The New Royalty
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Os cochichos começaram logo após as portas se fecharem. Eu já não estava confortável com tudo isso, imagine com a rainha francesa azucrinando meus ouvidos. Nicoletta olhou para mim e indicou as portas com o queixo, mas eu balancei a cabeça negativamente. Eu não queria saber o que estava acontecendo, tinha medo de descobrir. Mas, ao passo que os cochichos foram aumentando, e eu me sentindo mais vulnerável e invisível, senti vontade de sair correndo daquele lugar. Mas eu permaneci. Porque é isso que a Rainha Amberly faria.
– O que será, hum? — Comentou a rainha da França. Só a sua voz já fazia meu estômago embrulhar — Não acha que deveria ir verificar, Rainha America?
O que ela estava insinuando? Ela estava realmente se divertindo com tudo isso?
No impulso, atirei o guardanapo sobre meu prato, farta de tudo isso, e me levantei de uma vez, a cadeira fazendo um ruído agudo no piso de mármore. Eu não aguentava mais o seu veneno. Estava sendo observada por todos, mas nem a minha vergonha se tornou maior que a minha raiva.
– Sua filha pediu para falar com Maxon, não comigo. — Disse, a voz lenta e firme.
– Mas ele é seu marido e...
– E eu confio plenamente nele.
Isso era uma verdade. Eu não confiava era em Daphne.
– Majestade — Me despedi, a voz carregada de sarcasmo. Fiz uma reverência exagerada e saí pisando firme. Simplesmente saí.
Ouvi a voz de Nicoletta um tempo depois atrás de mim, mas eu já estava correndo, entrando em corredores e salas desconhecidas. Eu estava perdida no meu próprio espaço enquanto pessoas que eu nem sequer conhecia se deliciavam com toda essa situação. Foi difícil encontrar o caminho de volta para o terceiro andar, tive que pedir informações à três ou quatro guardas, mas, enfim, alcancei meu quarto. Tudo o que eu queria era saber o que Daphne queria, mas eu não tinha coragem de sair mais do meu quarto. Eu me sentia bem dessa forma, embolada na cama, agarrada aos joelhos, tentando chutar meus sapatos para para longe. Cogitei a possibilidade de chamar minhas criadas, mas desisti logo depois. Maxon não demoraria, pensei.
Não sei quanto tempo havia se passado, podia até ter cochilado quando ouvi o barulho de passos ecoando nos corredores. Me pus de pé num salto, meu coração palpitando fortemente contra minha caixa torácica. Maxon entrou no quarto logo depois, uma ruga se formando entre suas sobrancelhas quando me viu.
– Achei que ainda estivesse na sala de jantar. — Ele disse, se aproximando de mim e me beijando.
Havia tensão em suas palavras. Estava preocupado. Mas com o que?
– Saí de lá faz tempo. — Respondi.
– O que houve? — Perguntou, tirando os sapatos com os próprios pés e jogando a gravata na poltrona.
– Coisas.
– Que tipo de coisas?
Eu queria saber o que ele escondia, queria saber o motivo de sua tensão, saber se isso tinha alguma coisa haver com Daphne.
– Coisas... coisadas. — Disse, me sentando ao seu lado na cama — Não suportei mais ouvir a voz da rainha francesa e saí de lá.
Não era a verdade completa, mas também não chegava a ser uma mentira.
– Eu sei, ela é difícil de ser conquistada, mas sei que você vai conseguir. — Ele começou a me beijar, e eu, claro, retribuí, mas eu não pensava no beijo, não pensava em como era bom tê-lo tão perto de mim. Tudo o que eu queria era saber o que Daphne havia dito, ou pior: feito — Você trabalhou muito duramente esses últimos dias. Precisa... relaxar.
Sua voz sedutora sussurrava em meu ouvido pouco antes de ele começar a descer os beijos pelo meu pescoço e ombros. Ele dava leves mordidinhas e, sim, eu não posso dizer que aquilo não era bom, mas não era o que eu queria no momento. Não agora, não com essas coisas todas martelando em minha cabeça. Mas, a medida que os beijos começavam a descer, eu fui amolecendo, me entregando. Maxon sabia como me ter em suas mãos e, céus, ele fazia isso tão bem.
"Foco, America, foco!" , gritava a minha cabeça.
– Bem, o que Daphne queria com você? — Comecei como quem não quer nada.
– Daphne? — Ele perguntou, parando abruptamente com os beijos — Por que?
– Ah, sei lá, ela parecia ter algo importante a dizer. Só queria saber o que era.
– Deixe isso para lá, America.
E então eu congelei. Não haviam mais beijos e mordidas que me amolecessem agora. Eu estava impassível. Afinal, por que diabos Maxon não quer me contar o que Daphne queria? Não era justamente ele quem dizia que não devíamos ter segredos um do outro? Não era ele quem sempre pedia sinceridade? Não estava entendendo mais nada. Tudo o que eu sabia era que havia algo muito estranho nele e com certeza nela também.
Não, America, você deve estar ficando maluca! Maxon e Daphne não...
– O que houve? — Ele perguntou quando eu pulei da cama.
– Por que não quer me contar? É um segredinho íntimo de vocês dois?
– O que...?
– É algo que a sua "querida" nunca, jamais, pode saber? — Eu acusava, sentindo minhas orelhas ficarem vermelhas de raiva.
– America, eu...
– Você não vai contar, Maxon? Não vai contar?
Ele abriu a boca algumas vezes e voltou a fechá-la. Umedecia os lábios o tempo inteiro e eu sabia que ele estava nervoso. Não queria ficar com raiva de Maxon, mas, o que eu podia fazer?
– America, você está com... ciúmes!? — Disse mais como uma afirmação do que como pergunta.
Ele riu, embora ainda não fosse sua risada habitual. Senti vontade de morrer, de enfiar minha cabeça num buraco debaixo da terra e não tirá-la mais de lá. Afinal, não era para ser engraçada e ciúmes definitivamente não é algo no qual se possa rir!
– Você vai responder? — Indaguei, a voz o mais firme possível.
Ele se arrastou para fora da cama, só de meias e calça, e tentou segurar minhas mãos, mas eu cruzei meus braços sobre o peito. Sabia que ele tentaria sua tática de sedução para me desdobrar, mas eu estava convicta do que eu queria e estava disposta a não dar o braço a torcer.
– Meri, você precisa entender que...
– Vai contar? — Voltei a perguntar.
– Não.
Tudo em mim desmoronou. Eu ainda tinha esperanças de ele contar e, quando ouvi a negação, não consegui acreditar. Ele realmente estava escondendo algo de mim, realmente não queria que eu soubesse. Mais do que raiva, mais do que ódio, eu sentia tudo ao extremo! As emoções se camuflavam o tempo inteiro enquanto eu procurava algo a que me apegar para dizer-lhe, mas eu não conseguia. As palavras iam e voltavam na minha mente, mas nunca eram reproduzidas em alto e bom som. Então ele não tinha nada a dizer, e eu também não.
Silenciosa, me movi para o closet e apanhei a primeira camisola que vi na minha frente. Me dirigi para o banheiro, disposta a deixar bem claro a minha ira. Maxon perguntou se eu realmente ia me trocar no banheiro, e eu aproveitei a ocasião para ser o mais dura possível.
– Alguma objeção? — Questionei, deslizando a camisola pelo meu corpo, a porta encostada para que nenhum de nós dois nos víssemos.
Apenas silêncio.
Caminhei de volta para o quarto, as pernas bambas. Eu só queria chorar, me esconder, nunca mais olhar na cara de ninguém, mas eu não podia. Eu era a rainha e tinha obrigações e, mesmo que inventasse uma enxaqueca no dia seguinte, eu não me livraria de Maxon à noite. Me encolhi debaixo das cobertas e apaguei o abajur do criado mudo, inundando o quarto na escuridão. Observei a cortina da sacada balançar à brisa noturna por pouco tempo antes dos meus olhos marejarem e eu não enxergar mais nada.
– Isso é ridículo, sabia, America? — Maxon disse depois de um tempo.
– Boa noite, Maxon. — Isso foi tudo o que eu respondi.
A manhã seguinte não foi diferente. Maxon permaneceu com sua palavra, ele não me contou absolutamente nada do que Daphne havia falado, e aquilo estava me deixando maluca. Como todas as manhãs, ele beijou minha testa e saiu para a sala de jantar. Demorei um pouco para perceber que nada no mundo me faria mais mal do que encarar as paredes do quarto pelo resto do dia, então, com uma coragem insana, eu me levantei da cama, me vesti apropriadamente e fui para o café da manhã.
Ainda era cedo e por isso estavam todos lá. Evitei o olhar de todo mundo, principalmente do da rainha da França, mas todos me trataram como sempre, como se nada tivesse acontecido. Daphne, na qual peguei lançando piscadelas à Maxon, estava radiante como o sol. Seu vestido era tão lindo que senti vontade de rasgá-lo!
– E então, Daphne, como vão as coisas na França? — Perguntou Maxon, depois de um pigarreado. — Você continua pintando?
– Ah, querida, conte à Maxon sobre suas pinturas! São divinas! — Disse a mãe de Daphne.
E de repente ela era, novamente, o centro das atenções. Nem ouvi direito o que ela falou, mas, ao terminar, Maxon lançou outra pergunta à ela, na qual ela se gabou delicadamente de uma habilidade sua. Meus dedos estavam trêmulos e, quando olhei para eles, entendi o porquê; eu estava amassando um pão, o transformando em míseros farelos.
– Ah, isso é incrível. Não acha, Jeremy? — Maxon disse.
Olhei para todos os lados em busca da tal pessoa. Afinal, quem era Jeremy? Até que o encontrei, em um canto, ao lado de Orabella. Jeremy era o príncipe, irmão de Nicoletta. Eu nunca tinha reparado nele direito, mas, agora, vendo melhor, ele parecia um peixe fora d'água. Os cabelos quase tão loiros quanto os da irmã estavam caídos em seus olhos e pude presenciar o momento em que suas bochechas se avermelharam por ser introduzido na conversa.
– Ah, claro, claro. É realmente impressionante. — Ele elogiou, a voz entrecortada
Vi diferentes reações à isso; a mãe de Daphne revirou os olhos e suspirou, a duquesa Munike sorriu ao ver a expressão da cunhada, Orabella e Naomi trocaram olhares significativos e Nicoletta ergueu as sobrancelhas sedutoramente para Jeremy. Mas o mais impressionante foi ver os olhos de Daphne se encherem de alegria e seu rosto corar violentamente. Eu não estava entendendo mais nada, todos pareciam saber de algo na qual eu estava totalmente por fora. Agora quem era o peixe fora d'água era eu.
– E as aulas de canto? — Insistiu Maxon. Joguei a cabeça para trás até meu pescoço doer e me levantei, desta vez menos ruidosa — Querida, a onde vai?
– Tomar um pouco de ar. Tudo o que menos tem aqui dentro. — Eu ri disso, como se fosse uma grande piada, mas Maxon entendeu meu tom e suspirou.
– Bom, eu continuo praticando, não sou tão boa assim, mas acho que o essencial não é ser a melhor. É fazer o que você gosta. — Respondeu Daphne, mais animada do que nunca.
Ah, claro. O essencial é deixar a America com raiva!
Os jardineiros estavam podando as árvores e cortando algumas flores quando cheguei. Os jardins eram sempre fabulosos pela manhã; o sol reluzia na grama verde bem aparada, nas rosas vermelhas dos arbustos, nos bancos brancos, nas armaduras dos guardas.Eu estava sendo inundada daquela luz maravilhosa, a única que podia me ajudar naquele momento, até Nicoletta chegar por trás de mim acompanhada de suas primas.
– Problemas? — Nicoletta perguntou, direta.
– Muitos.
Orabella indicou um banco a um canto, distante dos guardas, e todas nós nos conduzimos à ele. Me sentei entre as três, me sentindo ameaçada por perguntas que ainda nem haviam sido feitas. Eu sabia que elas iam querer saber o que aconteceu e eu sabia também que eu queria contar, mas não para todas elas. Orabella e Noami eram ótimas, amigas maravilhosas, mas eu tinha acusações graves e não queria que todas soubessem. Com Nicoletta era diferente. Eu queria falar para ela, pedir a opinião dela. Necessitava daquilo.
– O que houve? — Naomi perguntou e eu permaneci calada.
– Ah, o quê? Tudo bem, elas já vão. — Nicoletta gritou como se alguém a tivesse chamado — Mamãe está chamando vocês duas.
Naomi e Orabella se entreolharam.
– O que fizemos dessa vez?
Nicoletta deu de ombros.
As duas correram de volta para o palácio, ajeitando as vestes e se perguntando o que poderiam ter feito para despertar a atenção da Rainha Araminna. Nicoletta riu.
– Ninguém as chamou, não é? — Perguntei.
– Claro que não. — Respondeu, ainda sorrindo — E então, o que houve?
Respirei fundo algumas vezes antes de começar um monólogo sem fim.
– Tantas coisas que nem posso enumerar.
– Me conte algumas. — Ela parecia realmente preocupada comigo.
– Bem, peguei Daphne olhando fixo ontem para Maxon durante o chá da tarde, e depois, no jantar, ela o chamou para conversarem. Maxon não quis me dizer sobre o que os dois falaram e isso está me matando! Peguei Daphne hoje piscando o olho para Maxon e depois ele começou a elogiar suas qualidades. Sinceramente, Nicoletta, acha que há algo entre os dois?
Nicoletta pareceu pensar no assunto, era muita coisa para ela assimilar de uma vez só. Mas, após alguns minutos, depois de ela tamborilar bem muito os dedos nos lábios, ela finalmente respondeu.
– Você está desconfiando de... traição?
– NÃO!
Traição. Essa era a palavra na qual eu estava fugindo. Não poderia estar havendo traição, não da parte de Maxon. Pelo menos era o que eu achava.
– Ainda bem porque, meu Deus, America, Maxon ama você com todas as forças. Você é tudo para ele. Quer dizer, ele enfrentou o pai por você, e, se ele não lhe amasse, por que se casaria com você? — Nicoletta explicou, agitando as mãos.
– Eu sei, eu sei. Mas, convenhamos, isso é tudo tão... esquisito! — Me defendi, encolhendo no banco com vergonha.
Ela respirou fundo.
– Só tem um jeito de você descobrir a verdade então: Falando com Daphne.
Essa era de longe a ideia mais idiota de todas, afinal, qual motivo eu daria a Daphne para ela me responder? Ela poderia mentir, é claro, poderia inventar qualquer coisa para dizer. Mas essa era minha única chance, eu precisava saber o que estava acontecendo. Entretanto, a pergunta que não queria calar era: Eu teria sangue frio a ponto de perguntar a ela isso? Eu realmente precisava saber? Porque, sim, eu confiava de olhos fechados em Maxon, mas Daphne parece ser tão manipuladora... É, eu definitivamente tinha que saber, se não por Maxon, por Daphne. Talvez ela me respondesse, talvez, não, mas só havia uma forma de saber.
Tentando.
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