The Outsiders
4 Chapter IV – WEDNESDAY THE 13TH
Notas iniciais
E mais uma vez agradecer à todos os leitores da TO pelo carinho e os reviews mais que tudo-de-bom de vocês!
E como sempre, mais informações sobre a história no meu blog: http://slashyaoifanfics.blogspot.com/
Deveria ter voltado bêbado para casa, pois ao menos assim o sermão de seu pai — mesmo que fosse ser infinitamente pior -, ficaria para o dia seguinte.
Mas para seu azar, John o esperou acordado e ainda por cima não lhe deu chances de falar até terminar de falar algo sobre como aquilo era insustentável e como aquela mágoa que ele tinha de Sam por ele ter ido para a faculdade tinha que passar em algum momento e blablablá.
E depois de esperar seu pai dizer a ultima palavra a respeito disso com a expressão contrariada, ao invés de retrucar como sabia que ele esperava que fizesse, apenas respirou fundo e o encarou pela primeira vez desde que chegou.
– Sabia que aconteceu outro acidente na mesma altura da estrada onde Sam capotou o carro? – comentou como se tivesse acabado de chegar e percebeu bem que seu pai pareceu confuso um instante, antes de encará-lo e chegar mais perto com o hálito de cerveja.
– Como?
– Eu tava no bar e ouvi uns tiras conversando. E sabe qual é a graça — além do fato de seu filhinho certinho ter sinalizado o lugar antes de abandonar o carro? As vitimas viram uma mulher ensanguentada aparecer do nada. – sorriu ironicamente para o pai, como se essa fosse uma piada realmente interessante de se ouvir, ao que seu pai fechou as expressões, pensativo.
– Sabe o estado das vitimas...? – perguntou hesitante.
– Mortas. – controlou uma careta desconfortável ao falar isso. Afinal eram vidas humanas ali! – Um na hora e a outra a caminho do hospital ou algo assim...
– Hn...
– Pai.
– Diga. – pareceu surpreso por Dean querer dizer mais alguma coisa e o encarou outra vez, completamente esquecido da bronca de havia dado há pouco.
– Não acha estranho eles terem visto a mesma coisa que o Sam viu? – perguntou com cuidado, pensando se seu pai não o acharia absurdo caso estivesse errado em suas conclusões.
– Dean... – foi pego de surpresa por essa. Não que achasse que seu filho era estúpido, era até bem óbvio que, depois de tantas coincidências, ele ia querer saber. Mas simplesmente não tinha o que falar para ele. Não ainda. E estava torcendo para que ele somente não perguntasse. – Está tarde... Vamos dormir.
– Pai... – pensou em insistir, mas ao ver a expressão preocupada no rosto que tanto admirava, sorriu forçado, fingindo que não planejava insistir nem um pouco. – Claro... Está parecendo mesmo papo de bêbado. Isso.
E depois de deixar um ‘boa noite’ soar perdido no ar, subiu rumo ao seu quarto, parando antes apenas para olhar rapidamente dentro do quarto dos irmãos — vendo que Adam estranhamente colocara Sam para dormir na cama de baixo -, para então se enfiar no próprio quarto como se jamais tivesse chegado perto da porta do quarto em frente ao seu.
–--
Sentiu a luz do sol, tênue, fugindo de uma fresta na cortina e se encolheu mais na cama um pouco pequena, preguiçoso. Virou para o lado oposto ao da janela, ainda meio grogue e se deixou levar pela preguiça. Só acordou mesmo com o susto de um despertador tocando irritantemente e de um Adam caindo do beliche, igualmente assustado pelo barulho.
– Caralho, puta que pariu! – o garoto berrou assustado, torcendo a boca de um jeito dolorido e tentando se levantar.
– Adam, você tá bem? Caiu de lá de cima? – levantou assustado — ao mesmo tempo em que o caçula xingava Deus e o mundo -, e quase bateu a cabeça no beliche de cima. É, definitivamente não dava pra sentar ali...
– Não Sam, eu brotei do solo, não viu? – respondeu sarcástico, tentando levantar outra vez, sentindo uma dor absurda um pouco acima da bunda. – Puta merda...
– Bateu alguma coisa?
– Dãh... É claro que bati! Eu acabei de cair de cima do beliche, pel’amor de Deus! – respondeu mal educadamente, lembrando-se só depois da cena do dia anterior. Torceu a boca, descontente e impaciente, enquanto andava lentamente até seu armário. – Desculpa...
– Deve ter acertado o cóccix, pelo jeito que está a andando... – tentou não achar graça pelo fato dele estar andando como se tivesse perdido a virgindade daquela área próxima e respirou fundo, afastando esse pensamento maldoso. – Mas, não bateu mais nada?
– Os pés, os cotovelos... mas definitivamente é onde o sol não alcança que a queda pegou de jeito. – respondeu mal humorado e lançou um olhar mortal pro irmão quando esse começou a rir baixinho, tentando se controlar
– Desculpa, eu sei que não tem graça...
– Não, não tem mesmo. – retrucou com um bico contrariado, mas perdeu a expressão irritada e arregalou os olhos. – Caralho, quero só ver quando o Dean me ver! – comentou consigo, lembrando da piadinha de mau gosto do mais velho no sofá.
E só depois é que se lembrou de novo da briga da noite anterior e olhou para o moreno, que parou de rir parecendo momentaneamente desconfortável ao ouvir o nome do mais velho.
– Mas... pra que o despertador há essa hora? Sua aula não é só mais tarde? – resolveu falar qualquer coisa para desviar do assunto e ao ver seu irmão corar levemente, quase suspirou aliviado.
– Hoje nem tem, vai ter reunião. É só que... Daí eu tomo café com o Papai e o Dean... – respondeu meio sem-jeito, dando de ombros. – Comer sozinho é uma merda. – e voltou sua atenção de novo para o armário, sem saber direito o que fazer.
Tinha arrumado a parte externa do quarto, mas lá dentro estava tudo revirado. E jurava ter visto algo se mexer lá dentro ainda por cima. Daí olhou para Sam, que abria a própria mala impecavelmente arrumada e sorriu de lado, um sorriso muito igual ao do primogênito.
Realmente Sam era todo certinho...
– Sem contar que nada supera as panquecas do pai... – completou com um sorrisinho, ouvindo o moreno suspirar saudoso.
– As panquecas do pai... – deixou escapar um meio sorriso enquanto procurava roupas limpas para usar. – É, elas fazem falta.
– E aí, vai mesmo pra oficina hoje? – perguntou antes que pudesse se conter, ouvindo seu irmão suspirar outra vez, só mais cansadamente.
– Vou, vou sim... – decidiu naquele momento.
– Ok... Boa sorte pra você por lá. – deu de ombros, ligeiramente preocupado com a ideia dele e Dean no mesmo espaço um dia inteiro. Bom, ao menos seu pai estaria por lá... – Você sabe alguma coisa de mecânica?
– Bom... – sequer tinha pensado nisso quando pediu pro pai para ajudar por lá. – Não.
– Eu não acredito nisso... Sam, lá é uma oficina mecânica! O que mais você quer achar por lá?
– Tem que ter mais o que se fazer por lá além de concertar carros!
– Tipo o quê? Boliche?
– Contas, recibos, arquivos... Qualquer coisa. Alguém tem que pagar e alguém têm que controlar a entrada e saída de capital... E também é só provisório até eu me inteirar do assunto.
– Que assunto?
– Mecânica. – repetiu como se fosse óbvio, encarando o irmão menor, que o encarava como se fosse um extraterrestre.
– De advogado para mecânico. Sam... O que raios está dando em você?
– Eu estou ótimo. – respondeu prontamente. – Por que tem que ter algo de errado comigo por querer me inteirar dos negócios da família?
– Porque você sempre odiou os negócios da família? – cara, ele estava muito pior do que imaginava. E se fosse ver bem, estava na cara que estava mesmo. A história do Mc — porque ele bateu um lanche de baccon, o que por si só era a coisa mais anormal do mundo. As horas de viagem sem paradas, incomum pra alguém tão responsável e certinho como ele. Essa história de desistir de fazer direito, que sempre foi o sonho dele... E agora isso? – Cara, você está fazendo tudo que sempre detestou fazer e tem a pachorra de olhar pra minha cara e falar que está ótimo?
– Adam-...
– Não ouse mentir pra mim, está ouvindo bem Sam? – não sabia direito em que momento se aproximou dele e lhe apontou o dedo. Nem lembrava mais de sentir a dor da queda, apenas encarou-o nos olhos e o viu desviá-los para o chão. – Olhe pra mim!
– Pára de tentar dar uma de papai aqui Adam! Você não manda em mim, ok? – respondeu irritado, encarando o irmão de volta.
– Então seja sincero comigo. – respondeu no mesmo tom que ele e viu como a expressão impaciente dele titubeou, tomada por algo angustiante de se ver.
– Ela morreu num incêndio. – falou tão baixo que parecia não querer dividir aquilo. – Estávamos morando juntos há um mês e eu a pedi em casamento quando completou o aniversário da data. Naquela noite, eu ... – interrompeu-se e respirou fundo, limpando as lágrimas que ameaçavam cair de seus olhos. Não conseguia falar... não conseguia! – No dia seguinte eu estava fora, e quando voltei, a casa estava em chamas. Ela... – não precisou terminar de falar, pois o caçula já tinha se jogado em seus braços, agarrando seu pescoço com força, tentando passar conforto pra ele.
E não impediu-se de o abraçar de volta, sentindo que, sim, era exatamente daquilo que precisava naquele momento.
– Eu não to bem... – admitiu numa risada breve e baixa. Uma risada sem humor.
– Eu sei... – concordou, passando as mãos pelos cabelos castanhos e macios com cuidado.
– Mas eu vou ficar...
– Eu prometo que vai...
–--
Ficou parado, segurando com força a maçaneta da porta entreaberta.
O café estava pronto e John mandou que fosse apressar os meninos para o tomarem juntos — ignorou completamente o que seu pai dissera sobre pedir desculpas ao Sam, claro — e mesmo contra a vontade, foi. Mas não esperava ver metade do que viu.
Quando abriu a porta com cuidado, tentando ver se ainda dormiam ou não, viu Adam apontar o dedo na cara do mais alto e falar algo sobre mentir. Claro que ao ouvir aquilo, estancou no lugar, confuso.
O que raios estava acontecendo ali?
E ficou lá, parado, segurando com força a maçaneta da porta entreaberta até que tudo dentro daquele quarto terminasse em abraços apertados. Até que os dois lá dentro fizessem menção a desfazer o abraço e ele encostasse a porta de novo, entrando com tudo logo em seguida, como se tivesse acabado de chegar.
– Café na mesa esperando os preguiçosos! – falou enquanto quase derrubava a porta e sorriu discretamente ao ver os dois se largarem imediatamente, pulando pra trás. E percebeu a careta de dor que o mais novo fez ao pisar duro no chão, tensionando o quadril. – A noite foi boa Dam? – perguntou com uma pontada de malícia e percebeu o irmão corar ao entendê-lo.
– Vai à merda você, eu caí no chão! – foi sua vez de receber o dedo do mais novo na cara e quando alargou o sorriso malicioso, o garoto apenas saiu xingando do quarto, balbuciando algo sobre ninguém naquela casa ser minimamente normal ou algo assim. Mas quando virou na direção do moreno, o viu enxugar o canto dos olhos com os dedos e fungar baixinho e só então percebeu que estava sozinho com ele no quarto.
– Ok... Já tá avisado... – falou baixo, virando novamente para a porta, mas parou ao ouvir a voz do mais novo soar fraca e rouca.
– Dean, espera. – pediu e franziu o cenho, sem saber o que falar. – Hrm... Eu...
– Vamos lá, sem momento mulherzinha, por favor Sammy. – interrompeu-o ainda de costas para ele e segurou o batente da porta.
– É Sam. – ouviu-o responder e algo na voz dele o fez deixar escapar um torcer satisfeito de lábios antes de sair de lá como se não o tivesse ouvido, deixando para trás o mais alto com a mesma expressão sobre os lábios.
–--
Praguejou quando viu que seu pai ficaria em casa ao invés de ir pra oficina com Dean e Sam, como deveria. Seu plano, que era ficar sozinho e ler em paz aquele caderno, foi completamente frustrado pela informação de que seu velho tinha que pesquisar algo e que precisaria do seu computador, lindamente localizado no seu quarto onde escondera o bendito caderno.
Obviamente não chiou, não seria idiota de levantar suspeitas. Apenas sorriu e comentou algo de que era bom não ficar sozinho em casa pra variar e logo subiu com a desculpa de escovar os dentes, correndo da melhor forma que podia para o caderno e escondendo-o no quarto do irmão, antes que mais alguém subisse também.
Não esqueceu sua preocupação de deixar os dois irmãos mais velhos sozinhos, mas algo na forma como trocaram olhares curtos e de aparente pouco significado durante o banquete de panquecas caseiras do papai o fez suspirar levemente aliviado. Aparentemente estavam em trégua. Nenhum olhar torto e nenhuma indireta desagradável deixaram os lábios de nenhum deles o café todo e a única manifestação de desagrado ocorreu por parte de Dean quando John falou que não iria à oficina. Só, o que por si só era surpreendente.
Mas estava mais ocupado em pensar em suas dores pós-queda e em como queria ler logo aquela droga de caderno de uma vez, pois da ultima vez que começara, percebeu que era quase um diário de seu pai, onde até então ele relatara apenas coisas apaixonadas sobre Mary e o bebê a caminho e sobre um ou outro incidente estranho. Quase anormal, como o fato de Mary insistir que usasse uma correntinha que ela dizia proteger do mal, ou o fato de as luzes da oficina terem piscado quando um cara estranho entrou lá com um sorrisinho irônico e em como Mary ficou agitada com isso.
Bom, dava para saber que parte das manias supersticiosas do pai veio da falecida esposa dele com os relatos que lera, mas tinha que admitir que haviam umas coisas muito estranhas mesmo relatadas pelo seu velho.
Como o fato desse homem estranho ter voltado tempos depois na oficina para consertar o carro e dizer um nome completamente diferente do da primeira vez que se apresentou.
Espantou esses pensamentos da cabeça quando ouviu mesmo barulhos de passos vindo escada acima e tudo o que fez foi sair de fininho do quarto do mais velho e se refugiar no banheiro, esperando que quem quer que fosse, não tivesse percebido o movimento lá em cima.
–--
Não conseguiu dormir de noite, pensando no que seu filho lhe dissera. Aquilo não poderia significar outra coisa, sabia bem. E essa idéia lhe despertava um calafrio desagradável, bem como uma fisgada na boca do estômago, sempre que pensava que por pouco seu Sammy não teria tido o mesmo destino do casal de jovens.
Adam tinha sido simplesmente um herói e sequer devia saber disso.
Passou as mãos sobre o rosto, sentindo a barba por fazer coçar em seus dedos e suspirou novamente, entrando no quarto dos meninos e encontrando-o vazio. Encarou a máquina de frente com um certo receio. Definitivamente não sabia mexer naquele computador com um terço da destreza de qualquer um dos filhos, mas teria que se virar.
Ligou-o e abriu a página do Google, procurando notícias de acidentes de carro na US-40 E, anotando num papel qualquer em seu bolso cada data de manchete. Pelo menos uma vez por ano havia algum óbito naquela altura da estrada, em sua grande maioria, em dias de quarta-feira 13.
Ergueu as sobrancelhas, meio surpreso. Era um padrão estranho esse. Do pouco que conhecia disso, costumava ser algo mais específico nas datas.
– Quarta feira 13... quarta-feira 13... – tamborilou a caneta na mesa por alguns segundos, antes de procurar novamente, agora mortes na US-40 E, acrescentando a data.
– O que está fazendo? – estava tão absorto na sua pesquisa que sequer lembrou que Adam estava em casa. Minimizou a página o mais depressa possível e abriu outra, aproveitando o fato do seu ângulo — meio inclinado para o lado -, impedir a visualização dele da tela.
– Ah... Nada. Nada de mais... – digitou na página que abrira sobre preços de baterias automotivas e se encostou melhor na cadeira, dissimulando despreocupação. – Procurando umas baterias. Você não vive dizendo que o computador é a melhor ferramenta de pesquisa?
– Hm. – resolveu guardar silêncio, caso contrário acabaria falando que dizia aquilo mais como uma desculpa toda vez que seu pai o mandava sair de lá e pesquisar nos livros, como trabalhos de verdade eram feitos antigamente. – Que bom! Espero que esteja se dando bem aí... Vou deixar o senhor sozinho pra não atrapalhar ok? Qualquer coisa tô lá embaixo vendo TV... – aparentemente dera sorte, seu pai parecia realmente concentrado no que quer que estivesse fazendo, então talvez conseguisse dar uma lidinha no caderno velho antes que seu pai terminasse sua pesquisa.
– Certo. – concordou sem realmente ouvi-lo, esperando que o menino saísse logo para poder voltar à pesquisa de verdade.
Esperou o barulho de passos morrer ao longe para maximizar a tela novamente, encontrando depois da repetição de alguns dos acidentes anteriores, um bem mais antigo.
Clicou na página da notícia, vendo a foto de uma moça de cabelos castanhos e compridos. Seu corpo fora encontrado morto, esfaqueado e quebrado no meio da estrada. – US-40 E... 13 de maio de 1998... – sussurrou consigo. A matéria não era mais que uma nota com uma foto pequena da vítima, mas era o suficiente. Devia ser um caso pouco divulgado, talvez abafado pela família da moça. – Samantha Smits... 1998. Samantha Smits... Preciso encontrar a família dessa moça.
–--
Estava tentando entender o que aquela mulher ainda fazia na oficina, se já tinha deixado o carro para revisão. Mas era só olhar melhor que se percebia que a ruiva estava se derretendo com a visão do seu irmão de regata preta e jeans sujo de graxa.
Conteve o riso ao ver o loiro olhar para ela e sorrir forçadamente, olhando-a de cima a baixo com certa curiosidade.
–Mais alguma coisa madame? – perguntou ligeiramente divertido ao ver a mulher lhe encarar de cima à baixo também, mas parecendo avaliar o material com bem mais atenção.
– Não, não... Mas, qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo, você poderia fazer favor de me ligar nesse numero aqui? – a garota não perdeu tempo, arrancando um pedaço de papel da bolsa grande que carregava e roubando a caneta da mão de Sam para anotar seu telefone pessoal.
– Claro. Hahn, Janeth... – leu o nome escrito caprichosamente no papel e sorriu outra vez, um tanto mais cheio de si. Até mesmo acenou antes dela sair com seu salto alto fazendo barulho pelo assoalho e balançou a cabeça, orgulhoso. – Eh... É o charme irresistível de Dean Winchester. Você pode aprender alguma coisa ficando aqui na oficina, no final das contas, Sammy.
Conteve o sorriso satisfeito por ter sido tratado tão casualmente pelo seu irmão e só o encarou de volta, apontando-lhe a caneta que a mulher havia lhe tomado das mãos e que largara por lá novamente sem se dar ao trabalho de devolver de verdade. – É Sam. E você devia limpar essa mancha de graxa da sua testa antes de querer contar vantagem.
– Mancha? Não to vendo nada. – tinha feito menção a voltar ao trabalho, abaixando para mexer embaixo do automóvel, mas ao ouvir o irmão, retrocedeu um pouco, procurando a bendita no seu reflexo do vidro.
– Deixa que eu pego. – falou espontaneamente, se aproximando do irmão e tirando a mancha com o polegar úmido de saliva, arrancando do mais velho uma expressão quase ofendida.
– Cara, você acabou de passar baba na minha testa! – exclamou, passando as mãos por cima do lugar, mas nada parecia tirar aquela sensação quente de onde o polegar do outro tocou. – Que... Nojo!
– Acabei de te fazer um favor, isso sim. Acha que iria seduzir quantas com uma manchona preta bem no meio da cara? – respondeu ainda despreocupadamente, mas sentiu algo bem desagradável se instalar no fundo do seu estômago ao ver a expressão meio irritada do mais velho.
– Ninguém pediu ajuda, tá ouvindo? – retrucou, passando a mão mais algumas vezes pela testa, o rosto quente. De repente olhar pra cara do moreno deixou de ser tão normal assim outra vez e aquela sensação de estranheza o tomou, refletindo no clima que pareceu subitamente denso ali. Praguejou baixinho, voltando ao trabalho e ainda conseguiu ouvir o rapaz suspirar pesadamente, decepcionado, antes de votar a mexer em alguns papéis.
Percebeu mais alguém chegar e saiu um pouco debaixo do veículo, vendo um rapaz jovem, talvez uns 2 anos mais novo que o moreno e bem menos alto, se aproximar do balcão onde ele estava. Ele falava baixo e olhava demais para Sam e isso o incomodou um tanto.
–... Podemos ajudá-lo em algo? – perguntou simpaticamente, ignorando toda a parte do ‘então você é o outro Winchester que chegou essa semana?’, dita pelo rapaz com um sorriso animado.
– Han, claro que sim! Então... Minha moto, tá dando problema, então eu... Você poderia dar uma olhada? – sentiu seu sangue gelar ao ouvir isso e lançou um olhar rápido para onde Dean estava, mas como o outro não pareceu se mexer, meneou a cabeça afirmativamente e foi em direção à motocicleta azul marinho do rapaz.
Deu a volta pela moto, alternando seu olhar entre o veículo e o dono, que o encarava com expectativa e então retirou a camisa xadrez que usava, jogando-a em cima de um carro velho que tinha parado por ali. Coçou a testa, um tanto confuso e encarou novamente o rapaz, perguntando se podia tentar dar a partida.
– C-clar, claro que sim! – pegou a chave das mãos atrapalhadas do outro e a girou, conseguindo ligar a moto perfeitamente.
Encarou o rapaz em ar de dúvida e este o encarou de volta — desviando a atenção que antes estava nos braços do moreno trabalhando em seu auto.
– Então, deixei a moto parada por umas 10 horas, mais ou menos, com a torneirinha aberta — costumo fechar sempre, mas dessa vez esqueci. – começou a falar, balançando a cabeça, ainda meio bobo. – Peguei a moto e rodei umas... 2,4 mi e chegando num semáforo, a moto apagou e não queria pegar nem a pau! O motor não fazia aquele ‘barulho de motor’ como seria normal, e sim um barulho mais liso como se algo tivesse rodando em falso, ou sei lá. Depois de um tempo parado, na terceira tentativa a moto pegou no tranco e não apagou mais... Parece que agora tá perfeita, mas será que não afogou o motor ou sei lá? Porque já esqueci outras vezes com a torneira aberta e nunca tive problemas.
– Ela pode ter apagado por estar com o motor frio, amigão. – mesmo sendo até bem divertido ver como ele parecia ligeiramente desesperado com a situação, não agüentou os olhares pra lá de suspeitos que o rapazinho lançava pra cima de seu irmão. E o idiota nem pra perceber! E ainda tinha tirado a camisa larga, mostrando logo aquela cinza justinha que marcava tudo...
– Dean... – não sabia se ficava aliviado ou se ria do fato de agora seu irmão estar com o rosto completamente manchado de graxa. Fez sinal para o rosto dele, tentando dar a entender que estava todo sujo e se impressionou ao ver que aparentemente ele o entendera.
O rapaz só concordou em silencio, seguindo-o como se esperasse que continuasse a falar, mas tudo o que fez foi ir até a pia velha no canto da loja e lavar o rosto, que Sam sinalizara estar sujo, para então sim continuar a falar:
– Mas a mudança do barulho no arranque, pode ser das escovas do motor de arranque, que nas de 150 e de 250 duram pouco. Deixa aí que eu dou uma olhada de que tamanho tá as escovas. Pode ser o caso de trocar.
– Anh... Ok... E ela ficaria pronta pra quando?
– Te devolvo ela novinha até segunda-feira. – respondeu prontamente e sorriu aquele sorrisinho forçado que dava toda vez que queria que a pessoa com quem falava simplesmente desaparecesse da sua frente.
– Certo... Muito obrigado,... – se interrompeu, percebendo que não sabia o nome deles, mas não recebeu resposta por alguns constrangedores segundos.
–... Sam. Sam e Dean Winchester. – apresentou-se pelos dois e apertou a mão do outro, que hesitou largá-la por alguns instantes.
– Brian Mcmillan. Nem sei como agradecer...
– Pague em dia e estaremos quites! – respondeu com uma pontada de ironia, sorrindo de novo para os dois antes de voltar para baixo do carro e ouvir, com um suspiro aliviado, aquela criatura finalmente ir embora.
Voltou sua atenção para o serviço, mas logo foi puxado para fora pelas mãos grandes e conhecidas. E estranhou o fato de ele parecer ligeiramente contrariado.
– Que é?
– Você não foi muito gentil com o cara Dean...
– E qual é o problema? – sentou-se para ficar um pouco mais no nível do irmão, que ainda o encarava de cima com aquele ar.
– Ele é um cliente! Não dizem que o cliente tem sempre razão? Você devia ser pelo menos mais simpático com ele!
– Você foi por nós dois não é? Fez até um streep pra ele.
– Não, cala a boca que isso tá parecendo ataquezinho de ciúmes...
– Você é que é trouxa, Sammy. O cara quase gozou de ver você tirar a camisa e aposto que nem percebeu. – riu com desdém das próprias palavras e limpou as mãos num pano preso ao seu cinto antes de encará-lo outra vez.
– Oh Deus... Você está com ciúmes. – murmurou perplexo, vendo o rosto claro do outro se avermelhar ao passo que se franzia.
– Deixa de bichisse cara, que coisa mais absurda!... – levantou ligeiro e olhou o relógio, já eram quase seis da tarde. – Estamos fechando!
– Já? Pensei que ficasse até as 7:00...
– Tô falando que vamos fechar agora, vamos fechar agora, entendeu? Vai, vai... Faz alguma coisa e ajuda a fechar a oficina... – respondeu áspero e sumiu rumo ao banheiro, deixando-o sozinho, confuso com o que aconteceu ali.
–--
Chegaram em casa em silêncio. Entraram — excetuando o rangido seco da porta — em silencio e continuaram assim até que o mais velho seguisse pra cozinha e abrisse a geladeira, talvez procurando algo para beber.
Sentou no sofá e ligou a TV sem se preocupar em prestar atenção no que passava. Só ficou lá, encostado no sofá creme velho e confortável, ouvindo os barulhos que vinham da cozinha e imaginando o que o outro estaria fazendo.
De volta à normalidade., pensou, irônico.
Aquilo era tão... ridículamente frustrante! Não sabia se era pelo incidente do dia anterior ou se talvez ele tivesse ouvido algo da conversa forçada que teve com Adam pela manhã, mas quando ele falou, sentiu naquela conversa breve que aquele abismo que se formara entre eles não era impossível de se atravessar. Era como se tivesse uma corda ligando as duas pontas. Mas algo fez com que Dean quebrasse essa conexão outra vez.
Nunca foram realmente parecidos no que quer que fosse, era fato, mas Dean sempre esteve ali para cuidar dele. Agora era como se ele preferisse ficar longe mesmo. Sentia-se um incomodo pra ele. E talvez fosse mesmo.
Fechou os olhos e ouviu bem aquele barulho de plástico, depois de alumínio e pelo cheiro sutil que vinha da cozinha, ele estava torrando pão.
E se prestasse atenção, conseguia ouvir a respiração do mais velho de lá, o crepitar do fogo...
Fogo... Cada segundo mais alto e vivo... Como se estivesse no meio dele...
Abriuos olhos, assustado, sentando-se, e não estava no sofá da casa do seu pai, mas sim naquela cama de casal.
Voltou a deitar tranquilamente ao ver o horário no rádio-relógio. Jessica ainda não devia ter chegado, de qualquer forma...
Fechou os olhos em meio a um sorrisinho bobo ao pensar que logo-logo ela chegaria em casa, morta de cansaço e provavelmente reclamando sobre algo, largando os saltos no meio do caminho e se jogando sobre ele como sempre fazia... E com isso, lembrou das lágrimas nos olhos dela quando disse que sim. Que aceitava. Que era tudo que ela mais queria.
Ela era simplesmente perfeita. Com suas manias e neuroses e com seu vício por deixar os sapatos à disposição de um tropeço. Era linda. Ela era tudo o que sempre quis e agora era sua noiva...
Acordou desses pensamentos, confuso, quando sentiu algo pingar nele. Praguejou e limpou o rosto com a ponta dos dedos distraidamente e quando afastou-os, percebeu que estavam manchados de vermelho.
– Vermelh-...? – encarou os próprios dedos por apenas um instante antes de erguer a cabeça em direção ao teto. – JESS!
– Sam! – chaqualhou-o outra vez, finalmente acordando-o.
– Ela!... Eu não... O qu–...? – sentou melhor no sofá — do qual quase caíra -, arfando, confuso.
–Tá tudo ok Sammy... Deve ter sido só um pesadelo. – disse firmemente, dando alguns tapinhas no braço do moreno, que tremia involuntariamente.
– Dean... – tentou falar, mas sua voz saiu rouca e fraca, o peito ainda subindo e descendo depressa, a boca amarga e seca. E não conseguiu evitar o olhar perdido quando o mais velho o encarou, finalmente desistindo de se inclinar sobre si e abaixando sobre as pernas, um dos joelhos apoiados no chão.
– Ahn... Tó. Pega um gole, sua voz tá saindo estranha. – estendeu a lata de refrigerante que havia pegado para si e que largara no chão às pressas, junto com o lanche, ao ver o mais novo se debater no sofá e berrar o nome daquela garota de um jeito agonizante que com certeza ofendeu a garganta dele.
– Eu não... hn... Obrigado... – deu de ombros um tanto perdido ainda e tomou um gole longo, sentindo o liquido raspar no fundo da sua garganta de um jeito desagradável. –Hrn... Eu não dormi.
– Claro, estava assando bolinhos... E como teve pesadelos sem dormir então?
– Esse é o ponto. Há quanto tempo está lá na cozinha? 10 minutos? Isso não é tempo o suficiente pra uma pessoa alcançar o sono REM, que é onde se sonha. Eu estaria no estágio 0. – respondeu um tanto depressa, arrancando do outro um arquear de sobrancelhas. Estava na cara que ele não tinha entendido nada.
– Estágio 0?
–É.
– Okay... – deu de ombros e fez menção a se levantar, mas foi impedido por aquela mão grande em seu braço.
– Espera. Não tô ficando louco! Olha, depois de 5 a 15 minutos na cama é que uma pessoa alcança o primeiro estágio do sono. E o tempo entre se deitar e o de adormecer se chama latência de sono, o estágio 0... Então eu estaria aí. E não se tem sonhos nesse estágio. Nem no 0 e nem no 1, aliás. – encarou o mais velho, esperando alguma resposta, mas tudo que o outro fez, foi levantar e sentar ao seu lado com o prato do lanche na mão, balançando a cabeça negativamente.
– Nerd.
– Dean eu tô falando sério!
– Eu também. – deu uma mordida no pão, praguejando por ele já ter esfriado, e voltou sua atenção à TV. Ignorando o olhar atravessado que o outro lhe lançou. Ele estava mais do que bem, afinal.
– Eu vou pro quarto... – avisou num tom impaciente e se levantou, ignorando o tremor sutil das próprias pernas.
– Cara, seria menos estúpido da sua parte, pelo menos esperar suas pernas pararem de bambear que nem as de uma colegial apaixonada. – comentou sem desviar os olhos da TV, mas percebeu bem a surpresa do outro, que o encarou com os olhos esverdeados ligeiramente arregalados.
– Como-?...
– Tão cedo em casa garotos?
– Pai! – disseram ao mesmo tempo, encarando homem no meio das escadas.
– Fechamos mais cedo. Achei uma boa dar uma folguinha por nosso Sammy no primeiro dia dele... – respondeu com uma pontada de sarcasmo e sorriu se levantando, largando o lanche quase intacto no prato sobre o sofá. – Vou pro meu quarto.
– Esperando visitas Dean?
– Nenhuma, senhor! – respondeu e subiu, passando pelo pai e disparando em direção ao quarto, deixando-os sozinhos.
Ainda conseguiu ouvir a voz do pai, perguntando algo a Sam, mas ignorou o barulho e continuou andando até seu quarto, encontrando — para sua surpresa — o caçula sentado sobre a sua cama, lendo atentamente um caderno velho de capa encardida com uma atenção anormal.
– Mas que porra...? – observou-o virar a outra página arqueando as sobrancelhas. – Nós temos um ‘tio Sam’? – e ele prendeu o ar para não rir.
Às vezes tinham histórias inteiras escritas ali, detalhadamente, às vezes só algumas linhas confusas. Ou transcritos de algo que Dean falara e que provavelmente os pais acharam importante anotar. Além de contas anexadas, anotações de datas importantes que estavam próximas... Por isso não sabia direito definir o que era aquilo. Um diário? Agenda? Anotações? Memórias? Voltou a olhar pro ‘caderno-agenda-diário-de-anotações’ que foi de seu pai, absorto e ignorante ao irmão, que o observava de braços cruzados sem fazer o menor esforço para passar despercebido.
– O que tá fazendo aqui? – sobressaltou-se ao ouvir a voz grossa vinda da porta e tentou esconder o caderno antes que o outro o visse, mas Dean o pegou antes, foleando a partir da página em que Adam estava e arqueando as sobrancelhas também, provavelmente reconhecendo a caligrafia. – Andou fazendo uma visitinha no quarto do pai antes de vir visitar o meu?
– Dean, devolve! – levantou com dificuldade e ainda assim tentou pegar o caderno das mãos do outro, que o ergueu para fora do seu alcance e sorriu aquele sorrisinho cretino dele.
– Vaza daqui antes que eu fale pro pai que você andou pegando as coisas dele escondido Dam.
– Dean!
– Vai! – assistiu o caçula bufar e chutar a sua porta com um sorrisinho divertido no rosto. Ele estava procurando algo naquele caderno, caso contrário nunca se daria ao trabalho de ler, sabia bem. E aquilo agora era um ótimo motivo para parar de pensar naquela cena ridícula da oficina, ou nessa outra, estranha, no sofá. E isso era algo que realmente queria. Parar de pensar naquilo tudo.
Passou os olhos desatentos pelos trechos que com certeza Adam já lera e soltou o ar num suspiro divertido ao lembrar que ele realmente havia tido um ‘tio Sam’. Era uma piadinha adorável.
E o homem era um cretino, pelo que se lembrava. Tinha ido até a casa deles duas vezes, uma pra pedir dinheiro e outra para ver sua mãe quando ela perdeu seu irmãozinho. Depois nunca mais apareceu.
– “...Quem era aquele filho da puta? Ele estava certo... Estou no hospital agora e Mary perdeu o bebê.” – leu esse trecho em voz alta, lembrando vagamente do dia em questão. Quisera tanto aquele irmão que chegou a ficar com febre quando soube que ele não ia mais nascer.
Tirou os sapatos distraidamente e se sentou no chão mesmo enquanto virava as páginas, lendo por alto o que parecia de maior relevância e ignorando o que não era importante, como contas velhas grampeadas no caderno, aquela mecha loirinha colada com fita adesiva, que muito provavelmente era sua...
– “Esse homem é doente! Não dá pra acreditar que ele disse aquilo. Que tipo de pai prefere perder o próprio filho a um sobrinho? E ele nem mesmo gosta realmente do Dean! Em pensar que a pobre Meredith quer dar ao bebê o nome do pai! ...Enquanto nem mesmo tivemos a chance de pensar que nome daríamos para o nosso. ” – leu esse outro trecho, curioso.
Realmente lembrava pouquíssimo sobre essa época, como era de se esperar, mas sabia que seu ‘irmãozinho Sammy’ havia sido um ‘presente dos céus’, largado na porta deles ‘para que não ele não ficasse sem um irmãozinho’, como disse sua mãe.
Suspirou, passando os dedos pelos fios curtos perto da nuca.
– “Acordamos hoje de manhã e, como sempre, levantei antes pra fazer panquequas para os dois loiros da minha vida. E quando Mary foi ver na porta se tinham entregado o jornal, lá estava. Meredith morreu num incêndio não fazem 5 dias e claro que Mary está abalada demais com isso... Todos estamos, aliás.( Até porque essa é mais uma pra lista de bizarrices, porque a casa simplesmente pegou fogo sem motivos aparentes.) E Samuel tinha sumido junto com o filho.Tentamos falar com ele de todos os jeitos, estávamos com medo do que poderia ter acontecido com eles. E, falando a verdade, tive até medo daquele psicopata matar a criança... mas não. Ao que parece ele não encostou um dedo sequer no pequeno Sammy. Ele preferiu largar ele aqui na nossa porta com uma maldita carta de despedida! E se ele disse a verdade na carta, há essa hora ele já deve estar morto também.” — interrompeu a leitura por um momento, incrédulo, voltando outra vez ao começo, tentando entender melhor o que já tinha lido. Porque definitivamente tinha entendido algo errado em algum lugar.
Releu com cuidado e quando mudou de posição, voltando a sentar direito, um papel avulso caiu. Era a carta do ‘tio Samuel’, para John e Mary Winchester.
–--
Notas finais
Obrigada por tudo e olhem o meu blog! O nome de cada um dos meus leitores está lá! Realmente amo vocês!
beijos!
Fale com o autor