The Mafia
5 005 — Memories
Notas iniciais

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— Escritório da Mansão Aquila, 15 de Maio de 2014. 11:52 AM.
Evelyn Scheidemann Meyers era uma criatura estranha; vivendo de meio-sorrisos intrigantes, olhares indiscretos e uma beleza impressionantemente avassaladora que destruía corações com um único olhar vazio. Era impossível não se apaixonar por ela, independente da maneira com que ela tratava a todos. Ela era diferente das outras pessoas; reservada, inteligente e um quebra-cabeças complicadíssimo de se resolver. Eu estava obcecado em desvendá-la e sabia que aquilo me destruiria, mas nunca pensei em um único segundo nas consequências que poderiam me trazer.
Ela sempre estava sorrindo para mim, mais do que para qualquer outra pessoa. Era mais um dos sorrisos tortos dela que praticamente gritavam "Você não me conhece, e nunca conhecerá", como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. Eu simplesmente sorria de volta, e ela ria como se me achasse o maior iludido do planeta. Aqueles risos eram as únicas razões que me prendiam ao De La Salle. Eu havia me transformado em um masoquista, um escravo estupidamente apaixonado pela irmã de meu melhor amigo. E eu não me arrependi em nenhum momento disso.
Eu me lembro de quando ela havia me parado no rua, sorrindo de uma maneira diferente; verdadeira, com sentimentos genuínos. Evelyn me observou por vários minutos, analítica, como se pensasse no que deveria dizer ou fazer, porém ainda sorrindo. Ela era linda à sua maneira; os cabelos extremamente escuros, a pele pálida e o corpo delicado. O rosto coberto por algumas sardas e os lábios róseos que quase clamavam por um beijo. As roupas de grife recém-compradas com o dinheiro que ela mesma havia guardado. E os olhos... Do azul mais cristalino que se pode imaginar, hipnotizantes, apaixonantes, únicos...
— Victor? — Acordo de meus devaneios e levanto os olhos para a mulher a minha frente, Diamond. Ela está sorrindo, usando um sobretudo negro que esconde seu corpo, com os cabelos loiros presos em coque e os olhos cintilando. Sei exatamente o que acontece a seguir e meus olhos vão na direção dos dela, indicando uma negativa.
Diamond é a mulher mais bonita que você pode imaginar multiplicada por dez. Cabelos loiros ondulados que caem em cascata até abaixo dos seios, macios e sempre bem arrumados. Os olhos hipnotizam qualquer um, de um tom de um azul claro parecido com um verdadeiro cristal. Sua pele branca é branca, macia como pêssego. O corpo dela é digno de uma rainha da beleza, com curvas acentuadas e perfeitos. Ela era perfeita, disso eu não podia negar.
Mas Diamond não era Evelyn.
— Hoje não, Mond. — Digo, massageando as têmporas e guardando a foto dela rapidamente antes que Diamond veja. Se ela descobrisse sobre aquilo, acabaria acreditando que eu estava com ela apenas para esquecer de Evelyn. O que, em parte, era verdade. Ela se aproxima e se senta em cima da mesa (e em cima da papelada da empresa), ainda sorrindo sedutora. Nenhum homem recusaria uma mulher como aquela nem em um milhão de anos, e mesmo assim eu o fazia com naturalidade. Simplesmente porque eu parecia ser imune ao "poder" dela.
— Sério mesmo, Victor? Vamos lá, você precisa relaxar...
— Eu não estou com vontade nem disposição e muito menos no humor para isso. Desculpe. — Olho-a nos olhos e ela repentinamente fica séria. Lembro-me da habilidade que ela tem de descobrir quando alguém está mentindo, então me alivio ao saber que ela não ficará irritada. Diamond suspira e cruza os braços, e temo que ela esteja irritada. Mas não. Mond parece estar verdadeiramente preocupada, o que significa que a reunião tinha afetado até mesmo ela, que sempre me parecera inatingível a aquele tipo de coisa.
— É sobre aquela ameaça? — Ela pergunta, mesmo sabendo a resposta. — Vic, você realmente acha que...?
— Não é algo de se ignorar. Mond, aquilo foi praticamente uma declaração de guerra e nem mesmo a CIA fez algo desse gênero, e olhe que eles arriscaram todas as suas fichas. Primeiro, eles quase assassinam o segundo membro mais poderoso do Sindicato. Depois mandam essa carta... — Diamond suspira e se levanta, ajeitando o sobretudo para que sua lingerie não apareça novamente.
— Bem, eu tenho uma sessão de fotos daqui a uma hora. Então é aqui que nos despedimos. — A última frase dela é a mesma de sempre. Diamond sempre diz isso depois de nossas "reuniões", como se aquilo realmente tivesse sido uma reunião de negócios. Ela dá um último sorriso e sai, enquanto resolvo telefonar para a única pessoa com quem eu poderia conversar agora: Axel. Disco o número e espero-o atender. Nada. Provavelmente ele está ocupado com algum trabalho de sua empresa. Pigarreio e resolvo ligar para Blanca, que é a única que pode realmente me ajudar psicologicamente. Ela atende, para o meu fortúnio.
— Tony! A quanto tempo. — A voz calorosa dela me abraça e me salva da tristeza quase que imediatamente. Blanca era o membro mais velho do Sindicato e uma das poucas que conhecia a história inteira, e a única que poderia me ajudar naquele momento. — O que aconteceu?
— Vienna. — A menção ao nome dela deixa Blanca tensa; noto ao ouvir sua respiração bater com força no microfone. Me levanto e me certifico que Diamond foi embora até me lembrar que a sala é aprova de som, portanto não haveria maneira dela ouvir a conversa. Sento-me em frente a lareira, fitando o fogo crepitando. — Eu... As memórias...
— Isso tudo está deixando você ansioso, eu sei. Por isso você deve estar se lembrando dela. Sabe, isso é normal. Com o que está acontecendo, é óbvio que a sua mente vai procurar mais e mais problemas e...
— Eu me lembro da última vez que eu a vi antes do funeral. — A interrompi, segurando a respiração por um milésimo de segundo. Respira. 1, 2, 3, 4, 5. Expira. — Eu me lembro do sorriso. Ela não estava mentindo quando disse que me amava, Blanca, eu tenho certeza.
— Victor... Não tem como você saber. Evelyn está morta. — Ela diz, tomando todo o cuidado possível para não falar com rudeza, mas, mesmo assim, as palavras me atingem com a força de uma escopeta. Nove anos e a ficha ainda não tinha caído completamente; era como se ela estivesse viajando para algum lugar junto com Ansel, rindo e tirando fotos em monumentos famosos, planejando uma maneira de me surpreender cada vez mais. Era como se eles fossem retornar no outro dia e contar sua viagem para mim do início ao fim. Então Evelyn sorriria daquele jeito novamente, iluminando-me nesses tempos obscuros, mostrando-me uma solução fácil para aquele problema. Ela sempre conseguia fazer aquilo. — Olhe... Tente achar uma maneira de relaxar. Você não tem uma festa da empresa hoje? Pegue um terno legal, tome umas garrafas de vodca e conheça uma mulher. Tudo vai ficar bem logo, logo. Somos um grupo poderoso demais para ser ameaçado possivelmente por um adolescente com um computador.
— Talvez... Talvez isso seja o melhor a fazer. Obrigado. — Ela se despede e desligo o telefone, novamente massageando as têmporas. E, então, pego o convite deixado por minha secretária em cima da mesa. As palavras escritas em azul brilham e eu as leio, calmamente:
Caro Sr. Aquila,
Margot e Harry Desjardins o convidam para a Confraternização dos Dois Anos de Inauguração da Desjardins Inc. A festa tomará o apartamento do Sr. Desjardins na Avenida Michigan, número 653, às nove horas da noite. Roupas de gala obrigatórias.
Suspiro e guardo o papel no bolso, me dirigindo para fora do escritório. Hoje seria um longo dia. Infelizmente, longo e melancólico demais para um quinze de maio comum na vida dos irmãos Desjardins, que eu nunca conhecera pessoalmente.
Eles haviam enriquecido há pouco tempo e se tornado um dos principais parceiros da Aquila, além de serem capazes de rivalizar a Google no conceito ciência e tecnologia, descobrindo maneiras mais baratas de resolver problemas enormes e curando algumas doenças. Os Desjardins eram famosos, mas quase nunca saiam de casa para alguma coisa. A mídia estava louca para conhecê-los, mas tanto Margot quanto Harry eram discretíssimos. Ou, pelo menos, ela era. Harry tinha se separado de uma modelo do Victoria's Secret recentemente e ela havia revelado algumas poucas coisas ao seu respeito; ele irritantemente ria de qualquer coisa e quase sempre tinha uma piada na ponta da língua.
Harry Desjardins parecia ser o tipo de pessoa com quem eu me daria bem.
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— Northwestern Memorial Hospital, 15 de Maio de 2014. 11:59 AM.
A primeira coisa que Scott Lang fez após ter um tempo livre em seu "trabalho" foi visitar Mariana no hospital. Ele era o único além de Victor que insistentemente aparecia naquele lugar, trazendo nada nas mãos e quase sempre passando a tarde inteira apenas observando-a. Esperando que ela acordasse. Esperando ela acordar e dizer-lhe o que significava aquilo que tinha dito antes do atentado, no telefone.
"Eles nos ameaçaram. Ligue para o Victor. Estamos. Sendo. Ameaçados."
Eles. Quem eram "eles"? E por que Mariana não tinha ligado diretamente para Victor? Aquilo era estranho. O tom de voz dela parecia estar desesperado, como se ela estivesse sendo perseguida por alguém. E ela falava como se a ligação estivesse grampeada... Aquilo era intrigante. Mariana nunca faria esse tipo de coisa sem motivo, disso Scott tinha certeza. Ele era a pessoa que mais a conhecia ali, talvez mais do que o próprio chefe e "pai postiço".
O homem coçou a lateral do pescoço, ainda olhando para o rosto adormecido da mulher e imaginando o que ela queria dizer. Era um enigma, de certa forma, e ele era o único que poderia desvendá-lo. Aquilo ameaçava seus "amigos", e ameaçava principalmente seu trabalho. Scott poderia ser preso novamente, porém seria por muito mais tempo. Talvez nem conseguisse sair de lá. E talvez nunca saberia o que Mariana quis dizer com "eu preciso conversar com você sobre nós" na última tarde no parque que se encontraram. O que ela queria dizer com isso? Ele não sabia, e estava duplamente confuso.
Scott parecia um cego em um tiroteio, sem entender nada do que estava acontecendo e com uma chance gigantesca de falhar miseravelmente. E sua falha poderia significar sua morte ou vários anos na prisão. E ele se sentia obrigado a apostar suas fichas na primeira opção.
Observou o rosto da francesa uma última vez antes de se levantar e sair do hospital. Havia uma única forma de relaxar e talvez encontrar uma resposta para suas perguntas. E Lucy estava diretamente envolvida nisso. Chegou em seu apartamento pelo táxi rapidamente e trancou-se lá, fechando as janelas e procurando algo em sua armário. Quando encontrou o LSD, não esperou mais nenhum segundo. E então Scott se desligou do mundo real.
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"De Email Desconhecido.
Para Anthony di Aquila.
Vocês todos estarão mortos ao amanhecer do quadragésimo dia. Traidores assassinos como vocês não merecem nada além da pior das mortes. O pentágono, a cidade em chamas e a cabeça da águia na lâmina. E enfim, andaremos sobre seus cadáveres e comemoraremos o início de uma nova era criminal. O fim começa agora."
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