The New Storybrooke I - The Fairytales are Back
7 Heartless
Notas iniciais
Era possível ver uma pequena vila em meio a toda a imensa floresta que a rodeava. As pessoas andavam e conversavam, as crianças brincavam e corriam.
Mais afastado dali havia mais uma casa, isolada das demais. Havia uma mulher de pé na porta. Era alta, magra, loira e tinha olhos azuis. Tinha uma pele clara, quase fantasmagórica. Usava roupas simples, típicas da época: Um vestido bege com um avental branco por cima e sapatos brancos.
– Jacky, Jenn, entrem logo! – Ordenou a duas meninas que conversavam perto das árvores que rodeavam a casa.
As duas meninas eram gêmeas. Brancas como a mãe e possuíam os mesmos olhos azuis dela, mas os cabelos eram pretos como a noite. Os vestidos que usavam também eram parecidos. O mesmo modelo, porém o de Jacky era laranja-claro e o de Jenn era preto. As duas olharam ao mesmo tempo para a mulher que as chamara.
– Já estamos indo, mãe! – Jacky respondeu em um tom que sabia ser alto o bastante para a mãe escutar.
A mulher na porta assentiu e adentrou na casa. As duas começaram a andar a passos lentos para o lugar, conversando a caminho da casa.
– Estou dizendo, vi alguma coisa na floresta. – Jenn tentou convencer a irmã do que falara anteriormente.
– Seja o que for, pode ser perigoso. – Jacky respondeu com seriedade. – E você não vai lá. – Advertiu.
– Você só é mais velha por segundos. – Jenn disse de má vontade, cruzando os braços, insatisfeita por sua irmã querer lhe dizer o que fazer. – Não quer dizer que possa mandar em mim.
– Eu me preocupo com você. – Jacky a interrompeu e parou de andar, olhando para a outra, que também havia parado. – Jenn, você sabe o que acontece se for vista com qualquer coisa anormal. E eu não vou perder você.
– Não precisa se preocupar. – A mais nova tentou convencer, entendo finalmente a preocupação da outra.
– Às vezes parece que eu estou falando com uma pedra. – Jacky disse bufando, recomeçando a andar até a casa. – E tenho certeza de que uma pedra me ouviria mais do que você.
– Também não precisa exagerar. – A outra disse, seguindo a mais velha, revirando os olhos azuis.
– Então prove que eu estou errada. – Jacky pediu, olhando para a irmã pelo canto do olho enquanto prosseguia sua caminhada até a casa. – Esqueça esse assunto e nunca mais vá até o lugar onde diz ter visto aquilo.
Jenn assentiu e as duas entraram na casa, onde a mãe as esperava. Depois de jantar, foram para o quarto que dividiam e cada uma deitou em sua respectiva cama. Jacky não tardou para adormecer, mas Jenn permaneceu acordada, observando a lua pela janela.
– OUAT –
Já eram 7h00min da noite e Jade finalmente terminara seu turno no hospital de Storybrooke. Arrumou suas coisas e deixou o jaleco branco habitual em sua sala, saindo logo em seguida.
Assim que deixou o hospital, o ar frio da cidade a envolveu e, sem dar muita importância, apenas ajeitou o cachecol escuro e prosseguiu pela cidade, observando sem muita atenção o céu noturno e estrelado sobre a cidade.
Ao chegar a sua casa, parou em frente à porta, colocando a mão no bolso da calça jeans escura e tirando de lá um molho de chaves, na qual ela remexeu, procurando a certa, mas tendo algumas dificuldades em acha-la.
– Deixe que eu abra. – Uma voz atrás de si a fez virar-se rapidamente na direção do som, deparando-se com uma pessoa com o mesmo rosto que ela, os mesmos cabelos pretos, apesar de serem mais curtos que os seus, e os mesmos olhos azuis.
Jade deu passagem e logo a outra se aproximou da porta, colocando a chave certa na fechadura e destrancando a porta, abrindo-a logo em seguida. Deste modo, as duas entraram e Jade fechou a porta por ter sido a última a passar.
– Onde esteve? – A mais velha perguntou, mantendo sua atenção no cachecol que pendurava no cabideiro de madeira antigo eternamente posicionado ao lado da porta, como se estivesse evitando olhar para a irmã.
– Não vejo como isso poderia ser da sua conta. – A outra respondeu rudemente, sem qualquer cerimônia, olhando em volta, à procura de mais alguém que sem dúvida já deveria estar em casa àquela altura, mas logo em seguida deu de ombros, não parecendo se importar se o pai estava em casa ou não.
Nenhuma das duas disse mais nada. Jade partiu para a cozinha, na intenção de preparar alguma coisa para as duas jantarem uma vez que seu pai aparentemente não estava em casa para fazê-lo, e Jennifer foi em direção à sala de jantar, colocando os pratos e talheres nos lugares, organizando a mesa.
No final das contas, Jade fizera bolo de carne com arroz e salada. Com tudo já posto na mesa, as duas apenas se sentaram uma de frente para a outra e se serviram. Comeram em absoluto silêncio, sem dizer uma só palavra. O único som que perturbava a paz na casa era o som dos talheres por vezes batendo nos pratos.
– Papai disse se ia demorar? – Jade resolveu puxar assunto, desconfortável com a situação que se abatera entre si mesma e a irmã gêmea mais nova, que não parecia nem um pouco inclinada a continuar a conversa.
– Não. – Jennifer respondeu curta e grossa, mantendo sua atenção em sua própria refeição, jamais olhando para Jade, que também parecia evitar olhar para ela.
Mais uma vez o silêncio se abateu sobre as duas, mas, desta vez, Jade também não parecia inclinada a quebra-lo. Deste modo, ao terminar seu jantar antes da irmã, Jade se levantou e levou seu prato e os talheres à cozinha, lavando-os e voltando à sala de jantar, onde Jennifer estava sentada no lugar que estivera anteriormente. O prato à sua frente já estava vazio, mas ela não parecia querer se levantar dali.
Jade suspirou com cansaço, querendo mais do que tudo subir para ir dormir, afinal, em pouco mais de cinco horas teria um outro plantão no hospital, mas o silêncio da irmã a incomodava. De certo modo, parecia alertá-la de que havia alguma coisa errada.
– O que foi que você fez? – A mais velha perguntou, implacável e direta, encostando-se à parede atrás de si e cruzando os braços, não mais evitando olhar para a irmã, mas examinando-a como se quisesse ver algo que ainda não havia visto.
– O que a faria pensar que fiz alguma coisa? – Jennifer então levantou o olhar para fitar a outra, arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços, mostrando-se incomodada com o fato de que sua irmã mais velha não iria deixa-la em paz tão cedo.
– Sei que fez. Apenas não sei o que foi. – Jade respondeu rapidamente, não se dando ao trabalho de dar à outra qualquer explicação. – Me diga. – Exigiu.
– Você não manda em mim. – A mais nova disse com frieza e se levantou de seu lugar, pegando o prato e os talheres e dirigindo-se à cozinha para lavá-los sem dizer mais nada.
Jade bufou com impaciência. Jennifer conseguia ser bastante difícil quando queria e ficava ainda pior quando havia alguma coisa que ela escondia de alguém, algo que ela queria a todo custo não revelar.
Então, a mais velha apenas esperou do lado de fora da cozinha até que Jennifer aparecesse na porta, olhando-a com os olhos semicerrados.
– Você não desiste? – A mais nova arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, impaciente e de mal humor. Aquilo só confirmava as suspeitas da mais velha de que ela havia feito alguma coisa que não queria contar.
Jade já ia responder quando o barulho da porta da frente se abrindo lhe chamou a atenção. Ambas as Gêmeas Gold dirigiram-se à sala de estar, deparando-se com ninguém menos que o dono da Loja de Penhores e de maior parte da cidade John Gold, que era pai das duas.
– Ora, mais que recepção calorosa. – Ele sorriu falsamente, ou pelo menos, assim ambas julgaram.
John era uma pessoa peculiar. Amoroso e atencioso, a seu modo é claro, mas elas nunca sabiam quando ele falava a verdade ou quando mentia, e esta última opção era tão frequente que nenhuma das duas acreditava muito nas palavras ou gestos vindos por parte dele.
– Vou para o meu quarto. – Jennifer declarou rapidamente, mal olhando para Jade ou John antes de desaparecer pelas escadarias que levavam ao primeiro andar da casa.
John não pareceu realmente surpreso, mas se aproximou da filha mais velha, falando em um tom baixo que, por mais que pudesse se esforçar, Jennifer não poderia ouvir, pelo menos não de onde estava agora:
– O que ela fez? – O dono da Loja de Penhores perguntou, afinal conhecia a filha mais nova tão bem quanto a mais velha e percebia quando havia alguma coisa errada com qualquer uma das duas. Ele sempre prestava atenção em tudo o que elas faziam, embora jamais fosse admitir isso para ninguém.
– Não sei. – Jade respondeu, mal se dando conta de que estava sendo completamente honesta com seu pai de caráter duvidoso. – Mas coisa boa não foi. – Disse antes de subir as escadarias para o próprio quarto.
A Gold apenas adentrou no cômodo e fechou a porta, trancando-a. Tirou os sapatos e largou-os de qualquer jeito pelo chão do quarto amplo, jogando-se na cama e não tardando em adormecer.
– OUAT –
No meio da noite, Jacky acordou com o som não muito alto da porta do quarto fechando, seguido por passos que se afastavam pelo corredor. Ela olhou para a cama ao lado e percebeu que a irmã não estava ali.
Com um suspiro cansado, ela levantou da própria cama e seguiu a mais nova, que depois de sair da casa, adentrou na floresta. Ao desaparecer por entre a escuridão das árvores, Jennete começou imediatamente a correr o mais rápido que podia, sem ter consciência de que estava sendo seguida pela irmã mais velha, que corria silenciosamente atrás dela, observando-a de modo repreendedor, insatisfeita por ela tê-la desobedecido.
Depois de vários e demorados minutos de corrida, Jennete parou em uma clareira de terra preta e com árvores mortas rodeando-a. Havia quatro lampiões acesos, um em cada extremidade, mas isso não impedia que o lugar permanecesse escuro. Andou a passos largos e rápidos até o centro e ficou parada lá, como se esperando por algo.
Jacky, que ainda estava escondida nas árvores, soltou um longo suspiro e logo apareceu na clareira, caminhando a passos lentos até onde a irmã estava.
– Jacky? – Jennete questionou quase incrédula, surpresa por ver a outra ali.
– Não sou o Papai Noel, como pode ver. – Jacky respondeu sarcástica, mas logo sua voz tomou um tom mais sério ao falar novamente. – O que você pensa que está fazendo? – Arqueou uma sobrancelha, esperando por uma resposta.
Jennete permaneceu calada e um silêncio assustador preencheu a escura e morta clareira. Depois de alguns incômodos segundos, os lampiões se apagaram e um vento gelado preencheu o local. Jacky se encolheu assustada e preocupada enquanto Jennete olhava para todos os lados, procurando algo.
– O que está acontecendo...? – Jacky começou a perguntar.
A voz dela morreu quando foi ouvido um barulho de relincho de cavalo. Depois disso, ouviram-se passos que se aproximavam e logo um grande e assustador cavalo preto apareceu por entre as árvores. Montado nele havia um cavaleiro usando uma armadura medieval preta e com cabeça de abóbora, na qual eram entalhadas uma boca que se abria em um sorriso assustador e olhos ocos que pareciam examinar todo o lugar até pararem nas gêmeas no centro da clareira.
O cavalo trotou para mais perto das meninas e Jacky chegou mais perto da irmã, ficando entre ela e o Cavaleiro recém-chegado, que, por alguma razão, lhe trazia um enorme sentimento de desconfiança e temor.
– Não fique assustada. – O Cavaleiro pediu. Sua voz era fria e sem emoção, como uma navalha cortando o silêncio que preenchera o lugar nos últimos minutos.
– Q-quem é você? – Jacky perguntou, gaguejando levemente, ainda assustada com a súbita aparição dele.
– Estou surpreso que não saiba. – O Cavaleiro respondeu, descendo do cavalo e circulando as garotas. – Não contou para ela, Jennete? – Perguntou, olhando diretamente para a mais nova.
Ela balançou a cabeça, negando. Jacky olhou para ela por sobre o ombro com um olhar quase acusatório. Jenn se encolheu em seu lugar e evitou o olhar da outra, desconfortável.
– Então creio que devo me apresentar. – O Cavaleiro disse, parando na frente de Jacky.
As feições de abóbora se contraíram no que quase se assemelhava a um sorriso. Jacky teve o impulso de pegar Jennete pelo braço e arrastá-la para longe dali, mas se manteve imóvel em seu lugar. O Cavaleiro as examinou por mais alguns segundos e o cavalo relinchou, quase como se estivesse impaciente com a demora.
– Meu nome é Jack. – O Cavaleiro se apresentou com certa formalidade, ainda parecendo examinar as duas. – Jack O’Lantern.
– Nós somos... – Jacky começou, mas foi logo interrompida por ele.
– Sim, eu sei quem vocês são. – Ele falou. – Jackeline Halloween e Jennete Halloween. Filhas de Theodora Halloween. Moram numa casa mais afastada da vila que fica nessas redondezas. Sua mãe nunca lhes conta o motivo do por que morarem tão longe. – Finalizou com certa presunção presente nas feições de abóbora.
– Como você sabe de tudo isso? – Jacky questionou desconfiada, falando firmemente.
Ele soltou uma gargalhada alta. Jacky sentiu os ouvidos e a cabeça doerem com o som que se assemelhava ao barulho de ferro se partindo em conjunto com um grito agoniado. A mais velha colocou a mão na cabeça, quase como se esperasse que aquilo aplacasse a repentina onda de dor que lhe atingira e olhou para Jennete. A mais nova não parecia nem um pouco incomodada, apesar de suas feições demonstrarem que mesmo que fosse ela a responsável por as duas estarem ali, ela estava com medo.
– Eu sei disso por uma simples razão. – Jack respondeu ao parar de rir, voltando a andar em círculos ao redor das meninas.
Apesar de a gargalhada ter parado, Jacky ainda conseguia sentir uma pontada de dor, mesmo que menor, mas ignorou isso e ficou observando o cavaleiro que as rodeava. O olhar o perseguia como se a qualquer momento ele fosse atacá-las. Já não era apenas a cabeça de abóbora que deixava as gêmeas aflitas e com medo dele, mas o modo como ele se comportava, como se não estivesse olhando para elas e sim para o que havia dentro: Suas emoções, sentimentos... Ele parecia examiná-las meticulosamente, quase como se estivesse esperando ver algo que ainda não tinha percebido.
Depois de sua análise, ele parou novamente de frente para Jacky, que ainda estava posicionada entre ele e Jennete.
– Conheci a mãe de vocês há muito tempo. – Ele começou, mas agora sua voz soava distante, como se ele agora estivesse perdido em memórias apesar de ainda aparentar estar bem atento ao que acontecia ao seu redor. – Mesmo que eu seja um espírito, nós até chegamos a nos casar. Houve alguns problemas e ela me deixou, passando a se esconder de mim. Mas ainda continuei observando-a, principalmente depois de descobrir que ela estava grávida. – Sorriu, como se desafiando as meninas a saber o que aquilo significava.
Jacky engoliu em seco enquanto Jennete permaneceu paralisada em seu lugar.
– E-está dizendo que... Que... – Jacky não conseguia terminar a frase.
– Olá, filhinhas. – Ele disse.
– OUAT –
Na madrugada do dia seguinte, ainda às duas horas da manhã, Jade acordou ainda exausta. Não dormira bem e tampouco poderia continuar ali, afinal agora tinha um outro plantão no hospital e, se não se apressasse, chegaria atrasada.
Levantou-se sem qualquer vontade e partiu imediatamente para o banheiro. Fez sua higiene matinal e se vestiu rapidamente com calças jeans escuras, blusa branca de botões e sapatos de salto pretos. Pegou sua bolsa e saiu do quarto o mais silenciosamente que podia, afinal não era sua intenção acordar seu pai ou sua irmã mais nova.
Porém, andando pelo corredor até as escadarias, percebeu que a porta do quarto de Jennifer se encontrava aberta e, pela brecha, pôde ver que a irmã não estava em sua cama dormindo como imaginara.
Ainda silenciosamente, a Gold mais velha desceu as escadas, deparando-se com Jennifer de pé na porta da frente, que se encontrava aberta, e que ninguém menos do que o prefeito da cidade, Pitch Black, se encontrava de frente para a garota.
– E então? – Escutou a voz do prefeito de Storybrooke e se escondeu rapidamente, temendo que algum dos dois pudesse encontra-la ali. – O que descobriu?
– Na verdade, não tem muita coisa. – Ouviu Jennifer responder e percebeu que ela dera de ombros. – Ela sempre foi bastante independente em toda sua vida e se meteu em problemas alguns anos atrás, mas os detalhes estão bem escondidos. Desde então, ela está limpa. Ela se muda muito e parece que não agrada muito a ela ficar parada. – Jade percebeu que a irmã mais nova soltara um suspiro cansado. – Sabia que até alguns anos atrás, não sei quantos, não existia qualquer registro dela em lugar nenhum? De onde será que ela veio?
– No momento, isso não interessa. – A voz de Pitch se fez ouvir baixa, mas ainda assim clara, pela sala de estar da casa. – Ela está me causando muitos problemas. – O silêncio se fez presente por um longo minuto antes de o prefeito de Storybrooke continuar a falar. – Preciso que você se livre dela para mim. – Jade tremeu ao escutá-lo dizendo isso.
– Um assassinato? – Escutou a voz de Jennifer, o tom frio e calculista, sem sentimentos. – Você realmente quer que eu a descarte? – Jade percebeu que a irmã gêmea mais nova não parecia fazer qualquer objeção ao fato. Parecia apenas curiosa.
– Sim. – Escutou Pitch dizer. – E faça isso sem que ninguém saiba. Mylena e Annabelle não podem sequer desconfiar. – Ele advertiu.
– Como quiser. – Ouviu Jennifer responder com extrema naturalidade, algo que a incomodou. Como sua irmã mais nova podia ser tão fria a ponto de não se importar em tirar a vida de alguém. – Prepare a lápide com o nome dela. Farei isso amanhã à noite. – A Gold mais nova assegurou.
– Assim espero. – O prefeito de Storybrooke disse. – Depois de amanhã, não quero mais ver rastro de Elsa Snow nessa cidade, entendeu?
Pelo silêncio que se seguiu, aparentemente Jennifer havia concordado apenas com um gesto da cabeça, como lhe era de costume. O barulho da porta se fechando interrompeu o silêncio que se instalara e só então Jade saiu de seu esconderijo, chamando a atenção da irmã mais nova, que a olhou com surpresa, quase com susto.
– Então era isso? – A mais velha arqueou uma sobrancelha, ainda tentando se convencer do quão cruel sua irmã gêmea poderia ser. – Era isso que você estava escondendo? Que está trabalhando para ele? – Apontou para a porta atrás da irmã, por onde antes pudera ver a figura alta e esguia do prefeito de Storybrooke.
– Há quanto tempo você estava ouvindo? – Foi tudo o que Jennifer perguntou, aparentando não se importar com as acusações da outra.
– Tempo suficiente, eu acredito. – Jade respondeu com certa mágoa, mas sua voz começava a ficar tão fria quanto a da outra e sua face ficava mais rígida, dura, indicando que ela realmente estava irritada com os atos da mais nova. – Você sabe o que o papai pensa sobre ele. Jennifer, fique longe dele. – Ordenou.
– Jade, você não manda em mim. – Jennifer deu um passo à frente e colocou as mãos nos bolsos da calça, indiferente ao que acontecia ao seu redor. – Você é a mais velha, mas apenas por segundos. Eu não te obedeço e nem ao papai. – Disse, dando mais um passo na direção da irmã, que permaneceu firme em seu lugar. – Não se meta na minha vida.
– Quando você pretende tirar a vida de outra pessoa, acho que eu tenho todo o direito de me meter na sua. – Jade também deu um passo na direção da outra. – Você não vai fazer isso. Não vai matar a Elsa. Eu não vou deixar. – Disse com firmeza.
Não se surpreendeu, devido à personalidade eternamente provocativa de sua irmã, quando Jennifer soltou um riso baixo e divertido. Ainda com as mãos nos bolsos da calça, a mais nova deu um passo à frente e agora as duas estavam a uma curta distância.
– Eu quero ver você tentar. – Jennifer disse com um ar divertido e quase psicopata, algo que faria Jade tremer se não fosse pelo fato de que não era qualquer coisa que a assustava.
– Quem é você? – Jade perguntou depois de alguns segundos de silêncio, não conseguindo reconhecer sua irmã naquela garota à sua frente que se mostrava capaz de tramar a morte de uma pessoa sem um pingo de remorso.
– Sou sua irmã gêmea. – Jennifer respondeu simplesmente do mesmo modo como falara anteriormente e passou por Jade, subindo silenciosamente as escadarias até seu próprio quarto.
Jade ficou observando a direção por onde a outra havia saído e se permitiu cerrar os punhos com força; o primeiro sinal de seu descontrole. Porém, percebendo que no momento não havia nada que ela pudesse fazer, pelo menos não ainda, ela se permitiu sair de casa com certa relutância, encaminhando-se ao hospital, mas tendo em mente de que precisava fazer alguma coisa ou sua irmã iria matar Elsa.
– OUAT –
Jacky ficou paralisada em seu lugar e aumentou o aperto que mantinha no braço de Jennete. A mais nova ficou um pouco incomodada com a força empregada, mas continuou quieta, afinal, nem ela sabia daquela história.
– Estão encarando melhor do que eu esperava. – Jack disse, recomeçando a andar em círculos ao redor das meninas, ainda examinando-as.
O cavalo soltou um relincho agudo de impaciência enquanto o cavaleiro voltava à meticulosa análise que fazia das gêmeas que agora sabiam serem filhas dele.
– Sabem, – Ele começou a falar. – Até que se parecem comigo. Antes de eu ter essa cabeça, quero dizer. – Ele deu leves batidas na superfície alaranjada. – Os cabelos são da mesma cor que os meus eram. E os rostos das duas lembram o meu quando mais jovem. – Ele colocou a mão sobre o que deveria ser o queixo. – Mas há mais alguma coisa...
Ele parou de andar em círculos e começou a se aproximar das gêmeas.
– Jenn, corre. – Jacky ordenou, falando baixo o suficiente para que só a irmã pudesse ouvir.
Jennete não perdeu tempo e começou a correr o mais rápido possível na direção por onde havia vindo. Se não fosse pela situação desesperadora, Jacky até ficaria surpresa por a irmã tê-la obedecido.
Quando a mais velha estava prestes a correr também, o cavaleiro a segurou pela perna e a ergueu, deixando-a de cabeça para baixo enquanto a segurava com uma única mão.
– Que falta de educação querer se retirar da conversa antes de terminarmos. – Jack disse, balançando a cabeça num gesto reprovador.
– O que você quer? – Jacky perguntou com dificuldade.
O rosto da garota já estava ficando vermelho e a cabeça, dolorida, visto que já estava de cabeça para baixo há alguns minutos, mesmo que poucos. O Cavaleiro abriu o que devia ser um sorriso e logo o barulho de metal se quebrando junto com um grito agoniado recomeçou, com o que para ele deveria ser uma gargalhada, porém essa foi mais ruidosa que a anterior.
Jacky fechou os olhos com força quando sentiu novamente a terrível dor de cabeça que a risada do pai lhe causava.
– Peculiar. – Ele disse ao parar de rir, mas ainda mantendo o sorriso. – Um ser humano comum estaria se debatendo e gritando agora, mas você...
– A Jennete também não se importou. – Jacky respondeu, ainda fazendo uma careta de dor.
– Eu não quis que ela escutasse então ela não escutou. – Jack falou com simplicidade, como se fosse absolutamente comum. – Eu queria testar uma de cada vez.
– Para quê? – Jacky questionou.
Ele não respondeu. Em vez disso, levantou e fitou a mão livre, em especial o dedo indicador, que começava a ficar fino e pontudo como uma agulha e a assumir um brilho negro. Não tardou para que ele apontasse a ponta do dedo afiado para o coração de Jacky e logo a cravasse lá.
Um grito alto e agudo foi ouvido por toda a clareira e Jack deixou a filha cair no chão com um estrondo. A garota começou a gritar e se debater enquanto uma dor excruciante lhe atingia.
Jack a observou com as feições de abóbora inexpressivas. Logo ele se virou e montou novamente no cavalo preto que parecia estar impaciente. Já montado, ele virou-se novamente para a filha que continuava no mesmo estado.
– Se sobreviver a isso, — Ele começou, mas não se permitia a ter mais do que vazio na voz. – Terá um dom muito especial.
Nisso, ele abandonou a clareira rapidamente, desaparecendo com o cavalo por entre as árvores na mesma direção por onde havia vindo, deixando a filha ainda gritando e se debatendo no chão escuro.
– OUAT –
Já eram 11h15min e Jade continuava no hospital. Estava meio distraída, ainda pensativa sobre os acontecimentos da madrugada, mas permanecia trabalhando. Só foi tirada de seus pensamentos quando a porta de sua sala foi aberta e Elsa Snow entrou praticamente arrastando Mylena Black para dentro do consultório. Isso acontecia toda semana desde que a loira-platina encontrara a morena desmaiada na delegacia e Annabelle passara o recado de que Jade recomendara que a Black mais velha viesse pelo menos uma vez na semana para se consultar, algo que parecia não agradá-la em nada.
Observando Elsa forçar a morena a sentar numa das cadeiras que havia de frente para a mesa de Jade e em seguida se sentar na outra, a médica franziu o cenho com preocupação. Jennifer tentaria matar a loira-platina ainda naquela noite.
– Jade. – Elsa a chamou e pela expressão confusa em seu rosto pálido, Jade percebeu que não era a primeira vez que ela o fazia.
– Ah, desculpe. Estou meio distraída hoje. – Jade sorriu sem graça e sem qualquer vontade e se levantou de sua cadeira, contornando a mesa.
Sem mais delongas, a Gold mais velha fez os exames costumeiros na Black mais velha, embora ainda olhasse vez ou outra para Elsa pelo canto do olho, preocupada sabendo o que a aguardava naquela noite.
– Ela está perfeitamente bem. – Disse assim que terminou de fazer os exames e Mylena suspirou aliviada, semicerrando os olhos na direção de Elsa como se a estivesse repreendendo por tê-la trazido ali para nada. – Só acho que precisa dormir um pouco. – Quase riu ao ver que agora fora a vez de Elsa olhar a outra com repreensão.
– Obrigada, Jade. – Elsa agradeceu com um sorriso de anjo bastante contente, que contribuiu apenas para aumentar as preocupações da médica, que sorriu sem graça e assentiu com um gesto curto da cabeça.
A morena e a loira-platina então saíram do consultório, deixando Jade sozinha com seus pensamentos. A Gold olhou para o relógio, percebendo que já era 12h43min. Ela ainda tinha algum tempo e precisava usá-lo bem.
–
As horas que se passaram foram as mais lentas da vida de Jade Gold. Às 18h00min, ela arrumou suas coisas e saiu apressada do consultório, largando o jaleco de qualquer jeito em sua mesa antes de sair.
Seu maior problema era não saber a que horas Jennifer iria realizar o que lhe fora mandado pelo prefeito de Storybrooke, além de não poder contar a ninguém sobre tal coisa, afinal, por mais que fosse cruel e estivesse prestes a cometer um assassinato, Jennifer ainda era sua irmã e não podia simplesmente entrega-la assim. Teria que pará-la por conta própria.
Sua primeira reação foi procurar em sua casa, torcendo para que a irmã gêmea mais nova estivesse lá, mas, depois de vasculhar cada canto do lugar e não a encontrar, partiu para a Loja de Penhores do pai, onde percebeu que ela também não estava.
Já eram 19h38min e ela estava ficando sem tempo. Decidiu-se então por procurar Elsa, afinal, se se mantivesse perto da loira, Jennifer não poderia fazer nada sem que ela soubesse.
Apenas poucos minutos depois ela bateu na porta do apartamento que a loira-platina dividia com a xerife de Storybrooke e, para sua preocupação, quem atendeu foi Mylena, que esfregava os olhos com olheiras profundas, tentando afastar o sono.
– Jade? – A morena se surpreendeu ao encontrar a médica ali, ainda mais por ela aparentar estar tão nervosa. – O que aconteceu? – Perguntou.
– Elsa está? – Jade foi direto ao ponto. Não queria mais perder tempo. Não podia mais perder tempo.
– Não. – Mylena negou confusa. – Ela saiu há alguns minutos com Anna, Jake e Simon. – Declarou.
Jade engoliu em seco e com pressa se virou para sair dali, mas Mylena segurou seu braço antes que ela pudesse se distanciar.
– Mylena, eu tenho que ir... – A médica tentou convencê-la, afinal estava realmente com muita pressa, mas a xerife não a soltou.
– Não. – Mylena respondeu com seriedade. – Eu sei que tem alguma coisa errada acontecendo. E você vai me dizer o que é.
– OUAT –
– Vamos, mãe. – Jennete puxou a mãe pelo mesmo caminho que havia percorrido com Jacky.
As duas corriam o mais rápido possível pela floresta e depois de minutos que lhes pareceram lentos e longos, chegaram à clareira onde Jacky e Jenn haviam encontrado Jack O’Lantern.
Assim que chegaram ao local, os ouvidos de ambas foram preenchidos por um grito agonizante que vinha de uma garota que se debatia no chão do centro da escura clareira.
– Jacky! – A mãe, Theodora, gritou e correu com Jennete até onde a filha mais velha estava.
A mulher abraçou a garota, ainda que esta continuasse a gritar e se debater em seus braços. Theodora tentou acalmar a filha, mas não obteve qualquer resultado.
– O que vamos fazer mãe? – Jennete questionou, segurando uma das mãos da irmã.
– Eu não sei... – Começou.
Theodora foi interrompida pelo silêncio assustador que se instalara pela clareira. Ao olhar para Jacky, viu que a menina havia parado de gritar e começara a morder o lábio, que agora sangrava devido à força empregada. A mão que estava livre do aperto de Jennete segurava o outro braço com muita força e este também começava a sangrar à medida que as unhas perfuravam a pele. Ambos os gestos eram feitos de tal modo que era óbvia a tentativa de parar de gritar.
– Jacky... – Theodora tentou fazer com que a filha parasse de machucar a si mesma.
Jacky balançou a cabeça e continuou da mesma maneira. O sangue escorria pelo lábio e braço cortados, mas isso não era suficiente para que a garota parasse de fazê-lo.
Já era de manhã quando Jacky relaxou a postura rígida, soltou o braço vermelho e parou de morder o lábio ensanguentado. Lentamente ela se sentou e a mãe a abraçou com força. O mesmo gesto foi repetido por Jennete logo em seguida.
– Você está bem? – A mais nova perguntou com preocupação.
Jacky balançou a cabeça em concordância e com a ajuda da mãe e da irmã, se levantou. Logo as duas últimas levaram a garota para casa.
Ao chegarem lá, Theodora colocou a filha mais velha diretamente na cama e Jacky cedeu à exaustão logo depois, adormecendo. Theodora e Jennete ficaram observando Jacky dormindo, ambas preocupadas. Principalmente pelo fato de que, no momento em que fechara os olhos, a aparência de Jacky começou a oscilar entre a própria e a do Cavaleiro, mas a abóbora não aparecia, deixando o Cavaleiro Sem Cabeça.
– O que está acontecendo com ela? – Jennete perguntou assustada.
– Não sei. – A mãe respondeu. – Mas vou descobrir.
Logo a mulher se levantou da cama e deu um beijo na testa de ambas as filhas. Foi até a porta e a abriu, mas para antes de sair virou-se para a filha mais nova.
– Não saia desta casa. – Ordenou e saiu do quarto.
Ela caminhou para fora da casa e adentrou na floresta. Não se distanciou muito e ainda no meio das árvores ouviu o barulho da aproximação do cavalo preto que era tão conhecido para ela, afinal por anos esteve acostumada com aquele som que agora só lhe causava repulsa. Não tardou para que Jack aparecesse perto dela montado em seu cavalo.
– Theodora. – Cumprimentou friamente, estreitando os olhos entalhados ao vê-la.
– Jack. – Ela retribuiu o gesto do mesmo modo que ele.
Ele logo desceu do cavalo e se aproximou da mulher lentamente, examinando-a do mesmo modo que fizera com as filhas anteriormente.
– A que devo a, vamos chamar visita? – Questionou com sarcasmo, claramente não muito feliz em vê-la ali.
– O que você fez com a Jacky? – Ela perguntou com um tom hostil.
– Está falando da garota que eu conheci naquela clareira? – Ele apontou para a direção onde o lugar ficava, fazendo-se de desentendido, mas claramente sendo sarcástico.
– Eu não estou brincando, O’Lantern. – Ela disse no mesmo tom de antes. – O que você fez com a minha filha?
– Nossa filha, você quer dizer. – Ele corrigiu rapidamente. – E eu não fiz nada de mais. Apenas dei um presentinho a minha filha mais velha.
– Presentinho? – Theodora questionou com um tom acusatório. – Ela passou a noite gritando e se contorcendo e agora enquanto dorme não para de oscilar entre a própria imagem e a sua.
– Então ela sobreviveu? – Ele perguntou, parecendo orgulhoso.
Ela empalideceu quase imediatamente com as palavras dele.
– Ela podia ter morrido? – Sibilou ao se recuperar do choque.
– Não nego que era uma possibilidade. – Ele deu de ombros. – O presente que dei a ela foi justamente esse: O Poder de se Transformar. Não só em mim, mas no que quiser.
– Como isso é possível? – Ela perguntou.
– Não se esqueça de que você foi, ainda é, casada com um espírito. – Jack respondeu, alargando o sorriso de abóbora. – Não tem o direito de ser cética.
– Calado, O’Lantern. – Ela ordenou novamente hostil.
– Não precisa ficar tão irritada. – Ele respondeu com um tom ligeiramente ofendido. – Se ela não morreu ainda, vai ficar bem. Deixe-a descansando e vai melhorar.
– Fique longe das minhas filhas. – Theodora ordenou e começou a voltar para casa.
– Não prometo nada. – Ela ouviu a voz de Jack se distanciando.
Balançou a cabeça e voltou para casa, onde Jennete a esperava na porta.
– Como ela está? – A mulher questionou, esperançosa de que aquilo tudo tivesse acabado.
– Normal de novo. – A mais nova respondeu.
Theodora assentiu e ela e a filha entraram de novo em casa, indo diretamente até o quarto das meninas.
– OUAT –
Depois de dar uma explicação extremamente curta a Mylena, a morena se alarmou e insistiu em acompanha-la, apesar de não ter dito uma palavra para repreendê-la por não tê-la avisado antes.
As duas saíram do prédio onde ficava o apartamento da xerife e se dirigiram ao carro da mesma. Mylena sentou no banco do motorista e ligou o carro no mesmo momento em que Jade se postou no banco do carona, saindo cantando pneu logo em seguida.
– Sabe onde ela está? – Jade perguntou sem tirar os olhos da estrada enquanto colocava o cinto de segurança com o carro já em movimento.
– Eles disseram que iriam à ponte do pedágio. – A morena respondeu com os olhos fixos na estrada, atenta, principalmente por causa da velocidade, afinal o velocímetro já alcançava os 100 km/h.
– Tomara que ainda estejam lá. – Jade murmurou para si mesma, mas a outra também lhe ouviu.
– É bom que estejam. – Mylena simplesmente disse enquanto dirigia a toda velocidade pelas ruas da cidade amaldiçoada.
Passaram o resto do caminho em silêncio e Mylena parou o carro de súbito ao chegarem perto da ponte, deixando marcas de pneu na pista. As duas saíram do carro rapidamente e se dirigiram à ponte, por sorte encontrando Elsa, Jake, Anna e Simon rindo e se divertindo ali, provando que nada havia acontecido. Pelo menos, não ainda.
A loira-platina não podia ter ficado mais surpresa ao ver Mylena e Jade se aproximarem do grupo, ambas olhando de um lado para o outro, como se procurassem por algo ou alguém que ainda não havia visto ali.
– Mylena, o que faz aqui? – Aproximou-se da morena atenta e apressada, que só então olhou com mais atenção.
– Vamos para casa. – A morena disse rapidamente. – Você não pode ficar aqui.
– O que? Por quê? – Elsa questionou sem entender, mas não precisou de uma resposta por parte da outra.
O barulho estrondoso de um tiro se fez ouvir e todos se abaixaram rapidamente, procurando um meio de se proteger. Em meio a isso, Mylena sacou a própria arma, afinal era xerife, e Elsa a sua, afinal ela agora era a assistente.
– Por isso. – A morena respondeu, não mais olhando na direção de Elsa, mas sim na direção de onde viera o som. – Jennifer. Ela está aqui para te matar.
Elsa não fez qualquer pergunta a esse respeito. Não tinha tempo. Saberia os detalhes depois. Naquele momento tinha que se concentrar em tirar Anna, Jake, Simon, Jade e a própria Mylena dali.
O silêncio se fez ouvir e Mylena se levantou ligeiramente, apenas o suficiente para fitar a direção de onde veio o tiro por cima da mureta da ponte. Não encontrando ninguém, mas ainda alerta, levantou-se lentamente, olhando em volta, procurando a autora do disparo.
– Vão. – Ordenou. – Para o meu carro. – Especificou e Simon, Jake e Anna começaram sorrateiramente o caminho até o carro da xerife, esperando que as outras três os seguissem.
Elsa e Jade então se levantaram e, juntamente com Mylena, começaram a caminhar na direção do carro da xerife, todas as três completamente alertas.
Outro disparo foi ouvido e Jade, Elsa e Mylena mais uma vez se abaixaram. Jake, Anna e Simon já estavam dentro do carro com Jake no banco do motorista apenas esperando que as outras três entrassem para que ele pudesse dar partida no carro para que saíssem dali.
– Tire a Anna daqui. – Elsa pediu em voz baixa.
O rapaz pareceu horrorizado com a ideia de abandoná-la lá, mas ao ver a expressão suplicante da loira-platina, não conseguiu fazer objeção. Sob protestos de Simon e Annabelle, ligou o carro e desapareceu na escuridão da noite, deixando ali apenas Elsa, Mylena e Jade.
Agora elas precisavam encontrar um jeito de sair dali.
– OUAT –
Os meses foram passando. Apesar de não ter prometido, Jack se manteve longe das duas meninas. Jacky teve alguns problemas com a habilidade que ganhara e Theodora passara a ter ainda mais cuidado com a filha, visto que tanto ela quanto as gêmeas sabiam o que acontecia com quem era descoberto com qualquer coisa que se assemelhasse a magia.
Já era noite e Jacky conversava com Jenn próximo às árvores que rodeavam a casa.
– Jennete! – Jacky repreendeu com os olhos semicerrados e a face séria.
– Eu sei, eu sei. – Jenn apressou-se em se defender, nervosa. – Foi só uma ideia.
– Uma má ideia. – Jacky alertou de mal humor.
– Se ele fez isso com você, ele deve poder desfazer. – Jennete explicou rapidamente sua lógica, tentando convencer a outra.
Jacky revirou os olhos.
– A ideia de me encontrar novamente com um cavaleiro de cabeça de abóbora que me fez passar a pior noite da minha vida certamente não é agradável. – Resmungou.
– Tudo bem, já entendi. – Jennete bufou, desistindo.
Terminada a conversa, as duas voltaram para casa, onde a mãe as esperava na porta. As gêmeas entraram em casa e jantaram, não tardando a ir para o quarto que dividiam. Jennete foi a primeira a adormecer e Jacky demorou um pouco mais, mas também o fez.
– OUAT –
A ponte era um lugar muito aberto e, como não tinham ideia de onde Jennifer poderia estar, as três adentraram na floresta, que, por mais que fosse um ato arriscado, seria melhor do que ficar completamente expostas em campo aberto.
Porém, apenas alguns silenciosos minutos depois, a paz foi perturbada por um novo disparo e o baque de algo caindo no chão. Mylena e Jade olharam e viram que fora Elsa quem havia caído e que seu antebraço esquerdo agora estava ensanguentado.
A morena se abaixou ao lado da loira-platina para socorrê-la, rasgando um pedaço da própria blusa vermelha-escarlate para enrolar o braço de Elsa e parar o sangramento no braço da loira. Jade havia permanecido completamente imóvel, paralisada. Isso se devia ao fato de que agora uma pessoa exatamente igual a ela se aproximava a passos lentos com uma arma apontada para onde ela estava com a xerife e a assistente.
Mylena imediatamente percebeu que tanto ela quanto Elsa haviam deixado suas armas caírem, mas antes que pudesse pegar qualquer uma das duas, Jennifer apontou a arma para ela.
– Não se mexa. – A Gold mais nova advertiu com a face séria e sem um pingo de remorso presente na expressão. – Ou eu vou atirar nas três. – Ameaçou.
– Jennifer. – Jade deu um passo na direção da irmã gêmea, que então apontou a arma para ela com firmeza.
– Não dê mais um passo, Jade. – A mais nova ordenou.
Jade a ignorou e se aproximou mais um pouco, mas então caiu no chão com um grito de dor. O tecido de sua calça jeans começava a ficar mais escuro do que já era ao redor de um pequeno rasgo recém-aberto pelo tiro que ela havia recebido na coxa.
– Eu avisei. – Jennifer disse e começou a caminhar na direção de Elsa e Mylena. – Saia da frente. – Ordenou ao ver Mylena se colocar entre ela e Elsa, por mais que agora a mira de sua arma estivesse apontada certeiramente para o coração da xerife.
Mylena sequer se mexeu e pareceu ficar ainda mais rígida em seu lugar. Atrás dela, Jennifer conseguiu ver Elsa olhando de forma suplicante para a morena que estava entre ela e a mira de uma arma, implorando silenciosamente para que ela saísse dali.
– Pois bem. – Jennifer falou e se preparou para atirar, mas viu Jade se levantar e ficar de pé com dificuldade entre ela e as outras duas. Isso a fez vacilar um pouco, mas em momento algum ela abaixou a arma. – Saia da frente, Jade. – Ordenou.
A mais velha não lhe deu ouvidos. Mancou de forma bastante dificulta até onde a irmã mais nova estava e encostou a testa no cano da arma, de modo que não desse possibilidade para que Jennifer errasse caso decidisse atirar.
– Se quer mata-las, então atire em mim primeiro. – A frase surpreender a Gold mais nova, que mesmo assim não abaixou a arma.
Jennifer continuou rígida em seu lugar por alguns segundos, mas se preparou para atirar. Porém, quando ia fazê-lo, sua mão tremeu e ela não conseguiu continuar, dando um passo para trás e abaixando a arma.
O barulho de carros e sirenes vindo ao longe despertou as Gêmeas Gold de seus pensamentos e antes que Jade pudesse dizer ou fazer alguma coisa, Jennifer desapareceu por entre as árvores.
Desse modo, a Gold mais velha se deixou cair no chão e afundar na inconsciência causada pela perda excessiva de sangue.
– OUAT –
Jennete acordou abruptamente ao escutar passos ruidosos alcançando o quarto e um relincho de cavalo vindo de fora da casa. A mais nova estremeceu e olhou para a irmã, mas esta continuava dormindo.
A porta do quarto foi aberta rapidamente e dali surgiu Jack O’Lantern. As feições esculpidas na abóbora que lhe servia como cabeça pela primeira vez não eram maldosas ou sarcásticas. Pareciam preocupadas.
– Precisam ir embora. – A voz sempre carregada de ironia dessa vez parecia aterrorizada.
– O que? – Jennete questionou confusa, encolhendo-se em sua cama, ainda olhando para Jacky na esperança de que a irmã acordasse.
Com a voz de Jennete, a mais velha acordou e imediatamente se assustou ao constatar a presença do pai ali. Em seguida, seu olhar se dirigiu a Jenn de maneira acusatória.
– O que foi que você fez?! – Questionou um pouco mais alto do que pretendia.
– Ela não fez nada. – Jack se apressou em explicar, defendendo a filha mais nova. – Vocês precisam ir embora. Acordem Theodora e fujam.
– O que? Por quê? – Jacky perguntou confusa.
Obteve uma resposta quase que imediatamente, mas não foi a resposta que esperava. O que ouviu foram vários protestos e passos ruidosos aproximando-se da casa. A mais velha levantou de sua cama e olhou pela janela que ficava próxima à cama de Jennete uma multidão furiosa com tochas e tridentes aproximar-se da casa.
– Descobriram. – Jack explicou. – Descobriram sobre tudo. Vieram matá-las. As três.
– Mamãe. – Jennete murmurou e correu para fora do quarto, deixando Jack e Jacky sozinhos.
– Vim aqui para avisá-las. – Jack falou. – Precisam ir embora.
– Não dá mais tempo. – Jacky respondeu, parecendo estranhamente vazia. – E por que se importa?
– Não sei, eu apenas me importo. – Ele disse, inexpressivo.
– Então quero que faça algo para mim.
– O que?
– Consegue tirar elas daqui? – Jacky perguntou. – Mamãe e Jennete?
– Levaria tempo e eles... – Jack começou.
– Por isso estou dizendo para levá-las. – Jacky o interrompeu. – Eu fico e os distraio.
Um sentimento semelhante ao terror passou pelo rosto de abóbora do pai da garota e ele negou com a cabeça.
– De jeito nenhum! – Protestou. – Vão matá-la!
– Você chegou bem perto de fazer isso, não chegou?
Ele abaixou a cabeça, mas se manteve firme em seu lugar.
– Não vou te deixar aqui. – Prosseguiu.
– Eu não estou pedindo. – Jacky respondeu parecendo fria e sem emoções. Era incrível como ficava mais parecida com ele quando agia daquele modo. – Você me deve isso.
Os pensamentos de pai e filha se voltaram para a noite na qual O’Lantern concedera o dom da transformação para a filha mais velha. A noite que ela passou agonizando, a qual ele passara o tempo todo observando das sombras sem que ninguém soubesse, torcendo internamente para que tudo desse certo. Ele assentiu silenciosamente, mas visivelmente infeliz.
– Então esse será o nosso acordo. – Jack estendeu a mão para ela. – Prometa-me que ficará viva e eu salvarei Jennete e Theodora. – Declarou seriamente.
Jacky se surpreendeu, mas assentiu, apertando a mão dele rapidamente.
– Fechado. – Disse e largou a mãe dele.
Nesse momento, Jennete e Theodora adentraram no quarto e a mãe das garotas lançou um olhar confuso e um tanto furioso para Jack.
– O que você está fazendo aqui? – Perguntou de maneira agressiva.
– Ele veio nos avisar. – Jacky explicou voltando ao tom normal, mas que Jack percebeu se tratar apenas de um disfarce e não algo de verdade. – E vocês vão com ele.
– O que?! – Jennete e Theodora exclamaram.
– Ele vai tirar vocês daqui. – Jacky respondeu.
– De jeito nenhum você vai ficar aqui! – Theodora praticamente gritou.
Jacky nada disse, apenas olhou para o pai, que com um movimento rápido pegou Theodora e Jennete nos braços e começou a correr para os fundos da casa, até a porta que havia lá, mesmo sob os incessantes protestos das duas.
A gêmea mais velha olhou os três se distanciarem e correu até a porta da frente. Lá fora, ela podia ver a multidão furiosa se aproximando rapidamente pelo imenso campo aberto e também pôde perceber que o cavalo do pai não mais ali. O barulho de galopes lhe chamou a atenção e por um segundo ela olhou para trás, o suficiente para ver Jack, ainda segurando Theodora e Jennete, se distanciando a cavalo, indo em direção à floresta. Jacky sorriu com isso e voltou-se para os camponeses furiosos.
Com um sorriso no rosto, ela começou a correr pela clareira, em volta da multidão. Para sua surpresa, estava correndo mais rápido que o habitual.
– Bruxa! – Os camponeses gritavam.
Jacky teve um vislumbre dos pais e da irmã sumindo pelas árvores e parou de correr, mas ainda ficando distante do furioso grupo. Um dos camponeses estava com um arco e lhe atirou uma flecha que ela nem ao menos tentara desviar.
Uma terrível dor, mas nada comparada a que seu pai havia lhe causado, atingiu seu ombro esquerdo e ela foi ao chão, ainda sem soltar um grito sequer enquanto o sangue começava a escorrer.
– JACKY! – Ouviu um grito vindo da floresta e desviou o olhar para a origem do som.
Quando viu, Jennete estava correndo numa velocidade desumana até onde ela estava e logo chegou.
– Vá embora. – A mais velha ordenou ao ver a gêmea se aproximar.
– Não sem você! – Jennete gritou e ajudou a outra a se levantar.
Assim foi feito. Mesmo sob os protestos de Jacky a mais nova não saiu do seu lado. A multidão não tardou em chegar até elas e o que parecia ser o líder matou as duas, colocando uma espada no coração de cada. Após isso, uma fogueira foi feita e jogaram as gêmeas lá.
Do outro lado da clareira, Jack e Theodora assistiam tudo, esta última com lágrimas nos olhos e o primeiro apenas não chorava porque sua cabeça de abóbora não lhe permitia.
Seu acordo fora quebrado.
– OUAT –
Jade abriu os olhos lentamente, deparando-se com um lugar com a qual ela estava bastante familiarizada, afinal passava bastante de seu tempo naquele hospital, então facilmente reconheceu estar em um de seus quartos.
Tentou se mexer, mas uma dor insistente em sua coxa a fez ficar parada e fazer uma careta de dor.
– Você não devia se mexer. – Escutou uma voz familiar e virou o rosto em tempo de ver John Gold sentado numa poltrona de cor clara ao lado de seu leito.
– Há quanto tempo estou aqui? – Ela não perdeu tempo em perguntar, esfregando os olhos com as costas da mão, livrando-se da sonolência que sabia se dever a anestésicos.
– Dezesseis horas. – John respondeu sem qualquer emoção na expressão ou no tom de voz, mas as olheiras e o rosto fatigado denunciavam que já fazia bastante tempo que ele estava ali. – Tiveram que fazer uma cirurgia para tirar a bala e você ficou inconsciente por algum tempo. – Ele não conseguiu conter um bocejo que se seguiu à sua fala, abafando-o com a mão.
– E pelo que dá para ver, você esteve aqui esse tempo todo. – Jade disse, deixando John bastante surpreso, mas ainda completamente calado e sem demonstrar qualquer emoção. – Obrigada. – Sorriu para o pai.
John não pôde evitar que um sorriso pequeno aparecesse em seus lábios. Ficou realmente feliz com o ato da filha, mas não disse nada.
– E a Jennifer? – O sorriso do penhorista morreu quando a filha mais velha mencionou a mais nova.
– Ela desapareceu. – John passou a mão pelos cabelos negros; gesto esse que indicava seu nervosismo. – Não encontraram nada.
Jade assentiu e também não fez mais nenhum questionamento. Sentia-se mal por não ter impedido que Jennifer fizesse aquela loucura toda, mas algo se sobrepunha a esse pensamento. A memória de quando a mais nova se recusou a mata-la deixou-a, no mínimo, um pouco reconfortada.
Apesar de tudo, talvez não fosse tarde demais para sua irmã mais nova. Ou, pelo menos, era nisso que ela queria acreditar.
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