The New Royalty
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Continuei a andar em círculos como uma barata tonta. Roí minhas unhas até restar apenas a raiz. Estava sangrando como eu nunca tinha visto, mas eu não estava totalmente arrependida. Agora, eu tinha com o que desocupar minha cabeça enquanto esperava, sozinha no escritório, ou melhor, gabinete. Minhas criadas ficariam decepcionadas quando vissem o estrago em meus dedos. Eu também estava decepcionada. Elas, porque não teriam mais com o que trabalhar; eu, porque já não tinha mais o que roer.
Depois de uma tarde, noite, madrugada e manhã inteira pensando, decidi fazer o que era certo. Não era o mais fácil, tampouco o menos doloroso, mas era o correto. Precisava ser feito.
Assim que o dia se levantou, corri para arrumar os meus poucos pertences. Deixei de fora da mala tudo o que fazia parte de minha vida de rainha. Jóias caras nas quais nunca me incomodei em usar, vestidos longos de saia acentuada, sapatos como os da estória da Cinderela. Na mala, iam apenas algumas calças jeans que eu conseguira importunar criadas para que fizessem, as camisolas deliciosas nas quais eu não conseguia mais dormir sem, alguns poucos objetos de pouco valor e prendedores de cabelo para dias quentes. Eu não fazia a menor ideia de como estava o tempo e o clima do lado de fora do palácio. Parecia cálido, mas eu não tinha tanta certeza. O palácio era sempre muito bem arejado.
Não me incomodei em pôr roupas para longas estadias. Kenna poderia me emprestar algumas coisas caso eu precisasse. Se bem que eu devia vestir pelo menos dois números a mais que ela agora... Tsc, ela devia ter algo que fosse largo nela.
Depois de arrumar minhas malas com melancolia, fiquei parada em frente o gabinete de Maxon, lutando contra a parte de mim que me dizia para não entrar ali, desfazer minhas malas e voltar a vida que eu estava tendo. Por fim, essa parte de mim veio à nocaute e eu me forcei para dentro da sala. E ali estava eu, sozinha, esperando que alguma alma caridosa dissesse a Maxon que eu o esperava.
Justin não parava de entrar na sala para se certificar de que eu estava bem e que não precisava de nada. Estava nervosa com a conversa e, por Deus, eu comia horrores quando estava nervosa. Na mesa, estavam uma bandeja de chá gelado com bolinhos, torta e torradas com geleia. Eu já devia ter mordiscado metade quando Maxon finalmente deu o ar de sua graça. Tentei manter em minha memória o sorriso dele quando me viu para que fosse minha última lembrança dele quando chegasse em casa. Iria fazer meu cérebro anular qualquer imagem do surto de raiva que ele teria quando eu dissesse o que pretendia.
Ele pigarreou, levando a mão em punho cerrado à boca. Era agradável, e ao mesmo tempo exagerado seu excesso de boas maneiras.
– Disseram-me que queria me ver. — Disse, uma felicidade mascarada de indiferença em sua voz de veludo.
– Sim. — Respondi, respirando fundo — Quero conversar com você.
– Sente-se, então. — Indicou a poltrona mais próxima a mim enquanto fazia a volta em torno de sua mesa para sentar-se.
– Não, não é necessário. — Falei com pressa — Serei breve.
Ele me olhou com curiosidade, sem se preocupar com o excesso disso em seu olhar e soltou o encosto da poltrona que ele já ia puxar para se sentar. Dando a volta novamente para se aproximar de mim, assentiu com a cabeça para que eu começasse. Mas esse era justamente o problema. Eu não fazia a menor ideia de por onde começar.
Droga!, praguejei, Deveria ter ensaiado alguma coisa antes.
– Maxon, eu queria novamente me desculpar por minha conduta nas últimas semanas. Admito que falhei feio com você.
Ele deu de ombros e enfiou as mãos nos bolsos da calça.
– Não preci...
– Não, eu ainda não terminei. — Avisei, um tanto quanto áspera. Cruzei os braços sobre o peito e deixei que as palavras saíssem depressa — Eu gosto muto de você, Maxon e esse sentimento só cresce a cada dia que passa. Sinto-me mal quando digo ou faço algo que você acaba interpretando como se... como se eu estivesse voltando. A culpa é minha.
– Você não tem culpa de ter perdido as...
– Por favor, não me interrompa. — Pedi — A questão é, não quero mais magoar você porque, por mais que esse sentimento que tenho por você só cresça, não tenho certeza de que um dia ele se igualará ao que devo ter sentido ou ao que você sente por mim, e você não merece isso. Você merece alguém que te ame de verdade como eu nunca... como eu nunca...
– Como você nunca...? — Incentivou-me. Sua expressão já desmoronava aos poucos e precisei de bastante coragem para completar a frase.
– ...Como eu nunca poderei amar.
Ele respirou fundo e encarou os pés. Senti a estranha vontade de reconfortá-lo, de acabar com isso tudo, desistir da ideia de sair do palácio e passar o dia com ele, tentando lhe arrancar um sorriso. Podiam ter se passado apenas segundos depois do que eu lhe dissera, mas, apenas nesse curto período de tempo, meu coração já tinha sido esmagado diversas vezes até virar pó. Não queria que ele sofresse...
Então vá direto ao ponto logo!, ordenei-me.
– Tenho que ir embora. — Disse de uma vez.
Ele ergueu a cabeça para me olhar com injúria. Seus olhos me pediam uma explicação mais detalhada, mas eu não tinha certeza de se a conseguiria dar se mantivesse o olhar fixo no seu. Baixei minha cabeça e deixei que meus cabelos encobrissem meus olhos lacrimejantes.
– Eu não tenho outra escolha, não há outra opção. — Esclareci.
– É claro que há. Você pode ficar, America. Não pode ir embora assim...
– Eu preciso, Maxon. Não iria se não precisasse. — Levantei minha cabeça para que as lágrimas não pingassem, mas foi em vão. Ver seu rosto transfigurado pela dor era demais para que as lágrimas simplesmente ficassem presas ao meu globo ocular — Eu não posso me arriscar a te fazer sofrer mais do que já fiz. É a única forma de eu não lhe dar falsas esperanças...
– E Eadlyn? — Interrompeu-me. Só de pensar em abandonar minha filha por uns tempos sentia meu coração se partir ao meio — A abandonará também?
– É necess...
– Necessário? Necessário? Você não precisa fazer isso, não estou sofrendo. — Fungou -Você mesma já admitiu que gosta de mim... Por que não tentar? Por que não me dar uma chance para que eu lhe mostre que posso lhe fazer feliz?
– Será só por uns dias... — Acalmei-o, lutando para que mais lágrimas não se derramassem — Eu não vou deixar o palácio para sempre, não vou abandonar Eadlyn. Mas... Eu preciso pensar. É certo que voltarei para cá, mas não sei em qual condição. Não sei se voltarei disposta a tentar te amar, ou...
–O que? Voltar para cá sem nem sequer dar uma chance à nós? — Indignou-se. Em sua ação de desespero mais comum, esfregou as mãos nos cabelos outrora bem penteados e cerrou os olhos. Seus lábios se moviam, mas eu não conseguia ouvir o que ele murmurava. Talvez ele estivesse contando de um até dez para não perder a calma — Minha companhia é tão ruim assim para você optar por um... casamento de fachada?
– O que? Não. Não, não, não! — Exasperei, balançando as mãos como se isso o fizesse entender — Eu adoro você! Adoro sua companhia, adoro estar perto de você, mas... Não sei se posso ser sua esposa. Não tenho certeza de estar preparada para isso.
– Ah, fala sério, America! — Bradou, tirando as mãos dos cabelos com violência — Não quer dizer que me quer apenas como amigo, quer?
– Eu não sei. É para isso que preciso sair daqui, para pensar melhor sobre tudo isso. Preciso procurar dentro de mim algum indício de maturidade o suficiente para ser mãe, esposa e rainha! Eu... só estou pedindo um tempo.
Ele negou com a cabeça várias vezes, balançando-a de um lado para o outro com um sorriso sem humor no rosto. Qualquer um que o conhecesse veria que, por baixo de sua máscara de sarcasmo, ele estava destruído. Ele respirou fundo com certa dificuldade e apoiou-se na mesa, levando a mão ao rosto. Temi que ele estivesse passando mal e sofresse um ataque na minha frente, mas ele logo se recompôs e, com uma cartada final, apelou, correndo até ficar mais perto de mim, nossos rostos perto o suficiente para que eu sentisse sua respiração quente contra meu rosto.
– Sente isso? — Indagou, trazendo minha mão para seu peito. Seu coração estava tão acelerado que me perguntei como ele não estava saltando para fora — Cada batida do meu coração tem o seu nome.
Suspirei. Espanei para longe de sua testa uma mecha de seus cabelos loiros e segurei seu rosto entre minhas mãos com delicadeza.
– Amo você, o.k.? Eu realmente amo você! — Pronunciei cada palavra como se fosse a última e me senti estranhamente aliviada em perceber que meu coração não rejeitara o que eu dizia como fazia quando eu mentia. Porque não era uma mentira. Eu o amava — Mas ainda preciso descobrir de que forma.
Ele assentiu com a cabeça, dando-se por vencido e beijou minha testa quando soltei seu rosto. Suspirei quando seus lábios quentes deixaram minha pele e tentei sorrir. Ele me imitou. Éramos tão péssimos atores, fingindo certa felicidade.
– Talvez as batidas do meu coração também tenham seu nome. — Murmurei, abraçando-o. Ele me envolveu como um casulo e me apertou o máximo que pôde sem me machucar. Eu sentiria falta desse seu conforto.
Levantei minha cabeça para olhá-lo e fixei-me em seus olhos. Eram opacas, mas incontestavelmente lindos, ainda assim. Desci por seu nariz bem feito e afilado e estacionei em sua boca de lábios cheios. Com um simples movimento, ficando meio na ponta dos pés, uni nossos lábios com calma. Esse gosto... Eu queria mantê-lo comigo enquanto estivesse em casa. Talvez eu já soubesse a resposta, talvez eu já tivesse noção do que eu escolheria, afinal. Mas, no momento, eu escolheria à mim.
Segui para o meu quarto depois disso, deixando para trás um Maxon desolado com um falso sorriso no rosto. Não me limitei nem a sequer olhar para ele enquanto deixava o escritório; eu não queria sentir mais culpa ainda. Então, tratei de enxugar minhas lágrimas logo e terminar de arrumar minha bolsa de mão porque, apesar de eu não precisar de muito do que eu tinha no palácio, seria bom levar umas coisinhas para me lembrar desse lugar, para ter certeza de que nada disso foi um sonho.
Anastasia, Mary e Allye estavam arrasadas, completamente destruídas com minha decisão de passar uma curta temporada em casa, mas tentaram manter um sorriso nos lábios. Exceto Allye, que chorou e implorou para que eu ficasse, despedaçando meu coração mais ainda. Mary desejou-me sorte com meus pensamentos e, quando me abraçou, não só flashes voltaram, como minhas memórias sobre ela também. Lembrava-me muito bem dela tentando consolar Lucy durante ataques rebeldes e dos vestidos impecáveis que ela me preparava, mesmo depois de meu casamento. Senti um buraco em meu peito ao relembrar Anne e em como eu sentia falta de sua... rabugentisse. E de Lucy também, da forma meiga e carinhosa na qual ela me tratava.
Também lembrei-me de Allye e Anastasia, sempre dispostas a me ajudar no que eu precisasse. Anastasia sempre calada, mas era no seu silêncio que eu encontrava apoio. Éramos boas nisso, em nos comunicar sem pronunciar uma sílaba sequer. E, apesar de ser quase sempre a mais afastada e às vezes recatada de todas, gostava verdadeiramente dela. Já Allye era aquela figura que eu tão bem conhecia. Brincalhona, extrovertida, que não se importava com a opinião dos outros e que não tinha medo de ser ela mesma. Eu a admirava por sua coragem e, diferentemente de Anastasia, mas ao mesmo tempo de forma igual, gostava de estar com ela. Poucas pessoas conseguiam arrancar-me risadas em dias de mau humor ou de me fazer conversar por horas e horas sem nem perceber a passagem do tempo.
Mas apenas isso. Nenhuma outra lembrança. Nada sobre casamento, gravidez e... Maxon.
– Está tudo bem, senhorita? — Mary perguntou, soltando-se de seus braços.
Sorri como se meus maiores desejos tivessem sido, enfim, realizados. E, na verdade, foram.
– Eu me lembro. — Pronunciei com veemência como se dizer isso com força o suficiente o tornasse mais real. Busquei ter acesso à essas memórias novamente e, para minha felicidade maior, consegui. Elas estavam ali para quando eu bem quisesse revivê-las — Lembro-me de vocês!
– Oh, meu Deus, que maravilha! — Allye correu, atirando o lencinho com que enxugava as lágrimas para longe. Fiquei satisfeita em ver que a tinha feito abandonar as lágrimas. Ela me abraçou e pulou, agarrada a mim, gritando sem parar em meu ouvido — Oh, meu Deus, oh, meu Deus! Você se lembra! Você se lembra de mim! Se lembra de nós!
– Sim, eu lembro. — Ri, pulando junto com ela.
Mary e Anastasia nos envolveram em um abraço coletivo e gritaram mais um pouco com a mais genuína felicidade. Até mesmo Anastasia, com toda a sua quietude, se deixou levar pelas emoções por um tempo.
– Majestade? — Justin perguntou, interrompendo nossos festejos — Suas malas já estão no carro.
– Tudo bem, Justin. Obrigada, já estou descendo. — Agradeci. Ele me reverenciou brevemente e fechou a porta.
– Pense bem, senhorita America. Ainda há tempo de desistir. — Anastasia me aconselhou.
– É, senhorita, fique. Desfazemos suas malas em minutos e você pode ir agora mesmo comunicar sua estadia para sempre no palácio ao rei. Oh, ele ficaria tão feliz...
– Desculpe, All, mas minha decisão está tomada. E, além do mais serão apenas por uns dias, talvez umas semanas. Voltarei logo para cá, desta vez, com a cabeça mais fresca. — Expliquei e senti a estranha sensação de dizer isso mais para eu aceitar do que para Allye entender.
– Se isso fará a senhorita feliz... — Mary disse, segurando seu vestido para me reverenciar. As outras duas a imitaram também, me deixando em um círculo de reverências. Senti-me uma boba naquela situação — ... Então nos fará feliz também.
Com mais um abraço, minhas criadas mais adoráveis fizeram questão de me acompanhar até o Grande Salão. Eadlyn me esperava ali, em seu vestidinho rosa digno de uma verdadeira princesa. Jenna, a babá de cabelos curtos e pintados de um laranja que já estava desbotando, entregou-a a mim. Larguei minha bolsa de mão no chão, sem me importar com o que havia dentro, e segurei a parte do meu coração que pulsava fora de mim. Já haviam mais tufos de cabelos acobreados em sua cabeça e seus olhos se pareciam a cada dia mais com os do pai. Ela tremulou a boca, fazendo um biquinho que implorava para um aperto em suas bochechas e ensaiou algumas palavras. Era apenas um grunhidinho à todas as outras pessoas que a ouviam, mas era o som mais doce aos meus ouvidos para mim. Era um mamãe fraco e mal pronunciado, mas ainda assim, as palavrinhas mais bonitas que eu já ouvira.
– Sim, é a mamãe. — Funguei, os olhos marejados — Mamãe precisará sair por uns dias, mas voltará logo, tudo bem? Até lá, você ficará com titia Jenna e titia Less. E, por favor, prometa-me que não as deixará descabeladas e com cabelos brancos antes da hora.
Ela sorriu com sua boca banguela, fazendo minhas bochechas se acentuarem e os olhos de Maxon se apertarem. Era incrível como ela era a mistura perfeita de nós dois. Eu ainda não conseguia acreditar.
– Ficará tudo bem com ela. — Less assegurou, suspirando, cansada. Não pude deixar de notar as olheiras sob seus olhos.
– Sei que sim. — Respondi, entregando uma Eadlyn contrariada à Jenna.
– Não, é sério. Não do tipo "Ela ficará bem porque somos demais", quer dizer... É, é por isso sim. — Brincou.
Com um beijinho na testa de minha pequena Eadlyn e lágrimas nos olhos, deixei o Grande Salão, Allye me entregando minha bolsa que eu já estava por esquecer. "Cuide-se", ela disse com uma maturidade assustadora na voz, beijando a palma da mão e a soprando. Imitei-a.
Os jardins estavam tempestuosos hoje. O céu parecia escuro, um azul parecido com o de fim de tarde. As flores estavam fechadas, ocultando a cor bela de seu interior, e a grama parecia opaca e sem brilho com a ausência notável do sol. Andei até o carro estacionado na pequena estradinha nos jardins, um chofer abrindo a porta traseira para que eu pudesse entrar. Todos que importavam no palácio estavam lá, despedindo-se de mim, mostrando que se importavam comigo não por eu ser, legalmente, sua patroa. Não por eu ser a rainha, e sim porque eu fazia a diferença para eles. Mas a pessoa que mais importava não estava ali. Justin, Allye, Mary, Anastasia, Jenna, Less... Todos ali, exceto Maxon.
Mas, mesmo que não tão perto de mim, ele estava vendo minha partida. De longe, da sacada de seu quarto. Eu não podia ver sua face por causa da distância, mas podia facilmente identificar sua mão balançando numa saudação de despedida. Fiz o mesmo para ele, por mais que tivesse a certeza que ele não veria. Ele pareceu lutar contra si para ver se deveria descer ou não para os jardins, mas não havia mais tempo. O chofer já estava no comando do carro, deixando todos para trás. Acenei uma última vez e fechei os vidros do carro para que assim pudesse me encolher no banco sem ninguém ver minha ação desesperada.
– Vossa Majestade prefere que eu acione a divisória? — O chofer perguntou, olhando-me pelo espelhinho do carro. Assenti com a cabeça, temendo que soluços denunciassem-me caso eu tentasse falar. Ele apertou um botãozinho e uma divisória subiu, uma parede separando-me dele. Agora, eu podia chorar sem ser vista, como tanto queria.
***
Minha mãe entrou no quarto novamente para se certificar de se eu estava bem. Forcei um sorriso, mas isso não a convenceu. Dona Magda era uma pecinha difícil de enganar. Sentando-se na beirada da cama, ela perguntou:
– O que está havendo?
Respirei fundo. Eram tantas coisas, tantos sentimentos, tantas dúvidas que eu demoraria um dia inteiro para falar tudo. Ela acariciou meus cabelos e eu deitei minha cabeça em seu colo. Talvez isso fosse tudo o que eu precisava: Colinho de mãe. Sentir-me, provavelmente pela última vez, como a garotinha sem responsabilidades que eu gostaria de voltar a ser.
– Alguém lhe persuadiu a vir para cá? Ou você se chateou com algo no palácio? — Indagou, afagando-me, tirando meus cabelos dos olhos. Agarrei-me mais a sua perna e escondi meu rosto em seu joelho.
– Eu não consigo, mãe. — Confessei com amargura — Não consigo ser quem todos pensam que eu sou. Não consigo compreender a mim mesma, que dirá compreender a uma... a uma criança. Pior, à minha filha! Não sei se sou capaz de me acordar todos os dias ao lado de Maxon e saber que nunca poderei corresponder o seu olhar perdidamente apaixonado. Não sei se posso ser uma rainha, se aguentarei o peso de uma coroa na cabeça e de um país nas costas. Estou sobrecarregada, mamãe, e os jogos reais ainda nem começaram.
Ela passou um tempo em silêncio, absorvendo cada sílaba minha, procurando por algo que pudesse me ajudar a passar por toda essa loucura. Ela suspirou com dificuldade.
– Sabe, quando tenho problemas difíceis de resolver, eu procuro saber primeiro quais são as minhas opções, minhas alternativas. E, bem, isso sempre ajuda. É um começo. — Ela começou a trançar meu cabelo como só ela conseguia fazer e, só quando já estava na metade, completou: — Quais suas opções?
– Minhas opções? Eu, bem, ah... Não sei.
– Ah, é claro que sabe. Se não soubesse, não estaria nesse dilema. "Ser ou não ser mãe. Ser ou não ser esposa. Ser ou não ser rainha..." — Imitou-me teatralmente, deixando um pouco meus cabelos para gesticular com as mãos — Sei que você sabe suas opções. Talvez eu possa lhe ajudar, meu bem.
Suspirei, exausta. Eu vinha revendo minhas opções desde que chegara em casa, desde que havia, enfim, tirado meu corpo fora daquele palácio cercado de ímãs que me levavam diretamente ao que todos queriam: Maxon. Mamãe estava certa; eu tinha escolhas a fazer, decisões a tomar e, seja lá o que eu escolhesse, mudaria radicalmente minha vida. Eu deveria pensar com cautela, decidir apenas quando estivesse verdadeiramente pronta, mas eu não tinha todo o tempo do mundo. Eadlyn estava me esperando no palácio, uma vida na qual eu não me lembrava me aguardava. Eu diria sim a essa vida, claro. Mas pelo quê? Por Eadlyn, unicamente por minha filha? Ou por mim? Por Maxon?
– É certo que voltarei para o palácio. Tenho uma filha, preciso arcar com as consequências dos meus atos e, além do mais, nem que eu quisesse poderia deixá-la. Eu a amo como nunca esperei amar alguém. — Comecei, comendo pelas bordas . Mamãe balançou a cabeça afirmativamente, incentivando-me a continuar — Eu voltarei para lá. Mas eu não sei ainda pelo quê.
– O que quer dizer, querida?
– Não sei se voltarei disposta a dar uma chance a Maxon, ou se apenas cumprirei meu papel de mãe. — Mordi o lábio inferior, apreensiva. Minha mãe explodiu.
– O que? Como assim? Você não pode fazer isso! Precisa dar uma chance a Maxon! Vocês se amam...
– A antiga America o amava. — Corrigi-a — Não sei se esta aqui sente o mesmo.
– O que? Isso é ridículo, America! — Trovejou, levantando minha cabeça para se pôr de pé num salto, suas orelhas vermelhas de raiva — Será muita burrice sua fazer isso.
– Mãe, por favor. — Implorei, abraçando o travesseiro, incapaz de olhá-la — Eu vim para cá para me livrar de toda essa pressão, da pressão que as pessoas no palácio me fazem. E olhe só o que você está fazendo! Está agindo como eles!
– Quer saber? Pense um pouco sobre tudo isso, sobre a grande burrada que estará fazendo se optar por deixar Maxon. Pense. Sozinha.
Ela saiu, fechando a porta com violência. Cerrei os olhos, tentando esquecer a cena que acabara de acontecer. Ótimo, agora nem em casa eu tinha paz. Será que eu precisaria mudar de país para poder pensar por mim mesma, sem pressão nem influência de ninguém? Porque se fosse, sinto muito, mas teria que desempoeirar meu passaporte e zarpar para bem longe daqui.
Ouvi o barulho de vozes do lado de fora, como se alguém estivesse brigando. Por mais que eu não entendesse o que falavam, tinha absoluta certeza de que era sobre mim. Provavelmente Kenna, minha fiel defensora...
– Será que pode, pelo menos uma vez, pensar nela? Em como é difícil para ela? — Kenna falou com rispidez — Fala sério, a senhora é inacreditável. James, fica com Astra por um instante.
Com duas batidas na porta, Kenna pôs sua cabeça para dentro, seus cabelos ruivos cacheados caindo como cascatas de fogo de sua cabeça. Ela sorria, tentando encobrir a desavença com mamãe.
– Toc toc. — Disse, entrando no quarto e jogando para mim algumas calças jeans suas. Só de sentir a textura daquilo eu já sentia como se tivesse valido à pena vir para casa, apesar dos pesares — Precisa de ajuda, sei lá, alguma coisa?
– Não, obrigada. — Agradeci, escolhendo os jeans que usaria.
Ela suspirou e pôs as mãos nos bolsos.
– Olha, não pude deixar de ouvir sua, ah, discussão com a mamãe. E, a julgar pela lágrima na sua bochecha, eu diria que você precisa de ajuda, sim.
Sorri para minha irmã boba que adorava fazer rodeios em conversas. Ela prendeu os cabelos, fazendo um coque no topo da cabeça e enfiando um lápis de minha escrivaninha nele, e deitou-se na cama ao meu lado. Juntas, apenas fitamos o teto do quarto, repleto daqueles adesivos de estrelas que brilham no escuro.
– Já conseguiu se lembra de alguma coisa? — Indagou depois de um tempo, ainda fitando nosso céu particular.
– Pouca coisa. Uns flashes do meu casamento, o velório de papai, minhas criadas... Mas nada que componha algo super-hiper-mega importante.
– Sei. — Respondeu — O que podemos fazer para ajudá-la?
– Não sei. Aparentemente, só eu posso fazer isso.
– Que droga. — Praguejou.
– Pois é. — Concordei.
Ela roeu um pouco as unhas, arrancando as cutículas quase até sangrar, mas sem deixar de observar as nossas estrelas. Havia algo encantador nelas, é claro. Eram estrelas! Estrelas em meu teto! Mas nada que justificasse tamanha adoração de Kenna por elas. Ela sorriu depois de um tempo.
– É bonito, não é?
– Do que está falando?
– Dessas estrelas.
– Ah, sim, são. — Não acredito que estávamos falando sobre estrelas fluorescentes de plástico.
– É ainda mais bonito a noite. — Explicou. Encarei-a com injúria. Ela estava ficando mesmo louca? — Faz-me pensar em uma, hm... Metáfora.
– Desde quando gosta de metáforas? — Questionei, rindo.
– Ah, cale a boca. Observe: Assim como essas estrelas, que ficam mais bonitas à noite, há certas coisas que só chamam a atenção na escuridão.
– O que quer dizer com isso? — Perguntei, curiosa com todo o seu mistério. Apoie-me em meu cotovelo para que meus dois ouvidos pudessem captar sua explicação.
– Quero dizer que, às vezes, são nos momentos mais sombrios, mais difíceis que encontramos a luz.
– Continuou sem saber o que diabos quer dizer com isso. — Estressei-me — Por favor, Kenna, fale minha língua.
Ela riu e finalmente olhou para mim. De todos os irmãos, ela era a mais diferente. Não digo diferente referindo-me à sua aparência porque nisso nós, Singers, éramos todos iguais. Dizia isso sobre sua essência. Ela era distinta de mim com sua calmaria, distinta de May com sua perspicácia, distinta de Kota por sua mania de singeleza, distinta de Gerard por seus pés nos chãos... No fundo do fundo, todos nós éramos iguais. Eu tinha um pouco da mania de gostar de estar por cima como Kota, May tinha meu espírito decidido, Gerard tinha um pouco da curiosidade de May... Mas Kenna era diferente. Enquanto todos éramos elétricos à nossa maneira, ela era a calmaria que permitia que nossa família não se desestruturasse após a morte de papai. Ela era a consolidação de nossa família, era o que conseguia nos manter unidos, sem brigas — Pelo menos de três em três dias.
Ela suspirou.
– Maxon.
– O que tem ele? — Questionei.
– É nesse ponto que quero chegar. — Esclareceu. Respirei fundo e me joguei na cama novamente.
– Posso resolver meus problemas sozinha, muito bem, obrigada. — Disse, áspera.
Ela levantou os braços como um sinal de paz.
– Ei, não sou a mamãe. Não vim aqui para encher sua cabeça de cobranças. — Replicou.
Bufei. Eu não podia dar patada assim, em todo o mundo.
– Me desculpe, mas já estou cheia disso. Cheia de as pessoas querendo me dizer o que fazer com a minha vida. Querendo me empurrar para o rei, querendo que eu assuma as responsabilidades de governar um país, que eu seja a melhor mãe do mundo... Estou farta disso, e o motivo para eu ter vindo para cá foi justamente fugir de tudo isso. Então, por favor, deixe-me pensar sozinha.
Ela se pôs sentada, cruzando as pernas. Tentei fugir de seu olhar, mas percebi que quanto mais eu fizesse isso mais ela demoraria para dizer o que queria. O.k., eu cederia meu tempo por um pouco de paz depois.
– Se isso foi uma deixa para eu ir embora, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. — Amolou, sua expressão tão séria quanto eu jamais havia visto — Deixe de criancice, America, e assuma seus sentimentos.
Sentei-me também, ajeitando — Na medida do possível — a juba que era meu cabelo secando por si só.
– Do que diabos está falando?
– O que estou falando é o que eu vejo. Tem noção do que está fazendo? Tem noção de que pode estar jogando a sua chance de ser feliz no lixo?
– Não sei do que está falando...
– Ah, sabe. Sabe, sim! Sabe que estou falando de Maxon e de como você tem se comportado como uma criança imatura desde que se acordou do coma. Sei que deve ser difícil se acordar e ver que você não sabe quem são as pessoas ao seu redor, que você desconhece o seu passado...
– Não você não sabe. — Murmurei. Ela prosseguiu, fingindo não ter me ouvido.
– Você o ama, America. O que está esperando? Um convite formal? Por que raios você não se permite isso? Não se permite ser feliz...?
Fitei meus joelhos, meus cabelos como uma cortina alaranjada sobre meus olhos. Kenna achava que era fácil assim abrir os olhos e perceber que sua realidade mudou do dia para a noite? Achava que era simples fazer sentimentos florescerem por uma pessoa que mal se conhece? Eu não era assim. Meus sorrisos não eram arrancados por qualquer um, meus olhos não brilhavam por uma simples pessoa. Eu não me apaixonava facilmente.
Entretanto, tudo isso acontecia com Maxon. Sorrisos, olhares... Eu estava envolvida, é claro. Eu realmente — Realmente! — gostava de Maxon, talvez até estivesse apaixonada. Mas eu não sabia pelo quê: Se pelo fato de ele ser o pai da minha filha; se pelo fato de as pessoas quererem isso e manipularem minha mente; ou se apenas por ele. Por ele ser quem ele é, por ele ser a pessoa indescritivelmente incrível que é.
Kenna suspirou, prevendo que nenhuma resposta sairia de minha boca e gesticulou com as mãos.
– America, preste atenção aos detalhes. Preste atenção às coisas simples...
– Kenna, não posso. Será que não entende? — Cortei-a — Eu posso estar entrando em um beco sem saída, e pior, levando os sentimentos de Maxon comigo. Já imaginou como ele ficaria se eu alimentasse esperanças nele e, do nada, dissesse que não o amava e que não podíamos ficar juntos? Ele ficaria arrasado!
– Então esse é o seu medo? — Kenna sorriu e levou as mãos juntas ao coração — Tem medo de sentir culpa? Medo de Maxon se machucar?
– Finalmente alguém me entendeu.
Ela respirou fundo, como se estivesse apaixonada. Ergui as sobrancelhas.
– O que foi?
Kenna estendeu seu braço até meu joelho e o apertou.
– Ames, isso é amor. Você tem medo de magoá-lo, teme feri-lo. Quer motivo maior do que preocupar-se com alguém para deduzir que você o ama?
– Kenna...
– Não me interrompa. — Ordenou. Calei-me — America, pense: fora a culpa que você sente quando o faz sentir esperança, fora o medo que você tem quando vocês se beijam porque, sim, imagino que você não tenha resistido à um beijo. Pense que, fora tudo isso, todos esses sentimentos ruins que mascaram a verdadeira beleza do que vocês fazem, o que você sente?
Fechei os olhos. Eu não era dotada de dedos o suficiente para contar neles todas as vezes em que me senti culpada por dar a ele falsas expectativas, nem em todas as vezes em que meu coração doeu por eu fazer algo que cortasse suas asas esperançosas. Muito menos em todas as vezes em que me envergonhei com o amor profundo que eu via refletido em seus olhos por mim. Mas eu podia contar nos dedos as vezes em que deixei que o medo e a culpa ficassem no canto, esquecidos, abandonados.
Na vez em que Maxon e eu nos beijamos, após termos "cavalgado", senti a estranha sensação de estar completa, como se com ele nada me faltasse. E, quando eu retribuí seu beijo, permitindo que tudo de ruim em mim se dissipasse, o êxtase só aumentou. Eu não saberia descrever a sensação; era como se fogo em brasa queimasse dentro de mim, começando de meu estômago abarrotado de borboletas e se espalhando por todo o meu corpo. Mas era um fogo bom. Valia à pena ser queimada por aquele fogo. Aquele fogo que algo dentro de mim sabia dizer que era desejo.
Da mesma forma foi quando ele aceitou dormir comigo. Senti-me protegida, plena. Deixei que minha mente se ferrasse e permiti que meu coração me dominasse por aquela noite. Foi incrível. E, por mais estranho que isso soe, o mundo parecia ser cor-de-rosa.
Fora as vezes em que me fizeram sentir isso, fora as vezes em que mascarei isso por medo e culpa, fora as vezes em que deixei que minha mente dominasse meu coração, eu o amei. O amei, muito provavelmente, como ele me amou.
– Acho que... Acho que ainda precisa ser aperfeiçoado. — Disse, pensativa. Mas isso seria fácil. Amá-lo era fácil.
Amá-lo... Isso soava bom para mim.
Ela deu uma gargalhada estridente, feliz.
– Espere até você experimentar mais do que beijos, querida...
Corei violentamente, meu rosto ficando tão quente que tive que levar minhas mãos as bochechas para ter certeza de que não estava pegando fogo.
– É... aham. — Assenti. O que mais eu poderia dizer?
– Ah, qual é, America? Para quê essa vergonha toda? Não estou aqui como sua irmão mais velha. Estou aqui como sua amiga. — Disse, dando duas batidinhas em minha perna. Assenti novamente — Você quer ficar sozinha? Posso trazer seu almoço para cá se não quiser socializar com a família...
– Não, eu vou. — Respondi, já me pondo de pé e calçando meus chinelos — Só preciso trocar esse vestido.
Ela riu.
– Tudo bem. — Concordou, se direcionando à porta, uma expressão de dever cumprido dominando seu rosto fino e sardento — E, ah! Kota virá almoçar conosco hoje, já que você está aqui. Ele e a namorada. Você já a conhecia, mas...
– O.k. .
Ela saiu do quarto e eu me joguei na cama. Tudo estava tao confuso e embaçado em minha cabeça, como se mesmo os nós desatados não servissem tanto para tirar-me metade dessa angústia. E eu sabia o por quê disso. Pensar era mais fácil do que falar, na prática. Eu precisava voltar, encontrar Maxon e confessar meus verdadeiros sentimentos por ele.
Mas talvez eu não devesse fazer isso agora.
Não conseguia esquecer a cena de Maxon arrasado com a minha partida, sua breve olhadela para mim na sacada, a tristeza e a opacidade de seus olhos... Eu vira para a casa de minha mãe com o intuito de pensar melhor e de, ao mesmo tempo, manter minha cabeça livre de preocupações por um tempo, e talvez Maxon estivesse fazendo isso também. Da mesma forma que eu precisava do meu tempo, ele devia precisar do dele. Era certo que, quanto mais tempo eu me demorasse aqui, mais tempo Maxon estaria deprimido, mas era necessário. Eu precisava ter plena certeza do meu amor por ele, precisava estar segura de que eu poderia retribuir os sentimentos que ele tinha por mim da mesma maneira.
Eu já havia dado um passo e tanto hoje. Eu finalmente descobrira o que era amar.
O almoço fora tão divertido quanto eu conseguia me lembrar. Mamãe e eu fingimos que nada havia acontecido no quarto e Kenna fazia vista grossa quanto à isso. May, como sempre, tagarelava sobre como adoraria que as férias chegassem logo, que não aguentava mais a professora de inglês e que haviam duas garotas em sua turma que a aborreciam constantemente. Gerard conversou um pouco com James sobre futebol e Astra fez uma verdadeira bagunça com sua comida, melando-se toda, até os tufos lisos de cabelo. Kota e sua namorada, Nicoletta que, pelo o que entendi, era a princesa da Itália, estavam em perfeita sintonia. Jamais vira meu irmão tão feliz, e por que não completo como hoje. Os dois eram como ímãs, se atraiam a todo momento. Senti-me verdadeiramente feliz por Kota. Lembrava-me de ele ser um idiota, babaca, imbecil, estúpido... Mas ele parecia diferente agora. E eu estava adorando essa nova versão de Kota Singer.
Refeições como essas se repetiram nos dias que se passaram. A casa estava sempre cheia, com muita conversa e risadas. Era bom estar em casa, no ambiente que eu me lembrava por ser meu lar, mas eu não podia mentir: sentia saudades do palácio. Quem diria que eu sentiria saudade daquela jaula luxuosa, daquelas pessoas sempre me tratando como uma deusa soberana e das minhas criadas que tanto me faziam rir. Mas eu evitava pensar nisso. Doía em meu peito pensar em Eadlyn, em Maxon ou em qualquer outra coisa ou pessoa que eu tenha me apegado enquanto estava lá.
Os dias foram se passando sem que eu percebesse. Com um piscar de olhos, a segunda quinzena de agosto já estava acabando, o outono já batendo à porta, preparando-nos para o que devia ser um rigoroso inverno. Minha família parecia perceber, entretanto, o tempo passar e faziam o possível para aproveitá-lo da melhor maneira possível comigo. Piqueniques com Astra, May e Gerard e conversas aleatórias enquanto lavávamos e enxugávamos as louças eram sempre frequentes. Estava feliz em casa, no meu lar, rodeada da minha família que eu tanto amava, apesar dos pesares.
Mas seria uma mentira deslavada dizer que não havia um buraco em meu peito. A saudade me corroía lenta e dolorosamente, levando meu bom humor e trazendo meu nervosismo aos poucos. Em breve, meu tempo acabaria e eu voltaria para o palácio. Daria uma chance à Maxon, reconstruiria minha vida e iniciaria minha rotina. Talvez eu conseguisse alcançar a felicidade, depois de me acostumar a tudo aquilo.
Mas, por enquanto, eu precisava de mais tempo.
– Ames? — May chamou, batendo educadamente à porta.
– Pode entrar. — Endireitei-me na cama e fechei o livro. May entrou, toda sorridente, quicando no chão com os cabelos esvoaçando.
– Você tem visita. — Cantou.
Ergui as sobrancelhas. Fora minha família, não havia ninguém que tivesse o interesse de me visitar.
– Quem é?
– Justin.
– Justin, o mordomo? — Voltei a indagar, já de pé.
– Sim. — Disse e me puxou pela mão, fazendo-me cruzar a casa aos tropeços na correria. Com uma freada brusca, ela me deixou na sala de estar. Realmente era Justin ali.
– Majestade. — Reverenciou-me.
– Olá, Justin.
– Sentimos sua falta no palácio. — Confidencializou. Sorri de suas bochechas coradas de vergonha.
– Igualmente. — Respondi e enfiei as mãos nos bolsos da calça — Mas estou certa em dizer que não veio aqui apenas para uma visitinha de rotina, não é?
– Ah, sim, sim. Está corretíssima. — Ele pegou uma bolsa para violino de sobre o sofá e a estendeu a mim. Apanhei-a, desentendida — Sua Majestade, Rei Maxon, me mandou para cá para trazer-lhe isso. Ele achou que fosse lhe fazer falta.
– Ah, sim, obrigada. — Encarei a bolsa. Era apenas um violino, Maxon não precisava ter se preocupado tanto assim.
– Não há de quê. — Voltou a me reverenciar — E, Vossa Majestade, não querendo ser muito invasivo, mas... Quando pretende voltar ao palácio?
A forma como as palavras saíram sem nenhum tropeço, rápida e clara me fazia pensar que ele vinha ensaiando isso há séculos.
Ou tivera sido instruído à isso.
– Ainda não sei. — Dei de ombros, tentando não me aprofundar muito no assunto. — Mas não demorarei. Pode dizer a Maxon que voltarei assim que as coisas, ah, se acertarem.
– Perfeitamente, Majestade.
Com uma breve despedida e uma terceira reverência, ele se foi e eu não podia deixar de observar as gotículas de suor que pingavam de sua nuca enquanto ele andava para o carro. Nervoso.
Fechei a porta quando o carro sumiu no horizonte e encostei-me à ela. Se eu estivesse certa e Maxon tivesse me mandado esse violino apenas como desculpa para saber notícias minhas, queria dizer que ele não estava mais tão chateado por eu ter deixado o palácio. Embora, se estivesse realmente tudo bem, ele pessoalmente viria. Conhecia Maxon há pouco tempo, mas era como se fossem anos e mais anos. Sabia que um simples violino não era motivo para mandar um mordomo atrás de mim, e também sabia que saber como eu estava pessoalmente era um ótimo. Suspirei. Talvez as coisas se saíssem mais fáceis do que eu imaginava.
Ou talvez não. Eu ainda tinha um longo caminho a percorrer.
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