The King
46 Traidor.
Notas iniciais
Capítulo 46 – Traidor.
~ ONZE ANOS ATRÁS ~
Com um garanhão negro que havia pertencido à Madara, a companhia de dois guardas de sua confiança e a desculpa de uma missão à família, Fugaku seguiu viagem por uma longa e irritante semana que o levaria a um pequeno e simplório feudo, que devia pertencer a algum nobre que, de nobre, não devia ter nada. Tudo aquilo apenas por uma informação.
O atual novo duque apresentou à família feudal o pretexto mentiroso de conhecer as terras que ficavam ao redor da nação do Fogo, e foi imediatamente instalado na propriedade principal como um honrado convidado.
Na primeira manhã de sua hospedagem, já rondava pelo local como se fosse seu próprio dono. Montado em seu cavalo sangue puro, olhava para os trabalhadores com o nariz empinado e o anel de orbe vermelho que anunciava sua posição brilhando no anelar da mão direita.
Já fazia quase um ano desde que Madara falecera, mas ainda era estranho sentir o peso daquele anel. Francamente, Fugaku achava muito agradável ser um duque. Gostava da importância de seu título, da influência que ele lhe propunha e – talvez principalmente – da reação que o título “Duque Uchiha” causava às pessoas.
“Uchiha”, afinal, era um nome imponente. E ser o líder da família proporcionava muito mais do que um mero sentimento de honra. Ser o líder da Uchiha era ter poder.
Enquanto guiava o garanhão negro pelas terras que haviam ficado lamacentas graças ao temporal da noite anterior, Fugaku se perguntava como ele conseguia ter aberto mão de tudo aquilo. O conforto, o título, a fama. O dinheiro. O poder.
Tudo por uma mulher. Por se apaixonar pela mulher errada.
Para Fugaku, que se apaixonara pela mulher certa, aquilo era absurdo, e absolutamente sem sentido.
— Ei, você! – O duque exclamou a um trabalhador que enchia dois grandes baldes de madeira com água. Ainda que o atrapalhasse, o senhor mais velho virou-se em sua direção. – Onde ficam os estábulos?
— O estábulo é responsabilidade minha, meu senhor. – O camponês o respondeu, parecendo um tanto confuso. – Tem algum problema, meu moço?
— Estou procurando seu limpador.
— E quem o procura? – As sobrancelhas negras do duque se estreitaram. Ele estava acostumado com reconhecimento desde que se tornara duque, mas sabia estar longe o bastante de casa para esse tipo de situação.
Bem, talvez fosse melhor.
— Eu sou o comandante da guarda real da nação do Fogo. – Imaginou que seria mais inteligente não apresentar nome ou título; apenas a posição fez com que os olhos do camponês se arregalassem.
— Oh, peço perdão senhor. Mas o meu limpador se foi, meu moço. Morreu de tosse. O que tem aí é novo. Trabalha bem, mas num acho que vai poder te ajudar não, meu moço.
— É seu novo menino quem procuro.
— Meu novo menino?! – Ele pareceu ainda mais surpreso. – Tem alguma confusão com meu novo menino, meu moço?
— “Seu novo menino” é um assassino, meu senhor. – Fugaku manteve um tom de voz firme e baixo. – É um mercenário, e eu estou aqui em nome do país do Fogo, para prendê-lo. – Explicou-se.
— Assassino? Mercenário?! – O velhote riu. – É não, meu moço! Ele é menino bom, o garoto das cicatriz. Ele é feio, mas os cavalo gosta dele. Num é assassino não, meu moço. Ele é bom menino.
— Se for um simples engano, meu senhor, garanto que nada vai acontecer ao bom homem. Mas enquanto não temos a certeza, poderia fazer a gentileza...?
— Ah, vou sim! É engano sim, meu moço. O senhorio vai ver. – Ajeitando os dois baldes em um suporte, o velhote ergue-os apoiando-o nas costas. – Vamo, meu moço. Eu vou levar você até lá. – E seguiu em frente com lerdeza quase estúpida.
Demorou quase vinte minutos para alcançarem os malditos estábulos, mas a cinco minutos de distância, Fugaku já podia sentir o odor. Aquele homem velho demorou tanto a andar que o Uchiha quase desmontou do cavalo para ajudá-lo, só para poupar seu tempo, mas sabia que não era algo que um duque devia fazer.
Madara o havia ensinado que apenas as crianças têm pressa, então Fugaku simplesmente não teria porque se apressar.
Obito não estava ciente de sua presença, então não tinha motivos para fugir.
— Ô menino novo! – O velho gritou, mas o som foi abafado pelos barulhentos cavalos. – Tem gente querendo confirmar você!
Fugaku havia adentrado sozinho ao antro de imundice. O lugar era grande, e se parecia como qualquer outro estábulo: estrutura de madeira e chão cheio de feno e merda; os cavalos – belos sangues ruins! – estavam agitados, aparentemente porque haviam acabado de ser marcados, e mais pareciam berrar.
O duque encontrou o cunhado exausto, sem camisa, ofegante e pingando de suor enquanto trabalhava duro para se livrar do gerador de mau cheiro. Vez ou outra Obito parava seus afazeres para atentar acalmar os bichos. Eles se encolhiam ao seu toque, confortados e satisfeito, mas bastava que retornasse ao trabalho para que voltassem ao escândalo.
Fugaku percebeu que Obito não usava a máscara que o havia tornado tão famoso entre mercenários, mas não se surpreendeu. Eles estavam distantes o suficiente de Konoha para que ele não precisasse se preocupar, afinal.
— Ô Bito tem gente-.. – Mas antes que o velho pudesse interrompê-lo, Fugaku pousou a mão sobre seu ombro.
— Deixe-nos. – Ele ordenou ao homem com um tom tão autoritário que mesmo com uma sombra de hesitação estampada nos olhos, o senhor o obedeceu.
Fugaku passou mais alguns minutos ali depois da saída do homem: parado em frente à porta do estábulo, observando com um prazer imensurável a cena de Obito Uchiha, o único filho homem de Madara, herdeiro do ducado, pegando bosta de cavalo com uma pá velha e recém consertada.
Aquele bastardo havia renunciado sua vida: seu nome, seus pais, sua irmã. Sua família, seu título e sua riqueza, e tudo por uma tola paixão adolescente trágica demais para parecer verdade. – Ora, ora, ora... – Ele se pronunciou quando se decidiu satisfeito. Obito ergueu os olhos com uma expressão de visível desconforto, mas simplesmente empalideceu ao reconhecê-lo. – Parece que eu achei o rato da família. – Fugaku sorria odiosamente, mas o cunhado sequer pôde se mover. – Ora primo. Vamos! Nenhum abraço a esse tão surpreendente reencontro familiar? Bem, eu me aproximaria e te abraçaria, se você não estivesse fedendo mais que os cavalos.
Nenhum movimento, nenhuma reação.
Nada além da latente surpresa em seus olhos.
E então, subitamente... Nada. Nem surpresa, nem medo. Absolutamente nada.
E aquilo frustrou Fugaku. – O que você faz aqui? – A voz do trabalhador soou tão vazia quanto sua expressão, e logo Obito tornou a trabalhar. – Como me encontrou?
— Bem, eu me tornei comandante da guarda real. – Cautelosamente, Fugaku começou a rodeá-lo. – O alto escalão tem uma gama forte de informações. Você tem fama como mercenário, então não foi difícil encontrá-lo, quando decidi que queria.
— Lamentavelmente, eu não sou mais um mercenário. Então, seja lá o que quer de mim, Fugaku... Desista-...
— Diferente de você, primo. – O duque o interrompeu. – Que entregou sua filha a um homem que odeia, simplesmente porque não acredita que possa cuidar dela... – Obito instantaneamente parou seus afazeres. – Eu não desisto. – Lentamente, os olhos negros se ergueram para encará-lo.
Obito sempre viu Kakashi como um rival, mas Fugaku era mais do que isso.
Ele era a personificação de tudo o que havia de mais odioso nos anos e anos de história da família Uchiha: era hipócrita, era falso, era mentiroso e manipulador. E, de alguma forma, conseguia usar absolutamente todas aquelas malditas características ao seu favor.
O sorriso no rosto do maldito foi de pura satisfação. – Você realmente pensou que eu não saberia? Aquela criança é uma praga, como você foi quando menino. E, ainda que não fosse eu saberia.
— Mikoto... Foi ela quem...?
— Oh, claro que não. – Fugaku garantiu com um sorriso, ainda que o fato o incomodasse profundamente. – Sua irmã não me contaria um segredo seu. – Ainda que devesse, ele adicionou mentalmente.
—... É claro que não. – Obito forçou uma risada. – Meu pai. É claro que ele diria...
— É claro que ele diria. – Fugaku concordou. – Não existem motivos para que eu não saiba, não acha?
— Além do fato de que isso, definitivamente, não é um assunto seu.
— Tudo o que diz respeito à família Uchiha é assunto meu, Obito. – O mais jovem sorriu; lançou a pá velha em um canto qualquer, desistindo efetivamente da tarefa. Cruzou os braços e fitou Fugaku com diversão estampada nos olhos.
— Por quê? Meu velho pai já o anunciou como o herdeiro? – Não houve resposta, e Obito suspirou. – De qualquer forma, talvez sua visita seja boa... Eu quero que dê um recado ao meu pai. – Fugaku arqueou uma das sobrancelhas. – Avise a ele q eu se tocar em um fio de cabelo de minha filha... Se ousar humilhá-la, ou machucá-la, eu vou saber. E quando eu souber...
— Seu pai está morto.
Uma afirmação simples, e na realidade nem tão surpreendente assim – já que Madara era velho –, que chocou Obito profundamente. Tanto, que ele sequer pôde pensar em como responder ao primo de imediato.
Foram necessários dois ou três minutos de silêncio, olhando diretamente para Fugaku, para que ele pudesse absorver o significado daquelas palavras. E então, quando enfim pareceu entender... Simplesmente não soube como reagir.
Baixou a cabeça, extremamente perturbado e recuou um passo. Seus olhos estavam confusos e perdidos, como os de uma criança. – Então ele... – Obito balbuciou. – Ele... Realmente...
— Está morto. – O duque afirmou, completando seu pensamento. – Morreu pouco antes de sua filha chegar à Konoha, então imaginei que já soubesse, e por isso a havia deixado ir.
Não houve resposta.
— Eu sou o novo duque. – Fugaku prosseguiu. – Sou o líder da família, e o a partir de agora, responderei aos nossos interesses. – Se recostou a uma das pilastras de madeira, tomando cuidado para ficar longe dos cavalos perturbados.
Os punhos de Obito se cerraram.
— Eu não sou mais parte da família. – O lembrou, murmurando entre dentes. Os olhos negros, antes perdidos e angustiados, agora pareciam fagulhar em ressentimento. – Fui banido, se lembra?
Mas Fugaku sorriu em resposta.
— Como não me lembraria? – Apenas para provocá-lo, ele ergueu a mão direita, e orgulhosamente alisou a orbe vermelha de seu grande anel. – Mas mesmo que seja a vergonha da família, ainda tem o sangue Uchiha... E o nosso talento.
— Nunca fui um Uchiha tão bom quanto você, meu primo. Nunca fui melhor que você. Em absolutamente nada.
Pela experiência das muitas batalhas que haviam participado juntos em nome da nação do Fogo, Fugaku sabia que Obito era muito melhor em uma dúzia de aspectos que envolviam combates, mas não precisava admitir isso em voz alta.
— Há coisas que um duque não pode fazer. – Ele resolveu dizer, simplesmente. E deu os ombros como se fosse óbvio.
— O trabalho sujo, você quer dizer.
Era exatamente o que ele queria dizer.
— Absolutamente não. – Mentiu com um sorriso divertido no rosto. – Continua pensando muito mal de nossa família, pequeno primo. Estou chocado! Seu pai ficaria decepcionado... Não fazemos “trabalho sujo”, propagamos a justiça.
Obito sorriu.
— Bem, sendo ou não um trabalho sujo, lamentavelmente terei que dispensar. Já tenho um trabalho. – Ele ergueu as mãos, exibindo o celeiro. – Tudo o que recebo é um prato de comida e um teto para dormir, mas estou satisfeito. É tudo o que um homem sozinho precisa ter.
— Ora, mas que egoísta! Não é um homem sozinho, Obito. Você tem uma filha.
A expressão de Obito se fechou.
— Uma bela menininha... – Fugaku prosseguiu, sorrindo dissimuladamente. – Que sente tanta falta do pai... – Ele suspirou, fingindo lamentar-se. – Diga-me, Obito... Não sente falta de sua menininha? – Quase podia sentir o rancor emanando pelo corpo do primo, mas não se conteve. – Kasumi foi a única coisa que Rin deixou, não é? – E naquele instante, Obito se lançou sobre o duque como um lobo em fúria, derrubando-o no chão de feno.
— Não ouse falar dela! – Gritou. .- Não ouse dizer o nome dela! Não ouse sequer lembrar-se da existência da minha filha! – Ele ordenou furioso, e quase no mesmo instante, acertou um soco furioso no rosto do mais velho.
Mas embora Obito fosse mais forte, melhor em técnicas de combate e um bocado mais jovem, Fugaku tinha a vantagem de saber exatamente em quê era melhor do que o primo: autocontrole. Portanto, não foi muito difícil prever e esquivar-se dos golpes do furioso rapaz Uchiha.
Depois de rolarem por minutos no feno, um tentando espancar o outro, Fugaku finalmente conseguiu vencer: acertou-lhe uma joelhada – muito suja, diga-se de passagem – nas partes baixas do primo, seguindo com um soco forte na boca de seu estômago, e antes que o mais jovem pudesse recuperar-se, rendeu-o com uma adaga afiada em seu pescoço.
— Fique quieto e escute. – Foi a ordem do duque.
Obito não estava nem de longe disposto a obedecê-lo. Por que devia sobreviver, afinal? Que motivo tinha para viver?
Desde a despedida de Kasumi, tantos meses atrás, ele não via motivos para prosseguir. Sua filha certamente estaria melhor em Konoha, sob a tutela de Kakashi, e se Obito não podia mais viver por ela, por que viveria?
Ele desejou reagir à Fugaku. Mais do que qualquer coisa! Quis lançá-lo contra a parede e espancá-lo, ainda que tivesse ciência de sua posterior morte. Ele quase podia ver seu corpo sangrando feito um porco, jogado no chão daquele estábulo esquecido, e mesmo assim quis reagir. Mesmo que morresse agora, ele queria reagir!
Kasumi cresceria, e veria outro como seu pai. Tornar-se-ia uma bela e bem educada moça, e iria se casar com um bom homem, que a amaria mais do que tudo na vida. Sua menininha não precisava de um pai amaldiçoado.
Mas mesmo que pensasse assim, ele não conseguiu se mover diante da ameaça.
Os dolorosos sonhos que tinha todas as noites o impediam de deixar-se morrer.
Mesmo que ninguém fosse sentir sua falta, Obito não conseguiu reagir... Não conseguiu enfrentar a morte, porque temia a morte. No fundo, ele temia a possibilidade de nunca mais vê-la... E ainda que a esperança do reencontro fosse pequena e ilusória, ainda estava viva, latente em seu peito.
Era por essa esperança que Obito havia deixado a vida de mercenário. Por essa esperança trabalhava duro para tão ganhar pouco. No fundo de seu ser, esperava que algum dia, quando todos o tivessem esquecido, quando visse a si mesmo como um homem digno e trabalhador, livre de suas dívidas e de seus pecados, pudesse voltar para ela... Para sua filha.
Por isso, mesmo que quisesse morrer com todas as suas forças, Obito não se moveu quando sentiu a lâmina fina e gélida pressionada em seu pescoço.
— Por acaso você sabia, Obito, que Kasumi está sob a minha guarda?
Por um momento, ele não compreendeu.
— Kakashi não conseguiu suportá-la. Mikoto percebeu isso, e tentou convencer-me a acolhê-la... – Gradativamente, o mercenário até então aposentado empalideceu. Perceber isso fez com que um sorriso satisfeito nascesse nas faces do duque. – E eu, como um bom pai de família, a acolhi de braços abertos... É por isso que você vai sim fazer tudo o que eu pedir. – Os olhos negros do mais jovem se cerraram, mas antes que alguma ofensa ou xingamento escapasse de seus lábios, o duque prosseguiu:
— Seria lamentável se um bando de homens invadisse a mansão Uchiha em minha ausência, não acha? – Silêncio. – E ainda mais lamentável se eles seguissem para o quarto da única garotinha da nossa família... – Obito empalideceu, mas Fugaku pôde identificar o ódio fagulhando em seus olhos, um rancor tão grande que, por um segundo, ele não pôde reconhecê-lo.
Ainda assim, prosseguiu. – Consegue imaginar o rosto dela, primo? Suas lágrimas... Enquanto homens mais velhos do que você e eu a machucam, até o ponto de destruírem seu pequeno útero... O destino dela estaria mudado para sempre. Seria lamentável, não acha?... Que homem se casaria com uma mulher impura?
— Eu vou matá-lo, Fugaku. – Obito tremia, mas tinha os olhos marejados. – Juro por tudo o que me é mais sagrado: eu vou matá-lo. – Ele prometeu. – Apenas por suas malditas palavras, vou matá-lo.
Fugaku sorriu.
Um sorriso odioso de vitória.
— De fato, vai matar alguém. Por sua filha. Mas não serei eu, querido primo... E sim um jovem que até pouco tempo não era nada além de um soldado sem futuro. – Obito estreitou os olhos. – A pessoa que você vai matar chama-se Minato.
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Fugaku não havia sido o genial idealista do massacre Uzumaki; aquele ideal era um legado de Madara, mas seu sobrinho não se sentiu nenhuma hesitação ao assumi-lo.
Ele havia sido criado sobre a idéia de que a família real era uma farsa. Os Uzumaki, afinal, haviam crescido e tomado o poder graças ao absurdo dom da fala – ou “lábia”, como o falecido duque costumava dizer. A nação do Fogo havia sido erguida como derramamento do sangue Uchiha, mais do que de qualquer família.
Os Uchiha haviam sido o motivo principal para a conquista de novas terras. Eram mais fortes, mais inteligentes e mais ricos. Eram superiores! Portanto, naturalmente, deviam ser a família real.
Francamente, Fugaku nunca chegou a odiar realmente um Uzumaki. Mesmo assim, contribuiu quando o tio decidiu exterminar a família do príncipe herdeiro: ele havia procurado homens desleais que conhecia no exército, e facilmente conquistou contribuições.
Tinha quase quinze anos na época, mas foi o responsável por informar aos assassinos o melhor momento e local para a chacina.
Ainda que fosse tão jovem, não sentiu nenhuma culpa. Nenhuma dor.
Havia sido frio e dissimulado o suficiente para demonstrar tristeza durante o velório e a cremação dos corpos do casal real, mesmo enquanto segurava as mãos da pequena tristonha Mikoto.
Anos depois, ajudou a arquitetar a morte da princesa Kushina. A mesma garota que havia cortejado três verões atrás, antes de casar-se com a prima amada. O seqüestro fora um sucesso, e Madara estava certo de que logo os Uchihas – a próxima família na linha sucessora da nação – conquistariam o poder, quando um incômodo surgiu.
O inesperado inconveniente chamado Minato Namikaze foi o responsável por desestruturar todos os esforços de Fugaku e Madara. Ao lado de Kakashi Hatake e – inesperadamente – Obito Uchiha, livrou das mãos de mercenários contratados – que por sorte haviam ido para o inferno antes de revelar qualquer coisa que pudesse pôr em risco o nome Uchiha – a doce princesa.
O ódio de Fugaku diante aquele acontecimento foi imensurável.
Havia sido a primeira e única vez que ele havia se exaltado com o tio.
Não conseguia entender os motivos para Madara deixar o filho de fora. Se ele, que era só um sobrinho, tinha que arriscar o pescoço por um título que, no fim das contas, seria de Obito, porque não o próprio Obito?!
Mas “não o envolva nisso” foi toda a resposta que conseguiu receber na ocasião.
Quando Minato Namikaze, um ninguém, vindo só Deus sabe de onde, subiu ao trono, uma fúria surpreendente tomou conta de Madara, e não apenas dele. Uma legião de nobres e serventes do país se juntou em prol da traição.
Mas então Madara adoecera.
Fugaku era um homem inteligente e forte, mas não pensava em tomar o lugar do tio até seu último suspiro... Que demorou anos para acontecer.
Quando Kasumi chegou à Konoha, Madara já havia falecido. Fugaku era o herdeiro de sua fortuna e suas vontades, e estava decidido a conquistar os sonhos do tio, decidido a colocar os filhos dentro do castelo, como o príncipe e o príncipe herdeiro do trono do Fogo.
Mesmo que aquilo significasse tirar de Mikoto sua irmã.
Mesmo que aquilo significasse tirar de Sasuke seu irmão.
Ele estava decidido a seguir em frente com o golpe de estado, mas sabia que devia ser cauteloso. Era um dos homens de confiança de Minato, mas estava ciente de que o rei não fecharia os olhos nem com seu melhor amigo.
Fugaku devia ser cuidadoso e inteligente, e não podia deixar que desconfiassem de seu envolvimento. Mas como faria isso?
A resposta surgiu numa noite, quando Mikoto, hesitante, perguntou ao marido se eles não poderiam cuidar da filha da família Nohara. A antiga amizade entre as famílias foi a desculpa imposta pela duquesa, mas Fugaku estava ciente de que Mikoto, no fim das contas, só queria cuidar da filha de seu irmão.
E ele aceitou. Não por Mikoto e muito menos por Kasumi.
Aceitou por Obito.
Porque sabia que, com Kasumi em suas mãos, teria Obito em suas mãos.
Obito era o traidor de sua família, era um fraco, um covarde, e tinha sido a principal fraqueza de Madara durante todos os seus anos de vida.
Mas Fugaku sabia que poderia usá-lo.
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Naquela manhã, quando os Uzumaki saíram de carruagem para uma longa viagem onde apresentariam seu filho aos cidadãos e aos países aliados, Fugaku foi o responsável por escolher a equipe que tomaria conta da família.
A guerra havia acabado. Os soberanos não estavam preocupados com sua segurança, mas queriam ser discretos. Portanto, um simplório grupo de quinze homens foi escolhido: treze deles tinham eram bons e gozavam da plena confiança do rei – mas embora fortes e experientes, poderiam ser facilmente derrotados por o Obito – e dois deles gozavam da plena confiança do duque.
Aqueles dois traidores foram os responsáveis pela fácil atividade de, na terceira manhã de viagem, batizar as bebidas da família real com um elixir que os faria dormir até o pôr do sol daquele dia, dando à Obito a oportunidade de exterminar todos os homens presentes na caravana.
O ataque foi iniciado com duas flechas: uma certeira na cabeça de um dos condutores da carruagem, e outra no peito do segundo condutor, que caiu imediatamente do transporte, mas agonizou por horas antes de morrer.
E então, Obito exterminou a todos. Fossem homens bons, fossem homens maus.
Ele mesmo conduziu a carruagem real – que, por sorte, não era tão grande assim – até um morro próximo que fora estrategicamente escolhido. Ao fim do morro, havia um penhasco e, ao fim do penhasco, o mar. O que faria da água, ironicamente, o túmulo dos soberanos do país do Fogo.
Obito tentou não se sentir um monstro enquanto libertava os cavalos.
Ele tentou não se lembrar dos bons momentos que havia passado com Minato – que lhe havia sido um exemplo muito maior do que Fugaku ou Madara – enquanto empurrava com força, sozinho, a carruagem morro a baixo.
E tentou não se sentir um demônio enquanto observava ela cair lentamente... E mais rápido, e mais rápido, e mais rápido.
Obito viu Naruto ser jogado de lá muito antes de a carruagem alcançar o penhasco, mas não pôde identificá-lo imediatamente; sequer se apegou à imagem de algo ser jogado para fora do transporte.
Ele se contentou em observar... Como lhe havia sido mandado.
Em cinco minutos, a carruagem já havia alcançado o mar. Em cinco minutos, tudo estava acabado. Foram apenas cinco minutos, talvez menos que isso, mas por horas Obito não conseguiu se mover.
Sentou-se sobre a grama e observou... Debilmente.
Sentia seu corpo paralisado, quase anestesiado.
Tentou não pensar em Rin. Tentou pensar em Kasumi, e nas ameaças terríveis que o haviam levado a fazer aquilo... Fugaku era o monstro, não ele! Era a verdade, mas Obito não conseguiu aceitar.
Fugaku podia ser um monstro, mas ele não havia condenado uma família ao fim.
Podia ser um monstro, mas não tinha matado dezessete homens que precisavam sustentar suas mulheres e filhos. E foi então que Obito percebeu que, tão terrível quanto Fugaku, ele também era um monstro.
Um da pior espécie, já que procurava desculpas para suas atrocidades.
Rin nunca o perdoaria... Mikoto nunca o perdoaria. Elas iriam odiá-lo, desprezá-lo, assim como Kasumi.
E foi naquele momento, enquanto pensava em Kasumi, que o viu se mexer.
O pequeno garotinho que, ferido e ensangüentado, tentava se levantar.
Obito observou-o se arrastar pela grama, e inconscientemente começou a se aproximar; sentiu o coração disparar ao vê-lo escorregando, gritando pelo pai e pela mãe, e mais uma vez sentiu-se um demônio.
Como um sinal divino, o garoto conseguiu se segurar. – Mamãe... – Mesmo sem perceber, Obito já havia se aproximado o bastante para ouvi-lo murmurar. – Papai...
E mais uma vez, o pequeno príncipe tentou se mover.
Ele caiu tão rápido que Obito pensou que seria o fim. Com a imagem de Kasumi contrastando com as muitas lembranças que tinha de Kushina e Minato, ele se viu descendo aquele morro alto cautelosamente, atrás daquele pequeno garoto.
Naruto não gritou pelos pais, apenas fez força para se segurar, e realmente conseguiu. Obito ainda tentava se aproximar, com um pouco de dificuldade graças ao terreno escorregadio. Ele quase caiu, quando o grito desesperado soou dos pulmões do pequeno príncipe, e se desesperou ao vê-lo tentar descer mais.
Apressou-se, e se aliviou quando enfim conseguiu pegar o garotinho. Quase sem raciocinar, Obito ergueu-o do chão, jogou-o por cima de seus ombros e, no mesmo instante, sentiu o príncipe desfalecer.
Ele pôde compreender o motivo quando, ao se virar, conseguiu enxergar os corpos do rei e da rainha da nação do Fogo.
E naquele momento, ele decidiu.
De fato, ele era um monstro. De fato, havia matado pessoas inocentes.
Ele merecia a morte. Merecia morrer sem ver a filha novamente, merecia ir para o inferno, e nunca mais ver os olhos de Rin.
Mas mesmo que estivesse condenado à própria culpa, Obito decidiu que não seria o monstro a matar aquela criança.
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~ DIAS ATUAIS ~
E mais uma vez, ele estava preso.
Obito quase podia sentir as algemas que o prendiam da cabeça aos pés, enquanto encarava o grande e imponente duque Uchiha com desprezo e frieza.
— Ora, Obito! Desfaça essa cara de poucos amigos. É um dia feliz, afinal. – Fugaku se acomodou na cadeira e cruzou os braços. – Os Uchiha finalmente tomarão o poder da nação do Fogo... Os desejos de seu pai se realizarão.
Obito forçou-se a sorrir, e se sentou à frente do primo.
— Eu me pergunto como isso vai acontecer, primo. – Ele puxou um cacho de uva que descansava sobre a mesa, e serviu-se sem cerimônias. – Segundo Zetsu, apenas a morte de um Uzumaki foi encomendada. E sabemos que o trono pertencerá ao que sobrar.
Fugaku bufou.
— Se Nagato sobreviver, o povo entrará em revolta. – Ele garantiu. – Naruto é amado. É visto pelo povo como um rei justo e bom... – Os olhos negros reviraram. – Me surpreende o fato de não conseguirem enxergar o quão imatura é aquela criança.
— E se Naruto sobreviver?
— Então Yahiko vai matá-lo. – A afirmação de Fugaku soou tão convicta que Obito, por um segundo, não soube o que dizer. – E quando matá-lo, Karin será nomeada rainha... – O duque coçou o queixo, pensativo. – E então a farei a esposa de Sasuke.
— Sasuke está casado. – Obito o lembrou. – E parece feliz com o casamento.
Fugaku simplesmente deu de ombros.
— “Até que a morte os separe”... É isso o que os sacerdotes dizem durante a cerimônia, não é? Então um casamento nunca é irreversível.
Mais uma vez, Obito manteve-se em silêncio.
Ele havia passado os últimos onze anos ao lado de Fugaku. Aprisionado pela tutela de sua filha, e posteriormente por seu casamento com Itachi. No decorrer daquele tempo, havia feito muitas coisas terríveis; havia manipulado pessoas, mentido e matado inocentes e culpados, mas era incrível como Fugaku sempre conseguia surpreendê-lo com sua frieza.
— Tantos anos se passaram... Tantos planos falharam... Surpreende-me o fato de estar tão otimista, meu primo. – Ele foi sincero. – Afinal, mesmo após a morte da família real, a família Uchiha não subiu ao poder. O que faria se, mais uma vez, os conselheiros se tornassem os governantes?
— Itachi é se tornaria um dos governantes. – Fugaku deu os ombros. – Depois disso, poderíamos simplesmente nos livrar dos demais. Bem... Jiraya está velho, não precisaria me esforçar tanto. – Ele riu. – E Shikamaru pode ser inteligente, mas não é forte. Pode ser facilmente descartado.
Obito pensou que Fugaku não devia estar pensando na rainha, ou na possibilidade de ela estar ou não esperando um herdeiro, mas preferiu manter-se em silêncio. Se aquele maldito não havia pensado naquilo, não seria ele a plantar idéias em sua cabeça.
Obito forçou-se a sorrir. Um sorriso leve, tranqüilo e indiferente.
— Você fala com tanta certeza... Mas se esquece que seus filhos são fieis à família real. Pergunto-me o que você fará quando Sasuke e Itachi protegerem ao rei-...
— Eu não sou seu pai. – Fugaku o interrompeu. – Meus filhos não são minha fraqueza, eles são a minha força. – O duque se levantou, e seguiu até a grande janela do escritório. – Se Sasuke hesitar, Mikoto o fará permanecer do lado certo. E se Itachi se desviar. – Ele virou o rosto, e fitou o mercenário de soslaio. – Kasumi o trará de volta.
— Mikoto vai odiá-lo quando descobrir sobre Kushina. – Obito murmurou com ressentimento. Ele odiava as ameaças de Fugaku, ainda que fossem implícitas.
O duque sabia perfeitamente que Mikoto o odiaria quando descobrisse tudo. E, francamente, temia esse momento.
Mas era tarde demais.
Com os olhos frios e pensativos, ele tornou a olhar janela a fora.
— Mikoto ficará ao meu lado, independente de tudo. – Ele afirmou. – Se ela vai ou não me odiar quando descobrir... – Baixou a cabeça. – Vamos descobrir logo.
Ele ouviu o barulho súbito de Obito levantando-se da cadeira. – Elas estão aqui?! – O mercenário parecia chocado com a conclusão. – Você as trouxe, mesmo sabendo o que pode acontecer na Torre?!
Fugaku tornou a virar o rosto na direção do mais jovem.
— Não se preocupe... Tanto Kasumi quanto Mikoto estão a salvo. Um homem da minha confiança foi enviado para buscá-las. Você já deve ir, Obito. – Ele adicionou quando viu frustração nos olhos do cunhado. – Quero que cuide de Danzou.
~
Karin havia perdido a mãe muito jovem. Devia ter cinco ou seis anos quando aconteceu, mas não importava quantos dias, meses e anos se passassem, a falta de Mai era crescente. Sempre crescente.
Ninguém nunca havia lhe dito como ela havia partido, mas Karin, na verdade, preferia não saber.
Às vezes, tinha pesadelos com isso. Pesadelos onde ela via a mãe ser morta. Em uns, Mai era esfaqueada por um homem mau. Em outros, ela era jogada de uma construção alta... E, às vezes, ela simplesmente caia morta.
Karin sempre pensou que as imagens daqueles sonhos – nunca esquecidas – deviam ser as piores cenas que já presenciara na vida.
Até agora.
Até ver Nagato se debatendo ao chão, num sofrimento silencioso. Ele fazia barulhos estranhos, como se sufocasse, e então, repentinamente parou.
E a vida de Karin parou naquele exato momento.
A boca de Nagato espumou, e os olhos lilás continuaram abertos, fixos em um ponto qualquer. Seu rosto havia perdido a cor e seus lábios, um tanto escondidos pela espuma, pareciam arroxeados.
— Não... – Ela murmurou. Sentia cada músculo de seu corpo tremer; seus olhos queimavam, seu peito doía... E tudo o que ela pôde fazer foi se aproximar, apavorada de medo. – Papai! – Ela gritou, agarrando o rosto de Nagato e tentando, de todas as formas, fazê-lo reagir. – Papai, acorde! – E foi diante dos gritos dela que o público à sua volta enfim soube que algo acontecia. – Papai... Papai! – Ela começou a chorar.
Um choro alto, angustiado.
Naruto continuou ali: agachado, chocado e paralisado. Ele sabia que devia tentar acalmar a prima, sabia que devia tirá-la de cima do corpo morto, mas simplesmente não conseguiu se mover.
Quando Yahiko finalmente conseguiu interpretar a cena, compreender a situação, foi como se o mundo sumisse abaixo de seus pés. Não pôde ouvir os murmúrios da platéia à sua volta, nem as exclamações preocupadas de Konan, que correu para consolar a sobrinha.
Momentaneamente, ele sentiu-se surdo. Por um segundo, foi como se ele nem estivesse ali, naquele mundo. Ficou surdo e anestesiado, e pelo que pareceu ser uma eternidade, não pôde sentir absolutamente nada.
Era como se a imagem de Nagato caído, com a boca espumando e os olhos lilás abertos de maneira mortal fosse completamente irreal.... Tão irreal quanto havia sido a imagem de Mai morta.
Uma onda de sentimentos invadiu o peito do mercenário.
Dor, ódio... Vingança.
Encarar o rei ali, parado, debilmente agachado ao lado do corpo de seu melhor amigo fez com que ele se lembrasse do melancólico e angustiante gosto do desejo de vingança, algo que não sentia há muito tempo.
Yahiko havia aprendido da pior forma que a vingança e o ódio não levavam ninguém a nada, mas de alguma forma, naquele momento, foi como se ele se esquecesse daquele fato. E, numa explosão de sentimentos, como se seu corpo se movesse sozinho, ele se aproximou do rei.
A rainha foi a única a notar aquela aproximação; a única a perceber que os olhos daquele homem ardiam de ódio. – Naruto! – Ela gritou, assustada ao concluir que ele seguia em direção ao rei, apavorada com a conclusão do que o mercenário pretendia fazer ao seu marido, mas Naruto não pôde ouvi-la.
Hinata viu o ruivo sacar a espada ocidental da bainha e instintivamente lançou-se sobre ele, sem se importar com as conseqüências, impedindo-o de alcançar os Uzumaki. – Não é você quem eu quero. – Yahiko murmurou com fúria; agarrou os longos cabelos azulados, chocando todos os que assistiam e, de uma maneira brutal, jogou-a sobre um dos vasos de decoração.
A porcelana se quebrou, e os cacos dela fincaram-se na pele branca da rainha. Naruto despertou imediatamente, e levantou-se num pulo. – Hinata! – Ele tentou correr ao seu auxílio, mas Yahiko não o permitiu alcançá-la.
— Vai se arrepender amargamente, moleque maldito! – O mercenário garantiu aos gritos, e Naruto percebeu mais do que ele próprio, Yahiko tremia. Demorou um segundo até que o rei percebesse que o mercenário o estava culpando.
— Mas eu...! Eu não...! – Mas antes que Naruto pudesse concluir seu pensamento, Yahiko o atacou, um golpe furioso com a espada que devia ter sete centímetros de largura; um ataque que seria extremamente efetivo, caso uma espada longa não o tivesse bloqueado.
— Meu assunto não é com você, Uchiha! – O ruivo praticamente rugiu à Sasuke.
— Lamentavelmente não posso dizer o mesmo. – Com a lâmina, Sasuke empurrou Yahiko e sua espada, e aproveitou-se da perturbação nos olhos do rival para colocar-se à frente de seu soberano, que imediatamente correu na direção da esposa ferida. – Devia se acalmar, senhor mercenário. – O Uchiha sugeriu, mais para tomar sua atenção do que qualquer outro motivo. – O seu amigo precisa ser tratado.
— Tratado?! Ele está morto! – Yahiko gritou. – Vocês o mataram... Eles o mataram! – E apontou culposamente na direção do casal real.
Hinata estava encolhida nos braços do marido, e com os olhos fechados, tentava não gemer de dor. Naruto não queria que Yahiko a encarasse, então sustentou seu olhar firmemente. – Por que você fez isso, garoto...? – O mercenário murmurou, agonizado com sua própria dor. – Por quê?! – Ele gritou, e ao mesmo instante, Karin gritou.
Um grito de pura sofreguidão, que o desarmou completamente.
Quando se virou para olhar a sobrinha, Yahiko viu-a encolhida nos braços de Konan, chorando como nunca havia chorado antes, triste e desesperada; ela gritava “não!” compulsivamente, como se seus gritos pudessem trazer o pai de volta à vida.
Sakura e Tsunade estavam em torno do príncipe falecido; ambas tinham os olhos tristonhos, e Yahiko soube que haviam concluído, e informado à Konan e Karin o óbvio: a morte do príncipe.
— Não toque nele! – O ruivo gritou à Tsunade quando a viu alisar as faces do sobrinho. Lentamente, os olhos cor de uísque da princesa se ergueram. – Não toque nele, sua vadia maldita! – Mas Sasuke o impediu de avançar sobre ela, acertando a lâmina em seu ombro.
O corte fez com que Yahiko sentisse seu ombro latejar; ele quase caiu de joelhos, mas resistiu. Àquela altura, todos os nobres ou estavam correndo, ou gritando, e os poucos guardas que estavam a postos tentavam segurar os malditos Akatsukis.
Sasuke perguntava-se por quanto tempo os soldados poderiam agüentar os mercenários.
— Machucando a rainha, culpando o rei, desprezando um Uchiha e insultando uma princesa... – Sasuke balançou a cabeça como se o repreendesse; ele sorria, mas estava uma pilha de nervos. – Eu realmente acho que devia respirar um pouco, senhor mercenário.
E, assim como imaginou, Yahiko lançou-se sobre ele.
Enquanto travava uma dura batalha de espadas com um mercenário que – o próprio Yahiko lhe dissera há algum tempo – devia ter o dobro de sua idade, tudo o que Sasuke conseguia pensar era em quanto tempo a guarda real agüentaria.
Quanto tempo demoraria, para que os reforços chegassem?!
E onde diabo Itachi estava em uma hora daquelas?!
~
Já fazia anos desde a última vez em que Itachi estivera naquela sala. Naquela terrível sala obscura, onde todos os que a freqüentavam eram obrigados a usar máscaras e prostrar-se diante de um homem que odiavam.
Itachi fixou os olhos negros sobre a máscara de doninha feita de porcelana que estava sobre suas mãos; a máscara que por anos havia sido a sua única identidade... O seu refúgio e a sua maldição.
Ele fechou os olhos e balançou a cabeça na inútil tentativa de tentar afastar os pensamentos perturbadores de sua mente, e finalmente vestiu-a.
Após dois toques na porta, adentrou ao lugar: era um cômodo grande, longo, mas um tanto estreito. Ao fim daquilo que mais parecia um corredor do que um quarto, um velho homem descansava, sentado à uma mesa de chá.
O ancião mais velho da nação do Fogo. O quarto conselheiro não oficial: Danzou Shimura.
Itachi caminhou firmemente, até alcançá-lo. O velho fundador da Anbu parecia ler algo com a ajuda da fraca luz de velas, mas não pareceu importar-se com a interrupção do jovem Uchiha.
— Doninha. – Itachi se curvou.
— Senhor.
— Francamente, eu estava começando a ficar irritado com a idéia de você não aparecer, rapaz. – Ajeitou-se na cadeira com um pouco de dificuldade. – Mas estou feliz, satisfeito em saber que ainda é fiel aos ideais de nossa organização.
— Tudo o que for melhor para Konoha, senhor.
Danzou sorriu.
— Tudo o que for melhor para Konoha. – Ele concordou. – Bem, sabemos quais são os seus motivos para estar aqui, garoto... – Itachi concordou. – Então, por favor, prossiga com o relatório.
— Não pude encontrar nenhuma prova concreta da traição de Fugaku Uchiha, senhor. – O rapaz lhe contou sem nenhuma hesitação na voz. – O tenho vigiado desde antes de minha nomeação: seus contatos e suas relações, e devo dizer que não pude identificar nada de incomum.
Danzou manteve-se em silêncio.
— Seja franco comigo, rapaz... – Itachi ergueu a cabeça. – Realmente acredita na inocência daquele homem? Realmente pensa que ele, ou Madara não tiveram absolutamente nenhuma relação com nenhum dos casos de traição à família real?
Francamente, Itachi não se sentia absolutamente confiável para afirmar aquilo. Por isso, manteve-se em silêncio.
— A aparição de Obito Uchiha só fez com que as minhas desconfianças sobre o duque aumentassem... – O líder Anbu confessou. – Você diz que tem vigiado as relações de Fugaku... Pois bem. Torune! – E bastou dizer para que um homem, mascarado com um tecido negro sobre o rosto, saísse de um cômodo fechado ligado ao local.
Itachi estreitou os olhos, confuso.
— Por favor, retire a máscara. – Ele comandou, e imediatamente, o homem fez.
O conselheiro não se surpreendeu nenhum pouco ao reconhecer um dos homens de confiança do pai. Na verdade, há muito suspeitara do fato de que Danzou não estava contente com um só espião. – Reconhece este homem, Itachi? – O velho o questionou.
— Sim. – O Uchiha anuiu. – Embora com outro nome... É um dos homens de confiança do duque.
— Exatamente. – Danzou levantou-se. – Mas mesmo entre os homens de sua confiança, o duque se mantém extremamente reservado.
Ninguém podia saber disso melhor do que Itachi.
— Essa tarde, o duque pediu algo estranho à Torune... Vamos, diga à Doninha o que lhe foi pedido pelo duque, rapaz.
— O duque pediu-me que buscasse a duquesa e a senhora Uchiha. Pediu que eu as trouxesse, e as acomodasse em um lugar seguro dentro da Torre. – Quase instintivamente, Itachi levantou-se. – Elas estão em aposentos próximos. – Torune prosseguiu no intuito de acalmá-lo, mas não foi o suficiente.
— Rendidas? – Itachi quis saber.
— Acomodadas. – Danzou garantiu. – Torune lhes disse que o duque está em uma reunião, e por isso não pode atendê-las. – Lentamente, a Doninha anuiu. – Mas estou lhes apresentando, Doninha, para demonstrar que, de fato, não está se esforçando o suficiente. Posso compreender os seus motivos, mas este homem...
— Eu já disse antes e repetirei, meu senhor: caso Fugaku Uchiha seja o traidor, eu mesmo cuidarei dele. – Mais uma vez, Itachi baixou a fronte.
— E o que me diz sobre Sasuke Uchiha?
Um silêncio incômodo tomou conta do cômodo por um longo segundo... E então, lentamente, os olhos de Itachi se ergueram frios e gélidos, tão ameaçadores que Danzou teve que se esforçar para manter a postura. – Responda. – Ele comandou.
— Sasuke Uchiha não tem absolutamente nenhuma relação com o traidor, seja ele quem for. – a Doninha garantiu com a voz firme e autoritária, como se aquela fosse uma verdade que Danzou aceitaria, mesmo que Itachi tivesse que obrigá-lo a isso.
O líder Anbu não o respondeu de imediato. Continuou parado, encarando fixamente o jovem mais amedrontador que já havia conhecido em toda sua longa vida, esforçando-se para continuar a sentir-se superior a ele.
E foi então que a porta se abriu. Repentinamente, sem cerimônias nem avisos prévios.
A luz do entardecer invadiu o cômodo longo, e Obito Uchiha não pôde deixar de sorrir ao ver os três Anbus reunidos. – Ora, ora... – Ele murmurou, parecendo muito divertido. – O seu pai vai ficar muito decepcionado com isso, rapaz.
.
Mikoto e Kasumi foram surpreendidas naquela tarde, quando um dos homens de Fugaku aparecera repentinamente à mansão Uchiha, dizendo-lhes com convicção que o duque requisitava a presença de ambas imediatamente, por um motivo importante que, lamentavelmente, o guarda não saberia explicar.
Mesmo que estranhassem, decidiram que o melhor seria acatar a ordem.
Como era de praxe em todas as visitas à Torre, as Uchiha vestiram-se com seus melhores trajes; com a ajuda das empregadas, ajeitaram seus cabelos e após Kasumi deixar a pequena Akane aos cuidados de sua ama, seguiram juntas à carruagem que as esperava.
Aquele mesmo homem as havia guiado. Ele não respondeu à nenhuma das perguntas feitas pela duquesa ou sua nora, e no fim das contas, a viagem se seguiu silenciosa e extremamente desconfortável.
Mais estranho do que o fato de serem repentinamente requisitadas por Fugaku, foi quando, ao chegarem à Torre, serem imediatamente guiadas a aposentos desconhecidos para “aguardar o duque, que estava em reunião”.
— Isso não faz nenhum sentido. – Mikoto murmurou para si mesma depois de minutos em agonia silenciosa, tomando a atenção da nora.
— Bem... Hoje é um dia importante, não? O rei e o príncipe vão assinar aquele acordo. Meu sogro realmente deve estar ocupado em uma hora dessas. – Kasumi especulou, embora também considerasse toda aquela situação bastante perturbadora. – Acha que algo pode estar acontecendo?
— Sinto que algo está acontecendo. – A duquesa se levantou, seguiu até a porta e certificou-se que estavam trancadas. – Viu só? – Ela apontou para a fechadura, furiosa. – Ele nos trancou!
Kasumi estreitou as sobrancelhas.
— Por que ele faria isso...?
— Bem, nós nunca vamos saber se continuarmos aqui. – Mikoto ajeitou as mangas do vestido e puxou um dos grampos que não desmancharia o penteado de seus cabelos. – Vamos tentar abrir essa coisa...
Mas sete minutos depois, nenhum clique da liberdade havia sido ouvido.
Kasumi suspirou longamente antes de levantar-se. – Talvez devêssemos ficar aqui, minha sogra. Alguma coisa séria pode estar acontecendo... Talvez meu sogro queira nos manter em segurança, e por isso nos trancou.
Mikoto franziu o cenho e encarou a nora como se Kasumi tivesse enlouquecido.
— E desde quando você sossega com motivos mal explicados?
A esposa de Itachi franziu os lábios e cruzou os braços. Observou a sogra tentar mais uma vez violar a fechadura e bufou irritadiça, aproximando-se com passos pesados e revoltados. – Vamos, dê-me isso! – Ela empurrou a duquesa, puxou o grampo de suas mãos e tirou outro de seus cabelos, soltando-os. – Se depender de suas habilidades de gatuna, duquesa, nós vamos ficar presas para sempre.
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Itachi quase não pôde se mover quando viu a imagem do tio em pé, disposto, sorridente e liberto adentrando a sala secreta – ou era o que se supunha ser até então – da Anbu.
— Torune. – Apenas a voz de Danzou fez com que o homem se pusesse em guarda, postando-se protetoramente à sua frente. Obito estreitou as sobrancelhas, mas parecia bastante divertido.
— Por favor, peguem leve comigo. – Ele pediu. – Há menos de vinte e quatro horas eu estava preso naquela carceragem terrível, sobrevivendo de mingau, pão e água. Vamos, Danzou! Tenha piedade. Você era tão simpático comigo, quando era mais jovem... – Lentamente, Obito retirou de uma bainha que pendia às suas costas uma longa espada que Itachi imediatamente reconheceu como uma herança Uchiha.
— Queria que eu fizesse parte dos seus capachos, não? Bem, pelo que ouvi, os seus servos lutam uns contra os outros até a morte para adentrar na organização... Vamos ver se eu passo no teste. – E olhou desafiadoramente para o tal Torune, que imediatamente lançou-se contra o mercenário.
Torune estava em grande desvantagem, uma vez que tudo o que tinha em suas mãos era um não muito curto punhal, que teria que usar em defesa e ataque. – Doninha! – Danzou exclamou à Itachi, que imediatamente lançou-se contra o tio.
— Ora! Pode chamá-lo de Itachi, Danzou. Por favor, todos nós sabemos quem ele é. – Obito tinha uma incrível habilidade de esquiva; era como se os golpes de Itachi o atravessassem, tamanha sua velocidade. – Estamos entre amigos, não? – A voz do Uchiha tornou-se mais alta. – Estamos a ponto de conhecer as entranhas um do outro, então o mínimo que podemos fazer é nos tratar por nossos nomes. Não é mesmo, Torune? – E no instante seguinte, Obito deu um corte limpo no pescoço do dito cujo, posteriormente atravessando a espada longa nas entranhas do homem.
Itachi tentou se aproveitar do momento para acertá-lo, mas mercenário usara o cadáver como escudo. Num movimento rápido, ele furtou o punhal do falecido, apenas para não precisar preocupar-se com a espada cravada no homem morto.
A luta de Itachi contra Obito mais parecia um demorado pega-pega. Eles corriam um do outro, se esquivavam e atacavam com uma simultaneidade surpreendente. Era quase como se dançassem.
— Por que está fazendo isso?! – Itachi questionou-o em meio aos ataques. – Por que diabos você está fazendo isso?! – Gritou furioso.
Obito estreitou os olhos.
— Por que eu estou fazendo isso...? – Ele riu, e seus ataques se tornaram mais fortes. – Estou nessa situação por sua culpa, garoto insolente! – Acertou o punho do punhal no rosto do sobrinho, que cambaleou. – Se não fosse por você, por seus estúpidos sentimentos, a minha filha seria livre! – Ele gritou furioso, e tentou perfurá-lo com a arma pequena.
Itachi caiu ao chão, e defendeu-se com os braços; conteve um gemido alto de dor ao sentir a lâmina afiada do punhal rasgá-lo. – Se você não fosse um completo imbecil, eu seria livre!... E nenhum de nós viveria nesse inferno! Você nem sabe, mas me condenou! Moleque maldito!
— Itachi! – O grito de Mikoto o paralisou.
Tudo o que aconteceu a seguir se passou em um minuto... Em um instante.
Obito e Itachi haviam erguido os olhos na direção da duquesa instintivamente, no instante em que escutaram o soar de sua voz.
Em um minuto ela estava em pé, pálida, chocada, olhando para os dois como se estivesse em enxergando a visão do inferno.
Danzou, aproveitando-se da hesitação do inimigo, completamente consciente dos sentimentos de Obito pela irmã e agora convicto sobre a traição de Fugaku, não hesitou: aproximou-se com uma velocidade surpreendente para alguém da sua idade; puxou uma adaga que escondia abaixo das ataduras do braço – que, naquele momento, nem de longe parecia quebrado – e simplesmente fincou-a certeiramente no coração da boa mulher que todos amavam.
Foi tão rápido que Mikoto nem soube o que a havia atingido.
Foi tão rápido que Obito e Itachi só puderam se dar conta do que acontecia quando viram o corpo da mulher que ambos amavam desabando violentamente contra o chão. E nenhum deles pôde reagir.
O sangue de Mikoto espalhou-se lentamente, gradativamente, e o silêncio tomou conta do lugar.
Nenhum os dois saberia dizer se Danzou havia proferido alguma palavra, porque realmente não conseguiam ouvir nada à sua volta, nem mesmo os passos de Kasumi que se apressava em alcançar a sogra.
Ela correu, mas bastou enxergar o sangue para que sua pressa sumisse. Continuou se aproximando, embora lentamente... E finalmente viu o corpo de Mikoto sob a poça de sangue.
E foi como se seu chão sumisse.
Como se o mundo sumisse.
Ela andou debilmente, chocada. Tentou alcançar o corpo da mulher, mas tremia, e desabou ao sentir as pernas falharem; foi só quando caiu ao chão que Danzou e Obito puderam perceber sua presença.
Itachi ainda estava paralisado com o choque, e tal como Kasumi, não conseguia tirar os olhos do corpo da mãe.
— Vejam só... Se não é a bastardinha Uchiha... – Danzou agachou-se, e abruptamente, sem cerimônias, retirou o punhal do peito de Mikoto. O corpo dela ergueu-se, e desabou, e aquele movimento fez com que lágrimas nascessem nos olhos do casal Uchiha.
O maldito limpou o sangue em suas vestes e lentamente, calmamente, aproximou-se da grávida. – Renda-se, Obito, ou essa garota... – Mas antes que ele pudesse alcançá-la, antes que sequer pudesse concluir o seu pensamento, Obito o alcançou: puxou-o pelo colarinho e, com violência, fê-lo desabar no chão, apenas para que pudesse espancá-lo com mais facilidade.
Nem Itachi nem Kasumi pareciam preocupados em observar. Nenhum deles parecia perceber absolutamente nada o que acontecia à sua volta, tamanha sua dor.
Lágrimas silenciosas banharam o rosto da senhora de Itachi, mas Kasumi sequer pôde se mover. Os lábios estavam trêmulos, entreabertos, mas ainda que quisesse gritar com todas as suas forças, não conseguiu expressar som algum.
Mikoto estava morta.
Sua mãe estava morta.
Sim... Porque Mikoto, de um jeito ou de outro era mãe de Kasumi. A única mãe que Kasumi um dia teve a oportunidade de ter. Mikoto a havia amado e cuidado... Havia a acolhido em sua família como se realmente fizesse parte dela. Amou-a e ensinou-a, tudo sem esperar absolutamente nada em troca.
A mulher que Kasumi mais amava na vida estava morta. Morta, diante de seus olhos, e não havia nada a se fazer para reverter isso.
E ao concluir esse fato, foi como se um raio a atravessasse.
Foi como se sua alma fosse arrancada do corpo, como se seu coração fosse arrancado de seu peito.
Ela quis gritar, mas não conseguiu. Sequer pôde encolher-se para chorar.
Continuou ali: parada, ajoelhada, olhando fixamente para a poça de sangue que a cada segundo parecia crescer mais.
Sua dor era tanta que ela sequer pôde perceber o sangue escorrer por suas pernas, manchando o seu vestido.
Sua alma doía tanto que ela sequer pôde sentir seu filho morrendo dentro dela.
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