Notas iniciais
Oe *-------* Como prometido, mais um capítulo! Sinceramente? Esse capítulo ficou meio bugado - Falo mesmo, sou nem baú :p - maaaaaas, é o que temos, não é. Prometo fazer algo melhor no próximo. Só isso mesmo... Beijinho, até lá em baixo e comentem ^^

O tal homem me olhou como se eu fosse louca. Não sei como explicar, mas, em algum lugar dos seus olhos, eu via sua dor. Não a dor da marca de meus quatro dedos em sua face — Que era muito bela, diga-se de passagem — , mas uma dor mais profunda, não física, mas emocional. Perguntei-me se essa dor dizia respeito a minha ação que, pelo visto para ele, era no mínimo exagerada. Mas nenhum pensamento durou muito em minha cabeça. Eu esava em choque. Acabara de ser beijada por alguém que eu não conhecia, apenas pela TV. Ou pior; acabara de deixar-me ser beijada pelo príncipe.

Seus olhos não desviaram dos meus nem por um segundo e eu sabia que, assim como ele mantinha o seu no meu, eu não deveria desviar meu olhar. Ele tocava a pele avermelhada de sua bochecha não como alguém que sentia dor, mas como alguém confuso. E eu era a causa de sua confusão.

Espantei para longe tudo o que eu tinha na cabeça. Ele ainda era um estranho completo. Não era porque era um príncipe, o herdeiro de Illéa que poderia se achar no direito de sair beijando todas as garotas que visse pela frente.

– O que diabos foi isso? Está louco? — Questionei com rubor de raiva no rosto. Ele pareceu se libertar do torpor, mas seus olhos castanhos não deixaram os meus.

– America, sou eu. Maxon. — Tentou explicar como se fosse óbvio. Senti um medo insano de que ele tentasse alguma gracinha comigo quando ele pegou minha mão. Era um gesto quase familiar.

Ou não.

– É claro que é. — Concordei no mesmo tom de obviedade — Como sabe meu nome?

Ele sorriu. Não era um sorriso leve e descontraído, tampouco um sorriso por algo cômico, mas, ainda assim, eu não conseguia desviar meu olhar de seus lábios rosados. Era belo, é claro, assim como tudo nele, mas eu não podia acompanhá-lo nisso. Não depois de um... beijo roubado.

Ele suspirou com pesar.

– Por favor, America, diga para mim que você sabe quem eu sou. — Pediu-me. Agora, não eram só seus olhos que carregavam a dor; sua face inteira estava transfigurada por ela.

– Primeiro, me diga como sabe quem eu sou. — Ordenei. Poderia até ser enraçada a minha situação. Quem diria que a Cinco America Singer ordenaria algo a Sua Alteza?

Pus-me de pé num segundo e cruzei os braços sobre o peito como uma garotinha birrenta. Estava vulnerável demais deitada assim. Mas isso não foi impecilho para ele voltar a pegar minhas mãos. Era estranha sua ação, desconfortável e invasiva, mas eu não me movi um centímetro para longe dele. Céus, como eu poderia estar assim, tão entregue a alguém que eu desconhecia?

– Você participou da Seleção, era apenas mais uma das trinta e cinco aos olhos de todos, mas a única que importava para mim. Você tinha um namorado e não sabia ao certo se seu coração batia mais forte por ele ou por mim. Você foi contra as regras do rei, quase foi expulsa da competição, mas não desistiu. — Ele pausou como se precisasse de fôlego. Do que é que ele estava falando? — Hoje, você é minha esposa e temos uma linda filha.

Ele falava com tanto fervor e intensidade que eu quase chegava a acreditar em suas palavras. Mas como podia ser que tudo isso tivesse acontecido? Eu nunca participaria da Seleção, tinha um namorado e ia me casar com ele. Eu não seria burra ao ponto de ir contra as normas do Rei Clarkson e jamais aceitaria, sob qualquer circunstância, me casar com o príncipe e ser a futura rainha do meu país. Onde é que já se viu? Eu nunca seria rainha, nunca arcaria com tamanha responsabilidade. O príncipe só podia ser maluco, ou então muito carente para fantasiar toda uma história comigo. Mas por que eu?

– Não sei do que está falando. — Confessei o mais calma que pude. Mamãe uma vez me ensinou que devemos tomar bastante cuidado com a forma como falamos perto de pessoas com problemas mentais. Talvez custasse a minha vida me estressar com o príncipe.

– America, pelo amor de Deus, não faça isso. Você precisa voltar, não pode simplesmente deletar da sua memória tudo o que vivemos. — Agora eu não estava mais apenas assustada. Eu acabara de entrar em pânico! O herdeiro de Illéa era mais louco do que eu havia previsto.

– Olha, você não está bem. — Contornei com calma — Você precisa chamar um médico, precisa se acalmar. Não sou a America que você procura, deve estar me confundindo. Eu não participei da Seleção, eu não me casei com você, eu não sou uma princesa e eu não tenho uma filha.

Seus olhos perderam o brilho que eu havia visto logo depois de me acordar. Ele soltou minhas mãos com delicadeza e não me encarou mais. Em um lapso, eu senti falta dos seus grandes olhos castanhos me fitando. Mas isso durou apenas segundos, tempo curto demais para me fazer desejar realmente que seu olhar recaísse sobre o meu novamente.

– Acha que sou louco? Acha que me faltam neurônios? — Indagou. Minha cabeça gritou um sim tão alto que senti uma enxaqueca querer me atacar.

– Não, não é isso. — Menti com maestria — Só estou dizendo que você deve ter coisas demais na cabeça, quer dizer, você é o príncipe, ajuda em grande parte a tomar conta deste país.

– Rei. — Corrigiu-me — Eu sou o rei.

– Claro, é claro que sim. — Concordei. Eu não podia simplesmente discordar de alguém que era louco, não é? Ele poderia se tornar um psicopata.

– Escuta, quer parar de agir na defensiva? De sempre concordar com tudo o que eu falo mesmo quando você acha que estou errado? Não sou louco e você sabe bem disso. — Nem suas palavras mais duras se tornavam grosseiras em sua voz aveludada.

– Não vai me matar? — Perguntei como uma idiota, afinal, se ele quisesse me matar, ele nunca assumiria — Não vai tentar nada que eu não queira? Não vai se revol...

– Não vai tentar nada que eu não queira? — Repetiu com injúria. Corei violentamente — O que acha que eu vou... Ah, não, America! O que acha que eu sou?

– Desculpe, eu precisava ter certeza de... Quê? Por que estou te pedindo desculpas? Foi você quem me beijou a força e foi você qum inventou ideias malucas sobre mim.

– Você não fez objeção nenhuma ao beijo. — Ele cruzou os braços sobre o peito em desafio. Eu riria de nossa estupidez se eu tivesse certeza de que realmente era apenas estupdez. Ele suspirou e relaxou os braços, deixando-os pender um de cada lado do seu corpo — Olha, precisamos contatar o Dr. Ashlar a respeito da sua perda de memória.

– Não perdi minha memória. — Permaneci na defensiva, já sentia a raiva começar a me dominar — Me lembro de absolutamente tudo o que já aconteceu e participar da Seleção não está incluso.

– Ótimo. Então... Que dia acha que é hoje? — Indagou. Fui pega de surpresa com sua pergunta. Eu era péssima com datas.

– Bem, ah... Ah! Doze.

– De que mês?

– Abril. — Respondi, convencida. Eu havia ganhado a guerra.

O príncipe levou as mãos a cabeça num ato de desespero. Senti pena dele assim, completamente insano. Será que seus pais sabiam de sua condição? Será que o Príncipe Maxon estava fazendo tratamentos? Eu esperava que sim. Illéa não poderia ter um rei com parafusos a menos na cabeça. Mas, mesmo com seus olhos carregados de dor e sua expressão de completa agonia, sua beleza não fora roubada.

Eu não era hipócrita. Não era porque ele tinha acabado de me atacar e de inventar histórias que eu não poderia adimitir que ele era dotado de uma beleza estonteante. O príncipe devia ter quase um e oitenta e oito de altura, seus cabelos eram loiros, mas não o tipo de loiro que eu estava acostumada a ver em Carolina. Era um loiro acobreado, meio dourado, o loiro que eu tinha certeza que mudava radicalmente de cor ao sol. Seus olhos eram castanho-chocolate, tão profundos e tão bonitos que eu tinha vontade de roubar para mim. E, para quebrar a palidez de sua pele, seus labios grossos e rosados davam um toque angelical, mas nada que diminuísse sua "beleza masculina", ao seu rosto.

– Vê isso? — Ele apontou para o calendário colorido na parede branca, parede esta que eu não conhecia — É dia dezessete de setembro. E olhe o ano.

Assustei-me com a data no calendário. Era dois anos depois do que eu imaginava ser. Mas, o.k., todo mundo se confunde. Talvez não tanto, mas...

– Eu errei, desculpe-me. — Reconheci — Mas isso não prova nada.

– Prova, prova sim. Mas você só entenderá isso depois. Quando suas memórias retornarem. — Ele insistiu para que eu descansasse mais um pouco e me ajudou a deitar na maca. Eu ainda não fazia a menor ideia de onde eu estava e isso me assustava ainda mais — Eu vou chamar o Dr. Ashlar, ele irá ver se está tudo bem com você.

– Eu estou bem. — Assegurei, mas não era totalmente verdade. Fisicamente, eu sentia que podia derrubar um touro; mentalmente, estava destruída — Onde eu estou?

Ele sorriu. Eu sentia uma trégua entre nossa discussão e, incrivelmente, me senti feliz por isso. Algo em mim não queria brigar com ele. Eu só queria entender o que estava acontecendo, onde eu estava e onde estava minha família. Não era pedir demais, era?

– Está no Hospital Real. Fica abaixo do palácio. — Explicou.

– Do palácio? O palácio fica em Angeles.

– E onde pensa que está? — Indagou.

– Em Carolina, é claro. Minha província.

Ele sorriu novamente.

– Estamos em Angeles, no subsolo do palácio da monarquia de Illéa. — Tornou a explicar.

– Que, de acordo com o que você diz, somos nós. — Afirmei. Eu sentia vontade de rir ao pensar que eu fazia parte da monarquia illeana.

– Sim. — Foi tudo o que ele respondeu. O príncipe voltou a se aproximar da maca, contornando-a até chegar a mim. Eu me sentia como uma formiguinha, impotente, deitada na maca. Ele acariciou meu rosto com suas mãos quentes e macias e fez meu corpo gelar quando se aproximou o suficiente para me beijar novamente. Mas ele desviou-se dos meus lábios, subindo os seus até minha testa e ali deixou um beijo. Doce e inacreditavelmente bom — Descanse. Eu chamarei um médico. O importante é que você está viva. — Murmurou.

Ele me lançou um outro sorriso, sorriso este tão genuíno que conseguiu arrancar-me um também. Ele me deu as costas e tocou a maçaneta da porta, pronto para sair.

– Alteza. — Reuni forças e chamei.

Ele se voltou para mim imediatamente.

– Por favor, me chame de Maxon. — Pediu.

– Não. Alteza soa bem melhor para mim. — Brinquei, mas logo o clima se quebrou quando perguntei: — Sabe que está errado, não é? Sabe que você não me conhece e não sabe nada sobre mim, certo?

Ele pareceu pesar o que eu disse, mas sua expressão estava indescritível. Eu não podia ter me casado com um homem assim, podia? Quer dizer, o príncipe tinha seus encantos; uma beleza fora do comum, senso de humor e facilidade para sorrir... Mas, ao mesmo tempo, isso tudo me parecia tão superficial, como se ele encobrisse uma dor lancinante enquanto um máscara de alegria ocultava seus sentimentos reais.

– Eu sei tudo sobre você. — Ele murmurou e eu via a força que ele estava fazendo para que não perdesse o foco em suas palavras. Esperei que ele continuasse calada — Sua cor favorita é azul, o azul dos seus olhos. Você tem dois pés esquerdos para a dança, tem temperamento forte e detesta ser a última a saber de alguma coisa. Você odeia surpresas e evita saber de segredos, se sente pressionada por todos a contá-los. É talentosa, fala pelo menos três línguas fluentemente, toca piano, violino, dá umas arranhadas no violoncelo e tem a mais bela voz que eu já ouvi. É linda, forte e decidida. Tem postura quando quer, mas abandona ela quando as pessoas que você ama estão em perigo. Você gosta de dormir de janela aberta para sentir os respingos da chuva, prefere calças à vestidos e tem medo de falhar.

Arfei. Eu realmente dormia de janela aberta, realmente detestava vestidos e realmente adorava azul. Ele sabia coisas sobre mim que eu mesma desconhecia ou que pelo menos fazia questão de esconder de todos. E tinha essa coisa estranha, essa pontada no peito que sentia quando ele fez menção de sair do quarto, a alegria involuntária que me preenchia quando ele sorria e minha vontade de não desgrudar meus olhos dele. E, mesmo assim, eu não sabia quem ele era. Entretanto, ele não havia terminado de falar:

– Você é America Singer Schreave, a rainha de Illéa, amada por todos que tem a oportunidade de lhe conhecer. Mãe de Eadlyn Schreave e a pessoa que eu mais amo em minha vida e não serão memórias perdidas que me farão deixar de te amar.

Ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com um baque seco. Sim, ele me conhecia como poucas pessoas, mas eu me lembraria de algo, não? Se eu realmente tivesse perdido essas memórias como ele insistia em dizer, mesmo assim algo teria ficado. Quer dizer, mãe? Acho que eu me lembraria se tivesse estado por nove meses carregando um filho na barriga e que... Céus, eu não podia ter um filho! A menos que eu não fosse mais virgem e eu tinha plena certeza de que eu me recordaria disso se isso tivesse acontecido.

Não. A louca não era eu. Era ele.

Poucos minutos depois, um homem bem mais velho, de cabelos grisalhos e óculos de grau na ponte torta de seu nariz me surpreendeu ao entrar no quarto. Ele não estava só, entretanto. Uma mulher, mais jovem que ele, mas na faixa dos trinta anos, o acompanhava. Seus cabelos eram loiros, curtos e espetados para todos os lados. Seu sorriso era tão largo que doía em meu maxilar.

– Olhe só quem deu o ar da graça. — A mulher brincou, rindo — Como se sente, Majestade?

Uma mistura entre risada, assobio e engasgo me escapou dos lábios. Eram todos louco pelo visto.

– Majestade? Sério? — Questionei.

– Sim, algo errado? — Perguntou com dúvida. O médico tocou o ombro dela como se para lembrá-la de algo. Ela arfou e então murmurou: — Oh, não.

Encarei-os com um ponto de interrogação pairando sobre minha cabeça. O médico percebeu isso e logo se recompôs, começando a me explicar de forma pouco clara o que provavelmente havia me acontecido.

– Senhorita America, posso lhe chamar assim? — Perguntou antes de tudo.

– Claro.

Ele assentiu com a cabeça e suspirou com pesar. Eu já estava entediada de todos com pena do que quer que tivesse acontecido comigo.

– Senhorita America, receamos que tenha passado por uma perda de memória, mas ainda não sabemos se é apenas da recente. Precisaremos fazer vários testes com senhorita para sabermos até que ponto suas memórias estão intactas, e a senhorita também terá que passar por sessões com psicólogos, psiquiatras, entre outros médicos da área cerebral. Não se preocupe, senhorita America, conseguirá suas memórias de volta, nem que isso demore cinquenta anos.

Sua fala era tão irreal, tão superficial que tive que me aguentar para reprimir o impulso de perguntar se ele já tinha ensaiado esse discurso em frente o espelho. Por que raios todos achavam que eu perdera a memória? Por que estava nesse tal Hospital Real? O que esses dois médicos tinham a ver com o Príncipe Maxon, minhas supostas memórias perdidas e... eu? Como eu poderia acreditar em qualquer coisa que eles diziam se eu nem sequer sabia o que e a causa disso ter levado minhas memórias? Isso era um quebra cabeça e as peças precisavam ser remodeladas para se encaixar. Mas quem as remodelaria?

– Eu gostaria de ficar sozinha. — Pedi com um sussurro. Era possível mesmo que eu tivesse vivido uma vida e não me lembrasse disso?

– Como? — A doutora perguntou.

Revirei os olhos. Eles eram burros?

– Suponho que saibam o que significa "Eu gostaria de ficar sozinha", não? — Repliquei, mas logo me arrependi. Eu não podia sair dando patada em todo mundo. Ninguém tinha culpa de eu ter perdido a memória...

O que? Eu realmente não pensei isso, pensei? Como podia estar começando a acreditar numa tolice dessas?

– Claro, Majes... — Eu lancei um olhar significativo a ela — America.

Os dois, sem jeito, se prepararam para sair do quarto. Eu queria ficar só, é claro, se não quisesse não teria pedido por isso. Mas eu também queria saber a verdade, queria saber o motivo de estar em um hospital e o porquê de eu não conhecer ninguém que parecia ser íntimo a mim. Suspirei. Eram coisas demais para se pensar.

– Espera. — Chamei-os. Os dois olharam para trás com uma falsa esperança nos olhos. Eles pareciam bichinhos de estimação que eu podia jogar uma bola para eles pegarem e devolverem para mim — Eu queria... Eu queria saber de tudo. Digo, saber o que aconteceu para eu estar deitada nesta maca. E saber também sobre o príncipe e minha, errr... Filha.

O homem pemaneceu impassível, mas a mulher sorriu. Talvez ela achasse que esse era o primeiro passo. Bom, ela estava redondamente enganada, então. Os dois se entreolharam e, apenas com suas expressões, eles conversaram. A doutora assentiu com a cabeça e o doutor apertou o ombro dela, como se a desejasse força.

A mulher, que eu ainda não sabia o nome — O que me irritava — , se dirigiu a mim enquanto o homem saía do quarto. Ela puxou uma poltrona para mais perto da maca e se sentou nela. Ela apenas me observou por uns instantes, lendo minha feição. Ela parecia dez anos mais velha sem seu sorriso. Entedie-me com tamanha atenção em mim.

– America, você viveu uma vida, uma vida na qual você não se lembra. — Começou, séria — E eu faço parte de zero vírgura zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, um dela. — Eu sorri. Pelo visto, não era difíil conversar com ela — Receio não ser a pessoa mais indicada para lhe ajudar a relembrar, eu apenas cuidei do seu pré-natal.

– Pré-natal. — Resmunguei. Eu não tinha um filho.

– Mas acho que essa parte, desde a primeira consulta até o parto, eu posso lhe ajudar. — Continuou como se eu não tivesse falado nada. Ela sorriu com a ideia que acabara de perpassar sua mente — Não quer conhecer sua filha?

Mordi o lábio. Eram tantas coisas para assimilar que minha cabeça chegava a doer. Ontem, eu era só uma adolescente Cinco com quatro irmãos e um namorado. Agora, de repente, eu era uma Um, rainha de Illéa, casada com o provável homem mais desejado do país e com uma filha me esperando no... berçario? Não, isso só podia ser um sonho, essas coisas não acontecem na vida real. Uma garota não se torna rainha do dia para a noite.

O mundo pareceu se embaralhar por completo em minha cabeça. Uma parte de minha mente dizia que todos estavam loucos, mas a outra aceitava suas explicações com tranquilidade. Era insano e inacreditável, mas era real. Se eu beliscasse meu braço, veria que estava acordada. Não era um sonho, eu não podia acordar dele em Carolina, com coisas nas quais recordava ao meu redor. Eu precisava tentar.

Todos estavam dizendo que o Príncipe Maxon era meu marido, que tínhamos um filho e um país para governar. Agora, eu não queria apenas reconhecer as pessoas que estavam a minha frente e que me conheciam como ninguém. Eu precisava resgatar essa parte da minha vida que simplesmente havia sido deletada como mágica da minha cabeça. Um casamento, uma gravidez... Eu iria pirar em questão de minutos se minhas "memórias" não retornassem.

– Quero. — Respondi.

Ela sorriu, se pôs de pé e me ajudou a levantar. Caminhamos por diversos corredores de paredes, piso e teto brancos. Era tudo tão claro e limpo que me dava náuseas. Eu não queria mais estar nesse lugar, queria ver minha família, voltar para minha província... Mas, pelo visto, eu estava presa a este lugar e só seria liberada quando recordasse a parte perdida da minha vida. Dobramos num corredor e eu vi em letras negras e quase fluorescentes no lugar claro e alvo o nome "Encubadoura". Se minha filha estava aí e não em um berçário, bom sinal não era.

– O que aconteceu comigo? — Perguntei enquanto ela tirava de dentro do bolso um chaveiro com no mínimo trinta e cinco chaves.

– Você teve complicações no parto e precisamos ganhar tempo para fazermos as cirurgias necessárias em você. — Explicou, testando as chaves uma a uma.

– Cirurgia?! — Gritei — Eu morro de medo disso!

– Sinto lhe informar que passou por duas. — Meu coração acelerou com violência.

– E como conseguiram ganhar tempo para mim? — Tornei a perguntar, meu interrogatório estava apenas começando.

– Precisamos induzí-la ao coma. Havia o risco de sequelas, claro. Sequelas estas como a perda de memória, mas Rei Maxon arcou com as consequências disso. Afinal, era induzí-la ao coma e o risco da perda de memória ou fazer a cirurgia às pressas e o risco da sua morte. — Suspirei. Tentei puxar algo disso da minha memória, algo como dor do parto, sangue e um bebê, ou até mesmo o rosto de Maxon. Mas nada veio a minha cabeça a não ser uns flashes esquisitos e aleatórios que eu não saberia explicar a quê se referiam.

– Pronto. — Ela abriu a porta finalmente e eu corri para dentro. Não entendia por que estava tão eufórica para conhecer a garotinha, mas que estava, estava.

Ela estava dentro de uma encubadora, mas não haviam fios ligando-a a alguma máquina. Havia um pequeno espaço para pôr a mão dento da grande cúpula transparente que a envolvia e eu não excitei em pôr minha mão dentro. Ela tinha a pele frágil e avermelhada e estava de olhos fechados. Seus poucos cílios eram um castanho diferente. Claros, quase louros, mas os cabelos de sua cabeça não negavam a descendência Singer. Suas bochechas cheias lembravam as minhas, mas seus lábios... Era como ver os do príncipe. Cheios, grossos e rosados. Ela era linda. Seu peito subia e descia conforme sua respiração calma e lenta, de vez em quando, entrecortada. Toquei a palma de sua pequena mãozinha e foi como se uma alegria repentina me tomasse. Não podia ser, mas era.

Eu tinha mesmo uma filha.

– É Eadlyn, não é? — Perguntei, sem querer mais soltar a pequena mãozinha avermelhada.

– Sim. Eadlyn Schreave. Ela nasceu prematura, com apenas sete meses, por isso está na encubadora. — Disse.

– A quanto tempo ela está aqui? — Questionei.

– Três meses.

– Eu estava há três meses em coma? — Perguntei, confusa. Estava há três meses sem me levantar, sem comer, sem nada?

– Sim. Esperávamos que se acordasse com pelo menos cinco meses de coma, mas você é rápida e forte, aguentou a dor de voltar. — Ela tocou meu ombro — Pessoas que já estiveram em coma dizem que a pior dor do mundo é voltar.

– Quanto tempo ela ficará aqui? — Desconversei.

– Se ela continuar progredindo assim, poderá ir para seu próprio quarto amanhã. — Respondeu com entusiasmo.

– Que bom. — Foi tudo o que eu disse. Deixei a mãozinha e a doutora me conduziu para fora da sala — Você disse que não poderá me ajudar quanto a maioria de suas memórias, então... Quem poderá fazer isso?

Ela mordeu o lábio inferior de apreensão antes de responder. Suei.

– Se não estiver enganada, você não se lembra de nada do que aconteceu nos últimos dois anos. Nesses dois anos, a pessoa com quem você mais ficou foi... o Rei Maxon. Só ele deve ter noventa e nove por cento de todas as suas memórias.

– E como podemos fazer para que eu as recupere?

– Ainda não sabemos. Mas as pessoas mais próximas a você nesses dois anos precisam lhe deixar a par de tudo o que aconteceu. Isso fará o lado adormecido de suas memórias voltar à vida.

– E para isso, eu precisaria da ajuda do príncipe — Disse, mais para mim mesma.

– Sim. E ele é o rei. Seu pai, Rei Clarkson, morreu, assim como sua esposa, a Rainha Amberly. Mas você saberá de tudo isso mais tarde. Talvez você tenha sua primeira sessão ainda hoje.

Assenti com a cabeça. Chegamos, enfim, ao meu quarto no Hospital. Fiquei em dúvida sobre entrar e ficar deitada olhando para o tempo ou vagar pelos corredores, buscando algo que me soasse familiar. A doutora me deu dois beijinhos, um em cada bochecha e se despediu de mim com um meneio de cabeça que quase chegava a ser uma reverência.

– Ah, doutora, qual o seu nome? — Perguntei antes de ela alcançar o fim do corredor.

– Vanessa.

Vanessa. Vanessa. Vanessa. Eu precisava buscar algo em minha cabeça referente a este nome. Doutora Vanessa. Pré-natal. Parto. Cirurgias. Loira dos cabelos espetados... Nada, apenas os mesmos flashes de sempre. Desisti de tentar recuperar minha memória por mim mesma quando pontadas de dor de cabeça me atingiram.

Decidi vagar pelos corredores. Pelo menos seria mais divertido do que ficar apenas deitada na maca. Cruzei corredores, surrupiei salgadinhos de frango da cantina, tropecei e quebrei um vaso de planta... Quando, enfim, meus pés se cançaram de andar, tentei voltar para o meu quarto. Por sorte, eu tinha facilidade em decorar lugares. Se bem que, pelo visto, eu não podia mais me confiar tanto assim em minha memória, não é?

Encontrei o Príncipe Maxon — Rei — e o doutor que estava com Vanessa perto do meu quarto. Eles conversavam baixinho, tomando cuidado para que as paredes não ouvissem. Aproximei-me deles sem que eles vissem e tentei captar o máximo de palavras que consegui.

– Então, tem a possibillidade de ela voltar a ter suas memórias? — Indagou o rei.

– Sim, uma grande possibilidade, mas apenas se fizermos isso logo. As pessoas que compartilharam da maior parte de suas memórias nos últimos dois anos precisam contar a ela sobre tudo. Por exemplo, Vossa Majestade contará sobre seu casamento e a mãe dela contará sobre como foi quando a Rainha America recebeu a notícia de que havia sido sorteada para a Seleção. Vocês precisam fazê-la reviver essas memórias.

O rei suspirou. "O rei"... Soava tão estranho dizer isso... Eu precisava aprender a chamá-lo apenas de Maxon, afinal, ele era meu marido, acho.

– Se suas memórias não voltarem em um ano...

– Então haverão noventa por cento de chances de não voltarem mais. — O doutor continuou. Maxon assentiu, entendido.

Aconteceu de novo, assim que Maxon começou a falar. Me senti feliz por vê-lo, feliz por ouvir sua voz e estranhamente feliz por suas palavras.

– Eu não vou desistir. Se houver um por cento de chances, eu vou lutar. E se ela não puder ter suas memórias volta, construiremos novas. — Ele suspirou — Eu nunca, nunca irei desistir dela.

Notas finais
Como eu disse, ficou bugado. Tô com preguiça de escrever essas notas, então... Beijinho, amo vocês e até o capítulo que vem *---------------------------------------------------------------------------* P.S.: Obrigada pelos comentários, minha gente. Cês são muito lindos :3 P.S.: Comentem mais nessa bagaça, viu! Love you guys