The Legend of Katria

2 VI - Capítulo II: Altar de Oliva


Notas iniciais
Eu realmente estou me divertido escrevendo esta história, (mesmo que não tenha recebido nenhum comentário) e me sinto feliz com o resultado do Capítulo. Bem, sem delongas, boa leitura!

Arredores de Orun, Ano CLVIII de Jöun

Irena ergueu a cabeça e olhou para o céu límpido, nenhuma nuvem, nenhuma ave, tudo estava silencioso não fosse por sua respiração e o crepitar do fogo queimando a casa. Não poderia ficar ali para sempre, isto não traria a sua avó de volta, por isto tomou uma decisão. Pegou a sua avó com os dois braços e caminhou de volta para a Floresta Branca até a encosta mais próxima da montanha, lá havia uma pequena caverna que sua avó sempre lhe trazia quando criança. Com cuidado desceu as pedras grandes e logo o som da água pingando no lago cristalino invadiu o seu ouvido. Segundo a sua avó aquele lugar era mágico, último local passado pelos Elfos no Norte e lá estava ela, a única árvore que resistia ao frio intenso de Orun.

Caminhou até a Oliveira e se agachou, deixando o corpo de Morgana aos pés das raízes. – Me diga por que teve de leva-la. – Olhou para os ramos da árvore, tão verdes e vívidas, tão diferente da mulher aos seus pés. Queria que elas viessem, mas as lagrimas não vieram, assim como nunca veio desde que havia chegado naquelas terras. Podia emitir o som, podia sentir o seu coração se partindo em vários pedaços, mas nem uma gota saia. Levantou-se e olhou para a mulher, apesar de tudo parecia calma como se estivesse em seu eterno descanso em um lugar sagrado. Esperava que fosse verdade, era o mínimo que ela merecia.

Andou até o lago e de lá começou a retirar as pedras soltas, levando-as até sua avó e colocando em cima da mesma, repetiu o processo diversas vezes até finalmente conseguir cobri-la por inteiro. Ficou um bom tempo agachada prestando prece por Morgana, agradecendo pela vida que ela tinha lhe dado, pelos ensinamentos valiosos. Por mais que a mulher não fosse de demonstrar sentimentos, sabia que estavam ligadas por algo maior do que o laço sanguíneo. Ela tinha sido sua guia, sua professora, sua avó e mãe, companheira e juíza quando precisava ser. Agora um capítulo em sua vida tinha chegado ao fim, sua vida como uma garotinha de Orun tinha finalmente acabado.

Caminhou até o lago mais uma vez quando finalmente terminou, jogou a água gelada em seu rosto a fim de despertar e pensar no que faria. Tinha de achar Katria, mas quem diabos era Katria? Tinha que encontrar algo antes daqueles homens e Katria pelo visto era quem lhe ajudaria. Observou o seu próprio reflexo na água que agora tinha voltado a ficar calma e limpa, o que mais Morgana havia lhe dito antes de partir? – Luka...

Como se um raio de sol iluminasse a sua mente se levantou de pressa aos tropeços e saiu correndo da caverna, percorreu toda a encosta da montanha, saindo da floresta e indo em direção ao Estábulo velho. Não eram ricas, na verdade estava bem longe disso, mas a alguns anos uma égua prenha se perdeu entre as árvores da Floresta Branca e Irena a achou. Infelizmente não conseguiram salvar a mãe, mas a mesma deixou um presente de agradecimento, Luka. – Luka! – Gritou chamando por sua égua cor de areia. O animal respondeu com um relincho alto, conhecia a voz de quem lhe chamava. – Ei garota.

Irena abriu a cerca e se aproximou dela, passando a mão por seu pescoço e olhando para ela. – Pelo visto não estou totalmente só, não é? Mas agora somos só eu e você, vovó se foi para um lugar melhor. – Como se entendesse o que sua dona falava Luka soltou um som baixo. – Tudo bem, vai ficar tudo bem, certo? Agora me deixe procurar algo. – Deu um tapinha no pescoço dela e saiu do gabinete indo até o monte de palha onde ficava as bolsas de viagens que colocava em Luka, na parede de madeira estava a cela. Abriu a primeira sacola, mas só tinha algumas ferramentas e nada mais, foi na segunda que achou o que procurava. Com cuidado retirou um rolo amarelado e velho, não sabia quando aquilo tinha ido parar ali, mas talvez sua avó pressentisse o que estava por vir. Morgana sempre foi uma mulher precavida e com instintos aguçados, era boa em prever o que aconteceria, um dos motivos pelo qual não era bem vista na Vila Central.

Desenrolou o papel e para sua decepção não havia nada, extremamente nada, ele estava em branco... Ou estava selado por magia. A maior parte da população de Hashin era humana sem nenhuma descendência dos elfos, anões ou magos, mas isso não impedia que estes fossem afetados pelas guerras destes. Era por isso que Ragaratan mantinha um Exército Imperial em prontidão para combater os males causados pelos conflitos entre as espécies. Eles possuíam um acordo onde não deveriam atacar diretamente os humanos de modo que a Capital jamais deveria ser tomada por forças maiores que as humanas. Embora isso não impedisse que as facções comandadas pelas trevas tentassem.

Rahmar era o “Rei” dessas facções, um homem que nasceu das cinzas de Rah seu pai e ascendeu como o Imperador das Sombras. As Guerras Draconianas podiam ter chegado ao fim, mas Rahmar não e buscava ter controle total de Hashin, a terra designada por Jöun aos homens. Ele era filho de uma Elfa com o Príncipe dos Homens, ao menos era o que dizia as lendas. Rejeitado por seu povo e não aceito pelos homens por terem medo de se rebelarem as forças élficas. Uma história tão trágica quanto a de Irena, mas estava ela não conhecia e não conheceria tão cedo.

— Bem garota, vamos precisar de um mago ou elfo para ler isso para nós, e estamos bem ferradas. – Ambas as espécies eram difíceis de serem encontradas naquelas terras, precisava conversar com alguém que soubesse lhe indicar um caminho para ter pelo menos por onde começar. Ajeitou a cela em Lukas e as bolas de couro para a viajem, junto dela andou até a construção que agora não passava de cinzas com algumas madeiras queimando. Havia embaixo do tanque de água a alguns metros da casa um buraco onde guardavam uma reserva de comida. Nunca soube porque a velha se precavia tanto, pelo menos agora era grata a isso, junto com a comida também encontrou uma sacolinha com algumas moedas, tudo que tinham economizado até aquele ano.

— Velha desgraçada. – Sorriu de canto, tinha que fazer algo para esquecer tudo aquilo. Precisava de roupas já que as suas estavam rasgadas e surradas, precisava de uma nova espada e mais alguns mantimentos, precisava ir até a Cidade. – Vamos?

Vilarejo de Orun, Ano CLVIII de Jöun

Cavalgar em Luka havia lhe ajudado a pensar sobre todos aqueles acontecimentos e por que a sua avó sabia sobre alguma coisa. Toda a magia dos elfos na caverna, as previsões que ela possuía, os homens atrás dela, sua avó não era uma simples humana e isso significava que ela não havia lhe contado quem realmente era. Só havia um motivo para os Cavaleiros de Rahmar estarem atrás dela, ela possuía algo que ele queria e Rahmar sempre conseguia o que queria. – Quem era você vovó?

Cruzou a defesa da cidade e parou em frente ao ferreiro, o velho de Gwen lhe reconheceu assim que desmontou de Luka. – Por Jöun Irena, o que aconteceu?

— Preciso que guarde segredo, pelo menos até descobrirem, não tenho mais ninguém com quem contar.

Gwen era o ferreiro mais renomado da vila, servia ao Batalhão da Cidade como seu fornecedor. Grande e forte, tinha musculo em cada canto do corpo daquele homem, vestia uma roupa surrada e velha mostrando o quanto era dedicado a seu trabalho. Usava luvas de proteção e mais nada, seu corpo era sua proteção, era o lema de Gwen. Pai de família, trabalhador, morador exemplar de Jöun, e naquele dia Irena precisava que ele fosse o seu confidente e ajudador.

— Claro, você salvou Cristy, sempre estarei em dívida com você. – Cristy era sua filha mais nova, um ano mais nova que Irena e detentora do par de olhos mais bonito de Orun.

— Os Cavaleiros de Rahmar mataram minha avó, eles queriam algo...

— Espera, Cavaleiros de Rahmar? – Para sua leve irritação o homem lhe interrompeu, não o culpava, era como um mal agouro ter eles por perto.

— Sim eles, por isso preciso que não conte a ninguém. Queimaram tudo, mas antes de partir ela me disse para encontrar Katria e me deixou um mapa, mas está selado. – O homem pareceu reconhecer aquele nome.

— Princesa Katria?

— Você a conhece?

— Não pessoalmente, é uma lenda, como Rahmar, Katria, a Dançaria dos Dragões, a última Princesa dos Elfos Malinornë, estão extintos a algumas décadas. — Irena respirou fundo ao ouvir aquilo, histórias élficas eram contatas em tudo quanto é lugar por Hashin, mas sempre como lendas, nunca como verdades absolutas.

— Então ela está morta?

— Ninguém sabe, dizem que ela entrou em sono eterno, que os Malinornë partiram para a terra sagrada e por isso sumiram. Mas eu sei de alguém que pode responder melhor suas dúvidas, se Morgana pediu para você ir atrás disso, então eu acredito nela.

— Onde? – Gostava de Gwen desde criança quando sua avó lhe levava para a vila, era um dos únicos que não a julgavam por seu passado.

— Hyarmen, em Elen, um cara chamado Agnor poderá lhe dizer sobre isso e talvez revelar o seu...

— Irena!

Uma voz doce e aguda chamou a atenção de ambos, a jovem virou o corpo e lá estava ela entre as duas cabanas saindo do beco onde ficava a porta de sua casa, Cristy. Vestia um vestido simples e amarelo, os cabelos dourados caiam sobre seu ombro, tão linda como sempre.

— Bem, obrigada Gwen, preciso de uma espada a minha se queimou entre os destroços, consegue para mim? – Com a confirmação do homem se digiriu até a jovem que lhe esperava. – Olá Cristy, tudo... – Não teve tempo de finalizar seus cumprimentos a mulher lhe puxou para dentro da construção e logo unindo seus lábios.

A saudade matada com um beijo intenso, as mãos de Irena desceram até sua cintura apertando o local, Cristy por vez lhe pressionou ainda mais contra a parede. Atrás da porta e com a sombra do local ninguém as veria mesmo pela janela. Cristy parecia apressada, mas não tinha tempo para aquilo, a afastou e encarou seu rosto de confusão.

— O que foi? – Se fosse a alguns dias atrás não recusaria aquilo, entraria de cabeça naquela pequena aventura e segredo que apenas elas conheciam,

— Preciso que você saiba uma coisa.

— Irena, esta me deixando preocupada, o que aconteceu? – Cristy levantou os braços e tocou seu rosto com as pontas de seus dedos, tão macios, ela era encantadora em todos os aspectos possíveis.

— Vou sair em viajem e talvez eu não volte, precisa seguir em frente, encontrar um bom homem, ter filhos com ele. – Sabia que aquele dia chegaria, embora a achasse atraente e fosse bom o gosto de poderem se arriscar por aqueles momentos proibidos, nunca seria a melhor pessoa para Cristy, não era justo com Gwen.

— Viajar? Você nunca saiu de Orun, para onde vai?

— Não posso te contar, eu sinto muito Cristy.

— Não pode? Sério Irena? Eu te dei tudo, dei minha vida, meu coração, dei meu corpo inteiro, acha que algum homem vai me querer se souber que não sou mais pura? E as promessas de fugirmos juntas e construirmos uma cabana? Você...

— Cristy, Cristy se acalme! – Segurou as duas mãos da mulher ainda em seu rosto, sentia por tudo aquilo, mais do que gostaria. – Ninguém precisa saber Cristy, não há como provar e não vão saber se você não contar. Estará bem aqui em Orun, as guerras nunca chegam aqui, viverá longos anos e terá filhos incríveis, eu não poderia lhe dar isso. – Antes que a loira pudesse rebater sobre tudo aquilo lhe deu um último beijo, um último adeus, uma despedida solene.

Deixou a casa de Gwen com uma Cristy estática e foi até a cabana do ferreiro de Orun. – Conseguiu achar algo pra mim Gwen?

— Ela não aceitou, não é? – Ficou surpresa com a pergunta do homem então só acenou como afirmação. – Ela vai superar, mas aqui, olhe. – Gwen colocou em cima do balcão uma espada longa embainhada. – É grande, mas é bem leve, nunca tive um comprador porque os homens preferem com o cabo mais largo e mais firme, mas acho que é ideal para você, pegue.

Irena pegou na bainha com as duas mãos e observou o cabo da espada, bem trabalhada. Sacou a espada e ela brilhou com o a luz solar, estava bem claro que ela estava afiada. – Ótimo Gwen, quanto?

— Dez moedas. – Aquilo era um pouco acima do que poderia gastar com uma espada, mas precisava dela, sabia disso. Foi até Luka e pegou o saquinho de moedas, depositando o valor em frente a Gwen. – Tome, como um presente de um bom amigo. – O que o homem lhe oferecia era uma pequena faca envolta de fitas em couro. – Leve com você, lembre-se que Orun é sua família apesar de tudo.

— Gwen... Obrigada de verdade, serei eternamente grata. – Se despediu do grandalhão e colocou a espada na lateral de Luka e a faca em uma das bolsas.

Antes de partir ainda teve de ir até a loja de Tawna onde conseguiu comprar uma calça resistente, uma blusa branca masculina mas com um tamanho ideal para seu corpo, além de um Colete de mangas com uma saia que possuía uma abertura na frente que ia até suas canelas, seria o suficiente para conseguir viajar confortavelmente em direção ao sul.

— Precisamos ir Luka. – Vestida e armada, sua viajem começaria logo, embora não houvesse expectativas para quando terminaria. Quando passou pelo arco de madeira da cidade, não olhou para trás, não queria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.