The New Royalty
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Um leve rangido me fez despertar com um sobressalto, me fazendo sentar. Anastasia abriu a boca quando me viu e disse, baixinho, que voltava outra hora. Não entendi de cara o motivo de sua pressa em deixar o quarto, e muito menos o por quê da vermelhidão em seu rosto. Mas, quando Maxon bocejou, tonto de sono, e começou a se sentar na cama, o cobertor escorregando e deixando a mostra seu peito nu, entendi os motivos de Anastasia. Céus, ela não podia achar que...
– Quem era? — Perguntou com uma nota de tensão na voz. Meu rosto corou violentamente quando percebi o que aparentávamos ali, deitados na cama, dormindo juntos.
– A-Anastasia entrou aqui.
– E daí? — Bocejou, tentando alinhar seus cabelos.
– Por favor, diga-me que ela não acha que fizemos o que eu acho que ela acha que fizemos. — Disse rapidamente, atropelando as palavras. Deitei-me de novo na cama, meu rosto oculto no travesseiro.
Ele passou um tempo calado, tentando compreender minhas palavras. Por fim, riu. Raiva, era isso que eu sentia. Como ele poderia agir com tanta naturalidade com algo assim? Tirei a cara do travesseiro e forcei-me a olhá-lo, tentando esconder o rubor em meu rosto com os cabelos. Ele pareceu rir mais ainda com minha ligeira ira, seu riso ecoando em meus ouvidos como música.
– Não é engraçado, o.k.? — Avisei com histeria, levantando-me da cama e puxando o cobertor, enrolando-me. Minha camisola era tão ridícula — Porém, ótima para frio — que senti vergonha de Maxon vê-la.
– Não é engraçado? Deveria ter visto a sua cara... — Riu com a lembrança. Minhas orelhas pegaram fogo. Quando ele conseguiu restaurar o silêncio que suas gargalhadas quebraram, respirou fundo e disse com toda a calma: — Isso acontecia o tempo todo, antes.
– Como assim, "isso"?
– Pessoas entrarem no quarto. Guardas às vezes entram quando há muito... barulho. — Desviei o olhar do seu — É apenas para saber se não estamos sendo atacados por só Deus sabe o quê. E, bem, suas criadas entram para lhe arrumar. É sempre assim, mas, não se preocupe tanto, estávamos apenas dormindo.
– Você estava seminu! — Acusei.
Ele levantou as mãos num gesto de quem não entende.
– Eu não tenho culpa de me acordar no meio da noite com os gritos de uma garota e correr para me certificar se está tudo bem e ela me pedir para dormir com ela. — Disse com uma expressão de inocência que não condizia nada com a situação. Ri da forma cômica na qual ele relatou a noite anterior. Busquei me acalmar e respirei fundo.
– O.k. .
– "O.k." do tipo "Vou parar de culpar o pobre Maxon" ou "O.k." do tipo "Cale a boca"? — Brincou. Sorri por sua bobagem. Peguei um travesseiro da cama, deixando o cobertor cair, e atirei em direção à sua cara.
– "O.k." nos dois sentidos.
– Tudo bem, então. — Disse, pulando da cama e me atirando o travesseiro de volta — Vou deixar a mademoiselle sozinha.
Ele terminou sua encenação beijando o dorso de minha mão e dizendo que, quando eu precisasse de seus serviços podia o chamar. Eu ri e ele saiu do quarto. Apesar de estar louca por um banho — A manhã estava quente e ensolarada, o oposto da noite anterior — , não corri para o banheiro. Em vez disso, atirei-me na cama novamente, me cobrindo até a cabeça com o cobertor. Isso não podia ter acontecido, de forma alguma podíamos ter dormido juntos.
O sentimento de culpa voltou a tomar conta de mim. Eu me sentia mal por criar falsas esperanças em Maxon, me sentia mal por brincar com seus sentimentos e, por último, mas não menos importante, sentia-me mal por não conseguir me sentir mais mal do que isso. Eu não conseguiria dizer com todas as letras que estava arrependida pelo meu pedido nada discreto, mas também não poderia dizer que me sentia plenamente feliz com isso. Meu lado egoísta dizia que eu não tinha que me punir por causa de um simples pedido, uma simples noite onde nada — Nada. NADA. N-A-D-A! — aconteceu. Por outro lado, minha parte altruísta queria se jogar de um prédio.
Entre tantos conflitos em minha mente, redescobertas sobre o certo e o errado, eu me peguei pensando em Maxon. Ele devia estar com torcicolo da posição em que dormiu, com os braços dormentes e mais cansado do que quando se deitou, mas, ainda assim, me ofereceu um sorriso. Ele se importava se meu dia começaria bem ou não, se importava com meus medos e pesadelos. E eu... Ah. Eu sentia que estava o usando!
Não me entenda mal, gostava de Maxon, mas eu não saberia dizer o quanto. Ele... Ele não apenas gostava de mim, ele me amava! Eu via esse amor na forma como ele falava o meu nome, no jeito com que seus olhos brilhavam quando eu sorria ou simplesmente quando andávamos juntos, mesmo que em silêncio. Percebia que ele estava disposto a tudo para que eu retornasse, para que eu voltasse a ser a America que deve o ter amado como ninguém. Respirei fundo com a ideia de Maxon estar, nesse exato momento, pensando em mim e pensando que meu pedido para que dormisse comigo significava algo. Um algo à mais tão grande que eu não poderia alcançar. Maxon era um homem muito bom. Gentil, carinhoso, inteligente, atencioso, charmoso, atraente... Merecia alguém melhor do que eu. Merecia alguém que o amasse como eu provavelmente jamais poderia. Ele merecia alguém que olhasse para ele da mesma forma que ele olhava para mim, que correspondesse a todas as suas expectativas.
Eu poderia reencarnar várias vezes, ter uma centena, um milhão de vidas. Mas eu nunca iria merecer todo o amor que ele me oferecia.
Respirando fundo, levantei-me da cama, pronta para mais um dia.
***
– Então?
– Então...
Estava há uns bons dez trancada na sala de Willa, tentando focar em suas perguntar, mas nada parecia se prender à minha mente. Ainda me sentia culpada, irritada comigo mesma e mal de todas as formas possíveis. Willa suspirou novamente. Ela estava tentando a todo custo iniciar uma conversa comigo, mas tudo o que eu conseguia dizer era sim e não. Talvez um "hum" discreto de quem pensa em algo. Mas a primeira verdade é que eu não estava realmente pensando em respostas para suas perguntas. E a segunda é que eu não conseguia, por mais que tentasse, deixar as lembranças da noite anterior afastadas por muito tempo da minha mente. Toda vez que tentava isso elas pareciam se mostrar mais fortes, entrarem em minha cabeça com mais nitidez e intensidade. Mas, o pior de tudo, era não saber por que isso estava acontecendo comigo.
Balancei a cabeça, tentando me livrar de tudo o que me impedia de conversar com Willa e lhe lancei um sorriso. Ela não me retribuiu. Parecia pensativa, quase séria.
– Então, por que mudou o horário da sessão? — Indaguei. Era uma boa forma de começar uma conversa amigável. Ela sorriu.
– Prometi a Owen que estaria em casa para o jantar hoje. — Explicou-me. Ela não conseguia esconder o sorriso ao dizer isso.
– Quem é Owen? Seu namorado?
Ela fez uma careta.
– Não. Ele é meu filho.
Meus olhos pularam das órbitas.
– Você tem um filho? — Minha incredulidade parecia assustá-la.
– Sim, eu tenho. Um lindo garotinho de cinco anos de idade.
– Q-quantos anos você tem? — Arrependi-me de cara de ter perguntado isso. Não era algo respeitoso de se perguntar, mas ela pareceu não se incomodar com minha indiscrição.
– Vinte e três.
– Então você... — Fiz as contas nos dedos como uma criança que ainda estava aprendendo a efetuar contas matemáticas — O teve com dezoito anos?
– Sim.
– Você é casada? Nunca me falou sobre sua vida...
– Porque ela nunca veio ao caso. — Barrou-me com seriedade. Recapitulei minhas palavras e elas pareciam inocentes, apenas vindas de uma pessoa bastante curiosa. Mas seja lá o que eu tenha dito, deve ter tocado em uma ferida exposta de Willa. Ela suspirou e desabou as costas no encosto da poltrona, uma mão na testa como alguém cansado — Me desculpe.
– Não, tudo bem, eu entendo. — Senti minha bochechas esquentarem de vergonha e baixei minha cabeça, fitando meus joelhos — Fui invasiva.
– Não, não foi. Todos perguntam-me isso na verdade, é só que... ainda dói falar sobre isso. Eu nunca vou superar.
Ela flexionou seus joelhos e os trouxe de encontro ao seu peito, seus braços abraçando suas pernas. Quando ela conseguiu esconder o rosto em uma cortina escura de cabelos encaracolados, desatou a chorar. Eu não sabia o que fazer. Mas que droga! Eu e minha boca grande demais... Agora eu teria que consolar a pessoa paga para me consolar.
– Ei, está tudo bem. — Disse, tocando seu ombro. Ela soluçou e chorou mais ainda.
– N-não está, não. N-nunca esteve.
Ela ergueu a cabeça e começou a tentar enxugar as lágrimas que ainda escorriam por suas bochechas, sua maquiagem se desfazendo e dando um ar insano ao seu rosto fino. A fiz levantar-se e se sentar no sofá em que eu estava sentada. Ela pareceu não me entender à princípio, mas, quando sentei-me em sua poltrona, ela soltou uma gargalhada aguda e entrecortada do choro e dos soluços.
– N-não me diga q-que...
– Sim, serei sua psicóloga por hoje. — Cruzei minhas pernas, exatamente como ela fazia, e pus meu melhor sorriso no rosto. Tentei imitar seu tom de voz, mas eu era péssima nisso. — Parece que você precisa conversar, querida.
Ela sorriu com minha péssima imitação e limpou o lápis e o rímel que manchavam as bolsas de seus olhos e suas bochechas.
– É, acho que preciso, sim. Mas não sou paga para isso. Preciso cuidar da sua cabecinha, e não o contrário.
– Não. Por favor, me deixa te ajudar. — Supliquei com as mãos juntas. Ela balançou a cabeça negativamente, um pesar enorme em fazer isso.
– Você não pode. Na verdade, ninguém pode. — Com um suspiro, ela continuou: — Porque ele está morto.
– Quem está morto? — Aprumei-me mais na poltrona.
– Lester Malcomson, o pai de Owen. O único homem que já amei.
Peguei suas mãos jogadas no sofá e senti uma estranha familiaridade com essa minha ação. Flashes inundaram minha mente. Em todos eles, Maxon segurava minhas mãos, ora para me acalmar, ora para me pedir algo. Sorri com minha primeira memória de Maxon que eu conquistara. Foquei em Willa e deixei essa memória se esvair em minha mente.
– Quer me contar?
– Acho... Acho que sim. — Ela sorriu. Pela primeira vez desde que acordara, eu me sentia útil. Útil em poder ajudar alguém que precisava — Assim que completei dezoito anos, comecei a trabalhar para poder pagar minha faculdade. O café onde eu era garçonete funcionava até as nove e meia e às dez horas eu precisava estar em minha aula. Era meu primeiro semestre e eu estava extasiada com tudo o que estava descobrindo.
"Acontece que sempre que dava nove e vinte e cinco, um homem chegava ao café, morto de fome e, como ainda faltavam cinco minutos para o estabelecimento fechar, eu era obrigada a o atender. Ele sempre fazia o mesmo pedido: Uma torta de maçã e qualquer coisa que tivesse para beber. A princípio, eu o odiava por me fazer perder meu ônibus e com isso, alguns minutos de aula. Mas depois... as coisas mudaram. Em uma noite, nós começamos a conversar e eu me interessei por ele, por sua história. Não sei explicar como e nem porquê, pois ele não era o homem mais bonito de Angeles que já tinha me dado bola e muito menos o mais engraçado, mas algo nele chamou a minha atenção. E eu me vi apaixonada em menos de um mês."
"Ele trabalhava no corpo de bombeiros e só tínhamos aqueles minutos em que eu matava aula para ficarmos juntos. Em um desses minutos eu engravidei de Owen e, quando descobri, não soube o que fazer. Eu era muito jovem, apenas uma garota de dezoito anos que cursava psicologia e só tinha a conclusão da faculdade como meta de vida. Um filho era... era demais para eu aguentar."
Assenti com a cabeça quando ela me olhou para ver se eu estava a acompanhando. Não pude deixar de notar que as lágrimas já marejavam seus olhos. A parte mais difícil estava para ser contada. Respirei fundo e acenei para que ela continuasse.
– Eu tinha medo de contar a Lester. Achava que ele me abandonaria se descobrisse, que ele iria me deixar para trás e fugir para Clermont, sua província natal. Eu tinha tanto medo de perdê-lo que estava disposta a tudo para que nosso amor não fosse abalado. Foi aí que tomei uma decisão: — Ela suspirou e baixou o olhar para os joelhos, envergonhada — Eu ia abortar e fingir que nada havia acontecido.
"Eu já estava pronta para isso, já estava me dirigindo para a sala de cirurgia numa clínica clandestina especializada nisso quando o celular vibrou em meu bolso. À princípio, pensei em apenas ignorar o toque, mas eu senti algo em meu peito, algo que me fazia querer atender ao telefone. Eram nove da manhã e a esse horário Lester estava trabalhando, salvando vidas por aí então, quando vi seu nome no identificador de chamadas meu coração parou de bater por alguns segundos. Eu sabia que algo estava errado já antes de pôr o celular no ouvido. Mas, a gota d'água foi ouvir a voz de Timmy, o paramédico amigo da minha família. Eu desmaiei na hora."
"Acontece que às oito e quarenta, Lester havia sido convocado junto com sua equipe para um apartamento em chamas. Haviam crianças dentro do apartamento, presas em alguma coisa. Lester era altruísta demais para deixar que aquelas crianças morressem brutalmente queimadas e, mesmo sabendo dos riscos que corria, não excitou ao entrar no apartamento. Ele salvou as crianças, mas não conseguiu salvar a si próprio. Acabou que ele comprou o destino das duas crianças. Só o que sobrou dele foram as cinzas."
Arrepiei-me com suas palavras. Eu sentia vontade de chorar agora e meu lado mais egoísta queria que Willa chorasse comigo para que eu não parecesse uma tonta, mas ela não o fez. Ela permaneceu firme, o nariz em pé e o queixo erguido. Eu sabia que essa era a ação de anos de prática, anos tentando juntar os caquinhos do seu coração, anos lutando para que sua voz não falhasse quando o nome de seu amado fosse pronunciado. Eu devia repensar todos os meus conceitos de heróis. Nem sempre eles usavam capas, às vezes, eram apenas jaleco — Ou uniformes de bombeiros.
Mas o pior de tudo não foi pensar em sua dor, nem na dor de Lester enquanto era queimado vivo e muito menos em como Willa conseguiu prosseguir com sua vida depois disso. Eu pensava em Maxon. Era torturante pensar isso, mas eu pensava: Se fosse eu em um apartamento em chamas, se fosse eu presa em ferragens ou simplesmente em um círculo de fogo, Maxon não excitaria em tentar me salvar, assim como Lester não excitou em salvar as crianças. Eu não tinha dúvidas de que ele daria a sua vida por mim, via isso em seus brilhantes olhos castanhos, e, de certa forma, isso me assustava. Me sentia protegida ao seu lado, mas ao mesmo tempo temerosa.
Se preciso fosse, ele se jogaria na frente de um carro desgovernado ou levaria um tiro por mim. Algo em meu peito — Ou em meu estômago, eu não conseguia mais diferenciar — se revirou.
– P-Por que decidiu ter Owen? — Gaguejei. Era mais fácil ouvir a triste história de Willa do que pensar na possibilidade de alguém arriscando a vida por mim.
– Quando a ficha de que Lester havia morrido caiu, eu percebi enfim que nunca mais o veria. Percebi que ele nunca mais ligaria para mim tarde da noite dizendo que me amava, que nunca mais iria precisar matar minutos de aula para comer torta de maçã com ele, e que tudo o que ele havia me deixado era um filho na barriga. Eu enfim enxerguei que eu tinha um pedaço dele dentro de mim, que eu ainda tinha a chance de comer torta de maçã olhando em seus olhos azuis e de enviar um eu te amo para um coração formado do seu próprio. E eu me agarrei a isso, me agarrei ao meu filho como quem se agarra a um copo de água no deserto. E, hoje, eu vejo que foi a melhor escolha que eu fiz."
Ela enxugou os cantos dos olhos, mas sorria enquanto fazia isso. Era como se um peso tivesse sido tirado das suas costas e como se metade dele pertencesse às minhas agora.
– Ele passa o dia com meus pais. Minha mãe tenta me empurrar para os homens ricos da cidade, diz que é um desgosto ver sua filha solteirona e com um filho para criar. Até Owen diz que eu preciso arranjar alguém, que queria uma figura masculina para chamar de pai. Mas eu não posso.
– Eu sei. — Disse, mesmo sem saber realmente. Ela sorriu para mim, esfregado as mãos no rosto e me agradeceu.
– Agora, chega de falar da minha vida. Vamos falar da sua. — Mudou de assunto. Trocamos de lugar novamente e eu me deixei desabar no sofá. Tudo o que eu menos queria agora era falar sobre a minha bela e confusa vida.
– Não tem o que falar. — Dei de ombros.
– Não é o que conta essa sua ligeira felicidade nos olhos. — Especulou, cruzando as pernas e descansando os braços nos apoios para eles na poltrona — Pode me falar já o que aconteceu.
– Eu já disse, não tem nada. — Respirei fundo com sua insistência, mas, no fundo, eu queria contar e compartilhar tudo o que eu estava sentindo dentro de mim. Eu precisava de ajuda, mas como ela poderia fazer isso se eu nem ao menos saberia explicar o que estava acontecendo comigo? Eu não conseguia pôr em palavras meus sentimentos. Mas tentei — Bem, há algumas coisas, sim.
– Conte-me.
– Eu não sei, é... confuso até para mim. Tá legal, tá legal: Ontem à noite eu tive um pesadelo. Nele, estávamos eu e meu pai, correndo. Quanto mais eu corria, mais meu pai apressava o passo e se distanciava de mim. Quando minhas pernas começaram a cansar e eu me forcei a parar, percebi que, se eu parasse, meu pai era torturado.
– Torturado pelo quê? — Indagou, levando a mão ao queixo, pensativa.
– Eu não sei. Não haviam outras pessoas no sonho, nem armas e tudo o mais. Era como se algo dentro dele o torturasse. — Expliquei, mas nem eu mesma conseguia entender. Willa apenas assentiu com a cabeça — Então eu me pus a correr novamente, não podia deixar meu pai ser torturado. Mas chegou ma hora em que minhas pernas enfraqueceram e eu caí no chão. A tortura de meu pai recomeçou e eu não conseguia fazer nada além de gritar. Era como se eu estivesse presa e não pudesse me mover.
"E então, eu me acordei gritando e chorando. Não demorou muito para os guardas entrarem no quarto para verem o que estava acontecendo e... Maxon também entrou. Quando os guardas se certificaram de que estava tudo bem, saíram e me deixaram sozinha com Maxon. Depois de um tempo, ele fez menção de sair, mas... Eu pedi que ele ficasse."
Era impossível não notar o sorriso de Willa quando disse isso. Ela deu uma gargalhada de felicidade e girou em sua poltrona. Ela estava tão enérgica com tudo o que eu tinha dito que me assustava.
– Eu sabia, eu sabia! E suas memórias voltaram? Você o ama novamente? — Perguntou, ainda sorrindo. Para sua infelicidade, balancei minha cabeça negativamente.
Pigarreei para prosseguir.
– Ele concordou em ficar comigo e nós... dormimos juntos.
– "Dormiram juntos" ou dormiram juntos? — Willa ergueu uma sobrancelha Fitei meus joelhos.
– Não, apenas dormimos. — Ela revirou os olhos, me arrancando um sorriso. Suspirei quando tive que voltar a falar sobre a noite anterior — Ele acordou feliz, estava animado, como se meu pedido tivesse significado algo para ele que nunca foi minha intenção significar. Temo que... Temo que ele esteja apostando demais na sorte.
– Como assim?
– Ah, eu não sei. Maxon é o homem maravilhoso, um verdadeiro príncipe, mas não tenho certeza de se é um príncipe que quero para mim. Talvez eu me contente apenas com um sapo, entende?
Willa assentiu.
– E esse sapo atende pelo nome de Aspen?
– É. Acho que sim. — Respondi, constrangida. Não era do meu feitio ficar apaixonada, muito menos por dois homens ao mesmo tempo, quer dizer... Não que eu estivesse apaixonada por Maxon, não mesmo, é só que... Argh!, eu não sabia de mais nada! — Maxon é gentil, pra cima, cavalheiro, bonito... Mas não sei se posso amá-lo e tenho medo de que ele crie expectativas demais. Não quero magoá-lo caso eu decida que jamais poderei me apaixonar por ele, então queria saber logo o que quero, saber que rumo vou tomar em minha vida.
– E o que lhe impede de fazer isso?
Dei de ombros.
– Esse palácio, as pessoas dentro dele... Todos me pressionam para cima de Maxon, é uma cobrança forte demais para eu aguentar. Não consigo pensar direito com a pressão, simplesmente é impossível!
– Então talvez você devesse passar um tempo sozinha.
Olhei-a, incrédula. Ela não estava realmente me dizendo para deixar o palácio pelo tempo que eu precisasse, estava?
– Q-quer que eu saia do palácio? — Gaguejei. Ela negou com a cabeça.
– Eu não tenho que querer nada. É a sua vida. Quem escolhe é você.
Pensei na possibilidade. Se era o palácio que estava me impedindo de pensar, eu teria que pensar fora dele. Ela estava certa. O problema seria me deixarem ir... É claro que eu não estava sendo mantida refém dentro do palácio, mas isso não significava que eu tinha livre acesso ao lado de fora. Com minha perda de memória, todos pensariam que eu não poderia mais me locomover e que estaria em constante perigo. Maxon nunca deixaria...
– Creio não poder viajar para Carolina. — Dei de ombros, de repente mal humorada — O único lugar para onde eu iria seria a casa da minha mãe, e acredito que viagens interprovinciais estão fora de cogitação.
Willa apertou a ponte do seu nariz, frustrada.
– Sua família mora aqui, em Angeles.
– Oh, é. — Lembrei-me.
– E você é a rainha. Pode fazer o que quiser.
Sim, era verdade. Eu podia fazer o que quisesse... Qualquer coisa.
Depois da sessão, de ignorar Ashlar e sua equipe de bisbilhoteiros e de almoçar — Novamente sozinha — , Maxon me cobrou sobre a promessa do dia anterior. Às quatro e meia, nós iríamos cavalgar. minhas criadas trouxeram as roupas que eu deveria usar pouco antes das quatro da tarde. Fiquei tão feliz ao ver que usaria calças que quase comecei a gostar da ideia de andar à cavalo. Mas, para minhas criadas, não importava se eu iria cair enumeras vezes, me sujar de terra e me descabelar toda em cima de um cavalo; elas me maquiaram e me fizeram um penteado mesmo assim. Como dizia Allye, era o Beleza Base Zero, um tipo de maquiagem simples, sem olhão carregado e lábios vermelho-cereja. Era como se você acabasse de se acordar — Só que linda. Agora eu entendia como as modelos que fazem propagandas acordando-se de manhã ficavam tão bonitas... Nem uma babinha sujava a boca delas.
– Prontinho. Está magnífica. — Mary disse, finalizando minha trança.
Ao olhar-me no espelho, percebi que podia muito bem ir à um baile real desse jeito. Duas tranças, uma de cada lado da cabeça, começavam desde a testa e se juntavam no comprimento do cabelo, formando uma só e caindo em meu ombro. Aparentemente, bastante simples, mas eram as roupas que me deixavam desconfortável de tão arrumadas que eram; A calça era bastante justa ao corpo, de um azul royal tão vivo que dava dor de cabeça olhá-lo por muito tempo. A camiseta estava coberta por um casaco acolchoado para que, em uma queda, meu corpo não batesse direto contra o chão. Botas de cano longo subiam até o meio de minha panturrilha, cobrindo a barra da calça. Eu me sentia como uma personagem de quadrinhos antigos. Só me faltava uma capa.
– Que tal se eu apenas usasse jeans? — Perguntei, sorrindo amarelo para minhas três criaturas com senso de moda oposto ao meu.
O "não" das três ao mesmo tempo foi tão sonoro que deixei para lá qualquer reclamação que eu tinha a fazer sobre minhas roupas. Às quatro e meia em ponto, três batidas à porta fizeram meu coração gelar. Agora não tinha mais jeito. Tudo o que eu podia fazer era proteger minha cabeça quando me estabacasse no chão. Eu mesma abri a porta e, de tão nervosa, deixei minhas criadas falando sozinha.
– Estou surpreso por você não ter inventado uma enxaqueca para fugir desse passeio. — Maxon brincou enquanto descíamos as escadas.
– Ah, mas que droga! Eu devia ter pensado nisso... — Respondi, rindo. Ele sorriu de uma forma diferente, os lábios mais tortos, a boca inclinada para o lado em que uma covinha se formava em sua bochecha. Respirei fundo. Eu definitivamente o havia dado esperanças.
Andamos em silêncio até chegarmos aos estábulos. Dessa vez, tomei o cuidado de ficar longe o suficiente do chiqueiro para que lama não me atingisse novamente. Um tratador de cavalos nos conduziu a uma espécie de celeiro. Havia pilhas de feno para tudo quanto era lado. Assim que as portas eram abertas, um corredor longo se estendia a nossa frente, com cavalos de ambos os lados, cada um em seu compartimento próprio. Eu podia ver cavalos de todas as raças, tamanhos e cores. Haviam os lindos brancos, as crinas louras e macias; haviam os negros e imperiais de olhos cor de caramelo; e também os marrons com crinas escuras e olhos amarelos. Eram tao lindos, tão diferenciados, que me senti apaixonada na hora. Maxon acariciou seu cavalo, este retribuindo com um relinchado e um ligeiro abanar de rabo, e eu vi a estranha ligação entre o cavaleiro e o cavalo. Talvez eu tivesse sorte de principiante e conseguisse pelo menos fazer com que um cavalo gostasse de mim.
– Eu sugeriria este, Majestade. — O tratador de cavalos aconselhou-me, indicando o branco de crina loura. Os olhos azuis do cavalo eram tão profundos que eu jurava poder ver sua alma.
Estiquei a mão para tocar em sua cabeça, mas ele se esquivou, transformando sua feição angelical em uma amedrontada e arisca. O tratador abriu a porta do compartimento do cavalo e o puxou para fora. À princípio, senti medo da cara ameaçadora que ele me lançava, mas, depois de bastante tempo, quando ele deixou-se ser tocado, voltei a enxergar o cavalo puro e belo que ele era. Quando o tratador deduziu ser seguro montar, ajustou a sela e segurou o pedal para que eu enfiasse o pé, mas o cavalo era muito alto e, se eu pulasse de uma vez sobre suas costas, tinha noventa e nove por cento de certeza de que ele se assustaria e sairia correndo. Maxon me ajudou, levantando-me pela cintura e pondo-me sobre o cavalo. Enfiei meu pé no pedal e respirei fundo.
Pelo menos o chão estaria de braços abertos para me segurar, pense, irônica.
– Pronta? — Maxon perguntou, montando com graciosidade em seu cavalo.
– Não, mas...
Ele sorriu. Pus meu capacete e ajeitei minhas cotoveleiras. Uma coisa era certa: Meu crânio e meus braços permaneceriam intactos. Agora, o resto eu tinha minhas dúvidas. Imitei Maxon e peguei as rédeas. Talvez fosse porque eu não sabia medir minha força, ou porque eu não tinha prática em cavalgar, mas tudo o que sei é que, assim que puxei as rédeas, o cavalo disparou para fora do celeiro numa velocidade tão absurda que tive que envolver meus braços em seu pescoço para poder me segurar. Olhei para trás, mas eu já estava distante demais para ver Maxon ou o celeiro. Meu estômago fora deixado para trás, mas eu quase não reparava nisso. Tudo o que eu tinha em mente era a queda certa que dali há pouco eu atingiria.
– Maxon! — Gritei. O vento era tão forte que nem sequer minha voz eu conseguia ouvir — MAXON!
Galopes que não eram do meu cavalo maluco se aproximaram e eu consegui enxergar um Maxon desesperado na linha do horizonte, lutando para chegar até mim. As fitas que seguravam as tranças de meus cabelos voaram e meu cabelo se desfez, vindo todo para a minha cara. Minha vista agora era um breu avermelhado e eu não conseguia ver um palmo a frente do nariz.
Decidi que seria melhor fechar os olhos. Mantê-los abertos na hora em que eu despencasse no chão seria torturante. Entretanto, não senti alívio algum com isso. O vento continuava a ricochetear meus cabelos e a inutilizar meus ouvidos com tamanha violência que eu não conseguia ver nem ouvir mais nada. Um grito agudo escapou dos meus lábios quando avistei a parte do jardim destruída pelas bombas. Haviam, rachaduras no solo, rochas protuberantes... Agarrei-me mais ao pescoço do cavalo e esperei para cair em uma das rachaduras, mas, quando percebi, estava voando. Tudo estava em câmera lenta de repente. Eu via o momento em que o cavalo flexionava-se e pulava por sobre a cratera, sentia meus cabelos voarem para longe do meu rosto e, felizmente, avistava o cavalo de Maxon mais perto de mim a cada segundo.
Busquei as rédeas do cavalo quando ele diminuiu consideravelmente o passo, mas não as encontrei. Minhas mãos tremiam descontroladas e tudo o que eu conseguia fazer era me debater no cavalo como se estivesse tendo uma convulsão. Um borrão castanho chamou minha atenção no auge do desespero e eu quase consegui respirar aliviada. O cavalo de Maxon estava lado à lado com o meu, mas, ainda assim, a distância era grande demais para eu pular de um para outro. Maxon estendeu sua mão para que eu a pegasse, mas eu excitei. Seria mais fatal ainda se nossas mãos escorregassem e eu fosse pisoteada e arrastada pelo cavalo dele. Meu Deus, aonde é que eu tinha me metido?
– America — Maxon gritou, lutando para enxergar com os fios louros sobre os olhos — , pegue a minha mão.
– Eu... Eu não consigo. — Ofeguei.
– Estique-se só mais um pouquinho...
Estiquei meu braço o máximo que pude, Maxon fez o mesmo e, antes que o meu cavalo voltasse a pular por sobre uma cratera, ele segurou minha mão e me puxou para cima. Senti meus dedos do pé arrastarem no chão e só então percebi que minha bota havia ficado presa no pedal. A pele foi arrancada, mas eu estava viva,inteira. Maxon puxou-me mais para ele e nos fez ficarmos tão próximos, tão abraçados que eu conseguia ouvir o palpitar acelerado do seu coração sobre a roupa. Envolvi meus braços ao redor de sua cintura, assustada, e implorei aos céus para que eu fosse colocada no chão logo.
– America, está tudo bem? — Perguntou, examinando meus braços por cima do casaco. Não respondi. Meu medo voltou a crescer quando uma frondosa árvore se aproximavou e o cavalo não fez menção a desviar o caminho.
– Maxon...
– É melhor darmos uma passadinha em Ashlar, para se certificar de que...
– Maxon!
– E depois descansar...
– MAXON!
– O que é?
– A-A árvore!
Quando ele se tocou, já era tarde. O cavalo havia freado bruscamente, fazendo com que nossos corpos fossem atirados para longe. Eu precisava agradecer minhas criadas pela roupa acolchoada que elas me fizeram; Não imaginava que ela seria tão útil assim.
Pus-me sentada, aparentemente intacta. Arranquei meu casaco e toquei meus braços. Todos os ossos estavam no lugar. Tirando o capacete da cabeça, senti minhas têmporas latejarem fortemente. Por mais protegida que eu estivesse, era uma pancada grande demais para se sair ilesa. Entretanto, eu não podia reclamar da minha sorte porque, céus, eu tinha de sobra.
– Maxon? Maxon! — Chamei. Algo estava errado com minhas pernas. Elas não obedeciam o meu comando de se mexer. A dor era insuportável.
– America! — Gritou.
Se eu podia me considerar intacta, podia dizer que Maxon nunca estivera melhor. Ele se levantou do chão com rapidez e pôs-se a correr, mancando com uma perna. Como se já não bastasse quase morrermos na queda de um cavalo, Maxon topou com uma pedra e tombou para a frente. Fechei os olhos e esperei sentir a dor do seu corpo caindo sobre o meu, mais ela não veio. Ao abrir os olhos, percebi que Maxon havia conseguido apoiar seus braços na terra, livrando-me do peso de seu corpo. Seus olhos castanhos devoraram-me, analisando cada milímetro do meu rosto. Senti-me claustrofóbica por estar presa entre seus braços, mas não era como se eu quisesse que ele me deixasse livre. Era invertido, como se eu quisesse ter menos espaço, como se quisesse sentir mais claustrofobia. Isso devia ser doença, só podia ser.
– Você está bem? — Perguntou, a voz calma e doce que eu já estava acostumada. Seus dedos alisaram meus cabelos desgrenhados, minha testa, descendo pelo meu nariz e estacionando pouco acima dos meus lábios. Eu sabia o que ele estava prestes a fazer, mas não desviei meu rosto um centímetro sequer.
– Não, mas vou ficar. — Assegurei.
Não sei quem o fez primeiro. Talvez meu rosto tenha ido de encontro ao seu primeiro, mas seus lábios devem ter tomado os meus mais depressa, eu não sei. Só sei que, quando nossos narizes se cruzaram e minhas mãos voaram e agarraram seus cabelos, o mundo pareceu sumir. Não existia mais a claustrofobia, nem dois cavalos fugitivos e muito menos ossos deslocados. Éramos apenas America e Maxon. Nada de Castas de nascença nos diferenciando, nada de rei e rainha, nem memórias perdidas. Naquele momento, tudo o que importava era a vontade insaciável que eu tinha de nunca mais deixá-lo ir. Senti meu interior pegar fogo e minhas pernas tremerem com esse novo sentimento. Mas no final, caindo em mim, foi eu a responsável pelo término do beijo.
– Me desculpe. Isso não devia... Eu não podia... Ah, que droga!- Maxon pediu apressado, tentando se levantar.
Eu sorri.
– Acredite, isso não é um castigo. — Brinquei, repetindo o que ele havia dito na noite anterior, quando me desculpei por ter pedido para que ficasse comigo. Ele sorriu. Suspirei com o mundo que continuava a nos aguardar — Tem dois cavalos à solta por aí, tenho provavelmente sérios problemas com os ossos da minha perna e estamos mais sujos do que os porcos no estábulo, mas... — Mordi o lábio inferior. Eu era tão egoísta... Mas quer saber? Um pouco de egoísmo não iria causar mal a ninguém — Mas acho que ainda temos um tempinho antes que um batalhão chegue para nos prestar socorro.
Ele sorriu. Tortamente irresistível.
– E o que a senhorita America sugere?
Com um movimento súbito, impensado e insano, puxei-o pelo casaco e o virei contra a grama. Ele sorriu e uma pontada de culpa se apoderou de mim. Isso é errado, America. Errado, errado e errado!
E que se dane! Terei tempo para me arrepender depois.
Suas mãos se prenderam em minha cintura e eu colei nossos lábios novamente.
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