The New Royalty
18 Capítulo 18
Notas iniciais
O dia, por incrível que pareça, amanheceu ensolarado. É claro que não é aquele sol forte capaz de derreter toda a neve que se acumulara por dias, mas era o suficiente para trazer um pouco de cor ao meu rosto já que o tempo frio havia me deixado com uma palidez de morta.
Tentei não me mexer muito na cama para não acordar Maxon, mas foi inevitável. Senti vontade de me dar um murro por o ter feito acordar; noite passada, havíamos ficado até tarde conversando sobre nomes de bebês. Ele estava exausto, eu podia perceber, mas mesmo assim continuou acordado para me fazer companhia. Ele passou as mãos no cabelo e lutou para se acostumar com a ligeira claridade que entrava no quarto. O sol era tão raro de aparecer que nós até já havíamos nos esquecido de como é ser acordado pela claridade.
– Desculpe por lhe acordar. — Disse quando seus olhos finalmente entraram em foco, desistindo de minha disposição para acordar e voltando a me aconchegar em seu peito.
– Você não me acordou. — Bocejou.
– Mentiroso. — Provoquei, tocando a ponta do seu nariz. Ele sorriu, ainda sonolento.
– Que milagre termos sol hoje.
– É, hum... — Pensei em como tirar proveito da situação — Por que não aproveitamos esse dia de sol para tirar uma folguinha, hein? Nem que não saiamos para os jardins para tomar luz na cara. Poderíamos passar o dia todo aqui, apenas deitados sem fazer nada...
Ele riu da minha tentativa de persuadi-lo a ficar. Mas, mesmo assim, não respondeu. Eu podia quase ouvir a parte sã da sua mente o chamando para o trabalho e a parte insana clamando para que ficasse. Esperei por sua resposta, cheia de esperanças, acariciando sua pele, brincando de enrolar meus dedos em seus pouquíssimos e finos pelos do peito. Ele respirou fundo e me puxou mais contra si.
– Sabe que, se eu pudesse, passaria o resto da minha vida aqui, não é? Deixaria que Illéa desmoronasse sobre nossas cabeças, que tudo isso explodisse. Bum! — Ele fez um gesto de explosão com as mãos — Mas não posso. Além do mais, tenho reunião com o Conselho hoje.
– Ah, eu não acredito! — Reclamei — Você está se reunindo com o Conselho agora pelo menos três vezes por semana. E, afinal, não estou lhe pedindo o resto da sua vida de folga. É só hoje. Uma reuniãozinha a menos não vai fazer diferença.
Ele suspirou.
– O pior é que vai.
Me pus sentada na cama.
– Maxon, está acontecendo alguma coisa que eu não sei? — Questionei. Não era de agora que eu estava com um pé atrás quanto a suas reuniões frequentes e... e... Ai, meu Deus, o que era que eu queria perguntar a ele? — Por favor, Maxon, me conte.
– Não tem nada acontecendo, meu amor. — Sorriu como se eu estivesse louca — São apenas as revisões das leis e daquelas regras absurdas que lhe mostrei ontem.
– Está mentindo. — Acusei — Por que não quer me contar? O que é de tão horrível assim que eu não posso saber?
– Não é nada, é só o que eu já disse.
Me levantei, bufando alto e ajeitando meu cabelo assanhado, enganchando-o num coque frouxo. O que Maxon pensava? Que eu era burra? Bem, eu podia ser, mas não ao ponto de acreditar que estava tudo bem. Ah, isso nunca! Minhas orelhas já estavam quentes de raiva e eu batia o pé no chão como uma garotinha mimada cujo desejo fora negado.
– Ei — Maxon se levantou da cama, chutando o cobertor para o lado. Embora estivesse com muita raiva dele, não tive forças para me desviar de suas mãos. Ele me segurou pela cintura, me prendendo a ele, e levantou meu queixo. Estava atada a ele e de foma alguma conseguiria desviar o rosto — , você precisa se acalmar. Pense no bebê.
Ele tocou minha leve ondulação na barriga e só isso já foi o suficiente para me fazer relaxar. Meus músculos se descontraíram e eu soltei uma grande lufada de ar — Por quanto tempo eu estivera sem respirar? Ele puxou ainda mais meu queixo e me beijou. Era um beijo ansioso, não aquela calmaria ou aquele desejoso que eu estava acostumada. Era diferente, preocupado, mas irredutivelmente bom.
– Vai me deixar participar da reunião no Conselho hoje? — Perguntei quando, enfim, o ar se tornou necessário.
Ele suspirou.
– Você pode ir se quiser, mas vai ver que é apenas o que eu já expliquei.
– O.k. .
E com isso, dando fim a discussão, nos arrumamos e descemos para o café da manhã. Parecia até uma maldição do destino quando terminei meu café e me dirigi para os jardins; quase que de imediato, o tempo fechou e o nevoeiro branco cobriu a minha fonte de luminosidade, mergulhando Angeles em uma nova manhã com cara de tarde.
– Só pode estar de sacan...
– Majestade — Um mordomo me chamou — , eu a aconselharia a entrar no palácio. Está muito frio e o tempo promete chuva.
Eu concordei, bufando alto enquanto era levada para dentro do palácio como uma criancinha que acabara de ser apanhada pela mãe fazendo coisa errada. Voltei para o meu quarto, então, exausta de simplesmente não ter nada para fazer. Toquei um pouco de piano e violino, e li o Diário de Gregory Illéa até sentir vontade de arremessá-lo na parede. Senti um alívio imenso preencher meu peito quando Maxon veio me buscar para a reunião. Enfim, algo para fazer.
Mas não havia nada de mais durante a reunião, apenas o mesmo de sempre: Castas. Eram sempre os mesmos assuntos, as mesmas ideias... Era quase tedioso participar dessas coisas. Mas eu tinha pedido para estar ali, não é? Então eu tinha que ficar até o fim. Ugh! Eu e minha boca grande demais...
Quando a reunião, enfim, acabou, Maxon e eu fomos jantar. Devorei quase tudo o que tinha na mesa, os botões do meu vestido estavam prestes a pular. Meu bebê era a coisinha mais comilona de todas, disso eu tinha certeza. O pior é que, sem dúvidas, se eu continuasse desse jeito, ficaria uma baleia orca de gorda em questão de poucos meses. Estava tão concentrada em minha sobremesa que nem percebi quando um mordomo — Provavelmente o mesmo que havia me avisado sobre a chuva — chegou. De vislumbre, tudo o que pude ver foi ele segurando uma bandeja de prata, provavelmente nos trazendo mais comida. Uma sensação de felicidade veio a mim ao pensar nisso — Meu Deus, em que eu estava me transformando?
Ouvi um cochichado baixo entre o mordomo e Maxon e não pude me conter a olhar. Antes sobre a bandeja, e agora nas mãos de Maxon, se encontrava uma carta. Uma carta idêntica à que havíamos recebido no Natal, cujo conteúdo meu marido insistia em não me revelar. A carta! Era isso que queria perguntar a ele e me esqueci! Maxon murmurou um obrigado ao mordomo e este saiu, reverenciando-nos.
– O que é isso? — Perguntei, me esticando para pegar a carta. Podia ser coisa da minha cabeça, mas juro que vi Maxon puxar o papel para longe de mim num movimento quase imperceptível. Mas ele sorriu com minha agitação. É, provavelmente era coisa da minha cabeça.
– Deve ser alguma bobagem. — Disse indiferente, soltando a carta ao seu lado, meu lado paranoico observando o cuidado que ele havia tomado para deixar o papel distante das minhas mãos.
– Deixe-me ver, então. — Rebati — Gosto de bobagens.
Sua expressão não mudou, apenas seu sorriso diminuiu de largura. Será que eu estava passando dos limites, desconfiando demais do meu marido?
– Por que está agindo assim, America? — Questionou. Mordi o lábio inferior de apreensão.
– Assim como?
– Sendo tão pé atrás comigo, como se eu lhe desse motivos para desconfianças. — Explicou e eu podia ver ressentimento em suas palavras. Suspirei.
– Tem razão, tem razão. Me desculpe, eu exagerei. — Pedi.
– Tudo bem. — Segundos depois, seu sorriso voltara ao seu rosto.
Terminando nosso jantar, subimos ao quarto, a chuva que caia do lado de fora dando um ar preguiçoso à noite fria. Estava envergonhada por desconfiar de Maxon, claro, mas não parava de pensar no conteúdo da carta. Afinal, se era uma besteira, por que não me contar? Como se fosse alguma coisa ultra sigilosa...
Ainda pensava nisso quando Maxon tirou o paletó e avançou em cima de mim, me dando um susto ao pegar-me completamente desprevenida. Seus beijos desciam por todo o meu pescoço, sua voracidade insana me deliciando. E, então, como sempre acontecia, tudo pareceu besteira e fugiu da minha mente, dando espaço apenas ao Maxon que me beijava incansavelmente. Suas mãos desceram pelas minhas costas, seus dedos hábeis lutando contra os numerosos botões do meu vestido.
– O que... está fazendo? — Arfei entre um beijo e outro.
– Tirando sua roupa.
Oh, sério? Acho que eu conseguiria deduzir isso sozinha.
Maxon estava estranho; seus beijos eram ansiosos como se, a qualquer momento, uma bomba fosse explodir sobre nossas cabeças, como se esses fossem nossos últimos minutos... Meu Deus, a carta! Seja lá o que estivesse escrito naquele troço, tinha deixado Maxon desse jeito, frenético e tenso. Como se um bomba fosse explodir... Não, não podia ser. Ou podia? Maxon me esconderia algo tão sério quanto uma... ameaça contra nossas vidas?
Eu já estava deitada na cama, lutando contra o meu desejo, meu lado são falando mais alto do que meus hormônios vinte e quatro horas ativo. Maxon ainda travava uma batalha contra os últimos botões do meu vestido — Que a esse momento já devia ter algum rasgo inutilizando-o já que Maxon não media sua força ao desabotoá-lo. Consegui empurra-lo para o lado numa coragem insana, tudo dentro de mim protestando contra meu ato desesperado. Maxon caiu de lado na cama, os olhos fixos nos meus esperando uma explicação que não veio.
– O que foi? — Indagou, indignado.
– O que foi pergunto eu.
Suas sobrancelhas se ergueram comicamente. Eu deveria complementar minha frase?
– O que você tem? Está estranho. — Incriminei — Por que essa vontade tão de repente?
– Eu não posso mais querer fazer amor com a minha mulher? — Seu olhar era quase de injúria.
Suspirei. Como eu poderia contornar essa situação para chegar aonde eu queria? Virei-me para ele, as palavras na ponta da língua. Carta, carta, carta. Eu estava ficando louca! Céus, estava paranoica com tudo isso... Olhando dentro dos olhos de Maxon, pude perceber: não havia nada. Não havia nada que ele estivesse me escondendo, nada do que eu queria saber. Eu estava pondo tudo a perder assim, desconfiando de Maxon como se ele me desse motivos de sobra.
– Você tem razão, tem total razão. — Ofeguei, me jogando de costas na cama e fitando o teto, incapaz de voltar a olhar para ele — A estranha aqui sou eu. Estou maluca, completamente pirada.
Vi de relance os cantos da sua boca se repuxarem. Ele se aproximou mais de mim, ficando ao meu lado, apoiando-se com os cotovelos na cama.
– Não, você está certa.
– Certa em dizer que estou maluca? Eu sei que estou. — Disse e consegui arrancar um grande sorriso dele.
– Não. Certa quando diz que há algo de errado comigo.
Me pus sentada. Então estava certa? Quer dizer que eu não estava tão paranoica assim? Que legal! Se eu não já estava louca, agora ficaria de vez.
Ele passou a mão nos cabelos e bufou, se jogando na cama de vez.
– Você está grávida.
– Eu sei, ué.
– ... E eu não sei se vou ter coragem quando estiver com o barrigão. Tenho medo de machucar vocês dois.
Oh, então era isso. E eu aqui pensando milhões de idiotices. Até em ameaças eu pensei...
– Ei — Chamei, um peso enorme sendo tirado das minhas costas. Maxon estava preocupado com uma bobagem tão grande comparada ao que eu tinha imaginado que me dava até vontade de rir. Voltei a me deitar ao seu lado — , você não vai me machucar. Me desculpe por estragar tudo é que...
– É que...? — incentivou.
– É que e achei que fosse algum problema coma carta, sei lá.
Seus lábios tremeram um pouco antes de responder. Ou eu imaginei isso?
– Essa história de novo, America? Eu nem sequer abri a carta! — Argumentou — Quer que eu abra e leia em voz alta? Por que se quiser eu faço isso...
Sua voz era irritada. Ele se esticou para pegar a carta dentro de uma gaveta no criado-mudo, mas eu o parei, segurando suas mãos.
– Não. — Contestei, reprimindo a curiosidade. Maxon estava disposto a ler a carta na minha frente, estava disposto a deixar tudo às claras. Eu devia um voto de confiança a ele, não? — Acredito em você.
Puxei seus ombros para que viesse para mais perto de mim e lhe beijei. Por que Maxon e eu estávamos discutindo tanto ultimamente? E por coisas banais... Ele só estava preocupado em se ia me machucar e eu aqui fantasiando um milhão de possibilidades. O que estava acontecendo comigo? Estava realmente virando o pivô das discussões?
– Prometo não desconfiar mais de você. — Eu disse.
– Você disse isso da última vez, quando desconfiou de mim e de Daphne. — Se queixou, mas eu não conseguia detectar nenhuma nota de ressentimento em sua voz.
– Shh... Cale a boca. — Ordenei e ele me beijou novamente.
Entre um beijo e outro, eu podia ver a carta de relance, tão fácil de ser pegue, na distância da minha mão... Não. Eu tinha dado meu voto de confiança e não voltaria atrás nele.
Não tão cedo.
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