão ali?
– Desce e confere! – deu de ombros e fixou seu olhar novamente no moreno, que correspondeu ao olhar quase ao mesmo tempo.
Ficaram se encarando seriamente minutos a fio, até que por fim Sam mordeu levemente o lábio inferior e meneou a cabeça em derrota, abrindo o tal alçapão cuja porta, aliás, era estupidamente pesada.
Dela surgiu um buraco fundo, escuro e quase perfeitamente quadrado no chão onde havia uma escada de madeira tosca, mas firme, que levava ao andar de baixo no meio daquele breu. Desceu devagar, sem muita confiança na escada, terminando por fim em um quarto subterraneo amplo, mas claustrofóbico. Lá era empoeirado, escuro e tinha temperatura amena. Localizou às cegas o interruptor e acendeu uma lampada fraca e amarelada, pendurada parcamente pelos próprios fios elétricos e quando olhou à volta, não pode evitar arregalar os olhos, chocado. Pois além de macabro e pixado de todas as formas mais estranhas possíveis com símbolos que nunca havia visto e outros tantos que definitivamente vira, o lugar realmente continha um verdadeiro arsenal.
– Foi daqui que pegou as armas da outra vez quando fomos ao Bobby? – perguntou alto, ainda de lá de baixo, dando uma volta em si mesmo, prestando atenção nas prateleiras e prateleiras à sua volta.
– Foi.
– Tá bem, deixa eu perguntar de novo: como achou este lugar? – repetiu a pergunta ligeriamente impaciente, enquanto tornava a subir lentamente, ouvindo a voz do mais velho se tornar mais clara à medida que se aproximava.
– Uma chave de fenda rolou da minha mão um dia e chutei ela pra baixo da mesa sem querer. – ele respondeu como se não fosse nada e parou o progresso na escada estreita para olhá-lo.
– Tá brincando, né? Ridículo assim? – franziu o cenho, negando levemente com a cabeça. Sua voz alteando ligeriamente, acidentalmente, em meio a um riso breve. Incrédulo, sem graça.
– Eu também ri quando descobri. – comentou o loiro dando de ombros. – Golpe de sorte.
– Cara o pai precisa realmente repensar em como esconder as coisas dele!
– Acha mesmo? Porque ele fez um belo serviço no quarto dele! – estendeu instintivamente a mão para ajudar o irmão a subir logo de uma vez e viu-o quase falsear ao seu movimento, encarando-o ainda mais confusamente antes de estender a própria mão hesitantemente, segurando a sua com força em meio a um olhar diferente, ilegível e profundo. Sua expressão aliviando-se de toda a tensão àquele contato, quase que alheio a qualquer preocupação ou linha de raciocínio anterior.
E percebeu naquele momento como aquela mão que num passado distante sumia tão facilmente dentro da sua quando o segurava, poderia agora cobri-la quase sem esforço com sua palma quente. Migrou seu olhar dela para os olhos esverdeados, que o encaravam de perto, quase brilhantes, naquele maldito ângulo superior.
Desfez-se daquele aperto morno dando um passo marcado para trás, ainda encarando o mais novo, que piscou um tanto surpreendido e baixou os olhos rapidamente, enfiando as mãos nos bolsos enquanto olhava à volta, talvez tentando dissimular aquele momento perturbador.
– Como acha que vai ser? – ele perguntou baixo, ainda olhando para baixo, deslocando o maxilar levemente antes de soltar o ar com força. – Quero dizer... Daqui pra frente.
– Provavelmente algo parecido com Jefferson County... – respondeu no mesmo tom, o olhar baixo e distante também, enquanto esfregava a mão à nuca numa tentativa inútil de movê-la, procurando sentir ao toque sua própria pele, não a dele queimando à sua.
– Mas não fizemos nada lá!
–... Tirando essa parte. – completou com um sorrisinho forçado, irônico, antes de se afastar de vez, dando às costas ao mais novo. Caminhando até a saída da oficina a passos firmes, largos, sem olhar para trás. – Vamos lá Sammy, hora de fazer as malas. Vamoscair na estrada!
–--
Fechou a mochila num movimento impaciente, olhando rápidamente à volta para ter certeza que tinha pego tudo que lhe interessava, mas ainda teve que abri-la para guardar alguns equipamentos eletrônicos que poderiam vir a serem úteis, caneta, papel, algumas fotos espalhadas pelos porta-retratos da casa, para então sim fechá-la outra vez, agora decididamente pronto. Passando as costas da mão à testa enquanto prendia um suspiro preocupado e afastando os fios castanhos dos olhos, segurando-os com força entre os dedos à altura da nuca. Olhando à volta e para lugar nenhum simultaneamente antes de se virar e puxar a cadeira do computador num único e brusco movimento, sentando-se vencido para, então sim, olhar aquele quarto talvez pela última vez com uma atenção infantil.
Não saberia mais dizer se realmente iria sentir saudades dali depois de tudo aquilo, mas sabia que ao contrário da outra vez em que saíram de lá, não teriam destino. Estariam à deriva, sem um porto seguro como a casa de Bobby para se refugirem e lamberem as feridas. Estariam apenas por eles mesmos e um pelo outro, e aquilo era mais assustador do que a ideia de cairem no mundo à caça de monstros e demônios, se metendo sabe-se lá com o quê. Em busca de respostas.
Acima de tudo, porque ir atras de seu pai significava sim ir em busca de respostas, mas também significava colocarem-se na mira do inimigo. E depois de tudo que acontecera com seus pais, com sua mãe e Jessica e Adam agora... temia sim por seu pai, mas principalmente, pelo seu irmão.
Temia não só por suas seguranças, por saber que algo sobre aquilo tudo era sobre ele mesmo e que qualquer pessoa que se envolvesse nisso também correria perigo, mas também por perder aquela estranha normalidade que tinham adquirido, ainda que em meio a tudo aquilo. Pois enfim tinha visto uma brecha na atitude sempre tão implacável e distante de Dean e não sabia se estaria preparado para abrir mão disso, mesmo que já não soubesse mais se merecia aquilo.
Porque, antes mesmo de deixar a casa, Dean e ele já estavam distantes demais e nada garantia que, por mais coisas que estivessem passando juntos, aquilo não poderia voltar tudo outra vez.
E ainda para terem de deixar Adam para trás outra vez, mesmo que não pudessem fazer mais nada por ele...
Não... Sentia que sair daquela forma como estavam fazendo era praticamente colocar um alvo às costas e por mais que concordasse com o mais velho em cada palavra — mesmo que no fundo soubesse que se Dean não tivesse tomado aquela atitude, ele próprio tomaria -, aquilo não deixava de ser menos assustador.
Porque era como se ao sair de lá novamente, estivessem se afastando de todo o resto de suas vidas também. Talvez em definitivo agora.
Uma estrada sem retorno.
O que não deixava de ser uma ironia filha-da-puta, já que ao mesmo tempo em que o estavam mesmo, estavam também tentando recuperar, de alguma forma, o pouco que ainda podiam dela.
Fechou os olhos com força, sentindo a cabeça doer talvez pelo turbilhão de pensamentos que se atropelavam simultaneamente, mas abriu-os ao ouvir o barulho de algo batendo ao chão no andar de baixo.
– Samuel, se não descer agora pego a estrada sem você! Porra, parece uma maldita noiva! – logo a voz alta e impaciente soou ao pé da escada, sobressaltando-o minimamente por um segundo. Fazendo-o revirar os olhos e rir discretamente em meio a um suspiro enquanto levantava da cadeira e colocava a mochila nas costas, ouvindo o mais velho chamar seu nome mais uma vez.
E por mais inquietantemente apressada que aquela voz soasse, lhe despertou também uma sensação de alivio, ouvi-la. Como se tê-la ali o apressando e ameaçando lhe fizesse entender que, ao menos por hora, realmente não estava sozinho.
Desceu as escadas lentamente com uma sensação estranha de déjà vu ao olhar à volta. Tudo parecendo soar exatamente como da outra vez em que se foram dali, mesmo que na verdade tudo fosse diferente.
Como podia? Exatamente as mesmas malas, exatamente a mesma caixa de isopor ao chão, próximo à porta da rua. Exatamente a mesma expressão taciturna no rosto bonito de Dean, que andava de um lado para o outro, como se esperá-lo fosse mais insuportável do que tentar convencer seu pai de que estava errado sobre algo e ainda assim lá estava aquela sensação estranhamente vazia e desagradável, revelando que nada mais era como antes.
Pararam novamente lado a lado ao saírem apenas por um momento, em silêncio, para darem uma ultima olhada na fachada de um branco encardido da casa que por tanto tempo chamaram de lar. E percebeu que talvez deixar aquela casa não fosse ser assim tão penoso daquela vez. Porque, já há algum tempo, aquele lugar não trazia mais aquela sensação de aconchego e segurança que devia.
Porque, depois de tudo, ela tinha se tornado mais uma prisão. Um forte, talvez. Um ambiente seguro sim, mas não mais acolhedor.Isso nunca mais.
Aquele lugar tinha se tornado tão vazio e obscuro, independentemente da presença deles ali.
Voltaram-se para o carro igualmente em silencio, desta vez sem olhar para trás e viu Dean dando a volta no veículo antes de se encostar ao teto do carro, olhando-o atentamente. Parou também, encarando-o confuso e viu o sorriso irônico do mais velho fazer menção a aparecer — ocultando sua preocupação com o silencio do maior e contrariando aquela expressão pesada que carregava há pouco — quando ele arqueou as sobrancelhas, indicando o lado do carona do banco para o mais novo.
– Já que faz tanta questão Samantha, peguei os mapas pra você desta vez.
Sentiu o vento soprar mais forte pelos seus cabelos levando-os aos olhos novamente enquanto a voz grossa chegava quase zombeteira aos seus ouvidos. E, era estranho não se sentir exasperadamente irritado com aquele apelido estúpido naquele momento, já que detestava ser chamado como uma garota, principalmente nas circunstancias em que este nome surgiu. Mas não conseguiu. Não conseguiu se incomodar de verdade, ainda que o tenha olhado meio torto antes de menear a cabeça, olhando para os próprios pés.
– Nunca se sabe quando vamos precisar, não é mesmo?... Por quê? Tem algo escondido no porta-malas que eu não devo ver? – encostou-se também ao teto do carro como o mais velho e ouviu-o forçar uma risada despreocupada ao entrar no Impala, batendo a porta.
Fez o mesmo, afastando os mapas para o meio do banco e fechando sua porta.
– Não vai dar piti de novo por causa da caixa de madeira, vai?
– É só com isso mesmo que tenho que me preocupar?
– Alguma crise-franguinha-de-consiencia por causa da nova sua coleção de carteiras e cartões?
– Não. – quase hesitou responder e conteve o ‘por hora’ que invitavelmente completaria sua frase se fosse completamente sincero. Não era hora pra sinceridade.
– Então, nop. Quer dizer... A menos que esteja com medo de ser atacado pelas revistas pornô... – olhou meio de lado e conteve um sorrisinho sarcástico ao ver as bochechas do mais novo corarem enquanto ele desviava o olhar de si para a janela, o teto e o chão do veículo consecutivamente, subitamente desconfortável, ajeitando-se no banco. – Ohh, pobre Sammy... está com medo daquelas peitudas malvadas?
– Cala-a-boca. – sorriu ladinamente, constrangido, enquanto soltava o ar meio sem-graça, ainda encarando os próprios joelhos e olhou do vidro do carro para o mais velho, hesitando com o olhar um momento antes de se fixar na expressão desdenhosamente jocosa que se apagava no rosto dele enquanto olhava para frente, em direção à casa, pelo espelho retrovisor. – Dean?
– O quê? Gostou da ideia das revistas, né garotão? – viu-o desviar o olhar do retrovisor e forçar outro sorriso jocoso. – Ou quer mesmo ter certeza que elas não vão te atacar?... Ou é sobre seus Puppet toysSammy?
– Tem mais uma coisa que eu quero de você além dos mapas Dean. – revirou os olhos, mas não retrucou às provocações, indo direto ao ponto com a voz grave.
– Mesmo? – quase hesitou a responder, meio inseguro, umedecendo os lábios antes de olhar para o moreno em dúvida.
– O Diário. – concordou, com um aceno breve e óbvio, sem desviar o olhar do irmão. – Você o leu certo? Então: Também quero lê-lo.
Não se moveu num primeiro momento, encarando ao moreno também. Mas respirou fundo e baixou o olhar na direção da mão direita do outro quando ele a estendeu em sua direção, piscando algumas vezes como se espantasse algo.
Tirou o volume surrado do bolso da jaqueta com um único amplo movimento, colocando-o sobre a mão grande que lhe era direcionada sem expressar um ‘a’ a respeito, mas quando largou-o, sentiu algo horrível correr seu corpo num arrepio gelado, agourento, traçando sua coluna, causando aflição. Sentiu o coração acelerar vertiginosamente ao olhar novamente para o mais novo, que agora tinha toda sua atenção voltada ao que tinha em mãos, e fechou os olhos com força, desviando-os então enquanto girava a chave na ignição, ouvindo com gratidão o ronco familiar de sua garota.
Passou as mãos pelo volante lentamente sentindo algo oprimir sua respiração e voltou o olhar outra vez para Sam enquanto pensava no que tudo aquilo não poderia fazer com ele.
Se jogá-lo naquele carro era mesmo o melhor, se era o certo a se fazer.
Porque uma coisa tinha entendido muito bem: A única culpa que ele tinha no meio daquilo tudo era de ser especial por algum motivo. Tão especial que até mesmo os demônios o queriam. Mesmo que não soubesse o que aquele ‘especial’ poderia significar.
E que ir agora, mais do que respostas, significava perigo para todos eles. Mas não perderia mais nenhum irmão para aqueles bastardos cretinos, ah isso nunca! Faria tudo, qualquer coisa, mas não permitiria que nada acontecesse com ele também. Não com Sam.
Tinha que cuidar dele. Era sua obrigação, seu dever, e não mediria esforços e consequencias para isso daqui pra frente. Não permitiria que nada chegasse a ele. Não iria falhar. Por sua família, por seu pai e por eles, não ia falhar daquela vez como falhou com sua mãe. Como falhou com Adam... Venderia até sua alma, daria seu sangue, morreria se precisasse, mas isso não ia acontecer novamente.
Manobrou com destreza para a rua e acelerou de uma vez, se afastando o mais rápido possível daquele lugar, tentando não olhar pelo retrovisor e reviver mentalmente exatamente aquela mesma cena, vista quando era apenas um moleque, agarrado à cadeirinha do irmãozinho no banco de trás daquele Impala mesmo, enquanto seu pai os levava embora de casa exatamente daquele jeito: Sem rumo. Sem destino.
Seguindo à estada para lugar nenhum.
Notas finais
The Free State>> http://freestatebrewing.com
Mais informações, como sempre, no nosso blog!
Beijos e até a próxima! ♥
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