The Legend of Katria

1 VI - Capítulo I: Nevasca


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que gostem disto, vim trabalhando a bastante tempo em algo com este tema, então qualquer opção é bem vinda.

Arredores de Orun, Ano CXLI de Jöun

A vila de Orun fazia parte das cincos províncias de Regaratan, terra de Hashin, ficava o mais distante das outras vilas e ao norte da Capital Regara, fazia frio a maior parte do ano e era conhecida pelas intensas nevascas nas montanhas rochosas que os cercavam. A província de Orun tinha sido a única a se abster nas Guerras Draconianas e por isto era mal visto pela população de Regaratan, mas a verdade era que a Guerra sequer tinha chegado perto de suas vilas, pelo menos não de forma agressiva.

Enquanto os dias iam esquecendo os estragos físicos que as Guerras trouxeram e os moradores da terra de Hashin tentavam esquecer os estragos psicológicos uma senhora em Orun acordava para mais uma vez para retirar o leite de sua cabra. Morgana já tinha em torno de 53 anos, uma idade considerável para quem tinha que suportar todo ano uma intensa friaca. Suas costas já se curvavam sobre a idade e seus cabelos já se tornaram brancos como a neve, um olhar penetrante que causava arrepios nas crianças da vila. A senhora de baixa estatura pegou o seu balde de madeira e a passos lentos levou até o local onde sua cabra se encontrava. Puxou um banquinho velho e quase desmontando, ajeitou-o no lugar de sempre, posicionou o balde e se sentou, o mesmo ritual de sempre.

As pontas de seus dedos tocaram a pele gélida e rosada do animal, já estava acostumada com o frio pelas manhãs, mas não com o choro que veio de frente da pequena casa. Suas orelhas levantaram com o som, ergueu a cabeça e a virou em direção a onde ficava os portões, respirou fundo e então se levantou resmungando. Podia ser mais uma das prostitutas que tinham filhos como se fossem água, apesar de tudo não as julgava, cada um buscava uma forma de sobreviver. Morgana arrastou seus passos pela lateral da construção velha e acabada, embora a casa fosse pequena a área ao redor que lhe pertencia era enorme.

Virou a casa e então parou por um instante, bem em frente a sua porta meio arredondada de madeira alaranjada estava um embrulho de onde vinha o som de choro. Voltou a andar a passos lentos, o máximo que sua condição física lhe permitia naquela idade. Os olhos do pequeno projeto de gente foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção, olhos tão claros e cinzentos quanto... Fazia tempo que não via olhos tão gélidos como aqueles, tão sem emoções, a criança chorava e esticava os braços em direção a velha.

Se agachou e pegou a criança a ajeitando em seu braço, quando o fez percebeu que havia um rolo entre o pano escuro. Suspirou, não precisaria ler para saber quem era aquela criança, de onde tinha vindo. Desde a última visita de sua filha temia que aquilo podia acontecer, só não esperava que fosse tão cedo. – Maldita seja Ikka. – Praguejou e adentrou dentro da casa, teria muito trabalho pela frente.

Floresta Branca, Orun, Ano CLVIII de Jöun

O arco colado em sua bochecha, os olhos cinzentos atentos a cada minúsculo movimento do Cervo. Sua respiração controlada como havia aprendido ao longo dos anos. Sugou o ar a medida que puxou a flecha com calma, sem fazer ruído algum, mordeu o lábio inferior e soltou. A flecha percorreu o espaço deixando um zumbido para trás, tão rápida e feroz atingiu seu alvo antes mesmo que ele pudesse perceber o que lhe esperava. A morte.

Irena jogou o capuz para trás e se levantou, encaixando o arco em suas costas, atravessou o mesmo caminho que a flecha tinha percorrido e chegou até o Cervo. O sangue saia de seu pescoço e manchava a neve branca e ainda intocável do Inverno. Um sacrifício necessário para que pudesse sustentar a si e a sua avó, se pudesse escolher se amentaria apenas de vegetais, mas era impossível fazer isto naquele período do ano.

Desamarrou a corda de seu cinto e usou para amarrar as patas traseiras do animal, pegou um punhado de neve e o pressionou sobre a ferida mortal após retirar a flecha, dessa forma o sangramento pararia. Sua avó preferia aproveitar todo o animal, assim tinha que leva-lo inteiro para a fazenda. Segurou as duas patas dianteiras em uma mão e as traseiras em outra, com esforço jogou o animal sobre seu ombro e começou a caminhada de volta para casa, sua caçada da semana estava finalizada.

Irena tinha uma estatura alta para sua idade, tão alta quanto um homem adulto, praticava exercícios e ajudava a sua avó desde pequena, tinha uma ótima condição física. Mas também era bonita, cobiçada pelo Senhor Hognar da cidade e mais alguns homens. Diziam ser tão bonita quanto sua mãe era quando jovem, mãe esta que ninguém sabia onde estava, Irena já tinha aceitado que ela estava morta, afinal se estivesse viva porque não a viria visitar? Nenhuma visita, nenhum bilhete, nenhuma carta em todos seus 16 anos e meio, nada. Não guardava rancor de sua genitora, pelo contrário, compreendia que se o destino as tinha separado, era porque algo havia acontecido.

Sua avó tinha lhe criado dentro de seus limites, ensinado a caçar e a cavalgar, ensinado a reconhecer as ervas boas das venenosas, basicamente tinha lhe ensinado a sobreviver naquele mundo. Quando tinha 6 anos sua avó lhe levou até a cidade e pediu para que a menina fosse treinada junto com os meninos para a guarda local. Não foi fácil é claro, Rust, o menino mais velho da turma sempre lhe atormentou por ser uma garota, embora nunca tivesse ganhado uma luta direta contra Irena.

Naquele dia a neve estava funda e fofa, o que fez com que demorasse um pouco mais para chegar a velha casa. A passos largou saiu da Floresta Branca onde havia neve quase o ano inteiro, os troncos das árvores eram finos e esbranquiçados, era como um paraíso silencioso. Avistou a casa e com ela dois vultos andando em direção, eles pararam na porta, de longe pareciam aguardar que a dona da propriedade a abrisse. Um dos vultos recuou e então avançou em direção a porta, quando viu isso Irena simplesmente largou o cervo no chão e começou a correr em direção a casa.

Se havia aprendido uma coisa com sua avó, era a confiar sempre em seus instintos, que segundo ela eram aguçados. A neve atrapalhava, mas mesmo assim correu o mais rápido que pode, um segundo a mais e poderia ser tarde demais. Talvez até fosse, mas não queria, não podia chegar tarde. Sua avó era sua única família, sua única ligação existente em toda a sua vida, precisava dela e devia toda a sua vida e ela.

Irena tomou impulso e pulo a cerca que cercava a casa, pegou a espada velha em cima do tambor e entrou pela porta arrombada. – Irena... – Sua avó foi a primeira a notar sua presença, suspendida por uma nuvem ou fumaça, não conseguiu distinguir direto a cerca de um metro do chão. Os dois vultos agora se mostravam como duas figuras encapuzadas, ambos se viraram para ela e no fundo a garota tinha desejado que isso não tivesse acontecido.

O do lado esquerdo era um homem baixo, seu rosto encoberto pelo capuz não permitia que ela distinguisse como era seu rosto, mas não gostava nenhum pouco da sensação que aquele homem lhe causava, tinha certeza que era ele quem mantinha sua avó presa no ar. Já do outro lado estava um homem alto, musculoso e mesmo com o manto e o capuz sabia que ele estava todo revestido com uma armadura, carregava em sua cintura uma longa espada embainhada. Não queria nem pensar em como ela poderia estar afiada.

— Ora, ora, se não é a filha de Ikka. – Irena arqueou uma sobrancelha com a confissão do homem musculoso, como ele sabia sobre sua mãe? – Você cresceu, a última vez que te vi você era uma recém-nascida, devo dizer que esta tão bela quanto ela. – O olhar do homem sobre seu corpo, da cabeça aos pés lhe deu nojo a ponto de poder vomitar ali mesmo. – O que foi docinho, você não tinha algo para fazer? – Certo, ela certamente poderia vomitar mesmo.

— Não sei quem você é, mas deixe minha avó no chão, deixe a em paz. – Se concentrou para não deixar sua voz tremer, havia treinado por vários anos, sabia usar uma espada. A girou em sua mão e então investiu, tinha uma velocidade boa a mais rápida de seus colegas.

Irena investiu na lateral esquerda, seria um golpe rápido e certo, mas mais rápido foi a reação do homem. Em um piscar de olhos ele sacou a espada e a posicionou em frente a espada velha da morena. – Rápida, mas não o suficiente. – O contra-ataque, um simples empurrão e levantar da espada foi suficiente para jogar a garota para trás, suas costas bateram de encontro com a parede e logo em seguida caiu no chão levantando toda a poeira do local. – O que faremos com essa belezinha Mairh? – O homem musculoso girava a espada esperando a resposta de seu companheiro.

— Ainda levarei um tempo para conseguir o que quero, de qualquer modo ele não está aqui, se ocupe com a garota até lá. – Irena não sabia o que eles queriam, porque sua avó teria algo que aqueles homens queriam? E porque um Mago Negro? Eles eram extremamente raros, em todos aqueles anos nenhum havia se aproximado de Orun.

Ela não teve muito tempo para pensar, além da pulsação incomodante que assolou sua cabeça, foi erguida do chão pelo pescoço pelo homem, ele possuía uma força incrível. Com os rostos tão perto ela pode ver as cicatrizes em seu rosto, um de seus olhos estava coberto por um tapa-olho, havia uma cicatriz profunda em sua bochecha esquerda. As marcas e lembranças de um guerreiro. Irena arqueou o corpo para trás, ergueu os dois joelhos e com os pés empurrou o homem, o golpe rápido surpreendeu o homem o suficiente para que pudesse se libertar. Rolou o chão e se levantou com rapidez, pegou a espada velha e se posicionou defensivamente em relação ao homem.

O homem investiu, rápido e furioso, Irena desviou no último segundo, mas custou um raspão em seu braço, sua blusa se rasgou revelando o corte raso. O próximo veio tão rápido quanto o primeiro, sua espada cortou reto horizontalmente na atura do pescoço da Irena. Um pulo para trás salvou a sua vida, segurou firmemente o cabo de sua espada e bradou em direção ao homem, tentando acertar o seu peito em vão.

— Chega Iszamar. – A voz arrepiante invadiu seus ouvidos e então ela se virou encontrando a sua avó caída no chão, correu até ela. – Largue a garota, consegui o que queria, taque fogo em tudo.

Irena correu até sua avó, a mesma ainda respirava, embora com muita dificuldade. — Vó, por Jöun, não me deixe. – Sacudiu-a como se isso fosse fazer alguma diferença. Ergueu o cabeça e então viu os homens saindo, sem antes colocarem fogo nas pilhas de pano que havia perto da porta, aquilo logo se alastaria pelo resto da casa.

Enquanto a fumaça começava a subir Irena puxou sua avó pela porta dos fundos. – Vó a senhora esta bem? – Segurou a mão da velha mulher, seu coração ainda batia mesmo que lentamente. – Vó me responde, por favor. – Encostou a testa na mulher como uma súplica, não poderia perde-la, todo o seu mundo desabaria se isso acontecesse.

Podia sentir o calor da casa pegando fogo, mas mesmo assim não se afastou da mulher que tinha lhe criado. – I... Rena... – Ergueu a cabeça imediatamente e apertou a mão da mulher.

— Vó?

— Não tenho... muito tempo. Encontre-a, não deixem que eles peguem, sabem onde estão, mas não será fácil para eles conseguir, encontre Irena.

— Encontrar o que? Quem eram eles?

— Cavaleiros de Rahmar, encontre Katria, vocês duas precisam... – A mulher tossiu sangue manchando a blusa de sua neta, não tinha mais forças e nem mesmo o tempo necessário, o que mais temia havia acontecido. — O mapa está... Luka. Encontre Irena.

Mais nenhuma palavra, mais nada, nem mesmo um adeus, a vida esvaiu da mulher tão como a casa queimou naquela manhã de Inverno em Orun. A nevasca da noite anterior tinha trazido consigo tempos difíceis, longos e que durariam por anos.

Notas finais
E aí, como me sai? Lembrando que deixar um comentário é rápido, não mata e ajuda uma história a ganhar vida. Até mais o/