The Outsiders

6 Chapter VI – ASK DADDY


Notas iniciais
As always... Informações adicionais, imagens comparativas, o c****** a 4, no meu blog: http://slashyaoifanfics.blogspot.com/
49 reviews e 1 recomendação, obrigada mais uma vez galera!
Lembrando-os! Capítulo que vêm, daremos as boas vindas à minha co-autora! Sabem a minha Lothus né? Para quem a fic vai de presente, e quem recomendou-a? Então, tive a sorte dela gostar tanto da história a ponto de escrevê-la comigo!
Obrigada amora.

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– Algo pra me contar Dean? – seu pai inquiriu naquele tom que queria dizer que ele ia falar.

– Nada. – respondeu o mais firmemente que pôde, vendo o peso do olhar do mais velho crescer sobre si.

– Nada?

– O assunto não é meu, é da Lisa. – respondeu na defensiva, sustentando o olhar inquisidor e inflexível do pai antes de desistir e bufar, sentando então na cama com aquele barulhinho seco de molas. Queria tão desesperadamente poder fugir do pai que estava até prestando atenção no barulho das malditas molas, por Deus!

– Dean...

– Ela tá grávida, mas não é meu. É isso. – respondeu impaciente, esperando a reação do pai que sabia que não seria boa.

–Espera. Você vai ser pai Dean? – perguntou entre o incrédulo eo possesso, aproximando-se quase que demais do primogênito, que inconscientemente se encolheu um pouco a isso, sentindo o corpo quente perto do seu como se o calor dele fosse algo nocivo.

Não é meu. – repetiu, sabendo de antemão que ele ignoraria essa informação logo de cara.

– Como pode ter certeza?

– Ela me disse.

– E o que garante que ela não tenha mentido? – todo mundo pensava igual naquela droga de casa? Agora John repetia exatamente o mesmo que o caçula disse e isso estava ficando irritante.

– Oh meu saco... E a troco de quê ela mentiria pra mim? – retrucou aborrecido, mas com a voz modulada. Não berraria com seu pai, mesmo que soubesse que provavelmente ia ouvir algo em relação ao seu vocabulário.

– Olhe os modos comigo garoto! – exigiu com toda a sua autoridade paterna, vendo o filho baixar a cabeça obedientemente.

– Sim senhor. – concordou, sabendo que era isso que ele esperava para abrandar o tom de voz. E logo sentiu o colchão ceder ao peso dele ao seu lado.

– Dean, você tem certeza que não é seu? – engoliu a hesitação que formava um nó na sua garganta, ligeiramente seca, e encarou o filho que suspirou impaciente e deu de ombros.

– Não, mas não faz sentido. Ela mesma disse que está de 2 meses e disse que não teria como ser meu porque nos conhecemos a 1. – repetiu outra vez, impedindo o impulso de balançar a cabeça de um lado para o outro com descaso apenas por respeito ao seu pai, que queria que falasse à sério com ele. – Olha, não quero mesmo ter que pensar nisso agora, pai. Pode ser?

– Dean, isso é um assunto sério.

– Exatamente por isso. – intercedeu antes que ele começasse algum discurso sobre responsabilidade e a nova vida a caminho ou sei lá mais o quê. – Por favor...

Arriscou olhá-lo pedinte e talvez seu pai tenha conseguido ver a ansiedade no fundo daquele descaso que aparentava, pois só concordou, soltando o ar com força dos pulmões antes de bater algumas vezes nos seus ombros para então levantar e sair do quarto, deixando-o finalmente sozinho para se jogar na cama e remoer isso em paz, completamente esquecido do bendito pedaço de torta sobre o móvel do seu quarto.


–--


– Você acha que pode ser, pai? – ouviu a voz de Adam com clareza, mesmo tentando a todo custo ignorar a conversa dele com seu pai naquele momento, sentados à mesa da cozinha.

Virou novamente no sofá, aumentando o volume da TV e sentiu certo desespero ao perceber que ainda assim a voz de John vindo em resposta era mais alta que o som da TV.

– Eu não sei meu filho... Isso tudo é tão...

Aquilo estava parecendo um pesadelo. Era só deixar de pensar em uma coisa que o atormentava que surgia outra nova! E agora seu cérebro tinha 3 tópicos especiais pra remoer sempre que baixava a guarda e esquecia de barrar esses pensamentos: O incidente com Jess e o possível significado daquele pesadelo fora de hora, o acidente e a aparição daquela mulher que vira na beira de estrada e agora essa novidade adorável de que talvez fosse virar tio!

Era sufocante isso, pois não conseguia evitar pensar e sentir tudo o que estava sentindo naquele momento. E não sabia se era devido ao choque ou se ainda estava muito traumatizado com o a tragédia com a sua noiva, mas a idéia de ter um sobrinho agora parecia desesperadora, não possivelmente animadora ou algo assim.

E, se fosse sincero o suficiente, saberia que estava com raiva disso. Não queria mais ninguém ali. Tinha perdido a mulher da sua vida e agora tudo o que tinha era sua família e não queria ninguém no meio disso. Principalmente entre ele e Dean, que de uma certa forma estavam conseguindo lidar um com o outro nesses quase 2 dias, melhor do que se deram durante anos.

Fechou os olhos, pressionando-os com os dedos, tentando melhorar a dor de cabeça que sentiu e encostou a nuca no encosto do sofá, soltando o ar com força dos pulmões. Tudo parecia meio errado desde o incêndio e não sabia até que ponto isso podia ser verdade. Soltou os olhos, pressionando as têmporas com as duas mãos agora, sentindo uma pontada dolorosa ali.

– Ótima hora pra enxaqueca... – murmurou irritado e tentou abrir os olhos, mas a luz da sala pareceu queimá-los, acompanhada de uma nova pontada que pareceu se espalhar pelo crânio dessa vez.

Não... Não era enxaqueca. Não conseguiu sufocar um gemido de dor quando sentiu a pressão dentro da sua cabeça aumentar. Parecia que estavam compactando seu cérebro!

– Pai... – tentou chamar, mas sua voz mal articulou o que queria falar, se distorcendo num grunhido logo depois. Primeiro baixo. Depois mais alto. – Alguém...

Tentou levantar, mas sentiu tontura, como se o chão estivesse ondulando embaixo de si e voltou a cair no sofá e, então, pensou ter visto algo dentro de seus olhos fechados. Era como se estivesse imaginando algo, mas era infinitamente mais nítido. Viu uma praça, pessoas passando... Então a dor aumentou, fazendo-o berrar abertamente dessa vez sem sequer perceber. Estava atento demais ao que via dentro de sua cabeça para perceber.

Mas então tudo se desfez e o que viu foram três homens segurando-o assustados e preocupados, como se estivesse tendo um treco até agora a pouco.

Bom, pela cara deles, talvez estivesse mesmo.

Encarou um por um, demorando-se mais no loiro mais velho, que ao ver que ele realmente estava vivo e bem só soltou o ar com força e bagunçou os próprios cabelos antes de virar e subir — antes que seu pai e Adam também tomassem conhecimento consciente de que estava ali.

– Sammy, o que aconteceu? – seu pai perguntou de um jeito urgente, segurando o rosto do garoto entre suas mãos calejadas. Sentiu o filho estremecer ao contato.

– Não sei. Eu... nã-não sei. – gaguejou contra a vontade, estranhando a falta de controle que pareceu ter sobre a própria língua naquele momento. Olhou em direção às escadas, vendo o mais velho parado ali, encarando-o de longe antes de ser descoberto e terminar de subir sem olhar pra trás. – O que aconteceu...?

– Você estava todo encolhido no sofá, segurando a cabeça e berrando. – o caçula explicou com uma expressão desconfortável no rosto que o fez pensar se estava num estado tão feio assim. Adam parecia agoniado.

– Minha cabeça... ela... – tentou falar de novo, mas dessa vez sua voz soou rouca, desidratada. Tentou limpar a garganta, mas essa arranhou quando o fez, arrancando-lhe um franzir de cenho. – Água... – pediu então, vendo o garoto se precipitar à cozinha mais que depressa, voltando com uma garrafinha lacrada que abriu antes de lhe entregar. Bebeu metade dela antes de se arriscar a falar. – Estava doendo... Eu... Realmente não sei...

– Acho que você devia subir e descansar filho...

– Tem algo errado comigo... – desabafou antes que conseguisse se impedir de falar e sentiu as mãos que antes repousavam no seu rosto irem aos seus ombros, apertando-os um pouco demais de um jeito pouco confortável, tenso.

– Algo errado como?

– Eu não... – hesitou, procurando os olhos castanhos e conhecidos com os seus. E, exatamente como temia, encontrou medo ali, medo e preocupação. Suspirou, meneando a cabeça em negativa. – Nada... Acho que foi enxaqueca... Melhor eu ir dormir mesmo, ver se passa. – arriscou um sorriso tímido, mas recebeu outro forçado e preocupado do mais velho, que só então afrouxou o aperto dos dedos sobre si.

– Você ajuda ele a subir Dam?

– Claro, claro que sim. – concordou imediatamente, sendo tão bem sucedido quanto o pai em disfarçar a preocupação excessiva com o moreno. Os dois pareciam ir para um enterro.

– Eu consigo andar sozinho, obrigado... – negou com a cabeça e impediu a tentativa do menor de segurá-lo, afastando-o o mais gentilmente que conseguiu. – Não é pra tudo isso. – afirmou e se pôs de pé, como que para provar seu ponto. Tentou disfarçar o melhor possível a incerteza que tinha em relação a manter o equilíbrio. E então, num clique, uma ideia lhe veio. Se não servisse pra descobrir algo, pelo menos desviaria a atenção de seu pai. – Ah... Pai, eu vi sua pesquisa.

– O quê? – sobressaltou-o com o que disse, era óbvio. Mas só percebeu a pontada de aflição que passou pelo rosto cansado dele por estar prestando muita atenção. Ergueu as sobrancelhas, tentando dar a entender que era exatamente isso que ele pensava.

– É... baterias, hun? Gostaria de ir com você quando for comprar. – respondeu da melhor forma possível, tentando conter o quê de sarcasmo que seu cérebro insistia em colocar naquela frase. – Sabe como é, preciso me inteirar dos negócios da família... Essas coisas...

– Eu... – ele vacilou por um momento, engolindo em seco e procurando no rosto do filho a resposta para se era aquilo que ele estava pensando. – Nós vemos isso depois filho, primeiro vai descansar. Ainda não está bem.

– Claro... – concordou com um aceno e se afastou, sendo seguido de perto por Adam, que parecia atento para o caso de precisar segurá-lo.

E outra vez aquela pontada de sarcasmo tomou sua mente, pensando se estivera bem em algum momento depois de tudo isso, mas afastou esses pensamentos, preocupado agora também com o que poderia ter sido aquela coisa que aconteceu também.

– Indo comprar baterias... – ouviu o mais novo murmurar contrariado atrás de si enquanto subiam, mas preferiu ignorar, porque também não achava que ele ficaria muito mais satisfeito se soubesse que seu interesse não era por baterias.


–--


Seu pai só havia escrito naquele caderno até uns dias depois que Sam chegou à casa dos Winchester’s.

Falava sobre o fato dele não ter sido registrado e como ele e Mary o fizeram, batizando-o como um Winchester também, mas mantendo o nome que a mãe dele escolheu, entre outras coisas até divertidas de relembrar, mas sem utilidade prática.

Depois disso vinham alguns nomes avulsos, contas matemáticas, e trechos em latim. Trechos de exorcismos e rituais, sabia... E realmente reconheceu um ou dois deles, mesmo não lembrando mais como se pronunciava algumas coisas.

Fechou o caderno de uma vez, fazendo soar aquele sonzinho seco, baixinho. Estava realmente interessado no som das coisas hoje...

Não tinha certeza sobre o quê procurava lá, mas tinha certeza que deveria ter algo ali. Adam procurava algo ali.

Abriu-o folheou-o e fechou-o outra vez, suspirando logo em seguida.

Tudo parecia estar acontecendo pelo ‘lado errado’ desde a notícia de que Sam voltaria.

Aliás, Sam estar ali já era algo errado. Era como um mau pressagio.

E as coisas que andavam acontecendo com ele? O acidente e a visão na estrada, o pesadelo com a ex no sofá e agora aquele ataque que ele tivera lá embaixo? Aliás, e toda a história da morte da noiva dele, pra começar?

Era visível no rosto dele que tinha algo lhe atormentando. E não era só a dor da perda de alguém querido demais. Tinha algo a mais ali.

Jogou a droga do caderno para longe em meio a um bufo irritado. Não podia estar preocupado com ele! Sério? Como se não tivesse o bastante pra se preocupar sozinho., riu com sarcasmo de si mesmo, passando as mãos pelo rosto nervosamente.

Só de pensar naquela história de gravidez, já lhe gelava a alma. Não que acreditasse realmente que pudesse ser o pai, mas e o que Lisa faria agora? Não poderia continuar no mesmo estilo de vida, um filho sempre trás muitas responsabilidades.

Nada mais entre eles seria igual, sabia, mas também não podia simplesmente dar um pé na bunda dela por esse motivo, ainda mais logo agora que ela precisava tanto de apoio. Mas daí entrava no problema principal: não queria embarcar nessa sem nem sequer ter a ver com o assunto. Antes se o filho realmente fosse seu..., pensou rindo outra vez, descrente de si mesmo.

E não conseguiu deixar de rir mais ao perceber que preferiria mil vezes passar por isso longe da presença do moreno e daqueles olhos verdes brilhando em desamparo. Porque, daí sim, entrava num conflito interno, uma vez que para seu total desespero, não conseguia deixar de se importar com o que quer que houvesse com ele e não conseguia obrigar sua mente a se preocupar verdadeiramente com toda a bomba que caíra sobre si e que, então sim, lhe dizia respeito.

– Vamos lá cara... você nem tem nada a ver com ele! Não tem que gostar dele mesmo. – murmurou baixinho, convicto de que a distância que sempre manteve do outro era o melhor a se fazer.

Até porque, aparentemente só conseguia sentir duas coisas em relação a ele: preocupação e raiva. Porque quando ele não estava tendo um troço, ou agindo de um jeito realmente estranho, era o mesmo certinho perfeitinho insuportávelmente irritante de sempre. Aquele que lhe despertava aquela vontade louca de socá-lo, só de olhar.

Sam era o único que dava um nó em sua cabeça, já que queria manter sua família unida, mas por algum motivo não conseguia se manter perto dele. Por isso que era tão mais fácil renegá-lo.

Se não era seu irmão, se não era mesmo da família, não tinha porque se sentir tão culpado por não conseguir tê-lo por perto. Mas isso magoava seu pai. E parecia machucá-lo também. E daí entrava a droga da preocupação.

Balançou a cabeça repetidas vezes, espantando todos os pensamentos para longe. Pegou o caderno velho de seu pai outra vez, disposto a reler tudo de novo. Ao menos assim se mantinha ocupado.


–--


– No que está pensando?

– Em nada. – respondeu desinteressado, tornando a fechar os olhos enquanto ouvia o barulho de teclado com clareza. Não sabia qual era a do seu irmão, mas desde que entraram no quarto que ele não sossegava. Talvez estivesse preocupado — não interessava -, mas era um saco.

– E agora? – ouviu-o perguntar e controlou a vontade de bufar de irritação.

– Em nada ainda. – respondeu contra a vontade, agora cobrindo os olhos com o braço esquerdo. E assim que o fez, voltou a ouvir o barulho de teclado e não conseguiu deixar de pensar na mania que Jess tinha de usar o notebook em cima da cama e acabar dormindo. Tinha estragado bem uns três com isso, já que sempre caiam da cama, e olha que não era como se aquilo fosse algo fácil de se ficar repondo.

Sorriu sozinho um sorrisinho triste ao lembrar disso. Deixaria ela derrubar todos os notes que ela quisesse com um sorriso no rosto se isso pudesse impedir o que ocorreu. Se isso a trouxesse de volta.

Era até meio ridículo, mas às vezes se pegava pensando em como ela estava. Se estaria bem, se estaria rindo ou cansada. Mas não, ela não estava. Ela estava morta. E essa realidade sempre se jogava em seu colo, segundos depois de pensar nisso e, puta que pariu, como aquilo doía...

Fechou os olhos com mais força e era quase como se pudesse ouvir a risada dela. E sentiu vontade de rir ao lembrar da risada engraçada dela, quase escandalosa, mas meio rouca. O que havia lhe dado mesmo para se apaixonar por ela? Porque ela era o completo oposto do seu padrão pessoal de interesse, a começar por ser loira. Sempre preferiu as morenas, mas quando caiu de quatro mesmo, foi logo por uma loira! Loira festeira, ainda por cima. Era também sua companheira de cervejas e ainda por cima aguentava beber mais do que ele! E os hábitos alimentares então? Era magra de ruim, pois um x-burger era com ela mesma... Provavelmente ela era o tipo de garota sonho-de-consumo de Dean, não seu. Festeira, beberrona, bagunceira, espaçosa... Suspirou consigo quando percebeu que, nela, aquele conjunto parecia perfeito.

Pareceu..., sua mente corrigiu, tornando amargo o gosto da sua boca.

– E agora? – perguntou de novo, preocupado, após ouvir o suspiro do mais velho, que somente levantou o rosto em sua direção, os olhos úmidos.

– Sabe o que é mais irônico? – perguntou em resposta ao caçula, que apenas virou a cadeira toda em sua direção e deu de ombros. – Vocês teriam adorado ela... – completou e riu um risinho sarcástico e sem vontade, voltando a baixar a cabeça logo em seguida, derramando algumas lágrimas silenciosas.

– Por que está pensando nela Sam? – perguntou meio receoso, vendo o irmão fingir que não percebia as lágrimas correndo uma atrás da outra pelos cantos dos olhos, seguindo a mesma trilhazinha incolor.

– Porque não tem como não pensar nela. Tudo me lembra ela e eu não quero esquecer de nada. – respondeu sem vontade de novo e riu outra vez, amargurado. – Sabe por que eu tinha essa mala de roupas comigo? Porque a casa toda queimou, junto com as minhas coisas. Junto com ela. – fez uma pausa, engolindo o nó que fechava sua garganta. – Porque ia vir aqui visitar vocês e prepará-los pra novidade antes de fazer o pedido! Ela que tinha feito a mala sem sequer desconfiar dos meus motivos, mas estava tão revirada e abarrotada que eu tive que tirar tudo e refazer... – e acabou rindo dessa lembrança. Ela o xingou um bocado quando o viu fazendo a mala outra vez. – Estava no porta-malas do carro a semanas...

– Sam...

– Deixa quieto Dam... Não é como se fosse passar logo mesmo. – respondeu abatido, virando de lado na cama agora, dando às costas ao irmão, que apenas suspirou desanimado e voltou a atenção pro que quer que estivesse fazendo.

Fechou os olhos de novo, mas ao invés de as boas lembranças lhe atacarem, como agora a pouco, lembrou do pesadelo de mais cedo. O sangue pingando, os olhos vidrados, o fogo... Fechou os olhos com mais força, tentando afastar esses pensamentos e sentiu dor de novo, mas desta vez impediu-se de gritar. Mas o que viu foi muito rápido e não teve certeza de ter visto algo além de um par de olhos amarelo vivo que lhe arrepiaram os cabelos da nuca e suspenderam sua respiração por uma fração de segundos.

– Adam... – chamou-o, tentando disfarçar a forma engasgada como sua voz deixou sua garganta e recebeu um grunhido baixo como resposta do mais novo, que não desviou o olhar da tela do computador. –Você tem aula amanhã, não é...?

– É, e treino extra de futebol também depois da aula. – respondeu ainda atento ao que fazia.

– Não vai pra escola amanhã. – pediu, sentindo sua voz se engasgar de novo ao sair e desta vez o mais novo virou a cadeira em sua direção outra vez, surpreso.

– Sam, eu tenho treino amanhã! – exclamou baixinho, encarando as costas do irmão um bocado confuso.

– Por favor Adam... só... não vai. – pediu de um jeito mais urgente. Não tinha como explicar aquela sensação, mas sentia aquilo de um jeito tão forte que...

Percebeu quando as costas largas se tensionaram, pouco antes do corpo se encolher um pouco mais e suspirou. Não podia ficar faltando por nada, mas Sam parecia tão aflito com a ideia dele ir!

–... Ok. Grande coisa, não ia conseguir jogar mesmo com os fundilhos doendo... – comentou a contragosto, rindo logo em seguida e percebeu aliviado que a tensão dos músculos se desfez um pouco.

– Obrigado... – murmurou de olhos fechados, sentindo, em parte, todo aquele peso deixar seu corpo e finalmente começou a relaxar. E antes que seu irmão pudesse responder qualquer coisa, já estava dormindo um sono exausto.


–--


Acabou pegando no sono em meio a sua leitura. O caderno velho e mal tratado repousando aberto de qualquer jeito em seu peito, que subia e descia regularmente num sono tranquilo.

Quase pôde sentir quando ele caiu à sua frente, quando virou de lado sobre o colchão, mas quase não sentiu também. Apertou mais o travesseiro entre os dedos e suspirou levemente.


Andava pelo corredor a passos lentos, ainda agarrado ao seu bicho de pelúcia. Não conseguia mais dormir, mesmo que tivesse pego no sono na cama de casal, com sua mãe ao seu lado. Queria seu pai, mas não sabia onde ele estava. Ele tinha saído de carro e achava que ele ainda não tinha voltado, mas ainda assim ia lá pra baixo ver se ele não estava dormindo na frente da TV que nem aconteceu no outro dia.

Mas nem precisou ir tão longe, quando ouviu uma voz masculina através da porta semi-fechada, sorriu animado, abrindo-a mais um pouco para ver o que acontecia lá dentro. Mas quando pôs a cabeça para dentro do quarto, percebeu que o homem inclinado sobre o berço do seu irmãozinho não era seu pai e sim um homem estranho, encapuzado e assustador. Prendeu o ar com força e deu um passo para trás em pânico, pensando em fugir, mas então olhou outra vez pro berço e num estalo sua mente infantil só conseguiu pensar em salvar seu irmão.

– Quem é você! – perguntou, tentado parecer corajoso, mas suas pernas tremeram quando o estranho se voltou para si, revelando um par de olhos de um tom de amarelo vivo e um sorrisinho cínico, antes de tudo ficar escuro de repente.


Acordou de um susto, sentando sobressaltado sobre a cama de casal, arfando. Fechou os olhos com força, confuso e abriu-os de novo sentindo uma certeza estranha de que já vira aquilo antes.

– Olhos amarelos... – murmurou para si, virando o rosto para baixo e vendo o caderno aberto de qualquer jeito, algumas páginas dobradas sobre o peso das demais, e aquele envelope para fora. Bateu na testa, ansioso. –Olhos amarelos!... – repetiu mais urgente, abrindo a carta de novo e relendo-a.

Amassou o papel entre os dedos mais uma vez, não de raiva, mas de confusão. Eram coincidencias demais...

– O fogo... – suspendeu a respiração por um momento, abrindo a carta mais outra vez, enquanto sua mente repetia o que ouvira seu irmão falar naquela conversa mais cedo com Adam. ‘Ela morreu num incêndio.’... Sentiu tontura por um momento e voltou a deitar, mas sua cabeça parecia girar em torno daquele raciocínio bêbado de sono e incerteza.

Tinha algo errado, era obvio isso. E de alguma forma, achava que estava no caminho certo para saber o que acontecia.

E sabia que se tinha alguém que podia lhe dar respostas, esse alguém era seu pai.

– Aquela história da aparição na estrada... Tem algo errado em tudo. – seu pai queria algo daquela história. Quis saber o dia, perguntou das vítimas, desconversou quando perguntou...

E lendo os próprios relatos do caderno, era claro que aconteciam coisas estranhas às vezes. John acreditava nessas coisas, senão por que mais faria seus próprios filhos decorarem exorcismos em latim? John tinha as respostas, ele tinha que ter.

John devia saber...


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