The Mafia

4 004 — Protocol


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Northwestern Memorial Hospital, 14 de Maio de 2014. 07:48 PM.

É absurdamente clichê dizer que uma pessoa em coma parece estar dormindo. Porque de certa forma ele está dormindo, certo? Não faço a menor ideia, já que medicina não é meu forte e nunca me interessei por isso. Mas definitivamente Mariana parecia estar adormecida. Os cabelos ruivos jogados no travesseiro e o rosto completamente coberto por ataduras não tornava impossível reconhecê-la, sendo até fácil fazê-lo. Minha "pupila", se é que posso chamá-la assim, estava em coma desde que seu carro fora jogado contra um caminhão em movimento e ela estava presa pelo cinto de segurança, portanto não conseguiu sair a tempo.

Cheguei tarde no hospital porque fui praticamente obrigado a passar o dia inteiro em uma ridícula e inútil reunião na sede da Aquila com a Marinha dos Estados Unidos. Queriam conversar sobre pagamentos e um possível projeto de um navio mais moderno e mais armado, basicamente para usarem contra qualquer um que desejasse atacá-los. Nada que eu nunca tivesse lidado antes e que eu não estivesse preparado, já que eu sabia das consequências quando fundei a Aquila Industries. A razão por tê-la fundado? Tédio. E também uma maneira de ganhar mais dinheiro e influência, além de poder trabalhar diretamente com meus inimigos. Foi aí que Tony di Aquila nasceu. Um bilionário filantropo ambicioso e entediado, nascido nas áreas mais pobres de Nova Iorque, filho de imigrantes italianos e que tinha enriquecido em Wall Street tão rápido quanto qualquer figurão velho e despreparado. Um gênio e prodígio aos vinte e cinco anos de idade, não um mafioso órfão que havia passado metade de sua vida limpando banheiros.

E um bilionário como Anthony di Aquila nunca abandonava uma reunião "importantíssima" com a Marinha dos Estados Unidos para simplesmente ver uma violinista que nunca viu na vida no hospital. Por Deus, isso não acontecia nem nos melhores sonhos de um sonhador nato.

A primeira pessoa conhecida que vi no hospital fora Scott, o que achei um tanto quanto inusitado. Ele aparecia raras vezes na sede do Sindicato e isso apenas acontecia quando alguém, geralmente eu ou Mariana, o chamava. Além disso, em situações como essa, Scott sempre parecia apático e alheio a tudo, porém ele estava surpreendentemente ligado no que ocorria. Na frente da porta do quarto dela, ele estava de braços cruzados e ainda usava as roupas de laboratório. Scott tem uma aparência difícil de se descrever; alto e dolorosamente magro, — o que me levou a crer que ele havia passado mais de uma noite trabalhando em seu projeto secreto e não tinha comido nada até agora — suas olheiras pareciam ter se aprofundado. Cabelo negro e curto, além de um rosto triangular e feições cansadas, Scott entraria na lista de Diamond de "homens pegáveis" se fosse de outro mundo. Usava um colete cinza, camisa de manga branca, calças pretas e um jaleco branco, o que quase me levou a confundi-lo com um médico.

— Scott. — O cumprimentei, se prostrando ao seu lado e observando Mariana de longe. Vejo-o, pela ponta do olho, balançar a cabeça em sinal de saudação e trocar o peso de um pé para o outro. — Como ela está?

— Agora ela está bem, a pressão dela voltou ao normal e o médico disse que ela conseguiu mexer um dedo quando ele a cutucou, mas as chances de sobrevivência continuam as mesmas. Eles acham que quando ela acordar — Ele deu ênfase ao "quando", algo que estranhei. Imaginei que ele não iria se manter tão esperançoso quando demonstrou estar. Não era algo do feitio dele e sei disso por conhecê-lo há quase oito anos, portanto aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha. — Existe a possibilidade de haverem sequelas no cérebro ou algo assim.

— Entendo. Você está aqui a quantas horas? — Pergunto, e ele coça a lateral da cabeça.

— Desde que me ligaram dizendo que ela tinha sofrido um acidente. Na verdade, todo mundo está aqui no hospital desde que o Alex ligou. Quer dizer, quase. Não conseguimos falar com nem com o Axel e com Rowena, e a Freyja acabou de sair dizendo que ia atrás dela. Daphne, Mellody e a Andy estão na lanchonete. Alex foi no banheiro e eu não sei onde a Diamond está. Então só eu estou aqui com ela. — Balanço a cabeça e coloco a mão no ombro de Scott, que é apenas dois centímetros mais baixo que eu.

— Vá comer alguma coisa e se possível, chame os outros. Eu fico com a Mariana enquanto isso. Afinal, não existe horário de visitas para Tony di Aquila. — Sorrio e ele se despede, indo na direção de um dos vários pavilhões do hospital até eu o perder de vista. Vejo se há alguém no corredor e rapidamente entro no quarto antes que um médico que passava por ali me visse, então me sento em uma das poltronas escuras ao lado da cama de Mariana, que não se moveu um único centímetro; claro, ela estava em coma. Suspiro, encontrando palavras para dizer a ela, que podem ser as últimas que ela ouvirá de mim, se é que ela realmente ouve alguma coisa. — Olhe, Mariana. Eu sei que o que eu direi agora faria você querer me dar um tiro, mas é a única forma de que eu encontrei de me explicar. Desde que... — Viro o rosto, sentindo uma única lágrima cair. Falar do passado é doloroso até para mim, mas é necessário. Suspiro e continuo, ignorando meus próprios sentimentos quase que com maestria. — Desde que ela morreu e você se ofereceu como Consigliere no lugar dela, eu sabia que isso iria acontecer. Por isso eu não quis que você se subisse de cargo. É ridículo, mas você é como se fosse uma filha para mim e eu tive medo de perder você e todos os outros membros se esse tipo de coisa acontecesse. Eu ficaria sozinho, da mesma forma que fiquei quando ela morreu, e acabaria me matando. Por isso, decidi que irei jogar no lixo o tratado de paz com as outras máfias que você promoveu. Vou destroçar cada um dos filhos da puta que fizeram isso com você. Custe o que custar.

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De La Salle Institute, 8 de Agosto de 1997. 08:28 PM.

— Roubar uma loja? Você ficou doido, Vic? — Nolan pergunta a Victor, que ri e coloca deita a cabeça em cima da ponta da fonte do colégio, acendendo seu cigarro. Victor estava na De La Salle há mais tempo que Ansel e Nolan, portanto ele sabia exatamente como assaltar um lugar do campus sem ser pego, porém nenhum dos dois amigos parece estar gostando da ideia.

Victor Bertinelli tinha dezesseis anos e era o único dali que era de um orfanato. Ele, segundo Ansel, exibia uma cara de drogado natural reconhecível por qualquer um. Cabelos extremamente bagunçados, num tom escuro do loiro-areia, e olhos azuis. Grandes olheiras marcavam seu rosto e ele sempre parecia estar cansado. Victor sempre fazia questão de estar vestido igual um delinquente rico dos anos 50, mesmo que fosse o garoto mais pobre de todo o instituto. Era alto e magro, e sempre estava fumando ou bebendo alguma coisa fora das vistas dos professores.

Nolan Jackman, por sua vez, era o oposto de Victor. Era o mais baixo do grupo e o único 100% estadunidense, sendo que Victor tinha pais italianos e a maioria da família de Ansel era alemã. Cabelos encaracolados castanhos, quase ou até mais branco do que Victor e um rosto que praticamente gritava "Ei, eu sou um nerd! Me dê um soco!", ele tinha olhos escuros e sempre estava vestido na moda da época. Calças jeans azuis que eram três números maiores, camisa branca por cima de outra com uma estampa esquisita, Nolan era o típico nerd daquela época.

Ansel Meyers era o sonho de consumo de todas as garotas do campus feminino. Com 1.86 cm logo aos dezesseis anos e musculoso, ele tinha cabelos escuros e os olhos mais azuis que se poderia imaginar. Os cabelos sempre arrumados, assim como suas roupas. Suas feições eram uma mistura das de um americano com as de um europeu, assim ele sendo irritantemente bonito perto dos outros dois. Usava o casaco do time de futebol por ser o quarterback e capitão, camisa branca acompanhada de um suéter azul-marinho e calças jeans escuras.

— Se isso é uma maneira de impressionar a minha irmã, saiba que não vai funcionar. A Vi gosta de caras delinquentes que não cometem crimes e que provavelmente vão virar um daqueles advogados chatos e cansativos. — Ansel diz, dando de ombros e tragando seu cigarro com tanta indiferença que doía. — Tipo o Robbie. Robbie é melhor e mais bonito que você, Vic.

— Você parece uma mulher quando fala do Robbie, Meyers. Quer namorar ele, é? — Victor diz, com sarcasmo, e Nolan ri enquanto dá outro gole na cerveja que contrabandeara para a escola. Ansel apenas revira os olhos.

— Mamãe está infernizando a Vi para ela terminar com ele. Quer que ela namore aquele cara da Igreja dela, o Kellan.

— Pelo amor de Deus, aquele cara é um chute nas bolas. — Nolan se senta direito, olhando para Ansel como se não acreditasse no que ele estava dizendo. Victor continuou fumando e, em alguns momentos, cantarolava uma das músicas dos Rolling Stones; a única coisa que lhe importava era namoro decadente da irmã de Ansel, não o fato da mãe dela preferir outro cara. — Daquela vez que fomos dormir na sua casa e a sua mãe preparou um jantar com ele, o cara quase me esgana quando eu disse que era judeu.

— É, eu lembro. Ele disse que você ia para o inferno num outro almoço e que eu iria junto por ser seu amigo. Eu ri bastante naquela noite.

— O que importa é que eu não vou roubar uma loja para impressionar a sua irmã idiota, Ansel. — Era mentira. Em parte, Victor queria impressioná-la de alguma forma. E estava tentando desde o jardim de infância. Mas a razão para aquilo não tinha nada a ver com a garota; Victor tinha um objetivo de vida em mente, e era por ali que o começaria. — Eu vou pegar emprestado o dinheiro deles e vou investir em algo importante para a sociedade.

— Que seria...?

— Segredo.

— E desde quando você guarda alguma coisa da gente, Vic? — Ansel pergunta, sério. Ele larga o cigarro e olha nos olhos de Victor, questionando-o quase que espiritualmente. Nolan se mantém calado, mas é visível que ele também está perguntando aquilo.

— É coisa minha. Se vocês se envolvessem, poderiam acabar presos ou mortos. Eu não quero isso. — Victor diz, com frieza, finalizando o assunto ali. Os dois continuam olhando-o por alguns minutos, se perguntando internamente o porquê de Victor repentinamente agir assim, antes de mudarem de assunto e seguirem com a noite ainda com aquela pergunta gritando em suas mentes.

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Escritório da Mansão Aquila, 14 de Maio de 2014. 11:48 PM.

Diamond estava sorrindo sedutoramente para mim quando meus olhos foram em sua direção. Já estava acostumado com aquele sorriso, então não cheguei a me importar muito e continuei a observar cada um dos membros presentes naquela sala. Todos estavam ali, sem exceções. Alex estava sentado em uma das cadeiras, usando seu costumeiro terno e esperando o pronunciamento. Ao seu lado estava Daphne, que estava teclando algo em seu celular, e usava um vestido curto dourado. Ela tinha acabado de sair de uma festa. Axel parecia estar alheio ao ambiente, olhando fixamente para um dos livros da estante, enquanto Scott, que estava ao seu lado, parecia estar divagando. Mellody, Blanca e Andy estavam apoiadas na parede, conversando silenciosamente sobre algo que não me dou o trabalho de saber. Rowena também estava conversando, porém com Freyja. Na verdade, parecia mais que Freyja que estava falando e Rowena apenas ouvindo-a sem prestar atenção. E Diamond continuava me observando.

— Senhores, senhoras. — Balanço a cabeça na direção das mulheres do grupo e me sento em frente a escrivaninha, encarando o grupo de pessoas que conheço há quase quinze anos. Eu sei tudo sobre eles; suas histórias, seus medos, suas angústias, suas alegrias e seus pontos fracos. Eles eram únicos, eram sobreviventes a este mundo, assim como eu. E todos estavam ameaçados por minha culpa. Era a hora de resolver problemas antigos em prol do bem maior de minha família. — Vamos começar a assembleia.

Notas finais
Esse capítulo saiu bem bostoso e.e Mas pelo menos deu pra apresentar 1% do passado do Victor e o início oficial da trama. Eu não revisei, portanto me perdoem pelos erros. A última parte foi rápida porque agora eu tenho que sair. Vou responder os comentários quando voltar. Até o próximo capítulo!