The New Royalty
28 Capítulo 28
Notas iniciais
– Tem tido dias difíceis, não?
– Nem posso descrever o quanto...
Willa devia ter algum tipo de distúrbio ou até mesmo TOC, pois, desde que eu entrara na sala, ela não havia parado um segundo sequer de organizar por ordem de cor todos os lápis sobre sua escrivaninha. Eu já estava ficando assustada. Como alguém completamente louca seria capaz de cuidar da minha mente?
Ela era bonita, entretanto. Podia perceber que era alta e tinha cabelos cacheados e escuros que contrastavam lindamente com seu par de olhos azuis e com a palidez de sua pele. Ela sorriu, satisfeita com seu trabalho e se levantou. Ela tinha uma grandeza no andar, uma graça natural simplesmente na forma como ficava em pé... Se me dissessem que ela era a rainha, eu acreditaria na hora.
– Venha. — Ela disse quando terminou de organizar os lápis — Deite-se aqui, fique confortável.
– Preciso mesmo me deitar? — Perguntei. Sessões com psicólogos eram tão estranhas assim? Ela riu.
– Se preferir, pode apenas se sentar.
Optei pela segunda opção e me sentei no grande sofá de couro preto. Willa se sentou a minha frente, numa poltrona marrom de veludo. Definitivamente, os estofados não combinavam, qualquer um que os visse julgaria que eles nem sequer poderiam estar na mesma sala. Eu esperava realmente que seu senso de decoração fosse melhor do que isso.
Ou então eu tinha dormido tempo suficiente para ver a moda mudar.
– Ridículo, não? — Disse, referindo-se aos estofados, lendo meus pensamentos — Ashlar quem escolheu, ele disse que "harmonizou" o ambiente. Tsc, tsc... Ele é louco.
Sorri. Parecia que não ia ser tão difícil conversar com alguém tão bem humorada quanto ela.
– Mas você não veio aqui para conversarmos sobre sofás, não é? — Brincou, cruzando as pernas como uma dama. Tentei causar uma boa impressão e imitá-la, mas algo me dizia que meu vestido mostraria mais minha carne do que devia — Como está se sentindo?
– Agora, tipo, neste minuto?
– Pode ser.
– Com frio. — Brinquei. Ela riu de minha piada idiota e, com um pequeno controle remoto, aumentou a temperatura do ar condicionado — Ah, bem melhor.
– Mas agora, sério. Como está se sentindo? — Voltou a perguntar. Eu não ia conseguir fugir de suas perguntas, então podia pelo menos facilitar seu trabalho.
– É tudo muito estranho. Quer dizer, olhe em volta, estamos no palácio! Mas você se lembra de como veio parar aqui; eu, não. Isso me foi roubado e não posso, aparentemente, fazer nada para retomar essas lembranças. — Respirei fundo — Estou me sentindo deslocada, como um peixe fora d'água.
Ela assentiu com a cabeça, entendendo. Seus lábios agora estavam apertados e diminuídos à uma linha estreita.
– Qual é a última coisa na qual você se lembra? — Perguntou depois de um tempo calada.
– Ah, bem... Lembro-me de voltar de uma festa, onde eu toquei, e de desabar na cama de cansaso quando cheguei em casa. Ontem, quando acordei, jurei que estava me acordando do dia após essa festa.
Ela tamborilou um pouco os dedos finos nos lábios e ficou girando um pouco na poltrona. Ela era legal e engraçada, mas essa brincadeira dela de girar já estava me deixando meio tonta.
– Sabe que festa foi? — Indagou.
– Sim. Foi uma festa em que, todos dizem, toquei há dois anos. — Dei de ombros.
Ela arregalou os olhos e soltou uma lufada de ar.
– Céus, dois anos é muito tempo. — Concordei com a cabeça — Você não se lembra de sua Seleção? Nem de seu casamento, de seu marido, da guerra, de sua gravidez...?
– Nada. Descobri ontem que tinha um marido, uma filha e que era rainha. Acho que vou pirar com isso tudo. — Joguei-me de costas no sofá, me deitando. Ela aproximou-se mais com a poltrona e pôs a mão em meu joelho.
– Sei que é difícil, quer dizer, não sei, não. Nunca passei por isso. — Brincou — Mas... O que está achando do seu mais novo marido?
– Achei que eu viesse aqui para tentar resgatar minhas memórias. — Disse com as sobrencelhas erguidas.
Willa fez um barulhinhos com a boca de quando alguém diz alguma bobagem. Será realmente que ela era normal?
– Achou errado. — Respondeu com uma voz de cantoria, mas, de repente, assumiu um ar sério — Infelizmente, não posso fazer isso. Fui contratada para cuidar do seu psicológico atual, nada referente às suas memórias.
– Não entendo.
Ela se curvou para frente, apoiou os cotovelos em suas pernas e uniu as pontas de seus dedos finos. Agora, ela parecia uma profissional, de fato, séria.
– Veja bem, Ashlar me contratou para que eu fosse uma espécie de... amiga. Eu poderia cuidar da sua sanidade mental, que deve estar bem louca agora. Assim, você teria com quem compartilhar seus medos e poderíamos encontrar uma saída objetiva para eles. — Explicou com determinação.
– Não me lembro de meus medos. — Repliquei de forma educada.
– Ah, America... Todos temos medos, só precisamos saber o por quê de tê-los e a aprender a lidar com eles. Afinal, o que é a vida sem alguns desafios, hein.
Pensei um pouco sobre meus medos. Antes, eu tinha medo de eu e minha família passarmos fome, tinha medo de que Aspen me abandonasse e medo de que alguém que eu amava morresse. Eram medos comuns, do tipo que todo mundo tem. Eu nunca tivera medos tolos como de barata, de sapo ou de aranha. Isso não me assustava como assustava a tantas pessoas. Eu tinha muito mais com o quê me preocupar.
– Lembro-me de ter medo que Aspen me abandonasse. — Confidencializei.
– Quem é Aspen? — Perguntou, curiosa.
– Meu namo... Ex-namorado. — Corrigi-me a tempo. Ela assentiu com a cabeça, os lábios novamente crispados.
– E você ainda sente algo por esse Aspen? — Perguntou-me o que eu mais temia. Como eu poderia responder essa pergunta se eu nem mesmo sabia se sim ou se não.
– Eu não sei. — Admiti.
– E quem é que sabe? — Sorriu — E Maxon? O que você sente por ele?
Senti uma leve insistência no quesito Maxon. Como se ela quisesse me empurrar de qualquer maneira para ele, me fazer falar algo que eu não queria. Ótimo, maravilhoso! Só o que me faltava agora era uma mulher visivelmente perturbada querendo me fazer sentir algo por alguém...
Porém, resolvi dar um crédito à ela. Maxon... Ele era, sem dúvida alguma, um dos homens mais bonitos e charmosos que eu já havia visto. Era gentil, bem humorado, um bom rei e provavelmente um bom pai. Eu devia ter o amado antes de... antes disso tudo. Mas agora... O que eu sentia por ele? Eu também me perguntava a mesma coisa.
– Também não sei.
Ela sorriu.
– E por que não tenta descobrir uma resposta?
Encarei-a com injúria. O que ela estava achando? Que era bastante simples amar alguém que você mal sabe quem é, mas que todos dizem que é — Ou era — a pessoa mais importante de sua vida?
– O que está pensando? Que é fácil encontrar uma resposta? Estou tentando, realmente tentando. — Respondi, sentando-me no sofá.
– Tudo bem, tudo bem, mas... O que pretende fazer para descobrir a resposta? Quer dizer, antes da perda de memória, antes da guerra, antes da Seleção, seu coração batia por Aspen, estou certa? — Assenti, desconfiada, incerta sobre o ponto no qual ela queria chegar com essas perguntas — Mas depois, depois da Seleção, depois de conhecer Maxon, você descobriu que o que sentia por Aspen não era nem de longe o que você sentia por Maxon, senão não teria se casado com ele. — Ela balançou a cabeça rapidamente, como se espantasse ideias de sua cabeça ou simplesmente tentasse voltar ao foco da pergunta — O que estou querendo dizer é, seu coração já bateu pelos dois, mas foi Maxon quem o ganhou no final. Mas e hoje? Sei que acabou de "conhecer" o rei, mas tente pesar seus sentimentos por Maxon e por Aspen e tire suas próprias conclusões: Agora, sem influência do passado perdido ou intacto, quem você escolheria?
Respirei fundo. Por mais que eu não estivesse gostando de tanto interrogatório, eu sabia que ela só estava tentando me ajudar. Uma ajuda que eu precisava bastante. Por Aspen, não era apenas amor. Era companheirismo, era carinho... Eu sabia que o sentimento era recíproco, mas não até que ponto. Se eu o amava? Sim, eu podia dizer isso com todas as letras. Mas de que forma eu o amava, eu não saberia dizer. Por Maxon era diferente. Eu acabara de o conhecer, não tínhamos laços fortes, mas, em algum lugar dos seus olhos, eu via o quanto ele me amava e eu sabia que esse amor eu não sentia por Aspen.
Por enquanto, eu podia dizer que não amava nenhum dos dois como Willa estava me perguntando.
– Eu os amo. — Pensei alto — Sim, eu os amo, cada um à sua maneira. Mas eu não os amo como está sugerindo. Sinto muito, não posso responder sua pergunta.
– Mas não é minha pergunta. — Ela se recostou na poltrona e ajeitou os cabelos atrás da orelha para que não caíssem em seus olhos. — É sua pergunta.
– O que eu faço? Como posso amá-los se não me lembro do amor que sentia por Maxon e não me lembro do por quê de Aspen e eu termos nos separado?
Ela sorriu sem humor, seus lábios finos abandonando a linha crispada. Parecia uma tarefa difícil ser psicóloga, mas devia ser mais difícil ainda cuidar de uma cabeça tão complicada como a minha. Ela acha que não queria estar na minha pele? Eu é que não queria estar na sua.
– Recomece. Aja como se não amasse nenhum dos dois, como se acabasse de conhecê-los. No final, verá que seu coraçãozinho palpitará pelo alguém que você já sabe quem é.
– Não sei do que está falando.
– Saberá quando amar de verdade. — Ela enxugou as palmas das mãos no jaleco branco e se levantou da poltrona. Pus-me de pé também, entendendo que essa era a deixa para eu sair — Boa sorte. Venha me visitar nesse lugar sem graça e com mobílias que não combinam amanhã novamente.
– O.k. .
Apertei sua mão estendida e ela voltou para seus lápis, organizando-os agora por ordem de comprimento. Revirei os olhos para sua loucura e saí da sala.
– E, ah, America! — Chamou-me quando eu já estava quase cruzando a porta — Uma ligeira curiosidade minha: Durante seu coma, você sonhou com alguma coisa? Sei lá, teve... visões?
Tamborilei os dedos nos lábios. Sim, eu de fato sonhara, mas não via o motivo de seu súbito interesse.
– Sabe como é, não é. Esse soninho da beleza é sempre diferente para cada um. Gostaria de saber como fora o seu. — Explicou.
Soltei a maçaneta da porta.
– Sonhei que estava presa em um lugar e que algo nele me empurrava para um abismo, precipício, algo assim. E eu ouvia tudo o que falavam. Digo, aqui, de verdade. — Contei. Só esperava que ela não me pedisse detalhes sobre isso. Eu não conseguiria explicar.
– Hum... — Murmurou, girando a cadeira — Sabe o que isso significa?
Balancei a cabeça negativamente.
– Além de psicóloga, também interpreto sonhos. — Disse com um certo orgulho na voz — E, pelo o que você me contou, posso deduzir que: O lugar em que você estava presa era seu próprio corpo, o que tentava lhe empurrar para o precipício era o coma e o precipício era a morte.
Ergui as sobrancelhas. Fantástico, agora ela só faltava confidencializar-me que era medium.
– Ah, claro. — Concordei, a voz carregada de sarcasmo. Ela revirou os olhos para meu menosprezo com seu dom — Até amanhã.
Havia uma comitiva me esperando do lado de fora. Entre os vários médicos, pude reconhecer facilmente o óculos no nariz torto de Ashlar e os cabelos picotados de Vanessa. Acenei para eles e procurei fugir de tamanho número de pessoas, espremendo-me a um canto onde eu podia sair.
– Senhorita, estamos aqui para saber como foi. Insisti para que Walli nos deixa-se entrar, mas ela se negou a isso. — Ashlar disse com incredulidade.
– Ela fez bem. — Repliquei com uma falsa educação na voz — E é Willa, e não Walli.
Ashlar pareceu desconfortável, mas Vanessa logo tomou a palavra.
– Está tudo bem?
– Por que não estaria?
– Uh, tudo bem, então. — Deu de ombros. Arrependi-me na hora de ter sido tão grossa com Vanessa. Ela, ao contrário dos outros curiosos que queriam apenas especular, estava de verdade preocupada comigo — Eadlyn saiu da encubadora e agora está em seu próprio quarto. Não se preocupe, há babás cuidando dela. Gostaria de vê-la?
Pensei sobre isso. Eadlyn era minha filha, mesmo que eu não me lembrasse. Talvez eu não amasse Aspen ou Maxon, talvez eu só amasse Eadlyn.
– Sim, eu quero. — Respondi com entusiasmo. Vanessa jogou a prancheta que segurava no peito de Ashlar e o lançou um olhar de vitória.
O quarto de Eadlyn ficava no terceiro andar, ao lado do meu, bem fácil de identificar com a porta branca com detalhes em rosa nas bordas. Sorri para a porta. Algo tão cuidadoso assim só podia ser obra de Maxon. Vanessa deu duas batidas na porta antes de entrar e, assim que adentrei atrás dela, não avistei nenhuma babá, mas sim o próprio Maxon com a pequena Eadlyn nos braços. Eu podia ver o quanto ele estava tenso segurando algo tão frágil, mas sua habilidade com isso deveria ser infinitas vezes melhor que a minha.
– Oi. — Cumprimentei, aproximando-me dele.
– Olá. — Murmurou.
Observei com mais atenção a criança em seus braços. Tão linda e tão pequena... Ela estava dormindo, seus claros cílios quase imperceptíveis na pele muito branca. Tão branca quanto a minha. A cor de seus olhos ainda era um mistério para mim, mas eu esperaria até o dia seguinte para saber a quem ela havia puxado. Ou talvez não.
– Qual a cor dos olhos dela? — Perguntei a Maxon enquanto acariciava os cabelos ruivos de Eadlyn.
– Castanhos. — Respondeu e eu podia sentir uma nota de orgulho em sua voz. Acho que ela era mais parecida com Maxon do que comigo. Talvez ela tivesse sorte por isso...
Maxon certificou-se de que ela estivesse dormindo mesmo e pôs ela no berço. Tal como a porta, o berço era branco com algumas faixas rosas e o móbile sobre ele era de princesas e coroas. Eadlyn se mexeu quando os braços do pai a abandonaram, mas não se acordou. Até agora, eu só a tinha visto dormindo e não via a hora de ficar mais tempo com a pequena.
Ouvi a porta bater. Vanessa havia nos deixado à sós. Droga!
– Como está? — Maxon perguntou, endireitando as costas. Ele estava muito mais informal e até mesmo bonito assim, sem o paletó e a gravata e com os cabelos desordenados. Parecia alguém comum, sem toda aquela imperiosidade de rei.
– Bem. — Dei de ombros — Foi tranquilo com a psicóloga. Ela é legal.
– Que bom. — Ele enfiou as mãos no bolso da calça e suspirou, cansado — Sua família e Marlee e Carter estão vindo para jantar conosco.
– Marlee? Quem é?
– Era sua melhor amiga durante a Seleção. Quando nos casamos, de vez em quando você a convidava para vir para cá.
– Ah. — Foi tudo o que eu disse. Eu tinha uma melhor amiga e nem sabia... O que será mais que eu tinha a descobrir sobre minha vida?
– Venha, você precisa se arrumar para o jantar. Suas criadas já devem estar lhe esperando. — Disse, me direcionando a porta. Ele pôs uma mão em minhas costas para me conduzir e isso estranhamente me causou um arrepio. Ele percebeu isso e retirou a mão. Oh, como eu era idiota — Desculpe-me, é a força do hábito.
– Não tem por quê se desculpar. — Afirmei — Está tudo bem.
Ele assentiu e nós saímos do quarto. Ele me deixou à porta do meu quarto e passou para o seu, dizendo-me que viria me buscar às sete e meia.
Assim que adentrei no quarto, fui recebida por três garotas pulando em cima de mim. Uma delas chorava desesperada. A outra, ria. E a última apenas gritava de alegria. Eu devia ter uma boa relação com minhas criadas.
– Oh, Majestade! — Uma delas, a que chorava, disse.
– É America.
– Nem acredito que se acordou! — A que ria gritou.
– É, acho que nem eu.
– Sentimos tanto a sua falta. — A que gritava falou.
Elas me soltaram, fungando e eu pude observar seus rostos. A primeira era mais velha, mas não tanto. Tinha cabelos castanhos e olhos caramelo vivos. Era a que ria.
A segunda era baixinha e tinha feições infantis. Me lembrava bastante May, com exceção dos cabelos ruivos e dos olhos azuis que eram trocados por mechas alouradas e olhos cinzentos. Era incrivelmente bonita.
A terceira, a que gritara, tinha a pele bronzeada e os olhos bem escuros que eram quebrados pela cor loira prateada de seu cabelo curto. As três, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, tinham algo de familiar. Talvez a segunda fosse porque se parecia com May e a terceira porque lembrava bastante uma amiga de minha mãe em Carolina. Mas queria pensar que não, que isso eram minhas memórias reconhecendo-as.
– Ah, quais seus nomes mesmo? — Perguntei, rezando para que elas não interpretassem minha pergunta como algo grosseiro.
– Então é verdade que Vossa Majestade perdeu a memória? — A que parecia mais velha perguntou.
– Receio que sim. Mas me chame só de America, tudo bem? — Pedi.
As três me reverenciaram e eu tomei isso por um sim. Enquanto elas se apresentavam e me contavam mais sobre elas três, eu sentia minha mente se abrir. Podia até ver vislumbres de três garotas avoadas me vestindo no que parecia ser noite de Natal. Senti-me orgulhosa por recuperar algumas lembranças.
Elas me banharam — O que foi a coisa mais estranha de todas — e me vestiram. Mary se ocupou em fazer minha maquiagem enquanto Allye me calçava enumeras vezes até encontrar o sapato ideal para mim. Busquei não me olhar no espelho enquanto as meninas me arrumavam; queria que fosse surpresa total para mim. Anastasia terminou minhas unhas e passou perfume em meu corpo. Só o meu cheiro já estava maravilhoso, não via a hora de ver como minha aparência estava também.
Depois de terminarem minha maquiagem, escolherem meus sapatos, finalizarem minhas unhas e repaginarem meu penteado, elas se afastaram e apreciaram o resultado de seus esforços. Eu nem precisava mais me ver no espelho; a julgar por suas expressões, eu devia estar deslumbrante.
– E então...? — Perguntei, curiosa.
– O mundo jamais viu mulher mais linda que Vossa Majes... a senhorita America. — Allye se corrigiu. Não era só a aparência dela que se assemelhava a May. Seu jeito doce também lembrava a minha irmã.
Ah, May. Eu iria ver minha irmã hoje. Nem acreditava que enfim poderia ver minha família, todos que eu tinha certeza absoluta que amava... Ia ser um jantar ótimo, eu previa isso. Pensei em meus pais e em como eles deveriam ter perdido o chão quando souberam que sua garotinha estava em coma. Estava ansiosa para abraçá-los, para sentir o conforto do meu pai e a delicadeza da minha mãe. E até dos gritos eufóricos de Gerard... Ah, como eu sentia falta da família, de pessoas conhecidas.
Mary virou minha cadeira giratória para que eu me visse no espelho. Arfei com a visão. Eu jamais estivera tão linda quanto estava agora. Levantei-me da cadeira, certa de que a garota que eu via no espelho não era eu. Bem, se não era, era ótima em me imitar e reproduzir todos os meus movimentos na hora exata. Ri de minha infantilidade. É claro que o reflexo era meu, se não, de quem mais seria? O decote em V alongava meu pescoço e me deixava mais alta e, embora meu vestido fosse comportado — Como o de uma dama ou o de uma rainha devia ser — , eu estava... sexy. Dos meus seios, que eram mais fartos do que eu me lembrava, até pouco acima dos joelhos, havia um forro bege da cor da renda. Dos joelhos para baixo, o forro não existia e a renda florida era tudo o que cobria o comprimento das minhas pernas.
Analisei os traços do meu rosto e minhas poucas curvas. Era certo que o vestido estava modelando meu corpo, mas, ainda assim, eu via que o tempo tinha me feito bem. Eu não tinha mais o mesmo rosto de garotinha e meu corpo havia se tornado o de uma mulher. Estava mais bonita assim; gostava da minha aparência.
– Gostou? — Anastasia perguntou, ajeitando algo em meu penteado.
– Incrível. — Foi o que consegui dizer — Vocês são incríveis!
Elas sorriram e Mary me abraçou. Algo me dizia que ela era quem me conhecia há mais tempo.
– Você fez falta andando por esses corredores. Achei que o máximo de ruim que poderia acontecer era a guerra não acabar mais — Murmurou em meu ouvido — , mas eu estava errada. Lhe perdemos por três meses e nesses três meses o palácio perdeu a vida. Estou tão feliz.
A abracei com força. Eu tinha mais amigas do que imaginava ter. Com Mary, Allye e Anastasia eu sentia que podia ser eu mesma. Elas eram boas ouvintes e provavelmente ótimas para conversar também e, por mais que minha vida estivesse de cabeça para baixo, eu me sentia feliz.
– Ei — Chamei-as, tendo uma ideia — , por que não vêm jantar conosco?
O sangue fugiu de seus rostos. Elas se entreolharam com surpresa e, só depois de um tempo caladas, Allye falou:
– N-não podemos, Majes... senhorita America. Somos apenas criadas, não temos o direito de jantar na mesma mesa que a realeza.
– E se eu ordenar? — Aticei como uma tirana. Vi Mary revirar os olhos para meu joguinho baixo — Como sua rainha, posso fazer isso.
– Mas senhorita — Anastasia cortou-me — , não podemos...
– Quem disse isso? — Cruzei os braços sobre o peito — Eu digo que podem.
– Senhorita America, talvez o rei...
– Ah, por favor. Maxon seria incapaz de não permitir que vocês, como minhas amigas e convidadas, participassem do nosso jantar. — Juntei minhas mãos e praticamente supliquei: — Por favorzinho...
Mary suspirou como se minha ideia fosse algo absurdo, mas eu podia ver a euforia nos olhos de Allye. Pelo visto, Mary era a chefe das três e Anastasia e All só faziam algo se ela permitisse ser feito.
– Como Vossa Majestade quiser. — Mary meneiou-me com a cabeça — Mas não temos o que vestir para tamanho evento.
– Ah, não seja por isso. — Abri a porta do closet e deixei à mostra o mundo de roupas que tínhamos — Vamos, escolham logo. Maxon deve vir buscar-nos daqui há pouco.
Em vinte minutos, as três já estavam transformadas. Allye destacou seus olhos cinzentos de tal forma que qualquer mullher que a visse sentiria inveja. Ajeitei os cabelos de Anastasia como pude enquanto Mary a maqueava. Mary vestiu o vestido rosa, o que adeixou cem anos mais jovem. Talvez ela aparentasse envelhecida por causa do uniforme que nada valorizava em sua beleza. Em instantes, estávamos todas incríveis.
Já prontas, ouvimos duas batidas à porta. Senti um tremor me percorrer pensando em como Maxon reagiria quando me visse assim, tão arrumada para apenas um jantar. Eu devia ter exagerado na maquiagem. Agora, ele acharia que eu estava com cara de palhaça, toda pintada desse jeito...
Meu Deus, por que eu estava tão preocupada com isso? Desde quando eu me importava com o que os outros pensariam de mim?
Anastasia se prontificou para abrir a porta, mas eu mesma fiz isso. Com um sorriso, girei a maçaneta e a abri. Pude perceber o momento em que a expressão no rosto de Maxon mudou completamente. Antes, sorrindo, ele só esperava que uma de minhas criadas abrisse a porta. Agora, ele estava estupefato. Seus lábios se entreabriram alguns centímetros por poucos segundos, mas ele logo reassumiu sua postura. Eu ri de sua reação. Pelo visto, ele não estava me achando com cara de palhaça.
– Elas fizeram o que podiam comigo. — Dei de ombros, me sentindo incrivelmente envergonhada com seus olhos castanhos pregados em todas as partes do meu corpo.
– Está magnífica, America. — Ele finalmente deixou de correr seus olhos por mim e encarou os meus. Um sorriso se abriu em seu rosto. Eu não pude deixar de fazer o mesmo.
– Obrigada. — Corei. Ouvi um barulho dentro do quarto e Mary dizendo que a autora do barulho tivesse mais cuidado. Me lembrei, então, de que deveria avisar a Maxon sobre minhas convidadas de honra — Ah, se importa se Mary, Allye e Anastasia jantem com a gente?
Ele pareceu surpreso, mas nem um pouco zangado.
– Claro que não. Por que achou que eu veria problema?
– Eu não achei — Confessei. Não queria que ele achasse que eu pensava mal dele — Eram elas quem estavam todas com medinho.
Ele riu da forma infantil como disse "medinho". Até eu ri da minha babaquice. Ele estendeu o braço para mim e eu não posso dizer que não excitei em segurá-lo. Não queria que ele criasse expectativas sobre mim que eu não pudesse responder a elas. Mas, por fim, enlacei meu braço ao seu.
– Elas estão prontas? — Perguntou-me.
– Estão, ah... Meninas, venham! — Gritei para elas.
– Nós já vamos. — Mary gritou de volta o mais baixo que pôde — Podem ir indo na frente. Allye derrubou umas coisinhas aqui...
– Tudo bem, então. Espero vocês lá em baixo.
No fundo do fundo, eu sabia que não havia essa história de "Allye derrubou umas coisinhas aqui". Quer dizer, Allye era desastrada, podia até ter derrubado, mas de propósito. O que elas queriam era me deixar sozinha com a Alteza. Elas queriam que tivéssemos um tempo à sós... Meu Deus, por que todos, em vez de esperar meu tempo, simplesmente me empurravam para Maxon?
– Sabe, hoje eu me lembrei das minhas criadas. Quando elas disseram seus nomes e se apresentaram com coisas que já havíamos feito, eu me lembrei delas. — Disse a Maxon. Ele me encarou com brilho nos olhos — Achei que quisesse saber disso.
– Que maravilha, America! — Exaltou — Acha que isso aconteceu por que?
– Eu não sei. — Isso era uma verdade — Eu nem estava tentando me lembrar. Estava apenas preocupada em decorar seus nomes.
– Você lembrou de mais alguma coisa?
– Não. — Isso era uma mentira — Só aqueles flashes que não ajudam em nada.
Ele assentiu com a cabeça e nós chegamos ao Grande Salão. Para minha alegria, minha família já estava ali. Entre risos e lágrimas, cumprimentei a todos. Eu achava que estava com saudade deles, mas, na verdade, era muito mais que isso. Minha mãe chorou e não parou de dizer o quanto me amava e o quanto eu tinha feito falta. Embora minha mãe fosse, em geral, bastante rígida e um tanto manipuladora, ela só queria nosso bem. E eu a amava tanto que doía pensar em seu sofrimento enquanto eu estivera "morta".
Mas foi com May que eu me derreti. Ela estava tão grande que eu me assustei quando a vi. Ela chorou também, não tanto a ponto de soluçar como mamãe, mas o sufciente para fazer meu coração se apertar. Eu a apertei tanto a mim, queria protegê-la, queria fazer com que ela entendesse que eu não a abandonaria novamente. Ela já estava tão junta a mim que era como se fizesse parte do meu corpo.
Kenna, James e Gerard vieram por último. Gerard, com sua mania de agarrar-se e pendurar-se em nosso pescoço, só me largou quando enfim mamãe interferiu. Com James foi breve, mas não menos importante. Já Kenna, chorou pencas quando nos abraçamos. Eu era um tanto distante de minha irmã mais velha, mas, pelo visto, nós tínhamos nos aproximado bastante uma da outra nos dois anos que se perderam em meu cérebro. Kenna me apresentou minha sobrinha que eu não fazia a menor ideia de que tinha e eu me encantei pela coisinha que corria para lá e para cá e que chamava "titia" aos quatro ventos.
Vasculhei entre minha família por meu pai, mas não o encontrei. Estranhei isso. Eu esperara tanto por seu abraço reconfortante.
– Mãe, onde está papai? — Perguntei, voltando a vasculhar pelo Grande Salão.
Todos se entreolharam e eu vi as lágrimas de May, há pouco controladas, voltarem aos seus olhos e escaparem para suas bochechas. Kenna apertou o ombro de mamãe numa tentativa falha de a desejar força. Eu já estava assustada. Será que papai havia sofrido um acidente e não puderam vir ao jantar? Maxon se aproximou mais de mim e acariciou minhas costas. Agora eu estava em pânico.
– Alguém pode me explicar o que está havendo? — Questionei, as lágrimas pelo improvável já querendo me dominar.
– Enquanto você estava na Seleção, há pouco menos de dois anos, seu pai sofreu de taquicardia e... e... — Mamãe não conseguiu terminar de falar e buscou apoio no abraço de Kenna, mas para bom entendedor, meia palavra bastava. E eu já havia entendido tudo.
Kenna respirou com dificuldade e soltou:
– Ele morreu, America. Papai está morto.
Não sabia como, mas eu havia caído sentada no chão, minhas pernas sem força. Por maior tristeza que eu sentisse, as lágrimas não tiveram força de descer pelos meus olhos. Eu estava abalada, é claro, estava aterrorizada, mas eu não sentia a dor catastrófica que eu devia sentir. Cerrei meus olhos com força e me lembrei. Lembrei-me de chorar no avião, a caminho de Carolina. Lembrei de uma May desesperada agarrada a barra da saia de mamãe e de um Gerard desolado liberando sua dor esmurrando o chão. Lembrei-me da multidão que foi prestar homenagem a papai e também da briga com Kota.
Eu já liberara minha dor e minha tristeza naqueles dias. Eu não tinha mais o que sofrer.
Maxon ajudou-me a me levantar do chão e enxugou delicadamente com a ponta dos dedos as poucas lágrimas que me escaparam. Voltei a abraçar mamãe e May e tentei acalmá-las. Onde quer que papai estivesse, sabia que ele deveria estar feliz por eu estar viva e bem e que ele não iria querer que passássemos esse jantar em família chorando.
– Aconteceu alguma coisa? — Uma voz de mulher me sobressaltou. Devia ser a tal Marlee. May sorriu para mim, assinalando que estava tudo bem e eu e Maxon fomos receber a garota.
Era loira e de olhos castanhos vivos. Ela me abraçou fortemente e eu retribuí isso, mesmo sem ter a mínima ideia de quem ela era. Pelo visto, lembrar da morte de papai e de quem eram minha criadas já eram uma dádiva grande demais para um dia só. Eu não reconheceria Marlee hoje, tive certeza.
– Sei que não sabe quem eu sou, mas é muito bom ver você viva. Quer dizer, não que estivesse morta, mas... Ah, você me entendeu!
Depois de Mary, Allye e Anastasia finalmente terem a certeza de que não me "incomodariam" e descerem, todos fomos jantar. Papai fazia falta em nossa mesa, mas eu me sentia feliz por estar com todos que me amavam ao meu redor. May tagarelou um bom tempo numa tentativa de reavivar minhas lembranças. Contou-me de como foi quando descobri que participaria da Seleção, sobre como se sentiu quando soube que eu era a preferida do público e de como meu casamento foi aos seus olhos. Kenna me falou sobre sua gravidez e de como eu não pude ver Astra assim que ela nasceu por eu estar confinada — Palavra que ela usou, como ela mesmo diz, de forma carinhosa — na Seleção e me mostrou a foto da família toda reunida ao redor de uma Kenna radiante com a pequena Astra nos braços. Marlee se mostrou engraçada e ótima para conversar com May — Só ela aguentava encher os ouvidos com tantas histórias de minha irmã e ainda comentar todas elas. No final, nosso jantar foi o melhor que eu podia me lembrar de ter tido.
Depois do jantar, mamãe e May insistiram que queriam ver Eadlyn. Eu e Maxon as avisamos de que ela estava dormindo, mas elas juraram não fazer barulho. Em mais uma visitinha rápida aos aposentos da princesa, não me cansei de apreciar sua beleza, mas, quando ela começou a se remexer, inquieta, tratei de expulsar todos do quarto. Me despedi de minha família e de minha mais nova amiga, Marlee, e dispensei por hoje os cuidados de minhas criadas. Subindo para o meu quarto, companhada de longe por um Maxon que excitava em interferir em meu espaço, fui direto para o meu quarto, esperando apenas para dar boa noite a Maxon.
– Boa noite. — Desejou-me de volta e entrou em seu quarto.
Entretanto, eu não consegui ter uma. Depois de lavar todo o meu rosto da maquiagem e de me livrar dos sapatos apertados, tomei um banho rápido e caí na cama. Mas nem por um segundo consegui dormir. Pensamentos sobre minha conversa com Willa e sobre meus sentimentos me afogaram de tal forma que não conseguia respirar. Sentei-me na cama, uma pontada de dor de cabeça ameaçando a virar uma enxaqueca forte. Descobri que ficar em pé diminuia isso, por incrível que pareça, então decidi tomar um pouco de ar na sacada do quarto.
Atravessando a porta transparente da sacada, eu dava de cara com os jardins, uma grade de proteção tomando de conta para que eu não caísse. Sentir o cheiro do verde da grama molhada pela chuva fora de época e a brisa noturna esvoaçando-me os cabelos era uma das melhores sensações de todas. Apoiei meus cotovelos no parapeito da grade e inalei aquele ar que lembrava casa, que lembrava Carolina. A lua e as estrelas iluminavam o céu negro, o que me chamou a atenção, pois, em Carolina, quase não se dava para ver as etrelas à noite deivdo as luzes da cidade. Mas outra coisa me chamou mais a atenção. Ali, na outra sacada, separando de mim por apenas uma parede, estava Maxon, os cabelos molhados e despenteados e a blusa branca fina que deixava aparente seus músculos, debruçado no parapeito da sua grade também.
Cogitei a possibilidade de tentar deixar a minha sacada sem ser vista, mas desisti. Por que faria isso? Não tinha sentido. Eu estava aqui, ele estava ali, ambos aparentemente sem sono. Por que não?
– Psiu! — Chamei-o. Ele sorriu ao me ver — O que faz aqui?
– O que você faz aqui? — Replicou. Dei de ombros com uma cara despreocupada.
– Estou sem sono.
– Você não é a única. — Ele disse — O que está tirando seu sono?
– Eu também gostaria de saber. Talvez tudo.
Ele sorriu e passou um tempo analisando a estrutura da parede que nos separava. "Se afaste" ele ordenou e, segurando-se às laterais da divisão de concreto, deu um salto que em segundos o transportou para minha sacada. Primeiro, fui tomada pelo medo. Depois, eu era pura adrenalina, como se eu mesma tivesse a metros e mais metros do chão e tivesse pulado de uma sacada para outra. Por fim, veio a raiva.
– Está louco? Você podia ter morrido se caísse lá em baixo! — Ofeguei, socando seu ombro inutilmente. Eram meus punhos que doíam.
– Ah, qual é. Eu não ia morrer. Sou cuidadoso. — Assegurou, um sorriso de triunfo que eu julgava ter a ver com a minha raiva dançou em seus lábios.
– Como pode ter tanta certeza? — Perguntei, o medo se dissipando aos poucos.
Ele virou as palmas das mãos para cima e simplesmente disse o que vinha sendo minha resposta para todas as perguntas que me faziam:
– Eu não sei.
Ri de mim mesma. Ele não estava nem aí com a possibilidade de ter morrido e eu aqui, toda histérica.
– Então... — Disse, balançando-se nos calcanhares de frente para trás repetidas vezes — Você vem sempre aqui?
Gargalhei.
– Não, e você? — Entrei em sua brincadeira.
– Não. Mas vou passar a vir.
Nós rimos novamente. Era engraçado como Maxon, que eu conhecia há tão pouco tempo, tinha o poder de me arrancar um sorriso sempre que queria. A imagem de rei sério devia ser só fachada porque, por dentro, o homem que eu estava conhecendo, era a pessoa mais para cima, divertida e irracional a ponto de pular de um sacada para outra de todos.
Um vento frio fez meus pelos se eriçarem e eu me lembrei de que estava só de camisola e que um fino e quase transparente robe cobria o que a camisola não conseguia. Fechei-o e ocultei minha camisola o máximo que pude. Me sentia tão imoral por estar com tão pouca roupa perto dele...
– Está frio. — Maxon constatou, olhando as nuvens — O tempo está fechando. Acho que vai chover.
– É. — Foi tudo o que eu disse. Pensei na lareira do meu quarto e tentei aquecer-me só com o pensamento de eu enfrente a ela. Maxon pareceu ler meus pensamentos.
– Você deveria entrar e tentar dormir. — E, brincando, completou — Prometo que não vou deixar ninguém incomodá-la, pulando em sua sacada.
Sorri e bocejei. Conversar havia me dado sono.
– Tudo bem. Tente dormir também. Vossa Majestade terá um dia longo pela frente amanhã.
Ele fez uma cara exagerada de exaustão.
– É a vida, não é. — Balançou os ombros — Boa noite, America.
– Boa noite.
Dei às costas a ele e esperei que me seguisse para que entrasse em seu quarto pela porta que o ligava ao meu, mas ele não o fez. Quando me virei, ele já estava a ponto de pular. Com um grito agudo, o fiz parar.
– O que foi? — Perguntou, assustado.
– Nada, é que não vou deixar você se arriscar de novo pulando isso aí.
– E como sugere que eu retorne ao meu quarto?
– Pela minha porta. — Fiz uma cara de obviedade. Ele sorriu.
– Tudo bem, então.
Entramos em meu quarto e eu logo tratei de fechar as portas da sacada. Estava frio demais para qualquer outra brisazinha à mais. Peguei a chave sobre a escrivaninha para destrancar a porta e a abri. Maxon adentrou no quarto e me lançou uma piscadela.
– Obrigado por salvar a minha vida. — Disse por fim — E, a propósito, estava linda hoje no jantar, mas está mais bonita assim, agora.
Olhei para mim mesma e depois para ele. Uma camisola de seda curta, um robe branco transparente e os cabelos praticamente assanhados. Eu não parecia bonita. Maxon, entretanto, era o que se podia dizer de beleza em todas as formas. Nem tentando ele ficaria feio.
– Obrigada, então. — Sorri, sem graça e fechei mais o robe, embora tivesse a certeza de que ele não se referia ao meu corpo.
– Descanse. — Disse-me.
– Você também.
Com um último aceno de cabeça, ele me deu às costas e eu fechei a porta. Entretanto, não vi necessidade em trancá-la.
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