The King
36 Semelhanças.
Notas iniciais
Capítulo XXXVI – Semelhanças.
Itachi não esperou o dia amanhecer para se levantar. Sequer havia clareado lá fora, mas ele já estava em pé, vestido e disposto.
Kasumi estava dormindo na cama, ao lado de Akane. Elas tinham dividido a cama, enquanto ele havia passado a noite no sofá supostamente decorativo que ficava em um canto distante do aposento, então não precisava se preocupar em acordá-las.
Colocou a farda, amarrou os cabelos, pôs as botas e retirou-se sem olhar para trás, tudo de maneira muito silenciosa.
Aquele inferno tinha que acabar. A desconfiança tinha que acabar!
E, ainda que Kasumi não quisesse respondê-lo, ele encontraria a resposta.
Diferente de sua rotina, Itachi não seguiu para a ala dos conselheiros naquela manhã, nem para os aposentos da rainha, que era onde devia estar.
Hinata certamente não acordaria tão cedo, e ainda que acordasse, Neji estaria lá para fazer sua guarda.
O herdeiro dos Uchihas seguiu até os estábulos, arranjou um cavalo sem a permissão do responsável e seguiu para fora da Torre sem avisar terceiros. Ele não queria que ninguém soubesse de nada.
Cavalgou por cerca de uma hora – que mais pareceram cinco –, até uma pensão não tão distante, localizada aos arredores da cidade imperial.
Uma senhora – iluminada por uma lanterna que descansava ao seu lado – que devia ser um tanto mais velha que sua própria mãe o observava. Encontrava-se sentada à frente de sua residência, com o chá servido para uma só pessoa em uma bandeja no chão, seu ao lado, e uma expressão tão tranquila que o enganaria, se Itachi não soubesse de absolutamente todo o seu histórico militar.
Nonou Yakushi era seu nome.
Ali, sentada, usando as vestes de freira e os óculos redondos que deviam deixá-la mais velha do que era de fato, pegando uma xícara em mãos, bebericando o chá verde de vez em quando, ninguém jamais suspeitaria de que era a mulher mais informada de todo o país do Fogo.
“A sacerdotisa andarilha” era como Nonou costumava a ser chamada em seus tempos de glória.
Uma espiã estupidamente competente, que costumava reunir informações de outros países em prol da nação do Fogo. Serviu por mais de metade de sua vida ao Serviço Secreto de Konoha, no esquadrão de infiltrados, e estava aposentada há quase dez anos. Agora, com dois já crescidos filhos adotivos, devia descansar, mas Itachi estava ciente de que gente como aquela mulher nunca se aposentava realmente.
– Creio que não nos conhecemos, meu senhor. – Ela murmurou em voz moderada. – Em que posso ajudá-lo? – Itachi baixou a fronte numa mesura educada.
– Eu sou Itachi Uchiha, senhora. Consegui esse endereço com seu filho, Urushi. Pensei que ele informaria sobre a minha visita.
– Oh, é claro... Mas veja só! Eu não esperava o herdeiro dos Uchihas! – Ela tomou um gole gordo do chá em suas mãos. – A quê devo essa enorme honra?
– Soube que se mudou para essa pousada há pouco, e resolvi fazer-lhe uma visita.
– Mudei-me para este lugar desde que Urushi entrou para o exército, então já não faz tão pouco tempo... – Ela suspirou longamente. – Mas claro que você sabe disso. – Itachi não discordou. – Não acredito que tenha vindo cumprimentar uma veterana, senhor Uchiha. Então, se pudesse prosseguir sem mais delongas...
– Quero informações sobre Tobi, da Akatsuki. – Ele foi direto, e a voz firme e autoritária a fez rir.
– Deve saber, senhor Uchiha, que esta velha mulher está aposentada.
– Sim, senhora. Estou ciente disso... Mas também estou ciente de que seu filho, Kabuto Yakushi, foi designado a uma missão de infiltração, dois anos atrás, que o punha dentro da organização em questão. – O sorriso dela se alargou.
– Parece que fez o seu dever de casa, meu senhor. É inteligente, rapaz. Dará um duque melhor do que seu pai, talvez até melhor que seu avô... Trará mais contribuições à nação, estou certa disso.
– Sem delongas, senhora. – Ele cruzou os braços. – Estou certo de que não permitiria que seu filho se arriscasse em uma missão sem antes buscar informações você mesma. – Ela anuiu.
– É claro, jamais permitiria tal coisa. – Balançou a mão de maneira banal. – Mas aviso, senhor, que não vai gostar de saber sobre este homem. – O comentário o fez enrijecer. – Portanto, antes de respondê-lo, gostaria de saber o porquê desejar tais informações.
– Segurança. – Em parte, era verdade. – Atualmente, Tobi está acomodado no palácio. Desde que pisou na Torre, não confio naquele homem. Tudo o que ele diz parece ser mentira. – Ela o observou, silenciosa, e parecia refletir sobre as palavras dele.
– E são mentiras, possivelmente. – Concordou. – Mas ele tem seus motivos para dizer as mentiras.
– Então, se souber, diga-me você a verdade. De onde ele veio, por que está aqui, e quem ele realmente é. – A mulher riu, uma risada melodiosa, doce e divertida.
– São muitas perguntas, senhor. Temo que não possa respondê-las com tanta propriedade... – Ela serviu-se de mais chá. Sua tranquilidade começava a irritá-lo. – Mas comecemos com a primeira: aquele homem veio de Konoha. – Ela ergueu os olhos verdes. – Do seu clã, para ser mais exata. – Ele empalideceu. Havia percebido que a mulher analisava cada um de seus movimentos, mas não pôde evitar.
–... Do clã Uchiha? – A mulher anuiu. – Como pode ter tanta...
– Certeza? Oh, querido. Eu fui instruída a segui-lo. Por seu avô, aliás.
–... Meu avô? – Ela assentiu. – Por que o meu avô iria...
– Porque Tobi, na realidade, é Obito Uchiha. O renegado de sua família, o pária de nossa nação. Fugitivo desde a morte da família Nohara.
–... O sequestrador de Kasumi... – Agora sim, tudo fazia sentido.
A hesitação da mãe, o silêncio de Kasumi... Ele certamente se sentiria aliviado, se não tivesse um fugitivo mercenário dentro da Torre. Pior que isso: um fugitivo que tanto sua esposa, quanto sua mãe defenderia até a morte. – Ainda assim, não compreendo... Meu avô não era o tipo de homem que deixaria alguém fugir, ainda que fosse seu filho, então por que...? – Nonou expirou longamente.
Aquela seria uma explicação complicada.
– Obito Uchiha foi usado de bode expiatório nos assassinatos dos Nohara. – Ela esclareceu. – A grande verdade é que todos do alto escalão estavam cientes desse fato: os líderes de exército e sua majestade, Hashirama.
– Bode expiatório? Um Uchiha?! – Ele jamais conseguiria engolir aquela.
Os Uchiha eram a segunda família mais importante da nação do Fogo, perdendo apenas para a família imperial. Não havia nem a mais remota possibilidade de um Uchiha ser usado como bode expiatório!
– Um renegado Uchiha. – Ela o lembrou. – Há diferença entre esses dois... Chá? – Ele negou, e ela tornou a beber. – Na lista de suspeitos, apenas Shizune, Kakashi e o próprio Madara estavam envolvidos. Shizune era a protegida da princesa Tsunade, Kakashi tinha um álibi e Madara... – Ela franziu o cenho. – Madara era Madara. Além disso, ele tinha renegado o filho, não havia mais motivos para retalhar com Rin Nohara.
– Por que ele retalharia com a senhorita Nohara? – Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Então, ergueu os olhos, e fitou-o, com um pouco de surpresa.
– Ora... Você realmente não sabe de nada, não é? – Ele não respondeu. – Rin Nohara foi o motivo de Obito ser renegado pela Uchiha. Ela estava esperando um filho dele. – Naquele momento, Itachi sentiu-se sem chão.
O estômago revirou, e tudo pareceu girar em sua mente. – A família tentou esconder a gravidez da senhorita Nohara... De fato, foi bem eficiente, já que todos na cidade julgavam-na como noiva de Kakashi Hatake... Apenas poucas pessoas sabiam da verdade.
– E como você sabia disso? – Ele estava perturbado, então não pôde evitar o tom grosseiro na voz.
– Já disse que Madara havia me posto no encalço do filho. Eu trabalhava para Konoha, não para o exército. Seu avô queria observá-lo, não capturá-lo, eu não faria isso sem saber os motivos. Seu tio era jovem demais, e a menina, uma pequena criatura doente. Seu avô queria que ele voltasse para casa, mas sabia que não faria. Então, fui instruída a interferir apenas se a criança morresse. – Ele ficou em silêncio, mas teve um vislumbre de Kasumi deitada, frágil, na cama de hospital. – O governo alega que o motivo do assassinato aos Nohara foi uma rejeição da senhorita Nohara à Obito, mas a rejeição nunca aconteceu. Estava claro, a todos que sabiam disso, que ele não havia sido o responsável pela morte daquelas pessoas. Mas ainda que estivesse claro, não tinham um culpado melhor.
–... É como o que estão fazendo com o país do Som, não é? – Ela deu os ombros.
– O exército encontrou evidências de que os agressores de sua majestade pertenciam ao país do Som. No caso dos Nohara foi diferente... Qualquer evidência que pudesse existir apagou-se com o incêndio, naquele dia.
–... Aquele homem... – Ele estreitou os olhos. – É o pai da Kasumi...
O pai que ela tanto chamava em seus sonhos.
O pai que ela tanto sentia falta.
O pai que ela nunca esqueceu... E era realmente seu pai!
–... Como ele entrou para Akatsuki?
– Como um renegado fugitivo, o pobre homem não podia fazer muito, além de pegar trabalhos ilícitos... Em tempos como o nosso, de falsa paz, onde países fingem alianças, mas na verdade espionam uns aos outros... Ele ganharia mais como mercenário, sem sombra de dúvidas. Tinha uma filha para criar, não podia dar-se ao luxo de pegar feno por troca de um prato de comida... Mas, de fato, não sei os motivos por entrar na Akatsuki. Só fiquei em seu encalço por poucos meses... Na época, seu avô já tinha morrido, eu já estava aposentada, e tinha meus filhos... Só concluí quem era durante minhas investigações recentes, por suas características: a idade, as habilidades e a máscara, especialmente a máscara.
E então ela suspirou.
– Tive a oportunidade de conhecer Obito e Kasumi mais profundamente. Eles foram meus hóspedes, pouco tempo depois de ter me aposentado. – Não conseguiu evitar um sorriso. – Engraçado, não? Justo eles, sendo meus hóspedes... Talvez fosse o destino. – Ajeitou os cabelos. – Obito sempre usava as máscaras, creio que para evitar ser reconhecido. Ele era um bom pai... E se parecia muito com a filha, em personalidade. Foi ali que eu tive certeza de que ele era o pai daquela menina, e que não era culpado pela morte dos Nohara.
– Tinha dúvidas, mesmo depois de aposentada? – Nonou deu de ombros.
– Na minha profissão, senhor Uchiha, dúvidas devem estar sempre presentes.
– Então por quê... – Mas ele se calou.
– Acredito que a Akatsuki, — prosseguiu a mulher. – pode ter sido algum tipo de consequência do trabalho mercenário. Talvez seja por isso, também, que ele deixou a filha aos cuidados do senhor Hatake.
– Por entrar na Akatsuki? – A Yakushi concordou.
– Sei que já fez trabalhos sujos para Konoha, Itachi... Mas você superou isso, e está um passo à cima. Tornou-se conselheiro... Mas pessoas como eu e Obito, que sempre ficamos à sombra, só podem ter três tipos de opção: continuam com o trabalho sujo até morrerem sozinhos, se aposentam, como eu... Ou como Obito, afastam-se das pessoas que amam.
~
Sakura despertou com o sol da manhã refletindo pelas janelas grandes do quarto.
Ela podia sentir o peso dos braços do marido sobre sua cintura, o ar quente da respiração dele em sua nuca e o calor de seu corpo tão colado ao ela... E aquela sensação a fez querer ficar ali para sempre.
Sasuke respirava tranquilamente, compassadamente, e parecia relaxar.
A curiosidade fê-la virar-se em sua direção, lentamente, cuidadosa, pois não queria acordá-lo, mas não se surpreendeu quando encontrou os olhos negros abertos, olhando diretamente para ela. – Bom dia, senhora Uchiha. – Ele murmurou.
– Bom dia, senhor Uchiha... – Sak deslizou as mãos por seu rosto. – Eu pensei que estaria desmaiado, depois de ontem. – Sasuke deu de ombros.
– Já passei por coisa pior. Além disso, nós viemos dormir cedo. – Ela anuiu. – E você deve estar mais cansada que eu... – Ele aproximou o rosto, e beijou-lhe a testa carinhosamente. – Já que ficou a tarde inteira...
– Cuidando de alguém com a saúde perfeita. – Ela cortou-o, estreitando as sobrancelhas. – O mais irritante de tudo é saber que eu vou ter que cuidar hoje também. Queria estar ajudando com o rapaz da perna quebrada... – Sasuke fez uma careta.
– Não pode ajudá-lo. – Pontuou, e ela arqueou a sobrancelha.
– Por quê?
– Ele é jovem, mas ainda mais velho do que eu... E é um mercenário... Moças gostam de jovens maus. – Ela riu, e ele sorriu por isso. – Não é verdade?
– Acho que você ganha de qualquer um em maldade, Sasuke-kun. – Ele franziu o cenho. – Especialmente com as pessoas que você gosta. Costuma ser muito mau com elas. – O moreno suspirou longamente.
– Se mesmo a minha querida esposa diz isso, não há muito com que discordar... – Ele deitou-se de costas e encarou o teto; depois a olhou de soslaio, e num movimento rápido, puxou-a para cima de si. – Eu sou mau com você? – Questionou-a com um sorriso tão perverso, que a fez enrubescer.
– C- Consideravelmente... – Ele balançou a cabeça em reprovação; girou na cama, de modo que ficasse sobre ela.
– Se eu sou mau com as pessoas que gosto... – Ele deslizou o indicador pelo colo dela, que estremeceu. – E sou apenas “consideravelmente” mau com você... Acho que tenho que melhorar isso... – Mordeu seu queixo, e sentiu-a encolher. – Acho que tenho que ser mais malvado com você, minha querida esposa... – Sussurrou contra a pele dela.
– Eu devo considerar isso como um “eu gosto de você”? – Ela perguntou num sussurro.
Sasuke sorriu; se afastou milímetros e a encarou. Apenas encarou, mas por tempo suficiente para fazer seu rosto queimar. – Quero saber se sou o seu “cara mau”. Todas as garotas que conheço tem um “cara mau”... Itachi fica mau, quando está com Kasumi. Naruto é quase cruel com Hinata, meu pai... – E se calou por um momento.
Sakura não pareceu entender, já que o assunto a descontraía, então ele se apressou em continuar. – Meu pai é terrível com minha mãe. – Ela arqueou a sobrancelha rósea, com um sorriso formando-se nos lábios.
– Não acho que sejam muitas garotas, Sasuke-kun.
– Conheço mais solteiras. – Ele deu os ombros, e um meio sorriso divertido estampou seu rosto. – Geralmente eu sou o cara mau delas. – Sakura suspirou longamente.
– Vê só como é cruel comigo? Falar de garotas solteiras, enquanto está na cama com sua esposa... – Ela balançou a cabeça em reprovação, e ele ficou em silêncio.
–... Eu sou mais cruel com você do que com qualquer outra pessoa... – Confessou com um pouco de hesitação. – Entende o que isso significa?
Sakura sentiu o coração explodir, e o rosto queimar, mas não conseguiu sorrir.
Cautelosamente, as mãos delicadas pousaram no rosto dele; os olhos verdes fixos nos de ônix. Ela tentou sorrir, mas parecia mais envergonhada do que qualquer coisa. – Talvez... – Começou hesitante. – Talvez signifique que gosta mais de mim do que de qualquer um...? – Sasuke aproximou-se ainda mais e roçou os narizes, sem quebrar o contato visual. Pressionou os lábios dela com tanto carinho que Sak não conseguiu manter os olhos abertos.
Como devia julgar aquilo?
Ele estava dizendo que a amava? Ou apenas gostava dela, mais do que de qualquer um?
De qualquer forma, as duas coisas pareciam bastante felizes de se imaginar.
Seus pensamentos embaçaram no instante em que as mãos dele percorreram seu corpo; com a boca, ele abriu-lhe os lábios, e beijou-a delicadamente. Sentiu-a agarrar seus cabelos, e contribuiu quando o puxou para si.
Com uma das mãos, ergueu a perna esquerda dela pelo joelho, e pôs-se entre suas pernas; sentiu-a encolher-se sob ele, e aproveitou-se da oportunidade para afastar os lábios milímetros, apenas para descer os beijos, quentes, demorados e molhados por seu pescoço.
Ela arquejou, e se remexeu na cama; Sasuke pressionou uma das mãos em seu seio, e desceu os lábios do pescoço ao colo, do colo aos seios, e dos seios, até a barriga, protegida pela fina camisola.
Mas então alguém bateu a porta.
Sasuke estava começando a se irritar com aquelas interrupções – que aconteciam muito, desde que Naruto se fora –, especialmente pelo fato de ela puxar seus cabelos, implorando sem voz para que ele ignorasse.
Mas o dever o chamava, e Sasuke, muito relutante, levantou-se. – Entre. – Comandou antes de se levantar, e logo um guarda qualquer surgiu.
– Perdoe-me, senhor Uchiha, mas o conselheiro Nara e a rainha querem vê-los. – Sasuke arqueou a sobrancelha negra.
– Tão cedo? – O rapaz anuiu. – Sobre o quê?
– Acredito que seja sobre a princesa.
.
Hinata não conseguiu comer nada àquela manhã.
Ela acordou no horário de sempre, vestiu-se, escovou os cabelos, prendeu-os num penteado sofisticado e simplesmente seguiu para o quarto da princesa. Estava tão ansiosa por conhecê-la! Ou talvez só estivesse ansiosa para ocupar sua mente com algo, qualquer coisa, depois de mais uma noite cheia de sonhos com o marido.
De qualquer forma, naquele instante, ela estava sentada em uma poltrona ao lado do leito de Karin Uzumaki, com Shikamaru ao seu lado e Neji e Tenten postos num canto do lugar, tão silenciosos que quase era impossível notar suas presenças. – Majestade, eu insisto que vá comer algo. – Shikamaru tornou a se repetir. Estava dizendo a mesma coisa desde que descobrira que ela ignorara o desjejum servido pelas criadas.
– Eu estou bem. – Ela garantiu. – Vou esperar até que a princesa acorde.
– Ela pode demorar majestade... – Ele se calou quando um guarda abriu a porta.
Todos esperavam que Sasuke fosse anunciado, mas ao invés dele, o nome “Suigetsu” foi pronunciado pelo guarda. “Suigetsu da Akatsuki”, que estava ali para visitar sua protegida.
Shikamaru e Hinata se entreolharam, parecendo confusos, mas permitiram a entrada do rapaz.
Tratava-se de um dos feridos pelo incidente da tarde passada; estava mancando, e tinha o rosto cheio de curativos. Ele entrou resmungando, algo como “porque eu tenho que dar um histórico só pra visitar aquela maluca”, quando viu os demais presentes no quarto. Assumiu uma postura séria, e curvou a fronte respeitosamente, ainda que não soubesse quem eram aquelas pessoas. – Eu sou Suigetsu Houzuki, guarda costas da senhorita Uzumaki. – Apresentou-se, ainda que o outro guarda já o tivesse feito.
Hinata sorriu antes de se levantar. – Eu sou Hinata. Este é o conselheiro Nara, e aqueles são Neji e Tenten. – Apontou para cada um enquanto os apresentava. – Sinto dizê-lo, senhor Houzuki, mas a princesa ainda não despertou.
– Oh... – Ele coçou a nuca, sem graça. Não sabia o que fazer diante àquelas pessoas, então pigarreou. – Espero que não se importem, se eu ficar aqui. Estou certo de que Karin-.... De que a senhorita Uzumaki ficará satisfeita em reconhecer um rosto amigo. – Só dizer aquela frase fê-lo sentir vontade de rir.
Definitivamente, Karin não ficaria nada satisfeita em reconhecer o seu rosto, pois eles não eram nada amigos. Mas era incrível como ele gostava de irritá-la. – É muita gentileza da sua parte, meu senhor. – Hinata concordou. – Mas creio que os feridos ainda estejam sobsupervisão. – Ele riu.
– De fato, tive que dar uma fugida dos médicos. – Confessou. – Mas... – Ele se calou quando o guarda tornou a entrar no quarto, para finalmente anunciar Sasuke e Sakura Uchiha.
Uma mulher de cabelos róseos, junto do mesmo homem que os havia ajudado no dia anterior adentrou ao quarto; ele usava a farda da guarda real, e curvou-se respeitosamente à rainha. – Majestade. – Demorou um segundo até que Suigetsu notasse que ele falava com Hinata, e o Houzuki pasmou ao perceber.
Desde quando rainhas eram jovens, doces e sorridentes?!
Imediatamente, ele curvou-se. – Perdão, majestade! – Se apressou em pedir, envergonhado pela falta de atenção. – Eu não percebi... – Mas Hinata abanou a mão, como se aquilo não importasse.
– Desejava minha presença? – A rainha anuiu.
– Sei que está aqui como um convidado, Sasuke... Mas devido às circunstâncias, gostaria de pedi-lo para cuidar da segurança da princesa. – Suigetsu estreitou as sobrancelhas, incomodado.
– Perdoe-me, majestade. – O akatsuki interrompeu. – Como acabo de lhe dizer, eu sou o guarda-costas da senhorita Uzumaki.
– Claro. – Hinata concordou. – Mas o senhor acaba de sofrer um acidente, e até que eu ouça do médico que está em perfeitas condições... – O rapaz conteve a vontade de cerrar os olhos. – Eu sinto muito, senhor Houzuki, mas a princesa é alguém importante, não posso me dar ao luxo de ignorar sua segurança.
– Majestade, eu garanto que estou perfeitamente bem. – Ele insistiu. Hina suspirou longamente, e olhou para Sakura.
A senhora Uchiha quis rir, mas mordeu a língua. – Senhor Houzuki, eu sou Sakura. – Ela se aproximou, e eles se cumprimentaram com um aperto de mãos. – Sou médica. – Explicou. – Ontem fui a responsável por sua alteza, mas estou informada sobre a situação dos demais feridos. – Ele anuiu, mas parecia confuso. – Ontem, disseram-me que o senhor tem duas costelas quebradas, e seu braço esquerdo tem um osso trincado. – Agora ele podia entender o fato de seu braço estar enfaixado.
Karin abriu os olhos naquele momento, incomodada pelas vozes que soavam em seu quarto e faziam sua cabeça zunir. Ela fez uma careta, e se remexeu na cama; estava zonza, e inexplicavelmente cansada.
Tentou abrir os olhos, mas não pôde enxergar nada além de borrões que chegavam a ser frustrantes; ela se remexeu mais, e enfim conseguiu se sentar. Hinata foi a primeira a perceber que estava desperta, e aproximou-se da princesa, ignorando completamente a discussão que se formava entre o casal Uchiha e o teimoso guarda-costas de Karin Uzumaki. – Alteza! – Hinata exclamou, verdadeiramente preocupada; sentou-se ao lado dela. – Você está bem?
Karin tentou enxergá-la, mas tudo o que pôde enxergar foi um borrão, meio branco, meio azul, e estreitou os olhos por isso. – Eu... – A voz dela fez com que Suigetsu se calasse; ele olhou para a protegida de soslaio, sorriu ao vê-la desperta e se aproximou sem cerimônias. – Eu não enxergo...
O rapaz tirou do bolso da calça um par de óculos que tinha uma das lentes rachadas, e entregou à rainha, que estava entre ele e a ruiva.
Sua majestade, muito cuidadosa, ajudou-a a colocá-los, e a Uzumaki chegou a respirar de alívio por tornar a enxergar – ainda que uma das lentes estivesse ruim. – Eu não sabia que usava óculos. – A rainha observou. Se soubesse, certamente teria consertado aquela lente durante a noite.
– Onde estamos...? – Karin parecia confusa. Hinata sorriu, de uma maneira tão sincera e aliviada que a princesa corou.
– Eu sou Hinata Uzumaki. – A rainha curvou a fronte, mas não fez menção de se levantar, e por isso, só por isso, Karin percebeu tratar-se da rainha.
– Eu sou Karin Uzumaki. – Ela tentou fazer uma mesura decente, mesmo sentada à cama. – É uma grande honra conhecê-la, majestade.
– A honra é toda minha... Como se sente esta manhã?
– Oh... Eu estou bem... – Só então ela pareceu reparar no rosto do guarda costas; praticamente atirou-se para mais perto dele. – Suigetsu! – Exclamou, num misto de surpresa e preocupação. – Você está todo machucado!
Suigetsu sentiu o rosto queimar, constrangido pela preocupação inesperada. Ele coçou a nuca, sem jeito, mas deu os ombros. – É o que acontece quando alguém tenta proteger uma gorda como você. – Murmurou, esquecendo-se completamente das presenças importantes em que se encontrava, e quando se relembrou, praticamente deu um salto para trás.
A rainha riu daquilo. – Vocês parecem muito amigos. – Ela concluiu, e levantou-se. – Mesmo assim, ainda acho que deve cumprir as ordens médicas, senhor Houzuki. Descansar é o melhor jeito de voltar à ativa. Enquanto isso não acontece... – Ela olhou para Sasuke sugestivamente, e o Uchiha aproximou-se. – Princesa, este é Sasuke Uchiha. – A ruiva enrubesceu só de olhá-lo.
Um homem alto, forte, de rosto sério, sedutor... Simplesmente perfeito! Por que não tinham homens como esse em sua vila?! Ela sentiu o coração palpitar quando ele fez uma mesura educada. – Ele será o substituto temporário do senhor Houzuki. – Para Karin, ele podia ser o substituto eterno do maldito Suigetsu.
Foi o que ela pensou, mas não conseguiu verbalizar nada. Apenas sorriu, como uma criança boba – e babona, na opinião da incomodada esposa que assistia afastada.
– Farei o meu melhor para proteger vossa alteza. – Aquela voz... Onde ela já tinha ouvido?
– Nós já nos conhecemos antes, senhor Uchiha?
– Sasuke ajudou no resgate, ontem. – Hinata explicou, e o Uchiha anuiu. Suigetsu sentiu uma imensa vontade de estragar aquele sorrisinho que surgiu no rosto da protegida, então deu um passo a frente, e pôs-se a frente da rainha.
– De fato, majestade, eu devo insistir. O próprio Nagato pôs a filha aos meus cuidados. Eu não posso simplesmente...
Sasuke suspirou longamente, cortando a frase do Houzuki. – É algo temporário, rapaz. – Ele esclareceu. – Na realidade, sou o guarda particular do rei. – Explicou. Suigetsu abriu a boca para tornar a retrucar, mas Sasuke não lhe permitiu. – Talvez fique mais tranquilo se visse minhas habilidades? – Ponderou o moreno, cruzando os braços. – Talvez possa ficar mais calmo. – Hinata abafou uma risada.
– Sim, será uma interessante exibição, Sasuke. – Ela concordou, mas parecia achar graça.
– Eu adoraria assistir! – Karin falou de repente, surpreendendo a todos. Ela enrubesceu diante dos olhares; baixou a cabeça e ajeitou as mechas ruivas. – Digo... – Pigarreou, sem graça. – Seria divertido...
Sakura estreitou as sobrancelhas, e Sasuke teve que se segurar para não rir da reação da esposa. – Divertido...? – Hinata parecia confusa, mas por fim deu os ombros e sorriu. – Se Sakura permitir, podemos ir depois do desjejum.
~
Naruto havia acordado tão disposto àquela manhã como em todas as outras, desde que chegara àquele bendito lugar.
Tomou café com a mesma cara feliz e mentirosa de todos os dias, e fingiu animação quando Mei sugeriu um “programa surpresa que certamente animaria os convidados!”. Ele estava, francamente, exausto da energia daquela mulher.
Mas a rainha Terumi de fato conseguiu surpreendê-lo. O “programa surpresa” estava programado para antes do almoço, e Naruto não conseguiu entender os motivos – na realidade, não conseguiu enxergar nenhum motivo que fosse – para isso, até chegar ao destino da surpresa.
Era um campo muito grande, dentro da área do palácio das Águas, próximo aos estábulos. – Nós vamos jogar polo! – A rainha exclamou com animação; com o servo, pegou uma bola não muito grande e exibiu-a aos convidados.
– Polo? – Naruto olhou para Jiraya, confuso.
– Polo! – Mei tornou a exclamar. – É um jogo divertido, vocês vão ver. – Ela puxou os dois Uzumakis, e guiou-os até os estábulos; andava rápido, e eles tinham um pouco de dificuldade em acompanhá-la. – Joga-se com duas equipes de quatro pessoas. Os competidores montam os cavalos, e usam tacos para acertar a bola dentro de uma baliza...
– Majestade, por acaso já jogou isso antes? – Nagato teve que perguntar, pois as instruções dela pareciam estupidamente superficiais. A mulher riu melodiosamente.
– É claro que não! – Exclamou sorridente, e olhou para os rapazes. – Jamais jogaria algo assim, mas acho que podem se divertir. – Ela parou quando alcançaram seu destino, e apontou para os cavalos. – Vão! Fique a vontade! Escolham. – Eles se entreolharam, receosos, mas aproximaram-se dos garanhões.
– Como as equipes são de quatro pessoas, imagino que a rainha queira escolher um de nós para seu time. – Naruto ponderou, mas surpreendeu-se quando ela negou.
– Acho que devemos fazer um tipo de teste de confiança aqui, senhores. – Ela deu-lhes um sorriso perspicaz. – Durante as últimas semanas, observei que são muito... Tímidos, um com o outro. – “Tímido” não era o adjetivo certo, mas ela imaginou que fosse o mais conveniente. – Então sugiro que os convidados de honra vindos de Konoha formem seu próprio time: Nagato, Naruto, Jiraya e Yahiko. Eu me darei com os meus homens. – Aquele arranjo não era realmente agradável aos ouvidos de nenhum deles, mas acabaram por concordar. Afinal, como haveriam de discordar?
Eles escolheram seus cavalos, e seguiram de volta para o campo. Ninguém parecia conhecer realmente o jogo, e tudo ficou ainda mais confuso quando ele foi iniciado.
A rainha Terumi estava agitada, então os Uzumakis imaginaram que ela devia ter bebido algo antes de seguirem para a competição.
No começo, foi tudo confuso e sem sentido, mas na medida em que os soldados que Mei havia escolhido para jogarem ao seu lado atacavam, os vindos de Konoha percebiam o que devia ser feito.
O jogo deve ter durado cerca de trinta minutos. Yahiko e Naruto eram os mais competitivos, e estavam responsáveis pelo ataque, enquanto Nagato e Jiraya cuidavam da defesa.
E mais uma vez, Nagato pôde perceber. Perceber a incômoda semelhança entre o filho de Kushina e seu falecido pai.
Enquanto Naruto corria feito um louco naquele cavalo de pelos escuros, com um sorriso grande e genuinamente animado, exclamando “parabéns” à Yahiko sempre que o companheiro conseguia furtar a bola do rival; gritando “isso!”, sempre que Jiraya, ou mesmo Nagato conseguiam defender-se dos ataques do time da outra rainha, ele não conseguiu evitar a nostálgica memória do pai.
Nawaki sempre estava sorrindo de maneira receptiva, sempre estava de braços abertos a aliados, ainda que apenas momentâneos... E isso lhe havia custado à vida.
Sua mania estúpida de confiar em todos à sua volta custou-lhe a vida, dele e da esposa... Mas ao menos nisso, Naruto não se pareciam.
Na verdade, a característica desconfiada na personalidade de Naruto parecia-se muito com... Yahiko?
Nagato estreitou as sobrancelhas ao perceber.
Sim... Assim como Yahiko, Naruto era um desconfiado. E estava sempre observando, espreitando... – Porcaria Nagato! – O loiro exclamou, e só então o ruivo pôde notar que uma tacada certeira de Mei havia acertado a baliza que devia estar protegendo.
A rainha gritou, animada com a vitória.
– Nagato, seu bastardo! – Yahiko também praguejou tão furioso quanto o rei da nação do Fogo. O ruivo observou, abismado, quão próximos aqueles dois pareciam.
– Não é hora para apreciar o céu! – Naruto bradou, frustrado, e Yahiko concordou com um aceno; os dois desceram dos cavalos, e seguiram resmungando de volta aos estábulos.
– Ei rapazes, não adianta chorar! – Mei gritou para eles, que a ignoraram.
Birrentos, infantis e estupidamente competitivos. Além disso, ambos pareciam ter muita facilidade em falar com pessoas de quem não gostavam – como acontecia agora, que resmungavam entre si sobre a falta de atenção do Uzumaki mais velho.
Quase pareciam pai e filho!
A ideia fê-lo gargalhar.
Agora podia compreender perfeitamente bem os motivos de sempre ter gostado tanto de Yahiko!
Nawaki, Kushina, Yahiko, Naruto e Karin. Os cinco, exatamente iguais!
Mas a ideia, embora tão divertida, de repente tornou-se um peso...
Por que, afinal de contas, se aquele rapaz era tão parecido com pessoas que Nagato tanto amava, tanto admirava... Como poderia prejudicá-lo?
~
Sakura terminou de ajeitar as amarras do traje do marido, visivelmente incomodada com aquela situação. – Qual é o problema, querida? – É claro que ele sabia qual era o problema, e questioná-la de maneira tão estúpida deixou-a ainda mais irritada.
– Não quero que lute. – Ele arqueou a sobrancelha negra, confuso.
– Por quê? – Ela não respondeu, então ele ergueu seu rosto. – Por quê? – Repetiu a questão, e ela desviou os olhos verdes para um canto qualquer da sala.
– Você quer se exibir para aquela princesa. – Murmurou revoltosa, e Sasuke não conseguiu não rir. – Não ria! – Ela comandou, tão furiosa quanto envergonhada.
– Eu quero é calar a boca daquele rapazinho insolente. – Sasuke garantiu, e cruzou os braços. – Além do mais, a princesa pareceu muito fascinada comigo, mesmo sem comprovar meus talentos. – Ela sabia que o maldito só estava dizendo aquilo para provocá-la, e estreitou os lábios diante disso.
– Talvez eu deva ser o seu oponente, só para mostrar para ela o quanto sua esposa também pode ser fascinante. – Ele sorriu.
– Uma ideia excitante, meu amor. Mas preferiria que fizéssemos esse tipo de coisa entre quatro paredes. – Ela travou. Ele não devia ter percebido, mas era a primeira vez que ele a tratava por “amor”. “Querida”, sempre; “senhora Uchiha”, sempre, mas nunca “meu amor”. – Francamente, queria lutar contra meu irmão... – Ele estreitou as sobrancelhas. – Pelo menos com espadas eu costumo vencer ele.
– Itachi-san não está na Torre. – Sak deu os ombros. – E ainda que estivesse lutar contra o seu irmão não poderia fazer com que comentários maldosos surgissem? – O rapaz não pôde deixar de concordar.
– Eu chamaria Kasumi, mas isso vai gerar piadas. E ela ia acabar matando alguém. – Sakura riu, e como sempre, o riso dela o fez sorrir. – Talvez... – Ele mordeu o lábio inferior, animado. – Talvez eu pudesse chamar um Akatsuki. – Assim como previra, a esposa empalideceu. Ela baixou a fronte.
– Eu... Não acho que seja uma boa ideia... – Sentiu-o envolver sua cintura com os braços, e suspirou. Sasuke beijou-lhe o rosto, carinhoso.
– Você devia confiar mais em seu marido, senhora Uchiha. – Ele aconselhou, tinha uma das sobrancelhas arqueadas, e um meio sorriso nos lábios.
– Confio em você, não confio neles.
– Vamos, Sakura. Ele não vai tentar me matar na frente da rainha. E ainda que tente, não vai conseguir.
– Você não...
– Além disso, Shikamaru vai estar presente. Ele e Kakashi. Vão poder analisar a luta. – Ela estreitou as sobrancelhas de maneira preocupada. – Assim podemos ter uma noção de suas habilidades... Para eventualidades futuras.
– Ainda me incomoda o fato de estar se exibindo para a princesa.
– Mas eu não...
– Mesmo que diga que não está, é claro que ela vê o contrário! – Os olhos verdes encararam-no, irritadiços. – Por que não me apresentou como sua esposa? – A revolta na voz dela o surpreendeu.
– Eu nem pensei nisso... – Confessou.
– Mas percebeu o interesse dela. – Ele estreitou os lábios, porque não podia negar aquilo. – Devia ter me apresentado.
– Sakura, eu tenho uma cota considerável de admiradoras, e nem por isso me envolvo com elas.
– Mas nenhuma é princesa. – Ela soou tão rancorosa que ele não pôde responder.
Sakura ficou um minuto inteiro em silêncio, e recuou um passo. – Seu pai...
– Ah, pelo amor de Deus! – Ele a interrompeu antes que pudesse terminar. – O que meu pai pode fazer, agora que estamos casados?! – Sak franziu os lábios.
De fato, aquilo era algo estúpido a se pensar... Mas ainda assim, a sensação de que aquela desconhecida certamente agradaria mais ao sogro do que ela própria era incômoda. Terrível, na verdade... Terrível, porque ela não queria se sentir indesejada.
Não queria se sentir “a pessoa errada”, para Sasuke.
Os olhos queimaram, e ela cerrou-os para evitar que lágrimas escapassem. – Eu não quero... Não quero que ele tente nos separar... – Ela fungou; sentia o peito latejar de dor, só por pensar na possibilidade.
Sasuke suspirou longamente, e tocou a testa na da amada; alisou seu rosto, gentilmente, e beijou-lhe os lábios róseos. – Mesmo que uma princesa... Mesmo que uma rainha estivesse interessada em mim... – Ele colocou uma mecha do cabelo dela atrás de sua orelha. – Eu não permitiria que ele nos separasse. – Ela anuiu lentamente, mas ainda chorava. – Sakura... – Ele suspirou. – Por favor, não faça com que eu odeie meu pai. – Mas ela não conseguiu parar.
Sasuke respirou fundo; abraçou-a e afundou o rosto nos cabelos róseos. – Você sabe o que eu vou fazer? – Ele murmurou baixinho. Ela negou com a cabeça. – Vou comprar uma casa... Uma casa aconchegante, perfeita para dois recém-casados... – Ela pôde vislumbrar uma pequena residência. – Vou contratar poucos criados, porque sei que não vai gostar de muita gente te servindo... – Sak sentiu-o sorrir, e aquilo a fez sorrir. – E vou passar todas as noites que puder ao seu lado. – Ela deslizou as mãos pelo peito dele, e apertou suas vestes.
–... Eu te amo... – Murmurou baixo, envergonhada. Sasuke sorriu; baixou o rosto, roçou os lábios nos dela e beijou-os com suavidade.
– Eu sei. – Murmurou contra sua boca, com um sorriso maldoso, que fez o estômago da esposa revirar de ansiedade. – Eu... – Mas ele se calou quando a porta se abriu. Kasumi enrubesceu ao notar a aproximação do casal, e recuou imediatamente.
– K- Kasumi-san! – Sakura exclamou envergonhada, e a cunhada, depois de um pouco hesitar, adentrou ao cômodo.
– Perdoem-me. – Ela pigarreou. – Foi um pouco imprudente entrar sem bater...
– Muito imprudente. – Sasuke corrigiu-a, ríspido, e ela enrubesceu.
– Mas a rainha está chamando Sakura. Ela quer que você dê uma olhada na princesa, antes de seguirem para a sala de treinos. – A rosada concordou estática; fez uma mesura aos Uchihas e se retirou do quarto com uma velocidade surpreendente.
– Você podia ter esperado mais cinco segundos?! Só cinco, pra eu me declarar para minha esposa?! – Ele estava francamente frustrado, e Kasumi lamentou-se pela péssima educação, na péssima hora.
– Eu estava procurando vocês há um tempo, então nem pensei em bater! – Ela exclamou em sua própria defesa, mas então arregalou os olhos. – Espere! – Pediu, esticando os braços figurativamente. – “Declarar”? – Sasuke bufou, cruzou os braços e encarou a parede, com o rosto um tanto avermelhado. – Sasuke! Você e ela...
– E o que tem de estranho, eu amar minha esposa?! – Ele parecia bastante ofendido com a surpresa da cunhada, mas o sorriso que se formou no rosto dela foi tão grande, luminoso e constrangedor que de ofendido, ele foi para envergonhado. – P- Porque me olha assim?! – Gaguejou sem jeito, e enrubesceu quando ela o abraçou.
– Mal posso acreditar! Deus! É um alívio saber disso, Sasuke. Você não faz ideia! – Ela estava genuinamente contente, e isso o fez se sentir estranho.
– É revoltante ter que falar meus sentimentos a você, antes de dizer a ela. – Ele murmurou revoltoso, mas Kasumi sabia que estava mais constrangido do que irritado.
– Não, não é verdade! Você devia ter contado antes, na verdade... – Ela respirou fundo. – Eu e sua mãe ficamos muito preocupadas. Mikoto jurava que você amaria eternamente aquela sua paixonite de seus quatorze anos...
– Itachi não te contou? – Kasumi olhou-o confusa. – Sakura era a garota que me salvou. – Ele explicou, um pouco surpreso por ela não saber disso.
Kasumi empalideceu, e a expressão dela o fez gargalhar. – Eu tenho que enviar uma carta à Mikoto. – A esposa de Itachi concluiu imediatamente, e levantou-se num pulo. – Eu tenho que dizer isso à Mikoto... Tenho que dizer! – Ela resmungava para si mesma enquanto caminhava quarto a fora, e Sasuke não pôde fazer nada além de rir.
.
Em duas horas, um grupo considerável de pessoas estava reunido na sala em que Naruto e Sasuke costumavam treinar diariamente. O lugar era grande, mas Sasuke passou um bom tempo temendo que o pouco espaço proporcionado para a luta pudesse ocasionar algum perigo para qualquer um dos convidados.
A rainha estava acomodada entre Konan e a princesa, que o olhava com uma fixação que beirava o encantamento, e obviamente incomodava – e muito! – a senhora Uchiha, que estava sentada no mesmo canto que sempre costumava ficar.
Kasumi, Shikamaru e Suigetsu estavam próximos à porta. A primeira ainda refletia sobre os sentimentos do irmão postiço, e o último amargava o fato de que, ferido, não poderia lutar.
Neji e Kakashi estavam em guarda, próximos à rainha, mas bastou que o tal Tobi entrasse pela porta para todos observarem-no.
Ele seguiu até Sasuke, que lhe entregou uma espada de madeira. – Ordens expressas da rainha. – Ele murmurou ao enxergar confusão nos olhos negros do oponente. – Ela quer evitar mais entradas na enfermaria. – Obito anuiu lentamente.
Eles se afastaram, cinco passos de distância um do outro; fizeram mesuras educadas, postaram-se em posição de ataque e enfim começaram. Sasuke surpreendeu-se ao notar que ele possuía o mesmo estilo ofensivo dos militares de Konoha, e ainda mais ao perceber que as esquivas dele – muito boas, por sinal – eram exatamente iguais às esquivas que Kasumi usava quando costumavam a esgrimar.
O barulho das espadas se cruzando era constante, e começava ser irritante.
Kasumi não pôde deixar de sentir-se nostálgica, por vê-lo com aquela postura... Ela sabia que não estava lutando a sério, sabia que fazia com Sasuke o mesmo que costumava fazer com ela, quando menina: fingia.
No começo, fingia que tinham habilidades semelhantes. Eles passariam uns bons cinco minutos cruzando espadas; Sasuke daria o melhor de si, assim como Obito, aparentemente. E então, a defesa perfeita do mais velho convenientemente se quebraria, em um golpe simples.
Sasuke ficaria surpreso, mas um sorriso satisfeito brotaria em seu rosto, e então, Obito atacaria com ainda mais força, mas abriria uma brecha perfeita; o jovem se esquivaria, e de um jeito incrível, renderia o mercenário.
Kasumi viu tudo isso acontecer, e foi como se conseguisse enxergar a si própria no lugar de Sasuke. Perguntou-se se Obito também conseguiria vê-la nele.
Quando a luta acabou, todos aplaudiram, exceto ela.
Sakura conteve o impulso de saltar do seu lugar para os braços do marido, abraçando-o e parabenizando-o; ela havia estado tensa e temerosa a cada ataque desferido pelo akatsuki, então o alívio da vitória do amado foi instantâneo.
Mas Kasumi não viu nada daquilo. Não viu o alívio no rosto de Sakura, nem o orgulho na expressão de Hinata; não enxergou o olhar abismado de Kakashi, nem a fascinação de Karin, nem a expressão surpresa de Suigetsu. E, claro, não pôde ver os olhos analíticos do marido, que estava encostado à porta aberta, ao lado dela.
Kasumi só pôde perceber o Uchiha quando Sasuke, depois de levantar o oponente e cumprimentá-lo, lançou um olhar significativo à Itachi.
Sem dúvidas, ele havia percebido que o mercenário lhe entregara a luta. – Parabéns, meu rapaz. – Tobi apertou a mão do mais jovem firmemente. – Parece que me pegou. – Sasuke anuiu lentamente, mas estava claro que não engolia aquela história.
Aquele homem estava se fazendo de tolo. Estava se fazendo de fraco, e só podia ter um motivo por trás disso: ele não queria que os outros mensurassem seu poder.
– Foi incrível, senhor Uchiha! – A princesa ruiva levantou-se num pulo, pois queria ser a primeira a cumprimentá-lo por sua vitória.
Sakura não gostou daquilo. – Espero que agora seu guarda-costas não tenha problemas em confiá-la a mim. – A Uzumaki riu.
– Não, imagino que não. Suigetsu sabe manejar armas grandes, mas o senhor tem um belo talento com armas pequenas; seus reflexos são invejáveis, sem dúvida! – Mesmo Kasumi incomodou-se com tanta intimidade.
Aquela garota não sabia que ele era um homem casado?
Quase inconsciente, a Uchiha levantou-se; ela seguiu até a cunhada, que estava irritada, observando a cena de um canto da sala. Puxou Sakura pelo antebraço, de um jeito nada gentil, e praticamente arrastou-a até Sasuke.
Ela pigarreou, e o Uchiha mais jovem – que até então refletia sobre a luta – virou-se de súbito, surpreendendo-se com a expressão magoada da esposa.
– Oh, é verdade. – Ele tornou a olhar para Karin. – Essas são Sakura e Kasumi Uchiha. – Ele apresentou-as à princesa, que baixou a fronte em cumprimento.
– Eu imaginei que tivesse um irmão, o senhor Itachi Uchiha. Ele é muito conhecido, mesmo em bandas distantes. – Sasuke concordou.
– Kasumi é a esposa dele. – Ela não sabia qual das duas devia ser a tal Kasumi, mas imaginou ser a mulher de cabelos róseos.
– A senhorita Sakura é sua irmã? – Sak se controlou muito para não cerrar os olhos, mas Sasuke riu.
– Não. Sakura é a minha esposa, e Kasumi é minha cunhada. – A decepção nos olhos da ruiva foi bastante óbvia, e Sakura, mais uma vez, segurou-se para não reagir.
Sasuke puxou-a pela cintura, e exibiu-a a princesa. – Sakura Uchiha, Karin Uzumaki. – Apresentou-as, sorrindo de um jeito estranho, quase provocativo, à esposa.
Sakura tratou de colocar o sorriso mais falso e mecânico que podia existir no rosto, e fez mesura. – É um prazer conhecê-la, sua alteza.
– O prazer é todo meu... – Foi o que Karin disse, mas não o que sentia realmente.
Por que os homens bonitos sempre tinham que estar comprometidos?!
~
Pela primeira vez desde que chegara ao país das Águas, Naruto saiu do quarto animado para o jantar. Ele usava uma roupa leve, presente da rainha Mei, e estava ansioso. Imaginava que finalmente algo daria assunto àquela mesa!
O jogo de polo certamente não havia sido feito de acordo com as regras comuns, mas fora divertido, e era isso o que realmente contava. Ele surpreendeu-se ao dar de cara com Shino. – Majestade. – O guarda curvou a fronte respeitosamente.
– Algum problema? – O rapaz negou, e esticou-lhe uma caixa de chumbo pequena. – O que é isso?
– O conselheiro Jiraya saiu enquanto vossa majestade descansava, esta tarde. Ele comprou presentes, este é o da rainha. – Só a menção à Hinata fez o outro sentir-se mal, e mais uma vez, o sentimento de vazio tornou a assolá-lo.
– Oh... – Ele puxou a caixa preta, abriu-a e observou a joia grande, cintilante, que nada combinava com a personalidade da esposa. – Foi muito gentil da parte do meu avô, mas acho que eu mesmo vou comprar o presente de minha esposa. – Ele devolveu ao rapaz. – Separe este para a senhora Uchiha, Kasumi... – Ele estreitou a sobrancelha. – Ou qualquer mulher que tenha o dedo menor do que esse anel. Melhor! Deixe-o para a princesa, a filha de Nagato. Tenho certeza que meu avô esqueceu-se da moça. – Shino sorriu, e anuiu.
– Mas, comprar você mesmo, majestade? – Naruto assentiu. – Se demorar muito, é provável que não chegue à Konoha à tempo. – O loiro estreitou as sobrancelhas, confuso.
– A tempo de quê?
– Do aniversário da rainha, é claro. – Por um segundo, ele ficou em silêncio.
–... Eu não vou mandar o presente de Hinata por um mensageiro. Quero estar lá no aniversário dela. – Foi a vez de Shino parecer confuso. – Por que essa cara?
– Bem... – Ele estreitou as sobrancelhas. – Com todo o respeito, senhor, eu devo avisá-lo que sua viagem está programada para daqui a duas semanas. O aniversário da rainha é após o natal, nunca chegaremos a tempo. – Naruto estreitou as sobrancelhas, surpreso com aquele fato.
Jiraya não tinha pensado nisso, quando formulou aquela maldita viagem?!
– Eu vou chegar. – Ele garantiu, os olhos azuis decididos. – Antes disso.
.
Todos estavam sentados à mesa, e serviam-se, alegres, comentando sobre o divertido e animado jogo de polo – que de polo, não tinha nada – que havia sido competido àquela tarde.
Naruto havia se atrasado, mas aquela não era uma novidade. No fim, ele sempre dormia mais do que devia à tarde.
Quando ele sentou-se à mesa, sorria como todos ali, comentava com todos e concordava com todos. – Oh, eu acabo de ter uma ideia genial! – Terumi exclamou de repente, animada pela bebida. – Mas só vou poder conseguir os instrumentos na próxima semana... – Ela então riu. – Tenho certeza de que vão gostar muito.
– Estou certo de que gostaríamos, majestade. – Naruto concordou. – Mas não podemos ficar até a próxima semana. – Todos olharam para ele, surpresos.
– Ora, mas pensei que teria a honra de suas companhias por mais algumas semanas... – A mulher suspirou longamente, tristonha. – Até fiz o cronograma dos próximos dias... – Naruto percebeu que aquela mulher gostava muito de decidir o que os outros deviam fazer, e quis rir daquilo.
– Eu lamento por ter causado tanto trabalho, majestade... De fato, lamento. Mas pretendo partir amanhã, ao fim da tarde. – Jiraya estreitou as sobrancelhas, e encarou o neto como se esperasse uma explicação, que obviamente não seria dada durante o jantar.
Naruto puxou as mãos da rainha, com carinho sincero. – Realmente, foi uma ótima estadia, majestade... – Ela riu. De fato, ele parecia mais feliz agora, mas havia percebido seu desanimo durante a maior parte dos dias que haviam passado juntos. – Eu espero que aceite acompanhar-me até a cidade, amanhã. Pretendo comprar algo para minha esposa.
Mei estranhou. Os olhos dele pareciam iluminados, apenas pela menção à antiga senhorita Hyuuga. Ela realmente se surpreendeu por isso.
Havia estado no casamento daqueles dois, afinal! E eles nem de longe aparentavam ser um casal apaixonado.
Ainda assim, o fato de ele estar apaixonado... Explicava muita coisa. Seu desânimo durante as excursões, e às exibições culturais, sua insistência em dormir todas as tardes, sua falta de decoro ao sempre sair da mesa mais cedo que os outros, depois da refeição... Ela sorriu.
No fim das contas, um casamento político podia tornar-se feliz.
– Eu adoraria ajudá-lo com o presente de sua esposa.
Fale com o autor