The New Royalty
31 Capítulo 31
Notas iniciais
– A senhorita tem certeza de que não está com fome? Eu posso mandar preparar um lanchinho. — Allye disse, sentando-se na beira da cama. Neguei com a cabeça, agarrada ao travesseiro. Ela suspirou com pesar e passou sua mão leve em meus pés, iniciando uma massagem. Não pude dizer não à esse toque tão relaxante — A senhorita não está comendo muito bem desde ontem. Se continuar assim ficará doente.
Mary entrou no quarto, carregando uma bandeja de prata e caminhando lentamente até mim. Seus olhos me advertiam de que eu comeria todo aquele banquete por bem ou por mal. Revirei os olhos e, da mesma forma como ela entrou no quarto — Calada — , saiu. Allye continuou sua massagem em meus pés doloridos por pelo menos dez minutos, parando de vez em quando para certificar-se de eu estar acordada. Dei algumas garfadas na torta que Mary havia trazido, sem ânimo, mas não levei nenhuma à boca. Eu sabia que a comida não iria me descer e que seria muito pior se eu tivesse que vomitar mais tarde. Entretanto, eu não podia dizer que não estava com fome.
Desde a tarde anterior, quando uma série de acontecimentos improváveis uniram meus lábios aos de Maxon, eu me isolara em meu quarto. Em parte, por vergonha. Eu não era assim, não saía beijando o primeiro homem que eu visse pela frente. Essa característica não me pertencia. Evitei o jantar na sala de jantar e o café-da-manhã e o almoço de hoje. Pensar em ver Maxon à minha frente novamente — Porque, sim, ele esteve na sala de jantar durante todas as refeições, coisa que ele não fazia ultimamente — fazia meu estômago embrulhar — E algo dentro de mim tremer. Mas, diferentemente do que eu esperava, era uma tremedeira boa. Evitava pensar em Maxon, mas às vezes pensava apenas para sentir esse palpitar dentro de mim.
O beijo fora uma ação impensada, eu jamais teria feito isso se estivesse em sã consciência. E o pior de tudo é que eu tive a chance de não fazer isso, de desviar o rosto, de não correspondê-lo, mas eu não o fiz. Eu me deixei levar por uma palavra que não gosto nem de pensar: Carência.
Eram deveres demais, pressão demais, eu estava sufocada, sendo afogada em meus próprios pensamentos e escolhas. Todos dentro e fora do palácio torciam por Maxon, para que ele me reconquistasse. Mas e eu? Eu não tinha o direito de escolha? Eu deveria fazer o que era julgado certo e melhor para o país, ou deveria ouvir meu coração e deixá-lo me guiar para o meu destino real? E o que raios meu coração queria, que lado dele eu deveria ouvir? Todos falam que seguir seu coração é a melhor coisa a se fazer em momentos como estes, mas e se seu coração estiver partido em mil pedaços? Qual deles eu devo seguir?
As notícias corriam soltas pelo palácio. Algum guarda ou mordomo deve ter entrado em meu quarto enquanto Maxon e eu dormíamos juntos, na noite em que sonhei com meu pai. Fofocas sobre nosso relacionamento, que estávamos junto novamente mas não queríamos admitir se espalharam com a velocidade da luz pelos corredores e, mesmo que todos se calassem sobre o assunto quando eu estava por perto, era impossível não ouvir seus cochichos abafados pela mão. E depois, no dia anterior, quando os mordomos chegaram para nos socorrer e viram os lábios de Maxon vermelhos do meu batom, não tiveram dúvidas. Para eles, o melhor que podia acontecer a mim era isso, me apaixonar e ter o amor correspondido pelo rei. Para mim, o pior que podia me acontecer era exatamente o mesmo.
Aspen ainda estava no palácio, os olhos e os ouvidos do lugar. Nada passava despercebido por seus brilhantes olhos verdes e isso me assustava. Assustava-me pensar que nesse exato momento ele já estava se rendendo, dando-se por vencido. Assustava-me pensar que eu estivesse me rendendo às suplicas ao meu redor. E pior, assustava-me pensar que minha vida, seja lá por qual caminho eu decidisse seguir, mudaria radicalmente.
Com Maxon eu me sentia segura, protegida. Ele afastava meus pesadelos na mesma intensidade em que me trazia sonhos bons. Era atencioso e preocupado com o meu bem estar. Tinha leveza e doçura quando falava comigo, abusava dos bons modos e era sempre um legítimo cavalheiro. E, acima de tudo, amava-me mais do que qualquer coisa no mundo.
Mas com todo o amor e doçura de Maxon vinham também os problemas. Governar um país nunca esteve enquadrado em meus planos, disso eu tenho certeza. Eu não estaria apenas me casando com Maxon, mas com toda Illéa também. Ao aceitar ser sua esposa, eu aceitaria seu mundo e teria de aprender — Ou reaprender, que seja — a viver nele.
Aspen era intenso. Seus beijos eram vorazes e nem um pouco cautelosos. Sentia-me protegida, sim, mas não à salvo como sentia com Maxon. Sempre haveria uma pessoa, uma Casta, um símbolo que embarreiraria nossas vidas. Gostava de Aspen e gostava de Maxon. Deus sabe o quanto estava dividida. Mas nem mesmo ele poderia me ajudar nisso. Era minha vida e era meu dever e obrigação saber o que fazer com ela.
– Majestade, está tudo bem? — Allye perguntou, parando abruptamente com sua deliciosa massagem.
– C-Claro, claro.
– Mentira.
– Não estou mentindo. — Assegurei.
– Percebo quando as pessoas estão falando a verdade. A senhorita não está.
– Mas está tudo bem, realmente.
– Se não quiser me contar o que está havendo, é só dizer. Mas não minta, por favor. Isso não condiz com uma rainha.
– Não sou uma rainha. — Murmurei, voltando a abraçar o travesseiro e puxando minhas pernas para mais junto do meu corpo.
– Ah, claro, e aquela coroa é minha, não é? — Replicou, revirando os olhos e se levantando da cama.
Allye era uma das poucas pessoas que eu poderia chamar de amiga. Era um boa ouvinte e provavelmente uma boa conselheira e, como se não bastasse tudo isso, não temia a monarquia. Isso era legal já que todos no palácio pareciam tremer quando me viam ou viam Maxon. Allye era diferente; estava sempre ali, para quem precisasse, sem fazer distinção entre realeza e plebe.
– Tem tido mais flashes? — Perguntou-me com interesse.
– Não me lembro de ter-lhe contado sobre meus flashes.
– Você fala enquanto dorme. — Deu de ombros.
– Você me... vigia?
Ela fez uma cara de quem acabava de falar demais e suspirou.
– Eu, Ana e Mary nos revesamos.
– Toda noite? — Abismei-me. Eu estava sendo vigiada, espionada, pastorada, espreitada. Isso era absurdo!
– Sim, exceto... — Interrompeu-se sugestivamente. Corei e encolhi-me mais, abraçando agora minhas pernas.
– O que mais eu falei? Fora os flashes. — Perguntei.
– Nada, só isso mesmo. Eu não presto muita atenção enquanto você dorme, para ser sincera. Acabo pegando no sono. — Confessou, envergonhada.
– Acho que Mary lhe arrancaria a cabeça se soubesse disso. — Brinquei.
– Não conte para ela, pelo amor de Deus. — Suplicou, os olhos cinzentos pulando das órbitas.
– Claro que não. — Afirmei, levantando a mão como em um juramento — Minha boca é um túmulo.
– Eca! Então é melhor escovar os dentes... Não deve cheirar muito bem por aí.
Nós rimos e ela saiu do quarto, levando consigo minha torta intocada.
À noite, pouco antes das sete, minhas criadas se juntaram em um complô para que eu fosse a sala de jantar. Nem se eu quisesse, iria; estava com o cabelo amassado e o rosto cadavérico. Era sempre assim, bastava eu me alimentar mal por uns dias que minha beleza me era sugada. Mary insistiu dizendo que eu estava linda mesmo assim e que não havia nada que a maquiagem não pudesse concertar. Entretanto, bati o pé e decidi não descer.
Eu não vira Maxon nem saíra do meu quarto desde o episódio vergonhoso do beijo. Para todos os efeitos, eu estava tendo uma crise forte de enxaqueca — Parece que eu tinha muitas delas antes. Busquei repensar meus conceitos sobre egoísmo. Naquele momento, egoísmo seria alimentar falsas esperanças em Maxon, deixá-lo se envolver até o momento em que me fosse oportuno... E por isso decidira me afastar, seria o melhor a se fazer.
Mas, por outro lado, também era egoísmo o deixar plantado na sala de jantar, à minha espera, sem nem uma explicação sequer por puro medo. Eu estava agindo como uma covarde.
Eu precisava me afastar, sim, mas da maneira correta.
– Sabe de uma coisa? — Disse quando Anastasia implorou mais uma vez para que eu descesse para o jantar — Cansei de ficar neste quarto.
Allye bateu palmas repetidas vezes e Mary correu para espalhar as maquiagens na penteadeira. Eu tinha trinta minutos para ficar mais apresentável. Era um tempo demasiado curto para mim, mas não para minhas criadas. Em quinze, meu cabelo tinha um falso brilho tão real que me perguntei se os fios eram meus mesmo, minhas unhas estavam uniformes e meus olhos não tinham mais a aparência dos de peixe morto. Eu já estivera melhor, é claro, mas estava dentro da razoabilidade.
– Seus saltos. — Anastasia falou, trazendo um par de sapatos de saltos tão finos que eu pensei que quebrariam à qualquer toque. Fiz uma careta de sofrimento para eles.
– Tenho que usar?
– Com certeza. — Ela disse, calçando-me.
– Blér!
Esperei, desacostumada, que Maxon batesse à porta para me chamar para o jantar, mas ele não apareceu, é claro. Eu estava doente, com crises e mais crises de enxaquecas e ele não queria me incomodar. Então, quando percebi que teria de descer as escadarias sozinha, mandei um beijinho para minhas criadas e corri escada abaixo, só parando quando cheguei, enfim, às portas de carvalho. Suspirei e ajeitei meu vestido. As palmas de minhas mãos suavam descontroladamente e eu sentia minha pressão baixar.
É claro que sua pressão está baixa. Você está praticamente em jejum!
Com um meneio de cabeça para os guardas abrirem as portas, adentrei no recinto, as pernas bambas e o suor escorrendo pelas minhas costas e grudando o vestido em minha pele.
Maxon estava como sempre. Terno escuro, cabelos alinhados com perfeição, postura requintada. Seus olhos fitavam a comida com desânimo; como eu, ele apenas cutucava o prato com os talheres. Endireitei minhas costas e pisei firme, andando devagar até meu assento. Sua cabeça se ergueu para mim com o barulho estrondoso de meus saltos e tudo seria mais fácil se eu não tivesse visto seu sorriso de orelha à orelha. Repuxei os cantos da minha boca e me dei um tapa na cara internamente.
– America. — Disse como se quisesse ter certeza de que realmente era eu.
– Eu. — Dei de ombros e me sentei na cadeira ao seu lado.
Ajeitei-me, pondo o guardanapo em minhas pernas, lembrando-me do pouco de etiqueta que eu ainda tinha memória. Justin, o mordomo, serviu-me com a comida mais esquisita que eu já havia visto. Coq-Au-Vin era simplesmente podre! Havia conhaque de mais e comida de menos. Pedi que por favor, me trouxessem algo que pudesse satisfazer minha fome, e não apenas ajudar a me manter de pé. Justin riu com humor e foi à cozinha. Maxon sorriu, olhando para o seu prato. Seu sorriso era tão genuíno que senti vontade de sorrir também.
– America, acho que... Acho que precisamos conversar. — Disse, de repente sério. Tremi até o último fio de cabelo e engoli em seco.
– Sobre o quê deveríamos conversar? — Banquei a desentendida. Eu precisava agir como se o beijo não tivesse significado nada. E era verdade, não era? Havia significado algo?
– Sobre ontem.
Tomei um gole de vinho e engoli uma tossida com aquele líquido forte, procurando ganhar tempo para uma resposta bem produzida.
– Hm. — Disse, deixando a taça na mesa — Os cavalos foram encontrados?
– Sim, mas...
– Ah, que bom. Imagine só se eles fugissem...
– America! — Chamou, firme. Mesmo em um tom sério e fechado, meu nome parecia dançar em seus lábios como se houvesse música — Sobre aquele beijo... Quero pedir desculpas.
Dei de ombros, fitando meu prato vazio.
– Não tem do que se desculpar. Já esqueci, está tudo resolvido.
De esguelha, analisei o rosto de Maxon se transfigurar na mais autêntica dor. Sua sobrancelhas se ergueram em descrença e seus lábios se entreabriram por breves segundos. Eu via a força que ele fazia para se recuperar de minhas palavras, mas ela não fazia efeito algum em seus olhos. O desfoque, a falta de brilho... Martirizaria-me pelo resto da vida por lhe infligir tanta dor.
– J-Já esqueceu? — Deu uma leve gaguejada, quase imperceptível.
– Sim, você não? — Fiz-me novamente de desentendida.
– Claro. Agora que me desculpei, posso finalmente esquecer.
Olhei-o agora. Seus lábios estavam crispados e seu olhar era para o prato petiscado. Suspirei, ofegante. Não queria que ele se machucasse, jamais essa fora minha intenção. Mas isso era preciso. Era preciso machucá-lo agora para que ele não sofresse mais depois. Se por acaso eu o escolhesse, poderíamos ter uma vida e eu poderia aprender a amá-lo. Enquanto nada disso acontecia, enquanto minha decisão ainda era desconhecida por mim mesma, distância era o melhor a se manter.
Pensei novamente no que Willa havia dito no dia anterior. Eu podia sair do palácio, deixá-lo por uns tempos até tomar minha decisão. Mas eu não teria coragem, teria? Não era Maxon que me prendia, nem Aspen e nem minhas criadas, e sim Eadlyn. Minha pequena cuja gravidez e nascimento eu não recordava nada. Ela era o meu elo entre o palácio. E provavelmente uma das coisas que mais que prendiam a Maxon.
Não era uma decisão apenas minha. Eu tinha que pensar no que era melhor para minha filha também. Minha quota de egoísmo já estava estourada.
Quando Justin chegou com meu prato, Maxon levantou-se de sua cadeira com rapidez e limpou a boca com o guardanapo. Ele evitava me olhar, talvez para não deixar transparecer todo o ódio de minhas palavras — E provavelmente de mim. O acompanhei com os olhos enquanto ele me dava as costas sem nem sequer se preocupar em me desejar uma boa-noite. Senti-me traída por suas boas maneiras.
– O que aconteceu? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
– Só preciso de um pouco de ar e eu não o consigo aqui dentro. — Disse, amargo. Cada nota na sua voz gritava com desespero, mas o todo de seu timbre ainda permanecia calmo, inalterado.
Ele continuou a andar para fora da sala de jantar, os passos mais firmes do que o de costume, o nariz mais em pé do que eu jamais vira. Essa era a dor que eu temia que ele sentisse. Eu precisava amenizá-la.
Deixei minha cadeira e corri porta a fora, deixando um Justin abismado para trás, segurando meu prato que parecia estar uma delícia. Subi as escadas até pelo menos a metade até perceber que Maxon buscava ar. Com exceção de sua sacada, apenas o jardim possuía isso. Voltei a descer as escadas e fugi do Grande Salão, meneando para os guardas para que abrissem novamente as portas. Intrigados, eles o fizeram.
Encontrei um Maxon desolado andando em círculos pouco perto do lago, meio escondido pela vegetação densa. Ora ou outra ele atirava um dos pedregulhos do chão na água. Boquiabri-me com a distancia em que as pequenas pedras chegavam, quicando algumas vezes na água até afundar nela. Se não fosse pela hostilidade de Maxon e, como dizem, as más vibrações, eu diria que este lugar nunca estivera tão lindo. A lua cheia era refletida com magnificência nas águas escurecidas pela noite e as estrelas salpicavam os arredores do reflexo da lua como se fossem um milhão de pequenas lâmpadas.
Vaga-lumes também estavam presentes. A luz amarelada que brilhava sob as folhas das árvores e nas proximidades do lago me deixavam encantada. Um zumbido também era produzido por eles, como abelhas. Alguns deles chegavam perto demais de Maxon, outros, pousavam em seu terno, mas nem Maxon em sua ira mais profunda os esbofeteava.
Ele se sentou perto do lago e mergulhou suas mãos nele, brincando com as ondinhas que a água fazia. Sem excitar, descalcei-me para que meus saltos não me denunciassem e sentei-me ao seu lado. Ele percebeu, vi isso no vinco em sua testa que se amenizava, mas fingia não me notar. Num ímpeto, deitei minha cabeça em seu ombro. Agora ele era forçado a me notar.
Rá. Eu venci.
– O que está fazendo? — Perguntou, olhando-me por sobre o ombro.
Suspirei.
– Estou tentando não lhe magoar. Ou tirá-lo da mágoa, tanto faz. — Dei de ombros. Ele balançou a cabeça negativamente.
– Saia daqui.
Endireitei-me, tirando minha cabeça de seu ombro. Seu olhar estava fixo no reflexo da lua.
– Como?
– Saia daqui. — Repetiu. Havia um quê de educação em sua voz, ainda assim.
– Não.
Ele jogou a cabeça para trás e despenteou os cabelos. Com os olhos cerrados, fez força para não me olhar. Não me senti intimidada por isso e me aproximei mais dele até nossas coxas se tocarem. Com delicadeza, ele puxou sua perna para longe da minha.
– Por que faz isso, America? — Questionou — Se está tão infeliz aqui, se não quer tentar resgatar nossas memórias, se não quer a nós... Por que está aqui?
Abri a boca, mas a fechei novamente. Eu não conseguia responder essa pergunta. Eu também não sabia o que fazia ali.
– Não estou infeliz. — Comecei. Era verdade — E estou tentando resgatar nossas memórias. Tenho flashes de vez em quando...
– Flashes? Flashes? — Sorriu sem um pingo de humor — Esses flashes são mesmo que nada, então. Você continua sem saber quem eu sou e... — Ele balançou a cabeça, voltando a cerrar os olhos com dor — America, por que isso? Por que um dia fingir que gosta de mim e no outro me tratar como nada? Por que corresponder ao beijo se você não o queria?
– Porque... — As lágrimas cegaram-me e escondi meu rosto nos joelhos flexionados — Porque eu não sei.
– Não sabe o quê? — Indagou com grosseria. Percebi que ele se continha para não me consolar. E que bom que ele fazia isso. Eu não queria seu consolo.
– Não sei se lhe amo, não sei se quero essa vida, não sei se aprenderei a comer coq-au-vin, não sei se posso ser mãe... Eu não sei de nada, Maxon. Preciso de ajuda, e não de pessoas para me julgar.
Ele jogou a cabeça para trás de novo. Vi sua repulsa por seu ato, mas ele puxou-me pelos ombros para um abraço meio distorcido. Senti-me bem, apesar de tudo, com seu reconforto. Não sabia que ele exercia um poder de calmaria tão forte assim sobre mim. Enxuguei as lágrimas e olhei-o. Seu queixo estava erguido agora, nem uma olhadela ele me lançava. Ele estava fixo na água.
– Acha que é difícil apenas para você, America? — Perguntou-me, enfim olhando em meus olhos — Acha que eu me sinto bem por saber que o amor da minha vida não me reconhece? Que me sinto bem quando você finge estar com enxaquecas para não me ver? Que me sinto bem sonhando todas as noites com alguém que não posso ter?
Solucei com aspereza. Eu não conseguia manter meus olhos mais nos seus.
– Não, olhe para mim. — Pediu, erguendo, meu queixo com delicadeza. Seus olhos se concentraram nos meus pelo segundo mais longos de toda a minha vida. Em cem centésimos, eu percorri cada pequena parte do seu olho, aventurei-me no mais profundo castanho que eu poderia encontrar. Ele crispou os lábios quando esse segundo se foi e suspirou.
– Não faz ideia de como eu te amo. Não faz ideia do tamanho da minha dor por ver você com tantas dúvidas assim. — Disse, a voz aveludada que eu já me acostumara — Não exijo que você volte pois sei que não é uma escolha sua. Mas exijo que não me faça de idiota.
– N-Não o faço de...
– E o que foi beijar-me ontem apenas para dizer que o beijo não significou nada hoje? — Lembrou-me com acidez. Manti meus olhos presos aos seus apenas por seu pedido.
– Significou para você? — Indaguei.
Ele silenciou por alguns segundos.
– Eu não sei.
Senti meu coração ser amassado, esmagado, espremido e transformado em pó dentro de mim. Busquei pela verdade em seus olhos, mas eles estavam opacas. Eu o estava perdendo. Perdendo por ser tão lerda.
– Amo você mais do que a minha própria vida e estou disposto a esperar quanto tempo for necessário. Mas não me ridicularize.
Soltando-me do meio abraço, ele beijou minha testa com doçura e se levantou, limpando a calça e reorganizando os cabelos. Queria gritar, chorar, espernear, mas nada saiu. Eu não tinha mais emoções o suficiente para exprimir.
Ele me meneou com a cabeça e me deu as costas, me deixando sozinha em meio aos vaga-lumes. Pus-me de pé em um instante e limpei meu vestido.
– Maxon, espere. — Pedi. Ele parou abruptamente de andar, mas não olhou para trás. Corri até ficar de frente para ele.
Era o único jeito de o fazer parar de sofrer, então eu o fiz. Com brandura, deixei que meus lábios se conduzissem aos seus e permiti que minhas mãos fossem até sua nuca. Não era apressado e voraz como o do dia anterior, mas não era menos intenso por causa disso. Deixei que seus lábios tomassem-me com vontade, mas ele não o fez. Queria que ele fizesse direito, que ele sugasse toda a tristeza que se apoderara de mim e eliminasse-a junto com a sua. Mas não. O beijo era tão melancólico quanto o momento. Senti uma lágrima me escapar, mas não me incomodei em enxugá-la. Quando Maxon separou nossos lábios, deixei que minha testa encostasse na sua. Ele não se moveu um centímetro e me permitiu analisar seus olhos bem de perto.
– Gosto de você, Maxon. Muito. — Admiti.
Ele nos separou, deixando-me desamparada do calor do seu corpo.
– Não quero que me beije por piedade, America. Quero que me beije por amor.
Ele andou com passos firmes para longe de mim. Eu estava literalmente no chão, despencando com ódio da minha droga de existência. Atirei pedras na água até sentir a terra sob meu corpo e cogitei a possibilidade de passar a noite ali, deitada na grama e na terra fofa. Eu não tinha coragem de voltar ao palácio, não tinha cara para sentar-me ao lado de Maxon no café-da-manhã do dia seguinte. Queria morrer!
Por dias, não saí do quarto. Minhas refeições eram entregues em meus aposentos já sem eu pedir, minhas criadas me deixavam sozinha mesmo quando eu ainda nem solicitava isso. Elas viam que eu precisava do meu tempo, do meu espaço. Allye tentou por diversas vezes conversar comigo, até Anastasia baixou a guarda e se mostrou mais amiga do que profissional. Sentia-me reconfortada quando elas estavam por perto, mantendo minha cabeça livre de problemas enquanto tagarelavam sobre moda. Bastava elas saírem para que eu voltasse a me debulhar em lágrimas, chorando até ficar vermelha e com olhos inchados.
Ainda assim, gostava de estar sozinha. Gostava de poder ter um tempo à sós comigo mesma. Gostava de me martirizar.
Nas semanas que se seguiram, a única coisa que mudou em mim foi meu tédio. Ele estava maior a cada dia que passava. Comecei, então, a fazer pequenos tours pelo palácio. Todos os dias, eu conhecia uma nova sala, um novo corredor, uma nova passagem secreta. Mas o que me incomodava mais era saber que meu inconsciente escolhia sempre os momentos em que sabia que Maxon estaria no escritório ou em seu quarto. Isso tudo era tão ridículo. Morávamos no mesmo lugar, nossos quartos eram lado à lado, havia uma porta que conectava nossos aposentos... Por que eu estava tentando me esconder?
Ah, claro, porque eu era uma idiota!
– Majestade, posso ajudar? — Ouvi uma voz conhecida chamar-me. Virei-me para trás para ter certeza de quem era.
– Aspen.
– Precisa de alguma coisa?
– Você. — Ofeguei. Não pude deixar de notar a cabeça do guarda mais próximo inclinada à nossa conversa. Aspen estreitou os olhos, decifrando minha expressão.
– Perdão, Majestade...
– America. E, se puder me acompanhar... — Indiquei meu quarto com o queixo. Ele ergueu as sobrancelhas com desconfiança — Entre logo!
Ele obedeceu e, após entrar no quarto, tranquei-nos. Eu precisava ser breve, usar o mínimo de tempo possível. Não era certo, provavelmente, trazer guardas para seu quarto e eu não devia dar cabimento para outros empregados do palácio cochicharem sobre mim. Já não bastava minha depressão, como já os ouvi falar...
– O que houve, America? Não posso entrar em seu quarto assim... Maxon não iria gostar.
O abracei com força antes que ele pudesse concluir seu raciocínio. Ele era alto, tão alto quanto Maxon ou até mais. Meu ouvido ficava pregado ao seu coração e era o palpitar dele que me fazia engolir as lágrimas. Cinco minutos, America. Use apenas cinco minutos para o que você precisa.
– Ei, o que está acontecendo? — Perguntou, a voz amolecida. Suas mãos hábeis passaram a afagar meus cabelos como ele fazia quando estávamos na casa da árvore. Ah, como eu sentia falta daquele tempo. Éramos apenas nós dois. Sem príncipe apaixonado, indecisões, palácio cheio de fofoqueiros e coroa à minhA espera. Éramos apenas Cinco e Seis. E eu gostava disso.
– Não sei o que está acontecendo comigo, Aspen. — Admiti rapidamente, enxugando uma lágrima que insistia em escorrer do canto do meu olho — Eu não me reconheço mais.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que... Ah, olhe para mim. — Indiquei à mim mesma com uma expressão enojada — Não pareço mais comigo mesma. Não consigo mais ser a America que costumava ser.
– E sabe por que? — Ele curvou-se para que nosso rosto estivesse na mesma altura e tocou meu queixo com serenidade — Porque você não é mais aquela America. As coisas mudaram. Você é a rainha, a mais alta na sociedade. Você viveu uma vida depois de... nós. Uma vida que a amadureceu.
– M-Mas eu não quero essa vida. N-Não quero. — Choraminguei.
– Não sabe o que está dizendo. — Balançou a cabeça com pesar — Se se lembrasse, saberia o quanto é feliz.
– Talvez eu fosse feliz nessa vida que não me lembro, mas agora, hoje, eu não sou. Estou... Estou tão confusa.
Ele me conduziu pelas mãos até a cama e me fez sentar-se nela. Aspen sempre fora meu confidente, meu ombro mais-que-amigo. Eu sabia que podia contar com ele para tudo; ele me ajudaria no que fosse preciso. Enxuguei as lágrimas e suspirei.
– Quer me contar um pouco desta confusão? — Perguntou-me, agachando-se no chão. Afirmei com a cabeça.
– Não consigo entender o que sinto, Aspen. N-Não consigo buscar a resposta que preciso dentro de mim.
Ele pegou minhas mãos e a acariciou com delicadeza, fazendo círculos em meu dorso e brincando com a correntinha dourada que eu usava como pulseira. Ele massageou os nós dos meus dedos e, depois de um tempo, disse:
– Isso é sobre Maxon, não é?
Não o olhei, mas concordei com a cabeça. Ele assentiu.
– O que houve?
– Eu... não sei se posso me abrir assim com você. — Confessei, pondo uma mecha de meus cabelos atrás da orelha. Ele, sem soltar minha mão, sentou-se de vez no chão.
– Ah, qual é, não confia em mim? — Provocou. Eu sorri.
– Não é isso, é só que... É estranho falar sobre isso com você.
Ele cruzou os braços sobre o peito com deboche. Erguendo a sobrancelha em desafio ridiculamente, ele me arrancou uma gargalhada.
– Sou melhor do sua equipe de psiloucos.
Ri mais ainda,
– Espero que seja mesmo. Propaganda enganosa é crime. — Ele sorriu e desfez seu ar provocativo. Voltando a acariciar minhas mãos, fez sinal positivo com a cabeça, incentivando-me a me abrir. Engoli em seco — Eu só faço burrada. Não há um momento em que eu faça algo certo, em que eu tome uma decisão correta. Estou sempre magoando as pessoas que... amo.
– Maxon, certo? — Indagou. Assenti com a cabeça e continuei:
– Não sei mais o que fazer quanto a ele. Parece que nada que eu faço é bom o suficiente, nada que eu demonstre se compara ao que ele demonstra. Quer dizer, ele me faz sorrir quando estou triste, me faz gargalhar em meio às lágrimas e... me desperta sentimentos que eu nem sabia que existiam.
Corei do início ao fim. Afinal, eu estava falando de um homem para outro. E pior: Estava falando para o homem que me deixava dividida entre ele e o homem falado. Mas, diferentemente do que eu imaginava, Aspen sorriu genuinamente. Ele abandonou minhas mãos e ergueu meu queixo para que meu olhar encontrasse o seu. Como Maxon fizera ontem.
– Isso é amor. — Concluiu com veemência. Assustei-me com a força que essa palavra tinha. Era um sentimento grande demais para que fosse sentido assim...
– Sim, é, mas é diferente. — Dei de ombros. Amava Maxon, aprendia a amá-lo cada dia mais, mas isso não significava que minha escolha estava feita. Com seu amor, vinha uma série de complicações. Eu aguentaria a monotonidade da vida de casada? Aguentaria ser mãe em tempo integral? Não era apenas Maxon. Era um batalhão de outras coisas à mais. E eu o odiava por isso, o odiava por ele vir em um pacote de problemas.
E, ainda assim, não podia deixar de amá-lo.
– Diferente de que forma? — Encorajou-me.
– Eu não sei, eu não sei. — Falei, cobrindo meu rosto com minhas mãos — Eu o amo, mas não sei se da forma como ele quer. Ele não quer minha piedade, como mesmo disse ontem. Ele quer meu amor incondicional. Quer que eu sorria da mesma forma como ele sorri quando pronuncia meu nome, quer que eu o olhe da mesma forma como ele me olha, e ele está certo. Todo mundo merece alguém que... Alguém que...
– ... Alguém que o ame como Maxon ama você. — Completou e voltou a segurar minhas mãos. Havia um certo brilho em seus olhos que eu não conseguia entender o motivo — America, em algum lugar dentro da sua mente suas memórias ainda vivem. Se encontrar o fio da meada, você conquista o resto. Você consegue.
– E se eu não conseguir? — Supus com histeria — E se eu nunca mais conseguir minhas memórias de volta? E se eu ficar dividida para sempre e acabar perdendo os dois...?
Ele balançou a cabeça, confuso, e se pôs de cócaras novamente. Seu olhar pedia por uma explicação decente.
– Que "dois"? Há outro homem na jogada?
Mordi o lábio inferior, apreensiva. Como ele reagiria se eu assumisse estar balançada por ele? Daria pulinhos de alegria? Se chatearia por consideração à Maxon? Aspen estava absolutamente imprevisível nessa nova vida.
– Bem... há. — Admiti.
– Quem é o outro?
Respirando fundo, segurei seu rosto entre minhas mãos e pronunciei cada palavra como se fosse minha última. Ele não desgrudou o olhar do meu.
– Não se assuste — Pedi — , mas há outro homem, sim. Em minha vida antiga, eu era apaixonada, obcecada por ele, pretendia me casar com ele, e temo que esse sentimento não tenha morrido completamente nessa nova etapa da minha vida. Aspen... Não sei qual será minha escolha. Se ele... ou você
Sem um aviso prévio, nem sequer um indício do que estava prestes a fazer, puxei seu rosto para junto ao meu e o beijei. Por alguns segundos, Aspen era rígido como pedra, não movia um só músculo. Seu choque era grande demais até mesmo para me separar dele. Nem por um segundo ele retribuiu meu beijo e, assim que tomou um pouco mais de consciência do que estava acontecendo, me separou dele, empurrando-me com um pouco mais de força do que era necessário. Seus olhos verdes eram como globos prestes a pular das órbitas.
Meu Deus, o que eu tinha feito? Dias anteriores eu havia beijado Maxon e, hoje, eu beijara Aspen. O que estava acontecendo comigo? Eu não podia agir como uma... vadia!
– O que diabos foi isso? Está ficando louca? — Questionou, indignado, levantando-se do chão e passando as mãos pelos cabelos.
– Eu sei, eu sei. Me desculpe. Por favor, me desculpe. — Implorei, atirando-me na cama. Minha vontade era de afundar no colchão para que nunca mais ninguém me visse, para que eu nunca mais cometesse nenhum erro idiota.
– America, você é casada! E eu também! — Ralhou. Pus-me sentada imediatamente.
– V-Você é c-casado? — Gaguejei. Ele arfou algumas vezes até se recuperar da incredulidade.
– Sim, eu sou. E eu amo a minha esposa.
Bofetada em minha cara.
– Eu não sabia... — Disse. Agora eu me sentia péssima em dobro.
– Pois agora sabe e... — Ele suspirou, voltando à si. Pedi internamente para que ele fosse embora, mas não transformei isso em palavras. Eu não tinha mais o direito de pedir nada à ele depois disso — America, entenda: Você escolheu Maxon e eu escolhi Lucy. Acredite, somos mais felizes separados, apenas como amigos. Você ama Maxon na mesma medida em que ele ama você. Espero realmente que isso faça você entender qual escolha você deve fazer novamente. Com licença, Majestade.
Aspen me deixou sozinha, fechando a porta com um baque seco. Ouvi, abafado pela porta, ele conversar algo baixinho com um guarda, algo como uma explicação pela demora. Ele era um bom mentiroso, nos livraria dessa. Eu é que não tinha tanta certeza de se me livraria da que eu havia me metido...
Encostei minhas costas na cabeceira da cama e abracei minhas pernas. Eu poderia tentar dormir e esquecer o que eu tinha feito hoje, podia simplesmente comer até não conseguir pensar mais em nada ou só ficar quietinha, martirizando-me, repassando todas as coisas insanas que eu tinha feito em um só dia.
Aspen era casado e, mesmo que eu não me lembrasse, eu também era. Meu compromisso com Maxon estava gravado em meu dedo que ostentava uma aliança de brilhantes com o nome de meu marido escrito no interior. Eu não podia ficar com Aspen e ele não podia ficar comigo.
E só então percebi que não era apenas porque não podíamos. Era porque não queríamos.
Aspen era um bom homem. Era amigo, companheiro, divertido, fiel... A mulher que o tinha fisgado era alguém de muita sorte. Entretanto, não consegui sentir inveja dela. Nem por um segundo. E, embora eu achasse minha conduta em atacar Aspen bastante errada, não podia me arrepender. Isso havia me mostrado o quanto éramos estranhos juntos, como se fossemos incompatíveis. Eu o amava, mas não da forma como pensava.
Ainda assim, não tinha certeza quanto à Maxon. Era certo que, tirando Aspen da jogada, eu tinha um peso à menos, mas isso não significava que eu escolheria Maxon no final. Talvez eu fosse um tanto quanto pessimista, talvez até cega por não enxergar o que aparentemente todos enxergavam. Maxon era o homem que toda garota sonharia em conhecer, um verdadeiro príncipe. Mas era difícil reconhecer o amor; ele estava dividido em várias subcategorias. Agora, eu precisava descobrir em qual delas o amor que eu sentia por Maxon se encaixava.
Respirei fundo. Não, eu não podia fazer isso. E se, no fim das contas, eu optasse por mim? E se eu concluísse que o amor que Maxon tinha por mim não era correspondido como deveria? Ele não iria aguentar e sua dor seria minha dor. Se eu queria realmente sua felicidade, eu deveria deixar seu caminho livre. Eu deveria escolher à mim. Eu deveria deixar o palácio, nem que por uns dias, apenas para pensar.
Eu voltaria para a casa de meus pais.
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