The New Royalty
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Maxon só retornou ao quarto à noite, quando eu enfim recebi alta do hospital. Minha cabeça latejava tanto que era quase impossível ouvir o que a Dra. Vanessa falava, sua voz fina agravando ainda mais minha dor. Eu não havia comido nada o dia inteiro, exceto um pão de queijo que eu havia surrupiado na cantina quando ninguém estava olhando porque, meu Deus, como comida de hospital é ruim.
– Então, está tudo bem com o bebê? Ele não nascerá com nenhuma deficiência ou qualquer outra coisa? — Me apressei a perguntar. Pude ver os músculos do braço de Maxon se enrijeceram de aflição.
– Não, nada aparentemente. — Ela sorriu — Está tudo bem, Majestade.
– E quanto a gravidez de risco? Ainda há a chance de um dos dois..., você sabe... — Maxon perguntou, seu punho cerrado.
Vanessa olhou para mim como quem não estava entendendo. Ela ainda não sabia que eu havia contado a Maxon sobre os riscos.
– Ele sabe. — Murmurei. Ela assentiu.
– Bem, não vou dizer que não haja o risco, mas, sinceramente, não sofram por antecipação. Eu e minha equipe faremos o possível para que tudo corra bem. — Ela tocou o ombro de Maxon bem no ponto mais rígido. Ele se forçou a relaxar — Não se preocupe. — E, se voltando para nós dois, ela disse, sorrindo: — Vocês não querem saber o sexo do bebê?
Eu arfei. Eu poderia enfim saber se seria menino ou menina? Eadlyn ou Ahren? Meu coração palpitou tão fortemente que chegou a doer. Maxon sorriu um pouco e, em meio a tanta preocupação, eu vi que ainda tínhamos motivos para lutar.
– Sim. — Dissemos em uníssono.
Enquanto Vanessa preparava as coisas para a ultra-som, Maxon não soltou minha mão uma vez sequer. Eu estava nervosa por enfim descobrirmos o sexo do bebê, mas estava incrivelmente relaxada também por Maxon ter deixado a raiva de lado por alguns instantes. Nós dois havíamos escondido o jogo, estávamos quite, então. Sem mágoa, sem dor.
– Bem, vamos lá. — Vanessa disse.
O gel que ela pôs sobre minha barriga era surpreendentemente refrescante. Ela ligou o monitor e virou para que todos pudéssemos ver a tela. Inicialmente, era apenas uma tela escura, mas depois, quando ela começou a passar a maquininha em minha barriga, a tela ganhou cor. Bem, não exatamente cor, pois tudo era em preto e branco, mas eu já pude começar a distinguir o que era eu e o que era meu bebê. A doutora passou a máquina por toda a minha barriga, procurando pela cabeça, primeiramente. A face era quase indistinguível, mas, passando o aparelho no canto certo, eu era capaz de ver a elevação do perfeito nariz, os olhinhos fechados, e a boquinha entreaberta. Era meu bebê, a pequena coisinha que crescia dentro de mim. Como eu poderia ser mais feliz do que isso?
Então Vanessa fez uma anotação, ainda na sonda transdutora, e desceu mais a maquininha que mais se parecia com aquelas de leitura de cartão em supermercado. Agora, eu via a coluna curvada do bebê. Aos meus olhos, parecia curvada demais, mas a doutora sorriu ao ver e me explicou de que essa é a posição fetal, todos os bebês ficam assim. Meu coração se aliviou.
Ela pulou para os bracinhos, a mãozinha fofa e carnudinha e as pernas. Seu pezinho era como um sorvete com uma bola. Contei mentalmente seus dedinhos e suspirei quando percebi que, ao todo, ela tinha vinte dedos. A doutora fez novas anotações antes de retornar à cabeça. Ela mediu a circunferência, analisou se estava na média, e constatou que não havia nenhuma anomalia cerebral.
Maxon estava tão calado que, se sua mão não estivesse atada à minha, eu juraria que eu estava sozinha com Vanessa. Seus olhos estavam vidrados na tela, ele não queria perder um segundo sequer. Eu não saberia dizer quais as batidas cardíacas mais sonoras na sala, era tudo tão alto que parecia que íamos explodir a qualquer momento.
– Ah... — Vanessa suspirou e eu voltei a me virar para a tela. Eu não conseguia ver absolutamente nada, mas, pelo visto, a doutora podia ver tudo e algo mais — Parabéns. É uma menina.
Gelei. Eu estava errada, não era um menino como eu tanto havia maginado. Era uma menina, uma princesa ruiva de olhos castanhos ou loira de olhos azuis... Ou apenas toda Maxon ou toda eu. Minha Eadlyn Schreave.
O restante do mês se passou voando. Entre telefonemas e cartas, tudo o que eu não aguentava mais era a incerteza do futuro. Enquanto todos me parabenizavam pela garotinha que se formava dentro de mim, eu só pensava no meu medo de que todo o meu conto de fadas se tornasse em pesadelo. Maxon tentou se comunicar com o imperador chinês, mas este vivia mudando de endereço no "submundo". Ele até já quis ir pessoalmente à China para uma conversa frente à frente, mas o convenci de que isso era suicídio. Afinal, ninguém sabe quem é essa gente e muito menos do que são capazes pelo poder. Anulamos por um tempo a exclusão das Castas, à total contra gosto da população. Mas, ainda assim, não houveram revoltas.
E então, num piscar de olhos, eu estava com sete meses de gestação, minha barriga perfeitamente redondinha. Parece fútil dizer isso em meio a tanta crise, mas eu estava como um balão! Nunca em toda a minha vida havia comido tanto como nesses sete meses de gravidez e eu jurava que podia ver uma papadinha sob meu queixo — Coisa que Maxon insistia em dizer que não existia. Decidimos, então, de que já era a hora de anunciar ao país que o herdeiro de Illéa estava a caminho. Podia parecer um pouco tarde para tal, mas era crucial — Politicamente falando — que eles soubessem disso agora, para que nada, nenhuma ameaça de guerra, pudesse impedir seus festejos. A chegada de um herdeiro na realeza era sempre uma das maiores celebrações já que trazia às pessoas a esperança de tempos melhores, com uma nova monarquia. Se bem que, pelo que víamos nos noticiários, a população estava mais do que satisfeita com a monarquia atual.
– Querida, recebemos uma nova carta. — Maxon disse numa tarde, entrando no quarto visivelmente cansado de correr.
– É dos chineses? — Meu coração foi parar em minha boca.
– Sim.
– Bem, e o que diz?
Maxon esperou fechar a porta e descansar um pouco com as mãos no joelho para poder falar, sua respiração irregular se tornando o único som no quarto.
– Ontem — Ele começou, sentando-se na cama ao meu lado — , eu tentei novamente manter contato com eles. E hoje recebemos uma resposta.
– O que dizia na carta que você mandou? — Indaguei, com medo de chegar ao ponto mais importante: A resposta deles.
– Sugeri que nos encontrássemos para que fizéssemos um novo acordo, sem guerras. — Explicou — E tudo o que ele pôs na carta foi: "Sua sugestão está sendo cogitada ainda. Uma resposta definitiva será dada dentro de dois dias".
– Tudo o que em escrito é isso? — Questionei, tomando a carta de suas mãos e lendo com atenção canda sílaba nela escrita. Era apenas o que Maxon havia dito — Mas daqui há dois dias é dia dezessete. E dia dezessete será o dia da Anunciação.
– Eu sei, eu sei e é isso que me assusta. Fico pensando: Será que eles descobriram de alguma forma o dia em que acontecerá a Anunciação? Porque, bem, é o momento ideal para uma guerra... Cheio de pessoas, todos entretidos conosco...
– Céus, você pode estar certo. — Meu coração desceu da minha boca e foi parar no estômago — O que vamos fazer caso uma guerra se inicie? Vamos ceder e reinstalar as Castas?
Maxon pareceu pesar os prós e os contras disso e sua face trazia uma aflição tão doída que quase me fez chorar. Se Maxon, que nunca perde o controle ou nunca se aborrece estava assim, então a situação era gravíssima.
– Hey, eu sei que não é o que você quer fazer, mas situações desesperadas pedem medidas desesperadas. — Eu disse, começando uma massagem em seus ombros tensos. Seus músculos estavam tão contraídos que eu podia ver as veias esverdeadas de seu pescoço. Ele amoleceu um pouco, mas permaneceu em silêncio por um tempo.
– Não podemos fazer isso. — Disse por fim. Estremeci.
– Maxon, não é apenas a nossa vida que está em jogo. Todo o país está sob ameaça, esqueceu? — Trovejei, incapaz de acreditar em tamanho egoísmo da parte de Maxon.
– E você esqueceu que estamos sendo manipulados? Que fomos roubados por décadas? E que se permanecermos assim estaremos dando vitória à eles? — Sua voz era quase de repugnância. Ele se soltou das minhas mãos e olhou para mim — America, temos lutar para que um dia sejamos livres. Não podemos mais viver sob os caprichos chineses, é a nossa vez de elevar a voz.
Ele estava louco, completamente pirado. O que ele queria fazer? Arriscar a vida de pessoas inocentes por... Coragem, orgulho?
Me levantei da cama num pulo e bati palmas. Meu corpo agora era cem por cento sarcasmo.
– Lindo, Maxon, lindo. — Eu sorri, irônica — Então você quer se jogar de cabeça na morte certa? E quer levar consigo toda Illéa? Não tem noção do que está falando? Precisamos nos salvar antes que este barco afunde, Maxon. Temos que reinstalar as Castas e garantir a segurança de todos, e não pagar de heróis e lutarmos por honra. — Eu gritava como se isso fosse prender mais ainda sua atenção — Honra nada valerá se todos estivermos mortos.
Ele pareceu chocado, seus lábios entreabertos e seus olhos grelados me fazendo corar. Mas eu não havia exagerado, havia? Não, eu estava certa. Tínhamos que nos proteger deles, e não morrermos como idiotas.
– Onde está aquela America que enfrentou o rei para expor ao país sua ideia? — Estremeci com sua calmaria — Onde está aquela America que sonhava no dia em que todos estaríamos livre de rótulos? Onde está aquela America que me encantou por sua coragem e determinação?
Não aguentei, as lágrimas inundaram meus olhos e eu não pude enxergar mais nada. De joelhos, com a cara escondida na cama, chorei por tudo o que havia acontecido comigo. Maxon estava certo. O que eu estava virando? Eu não podia ser uma covarde, não mesmo. Eu precisava lutar até o final, proteger aqueles que amo como Amberly protegeu seu marido, mas não agir como uma garotinha medrosa. Eu estava diferente, eu estava com medo da vida, medo do que poderia nos acontecer. E no final das contas, eu era a egoísta. Egoísta por não querer que meu povo fosse livre por medo; egoísta por querer facilitar as coisas para o meu lado e deixar os illeanos na miséria novamente. Eu não era a vilã, não queria ser.
– Por favor, America, levante-se. — Maxon me puxou delicadamente pelos meus braços e eu escondi minha cara inchada e vermelha em seu peito, abraçando suas costas com uma força súbita.
– Perdão, perdão, perdão. — Implorei entre um soluço e outro — Estou sendo egoísta, estou me comportando como uma covarde. Você tem toda a razão, precisamos nos livrar deles, precisamos entrar nessa guerra. Precisamos vencer.
Era difícil ficar tão perto de Maxon com minha enorme barriga, mas eu não desisti. Estava tão arrependida de tudo o que eu havia dito, tão envergonhada de mim mesma...
– Por favor, não chore. — Ele pediu, nos separando sutilmente — Vamos ficar bem. Não estamos tão desvantajosos assim... Se, por um acaso, uma guerra se iniciar aqui, temos nosso exército aéreo sondando a China. Nossas bombas são importadas da França. — Ele sorriu.
– Então acho que já ganhamos. — Brinquei, meu riso ainda entrecortado do choro.
Ele beijou minha testa. Não havia mais nenhum resquício de raiva pela nossa discussão.
– Por que não tenta dormir?
– Você também vem? — Minha voz era implorativa. Ele apenas sorriu.
– Não, mas posso ficar com você até dormir.
Foi quase instantâneo. Nos deitamos, me concheguei ao seu peito, e logo caí no sono. Ao contrário do que eu imaginara, eu não sonhei com guerras ou bombas atacando o palácio e o teto caindo sobre minha cabeça. Tudo o que apareceu em meus sonhos esta noite foi uma pequena garotinha tão ruiva quanto eu e de olhos tão castanhos quanto os de Maxon.
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