The King
42 Um Condenado.
Notas iniciais

Capítulo 42 – Um Condenado.
Era de manhã, quando Fugaku enfim retornou à mansão Uchiha.
Era uma construção grande, construída em estilo ocidental: altas paredes clássicas, fortes portas de madeira maciça, acabamento cuidadoso... Era necessário, no mínimo, uma equipe de trinta pessoas para cuidar do lugar – excluindo, é claro, a equipe do estábulo.
Fugaku sempre gostou daquela mansão. Era como se fosse uma personificação palpável do que significava o nome “Uchiha”: forte, grandiosa e intocável.
Sempre gostou daquela mansão. Desde garoto, adorava cavalgar pelas terras da família. Mas, naquele momento, retornando daquela horrível reunião com Naruto, viu-a com outros olhos.
A mansão Uchiha, pela primeira vez, lhe pareceu sombria.
Já era de manhã, portanto os criados já tinham começado com seus deveres: ele viu homens tratando dos jardins, mulheres limpando as longas vidraças e um velho senhorio dos estábulos, que seguia em sua direção.
Ele desceu do garanhão negro e entregou-o ao homem sem dizer nada; observou o velho se afastar, alisando a crina do animal e quando estavam fora de suas vistas, tornou a encarar as terras que sequer deviam lhe pertencer.
O céu estava negro. Trovões começaram a soar, e Fugaku sorriu, ao enxergar o belo contraste do clima com a residência: mais lhe parecia uma pintura sinistra do que qualquer coisa... Como se o fantasma de Madara estivesse pairando por aquele lugar.
E, se estivesse, Fugaku imaginava que estaria furioso.
O duque adentrou a mansão após sentir as primeiras gotas de chuva pingar sobre seu rosto; cumprimentou as primeiras criadas e saiu à procura da governanta, com o único objetivo de procurar sua esposa.
– A duquesa está em sua sala particular. – A velha rechonchuda lhe contou. – Eu creio que esteja ocupada, milord. Ela disse que faria as contas das despesas tivemos na propriedade, do último mês. – O duque anuiu, e se afastou sem agradecer.
Seguiu pelos longos corredores vazios da casa, sem deixar de notar o quanto aquele lugar parecia sem vida...
Inevitavelmente, lembrou-se do nascimento de Itachi. Fora a época mais feliz da família Uchiha, sem sombra de dúvidas... A única época em que eles realmente pareceram uma família.
Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos.
Não, ele não podia ser sentimental naquele momento. Nunca havia sido, afinal de contas! Era por isso que sempre fora o preferido de Madara: porque era calculista, porque conseguia pensar sem que seus sentimentos interferissem... Porque era frio.
Mas quando parou em frente à sala particular da esposa, já não tinha tanta certeza de suas convicções.
Quando pôs a mão na maçaneta, não pôde evitar a sensação incômoda no peito, por estar ciente das lágrimas que ela derramaria, quando lhe contasse... E sorriu desgraçadamente por concluir que aquela situação mexia com ele mais do que deveria.
Ele girou a maçaneta com lentidão, e adentrou ao cômodo em silêncio.
A sala particular de Mikoto era a parte mais bonita da casa, em sua opinião. Tinha uma decoração leve e agradável, como as feições de sua esposa.
Com papéis de parede verdes, numa tonalidade bonita, estampados com flores campestres beges. A mobília resumia-se à poucos móveis: uma escrivaninha, alguns livreiros com escassos livros, uma mesa de chá e um pequeno sofá para as visitas.
Mikoto estava debruçada sobre os pesados livros de contabilidade; lia de um lado e escrevia em outro, atenta às contas; bastou que a porta se fechasse para que os olhos negros da duquesa se erguessem. – Onde estava? – Ela perguntou casualmente, e tornou à olhar para suas notas. – Saiu sem avisar ninguém...
– Eu... Fui convocado à Torre. – Ela tornou a olhá-lo quando notou a hesitação em sua voz. Parecia preocupada.
– Algo aconteceu com Itachi? Sasuke? – Fugaku negou com um aceno de cabeça. – Kasumi, então? – Repetiu a ação.
– Todos estão bem, Mikoto... – Ele percebeu que aquele assunto seria ainda mais difícil do que havia suposto, e desabou no sofá, exausto. Mikoto o observou atentamente, analisando as feições cansadas do marido e se perguntando internamente o quão sinceras deveriam ser.
Por fim, levantou-se. Aproximou-se dele com lentidão e hesitação, e sentou-se sobre o colo do duque. Fugaku sorriu, um sorriso fraco, e a ajudou a tirar o casaco do uniforme. – Já que todos estão bem, o que houve?... Você parece morto. – Mikoto se aproximou, e beijou os lábios do amado com um carinho que não demonstrava desde a partida de Sasuke. – Problemas com a Guarda real?
Mais uma vez, hesitação.
– Não, querida... A guarda está bem... – Ele envolveu-lhe a cintura.
– Então...? – Aquele olhar, tão inocente e curioso fez com que Fugaku sentisse seu coração pesar. Ele alisou feições pálidas e belas da Uchiha, e pensou que a idade definitivamente tornara sua esposa mais bela do que nunca... Fitou-a com carinho e devoção, e roubou-lhe um beijo longo e molhado.
– Fugaku... – Murmurou contra os lábios dele. – Amor, você está me preocupando... – Ela confessou.
Ele não queria contar. Não queria fazê-la sofrer... Mas sabia que ela merecia saber. Sabia que ficaria muito mais magoada, se soubesse pelas línguas maldosas, então suspirou longamente.
– Mikoto... – Ele afastou-se para olhá-la nos olhos, sério como nunca.
Mikoto soube imediatamente que algo muito sério havia acontecido.
– Obito foi preso.
~
Os guardas e soldados que estiveram presentes na captura de Obito Uchiha, na noite passada, haviam sido cuidadosamente instruídos a manter em sigilo absoluto a notícia da prisão.
Portanto, naturalmente, quando o sol estava a pico, todas as criadas da Torre já estavam cientes dos acontecimentos.
– Eu não acho que tenha sido ele, o culpado pela morte dos Nohara. – Algumas servas comentavam na cozinha. – Vivia de amores com a menina do colhedor de impostos.
– Mas ouvi dizer que estava noiva... Talvez tenha dado esperanças aos dois?
– Então pode muito bem ter sido Kakashi, o culpado. Obito e Rin passavam muito tempo juntos, talvez o tivessem traído... Ouvi dizer que o senhor Uchiha nega absolutamente tudo o que o envolva no assassinato dos Nohara. Ele está condenado de qualquer forma, por matar os conselheiros, então porque mentiria sobre isso?
– É estranho... Mas o senhor Hatake a amava... Ele se dedicou tanto ao enterro da família... Não o imagino como culpado.
– Por Deus! Claro que Obito é o culpado! Não ouviu o que dizem por aí? A morte dos conselheiros não foi um assassinato comum: foi uma chacina. Ele matou todos, todos. Coisa de gente louca. Gente louca não pensa, então ele deve ter queimado a casa sem sequer lembrar que Rin estava lá, só para matar os pais dela.
– Pensando dessa forma... Mas ainda não compreendo o porquê de ele negar...
Todas se calaram quando Shizune adentrou ao local. Ela parecia tranquila – o que significava que estava desinformada. Usava um vestido verde musgo simples, e os cabelos curtos estavam belamente aninhados. Disse um “bom dia” animado às criadas, embora estranhasse aquele súbito silêncio.
Afinal, a cozinha sempre estava uma bagunça.
– Então, temos aquele belo pão de forma hoje? – Ela perguntou à cozinheira com um sorriso gentil.
– Claro, madame. – A mulher se apressou em servi-la. – Não vai desjejuar com a princesa Tsunade?
– Ah! Ela ainda está dormindo. – A morena explicou. – Mas eu estou faminta, então decidi visitá-las.
As cozinheiras se entreolharam enquanto ela seguia para a grande mesa de madeira. – Acredito que seja natural, depois de uma noite tão longa... – Uma criada comentou. Ela estava afastada da mesa, limpando o chão com um esfregão velho, e se encolheu quando a cozinheira lhe deu uma colherada no ombro.
Shizune estreitou as sobrancelhas.
– Cansada? – Olhou confusa para as mulheres. – O que querem dizer? – Despedaçou o pão e mordiscou um pedaço modesto, sem parar de olhar para a linguaruda.
– Bem... Afinal... O conselho capturou Obito Uchiha, não é? Soube que só saíram do julgamento ao amanhecer... É natural que ela esteja cansada. – Shizune parou de comer, e olhou para a empregada como se não tivesse entendido absolutamente nada do que ela havia dito.
–... O que...? – Conseguiu balbuciar.
– Obito Uchiha, madame. O conselheiro Itachi o capturou. – Shizune levantou-se subitamente.
Ela andou rapidamente até a mocinha – que devia ser muito mais nova do que ela própria – e rendeu-a contra a parede, ignorando completamente as outras mulheres ali presentes, ou qualquer comentário que pudessem fazer depois daquela cena.
– O que... O que disse?
– Obito Uchiha, madame... – A mocinha repetiu, assustada – O acusado da morte dos Nohara. – Shizune empalideceu; naquele momento, sentiu as pernas bambearem, e teve que se segurar na mesa para não cair.
– Obito...? Obito...! – Ela balbuciou perturbada, e num piscar de olhos se retirou do lugar.
–... O que foi isso...?!
– Menina estúpida! – A cozinheira estapeou o rosto da mocinha. – Se não sabe com quem fala, nem de quem fala, é melhor se calar!... Madame Shizune sempre foi apaixonada pelo pobre homem, e veja como descobriu a notícia!
Mas Shizune francamente não se importava com a forma em que havia conseguido descobrir. Estava confusa, perturbada, e até furiosa, não por aquele irrelevante detalhe, mas pelo fato de que deviam ter lhe contado mais cedo!
Como...? Por quê?!
Aquela mulher maldita!, pensou. Certamente, deveria ser algo que envolvia aquela maldita morta, que não queria morrer de verdade.
Com um rosto lamentável, uma expressão abatida e uma postura desesperada, Shizune pouco se importou com os olhares que os guardas e soldados lhe lançavam, enquanto ela corria a caminho dos aposentos militares.
Não fez cerimônias ao abrir a porta do quarto de Kakashi, e sequer notou as presenças de Shikamaru e Kurenai, que estavam sentados a um dos sofás: seguiu com passos furiosos até o comandante, que se encontrava em pé, parecendo bastante surpreso com sua entrada repentina; pegou-o pela gola do uniforme e gritou: — Por que você não me contou?! – Em tom acusativo.
Kakashi percebeu imediatamente que ela já devia saber. – Shizune, eu...
– Onde ele está?... Como ele está...?! – Ela quis saber, agonizada; sentia todos os membros de seu corpo tremer, e graças às incômodas e insistentes lágrimas, mal conseguia enxergá-lo. – Eles o machucaram...? – Perguntou num sussurro, e teve sua resposta quando ele estreitou os olhos, e desviou-se de seu olhar. – Me leve até ele, Kakashi! – Ela implorou desesperada. – Me leve até lá, agora! – Gritou.
Ele estreitou os lábios, fitou-a e segurou firmemente em seus braços. – Eu não posso fazer isso, Shizune. – Murmurou entre dentes. – Ele está preso, não será tratado até segundas ordens. – Ela cerrou os olhos.
– Como ele foi... Por quê...? – Ela escondeu o rosto com as mãos, e tornou a chorar. – Deus, ele vai morrer... – Caiu ao chão, exausta. – Por quê...? Por quê?! Ele não fez nada! – Gritou. – Não foi culpa dele! Então porque tem que ser condenado?!... Por que aquela maldita mulher não pára de interferir na vida de todos?!
Kurenai teve que se conter muito para não bater naquela louca. Quem ela pensava que era para falar daquele jeito sobre Rin?! Especialmente na frente de Kakashi! Definitivamente, a maluca não tinha nenhum senso.
Apertou os punhos, e notou que tremia; desviou o olhar e tentou respirar fundo.
– Kakashi, você precisa fazer alguma coisa. – Ela implorou. – Precisa tirá-lo de lá! Precisa dizer que ele não é o culpado! Precisa dizer que Kasumi não foi seqüestrada, que é a filha dele!... Pelo amor de Deus, ele vai morrer por causa de uma mentira! – Tornou a chorar. – Eu sei que é difícil para você... Sei que deve ser terrível, mas o Obito ainda está vivo!... Não pode deixá-lo morrer!
– Ele não está preso pelo assassinato dos Nohara. – O Hatake explicou cauteloso, e agachou-se à altura da amante. – Ele foi preso pelo assassinato dos conselheiros... – Os olhos castanhos encararam os negros, surpresos e atordoados. – Ele assumiu a culpa da chacina. Sozinho. – Seus olhos estavam sérios, e ela imediatamente soube que estava falando a verdade.
Os lábios finos da mulher tremiam.
– Ele... Realmente... – Então ela tornou a cerrar os olhos. – Por quê?
– Vingança. – Foi Kurenai quem disse. Estava cansada de ver o pobre homem ser torturado na sua frente.
Os dois pares de olhos escuros – os castanhos de Shizune e os negros de Kakashi – voltaram-se à mulher, que já estava em pé, olhando-os com lamentações. Ela lançou um rápido olhar à Shikamaru, como se pedisse permissão para prosseguir com o assunto, e o quando o conselheiro anuiu, tornou a fitá-los. – Obito disse à sua majestade que foi porque não fizeram justiça pela morte de Rin. – Kakashi estreitou as sobrancelhas, e Shizune simplesmente sentiu cada músculo seu relaxar, como se estivesse anestesiada.
Então... De fato, era por ela.
Shizune não tinha motivos para se sentir surpresa... Afinal, ela sabia a resposta desde o começo. Na verdade, era muito fácil descobrir, uma vez que tudo o que Obito fazia, no fim das contas, era por Rin Nohara.
Sua personalidade fora moldada por ela.
Sua alegria e tristeza eram dedicadas a ela; seus sorrisos, e suas lágrimas.
Tudo o que ele havia feito, e tudo o que viria a fazer.
Coisas boas, coisas más...
Suas cicatrizes físicas, e sentimentais... Tudo, absolutamente tudo se resumia àquela mulher.
Ela sorriu; um sorriso fraco, depressivo e doloroso, e sentiu as lágrimas quentes escorrendo por seu rosto. Não tinha forças para erguer as mãos e limpá-las... Nem forças, nem vontade.
Riu, sem humor, e então começou a chorar um choro inicialmente silencioso... Que de repente, tornou-se alto, desesperado e agonizado, e desolou Kakashi.
Ele a envolveu gentilmente, passando os braços por seus ombros, acolhendo-a da melhor maneira possível.
Aquela notícia também o havia atordoado.
Em primeiro lugar, porque ele nunca, jamais imaginaria que Obito se deixaria ser pego. Ele era um homem esperto, afinal de contas... Experiente.
Passara vinte anos fugindo do país do Fogo, fugindo de seus aliados! E agora, simplesmente se enfiava na Torre. Não para ficar próximo de sua filha. Francamente, Kakashi também duvidava que ele sentisse qualquer senso de lealdade à Akatsuki, ou o tal Nagato.
O fato de ter sido encerado com tanta facilidade o deixava confuso.
O fato de ter aceitado aquilo com tanta facilidade o deixava confuso.
Talvez, pensou o soldado, talvez ele simplesmente estivesse cansado... Talvez finalmente quisesse morrer.
Aquela era uma explicação plausível, mas Kakashi não conseguia aceitá-la.
– Tudo por aquela mulher... – A voz de Shizune tirou-o de seus devaneios. – É sempre, sempre, sempre por aquela maldita mulher... – Ela apertou os punhos. – Ela está morta... Já está morta! Então, por que... Por quê?! Por que vocês não conseguem parar de viver por ela?! Por que aquela maldita mulher não morre de verdade?! – Ela sentiu o aperto aconchegante de Kakashi afrouxar, e por isso se calou.
Não queria machucá-lo ainda mais.
– Já basta, Shizune. – Kurenai murmurou, e só então o quase casal percebeu que a mulher estava agachada, ao lado deles.
Os olhos vermelhos cintilavam com um ressentimento que nenhum dos dois jamais havia visto. – Fala tanto de Rin, mas está se saindo uma bela egoísta. – Shizune estreitou os lábios trêmulos. – Pare de empurrar a sua dor para os outros. – Kakashi baixou os olhos. – Lide com ela sozinha. – Os olhos castanhos se cerraram.
Kurenai baixou a fronte. – Pare de machucá-lo... – Pediu num murmúrio, agonizada ao lembrar-se da conversa que tivera com Kakashi, meses atrás. E então, depois de muito hesitar, ergueu os olhos. – Se é o que quer... Eu vou tentar levá-la até Obito.
~
Já era o início da tarde, mar os aposentos do casal real estavam escuros, perfeitos para o descanso.
As cortinas grossas e escuras escondiam as cumpridas janelas, impedindo que a luz do dia – que nem estava muito claro, de qualquer forma – adentrasse ao quarto.
A cama estava perfeitamente aquecida, e o rei e a rainha estavam tão próximos quanto era possível se estar: ela estava deitada sobre o peito dele, aconchegada por seus braços, aquecendo até sua alma... Mas mesmo assim, Naruto não tinha dormido nem um segundo naquele dia.
A confusão com Nagato, a Akatsuki e Obito Uchiha estava absorvendo todas as energias de seu corpo, mas ele simplesmente não conseguia pregar os olhos nem por malditos cinco minutos!
Não sabia o que fazer. Não sabia como devia reagir.
Não conseguia acreditar que Obito Uchiha estragara todas as oportunidades de livrá-lo do tormento que Nagato e a Akatsuki havia se tornado.
Aquele homem o destruiu, com aquela confissão. Todas as esperanças de ter seus problemas resolvidos, toda a ansiedade ao tirar aquele maldito príncipe e sua trupe de mercenários debaixo de seu teto... Destruídas por um mísero “sim”, de um pobre pária condenado.
O rei estava francamente surpreso com o nível de estrago que um homem condenado, aparentemente tão sem importância, podia causar à sua nação.
Os olhos azuis observavam atentamente o frágil corpo nu da esposa, que dormia exausta em seus braços.
Ela também tivera dificuldades para dormir, no início. Mas depois de duas horas de amor, estava simplesmente exausta, e praticamente desmaiou sobre o peito do marido, assim que decidiram fazer uma pausa.
Naruto não teve a mesma sorte.
Ele havia perdido as contas de quanto tempo havia ficado olhando para cada detalhe das feições de sua rainha, quase como se a venerasse.
A respiração de Hinata era longa e tranquila... Lenta, suave e silenciosa.
Estava deitado em sua cama, ao lado da mulher que amava, observando-a dormir tão tranquilamente quanto um anjo... Imaginava que tudo aquilo devia fazer um homem se sentir, no mínimo, calmo. No entanto, ele estava agitado como nunca.
Perguntava-se incansavelmente até quando a esposa teria a oportunidade de dormir daquele jeito, com os dois olhos fechados, sem se preocupar em manter a guarda aberta...
Ele sabia que Hinata estava tão ciente da situação da Torre quanto ele próprio, sabia que sua preocupação devia ser latente, e constante... Mas ela ainda conseguia dormir em seus braços.
Ele observou os grandes olhos de pérola se abrindo lentamente, como se zombassem de seus pensamentos. Hinata soltou um bocejo curto, e fixou os olhos nos de Naruto, assim que os enxergou.
Não se surpreendeu ao vê-lo desperto.
Ergueu uma das mãos cautelosamente, deslizou o indicador pelas olheiras profundas do amado e suspirou. Ajeitou-se na cama, aproximando-se, e selou os lábios de Naruto de um jeito doce e tranquilizador. – Você precisa dormir... – Murmurou com a voz rouca pela sonolência.
– Não consigo... – Ele confessou com um suspiro. – Não consigo parar de pensar naquilo... Eu não consigo entender os motivos daquele homem... Simplesmente não consigo compreender o porquê de assumir toda a culpa sozinho! – Hinata hesitou um pouco.
– Talvez... – Ela começou com incerteza. – Talvez ele, de fato, tenha feito tudo sozinho... – Ele franziu o cenho, visivelmente desagradado.
– Claro. – Ironizou. – Porque é muito fácil invadir um palácio sozinho, e massacrar toda uma ala. – Suspirou, exasperado, e bagunçou os cabelos. – Ele não fez isso sozinho, Hinata... Além disso... – Fitou-a. – Sakura disse que ouviu o nome de Nagato e Tobi, no dia da invasão. Ela se lembrou, e contou a mim e ao Sasuke na noite passada. – Ela pareceu confusa, inicialmente.
Lembrou-se da súbita e incômoda entrada de Sasuke, da frustração que sentira, ao ter o marido arrancado de seu leito de amor justamente quando ele havia se confessado... E sentiu-se muito irritada com aquilo. – Por que eu só estou sabendo disso agora? – Ele ficou surpreso com a irritação na voz da esposa, e a fitou, confuso. – Eu sou a rainha, não sou? – Ela se sentou. – Ontem, quando Sasuke te levou... Bem, se era para isso, devia ter me levado também! – Exclamou, furiosa.
– Bem... Acho que ele nem pensou nisso...
– Então por que você não me contou?!
– Por quê...? – Repetiu a pergunta, atordoado. – Bem, não tivemos tempo para conversar direito. Então... – Mas antes que pudesse concluir seu pensamento, alguém bateu à porta.
A rainha permitiu a entrada, e Tenten adentrou ao local com muita hesitação – pois como qualquer criada, estava ciente dos últimos acontecimentos – e anunciou a visita da duquesa Uchiha.
~
Mikoto chorou muito após ouvir a descrição de Fugaku sobre a última noite.
Ele não a poupara dos detalhes, e descreveu-lhe, com toda a franqueza possível, a situação física e espiritual de seu irmão: contou-lhe sobre a surra que os soldados lhe haviam dado durante a captura, sobre como ele havia estado acorrentado, do pescoço aos pés, e como fora submetido a um júri que já esperava uma confissão.
Imaginá-lo naquele estado, naquele lugar, fê-la sentir-se agonizada.
Nos braços do marido, Mikoto desmanchou-se em lágrimas.
Fugaku havia sido extremamente compreensivo, e surpreendentemente companheiro: ficou ao lado da esposa o tempo inteiro, sem dizer nada, mas aconchegando-a, beijando-a e tranquilizando-a com carinhos gentis, até que a própria Mikoto pedisse para ficar sozinha.
Após o duque acatar a ordem da esposa – muito hesitante, diga-se de passagem – Mikoto passara toda a manhã sentada em frente à janela, observando a chuva enquanto tentava raciocinar feito uma Uchiha.
Havia percebido que chorar, e apenas chorar, não levaria ninguém a nada.
Suas lágrimas não salvariam seu único irmão da forca, mas talvez seu esforço pudesse fazê-lo.
Ela demorou horas para se recompor, mas quando conseguiu, decidiu pensar com mais calma e frieza. Percebeu que melhor coisa que podia fazer, ao menos inicialmente, era tentar livrá-lo das acusações.
Mesmo abaixo de chuva, decidiu mandar o cocheiro preparar a carruagem; vestiu-se com uma roupa bonita, digna de uma duquesa Uchiha; ajeitou os cabelos em um coque alto, imponente.
Saiu sem avisar ao esposo, e seguiu para a cidade com o objetivo de procurar o antigo advogado da família, que serviu ao pai por tantos anos.
O senhor Zetsu era um homem sério, sincero e tranqüilo. Tinha um rosto incomum, basicamente inexpressivo; a pele negra, olhos amarelados e cabelos curiosamente esverdeados. – Eu gostaria de saber que direção eu devo tomar, no caso de meu irmão. – Ela lhe falou após explicar a situação do prisioneiro.
– Francamente, duquesa... Acredito que seja muito difícil libertar o rapaz. Disse que ele se confessou, afinal. E sua única negação é praticamente impossível de provar-se, não? As evidências dos assassinatos da família Nohara sumiram no incêndio. – Ela pareceu pensar por um instante.
Tomou um longo gole do chá que Zetsu lhe servira mais cedo, e tornou a falar, com cautela e tranqüilidade: — Mas o meu irmão é o filho de um duque. – Ela observou. – A família Uchiha possui posses, dinheiro e poder na nação do Fogo, então não deve ser impossível...
– O seu irmão, milady, é um pobre pária, renegado da família. Se não fosse um fugitivo, seria um indigente. – Mikoto quis mandá-lo para o inferno, mas se controlou.
Tornou a golear o chá. – Uma vez, meu pai me disse que o senhor era capaz de livrar o diabo do inferno, se assim desejasse. – Ela comentou casualmente. – Então, pergunto-me quanto terei que desembolsar, para livrar o meu irmão da forca.
O homem negro sorriu. – Inesperadamente, a duquesa é muito parecida com seu pai. – Ele comentou, aconchegando-se na cadeira, mas ela não o honrou com uma resposta. – Posso dizer que farei o meu possível, milady. Vou analisar a situação do jovem Uchiha... Mas até lá, ele continuará como está.
Claro que uma mulher com a influência, o poder e a insistência de Mikoto não podia acreditar naquilo com a mesma convicção que um advogado como Zetsu.
Assim que deixou o escritório do advogado, seguiu até a Torre.
Ela recorreria a todos os meios possíveis: desde seu nome, poder e dinheiro, até suas lágrimas, boas relações, e o afeto que sabia que o casal real sentia por sua família.
Assim que alcançou o palácio, instruiu a serva particular de Hinata a anunciá-la ao rei e a rainha. A garota parecia constrangida e hesitante, e Mikoto imediatamente soube que ela estava ciente dos acontecimentos.
Não se surpreendeu quando, antes dos governantes, Itachi adentrou a sala de visitas de Hinata. Suas vestes estavam desajeitadas, seu rosto vermelho, e sua postura ansiosa. Ele parecia temê-la...
Mikoto pensou que o filho devia ter todos os motivos para isso.
– Mãe! – Ele tentou sorrir, mas ela não o correspondeu. Aproximou-se, puxou as mãos dela e beijou-as, dedicado. – O que a trás aqui? – Ele já imaginava os motivos daquela visita, mas teve certeza quando Mikoto friamente afastou-se.
– Foi você? – A pergunta foi como um soco em seu estômago. – Foi você quem contou sobre Obito, não foi? – Ele baixou a cabeça, e ela estreitou os olhos. Desde sempre, Mikoto possuía um poder surpreendente sobre os filhos, capaz de fazer com que Itachi Uchiha, o prodígio do exército, conselheiro do país do Fogo se sentisse uma criança encurralada. – Você saiu de mim, Itachi... Eu o gerei, eu o criei. Sei exatamente o tipo de homem que é. – Ele a olhou de soslaio. – É por isso que nem eu, nem Kasumi sequer pensamos em contá-lo a verdade.
–... Minha mãe, eu juro que...
– Não jure nada... – Ela suspirou longamente. – Eu também sei que pode ser um ótimo mentiroso... – Massageou as têmporas na esperança de minimizar a terrível dor de cabeça que começara a sentir.
Itachi simplesmente não conseguiu respondê-la, pois a declaração, ainda que verdadeira, o magoara profundamente.
Mikoto se sentiu muito agradecida quando as portas se abriram e o casal real surgiu. – Duquesa. – Naruto a cumprimentou com um baixar de fronte tão formal que ela suspeitou que ele também soubesse do motivo de sua visita.
– Madrinha. – Hinata fez o mesmo.
– Majestades... – Mikoto se curvou, e após os cumprimentos, um silêncio incômodo e pesado estendeu-se pelo lugar.
A tensão era latente, quase tangível.
– A que devemos a honra de sua visita, Mikoto? – Naruto decidiu perguntar enfim. Mikoto lhe sorriu, um sorriso suave e tranqüilo, que quase os enganou.
– Eu vim pedir para poupar a vida de meu irmão.
~
Shikamaru não gostava daquilo.
Não gostava da ideia de fazer algo pelas costas do rei, mas não tinha jeito. Kurenai podia ser muito persuasiva, quando o assunto a interessava... E, de qualquer forma, a consciência do conselheiro já estava pesando desde que jogara aquele homem desgraçado e ferido na cela fétida da carceragem.
Aquilo podia vir a se tornar muito problemático, mas permitiu que Shizune seguisse, na companhia de Kurenai e Kakashi, até a cela do condenado.
Shizune foi inteligente o bastante para limpar o rosto e se recompor antes de seguir para a parte mais escura da Torre. Não era a primeira vez que andava por aqueles corredores, mas eles nunca lhe pareceram tão sujos e sinistros.
Antes que pudessem adentrar ao corredor da morte, Kakashi barrou o corpo de Kurenai. – O que foi? – Ela questionou-o, sinceramente confusa.
– Espere um minuto. – Ele pediu com a voz séria, e ela anuiu.
Abriu a porta de madeira, e puxou Shizune pelo antebraço; Kurenai os viu andar até uma cela. Observou enquanto Kakashi se abaixava até a altura da fechadura, e viu Shizune adentrar no lugar, após um segundo de hesitação, com a pequena maleta médica.
O Hatake trancou a fechadura, deu – ela imaginava – alguma instrução à mulher e depois de uma última olhada silenciosa, refez o caminho até a Yuuhi.
– O que você está fazendo? – Ela estava sinceramente confusa.
– Dando à Shizune espaço. – Ele fechou a porta velha do corredor, e se recostou nela; fechou os olhos e respirou fundo, com o objetivo de se acalmar.
– Ele está muito ruim? – Ela perguntou num tom baixo, e entristeceu-se, ao vê-lo anuir. – Eu lamento...
–... Eu também.
.
Shizune sentiu sua alma despedaçar-se, ao vê-lo naquele estado.
No instante em que Kakashi parou, em frente àquela cela, ela quis chorar.
Obito estava sentado sobre o colchão miserável, que devia ter cinco centímetros de altura; tinha o rosto ferido, que precisava ser tratado. Antes de enxergá-los, seus olhos estavam perdidos... E suas mãos agarravam uma corrente presa ao seu pescoço.
Ele despertou, ao ouvir o barulho da fechadura; instintivamente, escondeu o pequeno relicário – que Shizune só pôde ver de relance.
Kakashi deu espaço para que a médica adentrasse a cela, e depois de segundos de hesitação, ela o fez. – Quando terminar chame meu nome. – O Hatake a instruiu, e a protegida de Tsunade assentiu, sem olhá-lo.
O silêncio se fez por segundos... E depois, os únicos sons que ela pôde ouvir foram os passos de Kakashi se afastando.
Levou cerca de dois minutos, até que ela sentisse coragem o suficiente para se aproximar dele.
Abriu a maleta, trêmula, e retirou tudo o que precisaria para desinfetar o rosto machucado. Podia sentir os olhos de Obito analisando cada um de seus movimentos...
No instante em que tocou o algodão sobre a pele suja, sentiu a lágrima quente escorrendo pelo rosto; ela não queria chorar na frente dele, mas foi inevitável. Continuou cuidando-o.
– Por que você está chorando? – Ele perguntou com curiosidade verdadeira.
Os olhos dela se estreitaram, tristonhos, agonizados... E, lentamente, ela sentiu coragem de erguer o rosto e fitá-lo.
– Eu não quero que você morra. – Shizune confessou num murmúrio, e Obito não conseguiu não sorrir.
Ele suspirou longamente; balançou a cabeça e se recostou na parede, fechando os olhos. – Eu já estou morto, Shizune... Há muito tempo. – Abriu os olhos, quando sentiu o corpo dela colocar-se sobre o seu.
– Você está vivo... – Ela sussurrou, e encostou a testa na dele, fechando os olhos. – O seu coração bate, então você está vivo...
–... Meu coração bate, mas minha alma já deixou esse mundo... – Ela negou com a cabeça, e aquilo o afetou.
– Não fale isso... – Ela implorou num murmúrio doloroso, e tornou a fitá-lo. – Eu o amo tanto, Obito... – Alisou as faces dele. – Então, ainda que não me ame... Ainda que não viva por mim, por favor, não diga isso... – Ela apoiou as mãos sobre o peito dele.
– Shizune...
– Ainda que não seja por mim, — ela prosseguiu. – Viva. – E o olhou. – Se não por mim... Por sua filha... – Ela viu a dor surgir nos olhos negros.
– Minha filha já tem quem viva por ela. – Ele murmurou em tom baixo. – Ela não precisa mais de mim.
– Mas você precisa dela, não é...? – Ele não respondeu. – Por favor, Obito...
– Eu sou um homem condenado, Shizune. – Ele a interrompeu, sério, direto. – E não porque o rei me condenou. – Ela estreitou os olhos. – Não porque me usaram de bode expiatório... Nem por terem me negado. – Ele segurou o rosto dela firmemente, e só então a mulher pôde notar que tremia. – Eu estou condenado a viver, Shizune. – Ele disse entre dentes. – Condenado... Porque não posso ficar ao lado da Rin... – E pela primeira vez na vida, ela viu lágrimas enchendo os olhos do homem que amava, e soube que ele acreditava firmemente em tudo o que dizia.
E percebeu que Obito estava tão condenado a amar Rin, quanto Shizune estava condenada a odiá-la.
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