The King
53 Suposta Morte e uma Falsa Coroação.
Notas iniciais
Capítulo 53 – Suposta Morte e uma Falsa Coroação.
Tsunade acordou no instante em que a luz alaranjada do crepúsculo incomodou os seus olhos. Suas pálpebras se estreitaram fracamente e, pouco a pouco, lentamente, sentiu-se despertar.
Seu corpo – assim como suas pálpebras – parecia pesar; se mover era difícil e incômodo. Ela sentia sua cabeça doer ligeiramente, e foi preciso muito esforço para sentar-se enquanto apoiava o peso de seu corpo em um dos braços – dolorido e estranhamente trêmulo.
Tentou buscar uma resposta, uma explicação enquanto observava seu redor, e logo percebeu não estar sozinha. De fato, encontrar Jiraya estirado à sua frente ou Hanabi Hyuuga, desmaiada a algumas mesas de distância, tão desacordados quanto ela própria estava há instantes fê-la compreender imediatamente: eles haviam sido drogados na noite anterior.
Drogados e deixados para trás.
Tsunade estava acostumada à teimosia de Naruto, mas sentiu-se chocada ao concluir que, mesmo após a discussão da noite passada, ele ainda se mantinha firme sobre a tola decisão que certamente custaria sua cabeça. Ainda mais chocada pelo fato de ele agir tão dissimuladamente, fingindo aceitar uma segunda discussão no dia seguinte!... Quando estava disposto a deixá-los para trás como se fossem pesos.
Naruto de fato havia decidido atacar a Torre. Atacar seus inimigos súbita e repentinamente, ignorando todos os conselhos e toda a experiência de seus avós. Ia atacar, mesmo estando completamente consciente de que não tinham condições para lidar com os protetores do palácio...
Livrar-se dos mais velhos e dos cautelosos evitaria uma segunda discussão. Certamente sua majestade pôde fazê-lo facilmente, tendo a ajuda daquela maluca Anbu aposentada. Mas se atacar a Torre com tão pouca gente a seu favor parecia uma ideia maluca à princesa, fazê-lo sem Jiraya – o mais forte e habilidoso de todos os que haviam se abrigado na pousada da Yakushi – era simplesmente insana.
– Alteza. – A voz masculina a fez erguer o rosto. Tsunade levou segundos até reconhecer o filho da Yakushi. – Finalmente despertou... – O moreno sorriu, parecendo aliviado.
– Onde ele está?... Por favor, diga-me que não fizeram nenhuma estupidez.
Mas o sorriso do filho de Nonou não foi muito otimista.
–... Aquele garoto idiota...
~
Quando seguiu pelos corredores, agindo de maneira discreta e cautelosa enquanto se escondia atrás do manto Akatsuki de Obito Uchiha e um chapéu de palha que furtara de um quarto qualquer, Itachi Uchiha sentiu como se pudesse enfim perceber o quão grande era a sua insignificância.
Porque não importava o tamanho de sua inteligência, nem o nível de suas experiências ou a quantidade delas: ele simplesmente não conseguia pensar em como deveria agir naquela situação. Justo agora, que realmente precisava fazer alguma coisa, não passava de um inútil.
“Faça o que é certo”, Obito o tinha dito.
Mas o que era realmente certo?
E como ele, justo ele, filho do traidor da nação do Fogo, poderia ser digno de julgar o que era ou deixava de ser certo?! Como poderia fazê-lo de maneira imparcial quando naquele mesmo instante seu irmão mais jovem era torturado, sua esposa estava presa e só Deus podia saber onde sua filha podia estar?... Sua cunhada, a quem de certa forma já tinha como irmã, estava física e psicologicamente ferida, e Itachi temia que sofresse da mesma desgraça que Kasumi.
Se ele, que era tão mais velho e maduro, que tinha sua doce Akane para consolá-lo, havia desejado a morte ao saber que seu filho jamais respiraria, o que seria de Sasuke, caso o mesmo acontecesse? Seu tolo e ingênuo irmão... Como reagiria a tamanha desgraça?
O conselheiro não queria pensar nisso, mas era simplesmente inevitável.
Faça o que é certo...
Não importava o quanto quisesse esquecê-las, o quanto quisesse ignorá-las, as palavras de Obito eram como uma tortura à mente do herdeiro dos Uchiha.
Faça o que é certo...
Mas o que era certo, afinal? Matar o Rei, seu soberano, pelo bem das pessoas que amava?... Itachi já sabia onde Naruto estava escondido. Ele sabia exatamente quem eram os homens que o guardavam e como chegar lá sem que ninguém se incomodasse com sua presença.
Não seria difícil matar um moribundo.
Tão fácil... Tão fácil...
Mal notou que seguia a caminho da ala dos criados.
Se matasse o Rei, sua esposa seria salva. Sua filha seria salva, assim como Sasuke e sua própria família, mas ainda assim...
Faça o que é certo...
Ninguém pareceu se importar em questionar o que um Akatsuki fazia perambulando pelo palácio. Depois de tanta confusão, Itachi pensou que talvez devesse ser algo que os criados já esperassem.
Aparentemente nenhum deles sabia que o amado soberano do país do Fogo estava acomodado em um porão, bem debaixo de seus narizes. Se soubessem... Se sequer suspeitassem...
Itachi franziu o cenho.
Não. Talvez ainda que soubessem nada teriam a fazer.
Ele não teve muito tempo para pensar nisso, uma vez que sua mente se esvaiu quando, ao alcançar o porão em questão, deparou-se com os corpos de dois homens caídos ao chão sob uma poça de sangue.
Surpreso, ele encarou a cena até conseguir absorvê-la, e então se agachou cautelosamente; ajeitou o corpo de um dos caídos – o do homem que ele reconheceu como um dos guardas de confiança de seu pai – e fez uma careta ao notar a perfuração mal feita, muito violenta em sua jugular.
Bem, aquilo explicava a poça nojenta.
Ele suspirou longamente antes de tornar a se erguer. Encarou a porta com uma estranha sensação no peito, mas decidiu que o melhor a se fazer era encarar o lugar, verificar com seus próprios olhos o significado da morte daqueles dois, embora já suspeitasse de uma ou duas possibilidades.
Ele não se surpreendeu nenhum pouco quando encontrou Shisui de costas para a porta, agachado no chão, perto da palha, provavelmente tentando fornecer algum suporte ao rei ferido.
O barulho da porta fê-lo virar-se quase imediatamente, e os olhos negros sorriram ao encontrar seu sério sobrinho.
– Bem... Eu não te esperava. – Ele admitiu, coçando o rosto com as costas de uma das mãos que Itachi notou estarem ensanguentadas. – Mas tão melhor que seja você. – Ele sorriu antes de voltar sua atenção ao Uzumaki. – Embora seja tão inútil quanto eu em técnicas medicinais.
–... Quem esperava?
Shisui simplesmente deu os ombros. Rasgou parte do uniforme sujo que vestia, da polícia militar, e com o tecido tentou estancar a maior das feridas de Naruto. O Rei urrou de dor diante o apertão, remexeu-se incomodado e ofegou.
– Eu estava na carceragem te procurando... Sabe, não é tão difícil andar por lá quando seu irmão é o manda chuva. – Shisui prosseguiu, tentando ignorar os ruídos do rapaz. – Acabei encontrando a Kasumi...
Ele falava baixo e pausadamente, o que fez Itachi perceber que toda sua atenção estava focada naquela medíocre tentativa de aliviar a dor do pobre rei sofredor, de tentar ajudá-lo de alguma maneira.
– Sabíamos que Obito iria atrás dela... – Ele prosseguiu.
– Espere. – Itachi o interrompeu. – Encontrou Kasumi e não a livrou?!
Foi incapaz de esconder a irritação em sua voz. Shisui fez uma careta.
– Foi a própria Kasumi que decidiu ficar. Se eu a livrasse, como poderia encontrar com Obito? – Ele virou o corpo parcialmente na direção do sobrinho. – Minha ideia era encontrá-lo antes, salvá-lo primeiro, mas o rei foi apunhalado e capturado... Kasumi estava lá, por isso pôde contar-me com detalhes. Ela disse que devíamos nos esforçar, e que o melhor a se fazer era tentar convencê-lo a fazer o que era certo... Nós concordamos que a prioridade deveria ser cuidar da família real, então...
– Concordamos? – A voz de Itachi soou mais alta do que o esperado. – E desde quando você e minha esposa conversam sobre estratégias?!
Droga. Sua cabeça estava começando a latejar.
Então o “Faça o que é certo” não pertencia à Obito, afinal de contas.
– Foi por isso que ele me soltou... – Murmurou, mais para si do que para o outro, que enfim começava a se colocar em pé.
– Nós dois sabemos que a sua esposa é tão corajosa quanto estúpida, o suficiente para se intrometer nesse tipo de assunto. – Ele cruzou os braços; ainda tinha os olhos voltados para o Uzumaki; sua mente trabalhava em busca de uma maneira de tirá-lo dali em segurança e em silêncio. – Não devia estar surpreso... – Ele murmurou antes de enfim virar-se na direção do conselheiro. – Irritou-se?
Itachi riu.
– Bem... Há cinco minutos eu estava me perguntando se matar esse garoto de uma vez por todas – Ele apontou para o loiro. – Não seria o certo a fazer para proteger a minha família, e acabo de descobrir que minha esposa, na realidade, está se mancomunando com rebeldes para salvá-lo.
Itachi cruzou os braços e lançou um olhar divertido ao tio.
– No entanto, ainda que eu decida prosseguir, creio que estou perdido. Fiquei preso por muito tempo, sinto-me debilitado... Meus músculos estão enferrujados. Se entrássemos em combate agora, você facilmente venceria.
Shisui estreitou os lábios de maneira duvidosa. Era difícil saber se Itachi realmente falava sério ou não, mas concluiu que aquilo não importava, desde que ele estivesse disposto a cooperar.
– Nós temos que levá-lo daqui. – Ele disse com um tom sério. – Há uma entrada para a passagem subterrânea do príncipe Nawaki na ala de serviços... No lugar onde as criadas lavam as roupas e tudo mais. – Cruzou os braços, pensativo. – Não dá para fazer isso sem chamar a atenção... – Refletiu. – Podem nos pegar...
Ele estreitou os olhos ao perceber que Naruto enfim havia se entregado à inconsciência. – Embora... – Franziu os lábios. – Talvez nem valha a pena. Talvez ele morra antes mesmo de alcançarmos a Yakushi.
Contrariando todos os pensamentos, reflexões e conclusões que havia tido sobre a vida ou morte de Naruto a menos de quinze minutos atrás, Itachi sentiu seu estômago contrair diante a possibilidade da morte do soberano da nação do Fogo.
Percebeu que estava com medo. Medo de que aquele garoto morresse, e ainda mais medo do que sua morte poderia desencadear. Não apenas entre as pessoas que Itachi amava, mas também – e talvez principalmente – para o reino.
Em um piscar de olhos Itachi conseguiu vislumbrar a tristeza das ruas vazias e cinzentas da cidade imperial, ainda mais miseráveis do que haviam sido após a morte de Kushina e Minato.
Ele não tinha dúvidas de que o governo de Karin, na realidade, seria o governo de Fugaku. E, consequentemente, o poder militar tomaria a nação. O conflito de ideias faria com que o Fogo quebrasse alianças com países burocráticos como Suna, a miséria tomaria conta do povo e, como consequência, a guerra ressurgiria...
A guerra civil, a guerra política.
Itachi sequer notou quando havia começado a se aproximar, mas de repente estava à frente de Naruto, agachando-se à sua altura e medindo seus batimentos cardíacos. Estavam rápidos, e embora não tão ritmados, pareciam persistentes.
– Ele está vivo. – Afirmou entre dentes, sentindo um alívio imenso. Tentou respirar fundo, conter seus pensamentos e suas reações... E caiu sentado. – Ele está vivo... – Repetiu como se quisesse convencer a si mesmo, fechou os olhos e suspirou antes de virar-se para o tio. – É melhor que ele esteja inconsciente quando sair daqui... Menos ruídos. – Explicou ao ver a expressão interrogativa no rosto do outro, que anuiu lentamente.
– Ainda assim... – Shisui suspirou. – Não vai ser nada discreto, sabe? Andar pela ala dos criados com o rei em uma de nossas costas. – Obrigou-se a observar.
– Não precisam vê-lo.
Itachi já estava tirando o manto quando falou. Com muito cuidado e um pouco de dificuldade, tentou vestir o Uzumaki. – Eu tive uma ideia. – Dizia durante o processo. – Mas tenho que ter certeza de que vão estar lá em baixo em trinta minutos, no máximo.
Shisui arqueou uma das sobrancelhas, desconfiado.
– O que pensa em fazer?
– Se o rei simplesmente sumir, vai ser muito óbvio onde procurar. Mesmo eu, que fui mantido em cativeiro por todo esse tempo, sei que há uma resistência se erguendo nas propriedades Hyuuga. Eles podem estar dando conta com a guarda real, mas se o Fugaku cogitar a possibilidade de Naruto estar lá... Não acho que vão suportar toda a força militar.
– O que você vai fazer, Itachi? – A voz de Shisui soou firme e autoritária.
O rumo de toda aquela conversinha definitivamente não o estava agradando.
Itachi hesitou por um instante, mas percebeu que teria ser sincero. Seus olhos tornaram-se sérios quando os ergueu na direção de seu tio e melhor amigo. – Eu vou tomar a responsabilidade pela morte do rei.
.
– Fugaku apunhalou o rei.
O conselheiro Uchiha afirmou categoricamente, sem rodeios.
– De fato, não estava lá quando aconteceu... Mas vi-o ferido, e ouvi testemunhas suficientes para afirmar. Naruto e meu irmão invadiram a torre em busca de justiça, suponho. Se não isso, ao menos esperavam conseguir recuperar a rainha.
Seus olhos estavam fixos nos da princesa, que estava sentada a sua frente, com apenas uma mesa os distanciando. – Imagino que o rei estava desesperado para agir tão precipitadamente... Eles foram descuidados, então não é de se surpreender que tenham sido encurralados... Especialmente quando não conheciam o inimigo.
Fugaku sentiu o estômago contrair diante aquela clara alfinetada. O filho sequer havia feito menção de olhar em sua direção, mas sua insinuação foi tão óbvia que o duque pôde sentir os olhos desconfiados de Yahiko cravados em seu rosto.
Ele tentou não deixar que seu incômodo transparecesse. Tal como o próprio Yahiko, estava ao lado da princesa Karin; Itachi se sentiu nauseado ao perceber que o homem mantinha a mesma postura falsa que havia exibido diante de Naruto enquanto ainda príncipe.
O conselheiro tentou não focar sua atenção no pai, porque Fugaku não era o seu objetivo. Ele devia estar atento às reações da garota ruiva à sua frente antes de qualquer coisa. Mais do que Yahiko, sabia que tinha que convencê-la.
Karin sem dúvidas era um alvo muito mais fácil do que os tios mercenários. Se ela realmente aceitasse, se realmente acreditasse em sua história, Itachi sabia que iria incitá-los a fazer o mesmo.
– Eu pensei... Pensei que gostasse dele... – Ela balbuciou lentamente.
Desde que recebera a notícia da morte do primo, poucas horas antes, sentia-se confusa, perdida e extremamente perplexa.
Embora Yahiko e Fugaku de fato houvessem dado-lhe a notícia da maneira mais cautelosa que poderiam ter feito diante todo o rebuliço da situação, era simplesmente inconcebível aceitar... Compreender o fato de que Itachi Uchiha era o culpado da morte de Naruto Uzumaki.
–... Gostava dele... – Itachi murmurou com hesitação. Sentindo-se incomodado com a reação da Uzumaki. – Tudo o que fiz, vossa alteza, foi acabar com a dor de um rapaz que deu tudo de si para tentar se encaixar em um lugar que, embora lhe pertencesse, não o cabia.
Levou um segundo para que Karin pudesse absorver aquela frase, e se sentiu bastante perturbada com a empatia imediata que ela havia lhe causado.
Ela pensou em Naruto e Hinata... Rei e Rainha da nação do Fogo.
Tão jovens, tão ingênuos, tão confusos e perdidos...
Como ela.
Obrigou-se a controlar ao choro; piscou rápido para segurar as lágrimas e tentou conter seus sentimentos, pensando ser uma grande estúpida por sentir-se fraca em uma situação tão delicada.
O assassino de seu pai estava morto!... Supunha-se que devia sentir paz diante de tal fato. Mas ao invés da calmaria no coração, a ruiva tinha todos os seus membros tremulando irritantemente.
Naruto estava morto.
Havia morrido justamente pelas mãos de seu conselheiro mais próximo.
Por pena...? Por piedade? Eram respostas plausíveis, ela pensou. Mas ainda que fizessem sentido, Karin não conseguia compreender.
Será que aquelas pessoas não conheciam o significado da palavra “lealdade”?...
Itachi definitivamente não havia gostado daquela expressão.
Karin parecia chocada, descrente. Ainda mais do que Fugaku havia se mostrado após sua mentirosa confissão, e o conselheiro percebeu que isso não podia ser bom.
Esperava que, de alguma forma, sua declaração fizesse com que a filha de Nagato pudesse encontrar fidelidade em seu ato de traição, mas Karin parecia incapaz de compreender seus motivos.
Ela estava pálida, perplexa. Embora parecesse olhar na direção do rosto do conselheiro, seus orbes estavam nublados, perdidos no horizonte.
Permaneceu em silencio por um instante que pareceu eterno, e então levou seus olhos até Fugaku, na esperança de que ele fizesse qualquer pergunta que ela, com seus meros dezessete anos, podia não ter pensado.
O duque havia permanecido em silêncio, mas se aprumou quando ela levou o mesmo olhar na direção do tio.
– Seu pai apunhalou o rei, você diz. – O ruivo cruzou os braços e lançou um olhar sério na direção do mais jovem. – Se é verdade, eu creio que o duque esteja em apuros, conselheiro Uchiha.
Ele levou os olhos castanhos até o mencionado, mas Fugaku manteve sua irritante e constante postura de imponência. – Devo perguntá-lo em voz alta? – Yahiko questionou-o com um tom ligeiramente divertido. – Certo... – Sorriu. – Por que mentiu para nós, milord? Talvez tivesse alguma intenção?
– Pretendia dizê-los. – Fugaku afirmou calmamente, mentindo descaradamente.
– Ele tinha intenções. – Itachi o contradisse imediatamente, sem se importar com o severo olhar que o pai o direcionou. – Queria que um de nós fizesse o serviço. – Ele explicou. – Sasuke, para ser mais exato. Esperava que, matando Naruto, conseguíssemos a confiança da princesa de da Akatsuki.
Os olhos de Karin se estreitaram. Ela parecia... Triste?
– Meu irmão jamais faria algo assim. – Itachi garantiu; os olhos sérios fixos à ruiva Uzumaki.
– Mas que situação! – Yahiko não pôde segurar uma risada. – Então temos um pai mentiroso e um irmão traidor.
Sentiu-se inexplicavelmente satisfeito com o desconserto do duque de gelo. Seus olhos negros exalavam frustração, e foi agradabilíssimo enxergar uma brecha naquela armadura de impotência.
– O meu irmão não é um traidor. – Itachi garantiu suavemente, quase frio, e tomou a atenção do Akatsuki. – O duque é. – Ele ergueu os orbes negros frustradoramente tranqüilos até Yahiko, que espremeu os lábios.
A capacidade de contrariá-lo certamente era um dom da família Uchiha.
– Eu mesmo sou. – Itachi prosseguiu. – Mas Sasuke? Ele é o homem mais leal que qualquer um de vocês um dia vai sonhar em encontrar.
– Não há lealdade por um rei morto. – Fugaku enfim se pronunciou.
– De verdade? – Pela primeira vez, Itachi levou sua atenção ao pai. – Pois supus que pregava isso, milord, ao afirmar que a lealdade pela princesa, tal como por seu pai, dava-se ao respeito e à admiração que sentia pelo falecido príncipe herdeiro.
– Chega.
A voz de Karin soou baixa, quase um murmúrio. E embora não contivesse nem um traço de autoridade, todos se calaram.
Sentia-se tão cansada... Tão cansada, tão dolorida e – por algum motivo que a mesma desconhecia – profundamente decepcionada. Depois de tomar coragem ergueu os olhos vazios até o conselheiro de Naruto.
– Por quê?
Era tudo o que ela queria saber... Mais que isso: sentia que precisava saber.
– Por que o matou...? – Seus olhos se estreitaram. – Ele era o seu rei, não? O rei de seu irmão, o de sua esposa... Eu sei disso. Sei de tudo isso. Sei que sua família inteira, pelo Naruto...
Sua voz sumiu na garganta, e repentinamente Karin sentiu como se pudesse sufocar.
Não se tratava só dos Uchihas, na verdade.
Sabia que a maior parte da população da cidade imperial não a aceitaria como sucessora do primo com facilidade. E embora ainda não tivesse recebido resposta a nenhuma das cartas que informavam aos países aliados sobre a atual situação da nação do Fogo, temia suas reações.
Um lugar que lhe pertencia, mas não lhe cabia.
Ela apertou os punhos e franziu os lábios.
– Se sua família é fiel ao meu primo, Itachi... Por quê? – Tentou manter sua voz firme, mas ouviu-se tremular.
– Sou diferente do Sasuke. – O conselheiro afirmou. – Sou o filho mais velho, alteza... Sempre tive mais responsabilidades que meu irmão. Os meus laços com o falecido rei baseavam-se em respeito... Talvez esperança.
Ele tentou ser o mais sincero possível.
– Sei que Sasuke ama nossa família. Sei que ele morreria e mataria por qualquer membro da Uchiha, mas é diferente para nós dois... – Um suspiro cansado escapou de seus lábios. – Para o meu irmão, Naruto é parte da família. Ele jamais seria capaz de machucá-lo... Nunca faria qualquer coisa que pudesse prejudicá-lo.
Fugaku realmente se sentiu mal.
Sua mente retornou dez anos antes e ele lembrou-se de Mikoto e Sasuke juntos, desolados e desconsolados no funeral da família real.
– Sasuke daria a vida por Naruto... – Itachi murmurou em tom reflexivo, então ergueu o rosto e encarou à princesa com os olhos sinceros. – Eu não vou deixar o meu irmão morrer por ninguém.
~
Ficar presa no meio de um bando de homens desconhecidos definitivamente não era a melhor situação em que Kasumi Uchiha já havia sido exposta. Então, cair no sono certamente fora algo acidental, talvez o resultado de sua extrema exaustão aliada à insistente febre.
Despertou quando o barulho das grades se abrindo foi ouvido.
Embora ainda se sentisse cansada, abrira os olhos imediatamente, em estado de alerta. Kasumi estava desperta o suficiente para ver Obito adentrar à sua cela sem hesitação nenhuma, ignorando completamente os olhares intimidadores dos demais prisioneiros, mas não o bastante para reagir às bruscas ações do mercenário.
Ele não foi exatamente gentil quando a ergueu pelos antebraços, e ainda menos ao arrancá-la para fora de sua cela.
Kasumi foi arrastada aos tropeços por a carceragem, e foi capaz de reconhecer o caminho de volta à Torre. De vez em quando Obito cuspia uma ou outra ordem para qualquer guarda que estivesse em seu caminho, mas não lhe ofereceu sequer uma palavra.
Ele esta nervoso, tenso. E Kasumi se sentiu inquieta por isso.
Talvez tivesse conseguido...?! Talvez pudessem tê-lo salvo...!
– O que houve?
Sua pergunta foi um sussurro muito ansioso, que fez com que Obito se sentisse extremamente irritado. Kasumi notou sua mandíbula enrijecer.
– O duque ordenou que fosse liberta.
Ele explicou simples e puramente.
A senhora Uchiha estreitou os olhos, claramente confusa. Embora quisesse parar e perguntar que raios haviam acontecido para que, ao invés de sentenciá-la à morte por suas atitudes, Fugaku lhe concedesse a liberdade, Kasumi se manteve em silêncio.
Eles pararam em uma ala que a morena não conhecia, e Obito logo sacou seu molho de chaves infinitas para abrir a porta grande e velha do que ela imaginou ser a sua nova prisão de luxo.
Sentiu-se ligeiramente apática ao encarar aquele molho de chaves e perceber... Finalmente perceber que Obito Uchiha tinha o poder da liberdade e o da restrição, certamente concedidos por Fugaku.
Kasumi sentiu-se a mais ingênua das tolas quando compreendeu que o duque jamais o concederia tal poder, caso não lhe tivesse plena confiança.
–... Não o salvou, salvou? – Ela teve que perguntar, embora já soubesse a resposta. Sentia seus olhos queimarem e pela primeira vez em muito tempo, não se importou em conter ou esconder suas lágrimas.
– Disse-me “faça o que é certo” – Ele a lembrou com a voz contida; vendo que a filha não prosseguiria, envolveu sua cintura com cuidado e a guiou quarto adentro. – O que é certo, Kasumi?... O que é realmente justo? Queria salvá-lo para que o trono continuasse nas mãos daquele garoto, mas chegou a pensar no significado disso?
– É claro que pensei. – Foi ríspida ao afirmar. Sua voz tremeu. De mágoa, de culpa, de raiva. Como ela podia ter sido tão estúpida?!... Estúpida a ponto de esperar algo de um mercenário, um assassino!
Eles pararam no meio do aposento.
– Aquele garoto podia ser jovem e imaturo, mas tem um bom coração!
Os olhos castanhos encararam os negros, raivosos e frustrados.
– Ele tem uma alma justa e potencial para liderar a nação! Eu não pedi para salvar um garoto, senhor Uchiha. – Obito estreitou os olhos. – O pedi para salvar a esperança de toda uma nação!
O mercenário forçou-se a rir.
– “A esperança de uma nação”... Já pensou que aquela menina pode ser uma rainha melhor do que ele? Karin não é uma vilã, Kasumi. É tão vítima das circunstâncias quanto qualquer Uzumaki.
Os lábios da Uchiha se estreitaram.
– Salvar aquele rapaz é o mesmo que matar aquela garota. Sabe disso, não é?
Sem esperar uma resposta, Obito retornou seu caminho, puxando-a durante o processo.
– Se ele estivesse vivo, se ele fugisse...
Kasumi sentiu sua garganta fechar.
Se estivesse vivo?...
– Consegue imaginar as consequências disso? Uma guerra ia estourar, Kasumi. Uzumaki contra Uzumaki, civis contra soldados, feudais contra servos, ricos contra pobres. Não é difícil imaginar um vencedor.
– O que está tentando me dizer? – Ela apertou os punhos. – Que eu devo cruzar os meus braços e observar o seu mestre – Esboçou repulsa ao dizer. – Manipular a todos? Simplesmente porque gosta de ter poder?!
Obito cessou os passos mais uma vez, mas não a honrou com um olhar.
– Veja. – Com a cabeça, ele apontou para uma direção. E embora Kasumi realmente não estivesse disposta a fazer nada que ele dizia, seguiu seu olhar.
Ela viu Sakura deitada sobre uma cama, encolhida, aparentemente adormecida. Shizune estava ao seu lado e tratava de suas feridas com tanta preocupação que sequer pôde notá-los parados lá. Kasumi sabia que aquelas feridas haviam sido feitas por um Fugaku furioso, possivelmente impulsionado pela raiva que as duas tinham-no feito passar, e isso a fez se sentir terrível.
Ela devia estar ali, não Sakura.
Sentiu seu coração despedaçar-se ao enxergar o vestido que a cunhada havia usado durante quase metade da última semana que haviam passado juntas; ele estava caído ao chão, tão sujo e ensangüentado que mais parecia o remendo velho de uma ferida mal cuidada.
– Essa garota não nasceu Uchiha. – Obito falou lentamente. – Ela sequer nasceu nestas terras... E ainda assim foi arrastada para essa sandice, vítima da guerra de um país que sequer pertence.
Demorou um segundo para que ela pudesse respondê-lo.
– Está tentando fazer com que eu me sinta culpada?... Por que não vai dar certo.
Os lábios do mercenário se estreitaram; ele a olhou de soslaio.
– Sakura é uma Uchiha agora. – Kasumi o lembrou. – Pode ser um peso, mas Sasuke jamais a aceitaria como sua esposa se não soubesse que ela poderia carregá-lo.
– Sasuke! – Obito bufou. – Que sabe Sasuke Uchiha?! – Sua voz soou alto o suficiente para despertar a assustada nova Uchiha. – Um garoto tolo e mimado! Que vive de ideais. Sabe qual a única diferença entre você e ela, Kasumi?!
Ele soava furioso.
– Existem pessoas dispostas a sujar as mãos pela sua vida!
– Eu pareço querer isso?! – Ela exclamou em resposta, tão bruta quanto ele havia sido. – Que alguém suje as mãos por mim?!... Para que vou querer isso? Para viver o resto dos meus dias fingindo que o mundo é belo enquanto fico trancada num quartinho com papéis de paredes floridos?!
– Pelo amor de Deus, você tem uma filha! Não consegue ser minimamente sensata?! Uma guerra está acontecendo aqui, Kasumi. Nesse lugar, dentro dessas paredes. Uma guerra mais velha do que você, mais velha do que eu e muito maior do que nós dois. Pensa que Fugaku é o único por trás disso?!... Pensa que ele é o único a desejar a queda dos Uzumaki?! Ninguém faz nada sozinho, menina. Ninguém.
– Não teria passado o dia na carceragem se não soubesse disso.
Ele apertou os punhos. Aquela mulher era simplesmente impossível!
– Pode falar o que quiser, pode atuar como uma rebelde revoltada. Mas não importa o que tenha que fazer, eu não vou permitir que a minha filha – Ele apontou na direção de Sakura, mas não tirou os olhos dos de Kasumi. – Fique naquele estado.
– Graças a Deus eu não sou sua filha.
Um silêncio ensurdecedor se fez após aquela afirmação. Kasumi havia soado tão fria, tão dura e direta que Obito quase pôde vislumbrar o intocável Madara à sua frente. Por um instante longo demais, ele sequer conseguiu piscar.
Estreitou os lábios ligeiramente e engoliu em seco, amargando aquela frase cruel, que fez seu coração sangrar.
– Graças a Deus. – Concordou.
A Uchiha não se preocupou em sustentar seu olhar. De fato, apressou-se em livrar-se dele, desviando os olhos castanhos na direção da cunhada, que agora escondia seu corpo e sua cabeça abaixo de uma manta.
– O rei está morto.
Obito finalmente afirmou. Lentamente, num tom que apenas a filha poderia ouvir. Kasumi apertou a saia do vestido e prendeu a respiração, tentando inutilmente controlar a raiva. Embora já suspeitasse disso desde o início daquela discussão, ter a confirmação fez com que seu coração latejasse.
Pobre Naruto...
Pobre Hinata.
– Seu dever é cuidar da senhora Uchiha. O duque decidiu isso.
Ela bufou. Como se precisassem mandá-la cuidar de Sakura!...
– Quando se certificar de que tudo está certo com Sakura, um guarda vai acompanhá-las até os aposentos de Sasuke. – Olhou-a de canto. – Dará a notícia da morte do rei ao seu cunhado.
Ela anuiu lentamente, mas não tirou os olhos da rosada.
Obito passou apenas mais um minuto ali, parado, olhando fixamente para a imagem de sua tensa filha, que embora apertasse as saias do vestido com força e tremesse ligeiramente, ainda tentava manter sua postura firme.
Ele baixou a fronte numa educada despedida e deixou o quarto sem dizer mais nenhuma palavra.
Kasumi permaneceu imóvel por mais tempo do que havia planejado. Embora seus olhos estivessem grudados no rosto de Sakura, a Uchiha imaginou que a cunhada não a enxergava realmente.
Suas vistas estavam embaçadas pelas lágrimas, e teve que piscar três vezes antes de focalizar os olhos verdes da esposa de Sasuke.
Sakura enrubesceu de imediato, e encolheu-se ainda mais abaixo da manta, envergonhada demais para deixar-se ser vista. Mas Kasumi não hesitou quando decidiu se aproximar.
– Senhora Uchiha. – A voz de Shizune soou como um aviso, que foi prontamente ignorado.
– Deixe-me ver. – Kasumi pediu gentilmente, embora sua voz carregasse a autoridade de uma irmã mais velha, enquanto se sentava ao lado da rosada. Sakura lhe lançou um sorriso tristonho, mas não fez menção em mover a manta.
– Eu estou bem, Kasumi-san. Só um pouco cansada...
Era uma mentira deslavada e ambas sabiam disso. Portanto, Sakura não se surpreendeu realmente quando a esposa de Itachi, sem se importar com sua clara timidez, afastou o tecido de sua cabeça. Os olhos castanhos se estreitaram ao enxergar os ralos cabelos róseos que a antiga senhorita Haruno, muito envergonhada, tentou esconder com as mãos enquanto fingia alisá-los.
– Está tudo bem... – Ela voltou a afirmar, forçando uma risada que soou dolorosamente esganiçada. – Ele não fez... – Forçou-se a controlar a respiração. – Ele só... – Mas calou-se ao sentir-se sufocar.
Sua mente foi tomada pelas memórias horríveis das poucas horas que havia passado trancada naquele cubículo, com Fugaku e mais três ou quatro desconhecidos que pareciam se divertir enquanto a apertavam, machucavam e humilhavam.
Ela não pôde se mover... Não pôde respirar. Não pôde sequer chorar.
Kasumi pousou as mãos sobre o rosto pálido da cunhada, que pareceu despertar como se tivesse levado um choque; olhou-a com os olhos verdes ligeiramente arregalados, assustados.
– Você se esforçou, não é?... – A Uchiha murmurou docemente; os olhos castanhos brilhavam com lágrimas contidas. – Nós nos esforçamos, Sakura... Tudo pode ter dado errado, mas lutamos pelo certo.
Demorou apenas um instante para que a antiga senhorita Haruno pudesse compreender o tom triste e consolador da outra.
– Naruto...
Seu peito latejou com a possibilidade.
– Sasuke ficará orgulhoso de você. – A morena a interrompeu com a voz suave, mas Sakura notou que havia desconversado propositalmente. – Eu também estou...
~
Obito ainda se sentia desconsertado.
Quase uma hora havia se passado desde que deixara Kasumi, mas suas palavras, tão duras e cruéis, ecoavam na mente do mercenário de maneira tão torturante que era como se ela ainda estivesse ali, ao seu lado, sussurrando...
“Graças a Deus eu não sou sua filha”.
Obito sempre considerou Kasumi muito mais parecida com Rin do que consigo mesmo. Quando menina, sua pequena era dada a sorrisos doces e fáceis, e mais dava do que pedia atenção. Sempre estava disposta a ajudar, fosse preparando o chá ou fazendo um curativo muito mal feito para o arranhão no braço de seu adorado pai.
Durante aqueles belos anos, que Obito de repente percebeu serem os mais coloridos e bonitos de sua vida, sua menininha havia sido uma criança agitada e feliz, que gostava de dançar, cantarolar e se agarrar em seu pescoço...
Que gostava de ser sua filha, mesmo que ele fosse um mercenário.
Pela primeira vez na vida, o mercenário percebeu que não tinha esperanças para seguir em frente. Motivos, sim. Mas não esperanças.
A quem ele tentava enganar, afinal? Não importava quantas vezes jurasse a si mesmo que tudo o que importava era a vida, a segurança e o bem estar de sua filha, a verdade é que ele sentia falta dela...
De seu calor, de seu amor. Queria sua filha de volta.
Ele era um Uchiha, afinal... E Uchihas são egoístas.
– Ah!
A tímida exclamação feminina fê-lo despertar de seus devaneios.
Obito, que até então se encontrava deitado, estirado no divã de uma saleta qualquer da ala dos conselheiros – pois se sentia cansado demais para seguir ao seu próprio quarto – sentou-se imediatamente, e franziu o cenho ao notar a princesa em pé, muito constrangida, apertando a saia do enorme vestido cor-de-rosa.
– Karin?!
Ela levou um segundo para reconhecê-lo limpo e sem a máscara. Percebeu que ele devia estar muito cansado, pois ninguém – com exceção dos tios – a chamava por seu nome de batismo há semanas.
– Oh... Perdão, Tobi. – Ela sorriu constrangida, ajeitando os óculos. – Eu sinto muito se interrompi seu sono... – Franzindo o cenho, pressionou suas têmporas. – Só estava procurando um lugar calmo para pensar...
Karin tinha um aspecto exausto, e Obito chegou a penar-se da garota...
A nova marionete de Fugaku.
O pensamento fê-lo estreitar os olhos e sentir-se extremamente incomodado, porque Karin era uma boa menina. Diferente dele, não tinha sangue nas mãos, portanto, considerava lamentável que seu destino fosse tão semelhante ao seu.
De fato, aquela pobre garota devia ter muito a se pensar... Devia estar cansada, confusa e triste, uma vez que mal tivera oportunidade para chorar a morte de Nagato.
Suspirando, o dito Tobi colocou-se de pé.
– Certo. – Ele sorriu à ruiva. – Já que me descobriu, creio que eu deva ir.
O dia de Obito havia sido insuportavelmente longo, e tudo o que ele desejava no instante em que começou a andar era alcançar seu quarto o mais rápido possível, jogar-se na cama – ou no sofá, o que estivesse mais perto – e esperar que a sonolência o consumisse a ponto de levá-lo para um mundo melhor... Um mundo onde talvez ele tivesse suas esperanças renovadas, onde talvez sua filha o amasse.
Mas ele parou antes mesmo de chegar à porta.
Virou-se de soslaio, e com as sobrancelhas estreitas e um rosto genuinamente confuso, olhou para o próprio pulso, que a ruiva segurava firmemente. O silêncio que se fez foi longo e irritante, e o mercenário percebeu que, se não dissesse nada, ela continuaria ali, parada e firmemente agarrada à ele.
– Algum problema, princesa? – Ele tentou soar gentil, mas foi inevitável evitar o tom de irritação. – Precisa de alguma coisa?
Karin prendeu a respiração. Francamente, não estava muito certa de que o que estava prestes a pedir era certo ou errado, mas sentia ser correto... Justo.
– Eu quero que me leve até a rainha.
~
Sasuke despertou aos poucos, tranquilamente... Naturalmente.
O cheiro dos livros foi a primeira coisa que sentiu, seguido pelo cheiro da madeira polida. Mesmo antes de abrir os olhos, ainda que a cama parecesse muito mais confortável do que jamais tinha sido antes, ele sabia estar em seu quarto.
Por um instante, pensou que tudo não havia passado de um sonho... Um maldito pesadelo que ele esperava esquecer antes que o almoço fosse servido.
Mas bastou arriscar um movimento para perceber que a queimadura feita por ferro quente em seu ombro ainda estava lá. Ele gemeu de dor, encolheu-se e abriu os olhos abruptamente. Tentou conter a respiração dificultosa, como se pudesse controlar sua dor ao fazê-lo, mas sua concentração falhou miseravelmente quando encontrou o irmão sentado em uma das cadeiras que Sasuke e Naruto costumavam usar para jogar xadrez, em frente à sua cama.
Itachi estava banhado e bem vestido. E embora desejasse ser otimista, Sasuke não pôde pensar em como aquilo poderia ser bom.
– Parece que já acordou... – Lhe ofereceu um sorriso triste, que fez com que o irmão mais jovem tivesse ainda mais convicção de que algo sério ocorrera. – E como está o seu ombro...? Sua perna?
– Dolorido. Quebrada... Respectivamente. – Sasuke não tentou soar paciente. – E porque você está aqui? – Não conseguiu evitar o tom de desconfiança. – Por que está assim...? – Com a cabeça, ele apontou para os trajes do irmão. – O que houve?
A dor sempre o fazia sentir-se impaciente.
Itachi, no entanto, pareceu incapaz de respondê-lo. Na verdade, Sasuke percebeu que o irmão parecia perturbado... Remexia-se na cadeira e olhava para a porta periodicamente, como se algo o incomodasse.
– Eu realmente não estou gostando da sua expressão. – Sasuke observou, estreitando os lábios. – Por que está livre...? Por que está vestido assim?!
–... Eu vou ao velório da mãe... Mas prefiro falar com você antes.
A sobrancelha negra do mais jovem se arqueou. Itachi olhou mais uma vez para a porta, estreitou os olhos, apertou os punhos e baixou a fronte; seu semblante era sombrio... Frustrado.
– Fugaku pensa que o melhor é me manter a cem metros de distância de você, mas... – Ele fixou os olhos negros nos do irmão. – Não tem muito sentido, não é? Já que tudo o que eu fiz foi pro seu bem.
Ser inteligente, Sasuke pensou, podia ser uma grande maldição... Por que ele sequer precisou se esforçar para entender o que seu irmão queria dizer.
Ele tentou abrir a boca; tentou verbalizar uma questão... Qualquer questão, mas não conseguiu se mexer.
–... Obito livrou-me da prisão... – Itachi riu, mas parecia irritado. – Veio até mim dizendo “faça o que é certo”, como se eu fosse o homem mais justo do mundo... – Ele balançou a cabeça em negação. – Mas o que eu podia fazer...? Quando toda a minha família é vítima desse inferno...
– Eu vou te matar!
Foi a primeira coisa que Sasuke conseguiu dizer. Ele tentou se levantar; queria lançar-se sobre o irmão como uma fera, mas o movimento brusco na perna quebrada fê-lo encolher-se de dor e parar de respirar.
– Sasuke!...
– Isso não pode estar acontecendo... – Sasuke balbuciou no instante em que o irmão havia se levantado para acudi-lo. Ele riu, embora quisesse chorar. – Não pode!... Simplesmente não pode!
Apertou os punhos e sufocou um grito. Encarou Itachi com os olhos arregalados, claramente perturbados. – Como você pôde...?! Como pôde fazer isso?!... Com o país... Comigo...
Sasuke sentiu seus olhos queimarem insuportavelmente; seu corpo inteiro vibrava, e seu estômago revirava rápido, tão rápido que ele sentiu que podia desmaiar a qualquer momento.
Aquilo era um pesadelo... Tinha que ser.
– Sasuke...
– Não me toque! – Sasuke gritou, e recuou o toque do irmão. – Como você foi capaz, Itachi?!... Ele era bom! – Estreitou os olhos. – Era justo, era bondoso... Ele era meu irmão! – Gritou com toda a força de seus pulmões.
E Itachi sentiu-se profundamente ferido.
–... Eu sou seu irmão... – Lembrou-o num murmúrio dolorido. – Como ousa se comportar assim...? Como ousa falar assim comigo, cobrar-me algo quando, ao saber da morte do meu filho, sentiu-se aliviado?!
Sasuke estreitou os olhos, desacreditado.
– Sim, aliviado. Porque assim poderia salvar sua esposa e filho. É o mesmo comigo, não percebe...? Eu faria de tudo para protegê-lo. Você, Akane e Kasumi são tudo o que me sobrou, e não vou permitir que nenhum de vocês...
Ele apertou os punhos e praguejou.
Encarou a porta e amaldiçoou mentalmente o maldito Yahiko, que certamente tinha os ouvidos colados lá.
– Matou seu rei, Itachi!... O nosso Rei! O meu melhor amigo!
E naquele instante, sem reservas nem hesitação, Yahiko abriu a porta.
– Como pôde fazer isso?!... – Sasuke prosseguiu, completamente alheio à recente presença das senhoras Uchiha. – Como?!... E por quê?!
Embora Yahiko já não estivesse entre a porta e as Uchiha, nem Kasumi nem Sakura moveram o pé do lugar.
Sasuke continuava a gritar. Ele estava desesperado, perdido e suas exclamações culposas eram completamente sem sentido. Seus gritos pareciam ser a única porta para extravasar sua raiva, sua frustração... Sua decepção. E Sakura não pôde conter o próprio corpo quando notou a dor do amado.
Sasuke não chegou a chorar, embora desejasse muito, mas sua voz soava esganiçada, agonizada, cheia de sofreguidão. Só pôde de fato notar a presença da esposa quando Sakura lançou-se sobre seu tronco, abraçando-o.
– Sasuke-kun... – Ela choramingou, e sentiu-o retribuir o abraço com tanta força que quase perdeu o ar. Sasuke ofegava e tremia. Seu rosto estava vermelho e seus olhos, trêmulos. – Sasuke-kun... – Sakura sentia a garganta queimar, e permitiu-se chorar.
Kasumi ainda estava imóvel... Em choque.
Queria correr... Correr o mais rápido, para o mais longe que pudesse. Queria fugir da Torre, fugir de Konoha, fugir daquele mundo... Fugir de si mesma, de seus sentimentos, do amor extremo que sentia por dois traidores.
Sentiu repulsa quando os olhos de Itachi se ergueram em sua direção.
Obito não havia assassinado o rei, no fim das contas. Antes, Kasumi sentia-se culpada... Culpada por tê-lo instigado a procurar Naruto, por incitá-lo a “fazer o que é certo”, mesmo sabendo que o “certo” e o “errado”, o “bem” e o “mal” eram simplesmente questões de pontos de vista.
Antes ela havia sentido a dor da culpa, mas agora... Sentia-se morrer.
Itachi soltou uma risada fraca, como se pudesse ler os pensamentos da esposa, toda a dor e toda a raiva que Kasumi sentia naquele momento. – Basta... – Ele murmurou, mais para si do que para qualquer um.
Levantou-se lentamente e se aproximou da mulher. E embora Kasumi desejasse muito fugir, não moveu um músculo... De fato, sequer pôde tirar os olhos do ponto cego que encarava. E mesmo assim, Itachi se aproximou.
Alisou suas faces carinhosamente, sem se importar com a palidez que seu toque causou à amada e depositou um beijo demorado em sua testa.
Kasumi quis empurrá-lo. Queria gritar e espancar, mas não pôde nem mesmo se afastar. – Eu fiz o que era certo... – Ele murmurou contra a pele dela, e sem esperar uma resposta, saiu do quarto com um sorridente e satisfeito Yahiko em seus calcanhares.
A Uchiha sentiu-se hiperventilar. Mesmo com o choro barulhento de Sakura, não conseguiu lembrar-se da presença dos demais familiares.
Sua respiração tornou-se mais alta, tão barulhenta e desesperada que ela pousou as mãos sobre os próprios lábios. Sentia suas pernas trêmulas, e teve que apoiar-se nas paredes para sentar ao chão. Seu peito simplesmente explodiu de dor... E ela não pôde mais se conter.
~
Nonou empurrou a pequena entrada sobre o teto da passagem subterrânea com tanta força que a madeira velha (que servia de chão para alguma cabana) se quebrou a ponto de se esfarelar.
Como não tinham tempo para se preocupar com isso, Shisui simplesmente a ajudou a subir e aguardou impacientemente enquanto a Yakushi acendia duas ou três velas e preparava o quarto minúsculo, antes de descer uma escada feita com cordas.
Foi muito difícil subir aquilo. Especialmente com Naruto nas costas, mas de alguma forma conseguiu fazê-lo.
O Rei foi imediatamente acomodado na única cama que havia naquela velha cabana abandonada. Embora a construção fosse precária e frágil, a cama e toda a mobília do quarto pareciam feitas de bons materiais, muito semelhante ao dos quartos de visitas da Torre, o que chamou a atenção do Uchiha.
A senhora Yakushi se mexia como se conhecesse cada canto daquela casa com a palma de sua mão, e ainda que o lugar não fosse exatamente grande, Shisui não pôde deixar de estranhar o fato.
Observou-a tratar as feridas do rei apropriadamente – com água e tecidos limpos, ao menos –, silenciosamente. Ajudou-a quando se mostrou necessário e esperou, fazendo preces para que aquele tolo menino conseguisse sobreviver.
Quando Nonou finalmente terminou seu trabalho juntou-se a ele num canto qualquer do quarto. Ela parecia exausta, e Shisui percebeu que não podiam fazer mais nada além de torcer... De pedir aos céus.
–... Ele tem que sobreviver. – O Uchiha murmurou; sentia cada músculo de seu corpo tenso e trêmulo. – E vai, não vai...?
Não tinha coragem de olhar na direção dela.
– Quem sabe. – Nonou suspirou. – Já vi pessoas em situações muito piores sobreviverem, e outras em situações muito mais simples morrerem. – Os olhos claros estavam fixos no corpo do rapaz loiro. – A pergunta certa é: ele tem vontade de viver? – Virou o rosto de soslaio na direção do Uchiha. – A vontade faz milagres, senhor Uchiha... Se sua majestade realmente desejar, pode conseguir.
– Ele tem que conseguir. – Os olhos negros do homem se estreitaram e a imagem da família de Itachi dominou sua mente.
Kasumi...
Sasuke.
– Se não sobreviver, Itachi está condenado.
Nonou suspirou; puxou as almofadas espalhadas pelo chão e se acomodou da melhor forma possível. – Não só ele, eu suponho. Só pensar no poder que o grande duque vai conseguir com todo esse teatro nojento...
Shisui se manteve em silêncio por um momento.
Fugaku era seu irmão... E embora nunca tivessem sido realmente próximos, ainda era difícil pensá-lo como o traidor. Imaginar o marido de Mikoto (que havia sido leal à princesa Kushina até depois de sua morte) como O Traidor era surreal... Impensável.
– Que lugar é esse? – Ele se apressou em perguntar, ansioso por parar de pensar naquilo. – Estamos na floresta, não é?
– Distantes o bastante da Torre, perto o suficiente da cidade. – A mulher garantiu sorrindo calmamente. – Minha casa antes da pensão. – Explicou. – Faz um tempo que não venho aqui... – Admitiu enquanto observava os móveis empoeirados.
– Não é o tipo de lugar que um Anbu more. – Ele observou sem pensar, e enrubesceu quando a mulher o lançou um olhar interrogativo. – O- Os móveis... – Murmurou constrangido, praguejando mentalmente por sua indiscrição. – São muito...
– Caros? Exagerados?
Ela riu da expressão envergonhada.
– Vamos, Shisui. Você não pode ser um Uchiha e não saber sobre o meu caso com o príncipe Nawaki.
Na realidade ele não fazia nem ideia. Tanto que seus olhos mais pareceram dois pratos após a afirmação da mulher, que tinha no rosto um sorriso melancolicamente nostálgico. – Foi antes do casamento com a princesa das Águas... E algumas vezes depois. – Confessou timidamente, ajeitando os óculos. – Não achava certo trair a futura rainha, mas é difícil se conter quando se está apaixonada.
–... Amante do príncipe herdeiro... – Ele teve que se esforçar muito para absorver aquilo, já que era uma crença popular que os soberanos do Fogo só casavam-se por amor. – Então suponho que seus motivos...
– Meus motivos não têm nenhuma relação com Nawaki. – Ela esclareceu. – É como lhe disse... Só imaginar Fugaku Uchiha no poder me dá calafrios.
O semblante dela tornou-se fechado, e Shisui se perguntou que diabo acontecera entre aquela mulher e seu irmão.
– Sei que é cedo, mas se importa se eu dormir um pouco?
Shisui negou depois de um instante de reflexão.
– Se o rei despertar, me acorde imediatamente.
Ele concordou lentamente, e observou-a deitar-se ao chão.
~
Hinata não tinha mais forças para se mexer.
Estava cansada... Física e emocionalmente esgotada.
Sua cabeça doía insuportavelmente, e só agora, parada, sentada no chão frio de sua prisão supostamente cômoda podia sentir o resultado que seus surtos haviam causado em seu corpo. Lentamente, quase debilmente, levou os olhos perolados até seus braços, ligeiramente arranhados pelo joga-joga de livros, móveis e vasos. Seus pés estavam cortados, feridos pelos os cacos espalhados pelo chão e seus joelhos arranhados, esfolados desde que correra aos tropeços para alcançar Naruto.
Naruto...
Ela fechou os olhos esperou que, de alguma forma, pudesse despertar daquele pesadelo horrível. Porque tinha que ser um pesadelo...
Rezou para que tudo voltasse ao normal... Não se importaria se ainda estivesse presa, desde que nada daquilo tivesse acontecido...
Desde que aquele dia nunca houvesse existido.
O relicário redondo e simplório que havia ganhado de presente do marido pendia em seu pescoço, parecia mais pesado do que qualquer tiara que já havia usado como rainha, mais até do que a aliança que carregava no anelar esquerdo, símbolo de seu matrimônio.
Hinata desejou não ser rainha.
Mais que isso, desejou que Naruto não fosse o rei.
Desejou fervorosamente que o príncipe Nawaki estivesse vivo, que sobrevivesse ao atentado... Que Nagato fosse o príncipe herdeiro e Naruto simplesmente o terceiro príncipe na linha de sucessão do trono, como sempre devia ter sido.
Desejos tolos, sonhos estúpidos que jamais se concretizariam.
Nawaki estava morto. Nagato estava morto e Naruto...
Embora quisesse chorar, nem que fosse só para despejar toda a tristeza que sentia em sua alma, nem isso a mulher foi capaz de fazer. Imaginou que talvez as lágrimas tivessem secado.
Levou as mãos trêmulas, ligeiramente feridas até o colar de ouro velho e apertou-o como se fosse o próprio Naruto; apertou os olhos e esperou inutilmente despertar daquele inferno.
Encontrava-se tão imersa em sua própria dor que sequer percebeu a entrada discreta de Tobi e Karin, que apesar das advertências da tia, estava lá. A ruiva foi a única a se aproximar; caminhou lentamente, cuidadosamente, evitando os cacos e os móveis caídos, aproximando-se da rainha com cautela.
Hinata não tinha nem se mexido, e Karin teve a impressão de que não a havia notado, o que a constrangeu imensamente. Mas o constrangimento durou apenas um instante, e fora imediatamente substituído pela pena.
Quando Karin agachou-se à frente da esposa do primo, chegou a cogitar a possibilidade de que havia adormecido recostada na parede. Os olhos de Hinata estavam fechados e sua respiração era lenta, embora ligeiramente descompassada. Mas antes que a ruiva pudesse desistir daquela conversa insana, os orbes grandes e perolados se abriram lentamente.
Estava nublados e cansados. E contrastavam terrivelmente com os gentis e amorosos das curtas lembranças que a princesa tinha da rainha. Elas se olharam por um longo tempo, que não foi nem incômodo nem constrangedor para nenhuma das duas.
Karin sabia que devia ser a primeira a falar... Sabia que a rainha devia estar mentalmente debilitada depois de tantos acontecimentos lamentáveis. Ela também perdera o pai, afinal... E agora o marido.
– Acabou?
Karin levou um segundo para associar aquela voz rouca à mulher fraca à sua frente. Seu murmúrio havia soado fraco e dolorido.
Embora tivesse hesitado por um instante, refletindo sobre como devia confirmar uma notícia tão delicada como aquela, a princesa limitou-se a anuir lentamente em sua resposta. Os olhos grandes de Hinata tremularam, brilharam e em um segundo, as lágrimas que ela pensou terem secado caíram pesadamente por seu pálido rosto.
Fechou os olhos e apertou as pálpebras, tentando manter silêncio embora sua respiração soasse barulhenta e dificultosa. Ela tentou conter a tremedeira de seu corpo, tentou recuperar o fôlego, mas seu peito latejava tanto que parecia explodir.
– Ele... – Engoliu em seco. – Ele sofreu muito? – Sua voz quebrou-se durante a frase; só a possibilidade a matava.
– Não... – Karin afirmou lentamente, embora não tivesse tanta certeza.
– Então tudo foi rápido...? Indolor...?
A princesa anuiu cautelosamente, e um sorriso fraco estampou o rosto da rainha ao mesmo tempo em que suas lágrimas tornavam-se mais grossas. Ela fungou e choramingou; parecia não ter forças nem para levantar o braço e secar o rosto.
–... Talvez você não acredite... – Karin franziu os lábios e estreitou os olhos. – Só que eu... – Ela mordeu o lábio inferior. – Eu realmente... Realmente lamento tanto...
Era verdade. O fato de seus olhos queimarem insuportavelmente eram a prova de que ela lamentava por absolutamente tudo!... Pelas decisões que haviam sido dela, e mesmo as de seu pai. Lamentava-se por aceitar ir até Konoha; lamentava-se por apoiá-lo quando o pai decidiu perseguir suas origens.
Se Nagato jamais tivesse saído da vila...
Hinata não podia enxergá-la, uma vez que seus olhos estavam embaçados pelas lágrimas. Mas ainda assim pensou que as palavras da princesa deviam ser sinceras.
Karin lamentava e sofria com a situação, tanto quanto ela própria. Mesmo assim, ela não conseguiu sentir simpatia nenhuma pela prima do marido. Sua dor era latente demais para que ela se preocupar com dores alheias.
Além disso...
Os lábios da rainha se estreitaram; ela baixou a fronte e encarou o ventre até então magro; apertou o vestido fracamente e chorou mais. Ela queria tanto poder ser egoísta...! Queria tanto implorar que aquela mulher a matasse logo, mas nem isso podia fazer!... Como poderia, quando um pedacinho de seu amor crescia dentro dela?!
Sabia que ia morrer uma hora ou outra. Karin não podia ser rainha enquanto estivesse viva... E, se não fosse pelo filho, pelo extremo desejo de que sua criança visse o sol, Hinata francamente não se importaria.
– Por favor, saia. – Implorou, a voz trêmula de emoção. – Eu não quero te pedir para viver, e não posso te pedir para morrer. Então, simplesmente... – Ela apertou os olhos e os punhos, encolhendo-se no chão. – Por favor, saia!
Karin franziu os lábios.
–... Eu só pensei que...
– Por favor! Saia!... Saia! Saia! Saia!
–... Majestade...
– Saia!
Hinata não queria ser consolada. Não queria que aquela garota sentisse pena dela, e muito menos desejava o contrário. Queria ter alguém para odiar, alguém para culpar, e embora tivesse consciência de que Karin Uzumaki era tão vítima das circunstâncias quanto ela ou Naruto, não queria se preocupar com isso.
– Vamos, princesa.
Obito segurou a ruiva pelo antebraço, mas Karin esquivou-se do aperto. Ela estava pasma com a reação da rainha, mas ainda precisava conversar... Confessar, dizer tudo o que sentia.
– Majestade, por favor... Escute...!
Mas Hinata não cessou nem as lágrimas nem os gritos, que imploravam para a princesa deixá-la só. – Eu lamento tanto... – A Uzumaki admitiu com a voz esganiçada. – Por favor, acredite nisso...
– Karin. – A voz de Tobi soou autoritária e fria. – Se lamenta, deixe-a.
Foi uma sugestão que mais pareceu uma ordem, mas a princesa não se importou; permitiu-se ser levada e, lá fora, enfim longe da voz e da agonia da esposa de Naruto, finalmente sentiu seu corpo desfalecer.
O Uchiha agarrou-a pelos antebraços, impedindo que ela desabasse no chão.
– O que eu devo fazer...?! – Sua voz soou trêmula, e Karin percebeu que estava assustada com seus próprios sentimentos. – Mesmo depois de tudo... Mesmo depois de toda a dor que me fizeram passar... Eu não posso, Tobi... – Encarou-o com o rosto pálido. – Não posso machucá-la... Não posso matá-la...
~
Ao entrar em seu quarto, a primeira coisa que viu foram os olhos dela.
Seus olhos, grandes, belos e surpresos encararam os seus pelo reflexo do espelho, e Naruto não pôde fazer nada além de sorrir.
Ele se aproximou lentamente, se sentindo mais ansioso a cada passo, e observo-a cuidadosamente, ansioso para lembrar-se dos detalhes de seu rosto, de seu corpo... De seus olhos.
Ela era perfeita, mais ainda do que ele podia se lembrar.
Mesmo paralisada e com os olhos ligeiramente arregalados enquanto encarava o reflexo do marido, ela era linda e majestosa.
Hinata não piscou nem se moveu; Naruto percebeu que sentia tanta falta dele quanto ele a dela. Notá-lo só fez com que desejasse ainda mais tocá-la, alcançá-la... Mas ele não se apressou. Continuou lento e cauteloso.
Quando finalmente se viu a milímetros do corpo quente, que tremulava ligeiramente, tocou uma das mechas longas dos cabelos azulados. Deslizou os dedos da mão livre pelos braços escondidos pelo penhoar de inverno, ansioso por sentir o calor de sua esposa. Hinata encolhe-se para chorar, mas o sorriso dele se manteve no rosto, um sorriso leve calmo e extremamente saudoso.
Cauteloso e carinhoso, Naruto envolveu-a pela cintura. Afundou o rosto nos cabelos azulados e apertou o corpo dela contra o seu.
Naruto quase podia sentir o calor dela quando despertou. O cheiro suave de seus cabelos limpos, a maciez dos fios lisos roçando em seu rosto...
– Hinata...
Murmurou com a voz rouca.
Seu corpo estava fraco, mole e dolorido. Era difícil se mexer... E ele se sentiu confuso por isso; seus olhos fechados se estreitaram e seu cenho franziu. O rei esforçou-se para lembrar-se, mas tudo em que podia pensar era em seus lábios passeando na suave pele pálida de sua esposa... Nos beijos doces, nos carinhos amorosos...
– Nós vamos ter um bebê...
Os olhos azuis se abriram imediatamente. Um pouco mais consciente – embora ainda confuso – Naruto examinou o quarto desconhecido com o olhar, e estreitou os lábios ao ver-se só.
– Hinata...
Ele se esforçou para se levantar, mas desabou no chão na primeira tentativa.
Ninguém apareceu para acudi-lo. Algo bastante irônico para um rei que costumava chamar a atenção de todos se fizesse o menor dos ruídos.
Seria engraçado, pensou. Pelo menos se ele não estivesse simplesmente angustiado com o fato de suas memórias estarem tão embaralhadas quanto às sensações de seu corpo, que variavam de dor intensa à dormência.
Ele se arrastou pelo quarto, apoiando-se nas precárias paredes feitas de madeira, desejando encontrar a saída, ou ao menos alguém que o explicasse que demônios estava acontecendo... Mas sentiu o corpo paralisar quando alcançou a porta.
– Eu não vou deixar a minha filha morrer!
Alguém exclamou em alto e bom som.
– Aquele garoto está dormindo há dias! Dias!... Hinata não pode mais esperar!... Se apenas desconfiarem de sua traição, Itachi... Se sonharem que o rei está vivo, em um instante minha filha perde o pescoço.
– Mamãe...
Ele pôde reconhecer a voz de Hanabi. Tristonha, envergonhada...
– A princesa não deseja a morte de Hinata, Suzuki. – A voz de Itachi soou. – De fato, está sendo muito complicado convencê-la de que nunca será rainha se não tomar uma atitude contra sua antecessora... – Houve um minuto de pausa. O conselheiro Uchiha parecia agonizantemente calmo. – Talvez possa acordar um exílio, Hyuuga. Ainda tem poder, afinal de contas... O Kazekage pode ajudá-la a consegui-lo. Vocês têm uma aliança, não?
– Certamente... – A voz de Gaara começou a concordar, mas foi prontamente interrompida por uma agitada Suzuki.
– Como se isso bastasse! – Ela bufou. – Seu pai quer matá-la, Itachi. Fugaku vai pressioná-la, manipular aquela menina até que pense que Hinata, mesmo presa do outro lado do mundo, é uma ameaça para seu trono.
O nome do traidor foi como um raio na mente do rei, e em um instante, num flash tão rápido que ele sequer podia mensurar, Naruto lembrou-se de tudo, absolutamente. Desde a adaga gélida e rígida cortando sua carne, matando-o aos poucos, até a lembrança daquela tarde em que ele e sua família se preparavam para partir.
Lembrou-se dos biscoitos estranhos que o duque, com um olhar frio e um sorriso que, mesmo menino, Naruto soube ser forçado, o ofereceu antes de entrarem na carruagem. Lembrou-se da rispidez com que havia tratado Sasuke quando o príncipe lhe ofereceu a divisão, e de sentir-se extremamente sonolento quando os comeu com os pais naquela carruagem.
Lembrou-se dos gritos de Kushina e das lágrimas que a mãe derramou antes de jogá-lo carruagem a fora... Lembrou-se dos destroços que pôde enxergar lá do alto do penhasco e do homem que tinha cicatrizes no rosto, vestes negras sujas de sangue e olhos tão negros quanto os de qualquer Uchiha.
Naruto sentiu o ar faltar aos seus pulmões. Suas feridas doeram insuportavelmente, e ele notou que os pontos de alguma haviam sido desfeitos. Tentou se apoiar em algum lugar, mas suas mãos foram parar na porta, que se abriu no ato, fazendo-o desabar no chão e interromper a reunião que devia fazer parte.
– Naruto! – Tsunade foi a primeira a se mover. Ela correu na direção do neto, vermelha de angústia, e ajudou-o a se levantar. – Naruto... O que você...?
– Foi ele!... – O rapaz sentia-se sufocar. – Ele... Foi ele quem matou meus pais... – Ele agarrou as vestes da loira e, com um olhar trêmulo, suplicou em silêncio explicações à avó. – Foi ele, não foi...?! Quem matou Nagato! – Agarrou os braços dela. – Que matou Nawaki! E os meus pais!
Ele falava tão rápido que era difícil compreender.
– Você sabia! – Naruto exclamou alto. – Sabia! Por isso não me instigou à não colocá-lo como conselheiro... Por isso... – Seus olhos estavam perdidos, e a princesa penou-se do estado do neto.
– Naruto...
Ela não sabia, mas estaria mentindo se dissesse que não desconfiava. Não era difícil notar hipocrisia nas ações de Fugaku Uchiha; ele era falso e nunca havia lhe inspirado confiança...
Mas Mikoto era doce, leal e amava Kushina como uma irmã. Havia visto a tristeza franca nos olhos da duquesa quando a rainha se fora... A dor imensa que havia sentido. Fugaku a amava verdadeiramente, e era difícil para Tsunade imaginá-lo tomar uma atitude que a ferisse de tal forma.
Tolice de sua parte.
– Hinata... Como ela está?! Se ele a machucar... – Os olhos azuis se estreitaram.
– A rainha ainda está presa. – Foi Itachi quem falou; havia se aproximado do rei e agora analisava as bandagens ensanguentadas. – Princesa, pode cuidar disso?
– Presa? – Naruto estreitou os olhos. – Sei que está presa! Vi-a sendo presa!... Quero saber de suas condições! Quero saber sobre o meu filho!
Todo o grupo se calou. De Temari à Jiraya, todos direcionaram ao rei um olhar perplexo, francamente surpresos.
A senhora Hyuuga precisou de um segundo para absorver o sentido daquela frase, e todo o seu corpo congelou quando conseguiu. – Não... – Ela sentiu-se desfalecer. – Não... – Escondeu os lábios com as mãos. – Hinata não pode... Ela não pode... – Sua voz tremia tanto quanto seu corpo.
Hanabi tentou conter as lágrimas, mas foi impossível. Ela se arrastou até os braços da mãe, agarrou sua cintura e ali desabou.
Itachi tinha os olhos fixos no rei, tão surpreso e impactado quanto qualquer outro ali presente. -... Filho? – Ele sibilou a palavra cautelosamente, como se quisesse ter plena certeza de que o rei a havia pronunciado.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mas Naruto não estava pensando: ele agarrou o colarinho de seu conselheiro e o encarou com mais autoridade do que jamais havia tido em sua vida. – Seu pai fez tudo isso!... – Ele murmurou entre dentes, tão raivoso que quase não podia se reconhecer. – Eu nunca me importei com meu título, nunca quis ser rei. Eu perdi meus pais pela fome de poder daquele maldito traidor!
Os olhos do Uchiha se estreitaram.
– Eu não me importo com a maldita coroa, Itachi... Só tire a minha esposa de lá!
~
Karin suspirou longamente.
Olhou para o espelho longo e fez uma careta ao vislumbrar sua imagem. Ela parecia mais uma boneca, com aquele penteado cheio de cachinhos estúpidos e um vestido gigante, que considerava muito longe de ser elegante.
Ele era vermelho e grande. Não havia outra descrição.
Estava ajeitando a capa felpuda, vermelha e irritante quando a porta se abriu, e pelo reflexo do espelho, viu Mei e Konan surgirem.
– Pff! – A tia abafou uma risada, mas a rainha apenas lançou um olhar penoso em direção à sobrinha neta, que suspirou. – Desculpe, querida. Mas isso é um pouco...
– Ridículo. Eu sei. – A ruiva suspirou ao ajeitar a saia bufante do vestido de veludo. – Mas segundo o duque é necessário. Eu vou ser a primeira governante do país do Fogo a subir ao trono sem estar casada... Aparentemente, preciso exalar onipotência.
Mei pensou que havia uma grande diferença entre “onipotência” e falta de bom senso, mas a moça já estava constrangida demais para que a incomodasse com isso.
De fato, Karin já estava sobrecarregada com coisas demais para se preocupar com um vestido estúpido, ainda que fosse o que usaria em sua coroação. Nos poucos dias que havia passado ao seu lado, a rainha do país das Águas percebeu que a sobrinha neta era uma moça tola e ingênua, que confiava demais, que se penava demais. Ela tinha um bom coração, e a verdade era que fora esse o único motivo de prosseguir a aliança com o país do Fogo.
Aquela garota era a neta de sua irmã, afinal... Da irmã que Mei não pôde salvar de um casamento indesejado. Karin estava sozinha, assim como sua irmã ficara ao assumir o posto de princesa herdeira da nação do Fogo.
Ela não tinha ninguém além daqueles mercenários que, liderando ou não uma vilazinha em um lugar qualquer, não conheciam verdadeiramente o sentido de governar.
– Ninguém vai olhar para o seu vestido, alteza. – Ela tentou soar gentil.
Só olhariam para a coroa, no fim das contas.
.
Itachi estava em seu quarto, o mesmo da ala dos conselheiros, ajeitando o uniforme de gala quando Yahiko adentrou sem pedir permissão. Como já era algo rotineiro, o antigo conselheiro de Naruto sequer se preocupou em virar-se para honrar o mercenário com um olhar severo.
– Ah, parece que finalmente voltou...
O tio de Karin estava lhe saindo muito pior do que seu próprio pai, muito mais desconfiado do que Fugaku, que o conhecia desde sempre.
– Posso perguntar onde passou metade da madrugada, antigo conselheiro?
– Há muitos bordéis novos na cidade, senhor mercenário. – Itachi soou propositalmente calmo, pois sabia que sua tranqüilidade o frustrava. – Eu prezo a economia do meu país, então...
Mas se calou imediatamente, pois ao erguer o rosto, encontrou-se com os estreitos olhos da esposa que o odiava. Os lábios dela estavam franzidos, apertados, e Itachi percebeu que ela estava a ponto de chorar.
–... Kasumi...
– Hoje é o grande dia da minha querida sobrinha. – Yahiko sorriu, e guiou a esposa de Itachi pela cintura até o marido. – Nada disso aconteceria se não fosse por sua boa vontade, Itachi. Você e seu pai tem se mostrado tão úteis à Karin...! Seria muito descortês não perdoar seus familiares, não é? Decidi que a senhora Uchiha e o garoto, Sasuke, serão convidados de honra na coroação.
A morena apertou a saia do vestido negro que a obrigaram a vestir.
– O último encontro com sua esposa foi bastante delicado, conselheiro Uchiha... Então pensei em presenteá-lo com sua presença.
Itachi suspirou longamente, cruzou os braços e sorriu com tristeza.
– Foi um golpe baixo, Yahiko.
Kasumi estreitou os olhos.
– Devo deixá-la aqui? Ou a noite visitando os bordéis foi cansativa demais para que possa satisfazer sua própria esposa...? – O mercenário deslizou o indicador sobre as madeixas castanhas encaracoladas, e Kasumi não hesitou ao lhe lançar um olhar ameaçador, de pura repulsa, que fê-lo sorrir sinceramente.
Ele gostava daquela garota. Gostava pelo simples fato de ela provocar Itachi e Fugaku com tanta facilidade, coisa que ele dificilmente conseguia, mesmo que se esforçasse tentando.
– Lamentavelmente, Yahiko, tenho consciência de que não posso mais satisfazer a minha esposa. – Kasumi virou o rosto de soslaio. – Nosso casamento foi puramente obrigatório, na visão da senhora Uchiha. Mas acredito que todo o resquício de gratidão que sentia por mim tenha se esvaído.
Yahiko fez uma careta.
– Ora, senhora Uchiha... Parece que a escolha está em suas mãos. Vai acompanhar o seu marido ou prefere estar ao lado de seu cunhado no grande momento?
Ela não quis respondê-lo: simplesmente passou por ele, batendo o ombro em seu braço com tanta audácia que o mercenário teve que engolir uma gargalhada. Os dois a observaram sair a passos pesados e ser escoltada por um qualquer que estava a postos na ala.
– Um bordel, não é?... – O tom de Yahiko foi duvidoso. – Konan costuma ser o suficiente para me satisfazer, antigo conselheiro. – O ruivo virou-se sério na direção do Uchiha. – Mas eu gostaria de conhecer esse lugar, um dia qualquer.
Ele estava desconfiado, como sempre.
Pensar que ele só podia desconfiar agradava muito ao Uchiha, a ponto de fazê-lo sorrir, mesmo que soubesse que não deveria provocar aquele maldito homem.
– Qualquer dia, senhor mercenário.
~
Fugaku estava disposto a fazer com que tudo ocorresse da melhor maneira possível, então havia se responsabilizado pela maior parte dos preparativos da tão esperada coroação.
A decoração havia sido montada por Konan e Kurenai, que após a última captura da rainha, de alguma forma se tornou uma refém passiva. Fugaku não sabia se isso se dava ao fato de que seu sobrinho estava escancaradamente envolvido com a Akatsuki, ou com a tola esperança de que, dessa forma, poderia ajudar a rainha de alguma maneira, mas não se importou, nem hesitou ao dá-la a responsabilidade.
O cardápio estava nas mãos das serventes mais antigas da Torre – as que não estavam presas por desacato, pelo menos –, ele próprio tinha preparado os convites e, com a ajuda de um Itachi muito mal humorado, conseguiu pôr em pé uma estratégia de segurança bastante satisfatória.
Estava certo de que nada poderia dar errado. Poucos líderes de Estado haviam confirmado presença, mas toda a corte estaria lá. Fugaku estava certo de que tudo correria da maneira mais simples e satisfatória possível...
Ao menos até entrar na sala do trono e encontrar Kasumi e Sasuke entre os convidados, embora o que fizessem fosse bem longe de socializar. Na verdade, estavam recostados em um canto qualquer do salão, conversando um com o outro com ares conspiratórios, como se não estivessem no meio de uma festa de gala.
Não demorou muito para entender que eram convidados de Yahiko, que certamente os trouxera somente para provocá-lo.
Ele sequer teve tempo de questioná-los antes que a música se interrompesse, deixando claro que a cerimônia estava prestes a acontecer.
Muitos minutos antes do combinado.
– Mercenário maldito... – O duque murmurou, apertando os punhos enquanto se apressava para tomar seu lugar.
Foi muito diferente da coroação de Naruto e Hinata. Qualquer um que estivesse presente pôde perceber isso. Para começar, Karin não tinha conselheiros. E embora todos soubessem que o duque Fugaku era o mais próximo disso, não tinha um título nem de longe semelhante para participar ativamente da cerimônia.
O novo sacerdote foi o primeiro a caminhar pelo longo tapete na direção dos tronos. Ele era muito jovem para seu cargo, e estava claro para todos que só tomara o lugar do antecessor por ter ideais semelhantes aos do duque.
Tudo o que restara da guarda real estava em pé, ao lado do tapete longo e grosso, e Karin se sentiu extremamente acuada ao passar por eles.
Ela não teve crianças nas suas costas, erguendo a calda de seu vestido. Ao invés disso, estavam seus tios, fortemente armados e tão ameaçadores que ela quase sentiu como se estivesse caminhando para a forca...
Embora a realidade não fosse muito diferente disso.
A princesa sentou-se no trono maior quando enfim conseguiu alcançá-lo – o que, em sua opinião, havia demorado demais. Konan entregou à sobrinha um cajado e Yahiko, um tipo de recipiente. Ambos ajoelharam-se em frente ao trono.
– Como Rainha do país do Fogo, você deverá ter um bom coração. – O jovem falou muito bem articulado enquanto caminhava – já com a coroa em mãos – na direção da princesa. – Promete e jura solenemente governar o país do Fogo, sendo prudente e respeitando as opiniões dos mais experientes? E, em seu poder, será gentil e justa em todos os seus julgamentos?
– Prometo... Prometo solenemente que o farei.
Mas sua voz soou trêmula e assustada.
Aquele instante de hesitação certamente não fazia parte do show, mas mesmo assim o sacerdote pousou a grande coroa sobre a cabeleira ruiva. Karin levou um segundo para se levantar. Após o exclamar do duque, os guardas presentes ergueram as lâminas em respeito à nova falsa rainha, que lentamente, hesitante, caminhou na direção da fila da guarda imperial.
– Apresento-lhes Karin Uzumaki, a Rainha do país do Fogo.
E Karin finalmente soube, ao ver todas aquelas pessoas que ela sequer conhecia se curvarem diante dela, que jamais voltaria à sua adorada vida tranqüila na vila da Chuva.
Não demorou muito para notar que duas pessoas em especial não haviam demonstrado respeito, mas ninguém além dela – e Fugaku, claro – pareceu se importar com o fato de Kasumi e Sasuke Uchiha estarem em pé, encarando-a como se fosse uma usurpadora.
O que de fato não estava muito longe da verdade.
– Tanta cerimônia para nada...
Embora não tivesse soado em tom alto, diante do silêncio iminente, a voz entediada daquela mulher conseguiu tomar a atenção de toda a corte. Era uma mulher baixa, e até então se encontrava distante do centro da sala do trono, o que impossibilitou que alguém percebesse que, tal como os Uchiha, não havia sequer mostrado intenção de se curvar.
Suzuki Hyuuga livrou-se de seu chapéu enfeitado e caminhou na direção de Karin como se fosse ela a rainha. Embora estivessem mascarados, Fugaku pôde facilmente reconhecer Kakashi e Shisui, que pareciam fazer guarda àquela dondoca insuportável.
E como se não bastasse a surpresa daquela aparição desagradável, a atitude do Kazekage conseguiu chocar ainda mais a alta sociedade do Fogo. Gaara repentinamente ergueu-se de sua reverência, e após oferecer a mão à viúva Hyuuga, seguiu com ela em direção à chocada rainha.
– Ora, falsa majestade... – Suzuki esboçou um sorriso provocador. – Não fique tão surpresa. Eu esperei ansiosamente por esse dia... Estou aqui para fazer um acordo, não se preocupe.
–... Acordo...? – Karin balbuciou, francamente confusa.
– Claro, querida. Sou Suzuki Hyuuga. Há semanas venho tentando contatá-la, mas... – Ela forçou uma risada. – É claro que é impossível, visto que preparavam essa tola cerimônia. – Suzuki lançou um olhar desdenhoso ao redor, mas logo voltou a encarar a rainha. – Será que agora que está com a maldita coroa na cabeça, poderíamos conversar sobre a liberdade da minha filha?
Fale com o autor