Notas iniciais
A tensão em seus ombros, enquanto seu pai a seguia tocando seu braço, até a barreira não a abandonava. Trens iam e vinham na estação de King's Cross, com pessoas por todos os cantos esperando pelo seu, todas olhando avidamente para o relógio prestes a marcar 11 horas. Elas nunca saberiam o que se escondia atrás da divisão entre as plataformas nove e dez daquele lugar.
Annabeth segurava a barra do carrinho para seu malão, onde a gaiola de Icarus descansava, a coruja inquieta cutucando as penas das asas com o bico. Sua penugem branca com algumas penas em caramelo contrastavam com seus olhos cinzas e atentos.
Ela havia comprado aquela coruja com sua mãe, o que seria uma das poucas vezes em que ambas passaram algum tempo juntas, uma vez que Atena viva separada de seu pai e trabalhava no setor de Execução das Leis da Magia. Além de ter seu pai ser um trouxa, se casar com ele a faria ser vítima de preconceito entre os bruxos e atrapalharia seu cargo. Mas ele havia se casado com uma trouxa, e agora eles tinham dois filhos gêmeos, e ambos superaram aquela paixão. Por mais que quisesse ter uma relação melhor, ela não se sentia em casa quando estava com aquela família.
Parada em frente à barreira, Annabeth não sabia se dizia apenas "Vejo você em breve" para Frederick Chase ou se não dizia mais nada. Murmurou a primeira opção e se empurrou para o outro lado da parede, mas ele segurou seu ombro.
– Espere. — Disse com uma voz calma. Ele a deu um olhar intenso com seus olhos castanhos. Eram doces e gentis, combinando com seu cabelo cor de areia já exibindo alguns poucos fios brancos, mas que não o tiravam seu porte atlético e aparência atraente para um homem de meia-idade. E então ele a abraçou, fazendo com que ela ficasse hesitante em abraçá-lo de volta, mas acabou por passar os braços ao redor de seu peito, olhando para o tecido nas costas da camisa do pai.
Frederick murmurou:
– Eu te amo.
Ela apertou as mãos em suas costas, querendo também dizer aquilo de volta.
– Pai, eu tenho que ir. — respondeu, por fim.
Frederick suspirou e se separou dela, beijou-lhe levemente a testa e se afastou.
–Tenha um bom ano letivo. — murmurou.
Annabeth deslizou pela barreira sem responder, os pios de diferentes corujas, fumaça atrapalhando a visão e o som de várias vozes se sobrepondo sobre outras a fizeram se sentir em casa. Ela olhou para os tornozelos ao sentir algo passar pelas suas pernas e sorriu ao ver um gato preto desconhecido, que provavelmente havia fugido da gaiola de alguém.
– ... Não se preocupe, eu estou bem. — Annabeth se virou ao reconhecer a voz que murmurava aquilo.
Reyna estava ali, com sua irmã Hylla atraindo olhares dos garotos, o que não era por menos, já que, além de bonita, Hylla era uma famosa jogadora de quadribol. Não seria surpresa se alguém a parasse para pedir um autógrafo da capitã das Harpias.
A loira acenou rapidamente com a mão para chamar atenção da outra.
– Reyna! — ela disse e se aproximou, arrastando seu carrinho junto.
– Espere um segundo — Reyna falou para sua irmã, desmanchou a carranca, deu um pequeno sorriso e então abraçou Annabeth rapidamente. — Como passou as férias?
– Bem. — a loira respondeu com um sorriso e se virou para Hylla. — Oi, Hylla.
Hylla sorriu um 'oi' e se virou para Reyna. A irmã da garota usava um jeans e pullover azul-marinho, com os cabelos negros presos num alto rabo de cavalo. Hylla era alta como Reyna, mas suas feições eram mais velhas e a postura mais descontraída.
– Você tem certeza de que está...
– Tenho. — Reyna disse, a cortando. — Precisamos ir, lhe vejo no Natal.
– Certo. — Hylla suspirou. — Vejo você no Natal. — disse e se afastou, voltando para a passagem da plataforma.
Reyna soltou um suspiro e se virou para Annabeth. Ela continuava do jeito que se lembrava, usando uma longa trança em seus cabelos negros, mas parecia mais cansada, como se não passasse bem ou precisasse de algo para se manter de pé.
– Vamos lá para dentro? Se dermos sorte ainda podemos encontrar um vagão antes de ir para o dos monitores. — As duas se tornaram monitoras no ano anterior, em seu 5º ano de Hogwarts, devido à postura exemplar e notas extremamente altas. Não era exatamente uma surpresa, por mais que Reyna não gostasse de se gabar sobre aquilo, muito menos Annabeth.
– Claro... — Elas estavam entrando no trem quando tiveram seu caminho atrapalhado por duas figuras quase idênticas.
Connor e Travis Stoll eram alunos da Corvinal, do mesmo ano que elas. Poderiam ser gêmeos, se não fosse pela pouca diferença de idade. Ambos com rostos risonhos e levados, tendo olhos e cabelos castanhos. Magros e marotos, eram sem dúvida os causadores de muitas dores de cabeça de vários professores.
– Olá, garotas. — Travis disse sugestivo, se apoiando com o cotovelo no carrinho de Reyna.
Ambas se entreolharam.
– Cadê seu namorado, Annabeth? — Travis perguntou com um sorriso de canto.
– Ele não é meu namorado.
– Se ele não é seu namorado, então como você sabe de quem eu estou falando? — Connor retrucou.
Annabeth fez um som entre grunhido e rosnado quando foram interrompidos por uma voz atrás dos garotos. Uma mulher caminhava apressada em direção à eles, e ela pôde rapidamente reconhecer que era a mãe de Travis e Connor, Donna Stoll. Baixa, magra e com os cachos e olhos da mesma cor dos filhos, seria impossível dizer que eles não tiveram a quem puxar. Ela vestia uma saia e casaco, tendo seu cabelo preso num baixo rabo de cavalo que destacava as sardas em seu rosto ainda jovem.
– Aí estão vocês! — Disse Donna, levando um gorro de um cardigã nos braços — Travis, não quero outra carta do Sr. D por suas bombas de bosta, e você esqueceu seu gorro — Ela o colocou na cabeça do garoto, emburrado por sua mãe estar ali no meio de tantos colegas seus — E Connor, quantas vezes já disse que você precisa levar um cardigã extra? Toda vez você derrama sopa de ervilha no seu!
Se ela ao menos soubesse que ele faz aquilo para não ter de usá-lo, Annabeth pensou ao controlar um sorriso dando um olhar de esguelha para Reyna, que também parecia divertida com a cena.
– MÃE! — Ambos exclamaram ao mesmo tempo, com bicos involuntários e braços cruzados.
A Sra. Stoll pareceu notar as garotas ao seu redor.
– Annabeth! — Ela a abraçou sorridente, e a loira se mostrou um pouco desajeitada com o abraço que a senhora lhe deu — Onde está Percy? — Ela olhou para os lados o procurando — Pensei que estivessem namorando!
Reyna sorrira para o rosto corado que ela dera.
– Eu não sei onde ele está, Sra. Stoll — Disse, dando um olhar de desaprovação para a sonserina ali perto. Annabeth olhou por cima do ombro de Donna, agora à sua frente, e viu Travis e Connor fazendo corações com as mãos e mandando olhares apaixonados. — Mas tenho certeza que seus filhos gostariam de lhe contar o que colocaram no vagão da Lufa-lufa antes da senhora aparecer. — Deu um sorriso triunfante quando os dos garotos quebraram. Eles praticamente fumegavam pelos ouvidos.
Donna se virou para eles, as mãos postas na cintura esperando uma explicação.
– O que vocês aprontaram desta vez?! Não podemos nem mesmo começar o ano sem detenções?
– Nós não fizemos nada! — Ambos exclamaram juntos.
– Ela está mentindo! — Connor apontou para Annabeth, que levantou as mãos em defesa.
A mulher os puxou para longe daquele vagão resmungando com os filhos, se dirigindo cada vez mais para o da Lufa-lufa, por mais que Annabeth soubesse que não houvesse nada por ali. Ou talvez houvesse.
– Uma bela saída evasiva — Reyna comentou.
– Nossos jogos de xadrez não são à toa, enfim. — Sorriu e se segurou na porta do vagão, esperando a morena passar para enfim entrar no Expresso de Hogwarts.
Lá dentro estava o mesmo caos de sempre, alunos arrastando malões e batendo um no outro pelos pequenos corredores.
– Acho que só vamos encontrar vagão na... — Annabeth parou de falar ao notar que Reyna não estava mais atrás de si.
Ela seguiu o caminho de volta, e demorou um pouco até encontrar Reyna escondida num compartimento vazio para professor. A garota tirara algo do bolso, um pequeno frasco com um líquido transparente e o bebeu. Reyna se apoiou numa das paredes antes que perdesse o equilíbrio. Annabeth estava dividida entre entrar ali ou sair. Se ela entrasse, haveria uma discussão num compartimento de professor entre duas alunas e um frasco suspeito. Ela poderia ter simplesmente dito que estava tomando medicamentos, mas não fez aquilo. Havia algo errado. Annabeth saiu dali antes que Reyna a visse, em algum momento ela a procuraria e daria uma desculpa qualquer tentando soar convincente. Todas as cabines estavam cheias àquela hora, quando o trem já começara a se movimentar, e ela passava pelos vagões vendo rostos conhecidos, mas não haviam lugares suficientes. Sua mente ainda estava focada em por qual problema Reyna estava passando e o que de tão sério nele fazia com que ela não houvesse lhe contado.
Chegou a um vagão, um da Sonserina, na qual haviam apenas dois solitários usuários. Ambos de cabelos negros e pele clara, ainda com roupas comuns. A garota era a mais velha, Bianca Di Angelo, e usava uma boina verde oliva enquanto olhava pela janela distraidamente, mas fechava os punhos em torno de seu cardigã de forma tensa. Diferente dela, seu irmão, Nico, estava animado enquanto remexia num monte de cartões antes presos por uma liga, mordendo o lábio com sua atenção totalmente voltada à eles.
Empurrou a porta do vagão lentamente, quando Bianca virou-se para ela.
– Posso ficar aqui? Todos os outros os outros vagões estão cheios — Nico levantou os olhos para ela, enquanto a irmã assentia com a cabeça.
O garoto sorriu. Seu cabelo havia sido um pouco cortado e suas bochechas estavam com mais cor, notou. Ele agora estaria entrando em seu quarto ano na escola.
– Oi, Annabeth! — Ele falou, animado, segurando as figurinhas de sapos de chocolate — Você viu o Percy? Eu queria mostrar para ele a nova figurinha que consegui. Como foi o seu verão?
– Foi bom — Falou somente isso, mas já era suficientemente uma mentira — Mas eu não vi o Percy, ele deve estar no vagão dos monitores. E o seu? — Era a terceira vez que perguntavam sobre ele, então Annabeth assumiu que deveria estar andando tempo demais com Percy. Ela olhou para Bianca. A Di Angelo sempre fora quieta, mas agora parecia... estranha, como se tivesse algo a prendendo num estado de desconfiança à tudo em sua volta.
– Bom — A garota falou numa voz baixa, desviando o olhar.
– Trágico — Afirmou Nico, recolocando a liga em sua coleção de cartões de Sapos — Nosso tio morreu, a tia Perséfone ameaçou nos transformar em cactus e papai não fica
em casa mais do que algumas horas.
– Nico! — Bianca exclamou — Ela estava sendo educada.
Annabeth olhou a forma que Bianca estava tentando controlar o irmão, mas ele apenas balançou os ombros. Ser educada com uma pergunta não era o certo a fazer no caso dos Di Angelo, não depois de tudo que passaram antes de setembro começar.
– Você também ouviu o que ele falou — Nico colocou o conjunto dentro do bolso da calça.
– Foi por acidente — Argumentou a garota — Você não deveria estar ouvindo atrás da porta, foi o único motivo de ele ter quase nos deixado de castigo.
– Mas não deixou. — Ele falou. Bianca apenas se recolheu mais em seu canto do lado da janela e não falou mais, e Annabeth entendeu aquilo como uma forma de dizer que a conversa acabara. Ela se perguntava o que tanto eles haviam ouvido, sendo que Plutão Levesque era tio deles, e aquilo provavelmente o envolvia. — Mas eu também não
entendi o que ele quis dizer, acho melhor deixar para lá — Nico comentou.
– Sim, faça isso. — Bianca falou de onde estava. Mas, pela forma de como seu olhar estava longe e suas mãos voltaram a se fechar em seu cardigã, Annabeth sabia muito bem que ela não deixaria para lá.
Nico se voltou para Annabeth.
– Vocês vão aprender aparatação esse ano, não é?
– Bom, sim. — Ela levantou uma sobrancelha.
– Eu mal posso esperar para chegar no sexto ano — Ele suspirou, parecendo ansioso — Bianca me disse que vão aprender a fazer poções bem mais complicadas também! Certo, Bianca?
A garota apenas deu um olhar para o irmão em seu canto. Annabeth decidiu puxar assunto com o garoto e desviar a atenção dela, pois Bianca claramente não estava em modo de falar com seu irmão. Ela se inclinou mais para Nico para conversar, fazendo ele se aproximar em curiosidade.
– Já ouviu falar na Poção do Morto-Vivo? — Ele negou com a cabeça, os olhos negros atentos à garota em sua frente. Parecia um garotinho pronto para entrar numa aventura.
Então ela contou à Nico sobre como foi preparar a poção sozinha em seu verão e adormecer o gato de sua madrasta, e outras diversas curiosidades sobre poções e feitiços que ela aprendera mais cedo que o garoto, agora prestes a entrar em seu 4º ano. Ele também mencionou algumas coisas sobre suas figurinhas, mas Annabeth às vezes desviava os olhos para o lado da cabine onde estava Bianca, agora olhando ávidamente para o vidro da porta. Ela estava procurando por algo, ou alguém. Em sua mente, Annabeth supôs que seria sobre ela estar agindo de forma tão estranha. O que Nico dissera ainda ecoava em sua mente. "Papai não fica em casa mais do que algumas horas", o que queria dizer que Hades Di Angelo estaria tramando alguma coisa, e ela tinha certeza que a matéria que saíra no Profeta Diário sobre a continuação das investigações tinha exatamente a ver com o que ouviram por trás da porta. Hades quase os deixara de castigo, mas provavelmente sabia que aquilo não resolveria nada. Envolver os filhos num assassinato seria algo que nenhum pai, sensato — acrescentou mentalmente, gostaria.
Bianca levantou os olhos mais uma vez quando viu alguém se aproximando da porta da cabine, mas o desânimo a tomou novamente. Annabeth esperava por Reyna e onde ela estaria, no entanto quem aparecera fora a mulher do carrinho de doces. Ao contrário da irmã, Nico se levantara rapidamente — "Ah, finalmente!"- e comprara todos os sapos de chocolate que pôde e os colocou desajeitadamente no banco, o que fez Annabeth rir um pouco, e ainda duas varinhas de alcaçuz.
– Vochê quer ua? — Ofereceu à irmã após morder um pedaço de uma das varinhas.
Ela rolou os olhos. Nico deu outra mordida, puxando o doce entre os dentes. Ele pegou uma caixa e a estendeu para Annabeth.
– Pode pegar um, se quiser — A garota pegou a caixa e agradeceu, e mesmo não estando com fome, comeu um pedaço antes que o sapo pulasse de sua mão. — Que figurinha você tirou?
Pegou-a de dentro com a outra mão. O bruxo de dentro da moldura tinha um rosto sério de meia idade, mas simpático. O cabelo preto e os olhos verdes se destacavam na pele bronzeada e uma barba bem-aparada. De alguma forma, ele a lembrava Percy.
– Poseidon — Disse — Li alguma coisa sobre ele no livro de História da Magia.
– Tenho umas quatro dessa, é uma das mais raras do Grande Trio dos Cartões de Bruxos e Bruxas — Nico comentou — Ele lutou na Primeira Guerra Bruxa.
– Isso mesmo — Annabeth disse, admirada de Nico saber algo de um assunto ainda não estudado — Foi um dos principais na batalha contra Cronos. Você realmente se interessa nessas figurinhas, não é?
Annabeth encarou um pouco mais o cartão em suas mãos antes de pegar suas vestes e se dirigir para o banheiro mais próximo. Após se trocar, voltou para a cabine e encontrou alguém na frente da porta da mesma. Bianca se levantou imediatamente. Um homem na casa dos cinquenta aparecera ali, com o cabelo e barba aparados em tons de cinza e branco. Seu rosto era magro e atencioso, mas ainda assim misterioso com olhos castanhos. Suas vestes tinham tons de roxo e marrom, e seu colete era de um bege escuro.
– Professor Quintus! — Bianca exclamou.
– Professor — Annabeth falou com um aceno de cabeça para o diretor da Corvinal, enquanto ele abria passagem para a garota entrar e se sentar.
Ele deu um pequeno sorriso. Nico ainda mastigava, mas olhou para Quintus num cumprimento.
– Boa tarde, Annabeth — Quintus respondeu e se voltou para Bianca — Srta. Di Angelo, recebi a sua coruja dizendo que desejava falar comigo. Me desculpe se vim apenas agora, estava ocupado em minha cabine. Podemos tomar um pouco de suco de abóbora enquanto me conta sua história — Ele gesticulou com as mãos de forma descontraída ao a convidar. Havia um pequeno corte em seu dedo indicador.
Bianca assentiu com a cabeça e saiu da cabine, mas, antes que o professor pudesse sair também, Annabeth mencionou:
– O senhor está sangrando.
– Desculpe?
Apontou para a mão dele.
– Seu dedo.
Quintus pareceu se dar conta do que ela havia dito, tocando a pele no local do corte.
– Oh, sim, minha coruja me bicou enquanto trocava seu jornal — Disse, e conjurou com a varinha um pequeno feitiço silencioso, logo o pequeno corte não era mais visível. Bianca ainda esperava atrás de Quintus na porta da cabine — Os vejo mais tarde, crianças.
E ele fechou a cabine novamente. Nico deixou um sapo dentro da mala de sua irmã. O corte na mão de Quintus não parecia uma bicada de coruja, Annabeth reconheceria uma das várias vezes em que Icarus a bicara. Ou ela estava apenas imaginando demais, mesmo que algo dentro de si estivesse curiosa para saber sobre o que Bianca estaria para conversar com Quintus, uma vez que o caso de Plutão Levesque incomodasse a todo o mundo bruxo.
– Annabeth — Uma garota apareceu abrindo a porta da cabine. Era Reyna. A garota já usava as vestes da Sonserina, e ela tinha os olhos mais atentos e as olheiras um pouco menores, mas ainda parecia desgastada — Devemos ir para o vagão dos monitores agora.
A loira se levantou e olhou para o garoto.
– Foi bom ver você, Nico — Disse para o Di Angelo, Nico sorrindo para ela ao segurar alguns cartões dos Sapos de Chocolate e tendo a boca suja pelo doce.
Saiu da cabine. Sem hesitar, Annabeth resolveu que falaria com Reyna assim que chegassem em Hogwarts. Ela se sentia desprezada por sua melhor amiga esconder um problema de si, sendo que sempre poderia a ajudar. Olhava de esguelha para Reyna enquanto as duas caminhavam pelo longo corredor avermelhado do trem.
– Onde você estava?
Reyna franziu as sobrancelhas.
– Eu que deveria lhe perguntar isso, está atrasada para a reunião dos monitores. — Respondeu, segura demais para uma mentira. Desviou-se de alguns alunos da Lufa-lufa enquanto andava — Por quê a pergunta?
Annabeth passou por eles logo depois e apenas crispou os lábios.
– Por nada.
As duas chegaram ao primeiro vagão dos monitores. Diferente dos outros vagões, os especiais para a monitoria não havia cabines, apenas algumas mesas com várias cadeiras e divisórias entre as mesmas. Fleecy e Ethan estavam no fundo do vagão, recebendo as ordens pela professora Lupa. Pelo visto os dois se tornaram os monitores-chefe naquele ano. Annabeth conhecia pouco de Fleecy, ela era uma garota um tanto doidinha com cabelos platinados e obcecada por comidas saudáveis; mas a loira não conseguia gostar de Ethan. Os olhos negros dele passaram por ela enquanto a garota andava até uma das mesas. Reyna guiou-a até algumas mesas à frente, onde Annabeth encontrou Percy dormindo (e que surpresa, ele estava babando na própria camisa) ao lado de Malcolm.
– E aqui vamos nós outra vez — Reyna suspirou ao parar em frente ao lugar. Annabeth entendeu o que ela queria dizer.
Octavian estava junto deles, com Clarisse ao seu lado parecendo querer matar o loiro ao dar-lhe um olhar assassino, mas que não o impedia de continuar falando. Ela ainda tinha a pose durona que poucos conseguiam encarar, com os cabelos castanhos claro cortados pouco abaixo do nível dos ombros, os braços cruzados.
– ... quando eu for monitor-chefe! — Ele disse, com soberba e um olhar triunfante.
Annabeth entrou e chutou o pé de Percy, que acordou assustado.
– Não se exalte, Octavian — Ela começou a falar, ignorando um Percy confuso atrás de si — Você ainda não é monitor-chefe. E oi, Percy. Tente não babar muito ou vai criar uma poça.
– Ah, é você — Comentou o monitor da Grifinória — Malcolm, afasta aí.
– "Ah, é você"? Belo cumprimento, cabeça de alga. — Ela riu.
O garoto se moveu um pouco para o lado, o suficiente para Annabeth poder ficar sentada junto do colega de monitoria. Malcolm era loiro e tinha os mesmos olhos cinzentos de Annabeth, talvez por isso pensassem que ele poderia ser seu irmão. Ambos eram os monitores da Corvinal e conviviam juntos como bons amigos. Percy demonstrara ser um pouco ácido com ele às vezes, e Annabeth se dava ao luxo de pensar, mesmo que não fosse verdade, que poderia ser ciúmes.
– Não me chame de cabeça de alga — Percy resmungou, não realmente reclamando. — O incidente com a Lula Gigante não foi legal.
Octavian bufou.
– Alguém por acaso prestou atenção no que eu disse?
Todos responderam simultaneamente:
– Não. — Ele ficou vermelho.
– Bom, eu estava dizendo-
– Ninguém tem interesse algum no que você estava dizendo. Como Annabeth falou, você ainda não é o monitor chefe. — Reyna comentou. Ela sabia que Octavian não se oporia à ela, por mais que ambos ainda estivessem no mesmo nível como os monitores da Sonserina. Talvez fosse o tom de sua voz ou a força que suas palavras tinham.
– Até parece que ligo para algo que você diz — Clarisse resmungou — E a Gardner e o Wineyard ainda não chegaram, vão acabar perdendo o cargo se a Lupa chegar aqui.
Percy balançou a cabeça em negação.
– Katie ainda estava com as amigas quando a vi.
– Hazel estava entre elas? — Falou Octavian.
– Eu acho que sim — Percy respondeu, em dúvida.
Octavian fez um som de satisfação e colocou a mão sobre o queixo numa expressão pensativa.
– Por que será que ele morreu?
– Octavian — Reyna o censurou.
– O quê? — Ele sorriu — Apenas gostaria de saber porque o Levesque morreu. Não há nada de errado em querer saber, eu só iria perguntar para Hazel.
Annabeth o fitou de uma forma que o fez gelar, com os olhos cinzentos faiscando.
– É indelicado, e hostil. Encontrei com os Di Angelo no vagão da Sonserina, e nenhum dos dois parecia confortável com o assunto. Guarde sua curiosidade para si mesmo.
Percy quebrou o silêncio que havia se instalado após o que Annabeth dissera:
– Seja lá porque ele morreu, sinto pela Hazel.
– Ele sabia alguma coisa — Annabeth comentou.
– O que quer dizer com isso? — Foi a vez de Clarisse falar.
– Não é como se ele estivesse fazendo algo errado, é? — Disse Malcolm — Deveria ser alguma coisa realmente importante.
Os olhos negros de Reyna encararam Percy. Ela sempre tinha o olhar superior e de análise, como se desvendasse cada parte das pessoas. Annabeth conhecia aquele olhar e sabia que, mesmo ameaçadora, Reyna poderia ser gentil quando quisesse.
– Você sabe porque alguém aparece morto no outro dia, Percy? — A sonserina comentou.
– Má sorte?
– Poder. — Reyna respondeu — O poder de saber algo já torna a pessoa extremamente perigosa, e extremamente vulnerável.
– Por mais ricos que os Levesque fossem e também não os mais queridos, aquilo não seria por vingança. Eles não tinham inimigos. Plutão sabia alguma coisa. E quem o matou não queria que ele soubesse. É óbvio. — Annabeth continuou.
– É?
Annabeth revirou os olhos.
Ela observou enquanto Lupa dispensava Fleecy e Ethan e caminhava sem pressa até eles. A mulher tinha as vestes verde-escuras, que justificavam que fosse a diretora da Sonserina. Seu rosto era esguio e avaliador, tendo os olhos brilhantes e cinzentos, num formato que lembrava vagamente os olhos de lobo; os cabelos castanho-avermelhados estavam presos num coque no alto de sua cabeça, tendo já alguns fios brancos denunciando sua idade. Ela segurava sua varinha entre as mãos, quase como se fosse precisar de tal objeto. Talvez fosse apenas para intimidar, pensou Annabeth.
– Primeiramente, boa tarde — Ela disse, cordial como sempre. Alguns murmuraram de volta e logo ela tornou a falar — Muito bem, este ano que começa será de grandes responsabilidades, tais quais as que realizaram durante seus quintos anos e espero encarecidamente que cada um de vocês mantenha a postura e as qualidades que o título de monitores exigem da parte de vocês — Ela pousou o olhar um tempo sobre Percy — Desta forma aguardo de vocês o mesmo que recebi durante o ano passado, e é este o compromisso que peço a cada um para renovar durante este ano letivo. É claro que não somente entre vocês, naturalmente, escolheremos aqueles que durante o próximo ano ocuparão o posto de monitores-chefes.
Octavian levantou a mão ao falar:
– Com licença, professora, mas gostaria de saber como são feitas as escolhas sobre monitores-chefes e quando seremos avisados dos resultados.
– Durante as férias de verão receberão as cartas aqueles que forem escolhidos para o cargo. E como é feita a escolha, sinto em lhe informar que esta parte não os cabem, e sim aos professores de Hogwarts. — Lupa franziu as sobrancelhas enquanto Octavian crispava os lábios em desgosto e Clarisse riu pelo nariz — Onde estão seus monitores da Lufa-lufa?
"Aqui", ouviram alguém murmurar ao entrar pela porta do vagão. Annabeth tapou o nariz no mesmo instante, sendo seguida dos outros, mas professora Lupa apenas torceu o nariz para o fedor que estava chegando junto de Katie e Castor. A garota de cabelos castanhos tinha as vestes completamente sujas por algo que parecia ter sido uma bomba de bosta, assim como o loiro. Annabeth pensou que Sr. D não gostaria nada de ver um de seus filhos atingido por quem quer que fosse, mesmo que ela tivesse um palpite de ter sido Travis e Connor.
– Sr. Wineyard, o que aconteceu com vocês? — Lupa exclamou, desejando uma explicação.
– Stolls. — Castor falou. Reyna e Annabeth se entreolharam com expressões surpresas. Mais cedo a garota havia inventado sobre algo no vagão da Lufa-lufa feito pelos Stoll. Agora, realmente, ela não havia apenas inventado, como também o que dissera havia acontecido. O garoto tirou um bilhete igualmente sujo do bolso da calça de
suas vestes — Acho que aqui era um recado de vingança pela Lufa-lufa ter vencido a Corvinal no Quadribol ano passado. Só acho. Não consigo ler muito bem com esse
pedaço de-
Katie bateu seu cotovelo no dele, esperando que ele não falasse realmente sobre o que estava deixando aquele papel sujo.
– Nos perdoe pelo atraso, professora — Ela falou, tentando soar arrependida, mesmo que não tivesse culpa alguma sobre o ocorrido — Tentamos não demorar no vagão, mas parece que a bomba era mais poderosa que as antigas e está sendo difícil, hã — Katie olhou para sua roupa enquanto levantava o próprio braço e mostrava uma gosma marrom em suas vestes — Tirar o que sobrou.
O rosto de Lupa se contorceu numa careta.
– Dispensados, não haverá nenhuma consequência — Disse, gesticulando com a varinha — Vão se limpar e usar um feitiço para tirar este cheiro horrível de vocês.
Ambos saíram agradecidos para o banheiro no fim do vagão.
– Pelas cuecas de Merlin, que coisa era aquela? — Malcolm comentou, respirando profundamente quando os dois se distanciaram de sua mesa.
– Ah — Percy se manifestou e Lupa se virou imediatamente ao ouvi-lo, mas ele não pareceu notar a presença da professora novamente — É o tipo de bomba mais cara da Zonko's, é feita de bosta de drag- Recebeu um tapa na parte de trás da cabeça — Annabeth!
Ele notou o olhar que a garota dera e logo depois dirigira à Lupa, como se quisesse dizer que não deveria estar falando aquilo na frente de uma autoridade. Lupa o encarava de um jeito mordaz, desviando-se para as roupas do garoto e levantando as sobrancelhas, por mais que não parecesse surpresa.
– Oh, o você está aí, Sr. Jackson — Ela comentou com ironia — Quase não havia o notado. — Apontou com a varinha para a camisa azul de manga longa do rapaz, apenas Percy não estava vestido com o uniforme — Em vez de dizer besteiras, deveria dizer porque ainda não está usando suas vestes e seu broche de monitor. Afinal, como Quíron o nomeou monitor da Grifinória — Mostrou certo desprezo na voz — O senhor deveria mostrar-se como exemplo para seus colegas dos outros anos. Todos os outros monitores estão usando.
Percy se levantou, o olhar baixo e lábios crispados, e pegou sua mala para se trocar. Lupa o observava enquanto andava até o fim do corredor com um olhar satisfeito. Ela se voltou para o grupo.
– Isso é tudo. E — Acrescentou para Annabeth — Tente deixar o Sr. Jackson mais apresentável em seu uniforme do que no último ano. Tenham um bom ano letivo.
Annabeth entendeu o que ela queria dizer. Somente a forma que Percy usava o uniforme — apenas a camiseta por fora da calça, a gravata frouxa e o colarinho aberto — denunciavam a dúvida de muitos alunos e professores sobre o fato de ele ser monitor. Provavelmente, Quíron poderia estar apenas querendo fazê-lo mais responsável, mas ela não diria que aquilo estava funcionando. Durante o resto da viagem, eles seguiram conversando até chegar à noite. O trem diminuia a velocidade e eles souberam que já estava na hora de entregar sua bagagem enquanto guiavam os alunos para fora do trem. No entanto, tudo que Annabeth conseguia pensar seria sobre o frasco que envolvia Reyna. Antes de saírem do trem, quando não havia ninguém prestando atenção nas duas, ela colocou a mão no braço de Reyna.
– Se precisar de mim para qualquer coisa — qualquer coisa– Repetiu — Eu estarei aqui.
A outra apenas a encarava com as sobrancelhas franzidas demonstrando não saber do que ela estava falando.
– E eu agradeço, mas estou bem.
Reyna se soltou da mão da amiga e pisou no chão da plataforma de desembarque, andando para a frente de um vagão da sonserina e abrindo a porta como todos os outros monitores estavam fazendo para suas casas. Como Annabeth deveria fazer. Ela desceu do trem e suspirou, encarando o castelo à distância. Estava em casa, afinal.
Abriu a porta para os alunos de seu vagão passarem, enquanto podia ouvir Hagrid chamando pelos primeiranistas para sua viagem de barco. Mas, ao invés de prestar atenção em se todos os alunos estavam saindo como deveriam, ela apenas encarou Reyna de longe, de costas para si, imóvel enquanto a plataforma se enchia de alunos com capas negras.
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