The New Royalty
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Minha enxaqueca piorara e eu não via outra alternativa senão ficar na cama. Desde a noite passada, quando Maxon saiu misteriosamente do quarto, eu não o tinha visto ainda. Talvez eu tenha apagado antes de ele retornar e ele tenha saído muito cedo hoje de manhã, mas eu me lembrava de cada segundo da noite anterior. Me lembrava de ter chorado mais, da terrível sensação de se estar sozinha, do medo de Maxon ter ido fazer algo imbecil... Foi a pior noite da minha vida, sem sombra de dúvidas.
Estiquei meu braço até tocar na pequena campainha que tinha ao lado do criado-mudo. Allye não demorou para aparecer, trazendo consigo um bandeja de café da manhã.
– Como sabia...? — Perguntei.
– Vossa Majestade não foi vista na sala de jantar, então, quando fui chamada, imaginei que quisesse seu café. — Ela disse, um sorriso forçado no rosto.
Todos que haviam visto o meu estado ontem estavam me tratando de forma diferente. Sempre contornando as melhores palavras, tomando cuidado para não fazer algo que — A eles — parecia incerto, agindo como se temessem uma nova crise de choro da minha parte. Até o sorriso simples de Allye havia dado lugar a algo sem vida... De sorrisos sem vida já bastavam os do meu marido.
– Vossa Majestade está se sentindo bem? — Ela quis saber, depositando a bandeja em minhas pernas — Está um pouquinho inchada...
– É, mais ou menos, é só... Enxaqueca forte. — Respondi o mais rápido possível, arrancando qualquer dúvida da sua cabeça. Me ocupei, então, em levar logo colheradas e mais colheradas de sopa a boca para que não pudesse responder a muitas perguntas.
– Ah, que bom. — Ela soltou o ar dos pulmões. Que bom por eu estar de enxaqueca?– Ah, quer dizer, que bom que não é anda grave. Um remedinho resolve...
– O que achava que era? — Me forcei a perguntar, abandonando a colher na bandeja de prata.
Ela respirou fundo.
– Vossa Majestade não deveria saber disso... É tudo minha culpa, eu falo demais...
– Sua Majestade precisa estar a par de tudo o que acontece, dentro e fora do palácio. — Insisti enquanto minha cabeça latejava.
– É que, é que... O.k., tudo bem, Vossa Majestade iria descobrir de qualquer jeito mesmo...
– Vamos, All, fale!
Ela fechou o olhos e se sentou no chão, as pernas cruzadas e os joelhos encostados no peito.
– Há rumores passeando pelos corredores de que — Começou, escondendo o rosto de vergonha — o seu choro de ontem se devia a uma... crisenocasamentodeVossaMajestadecomoReiMaxon.
– O que?
– A uma crise no casamento de Vossa Majestade com o Rei Maxon! — Repetiu, quase gritando e fazendo minhas têmporas estourarem.
A maçã que eu segurava despencou da minha mão no mesmo momento em que Allye explicou. A dor nas minhas têmporas estava piorando mais e mais e eu urrava de dor. Era como se martelos estivesse batendo com toda a força na minha cabeça, estourando meus neurônios e comprimindo meu cérebro. Sentia meu corpo se retorcer na cama — Eu estava realmente deitada? — e sentia também Maxon me beijar. Não, não estava sendo beijada. Eu estava enlouquecendo! A realidade se misturava a não realidade enquanto a dor lancinante se apoderava do meu corpo. Sem dúvida alguma, era a pior enxaqueca que eu tinha em anos, talvez em toda a minha vida.
Podiam ter se passado minutos ou horas, dias ou semanas... Eu não saberia dizer, mas a dor se atenuara, dando espaço ao torpor. Não sentia mais meus pés quando tentava mexê-los, não sentia mais o meu cérebro funcionar. Vez ou outra, era enviado ao meu corpo novas ondas de dor e calor que se misturavam à não-realidade que eu tanto lutava para abandonar.
Eu não conseguia enxergar em meio a tanta dor. Estava cega ou isso era unicamente por culpa da tortura dolorosa que rasgava e fatiava meu cérebro? Minhas têmporas estavam papocando e explodindo como se fossem milho de pipoca. Não sentia mais meu corpo, era como estar deitada no vácuo, mas uma parte de mim sabia que eu não estava completamente deitada, e sim me debatendo na cama.
– Ashlar, o que está havendo? Faça-a parar, faça-a deixar de sentir dor!
Maxon! Era a voz do meu Maxon. Eu precisava dele, precisava dele ao meu lado... Sentir seus braços me envolvendo, ver novamente seu sorriso verdadeiro. Tentei me rastejar para qualquer lugar, procurar por ele, mas eu estava sem tato. Estava sem tato ou eu nem sequer estava me mexendo?
– É uma enxaqueca forte demais, Majestade. Já fiz tudo o que podia fazer, ela melhorará.
Ahslar! O médico real. Ora, não está funcionando, não percebe? Faça alguma coisa, mexa-se!
Ouvi gritos dentro da minha cabeça, gritos estridentes. Só percebi que esses gritos eram meus quando finalmente parei, mergulhando o palácio no silêncio. A dor em minha cabeça amenizara. Agora, em vez de apenas Allye, encontravam-se em meu quarto três mordomos, o Dr. Ashlar, Mary e Anastasia e Maxon, que segurava a minha mão como se sua vida dependesse disso.
Maxon,finalmente! Precisava dele ao meu lado mais do que tudo no momento.
– Oi. — Me forcei a dizer, meus olhos ainda se acostumando com a ligeira claridade.
– Oi. — Maxon respondeu, soltando o ar dos pulmões em alívio e beijando o dorso da minha mão — Como está, minha querida?
– Bem melhor. — E me virando para o Dr., eu disse: — O que eu tive? Nunca tive uma enxaqueca tão forte assim. E eu tive... alucinações...
– Está tudo bem, Majestade, tudo bem, graças a Deus — Respondeu o Dr. Ashlar, erguendo as mãos para o céu e tirando o estetoscópio do ouvido — Foi apenas uma crise forte de enxaqueca, pode ter sido por conta do estresse da rotina. Vossa Majestade se sentirá novinha em folha em menos de uma hora. E quanto às alucinações, é absolutamente comum em enxaquecas muito fortes. Não precisa ficar nervosa, basta tomar seus remédios direitinhos e nunca mais sentirá isso novamente.
Ou não, hein.
– Obrigada, Dr., o senhor salvou meu dia. Mais uma vez. — Maxon disse, exibindo um sorriso que há muito eu não via — Agora, se puder, poderia me dar um tempinho à sós com a minha esposa?
Não era a ordem de um rei, e sim um pedido de um marido. Mas, mesmo assim, mesmo que eu não pudesse ficar sem a supervisão de um médico, Ashlar saiu, indicando a porta para minhas criadas e os mordomos que ainda permaneciam imóveis, guardando a porta. "Estaremos do lado de fora para qualquer coisa", disse um deles. Todos saíram, me deixando sozinha com Maxon.
– Você me deu um susto enorme hoje, sabia, meu bem? — Maxon reclamou enquanto eu me afastava na cama para que ele pudesse se deitar ao meu lado — Quase enlouqueci ao lhe ver daquele jeito.
– Você me deu um susto noite passada também. Estamos quites agora. — Brinquei, me aconchegando mais ao seu peito que, embora estivesse vestido em uma camisa e um paletó de tecido grosso, eu podia sentir a quentura.
– Eu precisei fazer isso, America, mas não foi, jamais, a minha intenção lhe preocupar. — Se redimiu.
– Eu sei. E, a propósito, o que foi fazer mesmo ontem a noite, algo tão importante que não poderia esperar para de manhã?
Mesmo com a cabeça deitada em seu peito, eu conseguia ver o rosto de Maxon. E que bom que eu conseguia, pois eu acabara de presenciar o melhor momento da minha vida. Os cantos dos seus lábios se repuxaram num grandioso sorriso e seus olhos... Seus olhos brilharam tanto que eu pude ver meu reflexo nele. Foi como se uma chuva de energia recaísse sobre mim, me iluminando também, me transformando em alguém mais forte que pudesse aguentar todo o sofrimento da humanidade.
A enxaqueca havia dado espaço a um leve mal estar, algo relativamente sem importância alguma comparado a tudo o que havia acontecido.
– Não posso lhe contar agora. — Respondeu ainda sustentando o sorriso — Terá de esperar até amanhã.
– O que vai ter amanhã?
– Você sabe o que vai ter amanhã. Por favor, não me diga que se esqueceu.
Amanhã, amanhã... O que teria amanhã? O Natal só viria na semana que vem, meu aniversário e o de Maxon já haviam passado, a remoção da Casta Sete já havia acontecido e a da Casta Seis ainda demoraria um bom tempo. A não ser que... Meu Deus, nosso aniversário de casamento!
– É claro que eu não me esqueci! — Quase gritei de euforia — O que você quer ganhar?
– Oh, America, eu já tenho tudo o que preciso.
– E o que você quer no momento eu não estou conseguindo dar... — Completei.
Ele riu, quebrando completamente o clima tenso que eu acabara de criar. Ele não se chateava mais com isso e não queria me contar o que o havia feito mudar assim, tão de repente.
– Apenas fique comigo para sempre, America — Disse e me abraçou mais ainda, comprimindo minha bochecha em seu coração — , isso é tudo o que eu posso desejar. Cada batida do meu coração tem o seu nome, America, tem noção disso?
– Tenho. E eu fico com você para sempre, não precisava nem implorar, mas com uma condição: Fique comigo pelo restante do dia. — Pedi, querendo ficar para o resto da vida grudada a ele.
– Não precisa pedir duas vezes, meu amor.
E esse foi o primeiro sono em que eu pude dormir tranquila em muitos tempos.
Já era de tarde e, depois de pedir o almoço no quarto, Maxon e eu ficamos apenas rindo e fazendo perguntar idiotas um ao outro do tipo "qual a sua cor favorita?".
E assim nós gastamos a nossa tarde de folga; rindo de besteira, brincando de fazer perguntas retóricas, ou apenas em silêncio vendo a neve cair do lado de fora do palácio. Eu me sentia finalmente bem, finalmente completa. Isso era tudo o que eu precisava.
– Tive uma ideia. — Maxon disse, já se ajeitando na cama para sair — Acho que você vai gostar.
E então, em minutos, Maxon e eu estávamos nos jardins cobertos de neve, fazendo bonecos e arremessando bolas um no outro. Parecíamos duas crianças, aproveitando tudo como se não houvesse amanhã. Eu, com minha péssima coordenação motora, sempre errava Maxon e acertava em cheio em alguns guardas, mas nenhum deles parecia se importar com isso. A esse momento, com certeza, já estava sendo espalhado pelo palácio a verdade de que Maxon e eu estamos na melhor fase do nosso casamento e que nada poderia nos derrubar mais.
Minha enxaqueca só passou completamente quando o sol já começou a se esconder na linha do horizonte, mergulhando o céu nos mais bonitos tons de rosa existentes. A neve parara há pouco, e eu e Maxon também paramos com nossa brincadeira para descansar sob uma árvore com as folhas cobertas de geada. Os pequeninos cristais de gelo caiam sempre sobre nossas cabeças quando um vento mais forte soprava, mas não ligávamos. Enquanto eu estava deitada com a cabeça no colo de Maxon, ele trançava o meu longo cabelo, seu nariz e as bochechas vermelhas de frio.
– Você fica tão fofo assim. — Eu disse, tocando a ponta do nariz vermelho de Maxon.
– Ah, por favor, America, quando é que não sou fofo? — Se gabou ridiculamente.
– Quando fica emburrado por besteira.
Ele suspirou e jogou a minha trança já terminada para o lado para que eu pudesse ver. O vermelho do meu cabelo salpicado de cristais de neve dava um ar "vivo" a criatura quase morta que eu aparentava ser a pouco tempo atrás.
– Se está falando dos últimos dias, quando eu...
– Shhhhh! — Eu o calei, pondo meu dedo sobre sua boca. Seus olhos castanhos me fitavam tão intensamente que eu jurava que eu derreteria — Teremos um filho. Um não, vários! Vamos encher esse palácio silencioso de vários mini Maxonzinhos e mini Americazinhas. Esse lugar sentirá falta da calma e da serenidade, pode acreditar. — E com isso, eu beijei a ponta do seu nariz e desci os beijos até seus lábios que, mesmo no mais rigoroso dos invernos, permanecia quente — Esse será o meu presente de casamento para você.
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