The New Royalty
27 Capítulo 27
Notas iniciais
– As sessões vão começar agora? — Perguntei depois de engolir mais uma colherada.
– Sim, quanto mais rápido, melhor. — O médico, Ashlar, disse — Achamos que devesse começar com o rei já que é tarde e não seria delicado chamarmos a sua família a uma hora dessas.
– T-tudo bem. — Gaguejei. Eu mal podia esperar para resgatar minhas memórias e também para me desculpar com Maxon. Eu o havia chamado de louco e dado um tapa em seu rosto quando um beijo não era nada demais já que éramos... casados.
Fitei novamente a linda aliança em meu dedo. Prateada com uma grande pedra em oval, encrustada com diamantes. Ela reluzia à luz fluorescente das luminárias no teto. Havia se tornado meu passatempo favorito girá-la em meu dedo, ver todos os pequenos diamantes brilhando como as estrelas no céu de Carolina. Quando eu iria imaginar que usaria uma aliança de casamento tão luxuosa quanto esta?
– Os deixaremos à sós. — Vanessa anunciou.
Ergui a cabeça para ela.
– O que?
– America, querida, serão nossas vidas particulares. — Maxon explicou com sua voz aveludada. Gelei com a perspectiva de saber mais sobre nossas "vidas particulares" — E além do mais, Ashlar e Vanessa têm mais o que fazer do que ficar ouvindo meus monólogos, não é?
Eu sorri, mesmo estando uma pilha de agonia. Maxon só estava tentando descontrair um pouco as coisas que estavam tão pesadas entre nós dois. Argh! Por que eu tinha que achar até a forma como ele descontraía perfeita? Se eu virasse uma dessas pessoas melosas, juro que daria um tiro em mim mesma.
Absorta em pensamentos, nem percebi quando Ashlar e Vanessa foram embora, deixando-me só com Maxon. Por mais que eu ansiasse por todas as histórias que ele contasse, eu temia que ele voltasse a tentar algo comigo. Digo, da última vez em que ficamos à sós, ele me beijou e eu dei-lhe um tapa na cara e eu realmente não queria ter que fazer isso de novo. Ele tentou decifrar meu rosto por um tempo, depois abriu um sorriso largo. Eu sorri também, era o mínimo de educação que eu podia ter, não é?
– Bem, Alteza, eu queria começar me desculpando. — Disse, sentindo meu rosto corar ao me lembrar do acontecido.
Ele apenas sorriu.
– Está se referindo ao tapa? — Indagou e eu corei ainda mais, mas não havia crítica ou acusação em sua pergunta.
– Sim. — Murmurei.
– Não tem problema, você não teve culpa. É que eu não sabia que você... bem, você sabe. — Respondeu. E, se recostando no encosto da poltrona, disse: — E então, por onde devo começar? Posso ir do começo ou simplesmente falar coisas aleatórias, você quem sabe.
Ponderei sobre suas palavras. Como eu poderia escolher de que ponto ele deveria começar se eu não me lembrava de nada? O que eu mais queria saber? Talvez da minha temporada no palácio, na Seleção, em como acabamos nos apaixonando... Ou talvez depois disso. Eu não tinha certeza de nada, tudo o que queria era que minhas memórias voltassem para que nenhum de nós precisasse passar por isso. Devia ser tão estranho contar como foi que tudo aconteceu...
– Tudo bem, errr... Hm... Poderia... Poderia começar pelo casamento. — Eu disse — A cerimônia, a festa e tudo o mais... Vanessa disse que tivemos um bom tempo casados, só depois começou essa tal guerra... — Pedi.
– Tudo bem. Hm... Foi uma grande festa. Representantes de todos os países vieram, não só pelo casamento, mas também pela coroação. Você estava com um longo vestido branco com detalhes em renda, sua coroa cintilava mais do que todas as joias na igreja e você usava o mínimo de maquiagem. Era a noiva mais linda do mundo. — Corei, mas ele não viu. Ele estava de olhos fechados, provavelmente querendo ver tudo novamente, até os mínimos detalhes — Depois do sim, houve a coroação. Fizemos nossos juramentos e recebemos o poder de governar Illéa . Na festa, você dançou com todos os convidados homens, era obrigatório, questão de educação, acho. Foi o período em que ficamos mais tempo sem nos falar — Ele riu consigo mesmo — A festa no palácio acabou só de manhã e você já estava morta, já tendo desistido de seus sapatos há décadas.
Eu ri. Isso era tão típico meu. Ele abriu os olhos e sorriu ao me ver rir. Eu estava gostando disso, podia até imaginar como eu estava no casamento... Mas imaginar não era o suficiente. Eu precisava lembrar.
– E o que mais? — Perguntei.
– Só. Sou bem péssimo nisso pelo visto, não estou ajudando muito, não é? — Questionou, sorrindo sem humor.
– Não, está sim. — Respondi, vendo flashes novamente enquanto repassava o que Maxon havia me contado — Eu vejo flashes. — Confidenciei.
– Como assim? — Ele se empertigou na poltrona.
– Vejo imagens fragmentadas, é pouca coisa, mas acho que é um bom sinal. — Expliquei. Seus olhos se encheram de brilho.
– Sim, é claro que é! — Exasperou — Quem sabe se eu contar mais detalhes...
Eu ri de seu entusiasmo. Ele parecia tão inacreditavelmente feliz com tão pouca coisa que foi como se ele me contagiasse com isso também.
– Tudo bem, tudo bem. Deixe-me pensar em mais...
– Não, tudo bem. Pode contar o que aconteceu depois, se você se lembrar depois de mais alguma coisa, você me conta. — Disse. Eu estava louca para saber sobre mais — E então, depois da festa, dos meus pés descalços...?
– Ah, bem... Teve a — Ele mordeu o lábio inferior de apreensão e fingiu se entreter com um cubo de cristal no criado-mudo. Sua timidez chegava a ser fofa — lua-de-mel.
Se antes eu estava gelada, agora eu era o Pólo Norte inteiro. Suspirei.
– Nós viajamos? — Comecei com o básico.
– Não, não pudemos nos ausentar do país, não por enquanto. Nossa lua-de-mel aconteceu no palácio mesmo. — Ele voltou a fechar os olhos. Era mais fácil para mim não ter que fugir do seu olhar — Foram como férias... Trinta dias sem trabalho, tempo apenas para nós dois.
– Tivemos tinta dias de lua-de-mel?! — Indaguei.
– Sim. — Ele sorriu e abriu os olhos — Você queria o máximo de tempo possível de distância das responsabilidades reais.
Eu sorri.
– Claro, isso é tão eu. — Revirei os olhos para mim mesma. Mas quem não se assustaria com o poder de governar um país?
– E... tem certeza de que não precisa do resto? — Perguntou. Ele estava com os olhos abertos agora, analisando minha expressão.
Não, pensei, eu realmente não queria saber! Quer dizer, sim, eu queria... Mas... Ah, que droga!
– Não. — Limitei-me a dizer. Brinquei um pouco com as pontas dos meus cabelos. Sentia seus olhos sobre mim e sabia que eu estava agindo como uma idiota. Se tivesse mesmo acontecido, eu não podia mudar nada. Estava no passado e eu não poderia arrancar essas memórias de Maxon, privá-lo de revivê-las... Estava agindo como uma garotinha.
– Você precisa de todas as suas memórias. Elas lhe fazem falta, mesmo que você não perceba. — Disse, coçando o pescoço como se estivesse indiferente. No fim, éramos duas crianças fugindo de algo que já havia acontecido.
– Por favor, não me faça passar por isso. — Supliquei rapidamente. Busquei deixar a aparência de estar brincando para que eu não parecesse mais ridícula ainda — Pule essa parte.
– Tudo bem. — Ele riu e se levantou quando eu bocejei, desamassando o terno aberto — Podemos fazer isso amanhã de novo. Esses flashes foram só o começo. Agora, tudo o que você tem que fazer é dormir. Bons sonhos, querida.
Ele meneou a cabeça para mim e eu me senti... desamparada. Quando ele me deu as costas para sair do quarto, percebi que ele estava realmente disposto a esperar meu tempo e que só por essa sua atitude eu deveria quebrar um pouco o gelo.
– Eu não mordo. — Ousei dizer.
Podia ser coisa da minha cabeça, mas, vendo a altitude de sua bochecha, eu julgaria que ele estava sorrindo.
– Mas bate. — Replicou. Voltei a me sentir mal, mesmo sabendo que esta não era sua intenção.
Ele se aproximou de mim novamente, devagar, e se esticou para me dar um beijo na testa. Seus olhos encontraram os meus e eu senti a sensação estranha de novo, aquela de quando ele fala ou de quando ele sorri. Revirei os olhos internamente para mim. Como eu era otária... Ele sorriu para mim e piscou o olho de uma forma engraçada, meio desengonçada, fazendo os dois olhos piscarem e sua face se transformar em uma careta.
Uma careta que não diminuía um décimo de sua beleza.
– Boa-noite, America. — Desejou-me.
– Boa-noite, Alte... Maxon. — Corrigi-me a tempo. Ele sorriu.
Depois de ele sair do quarto, virei-me para o outro lado e tentei dormir. Em vão. Em um dia, eu havia descoberto que tinha perdido a memória, que estivera em coma, que tinha uma filha, que era rainha, que meu casamento havia sido a cerimônia da década. Havia descoberto mais sobre mim e sobre como as pessoas me enxergavam, mas, acima de tudo, descobri que era amada como ninguém jamais foi. Arfei. Isso não estava acontecendo. Não podia ter o amado. Amor não se esquece nem com a morte. Como poderia ser casada com o rei? Não tinha cabimento!
Mas, ainda assim, dentro de mim, eu sabia que tudo isso tinha acontecido. Quem estava errada e alheia era eu.
Forcei minha cabeça novamente, desejando que mais flashes me tomassem. Por sorte, meu desejo foi atendido. Era como o mundo visto pelos meus olhos, realmente. Eu vi meu vestido branco à lá princesa, e via minha mão tremer com violência, debatendo-se contra a saia do meu vestido. Via meu caminhar lento até o altar e via Maxon, no fim de todo o trajeto, esperando-me com um sorriso espetacularmente lindo.
Como sempre, perdi o fio da meada e deixei que as lembranças se dissipassem em uma nuvem esbranquiçada. Mas agora eu tinha fácil acesso à elas. Elas me pertenciam novamente, como deveria ser.
Agora, sou eu quem controla a minha mente.
Logo nas primeiras horas da manhã, fui liberada do Hospital — Depois de passar por uma bateria de exames que, de acordo com o que o Dr. Ashlar disse, mostrava que estava tudo bem. Maxon fez questão de me conduzir pelo palácio, mostrando-me cada pedacinho minucioso dele. Não almoçamos juntos já que ele tinha muito trabalho para fazer. Ele me explicou mais sobre como havia acontecido a tal guerra contra os chineses e, agora, eu já me sentia quase "por dentro" da situação toda. Maxon disse que foi uma guerra tão curta que nem deveria ser considerado "guerra". Durou apenas algumas horas, horas de pânico, mas nada que alarmasse tanto a população. Não houveram bombardeios nas outras províncias, tudo foi focado em Angeles. Pelo visto, a intenção dos chineses não era acabar com o país, e sim acabar com a monarquia dele.
– Você terá sessão com psicólogos hoje? — Maxon perguntou enquanto subíamos as escadarias de mármore.
– Sim. — Bufei — Ashlar e Vanessa querem que comecemos tudo o mais rápido possível.
– Hm... Teve mais flashes? Sonhos enquanto dormia? — Indagou. O que ele estava fazendo? Lendo minha mente? Eu era tão previsível assim?
– Não. — Menti — Nadinha mais. Talvez eu tenha na sessão com os psicólogos hoje.
– É, talvez. — Ele olhou para o relógio com pesar e continuou: — Eu sinto muitíssimo, mas preciso cuidar de algumas coisas ainda relacionadas a guerra. O Grande Salão ainda precisa de algumas reformas, não posso deixar isso para depois.
– Ah, claro. Tudo bem, sem problema. — Disse. Ele sorriu.
– Quer que eu lhe mostre seu quarto antes?
Eu não queria atrasar seu trabalho, mas, mesmo assim, como acharia meu quarto dentre tantos nesse palácio gigantesco? Tive que concordar. Maxon e eu subimos mais um lance de escadas até chegarmos ao quarto. Era enorme, maior que a minha casa toda em Carolina. Havia uma cama onde eu podia rolar bem dez vezes sem parar, uma sacada que dava para os jardins, um banheiro quase tão grande quanto o quarto e um closet repleto de roupas luxuosas, vestidos longos e brilhantes e joias caras e realmente dignas da realeza. Entretanto, tudo isso parecia muito para mim.
Também havia uma parte dedicada à música a um canto, próximo a sacada. Um piano de cauda branco, um violino, um violoncelo e uma estante cheia de discos e CD's. Procurei por algo familiar nesses discos todos e, por mais incrível que pareça, tudo me lembrava de casa. Mas eu não tinha tantos discos assim em Carolina, não podíamos simplesmente gastar dinheiro com esse tipo de artigo de luxo.
– Como sabia de que músicas eu gostava? — Questionei. Isso era confidencial, algo que eu tinha absoluta certeza de que não compartilharia com ninguém.
– São as mesmas que eu gosto. Foi simples. — Deu de ombros.
Dei uma olhada nas partituras também e, além das que eu gostava como o hino de Illéa, também haviam as que eu mesma havia composto. Céus, pelo visto, não tinha nada sobre mim que Maxon desconhecesse. Dei de cara com uma porta como a para entrar no quarto e tentei abrir, mas ela estava trancada. Senti-me quase frustrada por haver uma ala em meu quarto em que eu não poderia adentrar.
– Estamos na suíte da rainha. — Maxon começou a explicar — Esta porta dá para a suíte do rei.
Ele tirou do bolso uma pequena chave dourada e enfiou na entrada da maçaneta. A porta se abriu imediatamente, deixando-me ver uma parte de sua suíte.
– Dormíamos separados? — Questionei. Ele riu um pouco.
– Não. Você sempre ignorou este quarto. Dormíamos na suíte do rei, aqui estava desocupado até agora. — Disse, dando-me a chave dourada — Tome. Achei que precisasse de um pouco de privacidade. Pode deixá-la trancada.
Assenti. Maxon era tão fácil de se lidar.
– Vou deixá-la um pouco sozinha agora. — Anunciou — Se precisar de alguma coisa, estarei em meu gabinete. Suas criadas virão logo para lhe fazer companhia e há dois guardas de prontidão na porta para qualquer caso de emergência.
– Eu simplesmente não posso ficar sozinha? — Perguntei. Não precisava de um milhão de babás.
– Sinto muito, mas nossa privacidade é bastante limitada aqui. — Ele tirou uma mecha do meu cabelo dos meus olhos — Você já estava acostumada a isso.
– Hm... Então, se eu me acostumei uma vez, posso me acostumar de novo, não? — Disse, mais para mim mesma do que para Maxon.
Ele sorriu e saiu do quarto. Espiei pelo olho mágico para ver se ele estava certo. E, sim, ele estava. Haviam dois guardas guardando minha porta com bastões cruzados. Isso tudo parecia tão ridículo, quer dizer, quem viria aqui me sequestrar?
Passei um pouco do tempo tocando piano, depois, violino. Quando cansei, simplesmente passei a ouvir música. Tentei decorar algumas de que eu não me lembrava, mas parecia que nada podia entrar na minha cabeça. Não sabia por que, mas queria estar sozinha, mas, ao mesmo tempo, me sentia mal por estar assim. Queria gente e queria sossego... Isso com certeza não era algo normal.
Desisti de tudo e fiquei apenas deitada na grande cama de dossel, abraçada aos travesseiros. Tudo isso era tão irreal. Eu nunca sonhara em participar da Seleção, em me casar com o príncipe... E, agora, isto estava acontecendo. Ou melhor, tinha acontecido. Pensei em como eu levava uma vida diferente da que eu provavelmente levaria a partir de agora. Era uma casa cheia, não dessas frescuradas de mordomos, criados e guardas, e sim de irmãos. Tínhamos pouco espaço e o dinheiro era curto, mas éramos felizes, entretanto. Bom, pelo menos eu era.
É claro que eu queria recuperar minhas memórias, afinal, elas compuseram uma boa parte da minha vida, talvez a mas importante, mas, ao mesmo tempo, eu me sentia receosa. Será que eu gostaria de ser rainha? De ser esposa? E de, céus, ser mãe? Era tudo tão absurdo...
Eu não tinha dúvida alguma sobre Maxon ser uma ótima pessoa, um bom rei e tudo o mais. Mas é preciso muito mais do que isso para amar alguém, não é? Sim, eu sentia uma coisa estranha às vezes quando ele sorria, ou dizia algo legal sobre mim, mas não era amor, disso eu tinha certeza. Era mais como... satisfação. Bem, ele vinha mostrando total adoração por mim desde que despertei do coma e, por mais que isso soasse fútil, eu gostava disso. Mas era só. Eu o via feliz por ele me ver bem eu gostava disso porque sempre gostei de ver pessoas felizes.
Só. Apenas isso. Eu tinha motivos bastante pertinentes para acreditar que eu não fosse nutrir nenhum tipo de paixão, amor, desejo ou outra coisa do tipo por Maxon. Um desses motivos tinha nome e sobrenome: Aspen Leger.
Aspen era meu namorado e a última pessoa que eu me lembrava de ter amado. Eu precisava falar com ele, precisava da sua ajuda. Só ele podia me esclarecer algumas coisas e só ele podia me mostrar a definição de amor porque se eu ainda o amasse... eu seguiria com isso. Desistiria dessa vida que todos dizem que tive e viveria ao lado dele. Afinal, é a minha vida, é o meu passado e o meu futuro. Não diz respeito a mais ninguém.
Pensei em Maxon novamente e em como ele ficaria se eu optasse por abrir mão dos dois anos em que estivemos juntos. Eu iria sentir muito por ele, mas é a vida. Cada um segue pelo caminho que seu coração ordena seguir, mesmo que seu cérebro insista do contrário.
Levantei-me da cama e me preparei para sair do quarto. Talvez eu fosse permitida a fazer uma viagem curta a Carolina para vê-lo, se não fosse, exigiria isso. Como rainha.
Argh! Abuso de poder...
Cumprimentei os guardas ao sair do quarto como a boa educação mandava e tive que dar-lhes um relatório completo de onde eu iria. Hm... Eu ainda não havia pensado nisso. Talvez a Ashlar? Ou mesmo ao próprio Maxon? Optei por Maxon. Ashlar era mais duro, não me deixaria sair e eu tinha certeza de que Maxon estava disposto a fazer o que quer que fosse para me ver feliz. Meu Deus, eu estava o usando! Isso era tão errado... Mas, mesmo assim, eu tinha que fazer.
– Irei ver meu marido. — Respondi com um nó na garganta ao me referir a Maxon assim. Os guardas assentiram e me indicaram onde ficava o escritório.
– Ouvi dizer que ela está biruta. — Um deles murmurou para o outro quando lhes dei às costas.
– Dizem que ela perdeu a memória e hoje pensa que é Reena Stolen, sabe, aquela cantora. — O outro respondeu.
– Coitada. — O primeiro se apiedou.
Apressei o passo até chegar ao escritório, me distanciando cada vez mais das mentiras dos guardas. Reena Stolen? Eu nem sequer sabia que existia uma cantora com este nome! Dei duas batidas excitantes à porta e ouvi a voz de Maxon me dizendo para entrar. Não pude deixar de notar seu sorriso quando ele viu que era eu. Procurei não fazer o mesmo, mas era quase impossível. Sorri de volta.
– O que aconteceu? — Perguntou, indicando a cadeira a frente dele. Me sentei.
– Eu queria sair. — Disse.
– Como?
– Eu disse que queria sair. — Engrossei e logo me arrependi disso.
– Eu entendi o que você disse, mas por que? Sair para onde? — Ele apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou mais com a cadeira. Eu podia perceber toda a sua confusão em seu rosto.
– Para Carolina. Preciso ver minha família. — Respondi o mais direta que pude.
– Mas sua família não está em Carolina. Eles se mudaram para Angeles e agora moram bem perto daqui. — Explicou-me, paciente — Eles já sabem que você acordou e virão hoje à noite, depois da sessão, para jantarem conosco.
Mas que merda!
– Bem, mas eu, ah... Não é só a minha família que quero ver. — Admito, brincando com a barra do meu vestido. Eu nem sequer conseguia olhar em seus olhos — Preciso falar com meu nam... ex-namorado.
Maxon ergueu as sobrancelhas, mas não havia sinal de ressentimento ou raiva nisso, apenas surpresa. Será que Maxon, eu e Aspen mantínhamos uma relação... amigável? Maxon era tão altruísta assim para desejar tanto a minha felicidade que me deixaria visitar meu ex-namorado?
– Mas ele não está em Carolina. — Disse — Ele trabalha no palácio, é guarda aqui.
– Sério? Onde ele está?
– Imagino que esteja nos portões hoje. — Respondeu, pensativo — Mas para quê tanta pressa?
– Tenho assuntos a tratar com ele. — Foi tudo o que eu disse.
Ao contrário do que eu pensei que ele fosse fazer, ele apenas assentiu e me indicou para que lado eram os portões. Ele estava sendo tão inumanamente prestativo que senti-me desconfortável por pensar em todas aquelas coisas hoje mais cedo. Ele sorriu para mim quando terminou de me dar as coordenadas.
– Mas não se esqueça da sessão, é muito importante. — Pediu.
Assenti com a cabeça.
– É claro. Obrigada.
Levantei-me da cadeira e me preparei para sair, mas antes, avistei alguns porta-retratos sobre sua mesa de trabalho. Em uma delas, estava eu e, meu Deus, deveria ser a minha melhor foto. Meu sorriso era tão natural, tão alegre que me fez querer sentir a mesma sensação que eu sentia no dia da foto. Eu estava nos jardins, isso eu podia perceber, e havia um girassol em meus cabelos. Eu estava naturalmente linda. Na outra foto, vi Eadlyn. Pequena, rosada e frágil, Eadlyn estava com os olhos bem abertos e eu fiquei fascinada por seu belo par de olhos castanhos. Era como se os lábios e os olhos de Maxon tivessem sido implantados nela. E também havia uma terceira foto. Nela, estávamos Maxon e eu e, a julgar por nossas vestes, eu diria que estávamos em nosso casamento. O vestido era exatamente como eu havia me lembrado, lindo e com partes rendadas. É claro que tinha todo aquele enchimento na saia à lá princesa, exagerado, mas o mais lindo de todos. Senti inveja da America da foto. Feliz, radiante, completa. Mas (a) eu não poderia ser feliz enquanto não soubesse a verdade, (b) eu não me sentia radiante sabendo que havia uma — Mínima e quase não notável, mas ainda assim — cicatriz em meu baixo ventre, e (c) eu não sabia como me sentir completa.
Toquei o vidro do pota retrato como se eu pudesse tocar a mim mesma naquele dia. Eu estava incontestavelmente feliz. E não estaria se não amasse o homem com quem eu acabara de me casar, não é? Que eu já amara Maxon, era fato. Mas se eu ainda o amava...
– Foi em nosso casamento. — Maxon disse, me despertando dos meus pensamentos. Eu já havia me esquecido de que ele estava aqui.
– É. Estava lindo. — Elogiei. Tudo bem, isso foi tosco, afinal, eu estava elogiando a mim mesma?
Ele sorriu.
– Sim, estava. Foi perfeito.
– Imagino. — Não, eu não imaginava. Me recompus imediatamente e lhe lancei um último sorriso — Tenho que ir. Obrigada novamente.
Depois de me perder algumas vezes no labirinto que era o palácio e de ficar checando a hora a todo instante para saber se eu já não deveria ir para minha sessão, encontrei o Grande Salão e, com isso, os portões. Haviam dois guardas, um de cada lado, seus bastões cruzados. Foi quase impossível reconhecer Aspen. Ele estava forte, mais alto e imponente. Minha primeira reação foi me assustar.
– Aspen. — Arfei. Não podia acreditar que ele estava mesmo na minha frente.
Seus olhos se iluminaram quando me viu. Esperei sentir aquela euforia de quando nos encontrávamos na calada da noite, aquele frio na barriga quando ele me olhava... Mas, pelo visto, algumas coisas haviam mudado muito nos últimos tempo.
– Soldado Leger, poderia me acompanhar? — Pedi. Em nome das aparências, eu deveria ser o mais formal possível.
Ele assentiu com a cabeça. Eu não sabia para onde ir, não conhecia nada no palácio e certamente não pegaria bem se eu o levasse para o meu quarto. Mas Aspen foi mais rápido e me guiou por um corredor deserto, as paredes repletas de quadros da realeza illeana. Ele olhou para os dois lados e só soltou o bastão quando viu que ninguém estava vendo. Estávamos à sós.
Pulei em seus braços assim que ele os abriu. Era tão bom estar perto de alguém familiar, saber que não estava perdida em um mundo esquisito.
– Ah, Aspen! Nem acredito que está aqui. — Disse, entusiasmada.
– Então é verdade? — Murmurou em meu ouvido. Algo em sua voz havia mudado, talvez fosse o treinamento e os suplementos que ele devia estar tomando — Você perdeu mesmo a memória?
Soltei-o. Sinceramente, eu não tinha ido atrás dele para falar sobre isso.
– É o que todos dizem. — Respondi, mal humorada.
Ele suspirou com pesar. Eu já não aguentava mais todos agindo como se eu fosse uma coitada.
– Eu sinto muito. Espero que recupere elas. Não sabe o quanto elas devem lhe fazer falta. — Disse. Por que diabos todos diziam isso?
– É, os médicos estão otimistas quanto a isso.
Ele sorriu, alegre com isso. Eu sentia uma certa distância entre nós, uma distância que meu coração não sentia a necessidade de diminuir, mas que minha cabeça clamava para que eu fizesse isso.
– Quando se acordou? Sua família veio lhe visitar quase todos os dias. Quer dizer, sua família e Illéa toda. — Brincou.
– Ontem. E... Ah... De lá para cá, sinto que não sou mais eu mesma. — Confidencializei, encostando-me à parede. Ele fez o mesmo, só que na parede a minha frente, e escorregou até se sentar no chão. Eu o imitei.
– É claro que não é. Mas você voltará a ser. É que isso daqui — Ele tocou minha têmpora com o dedo indicador — está sentindo falta do que perdeu.
– É, acho que sim. — Sorri sem humor e suspirei — Não sei mais o que fazer. Ontem, para mim, eu era apenas uma garota Cinco que tinha como maior preocupação o dinheiro curto da família. Hoje, eu sou esposa, rainha, mãe e desmemoriada.
– É. — Arrastou a letra — Eu não queria estar na sua pele, Meri.
Meri. Como eu gostava de ser chamada assim...
– Como você está? — Perguntei, tocando seu joelho. Talvez tudo o que eu precisasse fosse de uma conversa simples.
– Bem, muito bem. Adoro o que faço e estou na melhor fase de minha vida. — Disse, sorrindo. Me senti feliz por não ver mais aquele garoto magro e desamparado que sofria com a pobreza — Mas e você? As coisas não estão sendo muito fáceis, eu sei, mas o que está achando desta "nova vida"?
– Errr... Ainda não sei. Quer dizer, esta história de Seleção e rainha e príncipe encantado não quer entrar em minha cabeça. — Admiti.
– É claro que ela não quer e não vai entrar em sua cabeça. — Ergui minhas sobrancelhas. O que ele queria dizer com tudo isso? Ele sorriu com minha confusão — Porque ela já está em sua cabeça. Você só precisa descobrir onde.
Eu ri. Essa era uma das coisas que eu mais gostava em Aspen: Ele sempre conseguia contornar a situação, sempre transformando um clima tenso em algo descontraído. Eu admirava muito essa qualidade dele. Infelizmente, eu não era dotada dela. Aspen olhou para o relógio com chateação. Suspirei. Não podíamos mais ficar muito tempo jogando conversa fora.
– Já são cinco da tarde, acredita? — Disse, bufando — Tenho que voltar para o trabalho.
– E eu tenho que fazer uma visitinha a um psicólogo. — Dei de ombros.
– Boa sorte, então. — Desejou-me, levantando-se e se oferecendo para me ajudar a levantar também.
– Valeu. Para você também.
Ele bateu continência e pegou o bastão.
– Majestade. — Debochou, fazendo-me uma reverência tanto quanto exagerada. Dei um soco em seu braço — A gente se vê, Meri.
– A gente se vê.
Ele saiu do corredor a passos firmes, seus músculos contraídos. Se eu não o conhecesse, teria medo de sua performance ameaçadora como guarda do palácio.
Eu esperara sentir mais com Aspen. Voltar a ter aquela vontade avassaladora de tê-lo ao meu lado, de beijá-lo até o mundo se acabar... E, acima de tudo, esperava que ele sentisse o mesmo. Mas é claro que ele não iria tentar nada comigo, afinal ele já devia trabalhar no palácio quando Maxon e eu nos casamos, devia ter presenciado o meu amor por ele... Talvez ele já estivesse em outra.
Senti raiva imediatamente da garota sortuda, mas nada comparado a raiva que eu sentia em geral quando algo não dava certo para mim. Na verdade, eu nem deveria considerar esse sentimento como raiva. Era mais como... perda. Sim. Eu o havia perdido, mas isso não queria dizer que ainda não sentíamos nada um pelo outro. Eu podia ainda estar apaixonada por ele, Maxon podia ser apenas coadjuvante nessa história e Aspen podia ser meu verdadeiro príncipe. Ou, talvez, eu estivesse louca.
Espantando todos esses pensamentos da minha cabeça, fui até a ala hospitalar onde Ashlar disse que eu encontraria o psicólogo. No fim, precisei pedir que um mordomo me guiasse até a ala. Eu precisava memorizar logo esse palácio, esse negócio de pedir ajuda direto já estava ficando irritante.
– Por que há o Hospital e a Ala Hospitalar? Não era mais fácil ter apenas o Hospital, não? — Perguntei ao mordomo ao meu lado. Ele riu. Eu devia ser a rainha mais engraçada e perguntadeira de todas.
– Com todo respeito, mas Vossa Majestade deveria dar graças à Deus por existir uma ala hospitalar. Imagine só descer todas aqueles lances de escadas por qualquer gripezinha...
Sorri. Realmente, eram muitos degraus para subir e descer várias vezes ao dia, se preciso. Em minutos, chegamos a ala hospitalar. O mordomo fez questão de me deixar à porta do consultório fechado e, com uma reverência, saiu. Respirei fundo algumas vezes e bati à porta.
– Entre. — Ouvi uma voz grave, mas não menos feminina dizer.
Obedeci. A mulher, alta e de olhos tão azuis de doer na vista, sorriu ao me ver. Ela estendeu sua mão para mim e eu a apertei.
– Prazer em conhecê-la, Majestade. — Disse. Revirei os olhos.
– Por favor, sem essa de "Majestade", "Rainha" e tudo o mais. — Pedi. Ela sorriu.
– É claro. Bem, meu nome é Willa. Sente-se — Ela indicou a cadeira a sua frente — , teremos uma longa conversa.
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