The Outsiders
11 Chapter XI – AT HOME AND SO FAR
Notas iniciais
Já disse uma vez e repetirei para sempre: Não exestiria a TO sem você. Muito obrigada por isso.
E também tenho que agradecer demais todo o carinho e apoio dos nossos leitores! Vocês não fazem ideia de como seus reviews são especiais e importantes para mim. Muito obrigada por sempre participarem e por estarem nessa jornada dos Winchester conosco.
Informações extras, como sempre: http://slashyaoifanfics.blogspot.com/2011/10/e-la-vamos-nos.html
Para esse capítulo:
http://www.youtube.com/watch?v=siMFORx8uO8&feature=related
LEIAM OUVINDO, divirtam-se e boa leitura!
Olhou apenas mais uma vez pra paisagem à volta e pelo retrovisor lateral, antes de soltar o ar com impaciência e recostar a cabeça ao vidro do carro outra vez. Lançou um olhar feio para o rádio do carro, tocando Free em um volume até que discreto demais para o padrão do irmão.
There she stood in the street, smiling from her head to her feet
I said, "A-hey, what is this?"
Now baby maybe, maybe she's in need of a kiss
.
E talvez fosse só paranoia sua, mas depois de tudo que escutou do velho amigo do pai, ouvir uma musica chamada ‘All Right Now’ parecia até meio ofensivo.
I said, "A-hey, what's your name, baby?
Maybe we can see things the same
.
Do que Bobby dissera, seu pai estava seguindo para a cidade em que vivia o cara que morreu no acidente da estrada, pois a mãe dele morrera coincidentemente num incêndio iniciado no quarto do bebê e era exatamente pra lá que iam naquele momento: Jefferson County, Kansas.
Now don't you wait or hesitate
Let's move before they raise the parking rate"
All right now baby, it's all right now
All right now baby, it's all right now […]
.
Chegaram até cedo, por volta das 2:30pm, e logo se puseram a pesquisar informações sobre o garoto e sua família. E depois de horas, o que descobriram era praticamente inútil.
Os vizinhos da época do incidente haviam se mudado. Tanto os de um lado da casa como do outro. Na frente, funcionava uma lanchonetezinha que além de ser de longe a melhor opção pra tentarem conseguir alguma informação naquela rua, pareceu até bem convidativa para o primogênito, assim que foi lembrado pelo próprio estômago que outra vez pularam uma refeição. O moreno não gostou tanto assim da ideia. Não achou sinceramente o senhor barrigudo de avental manchado de óleo o tipo de pessoa a quem confiaria o que ia comer, mas resolveu ficar quieto, já que ainda não estavam se falando direito desde a ida a Sioux Falls.
Após pedirem, escolheram uma mesa perto da grande janela de vidro encardida, que dava vista direta para a tal casa do outro lado da rua.
– A gente podia entrar pra dar uma conferida. – o mais velho sugeriu assim que seguiu seu olhar para a entrada de um verde claro amarronzado pelo tempo.
– Como assim entrar? Ela está vazia há meses, lembra? Quer arrombar a casa? – perguntou um tanto irônico, tamborilando os dedos na mesa antes de perceber o olhar sério do mais velho sob si. – Não, Dean...
– Você ainda consegue abrir fechaduras daquele jeito, não é Sam?
– Esquece, eu não vou fazer isso. – baixou o tom de voz e se inclinou sobre a mesa, falando devagar para que o outro entendesse. – Isso é invasão de propriedade.
– Eu sei o que isso é, Mister futuro Advogado... Apenas, sei lá, encare como um tour; não vamos pegar nada cara, só olhar.
– Não. Eu não vou... fazer aquilo de novo. – retrucou um pouco mais alto — chamando a atenção dos clientes à volta -, ainda meio tenso e corado pela ideia de fazer algo ilegal e voltou a se sentar direito sobre seu assento, recebendo um olhar feio do loiro, que olhou à volta discretamente e bufou.
– Ah, maravilha, viu o que você fez? – foi sua vez de se inclinar sobre a mesa, olhando à volta outra vez para exemplificar o que falava. Os poucos clientes do lugar, os olhavam de um jeito estranho. – Agora vão achar que temos um caso, Samantha. – ajeitou-se também na cadeira, olhando outra vez pra casa. –... Eu abro.
– Dean, eu não vou entrar lá. – engoliu em seco depois de dizer isso, ao ver o olhar frio que o outro lhe lançara, e fechou os olhos frustrado. Agradeceu mentalmente pelo pedido ter chegado bem naquele momento, evitando qualquer possível resposta.
Respirou fundo, se ajeitando outra vez na cadeira antes que perdesse de vez a paciência e socasse o mais novo. Não que achasse mesmo que fossem encontrar algo de importante, mas nunca iriam saber mesmo se não fossem ver! Ele e aquele apego inútil às leis! O que ele queria? Mandar um pedido formal para entrar na casa e procurar pistas?
Até porque, do que Bobby explicara sobre o ‘trabalho’, caçar não era exatamente algo lícito e apoiado pelo governo. E Sam não vira, pois logo depois da declaração do mais velho sobre o que acontecera com Adam, o moreno saiu quase que correndo da sala e não apareceu mais pelo resto do dia, mas o velho lhe mostrara coisas importantes de se ter nessa área. Como carteiras falsas, placas alternativas de veículo, medidor de ondas eletromagnéticas, entre armas de fogo, facas, sal, pás, combustível, fogo e estacas.
O negócio não parecia ser muito pacífico.
Torceu a boca, ainda meio irritado e fez menção a falar algo, mas interrompeu-se ao ouvir um cliente berrar pro cara do avental aumentar o volume da TV, que estava num jornal local.
Aparentemente, um túmulo do Fairview Cemetery havia sido violado e a policia não tinha pista do autor do crime. Não deu tanta importância assim pra matéria em si antes de ouvir que havia sinais de fogo no que restara do túmulo e focarem a câmera bem na lápide. Percebeu um movimento rápido ao seu lado e quando virou-se novamente de frente para a mesa, Sam estava de pé, vestindo a blusa de moletom que havia tirado antes de sentar.
– Vamos! – disse apressado pro irmão, que lhe olhou um tanto confuso antes de fazer sinal pro cara e pedir pra embrulhar o que compraram pra viagem.
– O que foi?
– Lá fora eu te conto. – murmurou ansioso, olhando à volta um tanto perdido até que seu irmão estivesse com o pacote de viagem em mãos. Saíram a passos apertados, dando a volta pelo Impala e só quando já estavam lá dentro e bateram as portas é que tornou a falar. – Você viu o nome do túmulo, Dean?
– Vi, mas o que isso-. – interrompeu-se e arqueou as sobrancelhas. – Espera, você acha que...?
– Samantha Smits, 1966-1998. – respondeu sério, segurando o pacote que o mais velho lhe estendeu. – Tumulo violado, marcas de queimado. O que o Bobby tinha falado sobre eliminar um fantasma?
– É preciso salgar e queimar os restos mortais. – olhou dentro dos olhos do mais novo por um momento antes de pegar seu celular novamente, discando o numero de Bobby. – Bobby, sou eu, Dean... Claro que tenho um bom motivo, acha que liguei pra quê? É, chegamos em Jefferson County e se o pai veio mesmo pra cá, deu com os burros n’água exatamente como nós. Não... A casa está vazia há meses, sem vizinhos da época na rua... Mas quando paramos pra comer, passou num noticiário local que abriram um túmulo no cemitério...
– Fairview. – respondeu quando o irmão o olhou inquisitivo, dando de ombros ao seu olhar descrente.
– Fairview. Sam reconheceu o nome na lápide: Samantha Smits. É, foi o que eu achei... Acha que foi ele-...? Ok, valeu Bobby.
Observou o mais velho desligar com um suspiro curto e ligar o carro sem dizer nada e suspirou também, apertando um tanto mais a sacola de papel entre os dedos.
– E então?
– Bom, boa notícia pra você, não vamos mais entrar na casa. – sorriu sarcasticamente, enquanto manobrava o carro. – Vamos entrar no cemitério e dar uma olhada naquela cova.
.
[…] All right now baby, it's all right now
All right now baby (We're so happy together), it's all right now (It's all right, it's all right, it's all right, everything is all right)
All right now baby, it's all right now
–--
Alugaram um quarto num motel de quinta por ali mesmo antes de qualquer outra coisa e, após algumas negativas e tentativas de negociação da parte do moreno, traçaram por alto o que fariam: Iam só vistoriar, procurar indícios de sal, marcas de botas, qualquer coisa que indicasse que realmente poderia ter sido seu pai. Iriam juntos assim que a noite começasse a cair e qualquer sinal minimo que fosse de terceiros, se esconderiam.
Caso algo desse errado, pelo menos um deles tinha que estar a salvo para ajudar o outro e cada um deles levava pelo menos dois pares de clipes de papel escondidos nas roupas, em locais acessíveis. Nada de nomes verdadeiros, o que não deixou Sam nada satisfeito.
Foram mais ou menos 10 minutos de carro para chegarem ao cemitério, pegando à esquerda na Marion Rd, e virando novamente na mesma direção na 122nd St, onde tudo era praticamente mato.
Dean até mesmo sentiu vontade de rir ao ver que o cemitério não passava de um campo aberto com lápides espalhadas pelo chão. E até mesmo pela ação policial, conseguiu identificar de longe o túmulo aberto, rodeado com estacas de madeira e aquela fita de isolamento idiota amarela.
– Fácil demais, não acha? – Sam murmurou desconfiado, enquanto o mais velho parava um tanto mais para frente, invadindo o terreno, camuflando o carro atrás de algumas árvores.
– Acho bom pra variar um pouco. – respondeu simplesmente antes de sair do carro, sendo seguido pelo maior logo depois.
Caminharam pelo mato maltratado até onde as campas ganhavam terreno, circulando-as até chegarem na que lhes interessava. Mas quando se aproximaram o suficiente para analizarem a cova, o céu se punha no horizonte, levando consigo qualquer iluminação natural.
– É, não mais tão fácil Sam... Feliz? – suspirou impacientemente e olhou pro mais novo que lhe lançou um olhar enviesado antes de menear a cabeça.
– Muito. – ironizou também, sendo ignorado pelo mais velho, que burlou as fitas de segurança e se aproximou mais do túmulo como se tivesse visto algo.
– Tá vendo algo alí perto do caixão? – perguntou incerto, tentando ver melhor apesar da falta de iluminação.
– Parece só uma sombra Dean...
– Não me diga, Sherlock. – revirou os olhos impaciente, dando a volta no buraco, se posicionando mais próximo ao vulto. – Vai lá no carro pegar uma lanterna, ok? – falou virando-se para o irmão então, jogando-lhe as chaves do veículo. – Não demora!
Olhou à volta uma vez e agachou-se próximo ao túmulo. Sabia que de onde estava seria visto fácilmente, por isso se colocou em uma das bordas do buraco, perto de uma das estacas fincadas ao chão.
Até que tentou esperar, mas após o que contava serem uns 8 minutos sem nenhum sinal de Sam, respirou fundo e entrou na cova, respirando devagar e baixo, atento a qualquer coisa à sua volta. Apoiou-se na terra firme onde estivera abaixado e meteu a outra mão no vulto, surpreendendo-se ao ver que era um caderno velho com capa de couro escura e reconhecê-lo como aquele caderno que seu pai vivia levando para cima e para baixo. O que ele deixava trancado na gaveta do escritório da oficina.
Sentiu uma luz forte se aproximar e seu celular vibrar no bolso, atendeu-o apressado, ouvindo a voz do mais novo soar urgente.
– Dean, sai daí o mais depressa que puder!
– Deixa eu adivinhar: Sujou. – murmurou aborrecido, levantando a cabeça mininamente para ver o que havia. É tinha sujado feio. – Fica escondido e depois volta pro motel Sammy, deixa que eu me viro, ok?
– Dean-.
– Tchau. – desligou depressa e só teve tempo de guardar o aparelho de volta no bolso antes de ser iluminado pouco delicadamente com uma lanterna enorme e amarela, enquanto dois policiais dos três que vira berravam para ficar parado. – Hey caras! Ainda bem que chegaram... Eu caí aqui, poderiam me dar uma mão?
– Calado aí garotão... Tudo o que disser poderá ser usado contra você. – um dos tiras, o maior, pronunciou-se numa voz pouco amigável, puxando-o pela jaqueta para sair de lá enquanto estalava a língua em vários ‘tsc’ curtos, satisfeito. – Bem que dizem que o criminoso sempre volta à cena do crime... Veio atrás disso não é mesmo garotão?
Tentou segurar mais firme o caderno, mas não conseguiu impedir que lhe arrancassem ele de qualquer forma e praguejou mentalmente, forçando-se a não olhar na direção do carro para não denunciar o outro.
– Nos acompanhe à delegacia, moleque. – o segundo policial disse, enquanto prendia suas mãos atrás de seu corpo com algemas, apertando-as mais que o necessário. Talvez de propósito.
– Será um prazer, cavalheiros... – respondeu atrevido, levando um tranco para que começasse logo a andar.
–--
Teve que revirar o carro inteiro no escuro para conseguir achar as drogas das lanternas que, estranhamente, estavam embaixo do banco da frente. Bateu a cabeça no volante do carro quando levantou e conteve um palavrão, bufando logo em seguida, enquanto massageava o local. Tinha que ir logo, mesmo que imaginasse que Dean reclamaria de qualquer jeito da demora.
Mas quando fechou a porta do carro para fazer o caminho de volta à cova e viu faróis altos e aquela luzinha vermelha e azul brilhando, acabou externando sua vontade com um grunhido preocupado enquanto pegava o seu celular o mais depressa que deu, discando na chamada rápida o numero do mais velho.
– Dean, sai daí o mais depressa que puder! – avisou ansioso quando foi atendido, vendo o carro parar e três tiras descerem do veículo, ligando suas lanternas sem maiores preocupações em serem vistos.
– Deixa eu adivinhar: Sujou. – a voz dele soou baixa e aborrecida, e quando virou a cabeça para fora da proteção das àrvores para ver o que havia, percebeu que os caras já estavam perto demais do túmulo queimado para que Dean pudesse sair sem ser notado. – Fica escondido e depois volta pro motel Sammy, deixa que eu me viro, ok?
– Dean-. – ia retrucar, mesmo que não soubesse o quê, mas foi cortado pelo mais velho, que só deixou soar um ‘Tchau’ apressado antes de encerrar a ligação. E quando viu que era tarde demais e que os policiais já o tinham visto, resolveu que era melhor mesmo se esconder, ou também seria preso e não poderia ajudar Dean. Mas ainda assim não conseguiu evitar se sentir responsável por deixar que eles o levassem assim.
Aguardou ali mais uns dois minutos antes de seguir o carro que levava seu irmão umas 6 mi à frente, até a delegacia, próxima ao 316 da Washington St. Passou reto pela entrada de tijolos para não chamar a atenção e percebeu um tanto aliviado que o motel não ficava realmente longe daquela quadra, dava para chegar lá em uns 3 min.
Estacionou o carro e tamborilou os dedos no volante, tirando o celular do bolso antes de sair, batendo a porta com mais consideração que o normal.
–--
Fechou os olhos por reflexo quando o delegado jogou o caderno de couro sobre a mesa, passando próximo demais de seu rosto, abrindo-os logo em seguida com um quê de cinismo.
– Certo, vamos facilitar as coisas pra você: me diz quem é, o que estava fazendo lá e porque e eu talvez-...
– Talvez me traga umas rosquinhas? Nah... – negou desinteressado, recostando-se na cadeira de madeira, se divertindo com a ruga de tensão que surgiu na testa do delegado. – Tenho o direito de permanecer calado não é?
Teve que conter um sorrisinho de escárnio quando o seu interrogador bateu com força na mesa, percebendo que mais um pouco, era capaz do cara não se negar a usar a força pra conseguir as respostas que queria.
– Estou falando sério aqui! Qual é o seu nome? – o homem ajeitou o chapeu e praticamente bufou as palavras em sua cara, forçando-o a se afastar do hálito quente e com um cheiro forte de cigarro e café.
– Ted Nuggent. – respondeu assim que o homem se afastou o suficiente, sorrindo de lado daquele jeito cretino e ouviu a risada de escarnio do homem, que pegou o caderno de couro e folheou-o com fingido descaso, parando em uma pagina em especial e jogando-o de novo à sua frente, apontando para o meio da folha.
– Eu acho que você se chama Adam. – ignorou a voz cheia de certeza do delegado e ficou encarando o que estava escrito embaixo do dedo magro, fincado na folha de papel.
Era inegavelmente a caligrafia de seu pai. Haviam coordenadas circuladas em caneta, ocupando umas três linhas de uma vez, e o nome e a data de aniversário do seu irmãozinho, logo embaixo. Praticamente pôde sentir o sorrisinho vitorioso do cara, provavelmente entendendo errado sua seriedade súbita, mas antes que ele pudesse dizer algo, o telefone fixo começou a tocar irritantemente.
– Precisa ir ao banheiro?
– Não... – respondeu um tanto confuso levantando o olhar da folha e encarando finalmente o homem, talvez com seus 45 anos.
– Ótimo. – respondeu safisfeito, prendendo seu pulso esquerdo ao pé da mesa com algemas antes de sair da saleta.
Típico..., pensou aborrecido e puxou o braço de leve, suspirando ansiosamente, enquanto ouvia o movimento do lado de fora. Olhou para a porta para ter certeza que não tinha nenhum policial se aproximando e tirou o clipe da calça, livrando-se das algemas com certa facilidade.
Facilidade demais. Estranhou que nenhum policial ainda tivesse entrado na sala e por isso se aproximou com cuidado da porta — após guardar o diário consigo. Olhou através do vidro fumé todo o contingente policial deixar a delegacia com pressa e sorriu ladino, esperando o ultimo tira sumir para então sair da sala, dando a volta pela delegacia e escapando pelos fundos.
Pulou o muro e riu discretamente, apalpando o bolso para ter certeza de que estava com seu celular e discou o numero de Sam, rindo novamente quando ele atendeu.
– Falsa denuncia dá cadeia, sabia? – comentou divertido e sorriu mais ao ouvir o mais novo rir do outro lado da linha.
– De nada. Estou indo te buscar.
–--
Não se deu ao trabalho de estacionar, apenas parou e abriu a porta do passageiro pro mais velho, que o encarou do lado de fora e torceu a boca antes de se conformar e entrar no carro, fechando-a com certa pressa.
Arrancou prontamente, seguindo o caminho de volta pro motel, enquanto seu irmão tirava algo do bolso interno da jaqueta e soltava o ar dos pulmões. Era um caderno de couro marrom, do que pôde ver e quando olhou melhor, percebeu a familiaridade.
– Isso é...
– O diário do pai, é. – completou distraído, abrindo-o na mesma página que o delegado o abrira e encarando novamente o nome do seu irmãozinho marcado na folha. – Era a sombra dentro da cova. A polícia deixou lá, provavelmente como ísca, achando que o cara fosse voltar pra pegar.
Percebeu quando o mais velho passou ditraídamente a ponta dos dedos no nome na folha e guardou silencio, sentindo o peso daquele gesto. E quase desejou que fosse Dean que estivesse dirigindo com suas musicas barulhentas, assim poderia ser ele ali com a ponta dos dedos passeando pelo papel, ou poderia simplesmente olhar para o lado de fora da janela e pensar.
– Precisamos ver onde essas coordenadas levam. – forçou sua voz a sair tranquila e ouviu o loiro soltar o ar também como se quase achasse graça.
– Você sabe que dia é hoje? – ouviu-o murmurar com a voz rasa e soltou o ar num riso sem diversão, forçando-se a não baixar a vista da rua. – Faltam 3 dias. Eu tinha me esquecido.
–... Eu não. – admitiu antes de parar o carro finalmente, descendo rápido, antes que ele próprio percebesse que estava quase lacrimejando.
Não combinaram nada em palavras, apenas recolheram as coisas e deixaram o motel o mais depressa possível como se já estivesse pré-estabelecido. E quando estavam no carro, o mais velho olhou mais uma vez para a página aberta antes de fechar o diário, jogando-o no colo do irmão. – Vamos voltar. A chance é mínima, mas se o pai anotou, talvez ele...
– Certo. – concordou sem olhar para ele, segurando a capa de couro entre os dedos com força.
– Sam...
– Falo sério Dean. Tudo bem. – afirmou sério, mas não levantou o olhar. É claro que estava mentindo, não estava nada bem. Não queria voltar. Não queria ver Adam naquela cama de novo e saber que mesmo nos próximos 3 dias, quando chegasse aquele dia que deveria ser um dia de celebração, ele não estaria lá pra comemorar a própria data. Por sua culpa.
Mas Dean estava certo, por menor que fosse, a chance existia e precisavam encontrar o pai, saber até onde ele sabia e fazê-lo explicar o resto da história. Riu um tanto sem-graça então, ao pensar numa coisa até bem óbvia.
– Ele vai chegar lá e dar de cara com a oficina e a casa fechadas... – comentou para o nada e como pensou, não recebeu resposta, apenas o pé do irmão mais pesado no acelerador do carro enquanto tomavam a estrada novamente, de volta para Lawrence.
–--
A parte boa de tudo aquilo era que Lawrence era a pouco mais de 30 min de viagem, logo, cairia fora de Oskaloosa antes que percebessem o túmulo e estaria em casa, em segurança, quando o fizessem. Era até que um resultado satisfatório. Ao menos o caso Samantha Smits estava oficialmente encerrado. E descobrir que o corpo havia sido enterrado no túmulo da família, justamente em Jefferson County...
Bom, ainda eram dias perdidos naquele buraco de hospedagem, sem contar a fuga quase frustrada da casa da família Scott, a falta de resultados nessa busca e a falta de contato com os seus meninos durante todos esses dias.
Olhou para o banco do passageiro, onde largara seu celular ainda desligado e meneou a cabeça. Era melhor deixar para ligá-lo quando tivesse algo a falar para seus garotos. Ou talvez nem tivesse que fazê-lo, afinal já estava perto de casa.
Teve que sorrir discretamente a esse pensamento. Só percebia como sentia falta daquela casa velha quando voltava pra ela. Mas quando parou a caminhonete na entrada e abriu-a, ela parecia fechada há dias. Estava cheirando a poeia já, como se ninguém tivesse aberto as janelas há um tempo.
Chamou os três garotos, mas não teve resposta e isso fez seu coração acelerar e sua visão e audição se aguçarem, enquanto verificava cômodo por cômodo da casa em silencio, cuidadosamente, com receio de encontrar algo. E não soube se ficava aliviado ou confuso quando percebeu que não havia nada nem sinal de ninguém ali.
Olhou no calendário, certo, era dia 25 de setembro, plena segunda-feira... Talvez os meninos estivessem na oficina e, pelo horário, Adam ainda estaria na escola.
Mas quando chegou na oficina, tudo estava trancado também. Vazio. E com cara de não ser visitado há dias.
O que estava acontecendo? Onde diabos estavam seus filhos?
–--
– Dá pra parar com isso? – baixou o volume do rádio e encarou o mais novo por um momento, antes de voltar sua atenção outra vez para a estrada.
– Com isso o quê? – perguntou se ajeitando no banco outra vez, ainda olhando para a janela.
– Com isso! Cara, parece que tá com assadura nas bolas! – viu-o se remexer mais uma vez no banco e bufou, parando no acostamento. – Ok, o que tá acontecendo?
– Nada. – emendou imediatamente, finalmente encarando o mais velho. – Põe o carro pra andar Dean, não temos tempo a perder.
– Claro que não, mas não ponho a minha belezinha na estrada de novo até você decidir em que pedaço do banco quer ficar sentado de uma vez! O que está acontecendo Sam? Isso tudo é por causa do Dam?
– Não! – exclamou prontamente, um tanto confuso. – É. Mas não é só-... Olha... Você percebeu que todos esses 5 dias que ficamos na casa do Bobby, tudo que ele mostrou pra gente, de algum jeito, o pai já tinha ensinado antes? Quer dizer: Mexer com facas, tiro ao alvo, arco e flexa, as gincanas de resistencia atrás dos doces, tudo! Ele estava treinando a gente!
– É, eu saquei, certo. E você está assim por...? – continuou encarando-o um tanto descrente e, de algum jeito, sabia que ele não estava inquieto de gratidão pelo pai tê-los ensinado a se defender.
– Qual é... Ele estava nos fazendo de idiotas esse tempo todo!
– Sam!
– Não Dean, é exatamente isso. Ele ensinou tudo pra gente, só esqueceu o princial: mostrar contra o quê nós deviamos usar o que aprendemos! De que adiantava, Dean, nós sabermos abrir fechaduras, abrir covas, ou mesmo sabermos todos aqueles textos em latim, se ele nunca disse pra quê tinhamos que saber isso? Todos esses anos, eu só achava que ele queria ensinar essas coisas absurdas pra gente por causa daquela história toda de exército, ou por superstição... mas não! Sempre teve algo muito maior por trás, mas ele segurou essa verdade com ele até ela resolver explodir sozinha nas nossas caras. E se soubessemos disso antes, talvez nada disso tivesse acontecido! Talvez o Adam nem mesmo estivesse onde está nesse momento!
– Claro, e você queria que ele tivesse feito o quê? Que tivesse falado ‘o principal’ pra duas crianças pequenas? – ironizou. – Super! E depois o quê? Saísse nos arrastando por aí como ciganos enquanto ele caçava monstros, Sammy? Qual é!
– Eu só queria a verdade. Você realmente acha que é pedir demais?
– Essa verdade Sam? Acho. – meneou a cabeça em desaprovação e voltou à estrada em silêncio. Não era como se não concordasse com ele até certo ponto, mas daí a jogar a culpa de tudo no cara? Quer dizer, com certeza ele teve seus motivos pra não contar e de certa forma tentou protegê-los sem deixá-los expostos, não é? Não sabia bem o que pensar e de algum jeito, conseguiu o que queria: Sam não estava mais pipocando no banco ao lado.
Mas de algum jeito, preferiria que ele ainda estivesse fazendo-o, ao invés de ficar encarando o vidro, parado daquele jeito grave.
–--
Claro que o próximo passo foi procurar o caçula na escola, mas quando chegou à secretaria, foi informado que o aluno que ele procurava bem como mais outros dez ou quinze não apareceriam em aula devido a um incidente ocorrido na biblioteca há uma semana, ou algo assim. A secretária ainda disse mais alguma coisa sobre susto ou sei lá, mas não esperou que ela terminasse de falar, pois logo uniu isso à ligação de Dean aquele dia, falando que Adam estava no hospital.
Péssimo sinal.
Começou pelo mais próximo, a uns 12 minutos de sua casa e quando perguntou à recepção sobre Adam Miligan Winchester, foi encaminhado diretamente à diretoria do hospital, mesmo sem que o tivesse requerido.
Foi informado então pelo diretor geral que seu filho se encontrava em coma e que ele próprio, aparentemente, havia solicitado a presença dos outros dois rapazes em outra cidade com urgência, por isso teve que engolir sua surpresa e preocupação e tratou com a maior naturalidade possível o assunto, induzindo-o a lhe narrar tudo que ocorrera. Não conseguiu muita coisa, apenas que o garoto passara 3 dias na UTI depois de uma melhora milagrosa e aquela piora inexplicável, e que agora estava em um quarto próprio. E uma permissão para ver seu menino fora do horário de visitas.
Assim que entrou no quarto tentou dar meia-volta, mas não conseguiu. Travou com a imagem de seu garoto ligado àqueles aparelhos todos, tão quieto e pálido. Não era seu Adam ali, era uma casca vazia! Desviou os olhos e tentou respirar fundo, mas sua garganta estava fechada. Abriu a boca numa tentativa de respirar, mas fechou-a quando dela escapou um soluço.
– Não meu menino... – disse baixinho, entredentes, e se aproximou lentamente, observando doloridamente o garoto que a pouco mais de 7 dias estava reclamando da programação da TV nos finais de semana. O que tinha acontecido? E onde estavam Sam e Dean?
Haviam ligado, não haviam? Solicitando a presença deles. Passando por si? Talvez fosse uma armadilha. Talvez ele não devesse ter ido atrás daquelas pistas como da outra vez... Talvez-. Talvez eles estivessem em perigo.
Respirou fundo e secou os olhos um tanto bruscamente na manga da blusa que usava. Precisava manter a calma. Precisava descobrir o que tinha acontecido ali, com Adam e com os meninos.
E foi pensando nisso que saiu do quarto do hospital a passos duros. Iria descobrir o que estava acontecendo, a começar pelo tal incidente na biblioteca.
–--
O percurso em si seria breve, talvez pouco mais de 30 min normalmente — que o pé pesado de Dean no acelerador poderia facilmente virar pouco mais de 20 -, não tivessem de ter parado para abastecer o carro, isso lá pelas 7:35pm num posto de gasolina qualquer de beira-de-estrada.
Desceu do carro e entrou na pequena loja de conveniência do posto, impaciente demais para aguardar sentado, quando tudo o que queria era chegar logo em Lawrence e ouvir da boca de seu pai tudo o que ele andava escondendo deles.
Não entendia como Dean podia se manter tão sossegado em relação àquilo tudo. Porque, ok, entendia sim que as intenções do cara no começo tinham sido as melhores possíveis e até mesmo agradecia por poder ter tido uma infância normal, ou quase, mas por quanto tempo ele realmente achou que iria conseguir esconder isso?
Qual é, ele realmente achou que poderia esconder um mundo inteiro deles e que eles ficariam bem? Olha onde o Adam estava agora! Tudo o que tinha acontecido com seus pais, com a mãe deles, com a Jessica... Aquilo tudo ligado a ele de algum jeito e ele sabia de tudo isso!
Respirou fundo e fechou os olhos com força, piscando algumas vezes antes de perceber que estava parado próximo a uma prateleira com manchas de mofo, abarrotada de salgadinhos, e que Dean o encarava parado à porta do estabelecimento.
– Sam? Vamos! – repetiu outra vez, finalmente obtendo alguma reação do mais novo, que o olhou por um segundo inteiro antes de vir em sua direção.
– Claro... – concordou ainda meio desnorteado e ouviu um pedido de licença às costas do seu irmão, que entrou para abrir passagem para um homem de meia-idade passar.
E quando o mais velho retrocedeu de novo e o homem passou por si, ele sorriu de um jeito estranho antes de seus olhos ficarem completamente negros, só por um segundo. Fazendo-o travar no lugar, vendo-o agir normalmente logo depois, pedindo algo à atendente.
– Sam caramba! Vamos logo! – entrou outra vez atrás do moreno, que veio em sua direção sem deixar de olhar fixamente o velho que entrara. – Pegou o telefone?
– Cala a boca. – retrucou impaciente, olhando mais duas vezes para a entrada da loja, antes de finalmente entrar no carro, sendo seguido logo pelo mais velho. – Aquele homem... Dean, ele tinha olhos negros.
– Pegou mesmo o telefone, não é? – sorriu meio de lado e encarou o moreno, mas desmanchou a expressão ao ver o olhar grave que o outro sustentava. – Negros, negros? Tipo... como os do pai são castanhos e os meus são verdes, ou...?
– Negros. Todo ele. – tentou olhar outra vez para a loja e viu o homem saindo, parando por um momento para encará-lo de um jeito confuso e ele parecia tão normal... Apenas um caminhoneiro fazendo compras. – Olha, esquece. Vamos logo.
– Sam, você não acha que-? Ele? – olhou também pelo retrovisor, o cara subindo no caminhão e voltou-se novamente para seu acompanhante, que só torceu a boca e meneou a cabeça.
– Foi muito rápido. Esquece... – pediu ansioso e sentiu o mais velho girando a chave na ignição, sem deixar de olhar para o caminhão, que seguiu tranquilamente para o sentido oposto.
Era só o que faltava, agora estava vendo coisas.
–--
Se encostou ao muro de tijolos gastos e fechou os olhos com força.
Céus, era tão mais fácil fazer o trabalho quando não era pessoal! Por um momento quase não aguentou ouvir o relato do colega de classe de Adam sobre como ele surtou na biblioteca e todos começaram a agir estranho também, se jogando contra as prateleiras.
O garoto se assustou e bateu a cabeça na mesa quando tentou levantar. Desmaiou antes mesmo que percebesse e quando acordou, só viu sangue e equipes de socorro. Adam não estava mais lá em lugar nenhum e só depois ficou sabendo que havia sido levado para o hospital às pressas, escoltados pelos irmãos mais velhos.
Voltou a caminhar rumo à sua caminhonete, a cabeça a milhão enquanto tentava entender o que acontecera realmente com seu filho e o que os meninos sabiam a respeito.
Parou por um momento quando percebeu que havia um homem andando pouco atrás de si e sentiu a respiração acelerar ainda mais ao perceber que ele logo parou também, arrumando os cadarços do tênis surrado que usava com uma naturalidade tal que o faria jurar que estava imaginando coisas, não fosse o lobo velho que era. Fingiu não perceber, continuou caminhando como as mãos nos bolsos do casaco. Segurou as chaves e abriu com cuidado o cantil de wisky, liso, de aço que carregava consigo.
Deu a volta calmamente pela traseira do veículo e abriu a porta cantarolando alguma coisa, quando sentiu uma mão segurar-lhe firmemente o ombro e uma voz simpática perguntar se ele sabia que horas eram. Sorriu discretamente ao ver, de esguelha, o relógio digital no pulso do homem e a cena em si aconteceu tão rápido que foi até mesmo difícil de processar.
Só percebeu que o empurrara e jogara o conteúdo do cantil no rosto do cara quando este berrou, caminhando cegamente para o meio da rua como se tivesse sido queimado, para em seguida sair correndo. Foi em seu encalço, processando rápido demais o que acabara de acontecer. Precisava pegá-lo. Interrogá-lo sobre aquilo tudo, pois o maldito com certeza deveria ter as respostas.
Seguiu-o por quase meia quadra, apressado, quando perdeu-o de vista por um momento e parou, só então percebendo que o que menos queria, estava acontecendo ali.
Estavam atrás dele.
Olhou o caminho que seguia mais uma vez e retrocedeu às pressas, ignorando as pessoas que o olhavam — provavelmente pensando que fora assaltado. Entrou no carro sem perder tempo e arrancando às pressas de lá. Partiria imediatamente para o hospital.
Não ia voltar pra casa para dar continuidade àquela pesquisa, como fizera durante boa parte do dia anterior, tinha que chegar logo naquele maldito hospital. Era óbvio que aquilo deveria ser bem maior e mais grave do que pensou e Adam estava sozinho, indefeso e desprotegido naquele maldito quarto, coisa que eles deveriam saber! Precisava ir para lá o mais rápido possível.
Chegou à entrada do prédio e respirou fundo, indo ao porta-malas para pegar algo antes de entrar. Escondeu no cós do jeans que usava, cobrindo o resto com a blusa apressadamente antes de entrar. E, após burlar a segurança, enquanto subia em direção ao quarto de seu filho, não pode deixar de pensar no quão estranha e mal contada aquela história não estava.
Adam surtava na escola, seus meninos o socorriam e não conseguiam falar consigo.
Eles não desistiriam assim tão fácil de tentar contato consigo, muito menos deixariam o caçula sozinho assim sem mais nem menos.
A não ser que...
– A não ser que... – olhou para seu menino tão quieto deitado naquela cama desconfortável e suspirou com a obviedade daquilo. – Bobby...
Estava mais que claro que aquela história não tinha nada de normal e com certeza, depois de ter dito para seu filho que estava indo pra South Dakota, se eles não conseguissem encontrá-lo pelo celular, tentariam a segunda opção mais viável. Tirou o aparelho do bolso com uma sensação desagradável e discou os números conhecidos com mais força que o necessário, afundando os botões entre os dedos impacientemente. E quando foi atendido, não conseguiu nem de longe controlar seu gênio.
– Seu velho maldito, o que você fez com meus garotos? – exclamou entredentes, assim que ouviu o barulho da linha sendo ocupada. Não conseguia decidir se estava aliviado ou irritado agora.
– Devo desculpas para seu filho. Está na cara de quem ele puxou os bons modos. – bufou ao ouvir a voz conhecida soar desinteressada do outro lado da linha e passou a mão livre pelos cabelos, baixando o tom de voz em respeito a seu menino.
– Bobby... Onde estão o Dean e o Sam?
– No seu rastro é claro. Onde você esta? Esses meninos estão revirando o Kansas inteiro atrás de você!
– Oque você disse pra eles? – sentiu-se preocupado à afirmação do velho amigo. E mais ainda quando não recebeu resposta do outro lado. – Bobby, o que você disse para eles?
– A verdade. – prendeu o ar indignadamente ao ouvir aquilo, fechando os olhos numa tentativa de recobrar a razão e ver que não era nada disso que estava acontecendo. Mas quando abriu-os, estava exatamente no mesmo lugar, plantado a um quarto de hospital com um filho em coma e dois desaparecidos.
– Eu mato você Bobby. Se você realmente disse o que eu acho que disse, eu juro por Deus que eu-...
– Cale a boca John, ou eu juro que atiro em você outra vez, e desta não vou errar! – foi interrompido impacientemente e ouviu um bufo do outro lado, precedendo um silêncio pesado. – Acha mesmo que eu contaria se tivesse outra escolha?
– Quer mesmo que eu seja sincero? – retrucou sarcástico, ainda tentando controlar sua respiração rancorosa. – Você sempre foi contra esconder o que eu escondi!
– Veja você mesmo, em resultado, o porquê! Foi ver seu filho no hospital John? Ele parece saudável e feliz o bastante pra você? – engoliu em seco às palavras do outro, lançando um olhar ansioso para a cama de Adam. – Foda-se você e suas lamentações Winchester, os garotos estão em risco e têm o direito de saber a verdade! Não contei nada que você já não deveria ter contado!
– Você não tinha esse direito... – sentiu sua voz escapar entre um lamento e um murmúrio irado e apertou mais o telefone entre os dedos ao ouvir a risada desdenhosa em resposta.
– Não mesmo. Era um DEVER como quase um segundo pai. O mesmo dever que VOCÊ deveria ter assumido antes que a corda estourasse pro lado mais fraco! Agora pare de resmungar como um velho e encare a verdade: Eles estão atrás de você e querem respostas.
– Você já contou tudo para eles!
– Relaxe homem, deixei a pior parte para você.
– Eu que vou atirar em você a próxima vez que o encontrar Robert Singer. Eu prometo. – sussurrou irritado, mesmo que mais controlado e ouviu-o rir outra vez. E teria reparado que esta risada foi menos cínica e mais sincera, não estivesse tão puto da vida.
– Então vamos ver quem é mais rápido no gatilho cowboy.
Continuou com o celular à orelha alguns segundos antes de entender que ele realmente desligara na sua cara. E quando guardou o aparelho no bolso para não jogá-lo contra a parede e se aproximou da cama de seu filho, percebeu um movimento estranho à porta.
– Pai...
E nada o preparara para ver seus meninos parados ali.
–--
– Pai... – deixou escapar de sua boca como um suspiro aliviado. Era ele ali, o cara em pessoa. A caminhonete estacionada na frente do hospital era mesmo dele. Mas se surpreendeu ao levar um esbarrão de Sam, que passou por si e entrou no quarto a passos largos e lentos.
– Onde o senhor estava? – perguntou em tom baixo e seco, encarando o homem a sua frente e por um momento ele pareceu tão perdido e confuso que só abriu a boca silenciosamente, antes de olhar outra vez para seu irmãozinho na cama e suspirar.
– Meninos...
– Onde é que o senhor estava pai!
– Olhe bem como fala comigo Samuel! Ainda sou seu pai! – alterou o tom de voz também levando seu olhar do mais velho ao moreno, que fechou o punho, como se tentasse se controlar. – Posso fazer a mesma pergunta a vocês? Sam? Dean? O irmão de vocês sozinho e indefeso num hospital... E vocês? Onde estavam!
– Pai... – deu um passo pra dentro do quarto em direção ao seu velho, mas foi impedido pelo braço do mais novo em seu caminho.
– Não Dean! Se tem alguém errado aqui é ele! – ouviu-o murmurar para si antes de se virar para o pai outra vez. – Fala de nós, mas onde é que o senhor estava quando mais precisamos do senhor? Quando o Dam veio parar nessa merda de hospital! Hein? Faz sequer ideia de quantas mil vezes Dean tentou entrar em contato com o senhor e nada, pai? Faz ideia de como precisávamos do senhor durante todos esses dias e você não estava!
– Então não posso me ausentar por uns dias que a nossa família vira um caos? Certo, eu saio uns dias e como não conseguem me encontrar, simplesmente largam o irmão de vocês pra trás? Em coma! Num maldito hospital! Desprotegido!
– Talvez estivéssemos seguindo seu exemplo. – cuspiu irônico essas palavras e sentiu o agarrão que seu irmão deu em suas roupas, pondo-se a sua frente, no exato momento em que seu pai bradou seu nome outra vez.
– Certo todo mundo, agora se acalmem! – foi sua fez de bradar irritado, separando-os a uma distancia segura, já que nem eles mesmos pareciam ter percebido que estavam quase nariz a nariz. E quando segurou a camisa do pai para afastá-lo também, percebeu o cabo daquela pistola Colt.45, semi-oculto em sua cintura e sentiu seu sangue gelar por um momento. Conhecia seu velho bem o bastante para saber que carregava armas no carro, mas que dificilmente levava-as consigo assim.
– Quero só ouvir da boca dele se pelo menos tinha um bom motivo pra isso!
– É claro que eu tinha! E vocês sabem disso!
– Agora sabemos. Mas isso não muda o fato de você ter nos largado pra trás, ‘desprotegidos’, sem a menor ideia do que estava acontecendo! Tem ideia do que foi? Termos ouvido tudo o que ouvimos do Bobby?! Não acha que a gente merecia saber dessa merda toda ANTES DELA EXPLODIR NA NOSSA CARA?
– EU ESTAVA PROTEGENDO VOCÊS!
– ADAM PARECE MUITO PROTEGIDO MESMO NESSE MOMENTO!
– EU DISSE CHEGA! – empurrou-os para longe outra vez e segurou o mais novo pela gola da camisa sem que ele sequer percebesse isso, vendo o olhar de seu pai voltar-se decepcionado para si.
– Onde você estava quando tudo isso aconteceu Dean? Como pôde permitir que seu próprio irmão fosse parar em um hospital em coma!
– Não ouse falar dele pai, não ouse! Não faz ideia do que ele tem aguentado pra cuidar de mim, dele mesmo, da situação do Adam e ainda estar de pé no meio dessa merda toda, para julgá-lo assim! Você não tem esse direito!
– Sam, não... Por favor... – pediu Dean, puxando-o para si outra vez quando sentiu-o ir para a frente e afrouxando o aperto em sua gola então. Já já iam ser expulsos do hospital se realmente continuassem com aquela gritaria. – Está tudo bem...
– Não, não está!
– Está sim! Olha, eu agradeço por isso... Mas não é lugar e nem hora para satisfações. Certo?
Viu o olhar conciliador do mais velho e bufou, encostando-se na porta em silencio.
John estava chocado com sua atitude e mais ainda com a forma que Sam tinha lhe enfrentado para proteger o irmão naquele momento, muito mais ofendido do que furioso. Isso lhe fez sentir um alivio enorme. Principalmente quando notou que o fato comoveu Dean.
– Filho... Perdão! – falou puxando Dean para si e o abraçando. – Eu...
– Está nervoso por voltar para casa e encontrar a situação assim, eu entendo pai... – disse sem olhar para ele.
– Pode me perdoar? Nada disso é sua culpa... – perguntou então, tentando olhar nos olhos do filho, mas sem conseguir realmente este feito.
– Claro... Claro, sem problemas.
– Posso saber o que está havendo aqui? – perguntou o médico aparecendo na porta com uma expressão sinceramente descontente. – Me reportaram sobre berros vindos deste quarto. Sinceramente espero não ter que lembrar aos senhores que estamos em um hospital e que todos os pacientes, sem exceção, necessitam de descanso.
– Não está havendo nada doutor. – Sam adiantou-se a falar, lançando um olhar curto para Dean, que teve certeza naquele momento que o mais novo tentaria enrolar o médico e ajudou-o nisso, entre olhares significativos, evitando que seu pai falasse até que percebesse o que estava se passando ali.
E John teve que conter um sorrisinho satisfeito ao ver como seus garotos eram bons naquilo. O médico, depois de ser enredado pela história que os meninos inventaram, ficou mais uma meia hora conversando com os três e enfim os atualizou da situação de Adam — que aparentemente permanecia a mesma -, para por fim deixá-los a sós.
– Sabem... Ainda estou confuso. O que exatamente está havendo aqui? – perguntou para seus filhos, indicando o caçula com um movimento discreto. – Quero dizer... Procurei por toda parte, mas ninguém sabe dizer o que realmente aconteceu com ele!
Os meninos trocaram um olhar cumplice ao ouvi-lo e o moreno deu a volta na cama, se colocando ao lado de Adam, enquanto Dean sentou-se no braço do pequeno sofá de dois lugares, de frente para o pai.
Contaram o que havia acontecido se revezando. Desde a escola até o episódio dos olhos amarelos e comportamento estranho do caçula, as vozes cada vez mais baixas e graves. E quando a voz do mais novo falhou ao contar sobre Adam, Dean terminou a história com o olhar baixo e John só conseguiu explodir em fúria outra vez.
– Desgraçado! – disse se levantando bruscamente, o rosto lívido. Era isso! Por isso que havia sido seguido! Não devia ter ido a lugar algum, Deus, como não devia. – Ele... Adam...
– Bobby disse que foi possuído. – levantou o olhar dos próprios dedos entrelaçados e encarou seu pai com o olhar grave. – Ele está certo?
– Aparentemente... – respondeu baixo, controlando como pode aquela vontade exasperante de berrar e quebrar tudo a sua frente.
– Ele-. Aquilo falou comigo, pai... Disse ‘dois já foram’... pra mim. – teve que morder a parte interna da boca ao ouvir Sam, que o olhava de um jeito quase alheio, enquanto segurava o próprio braço.
Ele parecia tão frágil e transtornado... E quando voltou a falar, sua voz soou partida e teve certeza de que aquilo tudo era demais para seu Sam aguentar.
– Ele falou comigo, chamou meu nome e me olhou com aqueles olhos amarelos! Como os da carta, pai! Como os daquela noite que a mamãe morreu! – baixou a vista e riu baixo, limpando os olhos quando sentiu-os úmidos demais ao ver a imagem de Adam ali e perceber outra vez que aquilo era sua culpa de alguma forma. John tinha razão, Dean não tinha culpa de nada. Nem mesmo seu pai tinha. Ele tinha. E ao pensar nisso mais uma vez, não conseguiu olhar para seu irmão na cama e levantou, forçando-se a não pensar na Jessica naquele momento também sob o risco de não conseguir se segurar. – Por quê? Pai... Se você sabe como isso tudo pode ser por minha causa, por favor, me diz por quê.
– Eu... não sei, Sammy. Não sei. – murmurou quase para si, como se não quisesse atrapalhar o silencio denso que seguiu a pergunta de seu filho. E preferiu não olhar para eles, nenhum dos três, quando se voltou para a porta. – Vamos embora meninos. Estamos todos cansados e ainda temos muito pra conversar.
Quase riu consigo ao pensar no que o desgraçado do Bobby lhe disse. É... ele lhe deixara a pior parte.
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