The New Storybrooke I - The Fairytales are Back
8 Desperate Spirits
Notas iniciais
Mais afastada de uma movimentada e próspera vila, estava uma fazenda de tamanho gigantesco. Nela, havia apenas uma cabana de madeira grande o suficiente para abrigar dez pessoas ou mais e os campos eram preenchidos unicamente pela plantação de abóboras que era a principal responsável pela prosperidade da fazenda e da vila.
Lá viviam apenas duas pessoas. Um homem e um rapaz. Não eram em nada parecidos. O mais velho, de talvez vinte e oito anos, tinha cabelos e olhos negros como a noite, bem como a pele branca como a neve. Era alto e tinha o porte físico de um bom trabalhador e olhava sua plantação com um sorriso no rosto. O outro era mais baixo e esguio em seus aparentes dezoito anos. Tinha cabelos castanhos muito claros, quase loiros, e olhos verde-esmeralda.
– Acabamos por hoje, Jack? – O mais novo perguntou ao homem ao seu lado, alternando olhares entre ele e a fazenda. Ele estava claramente cansado por ter trabalhado ali durante todo o dia.
– Sim. Pode ir dormir, Peter. – O homem mais velho, a qual o mais novo referira-se como Jack, concordou rapidamente e logo o mais novo se retirou para dentro da casa.
Jack o olhou enquanto o rapaz desaparecia dentro de casa e virou-se mais uma vez para a fazenda. Logo depois, dirigiu-se ao estábulo e pegou seu cavalo preferido, um totalmente preto, e montou nele, dirigindo-se à vila.
Porém, entre a fazenda e a vila havia um bosque, que, à noite, ficava essencialmente escuro. Jack não se importou. Pegou apenas um lampião aceso e saiu floresta adentro com seu cavalo.
Ele não era um homem fácil de assustar. Os barulhos que pareceriam perturbadores a qualquer um que passasse por ali não afetavam nem a ele e nem a seu cavalo e ambos prosseguiam rapidamente por entre as árvores pela trilha em direção à vila.
Não houve nada para impedir seu caminho até a vila, portando, ao chegar lá, amarrou seu cavalo e dirigiu-se à velha taberna que havia no lugar, sentando-se ao balcão e pedindo algo para beber logo em seguida. Tudo o que queria era descansar um pouco do dia de trabalho.
Já bebendo, a única coisa que lhe chamou a atenção foi quando um garoto, provavelmente da mesma idade do amigo com quem dividia a casa, ou seja, dezoito anos, sentou-se ao seu lado e o ficou encarando sem qualquer tentativa de desfaçar.
Era um menino de cabelos prateados reluzentes e de olhos laranja-vibrantes que o examinavam meticulosamente. Ele tinha uma pele pálida demais para ser de um ser humano vivo e trazia um sorriso presunçoso no rosto jovem e amistoso. Vestia-se com roupas de camponês em cores escuras, que contrastavam bastante com o tom dos cabelos e da pele, mas que pareciam fazer uma boa combinação com a cor incomum dos olhos.
– Perdeu alguma coisa? – Jack perguntou incomodado ao perceber que o menino não tinha a menor intenção de desviar o olhar. – Quem é você? – Questionou, arqueando uma sobrancelha.
– Ah, onde estão meus modos? – O desconhecido sorriu como uma criança e levou a mão à cabeça num gesto sem graça. – Sou Jonathan O’Lantern, ou apenas John. – O menino se apresentou e estendeu a mão para Jack, que com relutância a apertou. – E você? Quem é? – O garoto questionou com curiosidade.
– Jack. – O mais velho disse simplesmente.
Jonathan não pareceu muito satisfeito com a resposta simples, mas deu de ombros, decidindo-se por não se importar.
– Ora, Jack, por que esse mau humor? – O garoto perguntou curiosamente, como se já conhecesse o outro por tempo o suficiente para saber como ele agia.
Jack o olhou mais uma vez. O’Lantern. O nome lhe era familiar. Forçou um pouco sua mente em busca de saber onde havia ouvido aquele nome e, ao olhar para os olhos de incomum coloração do menino, soube de quem se tratava.
– Porque não é muito agradável estar de frente para o Senhor das Trevas. – Finalmente respondeu, sorrindo descaradamente para o outro, que franziu o cenho, insatisfeito.
– Por quê? – O mais novo perguntou de mau humor. – Não são muitos que tem o privilégio de disfrutar da minha humilde companhia. – Sorriu com ironia.
– Menos ainda aqueles que disfrutam dela e sobrevivem para contar a história. – Jack retrucou, voltando o olhar para as outras pessoas no lugar, que permaneciam completamente alheias à presença do garoto de cabelos prateados.
– Sim, é verdade. – Jonathan concordou com um sorriso maldoso. – Não que este seja o trabalho do Senhor das Trevas, levar aqueles que estão perto da morte, mas é divertido. – Riu.
Jack ficou mais branco do que já era ao escutar as palavras do menino. Como assim perto da morte? Ele não estava machucado e tampouco tinha qualquer problema de saúde. Jonathan era o Senhor das Trevas, mas, no final das contas, o que ele poderia saber a respeito?
– Sei bastante, se é isso que está pensando. – Jonathan respondeu com um sorriso infantil antes que Jack pudesse sequer verbalizar seus pensamentos. – Você já sabe quem eu sou, no final das contas. – Ele abriu os braços, como se quisesse que o outro o visse melhor, mas Jack continuava sem enxergar mais do que uma criança.
De súbito, Jonathan se aproximou dele e seu rosto brilhou em luz forte por um segundo, impossibilitando que Jack o visse. Quando o clarão finalmente cessou, o rosto do menino não era mais o de uma criança animada e amistosa com cabelos prateados e olhos laranja-vibrantes. O rosto em si não mudara, mas o modo como estava havia. Não existia mais nada de bom naquele rosto. O sorriso era de completo escárnio e os olhos, agora negros como a noite, aparentavam imensa crueldade. Os cabelos, antes prateados reluzentes agora estavam em dourado brilhante.
– Gosta mais de mim agora? – A voz também não era mais infantil. Era mais rouca e chegaria a provocar calafrios em qualquer pessoa que não fosse Jack.
– Não gostava antes, não gosto agora. – Jack disse, sem dar muita atenção a quem estava ao seu lado. – Mas, obviamente, sei quem é. – Revirou os olhos. – E o que faz. – Declarou, por fim.
– Minha reputação me precede. – O menino assentiu com a mesma voz e aparência de antes, não parecendo nem um pouco inclinado a voltar a parecer o adolescente de olhos laranja e cabelos prateados. – Isso é bom. Poupa-me o trabalho de explicar. – Ele riu, mas o som não era mais animado, e sim maldoso. – Então, Jack, se eu estou aqui, você já deve saber que está em uma situação bem ruim.
– Quem me garante de que você está falando a verdade? – Jack arqueou uma sobrancelha, embora soubesse em seu interior que provavelmente o garoto não estava mentindo.
– Não tente me enganar, Jack. – Jonathan revirou os olhos, bufando, mas continuando a analisar o homem, como se buscasse ver alguma coisa que ainda não havia visto. – Sabe que estou falando a verdade. Eu não me daria ao trabalho de vir se não tivesse um serviço para fazer. – Sorriu maldosamente. – Gosto de brincar com as pessoas, principalmente com aquelas que não têm muito tempo de vida.
– O que você quer, afinal? – Jack perguntou da forma mais impassível que conseguia, não querendo demonstrar o quanto estava abalado por dentro. Não queria parecer fraco na frente de uma criança como aquela, por mais que aquela criança fosse o Senhor das Trevas.
– Sabe o que faço. – Jonathan respondeu com escárnio, sorrindo com ironia. – Diga-me apenas qual o seu último pedido antes que eu o mate. – Riu baixo, divertindo-se com a situação.
A mente de Jack começou a trabalhar rápido. Precisava achar um meio de sair daquela situação. Sabia o que o atual Senhor das Trevas fazia. O garoto aparecia para pessoas aparentemente aleatórias e em seguida as matava com a desculpa de que chegara a hora de sua morte. Era um perfeito psicopata, mas devia ter seu ponto fraco.
Finalmente, uma ideia explodiu na mente do mais velho e ele deu graças aos céus por ser um fazendeiro influente a quem as pessoas presenteavam com objetos de valor e, mesmo que por raríssimas vezes, mágicos.
– Quero uma última bebida. – Jack disse sorrindo despreocupado.
Jonathan estranhou. Nunca havia visto alguém ficar tão calmo quando aparecia, mas ele era um homem de palavra. Disse que Jack tinha um último pedido e não faria nada para impedi-lo de realizá-lo. Por fim, assentiu.
Jack deixou o sorriso se alargar um pouco e pegou uma pequena bolsa de couro no bolso da calça. Abriu-a e fingiu insatisfação, virando-se para John.
– Não tenho mais dinheiro. – Disse inocentemente.
Jonathan bufou, contrariado. Cumpriria com o que falara, obviamente, mas não queria dizer que lhe agradasse. Finalmente, transformou-se numa moeda de ouro com a qual Jack poderia pagar a última bebida que tanto almejava.
Jack sorriu ao pegar a moeda, mas, diferentemente do que Jonathan esperava, ao invés de dar ao garçom para pagar a bebida, meteu-a na bolsa de couro.
– Mas o que significa isso?! – Escutou a voz de Jonathan, estridente e exigente, vinda de dentro da pequena bolsa.
– Não me agrada a ideia de morrer. – Jack o respondeu com um sorriso convencido. – E estarei fazendo um favor ao mundo deixando-o preso aí. – Disse. – Tente o quanto quiser, não pode sair. Essa bolsa é encantada para prender magia. Não pode se soltar. – Sorriu. – E ficará aí pela eternidade...
– Espere! – Imediatamente, a voz do menino o interrompeu. – Façamos um acordo. – O mais novo propôs.
– E por que eu deveria confiar em você? – Jack desafiou, arqueando uma sobrancelha de modo debochado, por mais que o outro não pudesse ver.
– Porque, diferentemente de você, eu cumpro os meus acordos. – Jonathan alfinetou, claramente desgostoso com a situação.
– O que você propõe? – Jack bufou, decidindo-se por ignorar as provocações do mais novo.
– Você me deixa sair e eu o deixo viver por mais um ano. – Jonathan respondeu contrariado.
– Apenas um ano não me basta. – O mais velho respondeu como se fosse óbvio, bufando com impaciência.
– É tudo o que posso lhe oferecer. – Jonathan declarou.
– E tudo o que eu posso fazer é deixa-lo preso aí. – Jack sorriu com escárnio.
– Não sei se você sabe, mas são raras as magias que duram para sempre. – Jonathan respondeu e Jack pôde identificar alguma coisa diferente em seu tom de voz. – Posso demorar, mas irei sair daqui. – Disse com convicção. – E quando sair, irei atrás de você.
Jack pensou por um momento. Era verdade, ele não sabia o quanto a magia naquela bolsa de couro poderia durar, talvez até menos que um ano, então, pensando um pouco, tomou sua decisão:
– Fechado. – Disse e abriu a bolsa, da qual uma névoa negra saiu, logo transformando-se na figura de Jonathan, ainda de cabelos dourados e olhos pretos.
– Sábia decisão. – Jonathan sorriu com ironia, desgostoso pelo acordo. – Nos vemos em um ano. – Disse e desapareceu dali.
Jack se pôs a pensar. Precisava achar um jeito de deter Jonathan. Não podia deixar que ele o matasse. Mas como faria isso?
– OUAT –
Já fazia três semanas desde o acontecimento em que Jennifer tentara assassinar Elsa. John Gold estava no escritório que havia atrás de sua loja, organizando metodicamente alguns objetos, quando ouviu o sininho que indicava que a porta da Loja de Penhores estava sendo aberta.
– Gold? – Escutou a voz de ninguém menos que Mylena Black chamando-o. – Está aí? – Ela perguntou.
– Bem, é a minha loja. – John revirou os olhos e continuou a organizar os itens do escritório.
Apenas poucos segundos depois, Mylena surgiu na porta do escritório, adentrando, mas parando abruptamente ao inspirar uma imensa quantidade de poeira presente na sala e espirrar.
– Você devia limpar esse lugar. – A morena disse depois de espirrar uma segunda vez.
– Concordo, mas deixemos isto para outra ocasião. – John respondeu sem parecer incomodado, provavelmente já acostumado com aquilo.
– Que seja. – Mylena concordou, levando a mão ao nariz para evitar espirrar mais uma vez. – Você ligou para o Departamento do Xerife, mas será que podemos conversar lá fora...? – Indicou a saída do escritório.
– Eu só queria que me dissesse notícias sobre o paradeiro da minha filha. – John se aproximou dela, cruzando os braços.
– Nem sinal da Jennifer ainda. – Mylena disse contrariada. Detestava não conseguir alguma coisa, principalmente se fosse em relação ao seu trabalho. – Ela deve ser boa em se esconder. – Sugeriu.
– De fato, ela é. – John concordou com um gesto curto da cabeça. – E quanto à Senhorita Snow? – Perguntou, surpreendendo a outra. – Soube que Jennifer a machucou. – Explicou. – Como ela está?
– Está bem. – Mylena respondeu ainda confusa com a atitude dele. Que interesse John Gold teria na saúde de Elsa? – Só vai precisar deixar o braço em repouso na tipoia por mais duas semanas. – Explicou sem saber ao certo o porquê e logo suspirou. – E a Jade? – Arqueou uma sobrancelha.
– Ela está melhor. Obrigada por perguntar. – John respondeu metodicamente. – Está de licença do hospital e ainda vai precisar usar muletas por três semanas e meia, mas vai se recuperar. – Garantiu.
– Eu fico feliz. – Mylena respondeu com um sorriso torto bastante remoto. – De qualquer forma, se era só isso, acho que já vou indo. – Disse, agradecendo aos céus por finalmente poder ir a um lugar onde não iria espirrar.
– Certamente. – John a acompanhou até a porta da loja, mas parando abruptamente, chamando a atenção dela mais uma vez.
O mais velho rapidamente foi até um dos balcões e de lá pegou uma caixa, que estendeu para Mylena.
– Achei isto há alguns dias e achei que talvez você, Elsa e Annabelle poderiam gostar. – Ele explicou ao perceber a confusão no rosto dela.
Mylena pegou a caixa e a abriu, percebendo que eram três rádios idênticos, um pouco empoeirados, mas em bom estado e conectados na mesma frequência.
– Olha, eu não sei se... – Ela começou a dizer, mas ele a interrompeu.
– Por favor. – John insistiu. – Acho que seria um bom modo de aproveitar o tempo com sua irmã e sua amiga. É assim que essas coisas funcionam. – Suspirou. – Como as pessoas funcionam, principalmente aquelas que são mais próximas a nós. – Fechou os olhos, como se estivesse se lembrando de algo. – Quando você menos espera, você as perdeu. – Finalizou, abrindo os olhos mais uma vez.
Surpresa, Mylena assentiu e aceitou a caixa, saindo da loja e deixando o homem para trás.
–
Depois de sair da loja de Gold, Mylena se dirigiu ao velho castelo de madeira na praia, onde sabia que poderia encontrar Annabelle e, possivelmente, Elsa.
Dito e feito, as duas estavam lá, mas não conversavam entre si. Anna parecia bastante desanimada e abraçava seu livro de Contos de Fadas como se buscasse algum conforto enquanto Elsa, com uma tipoia no braço na qual Jennifer atirou, a olhava como se buscasse entender o que a afligia, uma vez que a ruiva se recusava a falar.
A Black mais velha rapidamente foi até as duas e se sentou ao lado delas, ficando Annabelle entre ela e Elsa. Sentada, estendeu dois dos três rádios para elas, um para cada uma. Elsa pareceu surpresa, mas Annabelle continuou triste.
– Achei que vocês podiam usar isso na Operação Boneco de Neve. – Mylena sorriu com sarcasmo, divertindo-se com aquilo, deitando as costas no chão de tábuas de madeira e deixando os pés penderem para fora do espaço do castelo, sobre a areia da praia, como as outras duas faziam.
– E você não? – Elsa provocou, rindo um pouco, embora ainda lançasse olhares confusos para Annabelle, que não havia se manifestado até então.
– Você sabe que eu não acredito nisso, mas se as faz felizes... – Mylena deu de ombros, voltando a se sentar e em seguida encarou Anna. – Qual é o problema? – Perguntou à ruiva. – Você está quieta assim há semanas. – Declarou.
– Acho que devemos parar a Operação por um tempo. – Annabelle disse cabisbaixa, recusando-se a fitar as outras duas, que a olhavam com atenção. – Não se brinca com a Maldição. Quase mataram vocês duas. – Suspirou.
– Anna, eu te disse que não foi nada. – Mylena respondeu, tentando animar a infeliz ruiva. – Jennifer tentou matar a Elsa, mas não conseguiu. Ela está bem e eu também. – Garantiu. – Vamos encontra-la. Vai ficar tudo bem. – Finalizou.
– Deixa para lá, você não acredita. – Annabelle suspirou desanimada. – Talvez seja melhor assim. Desse jeito, você não corre o risco de se envolver e acabar... – Engoliu em seco antes de prosseguir. – Morta.
Mylena se surpreendeu. Dado o fato de que ela e Annabelle nunca tiveram uma relação muito boa, por mais que fossem irmãs, surpreendeu-se por a ruiva demonstrar se preocupar tanto com ela.
– Está preocupada comigo? – Acabou verbalizando seus pensamentos, aparentando completa incredulidade, que era como se sentia naquele momento.
– Com vocês duas. – Anna respondeu, olhando de soslaio para Elsa ao fazê-lo. – Pensem bem. – Pediu. – Meu pai mandou a Jennifer matar a Elsa porque ela é boa. – Disse, olhando para a loira-platina, que permaneceu quieta. – Se isso continuar, ele vai tentar de novo e talvez até consiga, porque os bons sempre perdem porque sempre tem que jogar limpo. – Suspirou. – Os maus não. Meu pai é mau. – Declarou. – Talvez assim seja melhor. Eu não quero mais chateá-lo. – Levantou-se de seu lugar, distanciando-se dali.
Elsa e Mylena se entreolharam preocupadas. Não que a morena acreditasse naquilo, mas era importante para Anna e ela faria alguma coisa a respeito. Elsa não só sabia que era verdade, como precisava quebrar a Maldição e não faria isso sem sua irmã mais nova, contando ainda com o fato de que ver a extrovertida ruiva tão infeliz lhe partia o coração.
–
Depois de falarem com Annabelle no castelo de madeira na praia, Elsa e Mylena se dirigiram à delegacia. A mais velha jogou as chaves de qualquer jeito na mesa e atirou-se no sofá, pondo-se a pensar.
– Eu vou matar o papai. – Mylena disse de repente com uma naturalidade estranha para a frase, enrolando uma mecha de seu cabelo escuro nos dedos.
– Por mais que eu também tenha vontade, acho que não é uma boa ideia. – Elsa respondeu, encostando-se à mesa da Xerife e pegando ali uma foto que continha Mylena e Annabelle, esta última sorrindo como uma criança enquanto a outra apenas trazia um sorriso fraco nos lábios. – Primeiro, precisamos dar um jeito de provar que foi o seu pai quem encomendou minha morte. – Finalizou.
– Só com o testemunho da Jade não ser fácil, precisamos achar a Jennifer. – A Black mais velha assentiu pensativa. – E até isso acontecer, provavelmente eu já teria o terei estrangulado. – Abriu um sorriso torto que pingava sarcasmo.
– Vai ser presa. – Elsa declarou, por mais que achasse que a prisão não era um motivo suficientemente convincente para fazer Mylena desistir de algo que ela realmente quisesse.
– Por quem? – A morena perguntou com um sorriso de criança, brincando com o distintivo de xerife.
Elsa revirou os olhos, mas nada disse. Realmente estava com raiva do prefeito. Ele não podia fazer aquilo com Anna, não podia simplesmente arrancar todas as esperanças da ruiva e deixa-la infeliz.
Não podia e não faria.
– OUAT –
Desde o encontro com Jonathan O’Lantern, Jack havia deixado sua fazenda a cargo de Peter e ido se juntar ao exército do reino onde vivia. Os soldados passavam por muitos lugares e ouviam muitos rumores, sendo que ele tinha chances de descobrir algo para parar o Senhor das Trevas.
Já fazia alguns meses que ele havia ingressado no exército e foi quase com seu prazo de um ano acabando que ele descobriu um item que podia matar John e deixa-lo livre dele. Demorou bastante para consegui-lo, mais do que gostaria, mas finalmente o tinha. Assim, finalmente desistiu da vida de soldado e voltou para casa, onde um Peter um pouco mais crescido o esperava.
Depois de mais um tempo, o prazo de um ano que Jonathan dera a Jack expirava naquela noite. Como feito há um ano, o homem se dirigiu à taberna que havia na vila próxima à sua fazenda, a mesma onde havia encontrado o garoto pela primeira vez.
Qual não foi sua surpresa quando, de repente, ele apareceu lá, sentado do mesmo modo que um ano atrás. E, tal qual um ano atrás, viera com seus cabelos prateados e olhos laranja-vibrantes, amigável.
– Vai cumprir seu acordo desta vez? – Jonathan perguntou com um tom irônico que em nada combinava com sua aparência mais amistosa.
– Sim, mas não aqui. – Jack respondeu, surpreendendo um pouco o outro, que o olhou com confusão, como se esperasse que novamente ele fosse tentar prendê-lo em um objeto que tirava magia. – Siga-me. – Ordenou e se levantou, seguindo para fora da taberna com o outro em seu encalço.
Jonathan o olhava atentamente, esperando por um movimento brusco por parte dele ou qualquer outra coisa que pudesse indicar que ele não cumpriria o acordo, mas nada disto veio. Jack continuou seguindo até adentrarem na floresta que separava a vila da fazenda de abóboras do homem.
– Para onde está indo? – Jonathan questionou de mau humor, querendo logo acabar com aquilo para poder ir embora. Tinha mais o que fazer, ou era isso que queria demonstrar.
– Quero me despedir do Peter. – Jack respondeu sem olhar para ele, fitando a estrada de terra à sua frente.
– O que ele é? Seu filho? Seu irmão? – Jonathan chutou. É claro que sabia. O Senhor das Trevas sabia tudo, mas numa conversa normal, não podia simplesmente sair dizendo tudo da qual tinha conhecimento.
– Meu amigo. – Jack especificou e Jonathan ficou surpreso pelo outro não ter mentido como esperava que ele fosse fazer.
Prosseguiram o caminho em silêncio até finalmente chegarem à fazenda de Jack, que, como era de se esperar, trazia várias abóboras espalhadas pelo terreno, todas em excelente estado.
Jack já estava se aproximando da casa quando sacou algo do cinto e se virou para Jonathan em postura agressiva. Algo reluziu na mão do mais velho e logo John identificou o que era. Era sua adaga, a que continha o nome Jonathan escrito, a única arma que poderia mata-lo.
– Por que eu não estou surpreso? – Jonathan também se posicionou e seus cabelos tornaram-se dourados, bem como os olhos mudaram para pretos, abandonando a fachada infantil e amistosa. – Você não cumpre seus acordos. – Rosnou.
– Não vou deixar que me mate, pirralho. – Jack respondeu com escárnio.
– Pois então, vamos Jack, faça o seu pior! – Jonathan desafiou antes que o mais velho partisse para cima dele com a adaga em punho.
– OUAT –
Elsa se despediu de Mylena e não tardou em seguir para o prédio da prefeitura, onde sabia que poderia encontrar Pitch. Subiu as escadarias até o corredor do primeiro andar e foi até a porta do escritório do homem, abrindo-a e encontrando-o olhando alguns papéis em suas mãos.
– Em que posso ajuda-la, Senhorita Snow? – Pitch perguntou com sarcasmo, levantando o olhar para fitar a loira-platina.
– Pode me ajudar não tentando me matar. – Elsa respondeu, cruzando os braços e o fuzilando com os olhos.
– Não sei do que está falando. – Pitch sorriu com ironia e abandonou os papéis em sua mesa, encostando-se à mesma enquanto analisava Elsa com os olhos negros atentos e ardilosos.
– Eu acho que sabe. – Elsa rebateu, arrumando uma mecha rebelde do cabelo que lhe caíra no rosto. – Não tente me enganar, Breu. – A loira-platina semicerrou os olhos na direção dele.
Pitch também semicerrou os olhos e fechou os punhos com força. Não gostava do fato de saberem sobre quem ele era, por mais que a dita cuja fosse alguém que não fora amaldiçoada e sem dúvida alguma o reconhecia. Preferia quando a loira-platina chegara à cidade e não ligara sua nova aparência à sua verdadeira identidade. Foi com os dentes trincados que falou:
– Não me irrite, Rainha da Neve. – Ele respondeu irritado, fazendo-a soltar um riso baixo.
– Não tenho nada a perder. – Elsa lhe disse com um sorrisinho desafiador que no mesmo segundo ele passara a odiar. – Não tenho meus poderes, mas você também não tem os seus. — Finalizou.
– Jennete não deixou o recado bem claro? – Pitch arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, varrendo sua mente em busca de algo para arrancar aquele maldito sorriso dos lábios de Elsa.
– Vou sobreviver. – A loira-platina tocou o braço apoiado na tipoia com a mão livre, sem parecer dar muita importância. – Não é como se fosse tão importante. – Revirou os olhos.
– Então por que está aqui? – Ele perguntou irritado. O que mais queria era que ela fosse logo embora dali.
– Anna. – Ela respondeu com um tom de obviedade que o irritou quase tanto quanto o sorriso, que ela não mais exibia. – Não me importa nem um pouco quantas vezes você tente me matar, contanto que ela não saia prejudicada. Tem ideia de como ela está, não? Vocês moram na mesma casa, afinal você finge ser o pai dela e realmente eu não quero saber o porquê, mas você deve ter visto como ela está. – Trincou os dentes.
– Agindo como uma pessoa normal? – Pitch alfinetou, retornando a sua fachada sarcástica que irritava Elsa tanto quanto o sorriso dela o irritava.
Antes que Elsa pudesse dar uma resposta a altura, ele simplesmente passou por ela em direção à porta e a abriu, saindo da sala com a loira-platina seguindo-o.
– Ela está infeliz, perdeu as esperanças de tudo. – Elsa respondeu irritada. Se ainda tivesse seus poderes, certamente aquele prédio já estaria completamente congelado dado sua raiva.
– Não vejo como isso poderia ser ruim. – Ele disse, continuando a andar, mas desta vez fazendo pouco caso do que a loira lhe dizia.
– Como você consegue ser assim? – Ela perguntou com insatisfação, finalmente conseguindo atrair a atenção dele para si quando os dois pararam de andar, já no andar de baixo, de frente para a porta do lugar. – Não me interessa o que aconteceu no passado, você passou vinte e oito anos cuidando dela. Como ainda consegue ser tão frio assim? – Arqueou uma sobrancelha, aguardando uma resposta.
– Frio... – Ele repetiu com um sorriso de escárnio. – Olha quem fala. – Disse ao abrir a porta e deixar o prédio.
Elsa o seguiu, mas antes que pudesse dar uma resposta ao que ele acabara de dizer, Mylena apareceu seguida por John Gold, este último trazendo um sorrisinho divertido nos lábios.
– Aconteceu alguma coisa? – Elsa perguntou, ignorando a conversa que estava tendo com o prefeito de Storybrooke por hora.
– Parece que a Jennifer foi vista no hospital. – A Black mais velha respondeu em nenhum momento dirigindo o olhar ao pai, ignorando-o.
– E ele? – Elsa gesticulou para John, que se mantivera calado até então.
– Foi ele quem denunciou. – Mylena deu de ombros, parecendo não dar muita importância ao fato, mas olhando desconfiadamente para John logo em seguida.
Elsa se surpreendeu. Apesar do caráter duvidoso, ele sempre demonstrara ser um pai preocupado e atencioso, à sua maneira obviamente, então não fazia muito sentido que tivesse denunciado o paradeiro da filha mais nova.
– De qualquer forma, temos que ir. – Mylena lembrou e logo a Black partiu para a viatura, saindo dali com ela ao ver que Elsa iria em seu carro com John.
Assim, a loira-platina e o dono da loja de penhores seguiram seu caminho para o hospital de Storybrooke.
– OUAT –
Jonathan fez surgir uma espada em sua mão e partiu para cima de Jack enquanto o mais velho ia para cima dele. Os dois tentaram se atacar, mas acabaram desviando apressadamente.
– Que problema você tem em cumprir com sua palavra? – Jonathan alfinetou enquanto tentava acertar Jack com a espada que invocara.
– Se ela custar minha vida, obviamente não cumprirei com ela. – Jack respondeu sem se importar, desviando da investida do mais novo e tentando ataca-lo com a adaga que, segundo lhe disseram, era o único item capaz de matar o Senhor das Trevas.
Jonathan trincou os dentes, mas soltou uma risadinha que ecoou pela fazenda enquanto mais uma vez tentava atacar o mais velho, que novamente desviou. O treinamento para o exército do reino fizera bem a Jack e ela ainda guardava até mesmo a armadura escura que o haviam dado ao se tornar um soldado.
– Não acho que precise dizer o que penso de pessoas como você. – John disse depois de alguns minutos em que o único barulho ouvido vinha dos golpes que ambos desferiam um contra o outro.
– Também não preciso ouvir. – Jack riu um pouco, zombando do garoto, que pareceu ficar irritado com o ato.
– Você é desprezível. – Jonathan semicerrou os olhos, conseguindo arranhar o braço de Jack com a espada enquanto ele lhe cortava o rosto.
John distanciou-se um pouco do mais velho e ergueu a mão na direção dele, levantando-a logo sem seguida. Jack sentiu seus pés deixarem o chão como se algo o segurasse e o puxasse para cima. Jonathan torceu os dedos e Jack se contorceu de dor, como se alguma força desconhecida o esmagasse.
– Diga adeus. – Jonathan sorriu como uma criança e seus cabelos dourados brilharam à luz da lua.
Jonathan começou a fechar a mão lentamente e Jack sentia como se estivesse sendo esmagado, logo concluindo que era o Senhor das Trevas quem fazia isso.
– Pare! – Jack gritou em tom de ordem, mas saindo um pouco suplicante.
Jonathan imediatamente ficou paralisado e Jack caiu no chão, não mais sendo segurado pela magia do menino. O mais velho ainda segurava a adaga, então, por força de sua magia, John era obrigado a fazer o que o fazendeiro quisesse.
– Duvidei um pouco desta parte, então confesso que estou surpreso. – Jack declarou enquanto se levantava e limpava a terra das roupas. – Esta adaga realmente o controla. – Disse com escárnio.
– E o que vai fazer agora? – Jonathan arqueou uma sobrancelha, desafiador, embora não pudesse mexer. – Me deixar paralisado para me matar? É um ato de covardia bem baixo, se quer minha opinião. – Sorriu com escárnio.
– Não sou covarde. – Jack rebateu a provocação. Se havia algo que não tolerava era ser chamado de covarde. – Vamos continuar com a luta. É justo. – Disse, surpreendendo o outro. – Mas você não vai poder usar magia. – Sorriu ao ver a raiva presente no rosto do garoto, que então pôde se mexer novamente. – Me mostre o que sabe, Senhor das Trevas. – Jack desafiou e os dois novamente retornaram a seu embate.
– OUAT –
O clima era desconfortável dentro da Mercedes azul-escuro de Elsa, que a loira-platina dirigia apenas com uma mão pela outra estar numa tipoia. Nem ela nem John diziam qualquer palavra durante o percurso até o Hospital Geral de Storybrooke, que repentinamente, parecera longo demais.
– Não faz sentido. – Elsa finalmente se pronunciou, mantendo os olhos na estrada.
– O que? – John arqueou uma sobrancelha, também mantendo os olhos no caminho, não se dando ao trabalho de fitar a loira-platina.
– Você. – Elsa respondeu rapidamente. – Você ter denunciado a sua filha. O que ela fez foi errado, mas, como pai, imaginei que não faria nada disso. – Ela concluiu, olhando para ele pelo canto do olho rapidamente antes de voltar completamente sua atenção à estrada.
– Há muito tempo prometi a Jade e Jennifer que as protegeria de tudo, inclusive delas mesmas. – John declarou, parecendo perdido em uma lembrança distante. Pelo modo como ele agia, por vezes Elsa se pegava se perguntando se ele se lembrava de sua outra vida. – E eu sempre cumpro com a minha palavra. – Finalizou.
Elsa assentiu. Na Floresta Encantada, lembrava-se bem da reputação de Jack O’Lantern. Ninguém quebrava acordos com ele, mas também nunca havia ouvido falar de que ele o tivesse feito. Ele podia ter qualquer defeito do mundo, mas parecia ser um homem de palavra. Por fim, deu de ombros.
– Entendo. – Disse depois do que lhe pareceu um longo tempo em silêncio.
Desde modo, continuaram o caminho até o hospital sem dizer mais nenhuma palavra.
– OUAT –
Jack e Jonathan continuavam com sua pequena batalha. Nenhum dos dois parecia obter a vantagem e aquilo poderia continuar por horas a fio sem que qualquer um deles conseguisse a vitória.
– Por que me escolheu? – Jack perguntou ao desviar de um golpe do mais novo, que arqueou uma sobrancelha para ele, sem entender a pergunta. – Por que não quer matar qualquer outra pessoa? Por que eu? – Explicou.
Jonathan sorriu como uma criança e em seguida soltou um riso alto.
– Digamos que eu sei reconhecer um espírito desesperado. – John respondeu com o mesmo sorriso de antes emoldurando os lábios.
Assim, Jack não tardou em ataca-lo mais uma vez, sendo que acabou por tropeçar em um dos ramos de sua plantação de abóbora e caiu por cima de Jonathan. Ao se levantar um pouco, percebeu que a adaga que ainda segurava estava fincada no peito do menino.
– Parece que eu ganhei. – Jack anunciou com um sorriso vitorioso.
– OUAT –
Quando Elsa chegou ao hospital, viu várias pessoas do lado de fora e viu que Mylena se preparava para entrar. Rapidamente saiu da Mercedes e sacou a própria arma com o braço bom, aproximando-se da morena.
– Vamos? – Arqueou uma sobrancelha. Não podia mentir, estava um pouco nervosa.
– Tem certeza? – Mylena questionou, olhando diretamente para o braço machucado de Elsa com preocupação.
A loira-platina assentiu com um gesto curto da cabeça e as duas entraram no hospital, que agora estava vazio. Os funcionários estavam todos do lado de fora e, ao que parecia, levaram quantos pacientes podiam, deixando o lugar sempre movimentado com médicos, pacientes e enfermeiras por todos os lados no mais completo silêncio.
–
John aguardava tudo do lado de fora, porém quem o visse não poderia notar a ansiedade do homem. O que dissera a Elsa era verdade, uma vez ele prometera a suas filhas que as protegeria de tudo, inclusive delas mesmas. Esta era sua forma de cumprir com sua palavra. Não podia deixar Jenn se afundar na escuridão criada pelo prefeito da cidade e não deixaria. Mas, o que lhe restava agora era esperar.
–
Depois de receber a notícia do que estava acontecendo no hospital, Annabelle saiu da aula em companhia de Miranda e Alicia, preocupada com a loira-platina e a morena. Naquele momento, agradeceu aos céus por não ter devolvido o rádio que Mylena lhe dera, ligando-o e falando:
– Vocês estão bem? – Perguntou.
Esperou um pouco e estava quase desistindo de ter uma resposta quando a voz de Elsa se fez presente, saída meio chiada do rádio:
– Agora estamos ocupadas, Anna. – Foi tudo o que a loira-platina disse, o que só contribuiu para que a ruiva apressasse o passo em direção ao Hospital Geral de Storybrooke.
Ao chegar lá, deparou-se com uma multidão de pessoas em volta do prédio, entre os quais reconheceu Jake, Simon, Jade, Rachel e Marina, aproximando-se deles com Miranda e Alicia em seu encalço.
– E aí? – A ruiva questionou, ansiosa por notícias.
– Já estão lá dentro há meia hora, mas ainda nem sinal. – Rachel respondeu enquanto ajudava Jade a se equilibrar, visto que a garota parecia bastante ansiosa e as muletas tendiam a não colaborar para que ela conseguisse se manter efetivamente de pé.
– Vai ficar tudo bem, Belle. – Miranda tentou confortar a menina, vendo o quão aflita a ruiva estava.
Annabelle não lhe deu muita atenção e continuou com sua visão centrada nas portas do hospital, aguardando que a qualquer momento Elsa e Mylena saíssem por estas, mas isso não aconteceu. Em vez disto, todos, inclusive ela mesma, se abaixaram ao som de um tiroteio que claramente vinha de dentro da construção.
Jake e Simon tiveram que segurar a ruiva, pois, caso contrário, ela com certeza teria corrido para dentro do hospital e ainda continuava a tentar fazê-lo, apesar das tentativas de Jade, Miranda, Alicia, Rachel e Marina de demovê-la da ideia.
Finalmente, depois de minutos agonizantes, o barulho cessou completamente. A tensão entre a população em volta do hospital era palpável e parecia que todos prendiam a respiração até que Mylena e Elsa saíram segurando uma desacordada Jennifer, que, apesar do barulho vindo de dentro do hospital, não parecia estar machucada. Elsa trazia o braço machucado fora da tipoia, que agora não estava mais com ela, e parecia que os pontos colocados nele havia se soltado. Mylena também não parecia em mal estado, trazendo apenas alguns poucos arranhões.
– Você vai precisar usar a tipoia por mais algum tempo. – Jade disse a Elsa assim que se aproximou das duas com Annabelle, Jake, Rachel, Miranda, Alicia, Simon e Marina em seu encalço.
– Nem me fale. – Elsa disse em meio a uma careta de dor.
Só se afastaram quando uma multidão de médicos se aproximou da Black mais velha, da Gold mais nova e da Snow, fazendo os devidos cuidados nelas antes que pudessem finalmente levar Jennifer à delegacia.
Ao longe, John assistia a tudo sem dizer uma única palavra. Não tinha nada a dizer, então apenas permaneceu quieto, observando tudo atentamente, como se esperasse ver algo que ainda não havia visto.
– OUAT –
Os dois estavam no chão, sem conseguir se mover. Jack estava por cima de Jonathan, apoiado na terra embaixo do menino com o braço com a qual não segurava a adaga que fincava no peito do mesmo.
Para sua surpresa, Jonathan começou a rir enquanto sangue saía de sua boca, dando a ele um aspecto de psicopata, que Jack sabia que ele era.
– Do que está rindo? – O mais velho perguntou, franzindo o cenho ao ver a expressão sorridente do rapaz.
– Parece que você fez um acordo que não entendeu. – Jonathan respondeu e mexeu um pouco o braço, fazendo Jack sentir uma dor aguda no estômago, só então notando que a espada de John o atravessava a barriga.
– O que...? – Jack não conseguia se mover. Agora que sabia o quão ferido estava, não podia deixar de imaginar a vida pouco a pouco se esvaindo de seu corpo ao cair de lado, ficando próximo ao menino que em nenhum momento se moveu para tirar a adaga que continuava fincada em seu peito.
– Toda a minha existência foi um fardo e eu estou vivo há quase mil anos. – John disse sem dar atenção a seus ferimentos ou ao estado em que se encontrava. – Por todo esse tempo, procurei alguém que pudesse tirar isso de mim, mas ninguém nunca foi capaz, até que o encontrei. – Riu ao ver a expressão confusa de Jack. – Os assassinatos que eu fazia nunca foram aleatórios. Eu sempre procurei alguém com chances de me matar e finalmente achei. – Tossiu sangue. – Qual é o seu nome? – Foi tudo o que Jonathan perguntou enquanto tossia mais uma quantidade considerável de sangue.
– Você sabe que é Jack. – O outro respondeu com desprezo. Conseguira ferir o menino mortalmente, mas ele havia feito o mesmo consigo.
– Seu... Nome completo. – Jonathan especificou raivoso, falando com uma dificuldade maior à medida que sentia perder sua consciência.
Jack pensou um pouco em meio à dor que sentia. Que mal faria dizer seu nome a ele, afinal de contas, ambos estavam à beira da morte. Não havia mais nada a ser feito, então disse as seguintes palavras com uma dificuldade palpável:
– Jack Skellington. – Tossiu um pouco de sangue.
Mais uma vez se surpreendeu com o riso de Jonathan ecoando por sua fazenda. Juntamente com o riso, mais sangue saiu da boca do rapaz, mas ele não parecia dar qualquer atenção ao fato.
– Não mais. – Jonathan finalmente falou ao parar de rir, mais ainda mantendo o sorriso maníaco nos lábios. – Agora é Jack O’Lantern. – Disse ao perceber que o outro não entendera o que ele lhe havia dito.
Jack não teve tempo de perguntar, pois os olhos de Jonathan voltaram à coloração laranja, juntamente com o cabelo que mais uma vez se tornou prateado, antes que as orbes vibrantes perdessem a cor até se tornarem cinzentas e sem vida.
Jack não pôde visualizar mais nada logo em seguida, pois tudo ficou escuro, como se ele perdesse a consciência. Porém, conseguiu sentir seu coração frenético parando de bater até que não mais pudesse senti-lo e respirar não se tornara mais tão necessário, fazendo-o abandonar a respiração rápida e entrecortada.
Depois de um tempo que ele não foi capaz de discernir, abriu os olhos e viu Peter o olhando com um medo que ele nunca havia visto em ninguém. Perguntou-se internamente se o garoto havia visto sua luta com o Senhor das Trevas.
– Jack, o que houve com seus olhos? – Foi o que o menino perguntou.
No momento, Jack não soube dizer, mas ao finalmente conseguir visualizar seu reflexo na espada ensanguentada que retirara de seu abdômen, viu que seus olhos estavam laranja-vibrantes, como os de Jonathan foram.
Foi então que percebeu que havia morrido.
Havia morrido e se tornado o novo Senhor das Trevas.
– OUAT –
Depois de serem liberadas do hospital e deixarem Jennifer numa cela na delegacia, Mylena e Elsa dirigiram-se diretamente à Lanchonete da Vovó, onde os outros as esperavam. Depois de falarem com todo mundo que apareceu para perguntar se estavam bem, finalmente se sentaram ao balcão e fizeram seus pedidos, sendo que Elsa pedira chá gelado e Mylena, uma xícara de café.
A loira-platina começou a discutir em tom baixo com a morena, que apenas ria enquanto a outra tentava demovê-la de seus princípios de não dormir. Só foram interrompidas pela chegada de Annabelle, que se sentou ao lado delas.
– Vocês enfrentaram a Jennifer. – A ruiva declarou com um sorriso de criança no rosto. – Foi incrível. – Disse, apesar de ter se mostrado bastante preocupada durante o tempo em que as duas permaneceram no hospital com Jennifer.
– O que ela fez foi ilegal. – Mylena deu de ombros enquanto tomava um gole de café, sorrindo torto para a ruiva.
– É o que os heróis fazem. – Annabelle sorriu. – Derrotam as pessoas que fazem coisas desse tipo. – Aproximou-se das duas e sussurrou num tom que só elas poderiam ouvir. – Eu não devia ter desistido da Operação Boneco de Neve.
Foram interrompidas pela chegada de Pitch Black no lugar. O prefeito imediatamente se dirigiu até onde elas estavam com uma expressão desinteressada.
– Sabia que as encontraria aqui. – Ele suspirou com tédio. – De qualquer forma, como prefeito, eu vim parabeniza-las pela captura da Senhorita Gold. – Deu de ombros sem se importar, mas logo sorriu com maldade para Elsa e Mylena. – Vocês não tem um grande amigo no Senhor Gold, meninas, mas saibam que, dependendo do que façam, ele consegue ser um excelente inimigo. – Alargou o sorriso. – Aproveitem isso. – Disse e saiu dali.
–
Tendo convencido Mylena a ir para casa com Annabelle, Elsa se dirigiu à Delegacia. Ao chegar lá, viu que Jennifer dormia tranquilamente na cela, então se sentou à sua mesa e pôs-se a ler alguns relatórios.
Quase pulou da cadeira ao ouvir alguém se aproximando e se virou em tempo de ver que era ninguém menos que John Gold.
– Sabia que eu estou armada? – A loira-platina arqueou uma sobrancelha, levando a mão que não se apoiava na tipoia ao coração numa tentativa de acalmá-lo, visto que ele batia rapidamente por causa do susto.
– Não foi minha intenção assustá-la, Senhorita Snow. – Gold sorriu falsamente e se encostou a uma das paredes da delegacia, olhando para Jennifer. – Vocês não a machucaram. – Suspirou. – Obrigada. – Disse, por fim.
Elsa se surpreendeu, mas terminou por assentir. Apesar de tudo, ainda havia uma pergunta que martelava em sua mente desde que Mylena dissera que fora ele quem fizera a denuncia.
– Por que você ajudou nisso? – Perguntou. – E não venha me dizer que foi por causa de uma promessa. Soou como uma meia-verdade, se quer minha opinião. – Ela disse ao perceber que ele poderia simplesmente dar a mesma resposta que dera no carro.
– Sei reconhecer um espírito desesperado. – Foi tudo o que ele disse e, com uma última olhada para onde Jennifer estava, deixou o local.
Elsa tinha sérias desconfianças em relação ao penhorista, mas não fez nada a respeito, pelo menos, não ainda. Muitas coisas ainda a aguardavam antes que conseguisse quebrar aquela Maldição e um inimigo a mais não era algo que ela podia se dar ao luxo de ter.
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