The Outsiders

12 Chapter XII – THINGS THAT SHOULD BE FORGOTTEN


Notas iniciais
Demorou. Demorou muito mesmo, mas saiu!
Esse capítulo é, até agora, o maior de todos os já postados e isso, porque eu e a Lothus decidimos terminá-lo antes do planejado e retomar o resto no capítulo XIII, mas enfim...
OBRIGADA COMO SEMPRE POR NÃO DEIXAR EU ME PERDER AMORA! ♥
Espero que gostem dele e, gente, sei que soa esmola isso, mas comentem. Opinem sempre. Indiquem os pontos fortes, os pontos fracos, o que entenderam ou não e o que acham que pode ser melhorado, sempre. Cada review é precioso e cada opinião é única, necessitamos de vocês.
Mais informações: http://slashyaoifanfics.blogspot.com/2011/11/capitulo-novo-na-area-pessoas-ele-na.html
Boa leitura!

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Quando finalmente chegaram, a casa estava com um aspecto horrível. Parecia que fora abandonada semanas a fio, não por apenas uma, com o jardim semi-morto, empoeirada... E algo no ar ainda cheirava estranho, como se a falta de circulação deste tivesse criado uma atmosfera propria, pesada e rarefeita. Simplesmente não se parecia em nada com a casa para qual voltou quando chegou da California.


– Uau... A casa já tava assim quando chegou?

– Basicamente. Cheguei de viagem ontem Dean. E, bem... Não é como se eu tivesse passado muito tempo aqui. Praticamente só usei meu quarto. Aliás, não mexam nas colagens na parede.

– Então-...

Então, Sammy, que antes de qualquer coisa, vamos dar um jeito nessa casa. Tornar o lugar habitável de novo. Que tal? – disse em meio a um suspiro cansado, abrindo as cortinas e janelas da casa para arejar. Percebeu o olhar impaciente do mais novo para si, claro, mas preferiu ignorar enquanto abria também as portas dos móveis, numa tentativa de aliviar aquele peso morbido no ar. E quando se deu conta que a dispensa e a geladeira estavam vazias, decidiu que era melhor ir ao mercado comprar algo para comerem. E mais alguns sacos de sal-grosso, talvez. Só por precaução. – Meninos, vocês vão dando um jeito na casa enquanto dou um pulo em algum lugar pra reabastecer a dispensa?

– Não vai fugir de novo e nos largar aqui sozinhos, não é? – a resposta de Sam foi automática e teve que repirar fundo ao ouvi-la. Fechou a expressão por um momento, torcendo os lábios de um jeito claramente incomodado, mas pensou em tudo que eles passaram desde sua ia e respirou de novo.

– Não. Só quero ir no maldito mercado, já que não podemos viver de vento. – comentou impaciente e olhou à volta uma ultima vez antes de caminhar para a porta e então virar novamente para seus meninos. Viu o mais novo engolir em seco com uma careta muito parecida com a sua e Dean descruzar os braços, talvez atento caso resolvessem ter outro embate. – Posso contar com vocês para darem um jeito nas coisas enquanto isso, não é?

– Sim senhor. – concordou o mais velho, arrancando-lhe um menear satisfeito. O moreno nem mesmo se moveu.

– Ótimo. Não demoro.


–--



Conseguia ouvir o barulho do mais novo vindo da sala, enquanto limpava a cozinha sem a menor vontade.


Não conseguia evitar, aqueles pensamentos ficavam rodeando sua cabeça! Não conseguia deixar de pensar no que havia dito pra ele quando sairam de casa, no que Bobby lhe disse quando chegaram à casa dele e principalmente em como Sam o defendeu no hospital.

Aquelas palavras ficavam se repetindo e se repetindo em sua cabeça como um disco arranhado! Se fechasse os olhos era até mesmo capaz de ver a expressão de Sam enquanto falava com o pai.

Não ouse falar dele pai, não ouse! Não faz ideia do que ele tem aguentado pra cuidar de mim, dele mesmo, da situação do Adam e ainda estar de pé no meio dessa merda toda, para julgá-lo assim! Você não tem esse direito!

Era impossível dizer que não tinha se sentido ligeiramente... tocado, de uma certa forma, e definitivamente queria pensar naquilo o mínimo possível.

Não que estivesse conseguindo.

Só percebeu que estava parado, meio apoiado na pia quando ouviu o outro chamá-lo ao longe, provavelmente não pela primeira vez. – O que é?

– Ahn... Sabe onde está o aspirador de pó? – perguntou o mais alto que pode e torceu os lábios assim que se afastou da parte de baixo do sofá, que pelo estado daquilo, não via uma limpeza de verdade há pelo menos três meses.

Quebrado. Mas pode usar a vassoura, ela não se importa!

– Maravilha...

Falou alguma coisa?

– Não. Não falei nada. – respondeu sem vontade, indo atrás da droga da vassoura.

Não sentia a menor vontade de limpar o que quer que fosse. Não depois de tudo o que aconteceu! Pensava no que Bobby havia lhes dito, no que aconteceu na estrada, com seu irmão... em Jessica, e cada vez menos via motivo pra se importar com poeira.

Ainda estava com raiva. Ainda queria berrar. Queria entender por quê. Por que tudo aquilo tinha que ter acontecido? Por que e como tudo tinha que ser sua culpa? O que havia de errado consigo para estar tão no meio de tudo aquilo?

Queria tanto que John tivesse falado logo ao invés de ter saído. Não queria comer droga nenhuma, só queria saber. Mas ao mesmo tempo estava grato por ele ter ido. Tinha medo do que poderia vir depois. O que ele poderia ter pra dizer que Bobby já não havia dito?

Não conseguia parar de pensar no que mais seu pai teria pra lhes contar depois de tudo.


–--



De certa forma, Sam não estava tão errado quanto quis fazer parecer quando lhe respondeu. Afinal, aquilo não deixava de ser uma fuga. Temporária, mas válida naquela situação.


Eram coisas demais pra desenterrar, lembranças demais, sentimentos demais. Às vezes ficava difícil olhar pra cara de seu Sammy e saber que, cada ano de vida dele era um ano a menos que sua Mary viu. E toda essa dor, todos os detalhes que quis tanto enterrar no fundo de sua memória, tudo isso teria que ser relembrado mais uma vez.

Droga, realmente estava disposto a atirar em Bobby por isso. Velho maldito...

Principalmente porque sabia que ele tinha razão. Que não era mais uma opção, contar ou não para seus meninos. E se fosse sincero o suficiente, saberia que foi bobagem sua achar que um dia aquilo já foi opcional.

Entrou novamente em casa com um suspiro silencioso. Não podia deixar seus meninos verem sua fraqueza. Tinha que ser uma rocha para eles, porque definitivamente eles ainda precisariam.

A casa já parecia outra, arejada e até que arrumada. Mas apesar de apreciar o cheiro gostoso do vento, sentiu uma urgencia enorme em fechar tudo e quase, quase não se conteve.

– Voltei. – falou alto na esperança de que alguém ouvisse e levou as sacolas para a cozinha. Separou duas belas lasanhas congeladas para comerem e colocou a outra sacola sobre uma das cadeiras da cozinha antes de ouvir passos vindo em sua direção. E mesmo que soubesse que aqueles passos pertenciam a algum de seus meninos, não conseguiu evitar se preparar para atacar, caso estivesse errado. E amaldiçoou-se por isso, pois sabia que provavelmente nunca mais conseguiria baixar a guarda dentro daquela casa. – Nem se dêem ao trabalho. Pro chuveiro, vocês dois, enquanto preparo as coisas aqui.

Baixou a vista para os pacotes de lasanha, mas conseguiu ver a sombra alta, provavelmente de Sam, logo atrás de si e conteve seu instinto de virar em sua direção.

– De jeito nenhum. E o que você tem pra falar, fica pra quando? – a voz do moreno soou estranha para si, agressiva como antes, mas tinha algo de diferente que o fez virar para olhá-lo. Mas ele só parecia esgotado. Conseguia ver dali como os olhos esverdeados pareciam avermelhados e pesados.

– De certa forma, provavelmente Bobby já deve ter contado tudo que interessa. Só vou dar alguns detalhes, só isso. E talvez não tenha percebido Sammy, mas vocês chegaram de viagem hoje. Estão sujos, cansados e de barriga vazia. Podemos conversar com calma enquanto comemos.

Meneou negativamente a cabeça e fez menção a abrir a boca de novo, mas viu o beiral da porta sair de seu campo de visão e só percebeu que andava de costas quando sentiu a gola da sua camisa sendo puxada pelas costas. – Dean-...!

– Ouviu não é? Banho. – murmurou enquanto o arrastava escada acima da melhor forma que pôde para que ele pudesse subir sem tropeçar nos degraus. – Vamos lá Samantha, primeiro as damas, cortesia da casa...

Empurrou-o para dentro do banheiro e arqueou as sobrancelhas quase divertidamente quando Sam o encarou irritado. Mas tudo que o mais novo fez foi grunhir um ‘não demoro’ antes de bater a porta.


–--



Enxaguou os cabelos mais uma vez, impacientemente, quase arranhando o couro cabeludo e socou a parede com a lateral do punho. Afastou os fios molhados dos olhos e se apoiou na parede com um muxoxo estrangulado, ela estava gelada.


Aquilo só poderia ser brincadeira. Antes de viajarem não queria ir, mas agora, ali... Não queria ter voltado. Não tinha uma explicação, só era como se voltar para casa depois de tudo tornasse tudo definitivo. Céus, queria Adam ali. Queria sequer ter voltado da California. Queria tanto Jessica ali...

Mas as coisas não eram assim. Estava lá outra vez, seu irmão estava em coma. Jess estava morta. E estava prestes a ouvir de novo algo que não queria saber, ao mesmo tempo que necessitava saber. E o que não conseguia entender era porque estava no meio de tudo aquilo e ainda assim a única coisa que conseguia pensar era naquela necessidade infantil de ficar perto de Dean. Às vezes se perguntava se tivesse uma relação comum com ele, como tinha com Adam, se iria mesmo querer conviver constantemente com ele. Porque mesmo do que se lembrava de quando se davam ‘bem’, a única coisa que faziam era discutir. E também tinha aquela tensão...

Espantou esses pensamentos enquanto fechava o registro barulhento, não tinha propósto pensar nisso, ele nem mesmo o suportava. Só não endendia também porque saber de algo tão óbvio doía assim também.

– Merda, no que que eu to pensando? – balançou a cabeça, tentando afastar seus pensamentos de qualquer coisa que não fosse a conversa. Pegou a toalha e enxugou os cabelos com raiva, esfregando a toalha com força, para então escorregar o tecido felpudo pelo pescoço e peito.

Aquilo precisava parar. Não conseguia mais sentir tristeza quando pensava em tudo que aconteceu, só conseguia sentir algo quente, profundo, irracional, e sabia que aquilo seria autodestrutivo se não conseguisse se agarrar a algo.


–--



Não entendia porque Sam sempre batia de frente com seu pai. Se bem que Sam sempre batia de frente com todo mundo... Mas, o que ele ganharia com isso? O cara ia falar uma hora ou outra, então do que adiantava ficar pressionando?


Nem mesmo sabia do que adiantaria para ele, ouvir qualquer coisa a mais para se sentir ainda mais culpado por tudo que estava acontecendo. Ele estava estranho, isso era estúpidamente óbvio. Sempre foi um chato certinho e teimoso, mas agressivo era demais...

Teve que rir a isso. O que tinha acontecido com sua família? Assim que soube que Sam estava voltando, de algum jeito, sabia que tudo estava por um fio. Céus, e antes o seu maior problema era apenas não suportar ficar perto do mais novo! Era até revoltante, pensar na vidinha normal que levavam, agora que sabia o que se escondia nas sombras, e não conseguia deixar de pensar em como seria se tudo fosse diferente. Se seu pai lhes tivesse contado, desde o começo, tudo aquilo.

Provavelmente teria perdido sua infância muito cedo. E Sam também...

Talvez em outra situação, se Sam acordasse à noite, com medo do bicho papão como acontecia às vezes, seu pai lhe desse uma arma ao invés de lhe dizer que isso era história para evitar que crianças levantassem da cama à noite no escuro.

E provavelmente seria ainda mais aquele tipo de cara que age primeiro e pensa depois e quem sabe Sam não fosse exatamente o contrário... Ainda mais.

Talvez... Talvez Sam e ele saíssem pelo mundo tentando encontrar o pai para cobrar explicações quando Jessica morreu, porque ele com certeza seria um pai ausente, já que na primeira pista depois de anos ele simplesmente caiu na estrada e foi em busca de explicações sem pensar em mais nada.

O problema era que ele mesmo não daria explicações. Seu pai fora fuzileiro, era independente e auto-suficiente... E ainda que fosse um caçador, teria a porra da síndrome do ‘trabalho melhor sozinho’, embora tenha sempre ensinado os dois a trabalharem juntos. E se seu pai fosse ausente, com certeza seria dele a responsabilidade de cuidar de Sam e Adam muito provavelmente nem mesmo existiria; a não ser que fosse um filho perdido no mundo do qual eles não teriam sequer conhecimento.

E talvez... apenas talvez... Ele e Sam ainda fossem irmãos.


Mas não conseguia realmente imaginar. Não conseguia pensar nisso e não achar que seu velho tinha feito o que achou certo. Mesmo que isso realmente tivesse levado à situação que viviam agora. Provavelmente faria o mesmo. Tudo para proteger a família. Mas Sam não entendia isso...


Voltou a sentar na cama quando bateram à porta do quarto e quando ela se abriu, viu o foco dos seus pensamentos ali, apenas de toalha, o encarando em silencio enquanto segurava a maçaneta da porta com força.

– Hrn... O banheiro tá livre... – sua voz saiu rouca e estranhamente baixa e apertou um pouco mais a maçaneta em seus dedos, à medida que sentia os pelos dos braços e nuca arrepiarem ao olhar intenso do mais velho.

Era aquela tensão silenciosa de novo, que sempre parecia tão palpável entre eles. Sentiu o rosto quente. Só não sabia se era por causa do jeito penetrante que o irmão o olhava, por não conseguir não retribuir o olhar da mesma forma, por aquilo lhe parecer estar demorando mais tempo do que seria considerado saudável e, ao mesmo tempo, o tempo parecer simplesmente ter deixado de existir...

Não conseguiu evitar que seus olhos esquadrinhassem o corpo à sua frente, se fixando nos olhos esverdeados então, confusos, e foi sua vez de sentir o sangue subir depressa demais pro cérebro quando lembrou da cena do edredom no quarto, um dia antes de seguirem para a casa do Bobby e quase ver de novo o que existia por baixo daquele tecido felpudo.

Ficou com os olhos presos aos dele por um segundo, aborrecido com aquele pensamento, e arrancou a camiseta bruscamente enquanto se levantava da cama.

Não respondeu nada, apenas passou reto por ele e foi para o banheiro a fim de tomar seu banho, revoltado com o fato de não entender porque raios não conseguia tirar o moreno dos pensamentos um minuto sequer naquela porra de dia.

Pelo frio que sentiu a saída repentina do irmão, teve certeza que todo aquele calor infernal que irrompeu de suas entranhas tinha sido simplesmente pelo seu uso inadvertido da água quente e que o irmão sentiu o mormaço vindo do banheiro ao tirar a camiseta.

É, devia ser isso. Que outra explicação teria para sentir-se tão frio depois da saída dele?


–--



Era estranho ver a mesa posta para jantar e, ainda assim, ela parecer tão triste e sem significado. Com os três sentados ali, dava a falsa impressão de que Adam logo apareceria também, reclamando da conexão da internet, ou mesmo fazendo alguma piada besta e provavelmente maldosa, como era seu jeito. E apenas aquela ideia já deixava um vazio no ar impossível de ignorar.


Estavam com fome sim, afinal nem se lembravam mais da ultima vez que foram comer algo, mas mesmo com o cheiro sedutor do molho no ar, era dificil crer que conseguiriam mesmo colocar algo para dentro. Mas ainda assim se serviram, tentando fazer parecer tão normal quanto deveria ser. Mesmo que tenha soado forçado para todos ali.

E depois da terceira garfada em seu prato John não conseguiu ignorar a inquietação dos seus garotos, afastando seu prato e limpando a garganta com um ruido rouco. – Certo, exatamente quando as coisas começaram a acontecer? – perguntou de repente, chamando a atenção deles para si.

– Já contamos tudo o que aconteceu, é a sua vez. – Sam retrucou prontamente, a voz grave e baixa e teve que suspirar cansado daquela postura defensiva do menino.

– Claro, me explicaram os fatos, mas não quando eles aconteceram. – respondeu olhando direto para o mais novo e cruzou os braços impacientemente, percebendo de novo como Dean se ajeitou à cadeira, provavelmente pronto para intervir. – Quando?

Ficou chocado em saber que foi exatamente no dia em que deixou a cidade — como respondeu Dean, olhando de si para Sam, provavelmente para ter certeza que não começariam a bater cabeças mais uma vez.

Os cretinos deviam estar espreitando há tempos! Encostou-se descuidadamente no respaldo da cadeira e passou a mão pelos cabelos e rosto. E nem ao menos percebera!

Se não tivesse certeza absoluta que Samantha Smits era uma mulher de branco, pensaria até que os demônios vinham seguindo seu filho desde Stanford. Se bem que, pelo cara que o abordou quando chegou à cidade, com certeza estavam mesmo... Afinal, o que mais um demônio estaria fazendo por ali?

– Além... – respirou fundo e limpou a garganta de novo, sentia-se desnorteado. Como permitiu que isso acontecesse com a sua família? – Além do hospital, em algum momento; qualquer momento vocês tiveram contado com demônios?

– Todos eles têm olhos amarelos? Porque se sim, não encontramos nenhum outro filho-da-mãe.

– Não Dean... Na maioria das vezes eles têm olhos negros.

Afastou o prato de si bruscamente ao ouvir isso, perdendo completamente qualquer apetite, e viu Dean engasgar com um gole de cerveja. Olharam-se num silencio grave, percebendo o perigo que correram a pouco naquela maldita loja de conveniência.

– Onde e quando? – engoliu o nó que fechou sua garganta ao ver a reação de seus filhos e perguntou irritadamente. Não podia acreditar naquilo. Como depois de tudo que fez para proteger sua família as coisas tinham chegado a esse ponto?

– Hoje, voltando pra casa. – o moreno respondeu. – Ficamos sem gasolina e paramos num posto de beira de estrada. Era só um velho! Um caminhoneiro que foi comprar alguma coisa na loja de conveniência, mas quando ele passou por nós...

Foi sua vez de perder completamente a fome. Estavam cercando seus filhos de todos os lados! Suspirou desanimado então, afinal, não tinha mais como deixá-los de fora daquilo. Céus... o quão estúpido não tinha sido em acreditar que realmente conseguiria deixar eles fora daquilo tudo? Olhou para seu prato e cortou mais um pedaço da lasanha, mesmo que não tivesse mais intenção alguma de comer aquilo. Mas simplesmente não sabia mais o que poderia fazer e de repente aquele peso que a falta do Adam fazia se tornou morbido.

– Pai, por favor. Chega de perguntas. Eu... eu preciso dessas respostas. – aquele silêncio o estava incomodando. Aquela aparente serenidade grave que seu pai demonstrava. Não aguentava mais, precisava saber. Não se atreveu a olhar para o loiro naquele momento e tentar entender o que ele pensava, tinha medo das respostas que poderia encontrar, mas precisava das respostas de John. Tinha que saber.

Sorriu um tanto sem humor enquanto fitava os pratos quase cheios sobre a mesa. Era óbvio que a essa altura seus filhos também já tinham perdido a fome e a tendencia, sinceramente, era apenas piorar ainda mais.

– Certo... Acho que devemos começar pelo seu pai então. O de verdade, quero dizer... – limpou a garganta mais uma vez e se ajeitou da melhor forma possível sobre a cadeira. – Samuel... Samuel era a ovelha negra da família. Vivia arrumando confusão com os parentes, fugindo de casa... Pelo pouco que sei nem mesmo com o pai ele falava mais. Bom, nunca tive realmente muito contado com a família da Mary, de algum jeito ela sempre preferiu assim, mas Samuel era um caso à parte. Ela... Ela era a única que sempre lhe apoiava. Perdi as contas de quantas vezes ela não lhe deu abrigo, ou emprestou dinheiro. Mas, Deus que me perdõe, ele era um porco ingrato... Só melhorou relativamente quando conheceu sua mãe. Meredith era uma pessoa doce, realmente especial, e Mary logo gostou dela. Tornaram-se amigas muito fácil e isso aproximou muito as duas famílias. – se ajeitou mais uma vez na cadeira e olhou para seus filhos seriamente.

Nunca tinha realmente contado aquilo para ninguém e, falando daquela forma, percebia de um jeito estranho como aquilo fazia parte de um passado antigo, quase esquecido. Afastou esse pensamento e a saudade que ele trouxe. O medo de tentar lembrar da voz de sua esposa e descobrir que talvez não fosse mais capaz.

– Nunca tinha notado nada de realmente anormal acontecendo entre seus pais, até o dia em que sua mãe morreu. A única coisa fora do comum, era que Samuel tinha cismado com um homem que sempre via rondando a casa ou a rua que moravam quando passeava com a mulher. Mas ela sempre dizia que era só implicancia e ciúmes dele, pois nem mesmo conhecia ou cumprimentava o tal homem. Ele simplesmente sempre estava lá, nos mesmos lugares que eles. Sem se aproximar, sem fazer nada. Só que, com todo o respeito meu filho, ele era louco... Teve um tempo em que o homem até mesmo desconfiou que o filho não fosse dele! Exatamente na época que perdemos o nosso... Bom, nem quero falar sobre o stress que isso trouxe à ela na sua gestação... – revirou os olhos e torceu a boca ao lembrar daquilo mais uma vez. Daquela maldita frase de pêsames daquele cretino, que dava a entender sim que ele preferiria que tivesse sido o dele a ter morrido.

Aquilo sempre era perfeitamente revoltante de se lembrar de qualquer jeito, mas contar isso tudo olhando nos olhos de seu Sam? Ele era seu garoto afinal... O presente que sua Mary havia dito para Dean que era. E aquilo doía falar, apenas por saber que falava sobre pessoas que deveriam ter sido importantes para ele. Seu mundo. O de Dean também. Mas que nunca passariam de fotos envelhecidas de parentes mortos, mostradas há muitos Natais atrás. Por saber que, com o tempo, as lembranças se desbotavam para todos. Sentiu vontade de parar ali, mas tudo o que fez foi apoiar os cotovelos à mesa e continuar:

– Depois que você nasceu, o tal homem sumiu e Samuel só voltou a falar dele quando aconteceu o incendio misterioso que matou sua mãe. Foi... terrível. Um golpe muito traumático para todo mundo, principalmente para ele, que não falou coisa-com-coisa depois do que aconteceu. Mary ficou preocupada, você era muito pequeno ainda, apenas alguns dias de vida, e ele realmente estava assustadoramente descompensado. Por isso ela se ofereceu para cuidar de você alguns dias até ele se recompor, mas ele não quis. Disse que você era fruto do amor deles e que tinha que cuidar de você. Mas então de um dia para o outro ele simplesmente surtou de vez. Dizia coisas estranhas e sem sentido, estava paranóico. E então um belo dia simplesmente desapareceu com você, sem deixar rastros! Tentamos entrar em contato com ele de todas as formas possíveis e nada... Até o dia em que encontramos você à nossa porta com aquela maldita carta... Falando que tinha algo de errado com você. Abandonando você! Mas, como poderia ter algo de errado? Era apenas um bebê! Era o filho dele ali! – calou-se então e respirou fundo, percebendo que se pudesse jogaria alguma coisa contra a parede. Céus, ele falava em matá-lo naquela maldita carta! –... A pedido de Mary, que estava muito preocupada com o traste do primo, fui atás dele. Procurei em todos os lugares que pensei que seriam possíveis, mas o encontrei no que restou de sua casa. Ele tinha estourado os próprios miolos...

Piscou algumas vezes, tentando aliviar a tensão que tomava seus ombros e o peso em seus olhos enquanto ouvia seu pai falar. Era estranho. Durante vários momentos enquanto ouvia-o, conseguiu rever mentalmente coisas que nem lembrava ter visto. Conversas que ouviu atrás da porta quando pensou que seus pais estavam brigando mais uma vez.

Vá atrás dele pelo amor de Deus John’.

Conseguia ouvir a voz de sua mãe soando no fundo de sua cabeça. Lembrava das lágrimas que ela tentou disfarçar para si quando entrou na cozinha e a encontrou com aquele bolinho de tecido no colo. Seu priminho que nunca tinha visto. Agora seu irmão. Era o ‘presente dos céus, para que não ele não ficasse sem um irmãozinho’. Lembrava do sorriso emocionado que ela deu quando o viu sorrir também e pedir para pegá-lo no colo. Como ele chorou quando o segurou pela primeira vez e como prometeu pra ele que nunca teria motivos pra chorar enquanto estivesse em seus braços. Sua mãe riu, lembrava disso...

Afastou isso de sua cabeça. E quando olhou para ele ali — seu irmãozinho–, ele estava pálido, a mandíbula rígida e era capaz de apostar isso, provavelmente as mãos trêmulas também. E tudo o que conseguiu fazer foi levantar da cadeira ao lado da dele e tirar aquele suco de laranja estúpido de sua frente, antes de lhe buscar uma cerveja. Porque só Deus sabia como provavelmente ele estava precisando de uma naquele momento.

Viu seu filho voltar da geladeira com uma garrafa de cerveja e sorriu discretmente ao perceber que, quando ele a colocou em frente à Sam, o menino a segurou exatamente sobre os dedos do irmão. E embora tenha passado despercebido pelos dois, notou também que antes de afastar os dedos, Dean pressionou-os sobre os do mais novo, levemente, como que tentanto lhe passar força.

Era a prova de que sua família continuaria de pé, mesmo depois de tudo.

E enquanto Dean voltava a sentar e Sam virava quase a garrafa toda em um único gole, resolveu continuar:

– Os próximos meses, foram os mais felizes em nossas vidas. Tinhamos perdido um bebê há pouco tempo, o que foi devastador para todos, principalmente para você Dean, que estava tão louco para ter um irmãozinho. Ficou até mesmo doente quando Mary o perdeu... E, mesmo com toda essa desgraça, apesar de tudo ficamos felizes, pois era como se tivessem nos devolvido nosso menino. Era uma segunda chance. – abrandou o tom de voz e continuou a falar com aquele sorrisinho saudoso nos lábios, de quem deixou algo muito importante para trás, mas jamais teria a chance de reaver o que perdeu. – Tudo estava perfeito, a não ser o fato de que Dean respirava você! Não dormia, comia, tomava banho ou fazia nada sem saber antes se isso já não tinha sido feito por você. Era sempre o primeiro a te dar bom-dia e o último a te dar boa-noite...

Fez questão de falar tudo isso sem desviar seus olhos dos verdes à sua frente, como se tentasse fazê-lo reaver memórias há muito esquecidas. Memórias importantes sobre quem ele realmente era. Mas Dean simplesmente baixou os olhos e engoliu em seco, deixando bem claro que em momento nenhum havia se esquecido disso. E por mais que estivesse angustiado com tudo o que estava acontecendo à sua volta, não conseguiu evitar que aquela antiga preocupação lhe assolasse ainda mais:

O que diabos tinha acontecido entre seus filhos que ferrou tanto assim com o relacionamento deles?

Isso definitivamente era uma coisa que ainda iria esclarecer...

Sam, por sua vez, baixou os olhos para o tampo da mesa e torceu a boca, desconfortável. Se até aquele momento não tinha realmente sentido vontade de chorar, ouvir o pai falar do jeito que o irmão o tratava tinha sido a mesma coisa que esfregar cebolas nos olhos. Doía. De um jeito exasperante. E tudo o que poderia fazer era segurar aquilo consigo e engolir aquele maldito nó talvez pela milésima vez naquela noite junto com toda a confusão, raiva, agonia e com todas as saudades que aquela conversa despertou. Secou os olhos com a palma da mão e se apoiou melhor à mesa, tentando voltar a prestar atenção ao pai, mas quando o olhou, ele o olhava também, com um olhar preocupado.

– Filho, nada disso é culpa sua, se é isso que está passando pela sua cabeça. Isso eu garanto. Por mais que tenha ligação com você, nada disso é culpa sua. Não tem como ser. – tentou amenizar, falando com a voz firme e baixa, pois estava mais do que na cara que aquilo era mais do que seu menino podia aguentar.

Tentou sorrir ao ouvir o que seu pai disse, mesmo que não fosse exatamente naquilo que estivesse pensando no momento. Ainda assim de alguma forma era reconfortante, saber que pelo menos alguém pensava assim. Mas não conseguiu não ficar sem ação quando Dean se virou para o pai de um jeito quase irritado, apontando para ele com o polegar.

– O Bobby já tinha dito isso pra ele também pai. Mas por algum motivo a cabeçona nerd dele não quer assimilar essa informação de jeito nenhum, não sei por quê!

Levantou os olhos, completamente alarmado, olhando pro irmão.E nessa hora todas as lágrimas que segurava a tanto custo consigo caíram de uma vez, partindo o coração de Dean, que se manteve firme, apesar da vontade louca que teve de levantar daquela droga de mesa abraçá-lo forte contra si para que ele nunca mais tivesse motivos para chorar.

Nerd sim, não adianta dizer que não! Até eu que sou loiro — como diria o Dam– sei que nada disso é culpa sua. Só você não consegue entender isso!

– Achei que, entre todas as pessoas, você me julgaria culpado. – respondeu incrédulo, sentindo a trilha quente de lágrimas escorrer de um jeito incomodo e desconcertante até seu queixo, mas não ousou se mexer, continuou encarando Dean, que deu de ombros com uma careta cômica, como se perguntasse o porquê de ter achado isso. – Por causa do que o Bobby falou sobre a morte da mamãe...

Piscou algumas vezes e abriu a boca para responder Sam, mas quando percebeu que realmente não tinha ideia do que falar encheu-a de cerveja mais uma vez, antes de se virar para o pai. – Por falar nisso, que história é essa de que eu fui testemunha? Não me lembro disso.

E teria sido capaz de se arrepender do que disse, se não quisesse tanto saber, ao ouvir o suspiro doloroso que acompanhou a expressão sofrida de John ao lembrar de sua Mary.

– Então Bobby contou isso também? Bom, não tem muito mais o que dizer então... Eu cheguei mais tarde naquele dia. Não estávamos em uma boa situação na oficina e eu tinha saído para beber, refrescar as ideias para conseguir uma solução. Achei que teríamos que fechar as portas... – soltou uma risada curta, sem humor e tomou um gole da propria cerveja, esquecida sobre a mesa. Olhou a garrafa quase com pena e então para Dean, que mesmo tentando esconder, também estava sofrendo com aquela conversa. Ele era só uma criança na época... – Eu abri a porta da sala e vi sua mãe caída. Não tinha visto o sangue... Eu só, só corri para o lado dela, tentei acordá-la... – mas ela não respirava mais. Tomou mais um gole longo a esse pensamento e continuou. – Pensei ter ouvido um barulho lá em cima e quando subi, encontrei você no chão! Sam chorava baixinho e você estava apoiado na parede. Não sei exatamente como consegui chamar o socorro, ou se foram os vizinhos, só sei que durante todo o caminho na ambulancia, você delirava e falava que um homem de olhos amarelos queria pegar seu irmão. Cheguei a pensar que você tinha recobrado a consiência em um momento, mas tudo o que você fazia era chorar e falar que os olhos amarelos queriam levar Sammy embora... Os médicos me disseram que você estava delirando, provavelmente pelo choque de ter visto o que aconteceu com sua mãe, mas era difícil de acreditar em tanta coincidencia. Você nem ao menos sabia ler ainda! Como poderia saber dos olhos amarelos?...

– Bobby disse que você foi atrás de respostas.

– É... alguns meses depois. – concordou com um aceno curto e olhou para Sam, que aparentemente falara olhando para o mais velho, que apenas olhava para o nada com as mãos apoiadas à frente do rosto. – Precisava saber quem era o homem que estava atrás do meu filho. Que tinha destruído a nossa família assim! Não esperava que uma viagem em busca de um homem fosse nos jogar numa realidade tão absurda como essa me pareceu. Monstros? Espíritos? Tudo real e quando percebi que tinha arrastado vocês para o meio de tudo isso, a única coisa que conseguia pensar era em mantê-los a salvo. E o que mais eu poderia fazer a não ser caçar o que cruzava o nosso caminho? Ensinar vocês a se defender?... Vivemos uns 6 anos assim. Não era perfeito, mas pelo menos sabia que quando voltasse para onde quer que estivessemos hospedados, que vocês estariam ali. Até aquela maldita caçada...

– Bobby disse que uma professora do Sam tinha sido possuída. É isso? – Dean perguntou em voz baixa, desviando o olhar para a toalha de mesa, o olhar vago.

– Mrs. Lyle... – baixou a vista e riu ironicamente. – Levei vocês dois comigo para a cidade onde iria caçar, pois achei que você já era grandinho o suficiente para ficar de olho em Sammy sozinho. Até mesmo matriculei vocês numa escola local... Era o mais próximo de uma vida ‘normal’ que tivemos em anos! E, Deus... Como era bom poder fingir que era apenas um pai como qualquer outro, levando seus meninos para a escola, apenas para variar um pouco... Até mesmo assisti uma peça de teatro que sua sala fez, Sammy. Você fazendo o papel de um raio de sol... E eu menos de uma hora depois, queimando restos no porão de uma casa. Não tinha do que reclamar. – parou por um momento e passou a mão sobre o rosto. Não iria contar que se envolveu com ela... aquilo. Que ela o enganou, se aproveitou da sua solidão. Da necessidade de toque. Céus, como aquilo lhe enojava... – Você quase foi sequestrado durante a aula e se por apenas um acaso eu não estivesse na loja do outro lado da rua, jamais teria visto quando ela tentou te levar. Mas ela não era humana. Provavelmente teria morrido se Ruffus não tivesse aparecido naquele momento. Ele a exorcizou. Ele me mandou falar com Bobby. Disse que ele teria algumas das respostas que eu queria. E eu fui. Mas eu não conseguia deixar de pensar no que ela disse. Que estavam atrás de vocês. – Que seu Sam era ‘especial’... – Bobby me disse tudo. Que Mrs. Lyle era um demônio. O problema era que, se eu acreditasse neles, teria que acreditar no inferno e se acreditasse no inferno, teria que acreditar no céu e em Satanás e Deus... Porque não se pode acreditar em uma coisa sem acreditar em tudo, não é? Mas Bobby me disse que nunca encontrou um demônio que tivesse visto o Diabo. Aparentemente a maioria nem mesmo acredita que ele exista... Ele me ajudou em algumas pesquisas, ensinou alguns truques para nos protegermos, de como exorcizá-los, deixá-los indefesos... Mas quase ter perdido vocês... Eu não podia correr esse risco de novo. Simplesmente não podia.

– E depois? Quando eu esqueci de tudo isso?

– Não se lembra das viagens? Dos motéis... Das escolas? Você tinha se apelidado de ‘O Aluno Novo’, lembra?

– Claro, claro que lembro. – concordou no mesmo tom de antes, as sobrancelhas franzidas, a expressão distante.

– Então não esqueceu de nada filho...

– E depois, quando voltamos pra casa, nunca mais aconteceu nada estranho?

– Além da sua mudança repentina de atitude em relação ao seu irmão? Nada. Mesmo fora de ação, sempre me mantive informado sobre o que acontecia a nossa volta...


Caíram num silencio pesado então, presos em seus próprios pensamentos e lembranças.


Não conseguia se lembrar de nada daquilo. Da escola, da professora... Mas com certeza aquilo tinha conexão com os seus pesadelos. Aqueles dos quais sempre acordava em completo pânico, chamando pelo irmão. Dos quais ele sempre o salvava quando deitava ao seu lado e passava o braço sobre seu peito protetoramente, roubando-lhe um pouco do ar. E aquele comentário do pai... Aquelas lembranças vagas de um Dean que faria qualquer coisa para mantê-lo a salvo. O que tinha acontecido? O que tinha ferrado com eles daquela forma? Por que Dean não o queria por perto?

E ainda... Por que apenas ele? Se disseram que estavam atrás deles, por que apenas ele quase foi levado? Por que realmente tudo levava a si? Dean disse para o pai que o 'homem' de olhos amarelos queria levá-lo quando sua mãe morreu. Samuel deixou uma carta de despedida, culpando-o por tudo, amaldiçoando-o... Aquilo dentro de Adam, aqueles olhos amarelos, falou diretamente consigo, como se ninguém mais importasse.

Tudo que estava acontecendo... A morte de suas mães, a morte de Jessica... Por que tudo estava conectado de alguma forma, mas ainda assim nada parecia fazer sentido? Por que recomeçar tudo de novo depois de tanto tempo? Céus... será que realmente ninguém que amava estava à salvo? Jessica morrera por sua culpa! E Adam-... Não conseguia olhar para os dois à sua frente e pensar que talvez eles pudessem ser os próximos.

Aquilo tinha que parar.

– Acho que tivemos o suficiente por hoje. Hora de ir pra cama meninos... – o pai quebrou o silencio então. Era coisa demais. Podia ver em seus filhos aquele desamparo que sentiu durante tanto tempo. Aquela sensação desnorteante de ser jogado no desconhecido. Definitivamente era coisa demais... – Vamos. Amanhã vai ser um longo dia...

– Mas pai...

– Chega por hoje Sammy. Amanhã podemos começar tudo de novo, mas hoje não. – respondeu impaciente, levantando finalmente da mesa e indo em direção à porta. Podia tirar a mesa no dia seguinte, não importava. Podia pensar com calma em tudo no dia seguinte. Pensar no que fazer. Agora, só queria sua cama. E logo. – É uma ordem.


–--



Seu pai subira direto, logo que saira da cozinha, mas Dean ainda ficou na sala durante alguns minutos ou talvez mais depois de tê-lo deixado sozinho na cozinha, sem dizer nada. Ainda pôde ouvi-lo andando de um lado para o outro em um certo intervalo de tempo antes de finalmente ouvi-lo subir, e quando levantou da mesa da cozinha e se pôs da tirar a mesa apenas para se sentir um pouco mais normal que fosse, menos amaldiçoado, percebeu a linha de sal no batente da porta, atravessando-a de um lado a outro e então outra na janela e até naquele buraco do exaustor que fora tirado de lá há tanto tempo atrás. Deveria ter mais delas em todas as possíveis entradas da casa.


É... Não seria tão fácil assim fingir.

Pegou uma garrafa de cerveja na geladeira e foi para a sala, jogando-se sobre a poltrona antiga de seu pai antes de abri-la e tomar um gole longo, cansado.

Não era difícil ouvir o tique-taque do relógio antigo na cozinha, com a casa silenciosa como estava.

Já devia ser tarde, mas não queria ter que subir e dormir. Não queria ter que entrar naquele quarto e ver o beliche vazio. Não ter de apagar a luz apenas porque o mais novo usava como desculpa ser complicado demais apagar a luz e subir de novo na cama. Não ouvir o estrado da cama de cima ranger cada vez que o mais novo se mexesse lá em cima e ainda ter que aturar a respiração alta de Adam pelo quarto, incomodando seu sono...

Teve que rir irônico de tudo isso. Uma maldita semana, e nada mais era o mesmo.

Suspirou cansado e bebeu mais outro gole de cerveja, encostando a cabeça cansadamente no encosto alto da poltrona velha, olhando em volta com outro olhar.

Aquela casa tinha sido testemunha de tudo.

E era estranho pensar nisso, pois ainda que não quisesse, aquela sensação de segurança e paz que só temos quando estamos finalmente em casa parecia desaparecer quando pensava nisso.

Talvez aquele lugar fosse amaldiçoado. Exatamente como ele.

– Não consegue dormir? – ouviu a voz conhecida perguntar, assustando-o ligeiramente. E se virou para as escadas, vendo-o terminar de descê-las mais lentamente.

Nem sequer havia tentado dormir, pensou com certo escárnio.

– Pelo jeito não sou o único.

– Só vim atrás... de um copo de leite. – justificou-se então, sumindo alguns instantes pelo corredor da cozinha.

E teve que rir meio ironicamente outra vez quando o viu retornar, não com um copo, mas com uma garrafa displicentemente oculta ao lado do corpo.

– Seu copo de leite tem um formato interessante pai...

– O leite acabou. Me processe. – parou o avanço e ainda tentou gracejar, mas sorriu abatido então, parando à beira da escada.

– Isso tudo... aconteceu aqui não é? – perguntou num sussurro e John meneou a cabeça de um jeito frouxo, como se aquele sim o perturbasse.

– Ela estava bem aqui. Quando cheguei, ela me olhava, mas não tinha nada nos olhos dela... Deus, tinha tanto sangue... – umedeceu os lábios e riu derrotado. – Eu teria feito qualquer coisa pra pegar quem fez isso com ela, mas não podia por vocês em risco. Mary nunca me perdoaria se eu fizesse isso com vocês. E sabe? Às vezes eu ainda consigo ver, como se estivesse na minha frente outra vez...

– Pai...

– Não, tudo bem Sammy... Acho que desenterrei muita coisa hoje. Só isso. – murmurou sem olhá-lo ainda. Olhos fixos ao pé da escada. Era estranho pensar que ali foi o lugar onde a vira pela ultima vez. – Nada que um pouco de uísque e uma boa noite de sono não resolva.

Viu-o começar a subir as escadas e fez menção a chamá-lo outra vez, mas simplesmente não tinha o que falar. Até mesmo algo comum como um ‘boa noite’ parecia sem sentido, porque... Que boa noite ele poderia ter? Qualquer um deles? Se todos não fossem ter pesadelos essa noite não sabia mais se teriam um dia...

Recostou a cabeça mais uma vez no encosto da poltrona, fechando os olhos com força, repassando mentalmente toda a conversa que tiveram. E abriu os olhos então, olhando para a garrafa em seus dedos e sorriu fracamente com aquilo. Sentiu uma lágrima lhe escapar, mas não se mexeu, apenas continuou olhando-a e sorrindo de leve antes de suspirar e tomar o resto do conteúdo de uma vez, apertando o vidro contra os dedos com vontade, procurando o calor que sabia que não encontraria mais lá, não sem aquela mão por cima da sua.


–--



Talvez fossem mais de três da manhã. Não saberia dizer. Estava deitado na cama, sobre as cobertas mesmo, mãos atrás da cabeça. Mas não conseguia dormir. Ficava olhando para o teto, pensando em tudo. Em como as coisas faziam sentido agora.


Aquele muda-muda de estado em estado, cidade em cidade. Morando em motéis, de favor em casa de pessoas que nunca tinha visto antes, nunca fixos em um único lugar. Aquelas gincanas, as aulas de tiro. As aulas chatas de latim quando finalmente voltaram para casa. O fato de ter um terço mergulhado dentro da caixa d’água. Aquela desconfiança sobre qualquer pessoa que se aproximasse deles, o que sempre dificultou a eles fazer qualquer amizade...

Será que Sam se lembrava disso tudo?

Não conseguiu deixar de pensar nele eem seu pai... Se não estava conseguindo dormir, o que diria deles?

E esse pensamento fez crescer uma urgencia em saber como eles estavam, inquietando-o até que bufasse e levantasse da cama, indo ver se estavam bem, ao menos na medida do que poderiam estar naquele momento.

O que, infelizmente, sabia que não poderia ser grande coisa.

Seu pai tinha pegado no sono com uma garrafa quase vazia em mãos, ainda sentado na cama. Era decadente, o estado em que ele se encontrava; largado de qualquer jeito, ainda de sapatos e cinto, agarrado àquela garrafa... E era nostalgico também, pois até voltarem para casa então, era assim que o encontrava, vira-e-mexe.

E fez então exatamente o que sempre fazia quando o encontrava assim: Ajeitou suas costas com um travesseiro e tirou a garrafa de suas mãos com cuidado, colocando-a sobre o móvel lateral antes de cobrí-lo e sair engolindo em seco aquele nó familiar que não sentia subir por sua garganta desde seus 10 anos.

Passou a mão pelo rosto, respirando fundo antes de ir à porta do quarto dos irmãos, sem saber exatamente o que esperava encontrar. Ela estava encostada apenas e quando a empurrou um pouco, percebeu que ao contrário do pai, Sam não dormia também. Ele estava encostado à janela, quase sentado, os braços cruzados, o olhar perdido. Parecia estar chorando, ou talvez forçando-se a não chorar.

Teve que se encostar ao batente da porta com isso, franzindo o cenho e prendendo o ar frustradamente. Deus, queria poder entrar naquele quarto e abraçá-lo... Tirar aquele olhar angustiado de seu rosto por um instante que fosse. Mas tudo o que fez foi voltar para seu quarto, em silêncio. Insatisfeito por saber que eles realmente estavam tão ou até mais miseráveis do que se sentia também.

Aquilo tudo era tão fodido... Entender então tudo o que seu velho tinha passado. Ver toda a culpa e remorço que tomava seu irmão sem que ele nem mesmo tivesse culpa de algo a não ser talvez estar sempre no lugar errado.

Ele devia estar chorando sozinho ainda... E desta vez Adam não estava lá para abraçá-lo forte contra si e dizer que tudo ia ficar bem. Ele realmente estava sozinho ali naquele quarto, apoiado na janela, de braços cruzados, olhando o nada com os olhos cansados e infelizes.

Deus, como ele era irritante! Nem mesmo podia ficar em paz com seus próprios pensamentos sem que ele tomasse todo o espaço para si! Porque ele sempre estava ali?

Sentou sobre a cama cansadamente, mas levantou logo em seguida. A quem queria enganar? Iria lá outra vez... Mesmo que só para dizer para ele ser forte porque era um Winchester e era assim que eles lidavam com as coisas. Que estava tudo bem, que iriam superar essa. Todos eles.

Mas quando voltou, Sam já estava deitado.

Já estava dormindo, provavelmente de pura exaustão. Jogado na cama, sobre as cobertas mesmo numa cena quase similar a do pai, mesmo que menos decadente.

Talvez tivesse caído no sono enquanto refletia..., pensou consigo enquanto percebia a expressão tensa naquele rosto. Nem nos próprios sonhos, aparentemente, ele teria paz...

‘– Outro pesadelo Sammy?... Ok, eu durmo aí de novo, mas é a ultima vez tá?... Vamos lá, já passou. Tô aqui não tô? Vai ficar tudo bem...’

Quase sorriu sozinho, lembrando daquilo, mas afastou-o de seu rosto assim que percebeu no que pensava. Sempre era a ultima vez. E sempre estava lá novamente. Nunca tinha entendido como ele podia ter tantos pesadelos, sendo tão novinho.

Bom... Agora entendia.

Buscou o bolso das calças e baixou a vista, revirando os olhos quando percebeu que não sairia de lá tão cedo. Bom, já que era assim podia pelo menos cobrí-lo também, não é?

– Estou aqui Sammy... Pode dormir tranquilo. – pegou a coberta na cama de cima e esticou-a sobre o corpo maior enquanto murmurava. E quando o fez, ele nem mesmo se mexeu, apenas aliviou um pouco a expressão, como se aquilo lhe trouxesse algum conforto mínimo que fosse e, por um momento apenas, pensou que talvez ele tivesse lhe ouvido.

Mas então rolou os olhos outra vez. O cara tava dormindo! E vamos lá, tava um friozinho desgraçado naquela noite... é claro que aquilo tinha sido por causa da coberta...

E tudo o que fez então foi puxar a cadeira do computador para si, sentando-se. E lá ficou, sentado na cadeira, vendo ele dormir.

Zelando por seu sono.

Não percebeu que quando se virou para pegar a cadeira, Sam abriu os olhos de leve, como que para ter certeza de que não estava imaginando coisas. Pois ele não estava dormindo ainda, apenas quase pegando no sono quando sentiu-se ser coberto e ouviu-o falar aquilo de um jeito tão familiar e reconfortante. E apenas fechou os olhos de novo, pois sabia que ele iria embora se o visse acordado.

E só quando o próprio irmão pegou no sono acidentalmente, sentado naquela cadeira, é que voltou a abri-los para olhá-lo ali, bem ao seu lado.

Levantou discretamente e pegou a outra coberta da sua cama, colocando-a sobre os ombros do mais velho. E quando voltou a se deitar, adormeceu sem-querer, olhando-o com a certeza de que Dean era o único que o faria se sentir seguro o suficiente para conseguir dormir novamente naquela maldita casa.


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Notas finais
Espero vocês no próximo capítulo!!
beijos, Maru.